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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer."
J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo





De um Éden de araque e outros jardins

Pouco depois de desembarcar no Rio em 1937, aos dez anos, Soil Zuchen exclamou para o pai, em idish: “Is a gan eiden”: o Brasil era um jardim do Éden, aonde os vizinhos puxavam conversa com os recém-chegados e as crianças judias andavam na rua sem ser alvo de zombarias.
Heliete Vaitsman in Judeus da Leopoldina


Dizem que quanto mais alto o cavalo maior o tombo, seria isso mesmo?, tell me about it: Alan vive me acusando de viver assim meio-demente, perigosamente no fio que o valha, diz que é doença, que preciso tomar umas pílulas pra curar de vez a malévola rotina ora excitante ora deprimente, mas, gente. Se pra mim viver assim é, no final das contas, o que faz de mim eu mesma, esta cronista brilhante, uma bola viajante que oscila delirante entre o topo e o fundo, bipolar de carteirinha, coitadinha.

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Gota d'água

O hábito é o grande mitigador.
Samuel Beckett


E por força do hábito de beber de outras fontes, de citar o que é sempre citado e que sobremaneira se agravou com a internet, lá ia eu citando Chico, "um poço até aqui de mágoa", ou outro Beckett bem mais conhecido — vocês sabem, aquele autor animador de "fracasse melhor" que (mundo pequeno) quase se casou com Lucia, a filha demente de Joyce e Nora, se lembram dele? —, "I can't go on, I'll go on", vírgula, que Gerald Thomas esta semana no IG, em sua despedida online dos palcos iluminados desta egóica vida, abastardou, "I won't go on", jogou a toalha, pendurou a chuteira, chutou o pau da barraca e deixou que a lona cadente e malcheirosa da depressão finalmente o sufocasse, que pena, será que o Frontal acabou?

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Trindade de quatro

Quando eu já ia me preparando pra voltar à ativa depois de uma desculpa ou duas e o blog por um fio — toda animada como uma menininha perdoada, que já se esqueceu do "castigo divino" que a deixou prostrada —, eis que me deparo — no link do Facebook, que fique bem claro, abaixo os excessos da hiperexpositiva tecnologia que nos vicia, não era isso que eu escrevia no outro dia? — com abrangente artigo de Daniel Lopes sobre Deus, uma tolice, ops, crendice, e confesso a vocês: coincidência ou não (já que para os que creem coincidências não existem), já me inclinava a pinçar, entre tantos outros temas instigantes — como a volta de Maureen Dowd, por exemplo, ou o discurso de Obama para aliciar os estudantes — uma boa retomada teossimpatizante, inspirada, nem mais nem menos, por "Oh, God!", delicioso filme infantil na HBO (até Deus concorda, imaginem só, e um escolar BHO enfatiza: é de pequenino que se torce o pepino), seria mesmo infantil essa crença infalível em algo maior que a gente? Porque fé na vida, a gente sabe, é uma ilusão de caráter que se desfaz infalivelmente ao final da juventude otimista, e é por isso que dói tanto, pensem bem, "confiar em alguém com mais de trinta anos", se é que vocês me entendem. Já passei por isso.

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A gente somos mesmo inútil

A gente escreve livro e não consegue publicar/ A gente somos inútil/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente somos inútil
Ultraje a Rigor


Em simpática mensagem de apreço o leitor Jacob Goldemberg, novo adepto declarado deste perene desabafo online que é o Noga Bloga, alimentado desde o seu remoto início, a longínquos 1705 posts atrás, por frustrações eternas de genial escritora rejeitada — é, gente, ando mesmo carente, precisada demais de contar e divulgar as raras bênçãos quando as recebo, sabem como é —, me pergunta se vale a pena insistir num blog, sempre vale, Jacob, tudo sempre valerá, isto é, se a alma não for, etc., etc., não é? Mas a verdade é que o comentário dele me pegou num dia ruim, vocês sabem, tenho andado meio deprimida.

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MMM no PPP

para SM



Posto-me curiosa a observar de fora meu primeiro dia de deprimida, desde que moro nesta maravilha, ou vocês pensavam que o paraíso era à prova de depressão? Ou de perdição*? (PPP) Devo confessar: eu pensava sim. Que nunca mais teria tempo ruim depois de provar a mim mesma (e ao resto do mundo, ah, o artista, este eterno carente) que eu era capaz de ser tão bem-sucedida em alguma coisa.

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Em busca da felicidade oculta

"E quando volto aos Estados Unidos mais ou menos a cada três meses e pego um jornal, descubro que não perdi tanto assim afinal. Enquanto estive relendo P.G. Wodehouse, ou 'Walden', a loucamente acelerada montanha-russa do ciclo 24 hs por dia de notícias propulsionou as pessoas pra cima e pra baixo e pra baixo e pra cima e depois as deixou praticamente no mesmo lugar em que haviam começado", escreve, no NY Times, Pico Yier*, um bem-sucedido jornalista de Park Avenue que largou tudo para viver num templo escondido no Japão, lendo e escrevendo quando lhe dá na telha com uma tangerina fresca na mão.

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Porcos voadores

ou... nem só de Joyce vive o intraduzível

Swine flu when pigs had wings.
Alan Sklar


Está no Los Angeles Times, num — bastante inadequado ao fatalismo vigente — rasgo otimista: "especialistas parecem estar chegando à conclusão de que, em sua forma corrente, o vírus H1N1..." — cumpre esclarecer, responsável virótico pela gripe suína, assim oficial e eufemisticamente renomeado para preservar o florescente comércio da magra carne branca dos criadores de porcos, após tanto e tão caro sacrifício finalmente libertos do estigma kosher, reflitam, estúpidos: será que é mesmo a economia? Vai que Deus castiga.

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A guerra dos cem dias


Com tanta coisa encaminhada e prestes a terminar — casa encantada, livro aprontado no prelo e, claro, como consequência meio que inevitável nesta estressante rotina criativa sob um automecenato apertado, o saldo minguando no banco — tenho testado em meus dias e noites minha enxaquecosa resistência à pressão externa e descubro: é bem mais limitada do que eu acreditava.

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A farra do chá

Hay gobierno? Soy contra.
(lema anarquista das antigas, nem mesmo no Google descobri de quem e de quando: desculpem a ignorância de uma ex-hippie, a que não fui não tendo jamais sido)


"A Festa do Chá de Boston", alerta a wikipedia, "foi um protesto dos colonos de Boston, uma cidade na colônia inglesa de Massachusetts, contra o governo britânico. (Este artigo se refere a um protesto de 1773. Para outros usos, busque Festa do Chá de Boston*)."

foto: Reuters

Poucas coisas, vamos combinar, são tão patéticas quanto procurar reeditar, ou mesmo tentar compreender à meia-luz confusa que a teia difusa do tempo engendra — tempo: clássica ilusão palpável que todos experimentamos tão fundo, tanto na carne quanto na mente —, fatos atuais incongruentemente descritos na língua do passado.

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O medo (i)moral de nossos dias

Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor desta vez.
Samuel Beckett


A gente percebe que está com sérios problemas quando passa uma semana inteirinha, e uma semana importante como essa (para a posteridade: a do G20), republicando palavras e imagens alheias. Mesmo que sejam sábias, poéticas, instigantes. Algumas até de vergonhosa memória mas mesmo assim memoráveis, como este nazista "Triunfo da vontade" aí embaixo, fazer o quê, me desculpo, mas foi o que me veio.

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Causas impossíveis

"A arte é sempre e em todo lugar a confissão secreta, e ao mesmo tempo o movimento imortal de seu próprio tempo."
Karl Marx


1. Tudo bem. Eu entendo. Deve ser minha própria tendência particular à depressão, esse caro e intermitente transtorno elemental que entorta os meus temas e faz com que eu queira, digamos assim, que esta crise social não termine tão cedo, mas e daí?

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Remorso de comprador

Está no email que recebi esta manhã, com as últimas notícias da imprensa americana, artigo do L.A. Times sobre "o que os Democratas sabem fazer melhor: se preocupar." O problema é quando a preocupação, devida ou não, toma tanto espaço na mente da gente que acaba impedindo qualquer outro tipo de ação, mental ou não, se é que vocês me entendem.

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EUA dizem ter matado líder terrorista

ou de como um escritor aposentado mudou o mundo numa manhã chuvosa de domingo

Pra quem achou meu post aí de baixo confuso e desnecessário como eu mesma achei, segue historinha curiosa sobre os descaminhos da informação, vejam só, parece até filminho da HBO, daqueles baseados em fatos reais. Ontem pela manhã Alan leu no site da Reuters a seguinte notícia:

"U.S. claims victories against al Qaeda in Iraq " (Aug 5, 2007 6:51am ET)

Acontece que o Alan é um sujeito que dedica a vida de aposentado a fuçar informação e a intervir subliminarmente nela, e tendo detectado um problema semântico de credibilidade na manchete da agência, enviou ao editor o seguinte email:

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Movida a lítio

Eu poderia estar falando de mim, mas não estou. Se estivesse falando de mim, botava pra dentro uma boa dose da droga e atingia assim um desejado equilíbrio emocional, caía logo fora da gangorra de humor que tanto me atrapalha. Passava por cima da invisibilidade a que ando condenada e planava pela vida com uma leveza de pássaro. Eu poderia estar falando de invisibilidade literária, mas não estou. Se fosse este o assunto, não negava ignorar a solução, botava pra fora uma boa dose de otimismo e passava pelo talento assim, com a autoconfiança de um gênio. Se eu estivesse falando da invisibilidade em família - e esta sim, seria uma real possibilidade - lamentaria uma ignorância mútua, de mão dupla. Que poderia até, convenhamos, me fazer muito bem. Mas quando o assunto é o futuro breve de mamãe e a manipulação mirabolante dos recursos que restam, a invisibilidade a que me condenam faz muito mal. E ainda tenho que ouvir:
- Vamos aplicar o dinheiro na bolsa, dar para fulano. - gulp. Sim. Brilhante. Aplicar no vaivém da bolsa o trocado do supermercado, hum, receita certa de... bancarrota.
- Sua mãe ainda vai viver aí uns bons 5 ou 6 anos e não vai morrer de alzheimer. Alzheimer não mata. - hum. Sim. Consolador. Viverá uns bons brilhantes 5 ou 6 anos rígida no corpo e na mente, aproveitando com prazer o tempo que lhe resta, hum, receita certa de... desalento.

Mas como não estou falando de invisibilidade em família, nem de invisibilidade literária, nem de lítio em pílulas, vamos logo ao que interessa: é da bateria de lítio do notebook que eu estou falando. Começou a falhar esta manhã - apesar de carregada - com a luz piscando e um "x" de alerta, hum, preciso comprar outra, um problema nunca vem só, hum, lá vai verdinha, receita certa de... baixa em caixa. Respirei fundo, fui à praia, e quando voltei, tirei a bateria do lap só pra conferir o número de série, anotei, botei de novo, liguei o bicho, que funcionou perfeitamente sei lá como, mas graças a Deus, com a bateria 100% carregada, haja tecnostress: questão adiada.
Ah, gente. Se com a mente fosse tão fácil, só uma questão de carga, e se estivesse esgotada, de umas cento e poucas verdinhas... e olha que tenho, com boa freqüência, trocado a pilha... ou como se dizia no meu tempo, trocado o óleo, se é que vocês me entendem...
Do jeito que está, só com lítio mesmo. Infelizmente sou contra todas as drogas.

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Súbita timidez

Quando eu tinha loja já era assim: fora de lá, tímida pra caramba, raramente um gesto ousado, em prol do meu próprio avanço. Mas uma vez lá dentro, ah, gente, uma beleza: um personagem inventado, mundano, criativo, capaz de qualquer coisa. Respaldado, é claro, pela assessoria de imprensa muito bem paga - que resultava em amplo apoio da mídia -, benefício que ora me falta.
Aqui no blog tenho me servido, de vez em quando, de um escape semelhante, embora a idade - e a franca necessidade - tenha me aliviado um pouco.
O caso é que encontrei há pouco este editor cuja amizade, mais que assinatura em contrato, tenho almejado conquistar. Um sujeito que tenho certeza, se a oportunidade tivesse, seria capaz de me entender, apreciar. Sendo a coisa pra mim importante, foi conseqüência imediata: fiquei tímida, lá se foi para o brejo oculto de Minas a escritora mundana, brilhante, viajada, sabendo um pouco de quase tudo; é só personagem, gente. No fundo no fundo me sinto, quase sempre, ninguém.
Quem andava na praia no feriado de ontem me viu: um esforço hercúleo de memória, eu sabia, sabia que já tinha usado aquilo, aquela música que não me lembrava o nome num texto que já não sabia qual, mas que tinha usado, tinha, e finalmente me lembrei de tudo, foi um alívio e comecei a cantarolar a música, com a letra certinha e o parágrafo recuperado. Verdade seja dita, eu tinha até cortado a bendita do texto final, mas uma oportunidade como aquela, de me comparar a escritor famoso, não haveria tão cedo igual: voltei com a letra em negrito para o fim da frase e comecei a escrever, mentalmente, um email pra ele, relatando o fato. Mas hoje de manhã a timidez bateu e achei que a carta toda, francamente, era pretensão demais. Como saiu caprichada, em si, um textículo com pretensões literárias, peço licença pra usar o blog e eternizá-la. Ui. Se bater bravura, mando o link mais tarde pra ele.

Caro R, até canção de Adamo como Vila-Matas já citei, mas não foi "Tombe la neige", veja (perdi a oportunidade no teu post, de transformar canção em livro, e agora é tarde):

"Quarta-feira, 8 de dezembro
Mein Liebe Alan, escrevi (em alemão)... Tu me reveilles, eu disse, saindo de um longo transe para uma vida gratificante, je vous offre le gris de jours passés sans bruit."

Mas isto foi em
outro livro - sem querer me comparar, Deus me livre - onde me comparo também a Joyce (ah, sim, J.J., lerdo lúbrico lingüista... ) e a Shakespeare (o animal de duas costas, é aí que bate o ponto), foi só brincadeirinha ou memória infiltrada, coisa de geração, mesmo, e ainda por cima num diário íntimo sexual - onde a forma contesta a função numa onírica continuação da Bauhaus - até hoje inédito, por obra e graça das toupeiras literárias do marketing editorial (esta aí já foi plágio mesmo). O fato é que naquela mesma noite encomendei online na Fnac o Mal de Montano, que engoli enquanto você escrevia de London/Paris - numa primavera que não acaba nunca porque coincidências não existem -, e escrevi no blog a respeito, segue link.
Agora, caro R., me diga: se te chegasse um obscuro Vila-Matas por correio ou mero email, sem referrers, você... publicava?
Enfim. (este "enfim, ponto" foi plagiando mesmo ou, mais modernamente, sampleando V-M). Valeu a recomendação, adorei. Beijo/ N.

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Nos bastidores

Meu marido andava triste, meio perdido, deslocado na "caixa de concreto perdida na América do Sul" e eu preocupada, pedindo a Deus uma solução (ih. parêntesis. esqueci que sou agnóstica mas deixa assim mesmo só por cinco minutos, desligando o firewall do pensamento racional), quando a salvação caiu do céu e ele começou a postar em inglês, numa revista online sobre o Brazzil: o homem mudou da água pro vinho. (Agora chega. Firewall restaurado) Só sei que ele agora passa as noites por lá, em textos elaborados, resolvendo os problemas do mundo... e os do Brasil também. O curioso é quando um pensamento desses, bastante original e às vezes ousado, aparece reproduzido alguns dias depois na mídia, às vezes na própria revista onde o coment foi postado. Ele fica feliz: "estou influenciando o mundo".
É claro que existem coincidências, e de acordo com Rupert Sheldrake, um pensamento coletivo e para sempre dinâmico que nos inclui, mas a coisa às vezes extrapola. No meu caso, não tenho este tipo de pretensão, mas quando acontece... penso... Quem sabe alguém leu aqui no blog? Porque até coincidência, gente, tem limite. No Globo de hoje são dois os casos. O primeiro me deixou contente, e coloca o Nilton Bonder na capa da revista. O cara merece, e levantei a lebre, está pra quem quiser conferir, no dia 30 de março. O outro é mais impressionante: saiu no Agamenon. Confere lá, e confere : dei uma semana de dianteira pra eles, rsrsrs, mas mesmo assim eles me pegaram. Continuo anônima, nos bastidores da blogosfera.
O caso é que com tudo isso, e com Júpiter francamente me favorecendo (opa! desta vez é vírus, só pode, eu é que não fui, desligando de novo o firewall) tenho me sentido otimista com meu futuro de cronista. Isto é, vinha. Me sentindo, quero dizer. O impacto positivo do meu encontro com P. durou até esta manhã, quando acordei racista, simplista e homofóbica, morrendo de medo da repercussão do meu post de ontem (aí em baixo, nem precisa linkar).
Sou assim, gente, ciclotímica desde criancinha: às vezes corajosa às vezes covarde. Às vezes à frente da notícia, mas via de regra... atrás: uma maria-vai-com-as-outras profissional. Profunda mas, quase sempre, na barafunda, tendendo ao pessimismo íntimo, apesar de publicamente messiânica. Deve ser por isso que com essa intuição toda - freqüentemente anulada pela insegurança - não consigo sair dos bastidores da mídia. Até quando, Senhor? Como diz em sua coluna dominical a Marta Medeiros, me dê a minha parte aí. (Opa. Melhor apagar tudo e reinstalar o antivirus, desta vez deu pau de vez.)

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Update

Quem acha que manter um blog é fácil, se engana. Muita gente boa já embarcou nessa aventura e, sem resistir muito, desistiu. Outros deixam o webespaço meio largado, dando uma palinha ocasional e pronto. Mas honrar o compromisso de comparecer todo dia ali, ó, chova ou faça sol, rindo ou chorando... não é pra qualquer um não.
Pois hoje só tô dando uma passadinha rápida, empenhada em botar o "Eu, Xamã" no ar inteirinho antes da voagem. Ops. Viagem. Falar nisso, gente, o livro já vai formando uma reputação decente, sendo quase tão visitado quanto esse blog aqui que vos fala. Fico feliz porque o conteúdo, apesar de esotérico, é bem legal.
Mas não é nada disso que eu quero contar. Quero é compartilhar que o Alan, graças a Deus (e à minha ousadia) melhorou. Me xingou um bocado, se desesperou porque joguei fora as preciosas pílulas dele (é o que ele pensa), mas hoje acordou bem mais forte, a voz normal e agora... glória das glórias... acabou de sair sozinho pra caminhar na praia e aproveitar a tarde. Ontem saímos juntos, ele arrastando a perna e se lamentando como se estivesse doente, e muito. De certa forma, vamos combinar, estava. Tem doença pior do que as da mente? Na Visconde de Albuquerque encontramos uma amiga da academia, que há dois anos acompanhara o nosso emocionante namoro na internet... Imagino ela morrendo de pena de mim, tão feliz por ter casado e agora amarrada àquele velho acabado e ainda por cima, manco! Essa foi de lascar, gente. Mas tô otimista e pra quem rezou... vai o meu abraço. Amanhã a gente se vê. Prometo.

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Amar é...

...não olhar um para o outro, mas olharem ambos na mesma direção


Eu sei, gente. Não existe nada mais cafona do que isso. Mas aqui em casa essa manhã foi uma questão de interior design. O Alan já vinha reclamando que a sala parecia um labirinto de rato, e eu teimosa dizendo que não havia outra solução estética. Passei os últimos três dias matutando sem chegar a conclusão nenhuma, mas hoje, numa situação de extrema emergência, comecei a arrastar os móveis de lá pra cá e resultado: ficou bacana. Sei que o apê é pequeno. Mas é no Alto Leblon, e cabe no nosso bolso... Bem. No que sobra do bolso da mamãe. E tem aquela maravilhosa, iluminada e inigualável vista do Corcovado, vocês sabem. Pois do jeito que ficou, a mesa de jantar, de um lado, é virada pro Cristo, e é por isso que a partir de hoje eu e Alan sentamos no mesmo lado dela. Olhando na mesma direção, entenderam? Na direção da beleza, de alguma esperança de futuro.
Porque a coisa aqui ficou feia hoje, gente. Pensei que ia perder o prumo. E o juízo. Eu já vinha reclamando que o Alan estava lerdo, a fala meio pastosa, mas pensei: é a primeira semana da droga do valium, depois melhora. Essa noite ele gritou comigo, tive que dormir na sala, mas pensei: ele está nervoso, o filho querido dele passando o fim de semana no Havaí com a mãe, está com ciúme, sei lá. Quando acordei, ele ainda dormindo, resolvi procurar as caixas do remédio, e só encontrei uma, completamente vazia. Depois mais uma, completamente vazia. A terceira não encontrei. Gente! Entrei em pânico! 60 comprimidos em cinco dias! Comecei a chorar, balancei o cara até que ele acordou, fiz um café bem forte e me preparei pro hospital. Pouco depois ele me trouxe duas caixas fechadas do remédio, tinha tomado uma e a outra era antiga, que estava guardada. Ufa. Mas no filminho da minha cabeça, era o malsucedido suicida, e tão infeliz assim, gente! Porque? Uma coisa inacreditável. Há menos de uma semana um homem forte, cheio de energia e talento, superpotente, e agora esse trapo humano. Até o pênis encolheu, sério. Quando me acalmei, li no jornal o depoimento da mãe que prefere ser mala a deixar a filha freqüentar essas raves de traficante. Tá certa ela, gente. Eu também, prefiro ser mala a ser viúva, e ainda por cima culpada. Ensaiei jogar a droga fora, mas não tive coragem. Escondi. Tenho medo da minha própria fraqueza, isso sim. Que num momento de amor benevolente eu acabe devolvendo a caixa pra ele. Mas Deus é pai, gente. Ele vai melhorar, e teremos nossa lua-de-mel em Parati. Quando a gente voltar, vou pegar o touro pelo chifre e ver se encontro uma solução para a tal da dor na perna neurológica que incomoda tanto a ele. Aceito sugestões... Rezem por mim. E por todos os viciados em drogas legais do mundo, gente. Olhemos todos na mesma direção que essa vida não tá mole não.

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Conversa mole

Não sei, gente. Tem alguma coisa me incomodando, uma pedrinha quase imperceptível no meu sapato. Quando escrevi o primeiro post do dia, eu tinha visto metade do filme do Al Gore. Só agora terminei. Não é que eu não concorde com as diretrizes da dieta de carbono. Concordo, até linkei. Mas esse filme... Não sei não. Eu odiei, gente. E quando eu souber porquê, prometo contar. Acho que me revolto contra toda essa grana gasta pra estressar mais ainda as nossas cabecinhas já a ponto de explodir. Tudo bem que é coisa de americano. Ora. Eles que poluem, eles que se ocupem de despoluir. Quero distância da disputa política deles, e ainda por cima velada desse jeito. E vem cá: quando o Al Gore mostra o gráfico igualando o crescimento populacional ao aquecimento global ele quer dizer o quê, mesmo? Matem os pobres que eles são poluentes? Porque crescimento demográfico, todo mundo sabe, é coisa de pobre. De terceiro mundo. Quanto a mim, quero ser deixada em paz. Me poupem. Melhor ficar quieta antes que eu exploda algum conglomerado químico desses que convencem a todo mundo que sem tarja preta, não há solução. Já chorei de me acabar hoje. De um lado, a minha catatônica mãe anulada pelos terríveis anti-não-sei-o-quê que tratam a esquizofrenia. Uai, gente. Não era alzheimer que ela tinha? E com a falta da droga - que a essa altura já comeu o cérebro da pobre mais que os beta-amilóides - ela passou três dias chorando sem parar. Eu também. Pela miséria dela, e pela minha própria com esse marido que saiu de férias na terra da mente anestesiada,
HELP! Abaixo as drogas legais!
Periferia, sorry. Um mundo desses que nos faz sentir péssimos 98% do tempo deve ter alguma coisa errada. E agora essa iniciativa milionária do lobby verde: vejam o filme! Comprem o dvd! Comprem carro híbrido! Comprem a absolvição a crédito, ou o apocalipse, inevitavelmente, virá!
C H E G A.
Enquanto eu via o filme, fiquei pensando nos africanos de zilhões de anos atrás, vendo a terra rachar e se afastar... irremediavelmente em direção à futura América do Sul. Nossa. Deve ter sido um drama assustador. Ainda bem que naquela época não tinha satélite, vai ver que os estúpidos neandertais nem perceberam que o mundo deles was about to change.
Gente. Eu mesma duvido de mim quando me sinto tão revoltada com esses eco-alarmistas, mas é que estou num psicolimite. Não vejo muita diferença entre os catastrofistas pseudo-apoiados pelo conhecimento científico e os demais, sério. Quando mamãe era garota, já era assim:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Beijei a boca de quem não devia...
Peguei na mão de quem não conhecia...


Pois é, gente. Vai beijar um pouco que faz bem, e pára de achar que a vida é uma merda. Porque se a gente pensar bem, vai ver que na maior parte do tempo... é mesmo. Que a gente é responsável pela própria miséria é fato, já pelo resto... Não sei. E pernas pro ar que ninguém é de ferro. Falar nisso, o mundo, até hoje, não se acabou. E graças a Deus que o blog é meu e ninguém tasca: nesse pedaço de pensamento aqui sou eu quem mando, e nele escrevo o que bem entender.

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Já é Natal...

Enquanto me sento pra escrever tem uma criança no prédio ao lado se esgoelando, quase pra morrer de tanto chorar. Tô feito ela, juro. Mais um pouco, e vou me esgoelar também. Que bom ser criança e poder se expressar assim tão livremente, não é? Uma tristezazinha e logo se ver cercada de mãe, babá, carinho. Eu não. No meu caso só ouviria um "manteiga derretida" e pronto. Deve ser por isso que sou assim, tão abusada. Carente.
Fora isso, tô com a Cora. Não tem nada mais alentador que morar na zona sul do Rio, cercada de belas vistas por todos os lados. A árvore da Lagoa acesa ainda não vi, só a feiosa com as bolas grotescas, mas tá certo: nem tudo é o que parece, e uma boa luz dá jeito em quase tudo. Quanto ao caos aéreo, Cora, é uma questão de consciência. Enquanto a gente desconhecia, viajava tranqüilamente e, na maioria das vezes, nada acontecia. Na vida é igual, eu acho. Acredito que Deus (se existe) protege os inocentes. Ou protegia. A época não está pra ingenuidades, e forçados a saber de tudo, só nos resta aprender a lidar com isso. É duro, eu sei. Que saudades, meu Deus, da minha infância querida... da aurora da minha vida... dos anos alienados que não voltam mais... E por falar em consciência, botei ontem no player a propaganda ecológica do Al Gore. Achei chato e moroso, e aquela fala lenta - como se fôssemos todos, na audiência, criancinhas retardadas - me irritou, sério. Infelizmente pra ele, a temporada dos furacões não se repetiu, manchando a reputação de profeta que ele tanto persegue. Continuo eco-cética e passo muito bem sem esse catastrofismo todo, mas... poluição é o fim. Tá certo. Aquecimento global ou não, dou a maior força para combatê-la. Dieta de carbono nela, gente. Respeito à natureza é bom, e eu gosto. Endosso.
Pois é. Estou mesmo macambúzia, e se você não sabe o que é isso, faço minhas as palavras do Veríssimo no Globo de hoje: melhor parar por aqui. Mas se é da turma bipolar, que sofre mas segue em frente, esclareço: quer dizer carrancuda, sorumbática, taciturna, triste. Tá no Aurélio, e não é pra menos. Tudo ia muito bem, até o Alan resolver tomar de novo a maldita pílula azul. Não suporto essa droga, e quem me lê, sabe. Personalidade alterada, libido abalada, rima adulterada. E não é viagra não, é do valium que estou falando: o inferno não é vermelho, gente. É azul, garanto. Praga da civilização, e fabricado aqui mesmo. No laboratório.
Só me resta declarar o Natal, esperando que a luz dê jeito. Adia tudo pra depois que a hora é essa, vou pra Parati e tchau procês. Lá sou amiga... da paz. Deixo os problemas todos para trás. Ou pra 2007, antes que eu desista de vez.

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Diário de uma depressão

Hoje tudo contribuiu. Meu dia começou lendo a crônica da Cora que até levantou um pouco o moral dos tucanos, causou um certo alívio... que durou pouco. Me meti nos comentários do blog dela mas sucumbi à força argumentativa dos petistas. Não agüento mais, gente. Ontem tive uma conversa agoniante com o personal lá da academia que freqüento, e olhe que somos os dois alckmistas, relutantes, mas somos. Os dois desalentados com a cegueira que assola a maioria eleitoral do país, os dois concordando nos argumentos e nem assim suportei. Achei melhor sair. Pois no blogtequim da Cora me sentei e o argumento virou amor pelo Brasil: sou eu que amo mais, não! sou eu que amo mais ainda e esse jeito de amar que anula tudo o que está em volta vai acabar nos destruindo. Pedi pra Cora pra entrar no clube dela e ela foi gentil na resposta: é só chegar. Corinha, querida. Não quero só chegar. Quero que você visite o meu blog, adore o meu texto, e o recomende na sua coluna. Ah, bom. Foi aí que acordei. Com o telefone. Era uma amiga que acabou de publicar um livro e resolveu me contar em detalhes a odisséia trágica. Tudo até que ia bem, eu sempre quis explorar os bastidores de escritores que conseguem chegar lá - não importa a que preço - quando ela resolveu me contar em detalhes o processo terminal do marido que sofria de alzheimer. Foi aí que eu tive um verdadeiro ataque de realidade e descobri, não importa o que digam os Eugenes O'Neils da vida (ops, O'Kellys), que estou montada numa bomba de fósforo prestes a explodir... e transformar em cinzas mais uma vez meu sonhado teatrinho de alma gêmea, dessa vez com vista pro Cristo e tudo. Gente, não mereço ser feliz. Já tive a minha cota, dois anos de amor full-time com gozo e tudo, e parece que está na hora de acordar, get a job... porque "get a life" não seria o caso... nem "get a room". Já tenho ambos e corro o risco de ser obrigada a abrir mão. Papo bonito esse de aproveitar a vida a cada dia, que infelizmente só funciona se a conta bancária segurar. O que não é meu caso. O problema não é a pobreza anunciada, gente. O problema é que a pobreza se anuncia para mim... essa pessoa genial, com QI comprovadamente bem acima da média, bem preparada, designer talentosa e quiçá escritora de talento também... 54 anos de esperança correndo céleres para o ralo. A culpa é do Lula, gente, só pode ser. Do Lula e da curriola que se aliou a ele, afinal de contas, foi ou não foi o infernal cruzado dois do governo Sarney que destruiu a minha loja? Meu primeiro sonho de sucesso quando eu ainda era jovem, esperançosa e badalada?
Sério. Minha vida não está de se agüentar. É muita frustração junta e não há blablablá de auto-ajuda que dê jeito. Ainda por cima cometi um erro esta manhã, um erro de julgamento e de estratégia comercial: registrei no registro.br um dominio novo, com o qual esperava agilizar e incentivar as visitas aqui ao blog: www.nogalubiczsklar.blog.br. Não precisei de mais de um telefonema para o suporte do meu servidor pra me dar conta do tamanho do meu engano: foi um tal de ene-o-gê-a-ele-u-bê-i-cê-zê-esse-ká-ele-a-erre repetido à exaustão e nada do cara encontrar o meu domínio. Gente! Até meu nome é inviável! Bom. Nada mais inevitável do que um nome, não é? A não ser para os adeptos do Osho, claro, o que também não é meu caso. Caí em mim rapidinho e corri pra registrar uma opção mais light: noga.blog.br. Bom. Quem dera os nossos líderes tivessem tal dose de autocrítica, curta e grossa. Certamente dariam um jeito no Brasil.
Quanto ao blog próprio, a esperança de dinamizar o acesso à casa e, por tabela, ao meu texto... Tá rolando, gente, tá rolando. Antes do inevitável e deprimente lulalá comunicarei aos que me curtem o novo endereço. Até lá, galera... Rezem, rezem, rezem. Não há fé suficiente nesse mundão de Deus pra nossa necessidade de milagre. Aqui em casa e no Brasil também. Ah, sim. Verdade. Isso também passará.

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Limbo

Como se não bastasse eu estar deprimida ainda por cima acabo de ser despejada: esta semana será decretado o fim do limbo. Com todo o respeito que o Bentinho merece, acho que a existência do purgatório é bem mais improvável. Liqüida ele, xará.
Quem já passeou por outros mundos em viagens xamânicas sabe: o limbo existe mesmo, uma zona cinzenta, nevoenta, por onde vagueiam as almas perdidas. Não fosse por aí bastaria a realidade poética do conceito. O limbo está presente nos meus dois livros. Gente! Será que vou ter que reeditar? No meu primeiro, Fases da Lua, dá nome a um capítulo. No Hierosgamos é ainda mais importante: quando Alan e eu nos encontramos, ele declarou com todas as letras: estou no limbo, meu amor. Se fosse hoje ele estaria aonde? Do purgatório teria sido bem mais difícil resgatá-lo. E nos últimos tempos, com meus altos e baixos emocionais entrando e saindo da depressão, tenho passado umas boas temporadas lá mesmo: no limbo.
Quem já amou, quem já gozou sabe que o paraíso existe. E do outro lado, quem já sofreu por amor, por abandono, com certeza já esteve com um pé no inferno. Não tem nada a ver com pecado, ou batismo... mas com a poesia, sim.
Bem sei que tais conceitos formam a base teológica da igreja católica, mas não reconheço no Papa autoridade para cancelar ou não o limbo, um estado de alma que pertence a toda humanidade, independente do credo. Li bem direitinho os motivos do cancelamento hoje no jornal e, sinceramente, não entendi nada. Até aí tudo bem: tem muito coisa na própria liturgia judaica que eu custo um bocado a entender.
Agora falando sério, gente. Será que evoluimos tanto como raça a ponto de prescindir do limbo? E quem sabe em breve de outras fantasias morais como inferno, paraíso ou, vá lá, purgatório? O que eu entendo disso é uma coisa só: tudo não passa e nunca passou de blablablá, e o que existe na vida real é o aqui e o agora... Pra ir além, só mesmo com licença poética e sobre esta nem mesmo o Papa Bento tem jurisdição.

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A impossibilidade do amor

set 29 2006 8:55 am

Acabo de ler no Segundo Caderno uma entrevista do sensível Iñarritu sobre a perda e a impossibilidade do amor, temas de seu último filme em exibição no Fest-Rio, que não verei desta vez. Vou esperar o dvd.
Mesmo porque essa questão da impossibilidade do amor tem me deixado deprimida. Estou a um passo de acreditar nela, e por diversas razões, não posso. Nem que seja pra me manter firme na campanha pela publicação do Hierosgamos aí do lado.
O amor não é impossível, somente raro. E quando acontece, a realidade árida e consumista de nossos dias conspira contra. Veja o meu exemplo. Encontrei o amor algumas vezes, e em todas mergulhei fundo e me dei a ele sem restrições. A última vez foi de todas a mais revolucionária, mais marcante. A tsunami de energia que me pegou de jeito me levou a atravessar o continente, sair do limbo, abandonar a conformidade e a aceitação da morte iminente. Toda a minha vida pregressa se mostrou... CORTA.

oct 2 2006 10:26 am
Se eu me chamasse Claudete e estivesse a bordo do 1907, me transformaria num case de sucesso. Péssima rima e solução pior. Recomecei assim ontem de manhã correndo na esteira meu post sobre depressão, numa tendência declarada para o mau gosto. Pensei em mim mortinha enquanto acompanhava pela tevê a descrição detalhada dos destroços de corpos e avião, barra pesada, porque eu pensava: tanta gente animada, pronta pro futuro e abandonando a vida de forma tão abrupta e eu aqui, cansada, humilhada e pronta pra partir, condenada a prosseguir desse jeito mesmo. Ou então, se ele estivesse no vôo, nossa, que pobre, desconsolada viúva, confortada por todos. Mas como não é o caso, se souberem que meu casamento corre sério risco por falta de grana, de trabalho e de paciência serei desprezada, rotulada como fracassada, impotente. Acredito que todos os deprimidos deveriam ser confinados, silenciados em sua própria dor inconveniente, porque deprimido, francamente, abusa da falta de respeito como eu aqui e agora, mas lamento. Tais pensamentos me ocorreram e os calei momentaneamente, mas aqui os relato um dia depois porque não é meu projeto de blog ocultar nada. O fato é que fui correndo, injetando adrenalina na veia por pura resistência aos fármacos tarjapreta que Alan acredita que eu precise, esse mesmo Alan que de vez em quando se esquece de ser marido e se transforma contra a minha vontade em terapeuta radical do Synanon Game. A coisa foi passando e fui chegando num planejamento de emergência para vencer a crise que reza o seguinte:
- outubro: dedicação total ao projeto de melar a candidatura Lula
- novembro: retomada dos contatos com editores
- dezembro: descanso, gente, uma relaxada porque é natal e ano novo e etc etc
depois do meu aniversário em janeiro se nada se resolver, nenhuma porta se abrir, nenhuma esperança se impuser, francamente. desisto, seja lá o que for que isso signifique... CORTA.

oct 3 2006, pois é, gente. Andei na pior desde sexta. Começou com as crescentes exigências do estado de saúde de mamãe e se somou à indefinição e ao pânico que eu sinto com referência ao fim dos recursos e como é que vai ser? Como é que vai ser? Caí no pranto convulsivo e o Alan ali, me instigando, chora mais, chora mais. Põe a raiva pra fora, mas eu não sinto raiva, só um desalento que contamina tudo. Pode ser neurose, ele garante que é.
Não dá pra ficar no amor com essa depressão toda, essa impressão nevoenta de descaminho, mamãe doente há anos, minha carreira de escritora travada, minha conta bancária emperrada. Por enquanto, o Alan diz, por enquanto. Enquanto a única saída que ele vê é faturar na América, um empreendimento a meu ver de alto risco para o nosso casamento e tome de desalento. Não sei se é porque os "dois anos de paixão" que a ciência reconhece estão chegando ao fim e eu me vendo obrigada a baixar a cabeça pra estes filhos-da-puta racionais e mesquinhos que tentam enquadrar o amor. Não sei, não, acho que não, deve ser químico mesmo mas de outra natureza. Sei lá, é o que mais se diz em literatura moderna. Sei lá e deixa pra lá, mas agora não dá. Depressão é assim, esvaziada de toda lógica. Só quero saber o seguinte:

PORQUE SOU SEMPRE EU? SENDO OBRIGADA A ABRIR MÃO DA MINHA FELICIDADE? FRUSTRADA? FRACASSADA? HUMILHADA?

CORTA.

Acho melhor cortar tudo aí em cima porque joguei um tarô, sim, sim, eu faço isso de vez em quando quando o calo aperta, e em resposta à minha questão o que fazer para conseguir dinheiro... veio: compartilhe com os demais a sua sensibilidade, sua capacidade de amar, de iluminar, sua beleza interior.

Vou nessa. Nos ups and downs da minha vidinha. Meu recado aí do lado é só no up mesmo e tem que dar certo por uma razão indiscutível que ainda não consegui deixar clara e nem por isso... (enquanto me afogo deprimida na exigüidade de tempo que a falta de alento me permite). Meu texto é bom. Pode conferir dando o seu download*.

* ou apoio, com eufemismo por favor

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Ohne Titel



Na mosca. Estou no olho do furacão, gente, não dá pra falar agora.

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Soap Oprah

- What are you watching?
- Oprah.
- Why?
- 'Cause I'm depressed.


Verdade, eu vi a Oprah. Dois dias seguidos, como se um não bastasse. Eu não fazia idéia de que a coisa fosse assim, esse rosário explícito de miséria humana. Em apenas dois dias eu vi:
- uma mulher sem rosto e sem mãos, totalmente queimada num acidente de carro
- outra mulher vítima de câncer que teve metade do rosto destruído
- outra mulher cujo marido tentou matá-la duas vezes, e que teve metade do rosto destruído por um tiro na cabeça. um não, dois
- outra mulher monstruosa pesando 250 quilos. cortou o estômago e ficou quase normal
- outra mulher, esta: fez mastectomia dupla e teve duas vezes câncer no cérebro
- pra variar um menino, 13 anos, preso à cadeira de rodas mais complexa que já vi, um poeta. pouco depois o garoto morreu
Agora me digam: como é que esta mulher está milionária? Quem é que gosta da miséria alheia a ponto de dar a ela índices imbatíveis de audiência? Tudo isso é pra quê, mesmo? Pra gente sentir que as nossas miseriazinhas são desprezíveis, que mesmo com todos os problemas somos privilegiados? Quanto a mim, fiquei dividida. Não sei se me senti feliz por ter pelo menos boa saúde e um marido que maltrata mas não mata... Ou se fiquei mais deprimida ainda, com um medo pânico do câncer me pegar e, além de tudo que já enfrento, ainda por cima perder os meus peitinhos. (e ser obrigada a dar a volta por cima, me sentir linda mesmo mutilada, uma mulher de fibra) Francamente. Essa mulher devia ser interditada. A Oprah, digo. Um show de horrores que faz mal à saúde física e mental de qualquer um, e a maioria dos seguidores dela nem percebe, com todo respeito às vítimas que ela exibe. Ah. O negócio dela é mostrar heróis cotidianos, gente que come o pão que o diabo amassou e ainda pede bis. Tô fora.

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