Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
De um Éden de araque e outros jardins
Pouco depois de desembarcar no Rio em 1937, aos dez anos, Soil Zuchen exclamou para o pai, em idish: “Is a gan eiden”: o Brasil era um jardim do Éden, aonde os vizinhos puxavam conversa com os recém-chegados e as crianças judias andavam na rua sem ser alvo de zombarias. Heliete Vaitsman in Judeus da Leopoldina
Dizem que quanto mais alto o cavalo maior o tombo, seria isso mesmo?, tell me about it: Alan vive me acusando de viver assim meio-demente, perigosamente no fio que o valha, diz que é doença, que preciso tomar umas pílulas pra curar de vez a malévola rotina ora excitante ora deprimente, mas, gente. Se pra mim viver assim é, no final das contas, o que faz de mim eu mesma, esta cronista brilhante, uma bola viajante que oscila delirante entre o topo e o fundo, bipolar de carteirinha, coitadinha.
Pois com essa paixão tardia por Clarice, quero dizer, pela biografia de Clarice, não haveria de ser diferente e eis me aqui, 53% do livro de Benjamin Moser percorridos, pronta para a resenha definitiva e, pasmem: será negativa. É bem verdade que tenho andado meio histérica ultimamente, e isso, claro, não se deve nem um pouco às manchas brancas de tinta espalhadas ao acaso pelo piso da casa, ou à descontrolada quantidade de panos molhados acumulados na pia e outras dores provocadas pelos retoques eternos perpetrados por aquele pintor incompetente, ou às constantes ameaças de Alan de retornar sem mim aos Estados Unidos, ou ao computador quebrado (e agora à estranheza com máquina e software novos, é isso, nunca estou satisfeita), ou aos perrengues do advogado (sim, pasmem, estou novamente envolvida com a justiça para liberar os recursos próprios de mamãe, aprisionados por lei no Banco do Brasil para protegê-la da rapina de seus filhos dedicados), quem viveu já viu (tantos incômodos acumulados), não, gente, nada disso: tenho estado histérica devido ao encosto do espírito de Clarice, claro, que baixou em mim por vias deste livro que estou lendo. O mais curioso é que a mesma coisa que andava me surpreendendo e enaltecendo a alma sensibilizada — isto é, a questão judaica em Clarice — agora está me aborrecendo, e não é pra menos: a tudo que acontece(u) neste país, o meticuloso pesquisador Benjamin Moser acrescenta como pedra de toque as cores nojentas do antissemitismo, não seria exagero isso? Na questão da demissão "dos judeus" pelo Jornal do Brasil na Era Geisel — Clarice Lispector incluída — eu pelo menos confirmei que é. Perguntei, nada menos, (chutzpah, imaginem!), que ao próprio personagem da trama, o veterano jornalista Alberto Dines, que prontamente me respondeu: "não foi racismo, foi política." E por aí vai, assim não dá: terei sido eu tão ingênua e pouco inteligente a ponto de pela vida inteira, antes de ter lido este livro, ter me sentido tão segura e contente neste gan eiden que é o nosso Brasil igualitário de cada dia? A conferir. Agora, antes que eu me esqueça: por que a questão judaica tão premente de repente? Alan diz que são coisas da idade, que quanto mais a gente (que é semita) envelhece mais se preocupa com a herança mosaica, com o antissemitismo e outras tantas benesses segregacionistas atribuídas ao sempre terrível deus da bíblia e à sua mais-que-perfeita criação de bairro (ops, de barro, ui!), deve ser mesmo a proximidade da morte, a inevitabilidade da sorte à qual nenhum de nós escapa, seja qual for a ilusão mafio-religiosa a que nos filiamos como último recurso de uma vida esperançosa, certo, peguei pesado agora. Mas, cá entre nós, se alguém aí me ouvisse eu diria que há outras razões: as ações preocupantemente antipáticas à justa causa do judaísmo praticadas ultimamente pelo Presidente Lula, por exemplo, sai dessa lama, Luis Inácio, desse caudilhismo globalizado sem nenhum futuro nem nenhum bom motivo que o justifique, porque no final das contas, todo mundo sabe, quem provoca com vontade o povinho escolhido acaba sempre, mais cedo ou mais tarde, na cozinha do todopoderoso, queimando as mãozinhas inocentes com aquelas batatinhas crocantes fritando em óleo bem quente. Vai por mim, Presidente. Bom domingo tranquilo pra todos vocês que acreditam que raça, orgulho e pirraça não passam mesmo de um grau insignificante na vasta espiral histórica de nossa gloriosa gênese de humanos.
E por força do hábito de beber de outras fontes, de citar o que é sempre citado e que sobremaneira se agravou com a internet, lá ia eu citando Chico, "um poço até aqui de mágoa", ou outro Beckett bem mais conhecido — vocês sabem, aquele autor animador de "fracasse melhor" que (mundo pequeno) quase se casou com Lucia, a filha demente de Joyce e Nora, se lembram dele? —, "I can't go on, I'll go on", vírgula, que Gerald Thomas esta semana no IG, em sua despedida online dos palcos iluminados desta egóica vida, abastardou, "I won't go on", jogou a toalha, pendurou a chuteira, chutou o pau da barraca e deixou que a lona cadente e malcheirosa da depressão finalmente o sufocasse, que pena, será que o Frontal acabou?
O curioso é que no popularíssimo blog do Gerald — que eu visitava anônima e esporadicamente, confesso, menos por GT e mais por um amigo real que se envolveu por lá, para meu espanto, como se uma comunidade amiga verdadeira fosse — o dramático e quem-sabe-falso passo, ou, contemporizando, temporário adeus do luminoso e controvertido artista — nosso Bob Wilson da Gávea, nossa Pina de Ipanema, sucesso de bilheteria em Copacabana e amante confesso de Beckett, do teatro de Beckett, claro — angariou pouquíssimos comentários (aí por volta de 20 por cento do que era habitual pra ele), conclusão: ninguém quer saber da dor alheia, do fracasso, da desistência alheia, temos demais emoções do gênero em nossas próprias vidinhas conformadas, não é mesmo? Ninguém mais nessa nossa conectada vida puramente individualista (e pretensamente comunitária, compartilhadora, ops, acho que esta palavra nem existe, não consta do dicionário) encara a derrota de frente e oferece de bom grado o ombro lesionado ao pranto alheio, encosta a sua cabecinha e coisas cafonas do tipo, eu, hein? Sai pra lá que tenho andado sem tempo. Mas digressiono. Porque o que me impressionou mesmo, me afetou e emocionou no âmago de mim mesma, ui, e minha própria tristeza, cuidadosamente camuflada em perene ação desabalada, foi ver aquele encanecido vulcão criativo da minha juventude, que eu julgava em plena saúde participativa, expor descuidado sua dor de artista preterido, subvalorizado, meio perdido entre a glória esquecida da geração passada e a esperança vindoura de sua própria prole de artistas (intrínseca ao DNA, fazer o quê), ou pior, que se vê de repente envelhecido e autodispensável: "Tenho mágoas. E mágoas não são absorvidas, se cristalizam." O que me fez refletir, olhar benevolente o caminho percorrido e ver-me a mim mesma como força reativa, ah, pois é, vocês pensavam que com esse papo emotivo eu abriria finalmente mão do meu próprio umbigo? Nada disso. Vai ver eu me viro por não me ancorar em amores antigos, toco em frente sempre que é preciso e daqui por diante agradeço a rudeza do meu atual marido, que não permite descanso nem dá remanso a lágrima furtiva, enquanto a transformo em regra definitiva: Get over it. E aqui termino oferecendo a vocês, de coração, mais um wikibeckett de algibeira, livre e apressadamente traduzido, num epitáfio comum de artista que nunca desiste (de cutucar sua própria ferida autoinfligida):
"Prosseguir quer dizer continuar daqui, quer dizer me encontrar, me perder, desaparecer e começar mais uma vez, a princípio um estranho, depois pouco a pouco o mesmo de sempre, em outro lugar, onde direi que sempre estive, do qual não sei nada, sendo incapaz de ver, mover, pensar, falar, mas do qual pouco a pouco, apesar destas falhas, deverei começar a saber alguma coisa, apenas o suficiente para torná-lo o mesmo lugar de sempre, o mesmo que parece feito para mim e que não me quer, que eu pareço querer e não querer, pode escolher, que me cospe ou me engole, nunca vou saber, que é talvez, meramente, o interior de meu crânio distante onde eu antes vaguei, agora me fixei, perdido na mesquinhez, ou pressionado contra as paredes, com a cabeça, as mãos, os pés, as costas, contando sempre as velhas histórias, minha velha história, como se fosse pela primeira vez."
Viver é isso aí, não é mesmo? Toca pra frente que atrás do seu posto vem muito mais gente.
Quando eu já ia me preparando pra voltar à ativa depois de uma desculpa ou duas e o blog por um fio — toda animada como uma menininha perdoada, que já se esqueceu do "castigo divino" que a deixou prostrada —, eis que me deparo — no link do Facebook, que fique bem claro, abaixo os excessos da hiperexpositiva tecnologia que nos vicia, não era isso que eu escrevia no outro dia? — com abrangente artigo de Daniel Lopes sobre Deus, uma tolice, ops, crendice, e confesso a vocês: coincidência ou não (já que para os que creem coincidências não existem), já me inclinava a pinçar, entre tantos outros temas instigantes — como a volta de Maureen Dowd, por exemplo, ou o discurso de Obama para aliciar os estudantes — uma boa retomada teossimpatizante, inspirada, nem mais nem menos, por "Oh, God!", delicioso filme infantil na HBO (até Deus concorda, imaginem só, e um escolar BHO enfatiza: é de pequenino que se torce o pepino), seria mesmo infantil essa crença infalível em algo maior que a gente? Porque fé na vida, a gente sabe, é uma ilusão de caráter que se desfaz infalivelmente ao final da juventude otimista, e é por isso que dói tanto, pensem bem, "confiar em alguém com mais de trinta anos", se é que vocês me entendem. Já passei por isso.
A bem da verdade atrasada, ainda estou passando, ou melhor, enquanto mico, ou hamster de circo, vou e volto de crente a descrente na roda impactante da vida, ou do carma, sabem como é. Mas, cá entre nós, não seria bem mais fácil encarar o permanente desafio que nos intriga nesta, hum, vida, se houvesse esse "Ser Superior" a quem nos entregar? No duro dia-após-dia poder confiar? Sempre achei, preciso confessar — apesar de acreditar que sim, a religião, como dizem por aí, é uma droga popular, ops, pronta a nos viciar (?!) —, que é difícil demais se abrir mão da capacidade de se maravilhar, se abrir, se enlevar com algo que a gente sente mas não toca, olha mas não vê, intui mas não entende. Pode ser qualquer coisa que acrescente magia ao que só a ciência evidencia, sabem como é, que nos transcende na pequenice do dia, sei lá. Pois é, Daniel: li seu abrangente artigo, interessante e oportuno, num momento em que oscilo entre acreditar ou duvidar, não da existência de Deus, mas da impossibilidade dele. Também me inclino racionalmente a cerrar fileiras com os "quatro cavaleiros do Apocalipse" (sua trindade ateísta — Hitchens, Dawkins e Harris — acrescida de Daniel Dennett), que está no YouTube em imperdível bate-papo gravado, mas, de vez em quando, olho a verdade lá fora, cercada de montanhas, e me pergunto: como é que eles (nós) têm (temos) tanta certeza? Ah, tudo bem, como cronista tendo a ver poesia em tudo, tudo certo. E não sendo teorista ou teologista, nem a bem da verdade resenhista, mas uma tábula rasa (rasinha, rasinha) para quem, entre tantos outros delírios, basta ritmo e rima no que está escrito, ouso afirmar: a vida é nem tanto o que a gente sabe, mas o que a gente sente e eu tenho sentido... ah. Melhor deixar pra lá. Mas cá entre nós: não seria delicioso (taí: Deus, uma delícia!) ver comprovada, de uma vez por todas, a hipótese espiritual e com isso, se é que vocês me entendem, deixar essa trindade de quatro? Viram como é fácil, com uma simples transposição de texto, transformar completamente o contexto?
A gente escreve livro e não consegue publicar/ A gente somos inútil/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente somos inútil Ultraje a Rigor
Em simpática mensagem de apreço o leitor Jacob Goldemberg, novo adepto declarado deste perene desabafo online que é o Noga Bloga, alimentado desde o seu remoto início, a longínquos 1705 posts atrás, por frustrações eternas de genial escritora rejeitada — é, gente, ando mesmo carente, precisada demais de contar e divulgar as raras bênçãos quando as recebo, sabem como é —, me pergunta se vale a pena insistir num blog, sempre vale, Jacob, tudo sempre valerá, isto é, se a alma não for, etc., etc., não é? Mas a verdade é que o comentário dele me pegou num dia ruim, vocês sabem, tenho andado meio deprimida.
Pois visitando o blog do Jacob, descubro um excelente candidato a blogueiro gêmeo, ou domador gêmeo de leão na arena da vida, sei lá, o que acontecer primeiro: como eu, o blogueiro é arquiteto — ou seria o "arq" de "arquivo", "arqueiro", "arquetípico"? —, judeu, pelo branco da barba mais ou menos da mesma faixa etária, e pior, mais grave, se acredita escritor, tendo sido até mesmo premiado por um conto ou dois, coisa que euzinha aqui, ó, nunquinha (deve ser porque nunca me candidato, será?). O caso é que ontem à tarde, afastada por poucas horas do efeito terapêutico viciante e maravilhoso que tem tido sobre mim a beleza deste estúdio em que agora vos escrevo, embarquei sob lágrimas, pelas ruas de Petrópolis, numa trip de depressão que em mim tem sido bem rara, francamente, e entre mais lágrimas jurei para o Alan que já bastava, que eu finalmente iria pôr um fim (ui!) nesta tortura insana que é a vida de escritor amador — amador, como sempre, no sentido de quem ama a coisa acima de todas as outras, vocês me entendem. Não sei o que acontece com esses pobres arquitetos, gente, uma síndrome de quero-ser-outra-coisa-na-vida (de preferência mais difícil ainda que a arquitetura) que só se explica pelo excesso reprimido de sensibilidade. No outro dia, por exemplo, um amigo me confessou, quando soube que eu construíra uma casa, que caminhava numa mão contrária: tendo sido a vida inteira um arquiteto de algum renome, vinha decidindo ultimamente abandonar a prancheta — quero dizer, o CAD, claro, ou "desenho assistido pelo computador", é que eu sou velha mesmo, do tempo da régua T e da régua de cálculo, imaginem — em benefício de uma carreira literária, coitado, mal sabe o que o espera na esquina. E agora o Jacob, me digam vocês: aconselhar o quê? A verdade é que entre a semana passada — quando eu estava toda animada, superocupada enquanto revisava, traduzia e resenhava alguns textos encomendados a título de teste por um grande editor, e ainda por cima aguardava mais um daqueles eternamente adiados pareceres inúteis de original literário empilhável, vos digo, pura empulhação — e esta em que estamos agora, nada demais aconteceu — a não ser, claro, as decepções de praxe, mais alguns igualmente inúteis sonhos ilusórios de tardia celebração do talento nato, pois é, eis aí onde mora o problema. Mas, cá entre nós, já passou: nem mesmo me darei o trabalho de incomodar vocês com ameaças vazias de "abandonar o blog", "nunca mais escrever uma linha nesta vida ingrata" e besteiras do tipo, juro que não. Pois é somente escrevendo, desenhando, criando, esperando e trabalhando intensamente, dia após dia (que um dia quem sabe as coisas melhoram e a sorte muda), que sei viver a vida. Às vezes dá certo e às vezes não, mas ó, Jacob, meu conselho é este aí, o único possível de um otimista pra outro: melhor fazer todo dia tudo que a gente tem vontade, sabe e sente que faz bem pra gente, e o resto que se dane. Não precisa ligar pra mais nada, nem pra mais ninguém. Abração e apareça sempre, viu?
Posto-me curiosa a observar de fora meu primeiro dia de deprimida, desde que moro nesta maravilha, ou vocês pensavam que o paraíso era à prova de depressão? Ou de perdição*? (PPP) Devo confessar: eu pensava sim. Que nunca mais teria tempo ruim depois de provar a mim mesma (e ao resto do mundo, ah, o artista, este eterno carente) que eu era capaz de ser tão bem-sucedida em alguma coisa.
Pois é. Fora e dentro de mim ao mesmo tempo, tem coisa mais neurótica? Ou mais terapêutica? Tem, e vou logo entregando: manter um blog confessional, pronto, já estou rindo, engolindo no doce riso o sal das lágrimas, ui, literalmente, sluurp. O caso é que eu esperava, doutrinada como fui (e ainda sou) por anos e anos de falsas expectativas esotéricas, que uma vez tendo chegado ao céu meus demais problemas simplesmente desapareceriam. De alguma misteriosa maneira mágica (MMM) eu teria meu valor reconhecido, manteria a propriedade da casa ao mesmo tempo em que teria no banco o valor integral da venda, sabem como é. E além do mais, como acontece em todo paraíso (é, gente: tenho longa prática com o que acontece em paraísos), encontraria finalmente aquela maravilhosa mão amiga (quase outro MMM) que me levaria merecidamente ao pódio dos escritores bem vendidos, com todas as benesses colaterais que tal posição acarreta, como, por exemplo, ser publicada em revistas e jornais — tudo bem, vá lá, vale na web também — mediante o esperado polpudo pagamento (quase outro PPP). Nem vou perder meu tempo pra contar pra vocês que eu realmente encontrei essa pessoa. Estive com ela ali, no tête-à-tête, na intimidade forçada da troca de emails cotidiana, mas adivinhem: nada do que eu esperava aconteceu. Ninguém se rendeu abestalhado ao meu talento resplandescente, ao meu elevado conhecimento do idioma e sensibilidade para reconhecer futuros sucessos de prateleira. Ninguém contratou, por enquanto, meus serviços intelectuais refinados, todos muito ocupados para enviar a resposta daquela brilhante tradução sobre futebol americano, lembram-se dela? Eu, sim, todo santo dia. Ainda não foi desta vez que aceitei a milagrosa providência divina em minha besta vidinha, mas ô, o que é que estou dizendo? Olhe em volta, menina! Alan também tem andado agitado. Esta linda casa, como vocês sabem, é a menina dos olhos dele em se tratando de investimentos no Brasil, a primeira e mais significativa coisa que ele consegue realizar por aqui em cinco anos de doloroso desterro. E pra quem pensa que a ansiedade perfeccionista americana dele se aplacou, agora que já não precisa mais escolher os sofisticados revestimentos, quando já não se ocupa de ensinar o pedreiro a alinhar os tijolos ou o ladrilheiro a selar a ardósia de exportação... Pois é. Ele agora dedica sua atenção a criar para ninguém (por enquanto também) aqueles shows de venda pra americano ver, sabem como é: a mesa posta, o vinho servido e os salgadinhos a postos para potenciais compradores, coisa que a gente por aqui só vê no cinema, se é que vocês me entendem, e tome de frustração com a indiferença dos corretores em relação à brilhante atuação marqueteira dele, pobre primeiro-mundista jogando suas pérolas consumistas aos parcos porcos da roça brasileira, com o perdão de vossos ouvidos delicados, leitores. Taí. É isso aí. Assim como mesmo um relógio parado mostra a hora certa duas vezes por dia (se for digital, uma só: é o preço da tecnologia), todas as profecias acabam se realizando desde que a gente espere o suficiente. A casa, por exemplo, acaba de ficar pronta, tardia realização criativa desta humilde e protelada arquiteta. Para todo o resto, cumpre dar tempo ao tempo. A conferir.
*"perdição" no Houaiss, entre outros significados: situação de desgraça, de ruína, de fracasso
"E quando volto aos Estados Unidos mais ou menos a cada três meses e pego um jornal, descubro que não perdi tanto assim afinal. Enquanto estive relendo P.G. Wodehouse, ou 'Walden', a loucamente acelerada montanha-russa do ciclo 24 hs por dia de notícias propulsionou as pessoas pra cima e pra baixo e pra baixo e pra cima e depois as deixou praticamente no mesmo lugar em que haviam começado", escreve, no NY Times, Pico Yier*, um bem-sucedido jornalista de Park Avenue que largou tudo para viver num templo escondido no Japão, lendo e escrevendo quando lhe dá na telha com uma tangerina fresca na mão.
Pois não se espantem ao descobrir que o artigo foi publicado a, digamos assim, uns 3 ou 4 dias atrás, porque cá entre nós, embora eu tenha pretendido em bem menor escala atingir essa calma lenta de rotina ideal, tendo chegado a exatamente as mesmas conclusões de Yier pelo menos quanto à compulsiva leitura de notícias online and off, ando tão ocupada, tão preocupada, tão tensa, deprimida e atarantada como nunca estive antes — nem morando no Rio por mais de 30 anos, gente! — sem tempo ou disposição pra mais nada além do trabalho intenso, da ansiedade e da culpa não-sei-de-quê, ah, sim, pra variar: todos os males do mundo, da obra, e, claro, do conturbado casamento. Porque a nossa tão cultivada doença urbana mental, todo mundo sabe, segue firme e fiel, ofegante, latindo e lambendo o nosso ego fatalmente afetado como se um cachorrinho excitado fosse, bem ali do nosso ladinho onde quer que a gente esteja. Com um copo enorme de vodka na mão. Verdade que estou a poucos dias, poucas horas e mais alguns segundos — aiai, respira fundo — de tudo isso se acabar, ou se modificar, para o bem ou para o mal, com alguns poucos sinais de menos ou mais apontando para um fim normal, um novo começo profissional em que um pouco de calma, ou de sorte, ou sem grandes favores o franco resultado do trabalho intensivo de toda uma vida poderá, desdenhosa e finalmente, dispensar-me antes da morte certa algum doce e modesto usufruto, ui, soei trágica agora. Mas isso, gente, é pra me consolar de antemão da ausência futura de uma — (im?)possível? — reviravolta brilhante, vocês sabem, daquelas clássicas, dramáticas, aplaudidas sacadas hollywoodianas que elevam o herói a seu pódio iluminado um teco antes da bancarrota final, coisas de filme, mesmo. Porque embora em minha vida eu dificilmente careça de lances crucio-radicais cinematográficos, dignos da mais imponente e cada vez mais rara tela grande, a grande verdade é que após algum tempo instigante, por artes malignas do destino, tudo volta a um cotidiano chinfrim de mesmice interiorana que eu trago pra lá de oculto em mim, arrastando consigo os grandes amores, os altos e baixos inebriantes de uma drogada dependência de sucesso público a culminar, teatétricamente, num prosaico "me deixem só". No fundo no fundo, não sei se é desejo ou desculpa. A conferir.
*embora Pico Yier afirme em seu artigo que "as ferramentas que escolheu, palavras escritas, estejam aparentemente se tornando meros acessórios de imagens", a qualidade do que ele escreve — e, por extensão, a qualidade lida do calmo lazer literário que pratica — toca fundo em quem o lê. dá uma esperança danada de acertar-se na vida.
Está no Los Angeles Times, num — bastante inadequado ao fatalismo vigente — rasgo otimista: "especialistas parecem estar chegando à conclusão de que, em sua forma corrente, o vírus H1N1..." — cumpre esclarecer, responsável virótico pela gripe suína, assim oficial e eufemisticamente renomeado para preservar o florescente comércio da magra carne branca dos criadores de porcos, após tanto e tão caro sacrifício finalmente libertos do estigma kosher, reflitam, estúpidos: será que é mesmo a economia? Vai que Deus castiga.
E prossegue: "...não está se configurando como tão fatal quanto outras linhagens propagadoras de pandemias anteriores. Embora o vírus pareça se espalhar facilmente, não parece provável que sua taxa de mortalidade sequer se aproximará de uma estação típica de gripe, que mata 36.000 pessoas nos Estados Unidos", que tal isso para um alarmismo da imprensa? Hein? E no entanto, as manchetes insistem: parece que é o fim do mundo como o conhecemos, mas, gente, esta fase terminou faz tempo. Quanto ao brilhante aforismo aí em cima, de autoria do meu brilhantíssimo porém preguiçoso marido — cartunista que não desenha, filósofo que não escreve, escultor que não esculpe mas amante devotado que, com a graça de Deus e apesar da provecta idade, ainda trepa divinamente (bem, devo-lhe alguma justiça neste meu áspero julgamento: um arquiteto que jamais construiu mas que como eu, agora, depois de velho, constrói sim, e o faz muito bem) — os leitores que me desculpem, mas nem com meu prévio atrevimento — avançando com letras e vírgulas, sem nenhum constrangimento, no raro entendimento de Finnegans Wake — consegui traduzir tanto virtuosismo. E como não deve fazer um humorista nem em seus piores momentos, explico a piada no idioma estrangeiro: em inglês, pra quem não sabe, "flew" [voou, pretérito de "fly", voar] e "flu" [gripe] têm o mesmo som; já "when pigs have wings" [quando porcos tiverem asas] significa algo assim impossível mesmo, próximo do nosso "no Dia de São Nunca", sendo "swine", é claro, suíno. Deu pra entender? Hahaha. Desse alarmismo publicamente conveniente, vamos combinar, nem Obama escapou, vai que até nosso amado BO lançou mão deste novo ingrediente, fermentando com ele a perfeita receita de crise pra justificar os trilhões que amealhou? Hein? Não, gente. Não quero dizer com isso que me desencantei com Barack, longe disso. Acho até que pra meros cem dias o sujeito apresentou um bocado de serviço, mas não vou cair nessa de me declarar incondicionalmente apaixonada por um político, como têm feito, ingenuamente a meu ver, algumas vozes famosas da nossa blogosfera, vocês sabem, é sempre bom a gente se precaver: vai que, como o Alan cansa de me prevenir, Obama se revele uma fraude? Ou, pelo menos, um midiartista? Certo. Combinado. Deus nos livre de tal pierismo [de Joyce, em Ulysses, "píer: uma ponte decepcionada"], mas é sempre preciso preparar-se para o pior, não? Ou bem me vacino ou ainda morro disso: se escapar da gripe, resvalo incontinênti no pessimismo. Sai pra lá, azar.
Com tanta coisa encaminhada e prestes a terminar — casa encantada, livro aprontado no prelo e, claro, como consequência meio que inevitável nesta estressante rotina criativa sob um automecenato apertado, o saldo minguando no banco — tenho testado em meus dias e noites minha enxaquecosa resistência à pressão externa e descubro: é bem mais limitada do que eu acreditava.
Tá certo que houve ainda ontem uma divertida, vitoriosa polêmica construtiva entre os egos inflados sobre a composição ideal de determinado impermeabilizante de aplicação universal para a qual, pasmem, desloquei ao mercado petropolitano o próprio criador paulistano da essência para, finalmente, desmontar um inusitado complô de resistência no qual, imaginem, o oficial representante local acabou confessando seus prolongados ardis destrutivos, para delícia da semiarquiteta metida que aqui vos fala: não é que o sujeito exclusivo enganou todo mundo, e por muito tempo? E no entanto, não me salvou de mim: estou naqueles dias em que tudo que faço ou escrevo ou penso parece menor, pouco intenso, fatalmente propenso ao fracasso total. Eu passaria com quase nada o meu dia inteiro na cama, deprimida com gosto e assistindo, com a nuca torcida no encosto, ao meu mundo cair em alvoroço do altíssimo pico anteriormente conquistado dos meus sonhos mais vastos. Devassa. Despisto. Me aplico em detalhes entendiantes pra tentar evitar, ainda que apenas momentaneamente, a postura suicida das contas discordantes. Em momentos como estes busco consolo em outras paragens inusitadas, histórias diletantes de opções bem mais desafiantes, uau, que agora já chega. Como a aventura instigante (caramba que este vocabulário terminando em "ante" e "antes" parece inesgotável, jorra da mente intrépido e sem conflitos, com a arranhada pujança invasora de um poema inconsciente, beirando o delinquente) da escritora colombiana Pilar Quintana sobre a qual leio fascinada no rascunho do Blog da Adriana que me lembrou, por outro lado, outra esquisitíssima personalidade literária americana que vive no mato e nem por isso, sem tempo pra pesquisar agora o nome da figura que inevitavelmente me falha à memória, pronto, acabou: o telefone tocou, o empreiteiro convocou, e lá se foi pelo ralo afora a minha intenção de crônica. Ah, sim, os tais cem dias a que me refiro não descrevem somente a minha construtiva batalha particular, mas bem além dela uma muito maior, mais empolgante e abrangente: os cem dias de Obama que se completam hoje, sem tempo extra para devaneios políticos. Fui. Desculpem ai o apressado mau jeito gramático: depois, se for preciso, me edito.
Hay gobierno? Soy contra. (lema anarquista das antigas, nem mesmo no Google descobri de quem e de quando: desculpem a ignorância de uma ex-hippie, a que não fui não tendo jamais sido)
"A Festa do Chá de Boston", alerta a wikipedia, "foi um protesto dos colonos de Boston, uma cidade na colônia inglesa de Massachusetts, contra o governo britânico. (Este artigo se refere a um protesto de 1773. Para outros usos, busque Festa do Chá de Boston*)."
foto: Reuters
Poucas coisas, vamos combinar, são tão patéticas quanto procurar reeditar, ou mesmo tentar compreender à meia-luz confusa que a teia difusa do tempo engendra — tempo: clássica ilusão palpável que todos experimentamos tão fundo, tanto na carne quanto na mente —, fatos atuais incongruentemente descritos na língua do passado.
Como essa ideia, por exemplo, arrancada do fundo de um baú trancado (e francamente retirada de seu contexto original pela Fox News), de reeditar em plena quarta-feira 15, abril de 2009, século vinteum, o protesto educado dos neoamericanos explorados contra o pesado jugo inglês, protesto desta vez contra o jugo de quem? Do presidente mais votado? Das pérfidas consequências de enganos perpetrados por eles mesmos (em anos malditos de recente história pregressa), radicais partidários do partido oposto? Pelamordedeus, que protesto mais forjado. A ver se vão dar com os burros n'água, mas tudo isso agora por quê? Ora, gente. Nada é tão conveniente quanto jogar a fumaça da flagrante desculpa competente sobre um evento pequeno, normal, cotidiano e constrangedor e que, acima de tudo, nos diminui perante o outro. Pior, perante o público leitor, trocando em palavras miúdas: crise criativa, eu disse crise? Melhor: bloqueio. Taí o motivo inconfessável, mas que agora confesso a vocês, de eu ter sumido por uns três ou quatro dias durante os quais coloquei em dúvida as mais profundas, mais preciosas convicções, nada que um bípede bipolar assim como eu devesse estranhar tanto. Num minuto é um mundo ideal como nunca antes em nenhum outro lugar. Mas no outro é o inferno real de nossas piores intenções, se é que vocês me entendem. Ah, não adianta nada disfarçar, já que, como afirmou o CEO do Google, Eric Schmidt, em entrevista a Maureen Dowd ironicamente descrita no NY Times, a privacidade é passé (e o jornalismo, mesmo em sua sonhada forma de colunismo, um monstro pré-histórico em processo de extinção), e é mesmo (não ligo, mas claro, deveria. Afinal de contas, extingue-se com a era dos jornais impressos meu sonho explícito de ser impressa em jornal, ah, nada mais demodé). O meu drama aqui é outro. E embora literal, bem menos literário do que eu esperaria: enquanto anunciei pra vocês, orgulhosamente, que eu estava ralando para me tornar "uma das poucas pessoas no Brasil que leu o portentoso Infinite Jest de David Foster Wallace", eu estava mesmo é me debulhando em memórias do que não vivi pelas páginas mal escritas do confessional The Eden Express, pungente e ultrapassado relato de loucura de Mark, filho de Vonnegut, ah, gente: talento e fã-clube não passam de pai pra filho, acabei de descobrir isso. E vamos combinar: embora eu tenha, em muitos momentos da leitura, me identificado com os sonhos (e loucuras) de MV tentando ser um bom hippie, o melhor de todos os hippies, não gostei nem um pouco de ver reduzido a tardio delírio esquizofrênico meu doce projeto de morar no mato, rodeada de montanhas e longe, bem longe de tudo que é insensato fora do meu pequeno mundo. Afinal de contas, tudo isso que estamos vivendo hoje (a parte boa, claro: os direitos civis encastelados, o presidente negro da mudança, todo um novo repertório de valores sendo implantado, suplantando com alguma sorte o império falido do dinheiro, ih, viajou de vez) é nada mais nada menos do que o resultado palpável daquele período agitado, livremente amoroso, pacifista e socialmente revolucionário, de ser contra o governo, vocês se lembram, contra qualquer governo. Coisa que, vamos combinar, em tempos da unânime popularidade eleitoral de Barack Obama, o candidato escolhido a dedo da mais reformadora juventude (ui, soei velha agora, e quem sabe iludida mais uma vez, como provam todas as teorias conspiratórias em contrário), não faz mais o menor sentido. Falei. Ufa. Olha eu aqui escrevendo outra vez. (Ou tudo nesta vida moderna periga, vamos combinar, tornar-se um monstrengo marqueteiro sampleado do gênero "Mr. Darcy paquera Elizabeth Bennet enquanto os zumbis atacam". Argh.)
*só pra esclarecer, nenhum dos "outros usos" sugeridos na wikipedia descreve os anacrônicos protestos de hoje nos EUA.
Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor desta vez. Samuel Beckett
A gente percebe que está com sérios problemas quando passa uma semana inteirinha, e uma semana importante como essa (para a posteridade: a do G20), republicando palavras e imagens alheias. Mesmo que sejam sábias, poéticas, instigantes. Algumas até de vergonhosa memória mas mesmo assim memoráveis, como este nazista "Triunfo da vontade" aí embaixo, fazer o quê, me desculpo, mas foi o que me veio.
Tudo bem. Uma semana inteira e finalmente acordei tarde, foi-se, o rancho enxaquecoso do Rio de Janeiro, palavra feia, eu sei, mas usei para dar a medida exata da ressaca (i)moral que me acomete quando... ah, vocês sabem. Melhor nem falar mais disso, taí, é o medo de falhar, o velho medo pânico de falhar, terminar no limbo e sem nenhum dinheiro, foi o que aconteceu. E me deu na medida exata de deprimir, incapacitar, reprimir o intenso prazer que sinto, que venho sentindo, nas grandes e pequenas coisas que tenho recém-passado com minhas escolhas na vida, construído, revisado. Medo de destruir, degringolar no acabamento. Medo de publicar, precipitar por alguma besteira os bons relacionamentos. E por aí. Vai ver é por isso que gosto tanto de Obama, por sentí-lo tão próximo a mim (psiquicamente), estar na pele dele, pensar o que ele pensa sentir o que ele sente. Ou, pelo menos, imaginar que faço isso. Já pensaram o medo deste (grande?) homem, na hora mundial de herdada necessidade? Medo de faltar, fracassar, dar passo em falso, falso testemunho? Verdade. Com corte e tudo (o enfoque tônico no ô), e jantares de gala, a mais festejada dama (que até a Rainha, protocolos fora, se apressa em tocar), não, não queria estar na pele dele por nada. Felizmente, ao que parece, correu tudo bem, um trilhão extra a mais e o encontro global transcorreu na calma, tudo terminará bem fora um morto ou outro lá fora na calçada. Resta-me relaxar no meu couto otimista, consolo intimista de uma mente doente, irremediavelmente: o neurótico ainda dá pra passar, constrói castelos no ar; mas o psicótico, ah, decide que é neles que ele vai morar (diz o dito popular).
"A arte é sempre e em todo lugar a confissão secreta, e ao mesmo tempo o movimento imortal de seu próprio tempo." Karl Marx
1. Tudo bem. Eu entendo. Deve ser minha própria tendência particular à depressão, esse caro e intermitente transtorno elemental que entorta os meus temas e faz com que eu queira, digamos assim, que esta crise social não termine tão cedo, mas e daí?
Só admito um passo à frente quando aquela luz secularizada, a tão capitalizável ação redentora que todos esperam, surgir num mais belo horizonte transformador, e isso, se São Jabor permitir. Pois foi recomendando na crônica de terça a cura para o crônico mal, entre tantos outros, do cinema de arte, ou melhor, do cinema e da arte, que este Santo Artista concedeu-me licença pra seguir criando: narrar vivências pessoais, as únicas intransferíveis. Ave, Seu Arnaldo.
2. E enquanto não rola, leio no Joaquim: "...agradou a Jam, que ria ainda da mesa montada — com prato, talheres e tudo o mais — no teto do banheiro masculino. Modernidade é isso aí." Será? Ai, gente. Vontade de sumir. Sou daquele tempo que o mesmo jornal celebra em artigo de primeira página, há de haver quem ainda se lembre, quando o nosso MAM, "um espaço de produção de arte", "era freqüentado por artistas, cineastas, poetas e críticos" e eu mais uma entre eles, pra quê mesmo é que vale um saudosismo inútil desses? Com essa onda diária de "nivelar por baixo", onde tudo que é bom e original e instigante esconde a envergonhada cara debaixo do tapetão vigente... ah. Melhor deixar pra lá. Sou eu que estou deprimida mesmo, e o resto do mundo não tem nada a ver com isso. Ou será que tem?
3. E Karl Marx nessa? Entra aonde nessa doida equação de moderno desconstrutivismo? Ou seria melhor: desconstrucivismo? Pois é. O que mais tem me espantado no desconstrutivo dia-a-dia do noticiário é o fato consumado de que para tantos a crise transita entre "quanto eu perdi na bolsa" e "não tenho dinheiro pra investir, não tô nem aí", mas gente: um valor mais alto se alevanta, e cobrem de Marx essa velha conta. Imaginem. Como não conseguiram assustar o bastante com a ameaça apavorante de um preto esperto na presidência, decidiram os ávidos centuriões em seu último gesto, impregnado de desespero, apelar pra ameaça de socialismo, a antítese diabólica dos pilares benéficos do capitalismo, eu, hein? Quem sou eu para comentar isso? É tudo palavrório vazio, confesse aí de uma vez: nem ler O Capital eu li, deve ser por isso que buscando no google algum aforismo do velho teórico idealista escolhi, dentre mais de 60, um que fala de... arte. Mas peraí que eu nem sou marxista e, cá entre nós, a bem da verdade nem sei bem o que isso significa.
4. Sim. Já sei. Devo ser mesmo ingênua, ou antiquada, ou louca, ou fatalmente ignorante, mas vendo o ataque radical das forças óbvias do mal (calma, gente: foi só uma rima eficiente, já que status quo, além de destoar do objetivo catequizante, ainda por cima atravessa o ritmo) contra aquilo que chamam de "redistribuição da riqueza", e o súbito e maduro desvio reativo do meu marido Alan para a extrema direita — taí uma coisa que ninguém me explica: pra onde sumiu aquele "filósofo naturalista", aquele poeta ardoroso, mímico inspirado e bardo itinerante dos anos 1960 que me conquistou na internet, pasmem, há menos de quatro anos? —, coisas que embora tentando bastante eu não entendo, e nem por todo amor do mundo tampouco aceito, não me conformo. Uma pena.
5. Procurando sentido onde todo sentido me falta vou quase às lágrimas de fato ao compreender que é por ter sido criada, educada e treinada tendo o socialismo como o que há de melhor para o mundo — o sonho frustrado de justiça e beleza que papai adotou quando era jovem e vivo, à sombra fanada do velho kibutz onde eu nasci e que o próprio estado moderno de corrupção ativa se encarregou de eliminar — sim, é por isso que me deprimo. Dá pra entender o porquê de eu estar tão triste hoje. Triste e vazia e derrotista, pregando algo que eu mesma nem vivi, mas e daí? Nada impede que eu sonhe na calada da mídia com um mundo melhor, e pior: aproveite, por meros sete últimos dias, a esperança explícita de que as coisas realmente mudem antes que o mundo se exploda. Sonhar é possível, e eu não permito nem por um minuto que alguém me negue pelo menos isso.
6. Além do mais, ou sou estúpida, ou iludida, ou retardada, sei lá, perdida em síndrome de adolescência tardia que essa coisa de idealismo profundo não se encaixa nas mentes mais maduras, mas não ficou claro pra todo mundo que o Deus do Capitalismo tem muitos pecados? Pecados demais pra ajoelhar-se no milho em frente ao global confessionário? Hum. Não sei. O que sei é que se o muro caiu, e a Rua do Muro já quase ruiu, deve haver no futuro algo novo que eu desconheço e que, embora ignorado por muitos — quase todos —, já tenha decretada a data de seu começo: eis aí, em pleno processo de forte tropeço, a trôpega marcha da história. É bem mais embaixo o buraco, viu, gente? E é somente caindo sem rede que arriscaremos ver nascer em breve, deste caos espiralado da crise, um neosociobelutopicocapitalvoluntarismo, a bênção, meu São Judas Tadeu.
7. Eu sei. Não precisa dizer. "É tudo um velho clichê, mas pra mim não soa como um", e olhem que a frase nem minha é, tirei do livro do inglês Julian Barnes sobre a morte, "Nothing to be frightened of", que estou lendo agora. E gostando muito, taí por ora o lado bom da vida, pura ironia.
Está no email que recebi esta manhã, com as últimas notícias da imprensa americana, artigo do L.A. Times sobre "o que os Democratas sabem fazer melhor: se preocupar." O problema é quando a preocupação, devida ou não, toma tanto espaço na mente da gente que acaba impedindo qualquer outro tipo de ação, mental ou não, se é que vocês me entendem.
Foi o que aconteceu comigo ontem — e, aparentemente, vamos combinar, vem acontecendo com gente muito mais importante, como um certo candidato democrata — e, por causa disso, nem deu pra aparecer por aqui, mas não pensem que eu não tentei, francamente: não consegui me esquecer da crise de depressão por um tempo suficiente para pôr em frase legível algumas observações irônicas e assim me curar... da própria crise de depressão. Tudo bem. Acontece. Entender eu entendo, mas peraí. Esse jeito que o Alan tem de me amar e proteger lembra, às vezes, o jeito que mamãe tinha de me odiar no início da doença, mas calma aí: o ódio aparente era coisa da demência, embora eu nunca tenha encontrado um jeito de me convencer cem por cento disso, e a mesma coisa vale para o Alan. Essa estratégia dele de me criticar sempre, eu sei, tem como único objetivo me tornar mais forte, mais resistente e independente. Mas em certos dias de penitente, vamos combinar que me soa mais como um lugar-comum bastante freqüente nos bons tempos de mamãe — "botar sal nas feridas" —, e foi o que aconteceu comigo ontem. Perdi mesmo a noção do bom-senso (até chorei), e pra quem pensa que acabei chorando pelas perdas pesadas que sofri na Bolsa essa semana, já vou logo esclarecendo: não foi bem por isso, mas sim pela minha burrice — um tipo ingênuo de burrice que ainda persiste quando dou uma de honesta e confesso pra vocês minha sincera opinião sobre investimentos na Bolsa, fala sério. É jogo puro, vício, franca especulação, tiro no escuro (não importa o que os mais sábios analistas digam), o tipo da coisa que racionalmente eu desprezo, taí: deu pra entender agora? Chorei de raiva. De remorso (remorso de investidor?). Chorei porque fui contra o meu próprio movimento produtivo, minha própria intenção de deixar para trás os equívocos políticos que mandam no mundo, imaginem: gente que polui, escraviza, explora os mais fracos, mente e manipula, tá bom de sal pra vocês? Porque pra mim, vamos combinar: já passou faz tempo do ponto, e é por isso que estou aqui me descontaminando, vocês sabem, buscando embriagar-me de literatura, ih, agora sim: fiquei brega. Agora. Mudando um pouco o rumo do assunto. Não é que eu esteja gostando demais desse livro do David Sedaris que estou lendo, mas que foi engraçado encontrar por puro acaso — em crônica direto ao ponto — o que eu estava vivendo na prática, lá isso foi. E já não estou falando da minha própria pessoa — esta arrogante metida que pensa que sabe tudo e acaba sempre provando o exato contrário —, mas sim do sujeito que comprou o apartamento de mamãe no Alto Leblon e que de repente, sem nenhuma explicação aparente, ligou gritando ao telefone como um desprovido de siso, basta conferir pra vocês entenderem tudo: "Meu medo era não só que tivéssemos escolhido o apartamento errado, na cidade errada e no país errado. 'Remorso de comprador', disse a vovó. 'Mas não se preocupe, é perfeitamente natural'." (Se eu contar pra vocês que no meu caso o arrependido comprador arranjou um emprego em São Paulo e, coitado, vem se debatendo com um alto grau de burocracia no prédio que, francamente, nem com 30 anos de moradora eu nunca tinha experimentado... dá até pena dele e isso, imaginem, que ele não sabe da bala a metade.) Tudo bem. É bom demais morar no Alto Leblon, mas cá entre nós, no meio do mato é muito, mas muito melhor. Já deu pra entender que pelo menos deste tipo de remorso imobiliário eu não venho sofrendo, muito antes pelo contrário: estou cada vez mais convencida de ter feito o que é bom pra mim, bem, vocês sabem... até mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. E se pelo menos com tudo isso eu proporcionar a vocês um bom momento de relaxamento, meu passageiro sofrimento terá valido muito a pena. Ui.
ou de como um escritor aposentado mudou o mundo numa manhã chuvosa de domingo
Pra quem achou meu post aí de baixo confuso e desnecessário como eu mesma achei, segue historinha curiosa sobre os descaminhos da informação, vejam só, parece até filminho da HBO, daqueles baseados em fatos reais. Ontem pela manhã Alan leu no site da Reuters a seguinte notícia:
Acontece que o Alan é um sujeito que dedica a vida de aposentado a fuçar informação e a intervir subliminarmente nela, e tendo detectado um problema semântico de credibilidade na manchete da agência, enviou ao editor o seguinte email:
"The use of the word claims implies that there may be doubt in the military's assertion of victory. Though the word has multiple meanings, the use of it in reporting is tantamount to an aspersion. There is an inherent implication that the military is lying or prevaricating. There is an arrogance to the use of the word 'claims', it is as though Reuters is privy to a source of information that would cast aspersion on the miltary's report of the event. You infect the reader's mind with doubt, you prejudice the article and by consequence the article morphs from information to editorial opinion masking itself as information." Algumas horas depois, quem visitasse o site da Reuters encontrava a seguinte manchete intitulando o mesmo conteúdo: "U.S. says kills mastermind of pivotal Iraq attack" (Aug 5, 2007 4:06PM EDT) Em qual das versões se baseou o Globo de hoje? Agora imaginem os links deste fato no google, daqui a 40 anos. Tudo bem, o novo título deixa ainda margem para dúvida, mas segundo o Alan, uma margem menor, blablablá. 40 anos atrás a gente leria assim, numa fonte só, uns dois ou três dias depois do ocorrido: U.S. kills mastermind... e pronto: fato consumado e gravado pra qualquer posteridade. CQD. Só desistindo mesmo.
Eu poderia estar falando de mim, mas não estou. Se estivesse falando de mim, botava pra dentro uma boa dose da droga e atingia assim um desejado equilíbrio emocional, caía logo fora da gangorra de humor que tanto me atrapalha. Passava por cima da invisibilidade a que ando condenada e planava pela vida com uma leveza de pássaro. Eu poderia estar falando de invisibilidade literária, mas não estou. Se fosse este o assunto, não negava ignorar a solução, botava pra fora uma boa dose de otimismo e passava pelo talento assim, com a autoconfiança de um gênio. Se eu estivesse falando da invisibilidade em família - e esta sim, seria uma real possibilidade - lamentaria uma ignorância mútua, de mão dupla. Que poderia até, convenhamos, me fazer muito bem. Mas quando o assunto é o futuro breve de mamãe e a manipulação mirabolante dos recursos que restam, a invisibilidade a que me condenam faz muito mal. E ainda tenho que ouvir:
- Vamos aplicar o dinheiro na bolsa, dar para fulano. - gulp. Sim. Brilhante. Aplicar no vaivém da bolsa o trocado do supermercado, hum, receita certa de... bancarrota.
- Sua mãe ainda vai viver aí uns bons 5 ou 6 anos e não vai morrer de alzheimer. Alzheimer não mata. - hum. Sim. Consolador. Viverá uns bons brilhantes 5 ou 6 anos rígida no corpo e na mente, aproveitando com prazer o tempo que lhe resta, hum, receita certa de... desalento.
Mas como não estou falando de invisibilidade em família, nem de invisibilidade literária, nem de lítio em pílulas, vamos logo ao que interessa: é da bateria de lítio do notebook que eu estou falando. Começou a falhar esta manhã - apesar de carregada - com a luz piscando e um "x" de alerta, hum, preciso comprar outra, um problema nunca vem só, hum, lá vai verdinha, receita certa de... baixa em caixa. Respirei fundo, fui à praia, e quando voltei, tirei a bateria do lap só pra conferir o número de série, anotei, botei de novo, liguei o bicho, que funcionou perfeitamente sei lá como, mas graças a Deus, com a bateria 100% carregada, haja tecnostress: questão adiada.
Ah, gente. Se com a mente fosse tão fácil, só uma questão de carga, e se estivesse esgotada, de umas cento e poucas verdinhas... e olha que tenho, com boa freqüência, trocado a pilha... ou como se dizia no meu tempo, trocado o óleo, se é que vocês me entendem...
Do jeito que está, só com lítio mesmo. Infelizmente sou contra todas as drogas.
Quando eu tinha loja já era assim: fora de lá, tímida pra caramba, raramente um gesto ousado, em prol do meu próprio avanço. Mas uma vez lá dentro, ah, gente, uma beleza: um personagem inventado, mundano, criativo, capaz de qualquer coisa. Respaldado, é claro, pela assessoria de imprensa muito bem paga - que resultava em amplo apoio da mídia -, benefício que ora me falta.
Aqui no blog tenho me servido, de vez em quando, de um escape semelhante, embora a idade - e a franca necessidade - tenha me aliviado um pouco.
O caso é que encontrei há pouco este editor cuja amizade, mais que assinatura em contrato, tenho almejado conquistar. Um sujeito que tenho certeza, se a oportunidade tivesse, seria capaz de me entender, apreciar. Sendo a coisa pra mim importante, foi conseqüência imediata: fiquei tímida, lá se foi para o brejo oculto de Minas a escritora mundana, brilhante, viajada, sabendo um pouco de quase tudo; é só personagem, gente. No fundo no fundo me sinto, quase sempre, ninguém.
Quem andava na praia no feriado de ontem me viu: um esforço hercúleo de memória, eu sabia, sabia que já tinha usado aquilo, aquela música que não me lembrava o nome num texto que já não sabia qual, mas que tinha usado, tinha, e finalmente me lembrei de tudo, foi um alívio e comecei a cantarolar a música, com a letra certinha e o parágrafo recuperado. Verdade seja dita, eu tinha até cortado a bendita do texto final, mas uma oportunidade como aquela, de me comparar a escritor famoso, não haveria tão cedo igual: voltei com a letra em negrito para o fim da frase e comecei a escrever, mentalmente, um email pra ele, relatando o fato. Mas hoje de manhã a timidez bateu e achei que a carta toda, francamente, era pretensão demais. Como saiu caprichada, em si, um textículo com pretensões literárias, peço licença pra usar o blog e eternizá-la. Ui. Se bater bravura, mando o link mais tarde pra ele.
Caro R, até canção de Adamo como Vila-Matas já citei, mas não foi "Tombe la neige", veja (perdi a oportunidade no teu post, de transformar canção em livro, e agora é tarde):
"Quarta-feira, 8 de dezembro Mein Liebe Alan, escrevi (em alemão)... Tu me reveilles, eu disse, saindo de um longo transe para uma vida gratificante, je vous offre le gris de jours passés sans bruit."
Mas isto foi em outro livro - sem querer me comparar, Deus me livre - onde me comparo também a Joyce (ah, sim, J.J., lerdo lúbrico lingüista... ) e a Shakespeare (o animal de duas costas, é aí que bate o ponto), foi só brincadeirinha ou memória infiltrada, coisa de geração, mesmo, e ainda por cima num diário íntimo sexual - onde a forma contesta a função numa onírica continuação da Bauhaus - até hoje inédito, por obra e graça das toupeiras literárias do marketing editorial (esta aí já foi plágio mesmo). O fato é que naquela mesma noite encomendei online na Fnac o Mal de Montano, que engoli enquanto você escrevia de London/Paris - numa primavera que não acaba nunca porque coincidências não existem -, e escrevi no blog a respeito, segue link.
Agora, caro R., me diga: se te chegasse um obscuro Vila-Matas por correio ou mero email, sem referrers, você... publicava? Enfim. (este "enfim, ponto" foi plagiando mesmo ou, mais modernamente, sampleando V-M). Valeu a recomendação, adorei. Beijo/ N.
Meu marido andava triste, meio perdido, deslocado na "caixa de concreto perdida na América do Sul" e eu preocupada, pedindo a Deus uma solução (ih. parêntesis. esqueci que sou agnóstica mas deixa assim mesmo só por cinco minutos, desligando o firewall do pensamento racional), quando a salvação caiu do céu e ele começou a postar em inglês, numa revista online sobre o Brazzil: o homem mudou da água pro vinho. (Agora chega. Firewall restaurado) Só sei que ele agora passa as noites por lá, em textos elaborados, resolvendo os problemas do mundo... e os do Brasil também. O curioso é quando um pensamento desses, bastante original e às vezes ousado, aparece reproduzido alguns dias depois na mídia, às vezes na própria revista onde o coment foi postado. Ele fica feliz: "estou influenciando o mundo".
É claro que existem coincidências, e de acordo com Rupert Sheldrake, um pensamento coletivo e para sempre dinâmico que nos inclui, mas a coisa às vezes extrapola. No meu caso, não tenho este tipo de pretensão, mas quando acontece... penso... Quem sabe alguém leu aqui no blog? Porque até coincidência, gente, tem limite. No Globo de hoje são dois os casos. O primeiro me deixou contente, e coloca o Nilton Bonder na capa da revista. O cara merece, e levantei a lebre, está aí pra quem quiser conferir, no dia 30 de março. O outro é mais impressionante: saiu no Agamenon. Confere lá, e confere cá: dei uma semana de dianteira pra eles, rsrsrs, mas mesmo assim eles me pegaram. Continuo anônima, nos bastidores da blogosfera.
O caso é que com tudo isso, e com Júpiter francamente me favorecendo (opa! desta vez é vírus, só pode, eu é que não fui, desligando de novo o firewall) tenho me sentido otimista com meu futuro de cronista. Isto é, vinha. Me sentindo, quero dizer. O impacto positivo do meu encontro com P. durou até esta manhã, quando acordei racista, simplista e homofóbica, morrendo de medo da repercussão do meu post de ontem (aí em baixo, nem precisa linkar).
Sou assim, gente, ciclotímica desde criancinha: às vezes corajosa às vezes covarde. Às vezes à frente da notícia, mas via de regra... atrás: uma maria-vai-com-as-outras profissional. Profunda mas, quase sempre, na barafunda, tendendo ao pessimismo íntimo, apesar de publicamente messiânica. Deve ser por isso que com essa intuição toda - freqüentemente anulada pela insegurança - não consigo sair dos bastidores da mídia. Até quando, Senhor? Como diz em sua coluna dominical a Marta Medeiros, me dê a minha parte aí. (Opa. Melhor apagar tudo e reinstalar o antivirus, desta vez deu pau de vez.)
Quem acha que manter um blog é fácil, se engana. Muita gente boa já embarcou nessa aventura e, sem resistir muito, desistiu. Outros deixam o webespaço meio largado, dando uma palinha ocasional e pronto. Mas honrar o compromisso de comparecer todo dia ali, ó, chova ou faça sol, rindo ou chorando... não é pra qualquer um não.
Pois hoje só tô dando uma passadinha rápida, empenhada em botar o "Eu, Xamã" no ar inteirinho antes da voagem. Ops. Viagem. Falar nisso, gente, o livro já vai formando uma reputação decente, sendo quase tão visitado quanto esse blog aqui que vos fala. Fico feliz porque o conteúdo, apesar de esotérico, é bem legal.
Mas não é nada disso que eu quero contar. Quero é compartilhar que o Alan, graças a Deus (e à minha ousadia) melhorou. Me xingou um bocado, se desesperou porque joguei fora as preciosas pílulas dele (é o que ele pensa), mas hoje acordou bem mais forte, a voz normal e agora... glória das glórias... acabou de sair sozinho pra caminhar na praia e aproveitar a tarde. Ontem saímos juntos, ele arrastando a perna e se lamentando como se estivesse doente, e muito. De certa forma, vamos combinar, estava. Tem doença pior do que as da mente? Na Visconde de Albuquerque encontramos uma amiga da academia, que há dois anos acompanhara o nosso emocionante namoro na internet... Imagino ela morrendo de pena de mim, tão feliz por ter casado e agora amarrada àquele velho acabado e ainda por cima, manco! Essa foi de lascar, gente. Mas tô otimista e pra quem rezou... vai o meu abraço. Amanhã a gente se vê. Prometo.
...não olhar um para o outro, mas olharem ambos na mesma direção
Eu sei, gente. Não existe nada mais cafona do que isso. Mas aqui em casa essa manhã foi uma questão de interior design. O Alan já vinha reclamando que a sala parecia um labirinto de rato, e eu teimosa dizendo que não havia outra solução estética. Passei os últimos três dias matutando sem chegar a conclusão nenhuma, mas hoje, numa situação de extrema emergência, comecei a arrastar os móveis de lá pra cá e resultado: ficou bacana. Sei que o apê é pequeno. Mas é no Alto Leblon, e cabe no nosso bolso... Bem. No que sobra do bolso da mamãe. E tem aquela maravilhosa, iluminada e inigualável vista do Corcovado, vocês sabem. Pois do jeito que ficou, a mesa de jantar, de um lado, é virada pro Cristo, e é por isso que a partir de hoje eu e Alan sentamos no mesmo lado dela. Olhando na mesma direção, entenderam? Na direção da beleza, de alguma esperança de futuro. Porque a coisa aqui ficou feia hoje, gente. Pensei que ia perder o prumo. E o juízo. Eu já vinha reclamando que o Alan estava lerdo, a fala meio pastosa, mas pensei: é a primeira semana da droga do valium, depois melhora. Essa noite ele gritou comigo, tive que dormir na sala, mas pensei: ele está nervoso, o filho querido dele passando o fim de semana no Havaí com a mãe, está com ciúme, sei lá. Quando acordei, ele ainda dormindo, resolvi procurar as caixas do remédio, e só encontrei uma, completamente vazia. Depois mais uma, completamente vazia. A terceira não encontrei. Gente! Entrei em pânico! 60 comprimidos em cinco dias! Comecei a chorar, balancei o cara até que ele acordou, fiz um café bem forte e me preparei pro hospital. Pouco depois ele me trouxe duas caixas fechadas do remédio, tinha tomado uma e a outra era antiga, que estava guardada. Ufa. Mas no filminho da minha cabeça, era o malsucedido suicida, e tão infeliz assim, gente! Porque? Uma coisa inacreditável. Há menos de uma semana um homem forte, cheio de energia e talento, superpotente, e agora esse trapo humano. Até o pênis encolheu, sério. Quando me acalmei, li no jornal o depoimento da mãe que prefere ser mala a deixar a filha freqüentar essas raves de traficante. Tá certa ela, gente. Eu também, prefiro ser mala a ser viúva, e ainda por cima culpada. Ensaiei jogar a droga fora, mas não tive coragem. Escondi. Tenho medo da minha própria fraqueza, isso sim. Que num momento de amor benevolente eu acabe devolvendo a caixa pra ele. Mas Deus é pai, gente. Ele vai melhorar, e teremos nossa lua-de-mel em Parati. Quando a gente voltar, vou pegar o touro pelo chifre e ver se encontro uma solução para a tal da dor na perna neurológica que incomoda tanto a ele. Aceito sugestões... Rezem por mim. E por todos os viciados em drogas legais do mundo, gente. Olhemos todos na mesma direção que essa vida não tá mole não.
Não sei, gente. Tem alguma coisa me incomodando, uma pedrinha quase imperceptível no meu sapato. Quando escrevi o primeiro post do dia, eu tinha visto metade do filme do Al Gore. Só agora terminei. Não é que eu não concorde com as diretrizes da dieta de carbono. Concordo, até linkei. Mas esse filme... Não sei não. Eu odiei, gente. E quando eu souber porquê, prometo contar. Acho que me revolto contra toda essa grana gasta pra estressar mais ainda as nossas cabecinhas já a ponto de explodir. Tudo bem que é coisa de americano. Ora. Eles que poluem, eles que se ocupem de despoluir. Quero distância da disputa política deles, e ainda por cima velada desse jeito. E vem cá: quando o Al Gore mostra o gráfico igualando o crescimento populacional ao aquecimento global ele quer dizer o quê, mesmo? Matem os pobres que eles são poluentes? Porque crescimento demográfico, todo mundo sabe, é coisa de pobre. De terceiro mundo. Quanto a mim, quero ser deixada em paz. Me poupem. Melhor ficar quieta antes que eu exploda algum conglomerado químico desses que convencem a todo mundo que sem tarja preta, não há solução. Já chorei de me acabar hoje. De um lado, a minha catatônica mãe anulada pelos terríveis anti-não-sei-o-quê que tratam a esquizofrenia. Uai, gente. Não era alzheimer que ela tinha? E com a falta da droga - que a essa altura já comeu o cérebro da pobre mais que os beta-amilóides - ela passou três dias chorando sem parar. Eu também. Pela miséria dela, e pela minha própria com esse marido que saiu de férias na terra da mente anestesiada,
HELP! Abaixo as drogas legais!
Periferia, sorry. Um mundo desses que nos faz sentir péssimos 98% do tempo deve ter alguma coisa errada. E agora essa iniciativa milionária do lobby verde: vejam o filme! Comprem o dvd! Comprem carro híbrido! Comprem a absolvição a crédito, ou o apocalipse, inevitavelmente, virá!
C H E G A.
Enquanto eu via o filme, fiquei pensando nos africanos de zilhões de anos atrás, vendo a terra rachar e se afastar... irremediavelmente em direção à futura América do Sul. Nossa. Deve ter sido um drama assustador. Ainda bem que naquela época não tinha satélite, vai ver que os estúpidos neandertais nem perceberam que o mundo deles was about to change.
Gente. Eu mesma duvido de mim quando me sinto tão revoltada com esses eco-alarmistas, mas é que estou num psicolimite. Não vejo muita diferença entre os catastrofistas pseudo-apoiados pelo conhecimento científico e os demais, sério. Quando mamãe era garota, já era assim:
Pois é, gente. Vai beijar um pouco que faz bem, e pára de achar que a vida é uma merda. Porque se a gente pensar bem, vai ver que na maior parte do tempo... é mesmo. Que a gente é responsável pela própria miséria é fato, já pelo resto... Não sei. E pernas pro ar que ninguém é de ferro. Falar nisso, o mundo, até hoje, não se acabou. E graças a Deus que o blog é meu e ninguém tasca: nesse pedaço de pensamento aqui sou eu quem mando, e nele escrevo o que bem entender.
Enquanto me sento pra escrever tem uma criança no prédio ao lado se esgoelando, quase pra morrer de tanto chorar. Tô feito ela, juro. Mais um pouco, e vou me esgoelar também. Que bom ser criança e poder se expressar assim tão livremente, não é? Uma tristezazinha e logo se ver cercada de mãe, babá, carinho. Eu não. No meu caso só ouviria um "manteiga derretida" e pronto. Deve ser por isso que sou assim, tão abusada. Carente. Fora isso, tô com a Cora. Não tem nada mais alentador que morar na zona sul do Rio, cercada de belas vistas por todos os lados. A árvore da Lagoa acesa ainda não vi, só a feiosa com as bolas grotescas, mas tá certo: nem tudo é o que parece, e uma boa luz dá jeito em quase tudo. Quanto ao caos aéreo, Cora, é uma questão de consciência. Enquanto a gente desconhecia, viajava tranqüilamente e, na maioria das vezes, nada acontecia. Na vida é igual, eu acho. Acredito que Deus (se existe) protege os inocentes. Ou protegia. A época não está pra ingenuidades, e forçados a saber de tudo, só nos resta aprender a lidar com isso. É duro, eu sei. Que saudades, meu Deus, da minha infância querida... da aurora da minha vida... dos anos alienados que não voltam mais... E por falar em consciência, botei ontem no player a propaganda ecológica do Al Gore. Achei chato e moroso, e aquela fala lenta - como se fôssemos todos, na audiência, criancinhas retardadas - me irritou, sério. Infelizmente pra ele, a temporada dos furacões não se repetiu, manchando a reputação de profeta que ele tanto persegue. Continuo eco-cética e passo muito bem sem esse catastrofismo todo, mas... poluição é o fim. Tá certo. Aquecimento global ou não, dou a maior força para combatê-la. Dieta de carbono nela, gente. Respeito à natureza é bom, e eu gosto. Endosso. Pois é. Estou mesmo macambúzia, e se você não sabe o que é isso, faço minhas as palavras do Veríssimo no Globo de hoje: melhor parar por aqui. Mas se é da turma bipolar, que sofre mas segue em frente, esclareço: quer dizer carrancuda, sorumbática, taciturna, triste. Tá no Aurélio, e não é pra menos. Tudo ia muito bem, até o Alan resolver tomar de novo a maldita pílula azul. Não suporto essa droga, e quem me lê, sabe. Personalidade alterada, libido abalada, rima adulterada. E não é viagra não, é do valium que estou falando: o inferno não é vermelho, gente. É azul, garanto. Praga da civilização, e fabricado aqui mesmo. No laboratório. Só me resta declarar o Natal, esperando que a luz dê jeito. Adia tudo pra depois que a hora é essa, vou pra Parati e tchau procês. Lá sou amiga... da paz. Deixo os problemas todos para trás. Ou pra 2007, antes que eu desista de vez.
Hoje tudo contribuiu. Meu dia começou lendo a crônica da Cora que até levantou um pouco o moral dos tucanos, causou um certo alívio... que durou pouco. Me meti nos comentários do blog dela mas sucumbi à força argumentativa dos petistas. Não agüento mais, gente. Ontem tive uma conversa agoniante com o personal lá da academia que freqüento, e olhe que somos os dois alckmistas, relutantes, mas somos. Os dois desalentados com a cegueira que assola a maioria eleitoral do país, os dois concordando nos argumentos e nem assim suportei. Achei melhor sair. Pois no blogtequim da Cora me sentei e o argumento virou amor pelo Brasil: sou eu que amo mais, não! sou eu que amo mais ainda e esse jeito de amar que anula tudo o que está em volta vai acabar nos destruindo. Pedi pra Cora pra entrar no clube dela e ela foi gentil na resposta: é só chegar. Corinha, querida. Não quero só chegar. Quero que você visite o meu blog, adore o meu texto, e o recomende na sua coluna. Ah, bom. Foi aí que acordei. Com o telefone. Era uma amiga que acabou de publicar um livro e resolveu me contar em detalhes a odisséia trágica. Tudo até que ia bem, eu sempre quis explorar os bastidores de escritores que conseguem chegar lá - não importa a que preço - quando ela resolveu me contar em detalhes o processo terminal do marido que sofria de alzheimer. Foi aí que eu tive um verdadeiro ataque de realidade e descobri, não importa o que digam os Eugenes O'Neils da vida (ops, O'Kellys), que estou montada numa bomba de fósforo prestes a explodir... e transformar em cinzas mais uma vez meu sonhado teatrinho de alma gêmea, dessa vez com vista pro Cristo e tudo. Gente, não mereço ser feliz. Já tive a minha cota, dois anos de amor full-time com gozo e tudo, e parece que está na hora de acordar, get a job... porque "get a life" não seria o caso... nem "get a room". Já tenho ambos e corro o risco de ser obrigada a abrir mão. Papo bonito esse de aproveitar a vida a cada dia, que infelizmente só funciona se a conta bancária segurar. O que não é meu caso. O problema não é a pobreza anunciada, gente. O problema é que a pobreza se anuncia para mim... essa pessoa genial, com QI comprovadamente bem acima da média, bem preparada, designer talentosa e quiçá escritora de talento também... 54 anos de esperança correndo céleres para o ralo. A culpa é do Lula, gente, só pode ser. Do Lula e da curriola que se aliou a ele, afinal de contas, foi ou não foi o infernal cruzado dois do governo Sarney que destruiu a minha loja? Meu primeiro sonho de sucesso quando eu ainda era jovem, esperançosa e badalada? Sério. Minha vida não está de se agüentar. É muita frustração junta e não há blablablá de auto-ajuda que dê jeito. Ainda por cima cometi um erro esta manhã, um erro de julgamento e de estratégia comercial: registrei no registro.br um dominio novo, com o qual esperava agilizar e incentivar as visitas aqui ao blog: www.nogalubiczsklar.blog.br. Não precisei de mais de um telefonema para o suporte do meu servidor pra me dar conta do tamanho do meu engano: foi um tal de ene-o-gê-a-ele-u-bê-i-cê-zê-esse-ká-ele-a-erre repetido à exaustão e nada do cara encontrar o meu domínio. Gente! Até meu nome é inviável! Bom. Nada mais inevitável do que um nome, não é? A não ser para os adeptos do Osho, claro, o que também não é meu caso. Caí em mim rapidinho e corri pra registrar uma opção mais light: noga.blog.br. Bom. Quem dera os nossos líderes tivessem tal dose de autocrítica, curta e grossa. Certamente dariam um jeito no Brasil. Quanto ao blog próprio, a esperança de dinamizar o acesso à casa e, por tabela, ao meu texto... Tá rolando, gente, tá rolando. Antes do inevitável e deprimente lulalá comunicarei aos que me curtem o novo endereço. Até lá, galera... Rezem, rezem, rezem. Não há fé suficiente nesse mundão de Deus pra nossa necessidade de milagre. Aqui em casa e no Brasil também. Ah, sim. Verdade. Isso também passará.
Como se não bastasse eu estar deprimida ainda por cima acabo de ser despejada: esta semana será decretado o fim do limbo. Com todo o respeito que o Bentinho merece, acho que a existência do purgatório é bem mais improvável. Liqüida ele, xará. Quem já passeou por outros mundos em viagens xamânicas sabe: o limbo existe mesmo, uma zona cinzenta, nevoenta, por onde vagueiam as almas perdidas. Não fosse por aí bastaria a realidade poética do conceito. O limbo está presente nos meus dois livros. Gente! Será que vou ter que reeditar? No meu primeiro, Fases da Lua, dá nome a um capítulo. No Hierosgamos é ainda mais importante: quando Alan e eu nos encontramos, ele declarou com todas as letras: estou no limbo, meu amor. Se fosse hoje ele estaria aonde? Do purgatório teria sido bem mais difícil resgatá-lo. E nos últimos tempos, com meus altos e baixos emocionais entrando e saindo da depressão, tenho passado umas boas temporadas lá mesmo: no limbo. Quem já amou, quem já gozou sabe que o paraíso existe. E do outro lado, quem já sofreu por amor, por abandono, com certeza já esteve com um pé no inferno. Não tem nada a ver com pecado, ou batismo... mas com a poesia, sim. Bem sei que tais conceitos formam a base teológica da igreja católica, mas não reconheço no Papa autoridade para cancelar ou não o limbo, um estado de alma que pertence a toda humanidade, independente do credo. Li bem direitinho os motivos do cancelamento hoje no jornal e, sinceramente, não entendi nada. Até aí tudo bem: tem muito coisa na própria liturgia judaica que eu custo um bocado a entender. Agora falando sério, gente. Será que evoluimos tanto como raça a ponto de prescindir do limbo? E quem sabe em breve de outras fantasias morais como inferno, paraíso ou, vá lá, purgatório? O que eu entendo disso é uma coisa só: tudo não passa e nunca passou de blablablá, e o que existe na vida real é o aqui e o agora... Pra ir além, só mesmo com licença poética e sobre esta nem mesmo o Papa Bento tem jurisdição.
Acabo de ler no Segundo Caderno uma entrevista do sensível Iñarritu sobre a perda e a impossibilidade do amor, temas de seu último filme em exibição no Fest-Rio, que não verei desta vez. Vou esperar o dvd. Mesmo porque essa questão da impossibilidade do amor tem me deixado deprimida. Estou a um passo de acreditar nela, e por diversas razões, não posso. Nem que seja pra me manter firme na campanha pela publicação do Hierosgamos aí do lado. O amor não é impossível, somente raro. E quando acontece, a realidade árida e consumista de nossos dias conspira contra. Veja o meu exemplo. Encontrei o amor algumas vezes, e em todas mergulhei fundo e me dei a ele sem restrições. A última vez foi de todas a mais revolucionária, mais marcante. A tsunami de energia que me pegou de jeito me levou a atravessar o continente, sair do limbo, abandonar a conformidade e a aceitação da morte iminente. Toda a minha vida pregressa se mostrou... CORTA.
oct 2 2006 10:26 am Se eu me chamasse Claudete e estivesse a bordo do 1907, me transformaria num case de sucesso. Péssima rima e solução pior. Recomecei assim ontem de manhã correndo na esteira meu post sobre depressão, numa tendência declarada para o mau gosto. Pensei em mim mortinha enquanto acompanhava pela tevê a descrição detalhada dos destroços de corpos e avião, barra pesada, porque eu pensava: tanta gente animada, pronta pro futuro e abandonando a vida de forma tão abrupta e eu aqui, cansada, humilhada e pronta pra partir, condenada a prosseguir desse jeito mesmo. Ou então, se ele estivesse no vôo, nossa, que pobre, desconsolada viúva, confortada por todos. Mas como não é o caso, se souberem que meu casamento corre sério risco por falta de grana, de trabalho e de paciência serei desprezada, rotulada como fracassada, impotente. Acredito que todos os deprimidos deveriam ser confinados, silenciados em sua própria dor inconveniente, porque deprimido, francamente, abusa da falta de respeito como eu aqui e agora, mas lamento. Tais pensamentos me ocorreram e os calei momentaneamente, mas aqui os relato um dia depois porque não é meu projeto de blog ocultar nada. O fato é que fui correndo, injetando adrenalina na veia por pura resistência aos fármacos tarjapreta que Alan acredita que eu precise, esse mesmo Alan que de vez em quando se esquece de ser marido e se transforma contra a minha vontade em terapeuta radical do Synanon Game. A coisa foi passando e fui chegando num planejamento de emergência para vencer a crise que reza o seguinte: - outubro: dedicação total ao projeto de melar a candidatura Lula - novembro: retomada dos contatos com editores - dezembro: descanso, gente, uma relaxada porque é natal e ano novo e etc etc depois do meu aniversário em janeiro se nada se resolver, nenhuma porta se abrir, nenhuma esperança se impuser, francamente. desisto, seja lá o que for que isso signifique... CORTA.
oct 3 2006, pois é, gente. Andei na pior desde sexta. Começou com as crescentes exigências do estado de saúde de mamãe e se somou à indefinição e ao pânico que eu sinto com referência ao fim dos recursos e como é que vai ser? Como é que vai ser? Caí no pranto convulsivo e o Alan ali, me instigando, chora mais, chora mais. Põe a raiva pra fora, mas eu não sinto raiva, só um desalento que contamina tudo. Pode ser neurose, ele garante que é. Não dá pra ficar no amor com essa depressão toda, essa impressão nevoenta de descaminho, mamãe doente há anos, minha carreira de escritora travada, minha conta bancária emperrada. Por enquanto, o Alan diz, por enquanto. Enquanto a única saída que ele vê é faturar na América, um empreendimento a meu ver de alto risco para o nosso casamento e tome de desalento. Não sei se é porque os "dois anos de paixão" que a ciência reconhece estão chegando ao fim e eu me vendo obrigada a baixar a cabeça pra estes filhos-da-puta racionais e mesquinhos que tentam enquadrar o amor. Não sei, não, acho que não, deve ser químico mesmo mas de outra natureza. Sei lá, é o que mais se diz em literatura moderna. Sei lá e deixa pra lá, mas agora não dá. Depressão é assim, esvaziada de toda lógica. Só quero saber o seguinte:
PORQUE SOU SEMPRE EU? SENDO OBRIGADA A ABRIR MÃO DA MINHA FELICIDADE? FRUSTRADA? FRACASSADA? HUMILHADA?
CORTA.
Acho melhor cortar tudo aí em cima porque joguei um tarô, sim, sim, eu faço isso de vez em quando quando o calo aperta, e em resposta à minha questão o que fazer para conseguir dinheiro... veio: compartilhe com os demais a sua sensibilidade, sua capacidade de amar, de iluminar, sua beleza interior.
Vou nessa. Nos ups and downs da minha vidinha. Meu recado aí do lado é só no up mesmo e tem que dar certo por uma razão indiscutível que ainda não consegui deixar clara e nem por isso... (enquanto me afogo deprimida na exigüidade de tempo que a falta de alento me permite). Meu texto é bom. Pode conferir dando o seu download*.
- What are you watching? - Oprah. - Why? - 'Cause I'm depressed.
Verdade, eu vi a Oprah. Dois dias seguidos, como se um não bastasse. Eu não fazia idéia de que a coisa fosse assim, esse rosário explícito de miséria humana. Em apenas dois dias eu vi: - uma mulher sem rosto e sem mãos, totalmente queimada num acidente de carro - outra mulher vítima de câncer que teve metade do rosto destruído - outra mulher cujo marido tentou matá-la duas vezes, e que teve metade do rosto destruído por um tiro na cabeça. um não, dois - outra mulher monstruosa pesando 250 quilos. cortou o estômago e ficou quase normal - outra mulher, esta: fez mastectomia dupla e teve duas vezes câncer no cérebro - pra variar um menino, 13 anos, preso à cadeira de rodas mais complexa que já vi, um poeta. pouco depois o garoto morreu Agora me digam: como é que esta mulher está milionária? Quem é que gosta da miséria alheia a ponto de dar a ela índices imbatíveis de audiência? Tudo isso é pra quê, mesmo? Pra gente sentir que as nossas miseriazinhas são desprezíveis, que mesmo com todos os problemas somos privilegiados? Quanto a mim, fiquei dividida. Não sei se me senti feliz por ter pelo menos boa saúde e um marido que maltrata mas não mata... Ou se fiquei mais deprimida ainda, com um medo pânico do câncer me pegar e, além de tudo que já enfrento, ainda por cima perder os meus peitinhos. (e ser obrigada a dar a volta por cima, me sentir linda mesmo mutilada, uma mulher de fibra) Francamente. Essa mulher devia ser interditada. A Oprah, digo. Um show de horrores que faz mal à saúde física e mental de qualquer um, e a maioria dos seguidores dela nem percebe, com todo respeito às vítimas que ela exibe. Ah. O negócio dela é mostrar heróis cotidianos, gente que come o pão que o diabo amassou e ainda pede bis. Tô fora.