Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Sorvedouro de mitos
Se fosse fazer cálculo em termos pragmáticos, nunca teria feito nada. Marina Silva, senadora, em entrevista à Folha
Eu bem poderia ter passado sem essa, mas foi acessar o Facebook ontem à tarde e acabei fisgada ou, pelo menos, levemente intrigada: estava lá ferozmente discutido o caso escandaloso de Nelsinho Piquet x Renault, sendo o primeiro progressivamente qualificado por meus amigos de web como "canalha", "canalha e burro", "rico, canalha e burro". Pra quem não sabe o que aconteceu — espelho, espelho meu, existe alguém tão alienado quanto eu? — dei uma lida por cima pra descobrir que Nelson Jr. declarou ter aceitado orientações de seu empregador para bater de propósito em determinada volta e determinada curva da corrida de Cingapura, ufa, com o pouco nobre objetivo de favorecer seu companheiro de equipe, o primeiro piloto Fernando Alonso, uau, eis aqui de repente uma expert inesperada em Fórmula 1.
Mas, gente, porque é que tanta gente achou Nelsinho um traidor? Canalha? Detrator? Como aquele personagem favorito de seu xará literário, tornou-se vil pra que a gente não o seja? Embora me sentindo também, hum, um pouco burra, não consegui entender direito os fortes adjetivos (adjetivo do adjetivo é dose) empregados contra o rapaz. Afinal de contas, lembrei-me, não havia o eterno vice-herói das pistas Rubens Barrichello confessado há algum tempo que também fora instado a deixar vencer seu companheiro de equipe? Sem a agravante, vamos combinar, de provocar um acidente que poderia resultar fatal? Mas ah, tudo bem, a tecnologia só vai pra frente, como todo mundo sabe: desde a arena no Coliseu que as regras do jogo só tendem a se acirrar, ops, "evoluir". Pois para meu ainda maior espanto abro o Globo esta manhã para ler que Rubinho se indignou com Nelsinho, cá entre nós: são ambos peões desse jogo sujo onde rola um montão de dinheiro, não me venham com essa de "esporte", ou, "minha humilhação é menos grave do que o crime dele" que pra mim não cola. Não vejo, nunca vi a menor graça em Fórmula 1, um "esporte" milionário que sempre foi estúpido e perigoso e, daqui por diante, a gente sabe, também criminoso. Pobre Nelsinho, pobre e equivocado filhinho de peixe procurando equiparar-se ao papai, melhor esquecer, aí, Segundinho Júnior: com tanta pressão em cima ele bem que merece um pouco de simpatia, não? Nelsinho, coitado, foi apenas vítima da própria ingenuidade, de seu próprio injustificável desejo de trilhar o caminho da glória, quem poderá culpá-lo? Hein? Cuidado aí com a pedrada no vidro. Se dependesse de mim, vamos combinar, este "circo" da Fórmula 1 se atolaria na própria lona, ops, lama. Mas só o citei aqui por ter, neste caso, me sentido burra, ai que me repito, uma sensação que não custa muito pra tomar conta e estragar o meu dia. Fui por isso ao Reinaldo Azevedo pra conferir o que ele tem dito de Marina, minha candidata favorita a personagem de crônica nas eleições de 2010, mas, ah, confesso, nem tive paciência de ler tanto post acumulado. Só concordei com Reinaldo quando ele diz que "Marina é esperta", "Marina está a léguas de ser uma boba, uma pomba lesa", e porque ela seria? Longe de mim querer substituir, como o Reinaldo sugere, o mito de Obama pelo Mito de Marina como "fez o NY Times, agora que Obama se encontra em pleno processo de 'desmitificação'", pobre da política que precisa de mitos, não é mesmo? O que precisamos é de motivação, e isso Obama nos deu de sobra antes de mergulhar de cabeça, arriscando perdê-la, neste poço profundo de sujeira que é o jogo político, ah, melhor deixar pra lá, o que há neste mundo escondido do público que não prime pela sujeira? Pela ética rasteira? Vamos combinar: as montanhas lá fora, o flamboyant do jardim no fim do inverno trocando de folhas, o pessegueiro florindo e, se Deus quiser, dando frutos em breve, meu pujante canteiro de ervas, etc., etc., não vou cansar vocês com este tipo de bobagem pouco realista que não anima ninguém, não é mesmo? Tem corrida neste domingo? Ou comício de Dilma? E não me venham com essa de que é este o principal objetivo de Marina: colocar-se estrategicamente na curva da corrida não para favorecer o debate, mas para impedir a vitória da antiga companheira de partido...
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E se alguém aí vier me cobrar como é que eu, que pouco ligo oficialmente para o ambientalismo, e dou pouca força para o argumento de que o homem é responsável pelo aquecimento, endosso com tanta vontade a prévia candidatura de Marina, a que agita sobre todas as outras a bandeira verde da "sustentabilidade"... bem, hum, ainda não sei, deve ser a aparência de integridade dela, é o que imagino, mas bem, hum, isso é assunto pra outro post, né? Fico devendo.
***
Follow-up rapidinho às 18:05: e o Nelsinho, hein? Agora que o bambambã da Renault comunicou à galera que Nelsinho, bem, hum, "morava com um senhor mais velho" até que a pedido de Nelson pai ele interferiu, transferindo o piloto para Londres, me pergunto: será que a discreta homofobia vai pegar bem para Briatore? Hum. Duvido. Quanto a Nelson pai e as acusações de chantagem, ainda bem que o telhado dele é blindado, não é mesmo?
Não temos a pretensão de construir um partido de pessoas infalíveis, mas sim de pessoas que, quando erram, reconhecem o seu erro, corrigem o rumo e reparam o que fizeram. Fernando Gabeira no discurso de boas-vindas a Marina Silva, ô turminha do bem, sô
Pois é, quem diria: esta história ainda não acabou. Tudo dá certo no final, etc., etc., e o final ainda não chegou, não chega nunca, esta é que é a verdade: enquanto há vida há esperança, há sempre surpresas no caminho de toda alma que assim espera, basta que esteja encarnada, ai meu Deus que esta tal esperança resulta sempre em genuína pobreza de espírito literário, mais um pobre clichê, fazer o quê. Ui.
(Ai que eu me escarneço sempre que posso, vocês me entendem, mas a esperança não perco, nem a frescura — no bom sentido, claro, ou diria melhor: frescor — da ingenuidade política, não, gente, de jeito nenhum: é o que me mantém viva, e escrevendo, ou que graça teria? Hein?) Quem haveria de dizer, por exemplo, que depois de meses, anos, décadas desgostosa com (quase) tudo que é brasileiro, ou melhor, que acontece neste corrupto luleiro, depois de ter tido a mente sequestrada pela ilusão de um mundo melhor Made in USA por obra e gozo de um marido estrangeiro, eu sentiria essa energia toda emergir de mim por força de um processo puramente brasileiro, pois é: nada como um pé atrás do outro, não é mesmo? Vai que no final das contas nem há de ser o sexo explícito, nem o intelecto apaixonado pela grande literatura, nem a trajetória impactante do político estrangeiro que fará de mim uma verdadeira cronista de best-sellers, sabem como é, mas sim a ufanista crônica irônica do meu povo (in)zoneiro, aquele povinho, vocês se lembram da piada infame, que Deus pôs aqui neste nosso paraíso tropicalista pra aliviar a inveja dos que não vivem nele, falou e disse, divino. Vida longa ao povinho brasileiro. E Marina neles. (mas contratem primeiro uma fonoaudióloga, pelo amor de Deus)
Pra quem costuma declarar em público que detesta a política e os políticos, vamos combinar que tenho investido ultimamente um tempo significativo em tal secundário segmento de pensamento: num livro inteirinho (ainda inédito, se Deus quiser não por muito tempo) de crônicas sobre Obama, por exemplo. Por outro lado, gosto de escrever sobre o assunto do ponto de vista humano e construtivo e de como ele afeta a mim e aos que me cercam tendo em vista, principalmente, como teria o objeto do meu afeto — sim: é do ponto de vista do afeto que gosto de encarar este processo, que prima quase sempre pela aridez na mídia e pela ampla e irrestrita corrupção de interesses, vai entender — certo potencial de transformar o [meu] mundo e, em última análise — antes de deixá-lo de lado para sempre como cronista —, preenchido tal promessa, uma promessa palpável quando eu falava de Obama e outra nem tanto neste solene momento, quando inauguro sob vossos próprios olhos atentos, um novo projeto de livro sujeito a cancelamentos sem prévio aviso: Marina Silva.
Nem preciso afirmar que a causa justíssima desta sertaneja, que insiste com garra em manter-se viva (falo da causa e falo dela mesma, claro), tem já previamente estabelecida a minha simpatia, principalmente agora, que abriu publicamente o leque de suas opções políticas deixando de lado o reinado opressivo de um outro Silva, aquele, vocês sabem, que eu não apoio e nem suporto, nunca suportei, nem nos áureos tempos da emocionante festa vermelha da democracia, em outras palavras: Lula fora de lá, o mais cedo possível. Agora. Como navego basicamente na onda intuitiva, tendo apostado na força de Obama bem na origem inexpressiva da obamania, dei a Marina de peito aberto o benefício de, por enquanto, manter-me na dúvida sobre as qualificações dela (sendo as intenções claras o bastante), ao contrário de certas pessoas que bem precocemente, e sem tantos dados quantos se esperaria gravados na planilha, anunciam certeza: Marina é criacionista; Marina é antiprogressista; com Marina, o Brasil chegará finalmente ao século 19; Marina é estratégia furada numa débil tentativa de usá-la para enfraquecer Dilma, ou enaltecer, por arte comparativa, a superioridade desta (mais ou menos isso é o pouco que me lembro da notícia, já que não dei, e não dou força, para elaborados argumentos conspiracionistas); e outras balelas do gênero pessimista. Verdadeiras? Francamente: não sei ainda. Posso ser ingênua. Posso ser simplista ou pior ainda: simplória. Tudo o que sei no momento é que antes de pronunciar-me a respeito, nesta seriíssima e disputadíssima plataforma política que é o Noga Bloga, assisti na internet a uma meia dúzia de contraditórias aparições públicas de Marina: num programa de tevê de pouquíssima sofisticação midiática, pra dizer o mínimo — e que não nomeio nem linko para evitar represálias indevidas —, onde Marina aparece feia, malvestida, doentia e desfocada, com a voz por demais esganiçada para fazer frente a uma postulação presidencial, ui; no Programa do Jô, onde todo mundo a viu e onde aparece linda, charmosa, energética e inteligente, com poucos e perdoáveis erros de colocação idiomática — para usar de suave eufemismo — que eu jamais perdoaria no Presidente Lula, claro, prontinha para o desumano e cruel jogo político; como mais uma Silva metida e indigna das máximas honrarias; como uma refrescante força política com sua importância reconhecida no NY Times com o perfil do último sábado; e em outros tantos sinais de atenção da mídia, que se voltou para Marina por esta ter trocado nos últimos dias um Tê por um Vê, ter por ver, pelo menos no abecedário se percebe que há um grande avanço nisso, não é? Com o perdão de um Ú no meio que eu, francamente, ainda não tive o tempo de analisar. Ou digerir. Vai daí que o texto do post começou a brotar, então parei de pensar. E comecei a redigir: nada tão sério que eu ainda não possa me reeditar, e se o pior ocorrer, simplesmente esquecer, me retirar. E por enquanto é só isso aí: em resposta de quem nada tem a ver com isso a incômodos berros dissidentes que nem sei bem de onde vem. Dá-lhe Marina, nossa musa morena de setembro, uma espécie diferente de Silva. Ufa. Que a história a julgue. Ou em última instância, a preserve.
Num contexto desses não precisa de texto. Só de pretexto. E de um voto de confiança, claro, deu gosto de ver Marina Silva: vencendo ou não, uma candidata de peso, e bem poderia ser a minha.