----- Original Message -----
From: Luiz Gonzaga Alvarenga
To: Noga Lubicz Sklar
Sent: Tuesday, January 29, 2008 11:36 AM
Subject: Hierosgamos
N.:
Li no blog os comentários sobre o seu livro.
Qualquer texto que não seja linear e homogêneo e que venha eriçado de citações e referências não será jamais compreendido por leitores pouco ou nada acostumados à leitura. Referências e citações refletem a vivência cultural do escritor, que necessariamente não corresponde à vivência cultural do leitor (Joyce, como sabe, tem referências tão ricas que até hoje leitores e intérpretes lutam para descobrir quais são elas).
Quando Alan fala do Zatoichi (filme premiado em Veneza e Toronto, mas que não alcançou o circuito comercial, no Brasil), quando você menciona festividades ou costumes próprios de seu povo, ou faz jogo de palavras, jogos literários, menciona
en passant Bauhaus (Staatliches Bauhaus, mas há também a banda formada em Northampton, Inglaterra, em 1978), Chagall (La Mariée, ou La Mariee, ou Mariee, pintura fauvista de Marc Chagall), música hassídica (hasid, pio), doppelgänger (duplo, a parte etérica que adquire consciência limitada), numerologia: chai (18, número de sorte, e tem também:
am yisrael chai!), prosa haiku (haicai, versos japoneses de extrema beleza), as pedras gigantes (malake) do Templo, tefilim (talismã feito de tiras de pergaminho), crises religiosas, [AWE corresponde a Óóó, é o mesmo deslumbramento], a simbologia do casamento sagrado (e ramificações no tantrismo), corpos celestes ecoantes [não seria a teoria dos "fótons gêmeos"?], teoria das cordas (teoria do Tudo), worm-hole (e as possíveis viagens além da velocidade da luz)... etc.
Bem, os leitores poderiam acompanhar o texto com a ajuda do Google. Não é o que fazemos, para entender Joyce? Se não o fazem, azar deles.
É possível que muitos leitores sintam-se desorientados com a sua escrita fractal, mandelbrotiana (a figura fractal tem todas as suas partes auto-similares, que reproduzem o todo). Os mais puritanos podem ficar chocados com o contínuo erotismo, a super-exposição e desnudamento dos pensamentos íntimos (talvez a reação irada de alguns leitores deva-se a um conservadorismo camuflado).
É também possível que muitos leitores não tenham entendido sua utilização do flashforward (recurso que pode ser usado como forma de perpetuar um momento antecipado longamente ansiado), as contínuas antecipações da emoção do encontro final com Alan. Ou perceberam apenas as conotações sexuais (TOCOU O SINO - vide os "sims" de Molly), sem captarem a beleza plástica do desfecho final, no Alto Leblon.
Ignore as críticas infelizes, e mantenha seu rumo.
Ab./LGA
Luiz Gonzaga de Alvarenga é ex-professor de sociologia, filosofia, e metodologia científica da UNIFAN. É membro da Academia Goianense de Letras. Tem 7 livros publicados e é pesquisador e fã incondicional de James Joyce. Para ler ensaio de sua autoria sobre o Ulisses clique
aqui.
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