Happy Birthday, James Joyce
O aniversário é de Joyce. O dia, de Iemanjá. O presente, pouco modesto, vai pra vocês, e é de coração: um trecho de O Gozo de Ulysses:
35. A bênção, padrinho
:BURGESS:COLETOR DE INJUSTIÇAS:SEREIAS:
Com seu canto e encanto, canta e encanta a sereia ao longe. Ou seria melhor: canta com encanto a sereia e, ao longe, seu canto encanta. Eu é que não sou besta de parar pra escutar. Ops. De não parar. De não escutar: o canto (des)encantado de Bloom, em forma canônica de fuga – “As Sereias”, décimo primeiro episódio de Ulisses.
“Começo a escrever este livro em 13 de janeiro, aniversário de morte de Joyce em 1941” – nos conta Anthony Burgess em Homem Comum Enfim [Here Comes Everybody], seu livro sobre o escritor irlandês, publicado no Brasil em 1994 pela Companhia das Letras e já fora de catálogo – “e espero terminá-lo no Bloomsday, em 16 de junho”. Não chego a tanto. Comecei a escrever este livro sobre o Ulisses de James Joyce – mais um entre tantos que já existem, é isso mesmo – no início do ano, e a sereia me pegou de jeito: de tão fascinada me afundo cada vez mais no assunto e não vejo a saída, nem faço questão de ver; não quero me limitar com datas. E nem fugir do que não dá pra negar, desde o primeiro instante da leitura, sei lá por que mania de magia (ou de numerologia).
Procurei, sem sucesso, alguma coincidência que conectasse a imponente vida inteira de Joyce a este breve momento meu: o centenário do Bloomsday já havia passado e os cem anos de Joyce, também. Mesmo a marca judaica sagrada dos 120 anos ficou para trás, enquanto o sesquicentenário ou o centenário da morte ainda estão bem longe, não dá pra esperar. Mas o que eu não sabia, e fico sabendo por Burgess, é que “a solenização de datas era natural em Joyce e contagia seus admiradores”, ah, bom (incluídos seus editores, que escolheram o aniversário dele para publicar Ulisses e Finnegans Wake). Finalmente, encontro alguma coisa: o encontro amoroso entre Alan e eu – retratado em meu romance Hierosgamos – acontece em 2004, justamente no centenário do primeiro e ardoroso contato sexual de James Joyce e Nora Barnacle, em Dublin, no Bloomsday original – 16 de junho de 1904 –, data que Joyce eternizou em Ulisses.
Dia 2 de fevereiro de 2008: dia de festa no mar, eu quero ser a primeira a saudar Iemanjá. E ao celebrar a obra oceânica de Joyce, vamos combinar: cai bem melhor esse encanto marítimo de deusa do que a esquisitíssima tradição nortista, isto é, de certos países no hemisfério norte – uma marmota preguiçosa saindo do buraco em busca da própria sombra (de acordo com Burgess: um consolo bem joyciano para os rigores do inverno).
Dia 2 de fevereiro de 1882: nesse dia, há exatos 126 anos, encarnava na terra – mais precisamente: no subúrbio dublinense de Rathgar, três quilômetros ao sul do centro da cidade, província de Leinster, Irlanda – o futuro escritor James Augustine Aloysius Joyce, pai, mãe e espírito santo da literatura moderna. Agora. O que eu já não sei bem é se, como inspiração literária, Joyce é pai ou é padrasto, taí uma grande verdade: se comparar, quem há de? Difícil mesmo é ficar indiferente ao nosso universal James Joyce, possante Poseidon, possuído de literatura.
Joyce foi pioneiro em tudo, rompeu com todas as regras. E, como uma matrix de estilo, se encontra de tal maneira ancorado no inconsciente cultural coletivo, que, mesmo sendo raramente lido, espalha seus tentáculos pela literatura contemporânea.
É “uma espécie de poeta-prosista e, por isso, um impostor”, como afirma Burgess. Foge ao senso comum, corrompendo a noção generalizada de que é um erro pretender, num romance, fazer literatura: em sua linguagem direta, e sempre transparente, o manjado romance popular – do tipo que engorda hoje em dia a prateleira de best-sellers – consagra o culto do enredo e do personagem.
Em Joyce, não: escrita é música, a língua feita de ritmo, símbolo e ironia. Sua trama é de tal forma rica que se estende por várias camadas superpostas de texto, surpreendendo até hoje seus leitores e intérpretes com intermináveis significados ocultos. Vejam, por exemplo, o que disse o Joyce de Finnegans Wake a um amigo enquanto escrevia o livro, ao referir-se à produção de um único dia, sim, havia alcançado muito: completara duas frases – de tal forma carregadas de significado e cuja ordem exata das palavras era de tal importância, que haviam consumido um dia inteiro de trabalho.
Leio James Joyce como uma espécie de remédio, amargo-porém-eficaz na formação de qualquer escritor, mas, gente, o que é que estou dizendo? Não é nada disso! Seu Ulisses é, isso sim, uma revelação, um deslumbramento, diversão incomparável e um mundo inteiramente novo desde a primeira página. Pra você que não me acredita: nada melhor para homenageá-lo, neste dia de aniversário, do que tomar hoje mesmo a (tardia) decisão de lê-lo.
Saravá, meu pai.
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