Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Homenagem bacana
Geralmente é o Verdes Trigos, onde sou colaboradora antiga, que reproduz "do Noga Bloga", mas hoje vamos pela via contrária. Do Verdes Trigos:
Em Tiberíades, um peixe para Noga
No dia 20 de janeiro, chegamos para almoçar no Decks Restaurante em Tíberíades, Israel. Como não lembrar?! Minha amiga israelo-brasileira Noga Sklar completou anos no dia 20 e exatamente neste dia estava eu lá na sua cidade de nascimento. Noga nasceu em algum lugar [kibutz Afikim] em Tiberíades, às margens do lago Kinneret — não tive como ligar ou mandar-lhe um email — então lhe brindei por vida longa, com saúde. Noga, parabéns parceira. Quando um dia eu for para a serra, comeremos um peixe, como este!
Todo mundo sabe que sou completamente contra Lula, sempre fui, mas, francamente, pegar pesado como fez Gerald Thomas no canto de cisne de seu blog defunto, enfiando Lula no saco malhado de Stalin e arranjando de repente pro nosso presidente um lugar de honra no panteão dos carniceiros... peraí. Assim também não.
Espero, no entanto, que não tenha sido por este crasso motivo político que o blog de GT finalmente, depois de um mês agonizante, levou seu tiro de misericórdia: seria o Gulag, meus amigos, e isso eu não aceito, afinal de contas ainda acredito num Brasil onde a plena democracia resiste, apesar das circundantes forças em contrário. Nem compactuo com essa postura que a imprensa tem, ou pelo menos tem tido, de enxergar o Rio como um irremediável inferno perdido, onde um simples passeio no centro resulta em ataque, latrocínio ou morte certa, eu sei, ando por fora do Rio — melhor pra mim —, mas será que as coisas estão mesmo assim? Será que esse caso terrível de Evandro da Silva é tão simplesmente corrupto e burro quanto fazem parecer? Estará o Rio num caos tão dramático e insolúvel quanto um contundente Gerald Thomas, autoexilado há anos — cronicamente deprimido e agora demitido do cargo máximo de blogueiro remunerado —, quer nos convencer? Cala-te boca que não entendo nada disso, mas não consigo aceitar tampouco que nos meros 12 meses e pouco desde que me retirei voluntariamente da selva do Rio as coisas degringolaram tão gravemente ladeira abaixo, com o sério agravante do sonho olímpico (estúpido, para alguns) . O que sei, lendo o Globo de hoje por razões bem mais idílicas do que nega a ensanguentada manchete de primeiro caderno — uai, gente, quando foi mesmo que O Globo se transformou nessa triste imprensa marrom, hein? melhor dizendo, vermelha? (se espremer sai sangue, vocês se lembram dos jornais populares de antigamente) — é que o Rio e, tristemente, grande maioria dos que vivem nele, têm andado um bocado doentes, é, a doença da violência também contagia. Olhem em volta, salvem a pele, gente. Há vida agradável, produtiva e inteligente por fora dos anais anormais da truculência a que o alegado caos urbano têm nos obrigado, a mim não, eu, hein? Me salvei a tempo, pois é. Podem babar que eu mando aí enxugar.
Vida é o que te acontece enquanto você se ocupa com outros planos. John Lennon
Como com toda a campanha contra eu não cancelo as minhas contas, convém esclarecer logo: não tomo como pessoal a derrocada anunciada dos blogs — ultrapassados pelo facebook, ou twitter, ou qualquer coisa ainda por ser inventada na internet para ocupar a mente carente e os ainda desocupados espaços publicitários, em futura disputa feroz na rede —, gente, não.
Se eu fosse ceder ao meu habitual impulso de cortar logo o mal pela raiz, já iria mudando o nome aqui do, bem, hum, blog, mas "Noga Bloga" é tão redondinho, não? Poderia ser rebatizado como? "O Bloco de Noga"? "Cala a boca Noga"? "Noga escreve"? Ah. Deixa que está bom assim. Comecei este blog, há mais de quatro anos, por sugestão de um amigo que, aliás, nem é "blogueiro" no sentido clássico da palavra, o que, aliás, também não sou ("blogar" para ele é comentar num blog alheio, não qualquer um, ou vários, mas um específico onde os comentadores se sentem fazendo parte de uma comunidade afetiva, bom pra eles; e pra vocês? o que seria blogar?). Mesmo sem nunca ter realmente "blogado", foi escrevendo no blog, digamos, por estar no "blogger", que encontrei minha voz de escritora, mas, cá entre nós, isso nada tem a ver com o ato de blogar, mas sim com o de escrever, se entregar, escrever e se entregar muito, todo dia, como exercício afetivo e criativo sem nem sequer se importar com a apreciação alheia, mas sim com o simples ato de se expressar, de me tornar, cada vez mais, uma profissional praticante do [bom] português embora não me renda nenhum dinheiro — profissional aqui, claro, como contraposição direta ao amadorista conceito de amador, alguém que por amar demais o que faz não se vende ao ofício, se dá, se é que vocês me entendem. Pois eu, desde que me entendo por gente, sei que nasci dinossauro, uma figura impossível, esdrúxula espécie aflita de redatora que pretende tomar da língua o que de melhor a língua tem: a riqueza das palavras e a extrema flexibilidade combinatória destas num jogo inusitado de sons acrescido de sentido e ritmo, sempre com o dicionário do lado, deu pra reconhecer daí? Mais: numa mistura indigesta da simplicidade verbal das ruas com a sofisticação intelectual das academias, sempre pendendo demais para um lado inadequado ou outro, conforme o mau humor do dia. Em tudo o mais, devo confessar, não me pareço com uma escritora e nem quero me parecer. O tanto que amo o meu português de todas as crônicas equivale ou até perde para o tanto que odeio me expor pessoalmente, comparecer de corpo presente (perdão, João, que a expressão me soou estranha: não sei bem se é nome de livro, de peça, ou de missa) a eventos e conchavos, ceder em troca de um bom salário ou, em nome da divulgação eficaz, a qualquer assunto encomendado: vampiros, viagens, cachorros, o que rola nas redes, you name it. Meu negócio é me esconder no mato e daqui todo dia, usando como planilha a tal plataforma dos blogs sem fins lucrativos e em vias de extinção, comunicar o que sinto, o que vejo, o que experimento, num texto bem cuidado e nem tanto apressado onde exercito dedicada esta ingrata profissão que não me quer, faz de tudo para me ferir, expulsar, me fazer desistir. Pois enquanto houver vontade, e o impulso visceral de escrever, eu não desisto. Pouco me importa se este espaço que ocupo e onde poucos me visitam chame a si mesmo de blog, ou jornal, ou agenda social ou projeto de livro: vão-se os modismos e se eternizam, enquanto houver memória disponível, os conteúdos de algum valor, mesmo que custe uma vida, não me importo com isso que vida eu tenho de sobra e aqui estou pra viver. E criar. E nada mais. Quanto ao que vocês possam considerar — por limitação cultural, nacional ou racial, sei lá — um título estranho, ou, aspas fora, no mínimo anacrônico de "post", faço questão de me fazer entender: trata-se do ano novo judaico que será registrado no calendário, como 5770, ao entardecer de amanhã, se preparem, junto à lua nova que traz consigo um eco de primavera, bonito, não? (tudo bem, eu entendo, é tudo uma questão de geografia: para os hebreus antigos, e até para os modernos cuja pátria física se localiza no outro lado do [meu] mundo, a lua nova é a que encerra a colheita e prepara a terra para um novo ciclo, é isso aí: as interpretações variam, mas no fim ou no meio, qualquer ritual expressivo sempre se justifica de algum jeito). Bom ciclo novo pra vocês, mesmo que seja só o meio do mês. Ou do dia. Ou do momento.
O homem atrás do bigode/ é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos/ o homem atrás dos óculos e do bigode. Carlos Drummond de Andrade in "Poema de sete faces" (mais conhecido por "mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução", vai, Carlos, ser gauche na vida, sabem como é)
Vamos combinar que, assim como eu (ui!), Barack Obama faria um bem a si mesmo se se limitasse a salvar o mundo e não fosse na intimidade como todo mundo. O problema é que, como todo mundo sabe, num mundo onde tudo aparece na mídia instantaneamente, e onde os comportamentos mais íntimos logo se tornam escandalosa e deliberadamente públicos, o Presidente mais poderoso do mundo não tem (direito à) intimidade, e estamos por aqui, ó, de liberados comentários que optam sempre pela máxima agressividade.
Não é o caso do Presidente Obama, claro, gente: ele apenas falou a verdade, foi sincero, botou offline pra fora da própria boca o que a grande maioria pensa da sua própria pra dentro: Kenye West é um idiota (ou, pelo menos desta vez, foi, já que não o conheço). Vamos combinar que foi bastante espontâneo e que acabei rindo, achei mesmo (o Presidente, digo) charmoso e engraçado, come on, guys. O caso é que, só pra variar, nem era sobre isso que eu queria escrever, tá certo, roubei esta frase, faz muito tempo, do impagável Nelson Rodrigues (e olhem que nem rimar, rimou). Não deixa por isso de ser verdade, claro, o roubo e a frase, mas cá entre nós, está no ar uma espécie crescente de revolta contra o comportamento explicitamente agressivo, frequentemente ignorante, iletrado e remissivo, que tem sido encorajado pela internet, e como Maureen Dowd, David Brooks e algumas outras feras perceptivas, venho me incomodando cada vez mais com isso. Mas nem deveria: afinal de contas, optei por viver no paraíso, longe, bem longe desse insensato mundo aí onde deixei vocês, mas isso, não liguem, é frase de efeito e roubada também, que ninguém mais liga pra isso (nem lê, nem entende, nem chega direito a saber de quem vem, a não ser que a gente explique tudinho, bem direitinho, com todas as clássicas referências mais duplos e irônicos sentidos). Sei que nem pega tão bem que alguém como eu, que pra se expressar literariamente tem contado, só mal e porcamente, com as mídias gratuitas da internet — uma atividade tão irrelevante para a vida real que Alan só ri quando eu digo: "estou trabalhando", ou, "me deixa voltar para o trabalho", o que pra ele é só tempo e energia perdidos —, se lamente tanto a respeito do que lê online, mas, francamente: tem gente por aí que se acredita no ápice da cadeia inteligente e, no entanto, nem sabe bem do que está falando, ou pior, o que vive escrevendo, ah, tudo bem, são jovens, bonitos, têm ousadia e algum talento, mas perdoe-os, editor, não sabem o que dizem, nem têm para tanto suficiente conhecimento. Enquanto isso, os que poderiam nos enriquecer verdadeiramente — com sua vasta e abrangente bagagem, cultural e literária —, se mantêm, cuidadosamente, à margem do monstro coletivo vigente, um rotineiro devorador das melhores mentes. Haja habilidade (nestas redes de abobrinhas meio deprimentes e seus registrados enganos bastante convincentes, me desculpem aí a ironia quase demente — ou, pelo menos à beira do suicídio literário — desta chata matrona que vos fala diariamente, ou, no mínimo, vos aconselha que leiam mais, e mais atentamente) para poder separar o joio publicado do autêntico joie du livre, se é que vocês me entendem, ah, você aí, deixe pra lá o que está fazendo e pesquise melhor na biblioteca virtuosa, tá sabendo?
E por força do hábito de beber de outras fontes, de citar o que é sempre citado e que sobremaneira se agravou com a internet, lá ia eu citando Chico, "um poço até aqui de mágoa", ou outro Beckett bem mais conhecido — vocês sabem, aquele autor animador de "fracasse melhor" que (mundo pequeno) quase se casou com Lucia, a filha demente de Joyce e Nora, se lembram dele? —, "I can't go on, I'll go on", vírgula, que Gerald Thomas esta semana no IG, em sua despedida online dos palcos iluminados desta egóica vida, abastardou, "I won't go on", jogou a toalha, pendurou a chuteira, chutou o pau da barraca e deixou que a lona cadente e malcheirosa da depressão finalmente o sufocasse, que pena, será que o Frontal acabou?
O curioso é que no popularíssimo blog do Gerald — que eu visitava anônima e esporadicamente, confesso, menos por GT e mais por um amigo real que se envolveu por lá, para meu espanto, como se uma comunidade amiga verdadeira fosse — o dramático e quem-sabe-falso passo, ou, contemporizando, temporário adeus do luminoso e controvertido artista — nosso Bob Wilson da Gávea, nossa Pina de Ipanema, sucesso de bilheteria em Copacabana e amante confesso de Beckett, do teatro de Beckett, claro — angariou pouquíssimos comentários (aí por volta de 20 por cento do que era habitual pra ele), conclusão: ninguém quer saber da dor alheia, do fracasso, da desistência alheia, temos demais emoções do gênero em nossas próprias vidinhas conformadas, não é mesmo? Ninguém mais nessa nossa conectada vida puramente individualista (e pretensamente comunitária, compartilhadora, ops, acho que esta palavra nem existe, não consta do dicionário) encara a derrota de frente e oferece de bom grado o ombro lesionado ao pranto alheio, encosta a sua cabecinha e coisas cafonas do tipo, eu, hein? Sai pra lá que tenho andado sem tempo. Mas digressiono. Porque o que me impressionou mesmo, me afetou e emocionou no âmago de mim mesma, ui, e minha própria tristeza, cuidadosamente camuflada em perene ação desabalada, foi ver aquele encanecido vulcão criativo da minha juventude, que eu julgava em plena saúde participativa, expor descuidado sua dor de artista preterido, subvalorizado, meio perdido entre a glória esquecida da geração passada e a esperança vindoura de sua própria prole de artistas (intrínseca ao DNA, fazer o quê), ou pior, que se vê de repente envelhecido e autodispensável: "Tenho mágoas. E mágoas não são absorvidas, se cristalizam." O que me fez refletir, olhar benevolente o caminho percorrido e ver-me a mim mesma como força reativa, ah, pois é, vocês pensavam que com esse papo emotivo eu abriria finalmente mão do meu próprio umbigo? Nada disso. Vai ver eu me viro por não me ancorar em amores antigos, toco em frente sempre que é preciso e daqui por diante agradeço a rudeza do meu atual marido, que não permite descanso nem dá remanso a lágrima furtiva, enquanto a transformo em regra definitiva: Get over it. E aqui termino oferecendo a vocês, de coração, mais um wikibeckett de algibeira, livre e apressadamente traduzido, num epitáfio comum de artista que nunca desiste (de cutucar sua própria ferida autoinfligida):
"Prosseguir quer dizer continuar daqui, quer dizer me encontrar, me perder, desaparecer e começar mais uma vez, a princípio um estranho, depois pouco a pouco o mesmo de sempre, em outro lugar, onde direi que sempre estive, do qual não sei nada, sendo incapaz de ver, mover, pensar, falar, mas do qual pouco a pouco, apesar destas falhas, deverei começar a saber alguma coisa, apenas o suficiente para torná-lo o mesmo lugar de sempre, o mesmo que parece feito para mim e que não me quer, que eu pareço querer e não querer, pode escolher, que me cospe ou me engole, nunca vou saber, que é talvez, meramente, o interior de meu crânio distante onde eu antes vaguei, agora me fixei, perdido na mesquinhez, ou pressionado contra as paredes, com a cabeça, as mãos, os pés, as costas, contando sempre as velhas histórias, minha velha história, como se fosse pela primeira vez."
Viver é isso aí, não é mesmo? Toca pra frente que atrás do seu posto vem muito mais gente.
(aka "a penny for your thoughts" ou, como diria Joyce: "pomes penyeach")
Tem uma névoa fria se aproximando enquanto escrevo e tomando conta do vale lá fora, penteando as montanhas como cabeleira branca, bonito, abaixo e à frente da porta de vidro. Continuo plugada na mesa do marido como um cão conformado, vendo a vida passar sem fazer parte dela, nem força, nem nada, a vida por um fio, ou minha vida por um sem-fio. Toma a névoa a mim também, interrompe a ligação, cresce dela o desejo intermitente de desconexão.
O que tem provocado meditação: melhor andar logo com isso, entregar-se ao pensamento reflexivo enquanto estou fora do [meu] tempo, isto é, antes que chegue o wi-fi pelo correio, por e-sedex, sabem como é, mero paliativo adquirido na web. E enquanto espero, percebo por aí, com tanto twitter e tanto facebook na rotina de quem se liga, se toca, vem se desenvolvendo no povo uma imensa vontade do oposto a tudo isso, que não faço a menor ideia do que acarretará. Eu, por exemplo, declaro encerrada a temporada de correr, correr atrás, pelo menos. Tem gente encerrando coisas bem mais graves, a carreira de toda uma vida e até a vida em si, mas, como direi, nunca digas desta água nunca beberei. Nunca digas nunca. O que tem nos faltado nem é criação, mas o tempo da reflexão. Essa obrigação de blog, de perene conexão, de "entregar o ouro" dia após dia, uma geração "making-of" é o que a gente se tornou, mas agora não sei, deu canseira. Vocês me entendem e, com um pouco de sorte, passam por isso também. Sem silêncio não há som, sem o escuro não há tom, e por aí. Mas não é morte não. Ainda não. É só pensamento independente e liberdade assusta, mais ainda se a gente se afastou [voluntariamente] dela e, pior, nem percebeu direito o quanto tinha se amarrado, se encoleirado, digo, na liberada vida online. Pois há vida lá fora e tenho me aproximado dela. É o que a natureza me tem dado, uma incrível necessidade de permitir-me o nada contemplativo: é disso que tenho sofrido, ou talvez me curado, isto é, de tudo o mais. A ver o que virá, pois é, tudo bem. Não me sigam que eu não sigo ninguém. Só trocando (de) ideias, sabem como é.
A gente escreve livro e não consegue publicar/ A gente somos inútil/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente somos inútil Ultraje a Rigor
Em simpática mensagem de apreço o leitor Jacob Goldemberg, novo adepto declarado deste perene desabafo online que é o Noga Bloga, alimentado desde o seu remoto início, a longínquos 1705 posts atrás, por frustrações eternas de genial escritora rejeitada — é, gente, ando mesmo carente, precisada demais de contar e divulgar as raras bênçãos quando as recebo, sabem como é —, me pergunta se vale a pena insistir num blog, sempre vale, Jacob, tudo sempre valerá, isto é, se a alma não for, etc., etc., não é? Mas a verdade é que o comentário dele me pegou num dia ruim, vocês sabem, tenho andado meio deprimida.
Pois visitando o blog do Jacob, descubro um excelente candidato a blogueiro gêmeo, ou domador gêmeo de leão na arena da vida, sei lá, o que acontecer primeiro: como eu, o blogueiro é arquiteto — ou seria o "arq" de "arquivo", "arqueiro", "arquetípico"? —, judeu, pelo branco da barba mais ou menos da mesma faixa etária, e pior, mais grave, se acredita escritor, tendo sido até mesmo premiado por um conto ou dois, coisa que euzinha aqui, ó, nunquinha (deve ser porque nunca me candidato, será?). O caso é que ontem à tarde, afastada por poucas horas do efeito terapêutico viciante e maravilhoso que tem tido sobre mim a beleza deste estúdio em que agora vos escrevo, embarquei sob lágrimas, pelas ruas de Petrópolis, numa trip de depressão que em mim tem sido bem rara, francamente, e entre mais lágrimas jurei para o Alan que já bastava, que eu finalmente iria pôr um fim (ui!) nesta tortura insana que é a vida de escritor amador — amador, como sempre, no sentido de quem ama a coisa acima de todas as outras, vocês me entendem. Não sei o que acontece com esses pobres arquitetos, gente, uma síndrome de quero-ser-outra-coisa-na-vida (de preferência mais difícil ainda que a arquitetura) que só se explica pelo excesso reprimido de sensibilidade. No outro dia, por exemplo, um amigo me confessou, quando soube que eu construíra uma casa, que caminhava numa mão contrária: tendo sido a vida inteira um arquiteto de algum renome, vinha decidindo ultimamente abandonar a prancheta — quero dizer, o CAD, claro, ou "desenho assistido pelo computador", é que eu sou velha mesmo, do tempo da régua T e da régua de cálculo, imaginem — em benefício de uma carreira literária, coitado, mal sabe o que o espera na esquina. E agora o Jacob, me digam vocês: aconselhar o quê? A verdade é que entre a semana passada — quando eu estava toda animada, superocupada enquanto revisava, traduzia e resenhava alguns textos encomendados a título de teste por um grande editor, e ainda por cima aguardava mais um daqueles eternamente adiados pareceres inúteis de original literário empilhável, vos digo, pura empulhação — e esta em que estamos agora, nada demais aconteceu — a não ser, claro, as decepções de praxe, mais alguns igualmente inúteis sonhos ilusórios de tardia celebração do talento nato, pois é, eis aí onde mora o problema. Mas, cá entre nós, já passou: nem mesmo me darei o trabalho de incomodar vocês com ameaças vazias de "abandonar o blog", "nunca mais escrever uma linha nesta vida ingrata" e besteiras do tipo, juro que não. Pois é somente escrevendo, desenhando, criando, esperando e trabalhando intensamente, dia após dia (que um dia quem sabe as coisas melhoram e a sorte muda), que sei viver a vida. Às vezes dá certo e às vezes não, mas ó, Jacob, meu conselho é este aí, o único possível de um otimista pra outro: melhor fazer todo dia tudo que a gente tem vontade, sabe e sente que faz bem pra gente, e o resto que se dane. Não precisa ligar pra mais nada, nem pra mais ninguém. Abração e apareça sempre, viu?
Nossa, leitores. Peço perdão. Tendo estado envolvida na concepção de um projeto inédito de crônicas, composto, como O Gozo de Ulysses, de posts originais deste blog em ordem perversamente cronológica e encadeamento de quase-romance, editados, reeditados e rerreeditados —grrrr — outra vez e mais uma pra ver se merecem mesmo virar livro, me confesso chocada: gente, perdi a noção do perigo do adjetivo!
Se eu pudesse, se meu tempo e minha paciência dessem, hoje mesmo eu percorreria este blog do cabo ao rabo detonando textos, numa voracidade máxima de míssil nuclear coreano. Mas infelizmente não posso. Fica a esperança de vê-los ler-me novamente em livro. Até lá, me encarem como exercício, tá?
Do blog da Cora: Desafios Recebi por email do meu amigo Hermano. Eu já tinha visto essas brincadeiras há muito tempo, mas me esqueci completamente delas, e gostei de reencontrá-las: Só pssaoes epsertas cnsoeugem ler itso. Eu não cnogseui acreidatr que relmanet pidoa etndeer o que etvsaa lndeno. O pdoer fnemoeanl da mntee huamna, de aorcdo com uma psqueisa da Unvireisadde de Cmabrigde, não ipmrota a odrem em que as lteras em uma plavara etsão, a úcina cisoa ipmotratne é que a piremira e a útimla ltreas etseajm no lguar ctreo. O rseto pdoe etasr uma ttaol bnauguça e vcoê adnia pdoreá ler sem perolbmea. Itso pruqoe a mtene haunma não lê cdaa lreta idnvidailuemtne, mas a pvrlaaa cmoo um tdoo. Ipessrinaonte hien? É e eu smrepe pnenesi que slortaerr era ipmorantte!
Comento: é mais ou menos no que se baseia o misterioso Finnegans Wake de James Joyce, rsrs, exceto que lá cada palavra mal soletrada junta numa só umas três ou quatro outras e seus respectivos significados, três livros em um, fantástico, extraordinário... e barato, uma ginástica para o intelecto contra o envelhecimento precoce da literatura, hehe.
(de "O Gozo de Ulysses", em breve nas livrarias, ah, tá bom: começou...)
"Preconceito contra a internet? Coisa mais antiga: se não fosse a internet, eu não teria conhecido Alan; se não fosse a internet, eu não teria publicado um romance; se não fosse a internet, eu não publicaria uma crônica por dia, todo santo dia. Se não fosse a internet, bem, hum: meu Projeto Irônico de Ulisses jamais passaria de um cavalo-de-troia, e o resultado taí, ó. E pra não dizer que eu não tento, do jeito que posso, fazer justiça: palmas incondicionais para Mestre Houaiss, herói intelectual de um tempo onde nem se sonhava com a internet. E nem com o Google. Imaginem."
"Quem tem alto desempenho passou mais horas (muito mais horas) praticando rigorosamente a sua arte", afirma David Brooks em interessante artigo no NY Times sobre a teoria das 10 mil horas, e não é o primeiro: Malcolm Gladwell já falou sobre isso e outros mais. Aos leitores do blog, anônimos espectadores desde 2005 das minhas 10 mil em vias de se completar, agradeço a dedicação. Tomara que a teoria dê certo.
"Menos resenha e mais impressões sobre leitura, os textos de Hornby diz muito sobre como escritores leem", escreve online o Prosa, sem verso e nenhum reverso, recentemente engordado braço conectado do suplemento literário de O Globo, assim mesmo, com a brilhante nova ortografia do acento e um não-detectado mais que cintilante engano de concordância verbal, o itálico é meu.
Como toda hipocondríaca mental que se preze costumo ter a franca impressão de que tudo de ruim que se diz por aí com respeito a blogs e à "nova literatura", hum, se refere a mim. Mas. Gente. Não é bem assim. Ainda mais que a mim muitos leram, mas bem, ninguém na verdade perguntou nada. Verborrágica e inevitavelmente. Por conta disso me deprimi, e me deprimi feio, ao ouvir de um amigo a descrição apurada do que ele entende (este meu amigo e mais uma esmagadora maioria, eu acho, que fique bem claro) por cultura blogueira: um texto de teleprompter embaixoassinado por alguma celebridade polêmica, seguido de centenas e até milhares de comentários raramente identificados com gente como a gente e que se misturam, sem nenhum critério aparente, no caldo fervente da opinião epidérmica, modernamente superparcial e ultrafrequente, várias tentativas de ficção barata sobre o que, normalmente, não passaria de mais um anônimo palpite — ficção esta, me entendam bem, que se destina a vagar perdida, jamais publicada realmente, entre seus milhares de equivalentes. Desde que você saiba, é claro, entenda e pratique, as "regras clubistas do comentarismo online", acrescente-se, em festejados blogs (ass)assinados de alguma polêmica celebridade aparente. Argh. Depois disso, confesso, quase tirei do ar, por desalento crescente, meu bem-comportado, careta, redigido e revisado, literariamente concebido bloguinho chatinho, nada digno, sim, reconheço, deste tipo infame de (re)nome na midia cambeta do não-me-comprometa.
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Pouco mais tarde me recuperei. Esqueci. Relevei. Meu blog pra mim (ui, salve a cultura emergente do eu, e pior, do eu só pra mim) não tem nada a ver com outros blogs que a gente vê por aí: é simplesmente uma tela condescendente pra despejar o que me sai da mente, praticar uma literatura razoavelmente decente até que a linguagem, explorada ao limite, aprenda a falar por si. Todo louvor ao leitor paciente, pois dele será o reino iminente do fruir maduro, do exercício duro da pura cultura incipiente em formato clássico de livro. Ah. Tudo bem. Pra não dizer que a doente internet do verbo emite fracos sinais sem verba, malvista e sempre em frente, da nova cultura, e pra não mais do que qualquer crise cultural futura, mostro um pouco mais: o bem que nos faz a invenção do link, linkando aqui mesmo este prolífico e vital debate de um tema que alcança bem além de mim, e no entanto, mal escapa a seu conectado escopo, tendo sido paradoxalmente, e pra sorte de quem por pouca coisa já se sente contente, imaginem, publicado online. Bom domingo (de chuva) procês, porque eu, pra variar, trabalho por aqui offline numa mídia antiquada, desprezada, ultrapassada... e bastante real: provas de prelo do meu próximo livro impresso, ui, redundei feio.
* minha homenagem sin(gel)a à falta endêmica de revisão online nos textos por (h)ora compartilhados, pouco mais que monossílabos mal-ensaiados
Bem que eu tinha achado um bocado estranho o ocupadíssimo Obama dedicar um café da manhã inteiro a uma, vamos combinar, irrelevante Benedita da Silva, mas deixei passar (como no fundo no fundo não passo mesmo de uma inveterada racista, pensei cá comigo, no mais resguardado da mente: de repente é um encontro de afrodescendentes sei lá por que motivo, há mais coisas entre o céu e a terra, etc etc). Pois é. Tudo bem.
Mas vejam agora não só o valor intrínseco de um "bom" assessor de imprensa, como também o verdadeiro acesso que tem à grande mídia a figura impoluta do marketing político: Benedita, na foto do dia, é que nem Wally, só encontrando a dita entre os 3 mil presentes é que a gente acredita. Agora, acreditar nos jornais do dia nesta era da plena democratização (ou seria melhor desmoralização?) da informação é que tem ficado cada vez mais difícil. Confiram in loco no blog global do Zé Passos.
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Tudo bem também que um Stephen King da vida desqualifique Stephenie Meyer para seu público, parece estranho, sim, mas é Stephenie mesmo, assim com "ê" (vogal fechada na versão paulista): deve ser pela numerologia ou então um bom truque de mercado, não? Mas o que me espantou de verdade, em se tratando na literária realidade de uma autora que tomou de assalto a lista de best-sellers onde, gloriosa, figura há meses nos 3 primeiros lugares (que me conste continua lá, a conferir neste fim de semana) foi o silêncio gritante, a falta ardorosa de defesa por parte dos fãs da moça. Todos, entre os poucos comentários que a notícia atraiu, dão razão a King. Hum. Estranho mesmo.
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Agora. O problema com as inexatidões da mídia é que nem sempre as incríveis desmentiras se referem a coisas tão inócuas e divertidas como as citadas acima, não, gente. Em seu programa "inédito" exibido ontem à noite no GNT — em se tratando de Oprah no GNT, vocês sabem, a gente nunca sabe (informação irrelevante) em que mês e ano o programa foi originalmente ao ar, mas neste caso, fui lá conferir, o "debate" deve ser recente, ainda está quente no site da apresentadora — Oprah puxou sua brasa (ops, peraí, uma brasa só, não: puxou o fogareiro inteiro) para a defesa do controverso mercado da reposição hormonal (... segue-se uma longa diatribe feminina pessoal a respeito, mas cá no blog eu decidi cortar: ninguém merece, numa sexta de sol, esse assunto tão chato. Quem se interessar de verdade, porém, pode ler aqui). Meu resumo pros que aqui ficam: pouca roupa e mineral com gás. Em tempo: Oprah tenta, em seu site, manter-se neutra a respeito das maravilhosas vantagens saudáveis do açaí, "the Brazilian berry". Seus advogados afirmam que a opinião da apresentadora é apenas isso: uma opinião. E completamente desinteressada, viu? Ah, sim: com o Kindle também foi assim, então tá. Vou fingir que acredito.
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Pra terminar, uma desmentira pra lá de boa: a falsa convicção de "como é bom para o jornalismo trabalhar de graça", como fazemos a plebeia maioria dos blogueiros, não deve durar muito mais, gente, não. Não depois, pelo menos, de o tema instigante ter sido esmiuçado, em ótimo artigo, na Time Magazine, ô bom. O fim anunciado dos jornais impressos parece mesmo irreversível, mas a Time tem ideias interessantes para a sobrevivência financeira do bom jornalismo. Vale conferir com atenção. Vai lá que eu te espero aqui.
Não posso negar que me entristece bastante ter que já por de lado uma das primárias escolhas de leitura que elegi — sim, está certo: eu quis mesmo dizer "primárias", e não "primeiras", embora em certo ponto os significados até convirjam (ih, ficou feio, soou quase como "corja") — ao abandonar o vício diário de O Globo. Sinal, talvez, de que o que eu deva abandonar é qualquer hábito diário que seja com o exclusivo intuito de me informar, pois não? Nem dar tempo ao tempo necessário pra criar novos vínculos imediáticos (aos críticos: imediatos+midiáticos). Vejamos.
Desde que deixei de contar com o apoio involuntário de um grande jornal impresso (costume ancestral e típico, vamos combinar, de qualquer intratável cronista do cotidiano) pra me fornecer assunto, acreditem, minha gama de assuntos dobrou, sei lá, me senti mais livre, mais eu mesma, se é que vocês me entendem, e ao contrário do que seria de se esperar, nem um pouco mais autorreferente do que já costumo ser (vai ver já estou no limite, né?), em todo o caso: foi um risco que até certo ponto deu certo, mas aí, vocês sabem, coisa difícil é desistir, assim de repente, de qualquer muleta antiga, e lá fui eu com as piores intenções possíveis pela web adentro — onde, cá entre nós, opções não faltam — em busca de uma droga alternativa. Era o tempo, vocês se lembram, do conflito de Gaza, e lá estava, brilhando com todas as letras de um apoio explícito a Israel, o blog (bem mais do que diário) de Reinaldo Azevedo, masterpíton online de Veja: foi entrar, engolir sem mastigar, e tentar me enturmar, bem, aí é que a coisa se complica. Essa coisa radical de pertencer a uma turma não é mesmo comigo. Bem que eu percebi logo de cara que o caso do cara era o culto ao extremismo, mas bem, hum, extremismo a meu favor, então, tudo bem. Bem. Nem tudo. Vai dando um inevitável enjoo aquele ímpeto todo, com todo o cuidado concedido ao texto, aliás muito bem escrito, e ao que existe por trás da diatribe que acaba retido na peneira da informação pura. É pouco. Vai daí que em meio às constantes elucubrações contrapetistas em que, cá entre nós, até me encaixo, mas nunca com tanta sede explícita ao pote — me entendam: sou cronista, poeta, não articulista; cultivo o exagero, sim, mas com claro viés humorista — nasceu com uma força inaudita uma polêmica muito reinaldista contra Marcelo Coelho, desafeto bloguista da Folha (que eu, globista fiel, tampouco conhecia): um bateboca que lembrava em tudo outro bem antigo do mesmo estilo entre dois Geraldos, o Thomas e o Carneiro, se não me engano, ainda nos tempos de JB — quem é do meu tempo de leitora deve se lembrar, e que tinha lá sua graça por ser embebido de cultura e arte, mas cá entre nós, quando a coisa se limita a picuinha política... bem. Vá lá que interesse a muitos polemistas, mas a mim, confesso: nadinha. Sei, sei. Ninguém aqui se importa de verdade com isso, isto é, o que eu penso ou leio ou deixo de ler ou pensar. Tudo bem. Mas o que magoou, de verdade, no mais remordido do meu imo senso (sim, amigos: isto é Joyce, na versão de Antonio Houaiss) foi mesmo o ferino ataque de Reinaldo Azedo endeusando o poder dos comentários: um golpe baixo, baixíssimo, que me atingiu em cheio. Taí: dou a Reinaldo a palma de ouro dos comentários que, aliás, são nada mais que isso. Podem até valer online algum dinheiro, na forma inculta de uma incúria reputação blogueira, mas não passam de uma palmatória, recurso retórico que apenas reforça o rumo tomado da rinha, ou então, mero aplauso do apupo: comentador de blog, a gente sabe, adora desabafar numa troca pública de imprompérios, daí que embarcando na onda, angariou Coelho sua merecida cota, sei lá, por parte dos partidários da parte oposta: não sei porque não os li. O caso é que nisto nem estou tão só: há vários, viáveis e válidos, espaços mui nobres na blogosfera — nitidamente os vinculados à arte prática da escrita e da arte propriamente dita que, infelizmente, não interessam a tanta gente assim —, e que sobrevivem muito bem sem a saga empolgante dos comentários, o de Paulo Pires, por exemplo: sempre excelente e nem por isso. E pra não deixar sem resposta um ataque tão chinfrim da meritocracia imposta — que nem a mim (eu, imaginem: menos que um mosquito no cocô bandido do mundo blogueiro) foi dirigido, cito o meu Schillerzinho de sempre, aliás e muito a propósito: "Se por tuas ações e arte não podes agradar a todo mundo – agrade a uns poucos. Agradar à multidão é ruim."
(Lá vou eu de novo, incorrigível, metendo a mão em cumbuca como quando há um par de anos, vocês se lembram?, me meti a criticar um ídolo pop da música mais pop ainda, tendo sido em seguida quase trucidada pela enxurrada assassina de comentários dos fãs enraivecidos, desenxabida memória. O que, com certeza, não se repetirá... já que, para os súditos fiéis deste Rey da Mídia, os que não são intensamente avaliados pela massa acachapante de comentários nem sequer existem. Sinto-me grata por ser este o meu ocaso. Mas só neste caso, me entendam. Radicalismo blogueiro? Tô fora.)
otimismo de sexta-feira: antúrios frescos comprados na feira
...skies were gray, but they're not gray anymore. Irving Berlin
Quando eu era esotérica convicta, do tipo que consultava o I Ching, jogava tarô e acreditava em horóscopo e sim, tinha ainda por cima um guru greco-americano que se declarava uma encarnação melhorada de legítimo feiticeiro indígena, tive a extrema coragem de enfrentar o ceticismo em família e publicar um livro na linha espiritualista, algo assim como "Minhas experiências como uma aprendiz de xamã que vai ao supermercado" — como implicava aquele amigo irônico pra quem ser xamã era ter o poder de materializar comida —, e que começava assim:
"Dedico este livro aos céticos e aos irremediavelmente materialistas. Foi convivendo com eles que percebi uma falha em sua maneira de ser e esta falta, esta carência, este buraco no peito me contagiou, me lançou numa busca sem tréguas pelo verdadeiro sentido da existência." Verdade, gente, verdade e não nego: cortei o excesso de baboseiras místicas e coloquei online pra quem quiser ler já que, afinal de contas, trata-se do testemunho autobiográfico de uma mulher em constante crise que não se esquiva, e tem lá seu valor emotivo, isto é, comovente. Vale a pena guardar como algo que escrevi, rsrs, quando ainda não era escritora, um projeto assim, digamos, de desvio profissional radical. De lá pra cá, mudei bastante, refleti, vivi bastante, resolvi algumas das questões mais impactantes — como a falta que faz na vida uma relação de amor mais nutritiva e a frustração de um orgasmo nunca atingido, taí uma coisa que muda realmente uma pessoa, nunca me canso de afirmar: o assunto não me enjoa — e continuo, agora já como escritora, em constante crise. Mesmo que as questões sejam outras (não vou cair no clichê de explicar que crise é vida, ou que vida é crise). Ora, gente. Como penso bastante, pesquiso e debato outro tanto comigo mesma e com quem se habilite, acabei relegando ao ralo afunilado da racionalidade algumas certezas ilusórias típicas da Nova Era, pra não dizer todas. Bem que eu tenho vontade de render-me completamente à existência de um deus que nos guia, nos ilumina, mas já não consigo. Se ainda acredito em espíritos? Talvez. Um pouco. Espírito, no singular. Algo como uma energia "divina" que anima a estrutura também divina o bastante, vamos combinar, que é nosso maravilhoso corpo "físico" e seus processos vitais perenes por que quase todos, em pleno gozo da boa saúde, costumam passar batidos, ora gente, não é incrível ser humano? Ter um corpo que funciona e, ainda por cima, afinado em bom ritmo e rima com o conceito mental de uma alma que ensina? Bom. Bem que eu tentei nestes últimos meses — vocês sabem, aqueles em que optei por dar meu grande salto, a saber, ler o Ulysses e sair do Rio: foram dois, pois, pra deixar de lado o medo e o preconceito e a censura pessimista alheia — crer que existia um bom destino-guia. Mas gente, falhei. Acabei numa egotripa de fazer desgosto: tudo que eu fiz foi por pura, livre, e esperta escolha. Deu certo. Tem dado. Mesmo tendo deixado um Deus amoroso de lado. Agora. Persiste um pendor incandescente da chama do espírito em mim, porque francamente, ainda confio em desígnios maiores do que esta rotina cretina de guerra na terra e crise no bolso; tenho esperança; e last but not least, acredito mesmo em mudança. Uma mudança que há, já houve, haverá: mais radical ainda, e garanto, para pior é que não será. E no entanto, escolhi online para me guiar determinado jornalista, um bom cronista, mas pra quem esperança é tolice e desejo de bonança, pura ingenuidade. Tá certo que às vezes, em dias de azia ou de peito oprimido, bem que concordo com ele. Mas normalmente? Não. Quando estou saudável, contente, nem eufórica nem catatônica, nem cantando na rua nem afônica, mas apenas natural, navegando normalmente na tônica de um equilíbrio afiançado, afunilado entre os dois cumes elevados da minha metade insana bipolaridade, bem: penso, penso não, sei, que só a lembrança de que há dias melhores faz a vida possível de ser vivida, senão para quê? Levantar-se da cama após a noite maldormida? Pois é. Vive assim um poeta: vislumbra um prazo a perder de vista para que a vida na terra evolua e o sonho se cumpra, um visionário que dá corda ao mundo (ops: carrega as baterias do mundo); enquanto que o articulista de revista só vive à vista, tsk tsk. Por mais que domine as palavras, o puro raciocínio exclusivista, lhe escapa a fina sintonia da graça, a antena parabólica da raça: é sina. Apenas pretenso o vaticínio que arrisca. O fato é que a gente que é gente vive do jeito que pode, do jeito que escolhe, do jeito que cria novas perspectivas, mesmo honrando as antigas. Tudo bem, são apenas padrões cerebrais, ilusões, e é por isso que eu opto sempre pelo que me faz bem, licença, meus brancos, que encomendo aqui por dentro, neste arremedo de reinício, um blue sky daqueles, mesmo que lá fora no gris a chuva ainda persista. Afinal de contas, tenho ralado pra isso. Por enquanto tenho achado bem bom que eu já não esteja tão blue, como cantou Irving Berlin: sou tola. Mas estou feliz.
Caro Reinaldo, seus argumentos são lógicos, e bastante convincentes, claro, você escreve muito bem e é por isso que eu venho sempre aqui, isto é, passei a vir por seu apoio a Israel e em meu tempo ampliado, agora que não leio mais tantos jornais. Mas você não está tão só. Muita gente (na Fox News, por exemplo) pensa como você. Mas eu, embora como você não seja "uma boa pessoa", nem tanto.
É certo que há muito teatro, e as coisas do mundo caminham lentas, com ou sem messianismo. Mas há um fato importante que você deixou de lado: a tendência humana para se escorar em simbolismos (no bom sentido, assim como um símbolo do bem pode sim, acredito, ajudar no combate ao mal), ih, bem/mal, puta maniqueísmo, mas o que dizer do efeito de um rosto expressivo sobre o rumo real das coisas? Não há alívio em ver no pódio do mundo um rosto sorridente, um gesto amoroso, em lugar de um sarcasmo permanente? Para mim, sim. Tá certo. Analistas explicam que a expressão facial de Bush não reflete, exatamente, o seu pensamento e sim, que ele não deu sorte com a natureza: olhinhos apertadinhos e uma incômoda assimetria na boca descaída, sim, diriam muitos, um óbvio sinal do mal, este apenas um dos muitos azares com que o divino o agraciou. Outra verdade: no seu discurso de volta em casa no Texas ("deixamos o Texas, mas o Texas nunca nos deixou", clichê, clichê) — transmitido apenas e exclusivamente por sua emissora oficial, a Fox News, na contramão do reconstrutivista otimismo midiático reinante (que, aliás, como Obama, descobri outro dia, é a que eu assisto: adoro ficar irritada com aquelas opiniões radicais todas, radicalmente diferentes das minhas, me faz pensar melhor) —, Bush era outra pessoa, engraçado, relaxado, amoroso com a esposa, e mais, muito convicto de seu papel bem escrito como um puro agente do bem, afinal de contas, o "43" conversava ou não com Deus antes de atacar a caneta? A história revelará o que a imprensa escondeu. Ou enfeitou. Ou manipulou. Boa sorte pra nós que a gente merece, e isso já nem é comentário, virou post. Que falta de educação a minha, entendo muito bem se você repelir a invasão, desculpe, mas é que o assunto me empolga e a sua caixa não limita, olha aí o perigo.
Aliás e a propósito, para ser justa com o Reinaldo e comigo mesma, entendo mas rejeito totalmente essa ideia de comparar a onda Obama a um êxtase religioso, o êxtase até que tudo bem, mas taí o ponto fraco: esse apego à religiosidade (bem, nem tanto, uma breve menção no discurso, como se segue: "We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus, and non-believers"), à igreja, essa potencial pretensão a uma linha direta com Jesus, não me parece coisa de um sujeito tão brilhante e esclarecido como Barack, mas enfim, tudo bem: deve ser só uma limitação teórica de minha humilíssima parte (segundo Roger Cohen, ser humilde voltou à moda).
***
E já que visitamos o Reino de Azevedo, e meu santo Obama já está devidamente canonizado, ou melhor, por enquanto apenas entronizado, aproveito para antecipar meu voto sem nenhum valor nas próximas eleições polêmicas de afetar o mundo, a serem realizadas em 10 de fevereiro próximo: voto em Tzipi Livni, a nova durona da praça. Explico: não gosto, nunca gostei de Netanyahu apesar de seu perfeito inglês; e apesar da recente vitória, o heróico Ehud Barak (não confundir com seu famoso homônimo) não me convenceu: continua um fraco. Então, de uma linha dura pra outra — ao que parece no Estado de Israel a vida tem sido muito dura — voto numa vaga esperança feminina forte.
"Frédéric Filloux – seguindo a mesma trilha de Henry Blodget anos atrás – publicou, antes mesmo da crise de dezembro dos jornais, um verdadeiro estudo que demonstra, veementemente, por que as atuais redações de jornal são economicamente insustentáveis online, publica o Digestivo nº 37."
Caro Julio, Este artigo peca pela falta de imaginação. Além do mais, as tais velhas redações devem em breve desaparecer mesmo, dando um fim esperado às instalações físicas e correspondentes custos trabalhistas, coisa mais antiga. Os jornalistas serão independentes, terceirizados, e remunerados de acordo com a produção em seus próprios escritórios caseiros ou em campo, com artigos diretamente encaminhados através de um equipamento mínimo individual, altamente eficiente, de custo evidentemente bastante baixo (falar nisso, você viu o sucesso recente de Joe The Plumber, atual correspondente de guerra na Faixa de Gaza? será tão difícil tornar-se um bom jornalista na era da informática? o maior capital há de ser a credibilidade, ou, num cenário mais pessimista, a mera popularidade).
A origem do grande lucro habitual da mídia se deslocará, da publicidade milionária de conglomerados — cujos interesses lobistas muitas vezes engessam o jornal —, para a venda de bilhões, trilhões de downloads diários a 99 centavos (como por exemplo a ideia das faixas independentes, que deu o golpe de misericórdia na indústria de cds), incontrolavelmente multiplicados por recomendações em sites de relacionamento como o Facebook. Embora atualmente se dê prioridade online à informação gratuita, a necessidade de concisão e credibilidade deverá alterar este quadro rapidamente, com um enfoque simples em assinaturas acessíveis, classificadas por interesse (selecionadas e agrupadas por algum novo tipo de profissional plugado, o clipping online assinado), como já ocorre a princípio com o kindle da Amazon, por exemplo. É ridículo que a assinatura online do Globo custe R$35 por mês, quase o preço da impressa, além de utilizar um software pesado e lento, nada prático, reproduzindo o desperdício dispensável das centenas de páginas jamais lidas, dolorosamente ilegíveis na tela antes que, ao passo irritante daquela ampulheta rotativa, a gente consiga ampliá-las. Eu gostaria, por exemplo, de assinar por uns poucos centavos apenas meus colunistas favoritos, baixáveis, é claro, em algum tipo instigante de papel tecnológico antirreflexivo, e fundamental, meu caro: transportável pra cama, varanda ou banheiro. E acessíveis por um par de horas diárias aos brilhantes comentários de leitores, via um chat obrigatório embutido, as ideias transbordam, já viu: sugerir e inventar, é só começar. No mais, qualquer mastodonte que a gente use atualmente na internet será em breve exatamente isso: um mastodonte. Como a estrutura online do Digestivo, que me obrigou a digitar este comentário três ou quatro vezes e transformá-lo, finalmente, em link no meu blog, tendo perdido por ocasionais correções na tela o frescor e os achados de estilo dos primeiros textos. Lamentável. Tendo há pouco cancelado de vez minha assinatura impressa do Globo — e já vislumbrando, além do inevitável desaparecimento dos jornais, o fim prometido do objeto livro —, venho buscando um meio satisfatório de mitigar online minha fome de informação (e por que não dizer, entretenimento). Não encontrei ainda, e tudo que consegui até agora foi desenvolver uma nova e urgente carência consumo-informista: que venham (rápido) os hardwares leves, funcionais e bem-bolados como esse kindle aí, um aninho só de assinatura do Globo economizada já paga o (por enquanto) caríssimo artefato sem fio (infelizmente, no momento, restrito aos privilegiados nos Estados Unidos, alô!, indústria nacional de neogadgets conectados). Abraço/ NLS
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, nas frases do dia de uns meses atrás
Vamos combinar que já fazia um bom tempo que eu nem bem lia, quando muito apenas folheava o jornal impresso, me preparando, quem sabe, para o salto libertador final. Afinal de contas, todo mundo sabe que o nosso planeta conectado é movido a notícia, e qualquer breve link gratuito na web já te deixa a par de tudo que acontece no mundo: o mal-estar da atualidade nos persegue, e difícil mesmo é escapar dele, haja meio-do-mato.
E cá entre nós dá mesmo um certo alívio escapar ao quase despercebido viés político morde-assopra típico de um Globo, principalmente nestes trágicos dias de conflito semita. Sim. Palestinos também são semitas, você sabia? E há sutil diferença no uso dos termos, que quase se confundem no ouvido desatento do espectador, mas diferem demais no texto elaborado por qualquer editor: semita ou sionista?, este último aí, sim, se refere a Israel, bem, hum, e em certas colocações, com uma nada disfarçada intenção antissemita, em "chacina sionista", por exemplo. Há outros. O curioso foi eu ter caído muito sem-querer querendo ou, pelo menos, procurando online, numa discussão das boas, quer dizer, das bem cretinas, sobre a validade e/ou necessidade de se ler os jornais hoje em dia — úlcera de imprensa, etc etc —, seria uma mensagem divina? Lula não lê, é o que dizem, ou melhor, é no que o criticam: seria Lula muito à frente ou muito atrás do seu tempo*? Quanto a mim, preciso me cuidar. Pra não despencar saindo de uma fria em outra armadilha pior, uma mais cabotina ainda dieta radical de mídia política, mas ops, peraí: não era nada disso que eu pretendia, eu hein, conviver cotidiana e opcionalmente com os mais raivosos opositores da mais extremada ptaria? Ai, que grosseria: cá entre nós, o que eu quero é distância. Mas, noticiário discutido (ou evitado) à parte, o que eu queria mesmo comentar é a falta diária que faz na rotina da gente o colunista, aquele exilado de segundo caderno pra quem o editor nem liga e que todo santo dia mastiga pra gente engolir uma versão comentada da vida, alguns com humor, outros de mau-humor, pois é: uma espécie postiça de pai ou mãe na mídia "iluminando a pista", encharcados de credibilidade e estilo, do alto de sua cadeira cativa: já deu pra entender o meu vício e mais, por que é que eu desejava tanto isso, pra minha carreira de cronista. Vocês sabem: impor respeito e ser amada incondicionalmente como mãe de alguém. Melhor deixar pra lá.
* pra mim é somente normal que um chefe de estado recorra a profissionais do clipping, a.k.a. assessores de notícias, embora em outras bobagens declaradas eu também lastime a insistente ignorância pública do nosso carismático presidente
Na medida do possível, e da apaixonada, provocada — e provocante — exiguidade de assuntos que assola o noticiário neste princípio de ano, estou, do jeito que consigo em tempos de tanta destruição, feliz com a minha opção. Se não fosse o tempo liberado pela falta do jornal ao lado, eu jamais teria tido o tempo, a curiosidade, e a carência informativa, claro, para encontrar o blog do Reinaldo Azevedo no site de Veja, "um oásis de pensamento independente, de racional e ousada imparcialidade (na medida do impossível) dentro da onda manipuladora que vitimiza a imprensa", mais ou menos isso: comentei lá. Obrigada, Reinaldo.
de um anônimo sensato, na blogosfera: "Se os palestinos depusessem hoje as suas armas, não haveria mais violência. Se os israelis fizessem o mesmo, não haveria mais Israel."
"A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico." Oswald de Andrade
Mas que Biscoito Fino é esse? Me amassa. Nossa. Tremendo. Pois fui ao Biscoito Fino em busca de explicação para o meu sumário defenestramento pelo meu ex-faceamigo Idelber Avelar e lá, ai, lamento, encontrei bem mais do que fui procurar: explícito ali, nem ao menos camuflado (por mero amor ao pensamento civilizado), vestido de um magnífico e como se viu enganoso e caudaloso currículo, um brilho acadêmico de responsa e um mais atraente ainda amor auspicioso pelo Ulisses de Joyce — esse aí, confesso, o propulsor da minha inocente proposta de amizade — um vergonhoso, anacrônico, violentíssimo antissemitismo, uma das piores formas clássicas de racismo. "Chacina sionista"? Fujam. Pobre Oswald de Andrade, espúria homenagem, ou será que... o movimento modernista era também fascista? Duvido.
A citação aí de cima, um pouco grande demais para ser chamada de "citação", pasme, é de Paulo Coelho. O link não te leva ao resto do artigo, nem tente, mas a um blog que o Paulo Coelho mantém no G1 com citações diárias, algo assim como "a mensagem do dia". Espanto.
Já demonstrei aqui no blog, pelo Paulo Coelho, não uma atitude mista de admiração e desprezo, ou menos ainda de amor e ódio que nem o conheço, mas sim de apreciação e medo. Medo de que meus "pares" eruditos me deixem de lado, isto é, mais de lado ainda, ao descobrir meu ladinho chinfrim de chinelo e camiseta que lê Paulo Coelho no Globo aos domingos, isto é: lia. Porque agora, daqui pra frente, se eu quiser lê-lo terei que ir ao site, ao G1, ao Myspace dele e por aí vai, um esforço, mas se eu for por ali, um autêntico gosto. Como romancista (ele, não eu) já não o leio faz tempo, como não leio a maioria das coisas que se publica, mas "enquanto pessoa" — ou o que ele mostra ser como pessoa —, devo admitir que sou fã de Paulo Coelho e achei bonita à beça (e além do mais, realista), a declaração de amor que ele faz à esposa de vinte e nove anos, sem medo nenhum do pronome "eu" (cujo uso, como todos sabem, tenho advogado com muita energia, tentando salvá-lo do ostracismo literário com que a vaga modernidade da língua o tem ameaçado). Mas ops. Peraí. Meu tema de hoje não é Paulo Coelho, mas sim a raramente revelada oscilação íntima entre admiração e desprezo, apreciação e medo — influenciada pela grande mídia, claro. Devo confessar: passei a noite de sábado para domingo meio de vigília, preocupada, tentando adivinhar se eu era muito sincera, muito ingênua, ou cá entre nós, muito burra (e mais uma coisinha: minha tendência maligna — intelectualmente suicida — ao confessionário, misturada à falta de discernimento sobre o que é adequado e o que é apenas equivocado em relação ao meu melhor "futuro", é herança da infância, de ter convivido com aquela mãe de opiniões não somente fortes, mas francamente impositivas, do tipo que impede qualquer um de expressar à vontade sua própria impressão: qualquer crítica literária perde, por mais impiedosa que seja, pode acreditar. Obrigada, mamãe, por me neurotizar). Pois é. Minha opção de a partir de hoje ler online o noticiário, consultar igualmente as mais variadas fontes ( e às vezes nenhuma), é uma coisa hoje em dia tão comum, tão normal, corriqueira — ao longo dos anos se tornará mais corriqueira ainda —, e por que para mim seria marcante? Renderia mais do que um mero parágrafo — duas ou três palavrinhas perdidas na crônica —, mais que uma mudança qualquer de hábito, mera resolução de ano novo como ser ou não ser vegetariana, tomar leite ou iogurte, ser cética, ou espiritualista, malhadora ou andarilha, cidadã planetária ou bairrista? É que a coisa do Globo pra mim foi um sonho, sério, delírio de cronista purista, daquelas que acredita que só no jornal impresso o seu trabalho vale alguma coisa — e não, não é no salário que estou pensando — ilusão de cronista iniciante, oclusão voluntária de estagiária militante que se apoia em gurus temporários para escolher assunto e da qual, cá entre nós, não me livrei ainda. Esta fui eu, por tantos anos de blog, enquanto somava as minhas primeiras dez mil horas de cronista (essa coisa de dez mil horas, deixa eu explicar, foi o que sobrou como ensinamento do livro que terminei ontem, o Outliers, de Malcom Gladwell, já que todo o resto do texto, apesar de medianamente interessante, deve em breve cair no esquecimento, como tantas e tantas outras páginas de descartável entretenimento, sim, você sabe do que estou falando: pescando entre tanta piaba publicada o peixe grande revelado que realmente importa). No que me recrimino é que eu faria melhor calando a minha grande boca, sendo menos sincera, menos verdadeira, menos opinioneira (ops, segundo o Aurélio: opiniosa, opiniática, mas bem, hum, nada pioneira). Compondo com duas ou três frases de grande efeito uma sabedoria mais palatável, facilmente entendida e aplicada na vida diária de qualquer um, sem grandes reflexões ou cotidianas revoluções como as que imponho a mim mesma, mas me entenda: sobre seja o que for que eu escreva, é a cada dia o melhor de mim, dúvidas, erros, tropeços e apegos. (S)em constante edição. Sem pública, marqueteira, interesseira construção de uma personalidade interessante, chame como quiser, mas de toda maneira, um retrato fiel, coisinha comum que acontece a qualquer um — eu, você —, todo santo dia. Enfim, essa aí sou eu, em toda a minha atormentada, indecisa, insistente pessoa. Quer me adicionar? Me adicione. Quem sabe eu até te emocione? Eliminados tantos sonhos inúteis, limitantes, sugadores de energia, me abro mais completamente ainda, com medo ou sem e, à medida em que eu conseguir, cada vez mais livre. Quem quiser que me imprima.
Todos os meus "amigos" literários, aparentemente, se mudaram de casa em 2008 para endereços mais "oficiais" (ou pelo menos mais públicos, isso é certo), e eu só agora me dei conta. Confiram aqui, e na coluna aí do lado esquerdo, os novos endereços da turma: Antonio Prata Luciano Trigo Sérgio Rodrigues Paulo Roberto Pires
Não é nada não é nada, não é nada mesmo, mas dá, sei lá, uma pontinha de esperança num ano que termina, outra coisa, aliás, que não é nada não é nada, não é nada mesmo, vá lá: relevem a depressão que é coisa normal da época e pior pra mim que estou sempre no inferno astral, outra coisa, etc etc. Por outro lado me dei conta, lendo o Xexéo no banheiro, que uma das vantagens de se ter um blog independente é que o dia da crônica nunca cai em clichês de Natal e Ano Novo, e por isso mesmo, não estou escrevendo hoje. Não está mais aqui quem postou. Abração procês.
...e não tenho muito assunto, bem que eu poderia deixar passar. Afinal de contas, venho cumprindo há anos e bem direitinho, com raras e dolorosas exceções, a obrigação diária de escrever crônica, religiosamente e num mínimo múltiplo comum de pelo menos dois mil caracteres por texto e nenhuma remuneração, como reza a bíblia dos cronistas, perfazendo até hoje, 30 de novembro de 2008, um total de hum mil, trezentos e setenta e oito crônicas publicadas.
Mas enfim. Vocês sabem. Por ser 30 do mês, e domingo, bem que eu poderia deixar pra amanhã (que é segunda-feira) os aborrecimentos futuros, contas devidas que finitamente aqui em casa se pagam em todo sagrado princípio de mês. Aluguel. Cartão de crédito. Tevê a cabo, gás, luz e telefone tudo em dose dupla mais as cuidadoras. Iptu desta vez não tem, graças a Deus mas só por ser dezembro quando o parcelamento termina, única e exclusivamente devido à minha indiscutível porém temporária condição de dupla inquilina e, justamente por isso, sujeita a taxas extras, inundações e tempestades dramáticas porém... temporárias, graças ao Deus do dilúvio (e do arco-íris), isto é: se eu acreditasse nele. Inquilino nunca perde a propriedade, pelo menos isso. E a duras e pagas penas preserva a esperança infinita de um belo dia conseguir uma casa pra chamar de sua. Que não se desmanche em qualquer enchente. Pois é (,) pay day hoje no computador online, só de nervoso e por favor não reparem no meu sotaque inglês horroroso, um violamento explícito dos transnacionais sagrados votos da boa permutação de linguagem praticada diariamente no casamento que por muito menos quase termina em divórcio e isso, imaginem, só mesmo porque hoje é domingo (de chuva), dia de passar o dia inteiro na cama: deixa o conflito pra amanhã que este tipo de coisa cai bem melhor numa infame segunda-feira. Pois que hoje é domingo, fim do décimo primeiro mês e início da primeira semana do mês seguinte, a apenas quatro não do fim do mundo, mas do fim do ano, estação festiva onde a alegria, de tão obrigatória, mesmo por isso não me contagia. É dia de voto e, para os mais devotos, de doação de ex-votos, o que aqui em casa não passa de uma bela tela votiva — pintada, assinada e autenticada por Antonio Maia que eu mesma comprei com as minhas economias de estudante —, bons tempos aqueles em que eu não me preocupava tanto com as contas da farmácia e ainda por cima colecionava arte contemporânea, porque hoje em dia, vocês sabem, só coleciono mesmo títulos não-remunerados veiculados em blog de crônica, de domingo a domingo e com raras exceções das quais não faz parte este dia de hoje. Mas deveria. E é por ser esta semana a data do aniversário dele, e eu andar precisando (demais da conta) de muita calma e paz de espírito nesta hora da obra amém que eu, embora não acredite nem um pouco em persistência da vida após a morte, nem na utilidade prática de ex-votos e nem muito menos no poder transformador da fé, peço a meu pai, de onde ele estiver, que me alivie a barra, porque hoje é domingo e sinto saudades dele, e da segurança que ele em vida me dava e que desde então, sem remédio aparente que a recupere, se esvaneceu.
*e também, como acabou ficando bem claro neste texto de segunda, porque há nele uma dose única e letal de referência poética nostálgica, que mesmo adiada de um dia homenageia o lirismo nem sempre fácil de Vinicius, do qual, claro, eu nem me aproximo mesmo que tente muito, e pelos muitos domingos de crônica que ainda tenho pela frente
Robert Wilson — dramaturgo, fotógrafo, diretor teatral, videomaker, coreógrafo, autor de óperas, iluminador (segundo matéria do Globo) —, encenador
a icônica ópera "Einstein on the Beach", de Robert Wilson
Todo santo dia, já deu pra perceber pelas citações que meu dia começa cedo, lendo O Globo de cabo a rabo: da página um do primeiro caderno, passando por política e economia e demais suplementos, conforme o dia, à última página do segundo, deixando de fora as novidades do esporte.
Todo santo dia, algumas horas mais tarde, o dia do Alan começa me perguntando o que foi que eu li no Globo poucas horas antes, ao que eu respondo, algo confusa e bem freqüentemente — ops, frequentemente (afinal de contas, já está em vigor o novo acordo ortográfico ou não?, alguém me informe pelo amor de Deus): não lembro. Não é pra menos. De "quem lê tanta notícia?" até "pra que ler tanta notícia?", o que eu percebo é que o enfoque constante nos graves problemas da humanidade faz com que logo à primeira olhada a minha mente, assim, digamos, se desligue da aridez dos fatos, ou entre rotineiramente no modo automático que identifica, sem que eu saiba por que ou como, alguns poucos assuntos para o post do dia. E pronto. Cai todo o resto na mais informe monotonia — mais no sentido de "uniformidade fastidiosa de tom" — à qual procuro escapar, se é que (poucos de) vocês me entendem. Hoje, por exemplo, eu pretendia começar este texto concedendo um raro benefício ao nosso Presidente Lula, este visionário: afinal de contas, o nosso Abençoado Obama acaba de incentivar o povo americano — a partir de hoje (é Dia de Ação de Graças ou, para os mais íntimos: Thanksgiving) dando o ar de sua graça em plena estação anual de compras — a consumir, consumir, consumir, sob a mesma premissa do nosso avançado líder local: é o consumo do povo que move a economia, estúpido, ou em outras palavras, quando Obama vem com o milho, Lula já foi com o mingau, ops, pipoca. No caso de Obama, claro, sendo ele o milagroso líder de uma nova era ainda por vir, é recomendada a moderação em tudo, mas pronto, lá vai ela ladeira abaixo: não era sobre isso que eu ia escrever, gente, não. A verdade é que não estou nem aí para a sociedade de consumo, embora, claro, a critique ferozmente enquanto na intimidade a alimento envergonhadamente com os meus (nada) modestos sonhos de mais beleza e mais conforto. Imaginem que até me diverti um bocado, e com o considerável atraso que é praxe aqui em Itaipava — e a falta serrana de ansiedade por tudo que é novidade e que derruba os preços à metade —, com o dvd de Sex & The City, o filme — a última bíblia da sociedade de consumo (em extinção?) onde não faltam sonhos de mais beleza e mais consumo, ops, quer dizer: conforto. Mas como em quase tudo na vida, imaginem, até mesmo em Sex & The City, o filme, dá pra encontrar algum tipo de mensagem edificante, no caso, a beleza do amor e a intimidade entre amigas. Mas bem. Hum. Ainda não era sobre isso que eu queria escrever. Eu poderia mentir que atribuo o título acima à minha elevada auto-estima erudita, evidenciando na sofisticação do texto um conhecimento acima de qualquer crítica, mas gente: o que acontece mesmo na minha modesta-porém-pretensiosa vidinha de cronista é que todo dia, quando leio sem grande atenção de cabo a rabo as páginas monótonas do noticiário no Globo — que hoje em dia na verdade repetem o que já li antes na internet ou assisti na tevê a cabo, vem daí quem sabe a intermitente sensação de tédio interrompida somente nas raras páginas instigantes sobre cultura e arte no segundo caderno —, me conecto não sei como com não sei qual outro nível de informação que me atrai, e raramente me trai, me trazendo à memória fatos desconexos que associo em posts que pra você, leitor, representam não raro um vasto desafio ao simples entendimento. Quo vadis, no caso, é um tipo desses de título com múltiplas referências e num campo tão amplo que excede o alcance da mera consciência, taí, como o Alan bem diz: "mesmo quando estou errado o universo me apóia", isto é, a intuição do escritor supera a consciência dos fatos, embora às vezes, claro, resulte lamentavelmente num mero samba do crioulo doido. De volta a quo vadis: — uma expressão cristã que evidencia a dúvida entre o dever social e o interesse próprio, mais ou menos isso — um romance polonês dos mil e oitocentos que se passa na Roma antiga e contrapõe o poder do amor ao poder militar, mais ou menos isso — e last but not least — que no Globo de hoje li a expressão inglesa citada no original mais de um par de vezes, deve estar na moda — um filme oscarizado do início dos anos 1950 baseado no romance acima, taí, não sei se me lembro da capa do livro na estante lá de casa ou do filme revisto décadas mais tarde, provavelmente um pouco dos dois, mas cá entre nós, de novo, o que tem a ver qualquer desses quo vadis com Robert Wilson? Bem. Hum. De uma coisa pelo menos eu sei: "quo vadis" em latim quer dizer "aonde vais", quer dizer, não sei onde vou. E por falar nisso nem o Robert Wilson, um encenador que eu já curti bastante e que pelo visto na visita a São Paulo continua bem por cima da carne seca, avesso a rótulos e sem deixar a peteca da criação cair quando, provocando riso, confessa: "se souber o que está fazendo, não faça". Leio na entrevista do Globo que Robert Wilson nasceu em Waco, no Texas, uai, gente, não é também de Waco aquele guru histérico do suicídio coletivo (o que me remete muito sem querer ao novo e sofrível filme de M. Night Shyamalan, "The Happening")? Tá certo: uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas taí, é desse jeito mesmo que a minha mente demente funciona diariamente, uma coisa puxando a outra e, por falta de um filtro decente que a organize, se misturando à outra, ah, tá bom, vou contar pra vocês, finalmente, sobre o que é que eu queria escrever hoje: o poder e a necessidade de escolhas e a contraposição teórica entre a intuição e a razão, deu pra entender ou não? Voltem agora ao primeiro parágrafo e vocês verão, com toda a certeza, como a lição do espírito iluminado que ora me guia deixa a mensagem do dia: clara como água de chuva em dias de chuva de verão, isto é, ah. Deixa pra lá. Melhor se limitar à epígrafe lá de cima e esquecer todo o resto, podem acreditar. Ou optar, quem sabe, pela falta total de pensamento linear na arte da escrita para confrontar, com alguma beleza e conforto, a excessiva linearidade da sociedade culpada de consumo refletida no noticiário diário do Globo. Mostro do que gosto e estamos conversados. Ou não: falei (muito) e disse (muito pouco), e assim caminha a humanidade, ih, me perdi. Tudo bem. Relaxem. Divirtam-se. Afinal de contas, é pra isso que eu venho todo dia aqui.
No Globo online (pelo segundo dia seguido, uau!), deixe seu voto lá!
Embora até agora não tenha havido nenhuma esperada melhora na crise financeira — muito pelo contrário, as perspectivas parecem cada vez mais negras, dá realmente medo de uma depressão generalizada — parei por enquanto, com raras exceções para confirmar a regra — como o Nobel Paul Krugman em sua coluna no NY Times, por exemplo — de ler o noticiário econômico. Ler pra quê?
Afinal de contas, tais especialistas do permanente apocalipse futuro erraram feio, e em todas as previsões: a emenda saiu pior, mas bem pior do que qualquer soneto. Muito mais interessante do que catar os poucos cacos que ainda estão sobrando é prestar atenção na nova sociedade que ora está se formando, nos escombros acumulados da velha realidade falida — como numa incubadeira, segundo imagem ótima de Luiz Garcia no Globo, e a coisa, parece, virá melhor do que a encomenda, isso algum tempo depois, claro, de utilizado o fôlego necessário pra limpar todo aquele lixo tóxico de um tão recente quanto terrível passado (a gente nem faz uma boa idéia de quanto). Vou sonhando. O curioso é que bem no princípio do boom da internet, enquanto internauta incipiente — Paulo Pires, em seu excelente blog, afirma que o termo é cafona, fazer o quê, a palavra "cafona" não deixa tampouco de ser... cafona — eu costumava encarar a rede como uma boa metáfora da 'mente coletiva humana' (que manda no mundo). E me entendam bem que naquela época, como até hoje, aliás, eu procurava nesta idéia esquisita de 'mente coletiva humana' um bom sucedâneo para o conceito de 'Deus', os muito crentes que me perdoem pela ousadia da minha heresia, quer dizer então que a internet é o novo Deus? Bem. Hum. Não dá pra chegar a tanto — afinal de contas, a idéia de um Deus-pai onipresente para mim não procede de jeito nenhum, disso vocês já sabem —, mas cá entre nós, com a invenção da internet o projeto teórico de Jung sobre o inconsciente coletivo acabou aflorando para o consciente prático, não é mesmo? Corta. Corta. Não era meu plano, nesta sexta enforcada, digressionar sobre o filosoficamente incerto destino da vã psicologia, de jeito nenhum, gente. O que eu queria mesmo era chamar a atenção para a nova intenção de inclusão total do cidadão comum na esfera política decisória através da internet — ufa, tá duro eu me livrar de tal temível prolixidade contagiosa nesta manhã ensolarada, o Deus da gramática que me proteja —, tal como vem sendo sinalizada pela equipe geradora da Nova Era Obama (ih! deu NEO, vocês perceberam? muito Matrix mesmo, vamos combinar: poderia ser Nova Economia, ou ainda Nova Ergonomia). Li no jornal a respeito, mas na verdade eu já vinha sendo sondada por email, na qualidade de leitora registrada no site de Obama, para participar do novo governo democrata, isto é, desta nova forma democrática de governo. Exagero à parte, quase explodi de excitação: nem nos meus áureos tempos (ilud)idos de esotérica eu ousava imaginar que tão abrangente inclusão social pudesse ser possível, vamos combinar que de hoje em diante a expressão 'governo do povo, pelo povo, para o povo' acaba de adquirir um significado completamente novo. Resta rezar pra que não se limite a um simples e inócuo discurso. Infelizmente pra mim, com toda a esperança que esta nova liderança inspira, não chegou ainda a nossa vez: embora na internet cada um de nós seja a bem da verdade um cidadão do mundo, nossa sociedade brasileira ainda trabalha duro para oferecer às escolas acesso em banda larga, imaginem, um requisito básico para a educação conectada. E como se isso não bastasse, infecciona o ambiente universitário com uma política reducionista de cotas, me entendam bem. Eu sei muito bem que num país como o nosso, que ainda estrebucha na desigualdade, ações afirmativas são bastante úteis, até necessárias. Mas não concordo de jeito nenhum com essa idéia de liberar o acesso ao ensino superior, por intermédio de cotas impostas, pra quem não tem uma boa formação primária. É, gente. Melhor seria conceder aos mais pobres, que demonstrassem interesse e capacidade, um número ilimitado de bolsas de estudo — incluída aí uma boa ajuda de custo para uma sobrevivência decente e uma dedicação integral ao curso, isso, claro, desde o ensino mais básico. Aos demais, vale um pouco de esforço. Afinal de contas (e até mesmo para nós, da vilipendiada e sempre odiada elite), pouco ou nada neste país se consegue sem uma boa batalha insistente, como o trabalho ingrato de cronista, por exemplo. Agora. Cá entre nós. Quem sabe esta inesperada ou pós-utópica sociedade global conectada nos facilite a vida, não é? É torcer e esperar. Pelo sim, pelo não, já vou correndo na frente. Eu blogo sim, gente.
Como se não bastasse a intimidade devassada nos blogs, a indústria intrometida da notícia inventa a cada dia uma novidade, nada mais que mais uma mídia gulosa, vorazmente alimentada pela chance notória de faturar um extra com a publicidade. Mais intrometida ainda. Esse Twitter, por exemplo, no qual me recuso a entrar — só não sei até quando —, tem coisa mais irritante?
Ter seus passos pelo mundo monitorados a cada dispensável instante? Nem casamento resiste, vamos combinar. Não é que eu ligue tanto assim para a minha privacidade, nada disso. Quem me conhece e me lê sabe bem que eu me abro pro mundo de um jeito que até me escancaro demais, mas cá entre nós, divulgar cada mero minuto de nossas vidinhas tão banais tem seu preço, o que vale pra quase tudo, porque, francamente: não dá para ser brilhante com uma luz cegante em foco o tempo todo, mesmo porque gente que é gente se arrepende de boa parte do que faz ou diz. Ou pior: escreve. E botou na internet, todo mundo sabe: perdeu-se o controle de tudo. Tem sempre um jeitinho de ter um acesso eterno ao vexame, mesmo que a gente o edite depois, e ainda se ocorre o sério risco da injustiça, por pleno excesso de (falsa) divulgação, taí. Vocês sabiam que a tal ignorância fatal de Sarah Palin, ao declarar que a África era um país... nunca aconteceu? Tudo bem que no frigir dos ovos esta notícia — como, aliás, ouso prever: o próprio fenômeno Sarah Palin em sua acachapante generalidade — terminará em breve no lixo da história. Mas o problema em si é que a gente produz tanto lixo, mas tanto lixo, que pode acabar afogada por ele, isso, sem levar em conta que o nosso poder de desconfiar vai ficando a cada dia menos eficaz, e você? Ainda acredita em tudo que lê? Não é pra menos que embora hoje em dia se leia tanto, e tão superficialmente, a verdade dos fatos é que a gente apreende cada vez menos. E o mais complicado de tudo é destrinçar nesse emaranhado confuso o que tem realmente valor, peso e gravidade pra merecer a posteridade, coisa que só o tempo, este desvirtuado e desconsiderado velho conhecido nosso, dirá — mas quem é que tem tempo pra esperar? A memória anda tão estressada que a gente é forçada a escolher no calor da hora, pinçar no meio de um tudo caótico somente a lembrança do que nos afeta íntima e pessoalmente, isso, claro, pra quem ainda se distingue na multidão de dados como um ser individualizado em sua intimidade, com jeito, gosto, e discurso destacados. O que faz de mim, na prática diária da opinião formada, uma diletante, em ambos os sentidos que encontrei para a palavra, é, gente, nem no dicionário dá pra confiar cem por cento: alguém que faz o que faz por amor, não por ofício ou obrigação; mas, por outro lado, alguém que exerce de forma medíocre o seu ofício, sem ter conhecimento do mesmo, e pior, se satisfaz com a própria mediocridade. No que plenamente me reconheço (em um, e em outro). O que me leva em última instância à única coisa ainda retenho daquele livro imperdível de Aldous Huxley que li na adolescência, e que eu comentava com o Alan no outro dia já nem me lembro a que pretexto, "Às portas da percepção" (embora não tenha certeza de que é este mesmo, e isso, imaginem, num tempo em que a informação a ser considerada vinha destilada e bem engarrafada em alguns poucos livros): a idéia do cérebro como um filtro de informações, sem o qual a gente perceberia tudo que existe à nossa volta e terminaria perdido, totalmente confuso e, em última instância, louco. Lembra alguma coisa? E cá entre nós: nem precisa hoje em dia de droga alucinógena nenhuma, basta um acesso anônimo e amplamente autorizado à rede, que faz de nós eternos plugados, filtro? Que filtro? (Que cérebro?)
"O Sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia?" Caetano Veloso nos anos 1960: a gente era feliz e nem sabia
Essa crônica sem nenhum assunto, por exemplo, motivada pura e simplesmente, só pra variar (e não me repetir), pelo excesso de assuntos que no dia de hoje atraíram a minha atenção mas que, francamente, não merecem o favor da exposição, vai para o lixo ou não vai?
Embora eu seja bem mais sensível e receptiva a críticas do que alguns leitores possam imaginar, com base em minhas incontroláveis e intempestivas reações (condenáveis, confesso) aos raros comentários aqui no blog — sim, amigos: para meus livros e crônicas procuro constantemente a leitura crítica de quem, por história e justiça, dá-se ao respeito e à reputação ilibada de considerar-se... leitor crítico, excluídos aqui, é claro, os covardes anônimos escondidos por trás de nicks, está online no Todoprosa: "Antigamente, o último refúgio dos velhacos era o nacionalismo. Hoje é o nick." [PUNCHLINER] —, comunico aos meus detratores que bem, hum, perdem por aqui seu precioso tempo.
E explico: por mais que sejam variados os nomes, por mais que sejam variados os estilos, por mais que sejam invariáveis os conteúdos virulentos das mensagens, atribuo todas elas a um ex-sócio, ex-amigo, ex-amor e eterno ressentido, um loser autêntico desses que por mais que se esforce não consegue limpar, de sua triste biografia, a marca brilhante de minha única passagem: depois de mim, o dilúvio, aiaiai. E aos multialteregos verdadeiros ou não desta mais do que lamentável criatura, capaz, imaginem, de assassinar por vingança um canteiro florido de plantas com um caldo fétido de camarões podres — crime pelo qual foi até julgado pela justiça, a comum, não a de Deus —, vai meu cada vez mais abrangente esquecimento. Fui.
Como os meus 19 leitores já sabem... ih. Foi mal. Esssa história banal de 19 (ou 17, sei lá, e meio, se contar o anão) leitores já deu o que tinha que dar nas colunas bem mais divulgadas do Xexéo e do Agamenon, mas vamos combinar que no Globoonliners, alvo primordial desta crônica inesperada de sábado — ih, olha aí, ó: 19 de julho —, faz um bom tempo que o número confesso de meus leitores, exibido à esquerda do texto pra todo mundo ler, é exatamente este: 19. Dezenove, todo mundo sabe — e se não sabe, está na hora de ficar sabendo — é o número do carma, bom ou ruim, mas que eu gosto de dizer: da transformação do carma. O que eu quero mesmo dizer é que por muitos anos — até conhecer o Alan e deixar pra lá de vez esse negócio de carma — em todo dia 19 do mês eu parava tudo, esquecia tudo que era chatice, aporrinhante, dolorido, e só fazia o que desse mesmo na telha, vocês sabem, na esperança de que um dia se tornasse normal uma vida assim, gostosa, ideal. Vocês me entendem. Agora. Vamos combinar que está mais do que na hora de mudar o número fixo destes meus leitores, e é claro que estou falando de ampliar, ampliar muito, não? Que tal uma corrente? Hein, gente? Li no jornal que a idéia é boa, um caso típico assim, digamos, de eficiente marketing viral. Tá certo que nas estatísticas oficiais de visita este blog vosso de todo dia vai às alturas, mas preciso confessar que isso só acontece quando o assunto é sexo, e sexo explícito, claro. Meu vídeo erótico no youtube, por exemplo, já vai além dos 24 mil espectadores, pode ir lá conferir que eu garanto que é tudo verdade. Mas, bem. Hum. Nem tudo nesta vida é bom sexo, não é mesmo? Pois o caso é que li hoje cedo — ah, tá bom, sábado, dezenove de julho, etc, etc — que o Globo Online está procurando, se é que eu entendi direito, um blogueiro [brasileiro] pra falar sobre as eleições americanas. Ora me diga você, leitor, leitor meu: existe alguém por aí melhor do que eu?
Bom. Vamos combinar. Se for eu a escolhida, sei muito bem que o Globo vai precisar não de um, mas de dois blogueiros. Afinal de contas, sendo eu uma Obamete convicta — e cega e surda e muda e manca para todos os demais argumentos em contrário — nada mais justo que haja um blog pro-Obama e outro pro-McCain, mas até aí... a página do Globo já está mesmo dividida, não é? Além do mais, se for mesmo preciso, posso escrever online sobre a opinião do Alan — americano, conservador e McCaintista desde criancinha —, imaginem como seria bom um governo assim, quase um bom casamento: dois líderes eleitos, um de cada lado da preferência do eleitorado, sentando em paz todo dia pra discutir os destinos do mundo, bem, hum. Talvez não fosse uma idéia tão boa assim, mas ops, lá vou eu de novo perdendo o fio do texto, assim sinceramente não dá: é auto-sabotagem ou o quê? Outro projeto bacana que estou a fim de advogar hoje pra aproveitar o clima — vocês sabem: dentro em muito breve, esta Noga que vos bloga vai se mudar pro mato — é uma crônica semanal, quem sabe talvez até refletida em blog, no suplemento "Serra" do Globo, online e offline, claro, que esta cronista que tanto fala anda bem precisada de um dinheirinho fácil, se é que vocês me entendem: o terreno eu já tenho, o projeto eu já fiz, mas cadê a grana pra levantar a casa? Pois é. Bem melhor do que divulgar uma conta bancária [para eventuais doações] é pleitear na cara-de-pau uma boa carta de apresentação, né não? Tudo bem, eu sei que este meu estilo afetado às vezes ofende a família, mas juro de pés juntos que vou tentar me comportar, taí: com blog e crônica, quem sabe até deixo de ser tão irônica, ih, rimou. Mas desta vez, foi só pra conquistar vocês: quem sabe é neste dezenove do mês que meus dezenove leitores viram mil e novecentos, né? Já seria um bom começo, mas vocês sabem: enquanto eu não conseguir o que eu quero eu não paro mesmo de choramingar. Melhor pra todo mundo que não demore muito. Bom sábado de virada procês.
Algumas referências cinematográficas cruzadas no Globo de hoje:
* Arthur Dapieve recomenda o dvd "turbinado" de Louis Malle em "Trinta anos esta noite" (no Dvd Clube ainda não tem, alôô!). Não lembro do filme, mas vou conferir com certeza: no meio de tanta porcaria devedesiva, é o tipo de coisa que eu gosto. Quanto ao comentário sentido do Arthur — "Nas noites difíceis, eles me disseram que eu não estava tão solitário assim. Às vezes, apenas isso já basta para afastar a tentação da pistola" — bem... Tô preferindo outra opção.
Pra afastar a tentação da pistola, digo, vou me mudar pra Serra e reconhecer de vez que, de um ponto de vista mais fundamental impossível, sou mesmo uma solitária, ao ponto até mesmo de me identificar com a personagem de Jodie Foster em "A ilha da imaginação": uma autora de livros de ação que tem fobia de sair de casa. Ou alguém que escreve muito mas se enrola ao falar a um ponto tal que por isso, cada vez mais, anda procurando o silêncio externo. E mais: reeditarei o sonho realizado de meu avô mas que eu nunca, nunca mesmo nesta vida imaginei materializar, imaginem que eu, arquiteta, trinta anos de formada e obra nenhuma, nunquinha mesmo, comprei um terreno e estou projetando a minha casa. Que tal isto para afastar idéias de suicídio?
* nas estréias da semana, já visto pelo Noga Bloga faz um bom tempo: "As aventuras de Molière". Gostei: dei quatro estrelas na época. Já nem me lembro direito, mas provavelmente não dei cinco pelo mesmo excesso de gracinhas que André Miranda critica, mas como ele diz, vale a pena pela aula de teatro.
* à parte o xororô prévio de Murilo Salles no jornal de hoje — o cara nem sabe se fará sucesso ou não, mas só pra se prevenir de um mico ansiosamente aguardado já vai se desculpando, deplorando a concorrência com os blockbusters da semana, fala sério, Murilo, me lembra eu mesma e a auto-sabotagem cotidiana: pra sobreviver ao massacre, faça um bom filme; se não agradar às multidões, tudo bem; se não render milhões, também: o que importa é o estado de qualidade da sua arte, faça o que eu digo não faça o que eu faço que pelo menos o bonequinho do Globo você já conquistou, né? — a premissa desta realidade ficcionada, vagamente inspirada na realidade ficcionada de Clarah Averbuck que mencionamos esta semana, é nossa velha conhecida: "uma sensibilidade nova, visceral e virtual ao mesmo tempo, angustiada e hilariante" e, acrescento, transparente pra caramba (embora a C.A. sempre negue que seja tudo verdade), lembra ou não lembra os melhores momentos do Noga Bloga? Citando O Globo, "em uma palavra: contemporânea." Dá-lhe globosfera. Ops. Blogosfera.
* notinhazinha da redação: se nos próximos dois meses eu der uma sumida boa de vez em quando, não me condenem, e nem me estranhem, que eu volto em seguida: é porque estou em trânsito para uma nova vida. Fotos muito em breve.
Pois é, gente. Esta noite, enquanto eu dormia — ou melhor, me debatia de um lado para outro na cama, tentanto dormir, enquanto equacionava na mente todas as decisões cabeludas que preciso tomar nos próximos 30 dias — passei, sem que eu soubesse, por uma prova de fogo que me qualifica, enfim, como cronista profissional: a ameaça de um processo judicial, vocês sabem, coisa de gente grande, do calibre assim de um Zuenir Ventura ou um Diogo Mainardi. Pra quem quiser emitir opinião, ou voto, ou apoio, ou discordância, vai meu convite ao debate de uma questão, a meu ver, crucial para o futuro social do século vinte e um: que valores transmitir aos nossos filhos e como prepará-los para a vida adulta. No Noga Bloga: Pobre Miss Brasil Mirim No Orkut: página de recados do reclamante Cumpre esclarecer, para todos os efeitos morais — e legais, claro — que no meu post original nenhum nome foi citado, tendo sido a questão enfocada sob um aspecto generalizante (e preocupante). Agora, no entanto, os personagens da trama voluntariamente se identificaram, como pode ser verificado nos comentários linkados. Dá-lhe carapuça.
Emily Gould na NYTM ( 25/05/08) x Clarah Averbuck na ROG ( 13/07/08)
Vocês eu não sei, mas li na Sunday Magazine do NY Times ["Exposed"], há coisa de umas semanas — em 25 de maio, pra ser mais exata —, a comentadíssima reportagem de capa sobre uma blogueira pioneira que expôs sua vida íntima em blog e as terríveis conseqüências disso, etc e tal...
Tudo bem. Não é que Clarah Averbuckseja, assim, digamos, uma cópia de Emily Gould, afinal de contas a nossa blogueira se expôs bem antes da deles. Mas esta matéria de capa na Revista do Globo de hoje ["Confesso que me abri"]... pelamordedeus. Oportunismo perde. Até o jeito da Emily o texto "emula", ih!, foi mal, viu? Neguinho lá no andar de cima d-e-t-e-s-t-o-u a superficialidade dela. Da Emily, quero dizer. Desculpem aí a má vontade com a colônia (ops: filial), mas desta vez foi mesmo demais, gente. E aqui no Noga Bloga, vocês sabem, a gente conta o milagre e mostra mesmo o santo, doa a quem doer, custe... Bem, nem sempre. Devido à enxurrada de emails maldosos e ataques online, a pobre coitada da profunda Emily Gould fechou para sempre seu blog. Agora, se a carreira literária dela finalmente deslanchou depois da colher de sopa do NY Times... isso eu não sei. O futuro dirá, não é?
Ah, sim, Antes que eu me esqueça. A personagem dos meus (três) livros sou eu sim, viu? Não importa o quanto ela trepe, sofra ou goze. É tudo verdade.
Lendo no Globo a crônica de hoje de Joaquim Ferreira dos Santos, depois de um mês inteirinho de ausência, a gente fica com a impressão de que o cronista se desligou mesmo, relaxou de todo e de tudo. E agora volta, como se dizia antigamente, uai, gente: nem lembro mais o que se dizia antigamente, no tempo do rádio de pilha e tevê pebê que "esquentava a válvula", encrencava o "horizontal" e saía do ar. E quando carro novo, imaginem, precisava "amaciar" pelos primeiros, sei lá, mil quilômetros de rodagem. E, claro, esquentar o motor de manhã na garagem. Hã?
Pois hoje em dia, acordou tá pronto. Nem computador a gente desliga mais, vocês sabem, para "refrigerar a placa". Tem dias em que, falando sério, acordo no meio da noite, vou ao banheiro, e enquanto tomo água na cozinha dou uma checada nos acessos ao blog e na pasta de email, acreditem ou não. Pois é. Imaginem que hoje, segunda-feira, enquanto planejo meus muitos passos em direção ao futuro, isto é, às providências do mês que vem, da semana que vem, de hoje à tarde, me peguei tentando lembrar minha vida antes do Noga Bloga, quando nem notebook eu tinha, que dirá um marido. Não consegui. Naquele tempo, já lá se vão uns três anos, eu fazia... o quê, mesmo? Pois é. Hoje em dia, nem viajando que eu paro de escrever no blog. O que eu quero dizer é que, embora poucos blogs hoje em dia tenham, de verdade mesmo, a ambição de fazer literatura, é no meu ciberespaço público/privado que experimento, erro e tento, exercito as obrigatórias "quinhentas palavras diárias" que não sei quem famoso confessou na Flip. Ah, a Flip, pois é. Não estive lá. Imaginem que ouvi dizer que a gente agora vai à Flip pelo Portal Oi, é, gente: não precisa pousada, nem fila, nem multa na estrada, oba. Fica faltando o gostinho, assim, da empolgação ao vivo, mas vamos combinar que nem estando em Paraty a gente consegue isso: se não tiver pistolão (ih!?) acaba irremediavelmente na tenda do telão. E daí? Achei muito bom, tradução simultânea e tudo. O que vale é o conteúdo. Tudo isso é pra dizer pra vocês que desde o dia em que criei este blog já não sei o que é férias [ops: são férias?], ah, tudo bem, a gente já sabe: artista não tira férias, não se aposenta, não descansa nunca e, pra falar a verdade, mal dorme: cria em seus sonhos na noite de hoje o post de amanhã, juro. Ah, se eu soubesse. Não escolheria outra profissão de maneira nenhuma, viu? Já me bastam os tantos e tantos anos perdidos na vida, entre o primeiro impulso (no colégio) para a literatura e a verdadeira jornada muito, mas muito tempo depois, depois de muita curva mal dada e muito pneu atolado na estrada: foi aqui no blog que engatei de verdade uma primeira, ops. Tá bom. Carro que é carro, hoje em dia, nem primeira tem: é automático, né, gente? Liga não. Faz é tempo que não dirijo um, desde que bem, hum, vendi o que eu tinha... pra me dedicar à literatura. Tem valido a pena, embora no fundo no fundo, pra vencer na vida mesmo no duro essa profissão de escritora não renda grande coisa, vocês sabem: tudo tem um preço, mas o valor da arte não muda. É mudo. Mas inestimável: toca em frente essa carroça de burro.
Não fossem esses chatos ofensivos, amargos e sem nenhum senso de humor que andaram por aqui assombrando o blog, eu nem escreveria hoje. E não é por falta de incentivo, ou falta de inspiração, ou de ânimo, ou depressão, não, meus caros, nada disso.
É porque estive e estou ocupada com outros assuntos, meu processo moroso na justiça finalmente terminou e preciso me dedicar à conclusão de sérias transitoriedades na vida (sim, eu diria pessoal, mas vocês sabem: não há vida privada aqui no Noga Bloga, onde a transparência e a cara limpa imperam, ao contrário de outras corriqueiras esferas políticas deste nosso Brasil varonil) familiar, coisas bem mais íntimas, mais profundas e mais amorosas que as intenções ferinas (e gratuitas) de certos leitores que, se hoje não curtem o blog, vamos combinar que nunca curtiram, porque aplauso da parte deles eu nunca ouvi, e vocês aí? Hein? Ao contrário do que as más línguas dizem, tem quem ache que este blog está a cada dia mais vivo, mais vibrante, mais participante da realidade que o cerca, opinião refletida nas estatísticas de visita, abertas aí do lado esquerdo do peito pra quem quiser ver. E como escritora, devo confessar que me sinto a cada dia mais à vontade com meu dom nato de manipular palavras. Se registro um queixume aqui e ali é pra criticar, deplorar e, quem sabe, modificar o limitado alcance de quem, neste mercado francamente vendedor, aspira à prática libertária da arte. Arte pura em literatura, sem concessões de minha parte. Quanto ao post arriscado de ontem, que deixo aí logo embaixo na íntegra ao menos até amanhã (pra que quem não leu possa conferir), bem sei que soou diferente, uma tentativa inusitada — e, reconheço, intencionalmente exagerada e de resultado duvidoso — de utilização irônica da linguagem simbólica das ruas: pretendeu justamente apontar o ridículo, o exagero, a limitação semântica, entendeu, papuda? Aos mal-humorados, o desterro. Quem tem medo da crítica, ou da solidão inerente ao ofício, que não se meta a escrever. Não é meu caso: visto cada vez mais, e a cada reflexão um pouco mais, a carapuça de ermitã. Sou, sim, egoísta e auto-referente. E dona do meu tempo inteiro, claro, ou que espaço teria para refletir? Que resultado obteria de meus escritos? Ora, companheiros. Quem pretende encontrar no Noga Bloga aquele tatibitate chinfrim de uma vidinha igualmente, historinhas dignas de sessão da tarde e fórmulas prontas de audiência fácil, vamos combinar: bateram na porta errada. Sou abusada, sim, e desbocada, e sim, adoro os meus leitores, vivo, me alimento deles. Mas como qualquer um deles, só como o que me agrada. Os insatisfeitos que se retirem da minha casa, onde só entra quem quer, e quem me quer. Alguma coisa errada nisso?
"...falta ao autor o empenho artístico, assim, de um Flaubert ou, parafraseando Jabor — o sujeito mais parafraseado e indevidamente assinado da internet —, o pendor trocadilhista de um James Joyce que faz, na verdade, o incrível jogo de armar literatura." das Crônicas Irônicas de Ulysses
Vamos combinar: o Jabor tem toda razão de reclamar. Mas o pior de tudo, na minha opinião, não é que o autor passe por gay, machista, homofóbico, fascista, corno e idiota, nesta ordem ou em outra qualquer, à vontade do ritmo e do freguês conectado da hora. O pior de tudo é o gosto confesso do público por tudo que é má literatura: gente que não distingue panfleto de crônica, ficção de realidade, mentira de verdade. Um cérebro empastelado por mensagens de má qualidade, é, rimei sim, e daí?
Se brasileiro em geral não sabe o que lê, deve ser porque em princípio, lá na escolinha do princípio, mal aprende a escrever, vocês sabem, é de pequenino que se torce o... ou se distorce o objetivo de um bom texto. Rubem Braga está aí mesmo, nesta alentada biografia (da qual só escapam, como pequenas jóias ofuscadas, breves trechos citados do biografado, bem escritos desde o primário), pra provar a verdade disso. E por falar na tal biografia que estou lendo, não me levem a mal, por puro amor à arte do cronista — em certas ocasiões a crítica soa injusta, mas ainda assim, necessária: o aspecto histórico da coisa pode até soar interessante, mas o grande Rubem Braga, francamente, merecia biografia melhor. A coisa toda é tão confusa, tão misturada, tão malhada de informação que não se encaixa no contexto, os tempos de verbo, sujeito, meio e predicado, tão equivocados... que ler uma história gostosa, a princípio curiosa, se transforma em tarefa difícil, tediosa, dolorosa até. Meu conselho: fiquem com as fotos. E com o Rubem original, claro. Vale um bom desconto o empenho e a boa vontade do autor que, aliás, coitado, já faleceu. Não pode aprender mais nada. Aprendam enquanto é tempo o que significa a boa literatura. Pratiquem o bom gosto. Procurem sem descanso o bom escritor. E deixem que o resto encontre seu próprio esquecimento, larvas perdidas de gramática podre, infeccionando o território livre da internet. E tomem tento por favor: não divulguem mais por aí esse pastiche ruim de Arnaldo Jabor.
Coisa é difícil é a gente dar conta do que, no fim das contas, cai na boca do povo. Ou no gosto. Aqui no Noga Bloga, por exemplo: entre tantos exemplos incríveis, puras pérolas de literatura (gulp), adivinhem onde foi que eu fui dar ibope: num texto sobre vídeos de sexo explícito para assistir na internet que em se tratando de Noga Bloga mal fala de sexo e nem mostra vídeo explícito nenhum, claro: o povo se arrebenta de raiva, mas isso... depois de clicar e com isso elevar a frequência do blog à enésima potência, valeu gente. Quem sabe assim, só por acidente, de breve passagem, acabo convencendo alguém do valor da (minha) literatura.
Mais recentemente, acreditem, deu recorde de comentários um post de apenas... duas linhas — isso é que é poder de síntese! —, pra que falar tanto, hein? Trabalhar horas a fio numa trama bem armada? Revisar, aliterar, comover, intrigar... cortar aqui acrescentar lá? Ah, gente: ninguém liga mais pra nada disso. Isso, a propósito de um longo artigo que, antes mesmo de ser publicado — vem com a data deste domingo, 25 de maio, isto é, daqui a dois dias: coisas da blogosfera, vai entender — vem batendo todos os recordes de polêmica e comentários no NY Times: Exposed (corram antes que o exponham). Escrito por uma dessas mocinhas afoitas — entre as quais, claro, me incluo, deixando o "mocinha" de lado — que expõem na internet, em tempo real, suas vidinhas bestinhas pra quem quiser atirar umas pedrinhas e assim aliviar suas próprias vidinhas bestinhas, o artigo trata, com a habitual (falta de) profundidade, dos efeitos da exposição na internet, da hiperconfessionalidade dessa protoliteratura, e, claro, dos efeitos nocivos e/ou inebriantes da janela de comentários. O que me intriga, acima de tudo, é a caudalosa quantidade de comentários que a moça recebe, todos unânimes em afirmar que não se interessam pelo que ela escreve, uai, gente, então porque é que eles lêem? Nem Freud explica. Aqui no Noga Bloga, por exemplo, onde todo mundo sabe, pratica-se alta literatura no calor da hora, comentário é coisa rara mesmo, ah, bom, ninguém se atreve a me criticar, ou vamos combinar: ou ninguém entende do que estou falando ou ninguém se interessa, mesmo. Já com a coitadinha da Emily Vidraça ocorre o contrário: do que ela fala todo mundo entende, e como ninguém se aceita... todos querem quebrar o espelho e tome de pedrada na pobre. Deve ser pra evitar o azar. O caso é que essa coisa de escrever sobre a própria vida é uma faca de muito legumes. É preciso, antes de mais nada, ter o dom da escrita, vocês sabem, aquele toque a mais que transforma qualquer vidinha besta em seriado premiado. E, além disso, ou pra quem não tem isso, é preciso, é claro, uma vida interessante, algo além de acordei-caguei-assistitevê-tomeicafé-trepei-bebi-dormi, mas francamente, quem souber me diga: o que é hoje em dia uma vida interessante? Ah, gente. Deixem a pobre em paz, coitadinha (?). Se ninguém percebeu ainda: ela está na capa do NY Times. E quanto a escrever compulsivamente, sobre sua compulsiva vida e a vida compulsiva de muita gente, não vejo nada de errado nisso, muito antes pelo contrário: se o blog é o terreno da vaga verborragia, é justamente no exercício dela que o escritor encontra o seu estilo, a sua voz. Se tiver uma, claro. Porque o estilo se cria e é bem ali, na malhada verborragia do dia-a-dia e é por isso que eu adoro os blogs. Agora, vamos combinar: ler mesmo... eu só leio o que eu acho bom, certo? O que, de algum modo, transcende em alguma medida a simploriedade de uma egotrip banal, porque francamente: não te leio se detesto o que tu escreves, mas defendo até a morte... blablablá blablablá. Quem desdenha quer comprar e não duvidem: compra.
Vocês me desculpem, eu não queria tocar no assunto. Bem. Todo mundo sabe que o Mecenato Moderno, minha proposta generosíssima de patrocínio a blogueiros, contendo inclusive um selo editorial para literatura de boa qualidade exercida online, foi indeferido pelo Ministério da Cultura. Até aí tudo bem que eu já tinha me conformado, cancelado o site e aposentado o sonho não só de sobreviver blogando, mas de possibilitar o mesmo a outros blogueiros. Pois bem. Acabo de receber carta oficial do MinC justificando a recusa. Segue: "...a concessão de bolsas para "blogueiros" (aspas deles) é vedada pela legislação, por configurar-se em utilização de recursos públicos para aumento de patrimônio de pessoa física ou pessoa jurídica." Agora vem cá, alguém me explique qual é a diferença entre o artista blogueiro e qualquer outro tipo de artista que neste país só vive de patrocínio oficial. Hein?
Caros, O Noga Bloga atingiu, ontem, um novo patamar de audiência ao superar os 400 visitantes únicos diários, isso, claro, só na página principal: Porque se a gente contar tudo, arquivos e imagens, passa de mil e quatrocentos: pra cima com a viga, moçada! [J.D.S.]
É muita crise de abstinência para um ser humano só:
# dor de cabeça diária devido ao abandono repentino da reposição hormonal, motivo: efeitos colaterais da reposição superaram em muito o incômodo dos sintomas normais da menopausa
# vazio mental devido ao término de leitura do Ulisses de James Joyce, motivo: depois de um clássico desses urge respirar e recuperar-se do uso-e-abuso dos neurônios
# síndrome pós-livro-terminado (link para versão pdf revisada), motivo: óbvio
# breve esvaziamento de tensão familiar, motivo: fase de relativa calma entre os problemáticos idosos remanescentes da família
# síndrome pré-reviravolta-completa, motivo: ansiedade que antecede mudanças profundas na moradia e patrimônio imobiliário
Sugestão de medicação: esvaziamento da mente e relaxamento total das atividades intelecto-emocionais Efeitos colaterais previstos: inquietude extrema devido a grave incapacidade para o ócio
Pois é. Enquanto eu ralo aqui pra ver se evito o colapso total, confiram a síndrome de abstinência temporária da modernidade ocidental que enfrenta minha prima americana, recém-formada em administração de empresas pela UCLA, CA/USA, em viagem turístico-humanitária pela Tanzania. Divirtam-se.
Sei lá, gente. Não faço idéia do que é que esta frase significa, mas sei que acordei com ela na ponta da língua e a anotei no meio da noite com a esperança vã de aproveitá-la nas Crônicas de Ulysses. Até agora não rolou nada, eu preocupada em acabar logo com esse trabalho gostosíssimo de edição numa aflição comparável com a que nos faz devorar todos os bombons da caixa de uma vez só, eu não que nem sou chocólatra.
O fato é que, além de eu estar ocupada com os finalmentes do meu novo livro, e mais: desalentada, desestimulada, preocupada com o futuro e desapontada por não ver publicado nenhum dos meus petardos antigoverno dos últimos dias (é foda ter o que dizer sendo uma voz anônima), ufa, fico mais ou menos feliz de ver meus temores muito bem reforçados pela boca de muita gente boa na Grande Imprensa, Miriam Leitão, por exemplo. Se não dá pra me ler no papel-jornal, leiam ela. Tudo bem. Vou tentar ficar calada por enquanto em casa esperando a minha vez chegar, se Deus quiser e ele há de querer porque a esperança não é propriedade privada do nosso quase eterno presidente Lula. Na conta de que o ego se rompa. Taí. Fechou.
Depois que descobriram um novo monstro marinho — isto é, um velho — numa ilha da Noruega, não vou me espantar nadinha se afirmarem que o de Loch Ness existe mesmo. Isso, claro, devido às descobertas tecnológicas de um Michael Crichton, que nos permite fertilizar dna de fóssil. Já estou pagando pra ver.
Porque se a gente deixar, um clima hiperreal de pesadelo toma conta de nossas vidas, e hoje nem é sexta-feira treze. É quinta. É fevereiro. Embora o dia de amanhã, todo mundo sabe, nem vai existir, calma, gente: é ano bissexto e, vocês sabem, outro assim só daqui a... sei lá. Nem quero saber. Como esse porteiro de Copacabana, coitado, espancado quase até a morte pelo simples fato de existir e ocupar um lugar no mundo, lugar errado, isto é, no prédio comercial fechado à noite. Ou aquele prisioneiro no Iraque, um cidadão comum torturado pelo simples fato de estar ali no carro, ou o garoto atropelado, ou aquele soldado queimado e esquartejado por seus colegas pelo simples comando da mente doente — síndrome pós-traumática — vítima e algoz afundando no mesmo barco, afinal de contas, são atores ou veteranos recuperados? Ou como o finado Tim Lopes que não tinha síndrome nenhuma nem estava no lugar errado, mas foi espancado até a morte, queimado e esquartejado assim mesmo porque, francamente, muito errado mesmo anda o nosso mundo. Ou nossa visão distorcida dele. E o nosso Tim, imaginem, nem foi candidato ao Oscar de ator estrangeiro. Injustiça. Ficou na dúvida se é realidade ou ficção? Eu também. Fico na dúvida o tempo todo, e para dirimi-la, tenho um método simples: a mídia. É livro? Ficção. É notícia? Realidade. Documentário? Realidade. Drama? Ficção. Nem sempre funciona, é claro. Tem documentário induzido, tem drama baseado em fatos reais e tem, principalmente, uma lógica muito humana que nos impede de acreditar nas mais simples verdades, como essa, por exemplo: tem um monstro vivo no Lago Loch Ness. Ah, tá bom. É um rolo intencional, afinal de contas, é assim que funciona um cronista: mistura alhos com bugalhos a um ponto tal que nem ele mesmo sabe se aquilo aconteceu, ou se ele apenas imaginou. Se ironizou tanto, como disse no outro dia uma leitora minha, que perdeu o rumo da crítica e acabou convencendo alguém de exatamente o contrário do que pretendia. Isso, claro, pra cronistas de segunda assim como eu. Que publicam às segundas-feiras, é claro, e também às terças, quartas, quintas e sextas-feiras, treze ou não, o que só pode acabar em confusão, e que tentam, sem muito sucesso, imitar excelentes textos já publicados e reconhecidamente geniais. Mas quando a gente se depara com um cronista grande, daqueles cujo talento não provoca confusão nenhuma, ops, dúvida, dá aquele baque: o tempo passa e o cara só melhora, não azeda nunca. Dá um humor na medida certa, um toque inteligente e único, não se perde, nunca decepciona. Um cronista desses, a certa altura um novo Veríssimo, é Antonio Prata, de quem às vezes me esqueço porque fala sério, tanto talento assim todo dia não dá pra encarar. Para os leitores dele, uma revelação constante. Mas para mim, que sou escritora, uma fonte permanente de inveja, confusão e dúvida, porque, francamente, se não for pra escrever como ele é melhor desistir, pendurar a caneta e desligar de vez o notebook. Ah, sim, o notebook é moderno, não desliga nunca. Nem a mente alerta do internauta: já não consegue se desligar. Deve ser por isso esta confusão crescente entre sonho e pesadelo, entre o fato e a foto, entre a vontade e o que acontece de verdade. Entre o talento e a ilusão, todo mundo na rede, inclusive eu, acreditando que é o tal. Na rede da minha varanda, é claro, de onde só saio para conferir os links e, finalmente, entender o que está acontecendo. E onde. E como. E com quem, porque comigo é que não é: não estou nem aí.
Das Crônicas de Ulysses: "... Jorn Barger, um barbudo maluco de Ohio da geração de 1950 e, acreditem, inventor do termo "weblog" que, todo mundo sabe, resultou no moderno "blog".
Imaginem nossa vida hoje em dia sem este Santo Jorn. Mui modernamente, seus textos são quase inteiramente auto-publicados, ponto pro Jorn, mais um sintoma claro de SSM: sua santidade milagrosa. Canoniza ele, Papa Bento, que ele bem merece. O nome do blog dele também não poderia ser melhor: Robot Wisdom. Matou a pau. Barger estudou os cadernos de notas e manuscritos de Joyce para entender a obra dele, e descreveu o autor de Ulysses e Finnegans Wake como um pioneiro da Inteligência Artificial (ah, tá bom: mais um pioneirismo, o cara excede) e um mestre em psicologia descritiva. Tudo ou nada bem que, além de parecer doido, Jorn Barger tem mesmo algo de doido, o que deixa bem claro com suas diatribes anti-semitas, ah, tá bom: ninguém é perfeito. Pelo visto, ele leu muito Joyce, mas não entendeu nadinha. Leia na íntegra.
Vamos combinar: resolvi livrar vocês do tormento imposto todo dia com esse blablablá literário sobre o Ulisses. Dei um rosto ao livro, na forma temporária de um novo blog, e a partir de hoje posto lá.
Mas pra quem se interessa, pra quem acha ótimo seguir de perto o jeito intenso e meio doido com que leio/escrevo/admiro/crio pra cima do Ulisses, prometo postar um link aqui no blog toda vez que eu postar lá, porque lá, vejam bem, os posts se sucedem na ordem inversa da postagem habitual de blogs, quer dizer, na ordem normal das coisas, como se fosse um caderno de anotações: uma crônica depois da outra. Outra novidade boa pra leitor fiel é que a partir hoje, combinei com a Giz, é possível baixar de graça a versão integral em pdf do Hierosgamos. Divirtam-se. Aproveitem. Agora, se você ainda acha que escrever é profissão pra sustento, e não só profissão de fé, pode baixar do MeMo com um donativo de um tostão ou dois para a autora: rola por lá o preço voluntário e eu, penhorada — ou melhor: já penhorando tudo —, agradeço. Nada disso, é claro, se compara ao prazer inenarrável de ler o Hierosgamos-papel, enroscada na cama, no seu tesão privado de alcova, inebriada pelo perfume rosa-choque da bela capa. Eu recomendo, fala sério. Bom fim de semana.
"Experience is what you get when you don't get what you wanted." Randy Pausch
Eu sei que é notícia velha, mas bati de frente esta tarde, por um mero acaso, com a história de Randy Pausch, um jovem professor universitário americano que está morrendo de câncer no pâncreas. Randy deu, em setembro do ano passado, uma despretensiosa palestra de despedida para um auditório lotado na Carnegie Mellon, universidade onde trabalhou nos últimos anos ensinando realidade virtual.
O vídeo da palestra pode ser assistido integralmente online. Depois que um jornalista do Wall Street Journal escreveu a respeito, o assunto atraiu de tal maneira a atenção da mídia que Randy acabou recebendo uma oferta de 7 milhões de dólares para transformar a palestra em livro. Bom pra ele. E pra família dele, claro. A palestra em si tem seus altos e baixos, alguns momentos mais interessantes que os demais como, aliás, tudo nesta vida. Mas vale apreciar a alta dose de energia e a capacidade de humor que o cara tem, a uns poucos meses do desfecho final, ui, soou dramático isso, né não? Mas o que me espantou mesmo, e me levou a escrever este post, foi a quantidade de comentários negativos que a história atraiu no New York Times. Gente! Acusam o professor de tudo e mais um pouco, de auto-indulgência pra baixo, o que é isso! Seu maior crime, imaginem, é "ter uma ótima opinião a respeito de si próprio". Fala sério: estamos perdendo qualquer último traço de civilidade, de sensibilidade, de solidariedade, ou o quê? Até pelo tamanho da audiência que acabou conquistando Randy Pausch é criticado, imaginem então a audácia do bofe, que resolveu morrer jovem e no auge de sua capacidade intelectual, deixando pra trás uma linda esposa e três filhos pequenos! Que arrogância! E ainda por cima ousa continuar trabalhando, sim: afinal de contas, dar palestras é o trabalho dele que, fala sério, devia logo enfiar o rabo entre as pernas e ir morrer bem longe de nós, sem nos incomodar com sua vivacidade ofensiva. Ainda bem que tanta insensibilidade não chegou, imagino, a afetar a moral de Pausch: o cara tem mais com o que se preocupar do que essa meia dúzia de hooligans insatisfeitos na janela de comentários. Fala sério. Em vez de nos permitirmos o alcance ilimitado de comunicação que a internet proporciona, estamos nos transformando, isso sim, em monstros ressentidos, para os quais nada é bom ou justo o suficiente. A liberdade online acabou nos dividindo em grupos opostos, e ferozes competidores: os que fazem — por que podem fazer o que fazem e fazem de tudo para fazê-lo — e os que só criticam tudo e todos no outro time, por que será? Hein?
Amigos, Para meu espanto e perplexidade cada vez maiores, nosso projeto para o Mecenato Moderno acaba de ser redirecionado para a 149ª CNIC, a se realizar em fevereiro de 2008. Não desistam... ainda. Porque eu ainda não desisti. Vamos investir nossa energia. É o que dá pra fazer neste momento. Acompanhem diretamente site do MinC o desenrolar desta novela emocionante. Abraço, Noga Lubicz Sklar
Não foi minha intenção criticar Cora Rónai quando eu disse, aqui no blog, que nem atropelada ela parava de blogar, gente, não. Eu talvez não tenha sido bem clara, porque eu queria dizer é que essa coisa de blogar, de tão excitante, pode às vezes se confundir com vício, e cá entre nós, a Cora ferida bem que merecia algum descanso.
Mas por outro lado, achei maravilhoso o que ela fez. Para nós, que acompanhamos com ela um momento difícil, e para si mesma: afinal de contas, tem coisa pior do que ser obrigada a ficar parada, que nem tartaruga virada, "olhando o teto, o céu e o vaivém dos helicópteros?" Fala sério, gente. Pensei melhor sobre o assunto e concluí que ter um blog é uma salvação, e não uma condenação (à hiperatividade, ao trabalho incessante, à superficialidade). Além de ser, é claro, uma ferramenta maravilhosa de compartilhamento de vida, emoções, descobertas. Mesmo que às vezes prescinda de alguma edição, ou reflexão, ou arrependimento. Tudo isso faz parte de um excitante aprendizado e a Cora já vai na frente, liderando a onda da transparência. Agora vem Aguinaldo Silva creditar seus excessos à natureza adolescente de quem se expõe em blog. Peraí. Se em certos posts somos mesmo destemperados, é porque somos destemperados mesmo, né não? E como adultos, precisamos crescer sim, mas em sinceridade, em maturidade de pensamento. Um bom jeito de fazer isso é pondo tudo pra fora, sendo a gente mesmo em qualquer situação. E se a gente não gosta de quem a gente é (mesmo que só por alguns momentos), paciência. Cada um que se envolva em seu próprio processo de mudança. Coisa semelhante acontece com o radialista de R&B Petey Greene — no excelente Talk to me —, um comunicador desbocado que é obrigado por seu chefe na rádio a se retratar no ar, depois de ter ofendido os interesses de um patrocinador. P. se desculpa, mas deixa bem claro que foi obrigado a isso e continua acreditando no que tinha dito. Fez um tremendo sucesso — a ponto de Washington, na década de 1960, se intitular P-Town —, mas terminou a vida meio à margem, por recusar-se a defender a velha hipocrisia da mídia. Seu enterro em Washington DC, aos 53 anos, mobilizou a maior multidão de que se teve notícia na cidade. O que não pode é generalizar, Aguinaldo. E vestir todo mundo com a carapuça do eterno adolescente . Vê se assume uma cara só, e antes de aparecer, cresça. Viu? Pior a emenda, blablablá. Ah, gente. A diferença que um jornalismo maduro faz. Mesmo em fase francamente experimental. E nós? Será que, 40 anos depois de Petey Greene, já estamos prontos para P-Town?
"Não concordo com o que dizes. Mas defendo até a morte o direito de o dizeres." Voltaire
Não sou fã de Aguinaldo Silva, não assisto novela, e achei ridícula (e duplamente preconceituosa) a declaração dele afirmando que Gilberto Gil, por ser preto, deveria solicitar um passaporte nigeriano ou coisa parecida. Mas quanto aos rumores de que o escritor foi afastado da Globo por ter dito isso e aquilo no blog dele, tenho o que dizer: é um absurdo. Imaginem se Gil iria querer isso.
Tá certo. Vivemos num mundo intrincado e encrencado, enrolado com interesses escusos. O sujeito é funcionário da Globo, tem excelente salário e deve à empresa alguma (?) fidelidade, mas como ele mesmo diz, tem a faca e o queijo do poder nas mãos: (sobre a "patrulha petralha") "Eles que fiquem roendo interminavelmente o próprio fígado, enquanto eu me dirijo a vocês e aos 40 milhões de pessoas que vêem a novela todo dia, pessoas, aliás, suficientes para (não) reeleger o Presidente Lula pela terceira vez." A questão é que esta postura, sem precedentes, de abrir o verbo em blogs, causa mesmo estranheza. A gente está tão acostumado a não dizer o que pensa, a filtrar o pensamento com o olhar num futuro próspero, a se "comportar" com algum objetivo prático em vista que perdeu o hábito de ser sincero, aberto, transparente. E quando o faz, se sente culpado e ameaçado. Ops. É ameaçado mesmo por quem não concorda com o que a gente diz. Texto de blog é mais ou menos como papo de madrugada em bar: a gente diz o que vem à cabeça. O problema é que no blog a coisa fica escrita, registrada, e ainda por cima vai parar na tela de qualquer um, não fica restrita à nossa turminha de chope. Isso, claro, se a gente não decide apagar quando pega mal, mas daí, bem, é hipocrisia, não? Contraria o espírito da coisa. E o que complica mais ainda é que texto de blog não costuma ter pesquisa, nem controle, nem editor pra dar um basta ou uma bossa*. E se baseia, muitas vezes, num opinionismo gratuito de relance, de momento, de terceira mão, de leitura bem superficial (do blog do Aguinaldo: "Pelo menos foi o que li nos jornais, mas não posso garantir que seja verdade, pois os jornais andam, segundo os adeptos de Renan Calheiros dizem por aí: exagerando.") Eu, pelo menos, faço muito isso, e confesso que me arrependo às vezes. Muitas vezes. Mas não apago não. Sofro calada. Encaro. Engulo. Já em revista, na crônica semanal, em livro ou antologia, vem a ideologia filtrada pelo bom senso do tempo, da reflexão. Mas no fundo no fundo, acho que é uma questão de treino, de puro aprendizado. Não de adequar o pensamento, mas de refletir duplamente sobre as coisas. E de, principalmente, passar a ter, em qualquer situação, uma cara só. Vamos combinar: é bem mais fácil, não é? No começo pode até ser uma cara agressiva, desmedida, inábil e reativa. Mas que vai apurando aos poucos, depurando defeitos adquiridos, reconhecendo em si o que pode ser melhorado. Falando sério: o que eu acho é que vale tudo pra gente deixar de lado este hábito arraigado de ter duas caras. E se é sobre isso que o Aguinaldo vem falando pros 40 milhões em ação dele, deve estar mesmo incomodando muita gente.
*do Aurélio: Bras. Gír. Atributo ou qualidade peculiar a pessoa ou coisa, que faz que elas agradem, chamem a atenção, se distingam de uma ou de outra
Pra quem acha que a minha literatura erótica é confessional demais, ao ponto de se tornar ofensiva, recomendo a visita ao arquivo de outubro no blog de Cora Rónai. Sei que a Cora foi atropelada no mês passado e se machucou bastante, mas passou uma quinta, outra quinta, mais outra e nada de Cora voltar ao seu espaço, aí sim, foi mais que saudade do texto dela: me preocupei. Resolvi conferir no blog pra saber o que estava acontecendo. Gente. O que vi foi de um espanto que nem te conto, tudo lá tintim por tintim, não é que até no dia do acidente tem post? Segue depois um reality show de fazer gosto, só não sei se de bom gosto, não pela Cora, claro, mas gente: nem doente a gente tem mais direito a um período de silêncio, de ausência das lides deste mundo.
Cora elogia publicamente seu emprego no Globo e a força que a empresa dá. Mas na verdade não a vi capaz, nem num tempo de extrema necessidade, de um certo recolhimento. Ela diz que este radical estilo big-brother tem facilitado a recuperação, mas eu não sei, só me choco com o fato, e querem saber por quê? Porque é assim que também tenho vivido: fumando a vida como um cigarro sem filtro. Cada filme assistido, livro lido, gesto, incômodo, tédio ou gozo, vem subliminarmente subtitulado: "como é que vou descrever isso no blog?" Com este tipo de estratégia, claro, o assunto sobra, mas dá um certo medo dos efeitos colaterais, como no caso do milagroso rimonabant, a maravilhosa droga antibarriga que se descobriu, recentemente: aumenta em 40% o risco de depressão e ansiedade, bem, nada é perfeito. E essa mania de compartilhar tudo, hum: não sei se a coloco na prateleira do vício ou da obsessão. Cá ou lá, o que é preciso é recuperar um pouco do anacrônico tempo livre, realmente livre, que só se transforme em texto ou imagem depois de curtido, filtrado, resumido e interpretado, como a arte de antigamente. Ou nunca, só que já não sei como. E celular com câmera, laptop e outros gadgets (cada vez mais) itinerantes, sem os quais a gente já não vive, só fazem piorar isso. Segue pra Cora meu voto atrasado de pronta recuperação e um interruptor virtual, com o conselho ainda-que-tardio que eu mesma não sigo: vê se desliga um pouco, tá? Você merece. Todo mundo merece e tchau procês. Vou curtir meu feriadão num silêncio bom, pode apostar que não.
Minha birra com jornalistas não é de hoje, e ironicamente, em todas as profissões que já tive, precisei deles. Sobreviver como artista dependeu sempre de ter meu trabalho divulgado, mas nunca antes tanto como agora, quando de certa forma disputo espaço com eles. Problema meu. Ter opinião, pra mim, sempre foi problema. Nasci numa família de opiniões fortes, donos da verdade, gente culta que imaginava saber tudo, e até hoje é assim: um problema, emitir opinião lá em casa. Nem por isso cresci eu mesma menos dona da verdade, vocês sabem, é de pequenino, etc, etc. Acabei assim metida, metida numa grande enrascada, isso sim.
Bem que eu tento levar a coisa numa boa, manter um diálogo leve com um leve toque de tietagem, quem sabe assim consigo ser lida, avaliada, respeitada etc etc. Mas sempre dou em fracasso. Não consigo controlar a minha boca indiscreta, isso é: conseguir eu consigo, mas no fundo no fundo, não quero. Quero mesmo é realizar o meu sonho de infância em qualquer oportunidade que se apresente: provar que estou certa, e todos os demais, equivocados. Jornalistas ou não. Uma coisa assim de trauma, de uma profunda dificuldade em tratar com a autoridade, e se vocês pensam que é resquício da ditadura, se enganam: é coisa de família mesmo. Mas vamos combinar: tá certo que jornalista empregado tem seu público cativo, a audiência ampliada, admirada e garantida. Já blogueiro independente, tsk tsk. A questão é que tudo isso está a um passo de mudar e eu, já um passo atrás de não ser mais única: todo mundo hoje em dia é autoridade em opinião. Pura rotina. E o fato de eu me desculpar, me sentir culpada, insistindo em sentir que emitir a minha não é nada mais que um ato deplorável de auto-sabotagem, é mais que o reflexo de minha mente enrijecida, se acreditando vanguarda mas na verdade incapaz de superar a marcha normal do tempo. Para esta doença sem cura — e outras piores com as quais convivo —, dois caminhos terapêuticos, é Dr. Alan quem diz: ou esquece, deixa pra lá, ou pratica tanto até que perca a importância de vez. Nesse (o)caso de palpiteira tenho optado pelo segundo, mas francamente, até hoje não tem dado certo. Que problema insolúvel o meu.
"Generosidade é o ato de proporcionar ao outro mais do que o outro espera”, define Paul J. Zak, neuroeconomista do Centro de Estudos Neuroeconômicos da Universidade de Claremont na Califórnia, EUA. Marcia Triunfol, bióloga especializada em genética e coleguinha de FLIP, estreando em seu blog "23 Pares" no Globo online (e a gente, claro, recomenda), reflete sobre o assunto:
"Sempre me impressionei com a cultura filantrópica dos Estados Unidos. E penso que seria muito bom pro Brasil se a moda também pegasse aqui." Nós também, Márcia, nós também. No experimento de Zak, foi medido o aumento da empatia e do impulso filantrópico nos participantes após uma borrifada de oxitocina no nariz. Deu certo. E vocês? Vai uma fungadinha aí?
A maior comunidade de Carlinhos Brown no Orkut tem apenas 2186 membros. Mesmo assim, imagino se Leonardo Lichote, que assina artigo no Globo de hoje criticando o último disco do cantor, já "escreveu suas cartas". Pra quem ainda não viu o excelente e tristíssimo filme de Ken Loach "Ventos da Liberdade", explico: "escrever suas cartas" é um eufemismo usado no filme pra avisar a um condenado à morte de sua próxima execução.
Todo bom senso me aconselharia a deixar pra lá uma história que, a meu contragosto, já foi longe demais; bom senso, no entanto, não é meu forte. A teimosia, sim. O perseguir situações desfavoráveis até seu mais lamentável desfecho, também. Mas se algo no astral de hoje me anima a insistir no tema, não é a mania traumática de ficar dando a cara a tapa, gente. Não. Pelo contrário: o que me anima — e por outro lado, alimenta ainda mais a minha teimosia —, nesta manhã ensolarada aqui no Rio, é o comentário calmo e seguro de Carolina Vigna-Marú descrevendo Jay Vaquer como um artista sensível e único, que persegue seu próprio caminho. Ora, gente. Disso eu entendo muito bem. De perseguir seu próprio caminho a qualquer preço, digo. Quem me atacou, me atirou detritos, imprompérios, maldições, sabe de mim tão pouco quanto o muito pouco que eu sei do Jay. Cabe aqui uma confissão, que não chega a ser, de jeito nenhum, um pedido de desculpas: não cultivo o hábito da música popular. Na verdade, trabalho muito e relaxo pouco, e no meu trabalho, preciso de silêncio: é meu jeito. Muita gente, eu sei, não faz nada sem música ao fundo. A estes, invejo por sua capacidade de dividir a mente. Eu não consigo. E à noite, com a mente esgotada, prefiro espairecer com uma outra paixão: o cinema. Vai daí que até cultivo aqui no blog um post ou outro de crítica cinematográfica, sim, gente, que rendem até umas boas redações, bem "a nível" de segundo grau. E nos poucos momentos em que opto pela música, ou em que opto sair de casa em busca de música, cedo à tradição, à educação familiar do gosto pela música clássica. Não freqüento o Canecão, mas sim o Teatro Municipal, fazer o quê: gosto não se discute, e nem se ataca. Mais do que qualquer um de vocês eu reconheço isso, e se quis criticar alguma coisa em minha crônica foi menos o Jay que a mórbida máquina da fama que eu imaginava que o sustentasse. E nisto sim, parece que me enganei. Mas de todo episódio triste acaba saindo algo de bom — excetuando aqui, é claro, a licenciosidade que leva alguns jovens a se acreditar com o direito do crime, da violência, coisa de que trata muito bem no Globo de hoje Mestre Zuenir. E o que houve de bom é que o pessoal veio aqui, me leu, me explorou um pouco. E ainda assim, não sabe nada, nadinha de mim, de como o meu caminho tem até bastante a ver com o caminho do Jay: segundo a Carolina do Aguarrás (em cujo bom gosto eu confio, sem restrições), um caminho de quem não cede, não baixa a cabeça, não paga o preço da fama nem o custo da celebridade. Como diz o Jay, vocês não me conhecem. Ponto pra ele. Ponto pra mim. Do mesmo jeito que eu não acho tempo, em tempo de excesso de informação, pra conhecer melhor o trabalho de Jay Vaquer, entendo que sua multidão exaltada de fãs não encontre o tempo tranqüilo de ler o que escrevo, de dar-se a oportunidade de se deslumbrar, por exemplo, com meu recém-publicado primeiro romance. Somos forçados, em nosso mundo conectado, a fazer opções de gosto, de estilo, de aprovação. Normal. Tô séria hoje, gente, é, vocês me feriram: podem se orgulhar disso, viu? Mas pra quem quiser se redimir, vai meu convite pra navegar aqui pelo blog que não, não precisa do acesso maciço de vocês pra exibir uma saudável audiência. Longe disso. Vocês são muitos, mas aqui no blog, apenas mais alguns. E se derem um tempo por aqui vão se dar a chance de encontrar uma blogueira irônica, cortante, inteligente e atuante (é o meu leitor quem diz) e que, como o herói de vocês, não baixa a cabeça nem cede à pressão.
Crucificar e agredir com selvageria alguém que tem opinião diferente da sua é o tipo da atitude com um passado que condena. Deve ser por isso que estas bombas verbais online me dão medo sim, um medo danado, um medo arraigado na malfadada memória de tempos idos de exceção, coisa que quem pratica sem nenhum escrúpulo este esporte maligno nunca experimentou na vida. Nunca me passaria pela cabeça lavar a boca de um filho meu com sabão de coco, mas que às vezes dá vontade, dá. Diferente de muitos que escrevem por aí, detratores da cultura jovem e apologistas da atmosfera pouco intelectual em que essa geração se encontraria imersa, sou fã incontestável da juventude de hoje em dia. Trata-se, pra começar, de um pessoal que tem acesso irrestrito a todo tipo de informação: basta querer e o mundo está lá, ao alcance de um clique no mouse sempre ao lado.
Foi o google, e não a máquina, que mudou o mundo, mas a máquina também influi, claro. Tudo ficou fácil. Você faz bom cinema com uma câmera que cabe tão bem no bolso como na palma da mão. Fotografa e edita no escurinho do quarto, sem depender de grana nem de ninguém. Se quiser cantar e gravar, canta e grava e mostra no seu myspace, com pleonasmo e tudo. E, ultimamente, vende música, texto e imagem sem nenhum suporte material: não precisa mais de verba, nem de disco, nem de filme nem de papel pra fazer sucesso e arrastar multidões. Isso dá, ou pelo menos imagino eu que deve dar, uma sensação irresistível de poder à qual não me acostumo. Nem por isso, dispensa o talento, a dedicação, a sensibilidade. A boa educação. Nem tudo que aparece é bom. Nem tudo que chega, fica. Nem tudo que cai no gosto permanece nele: a vida ficou efêmera e a fama, sem significado. Eu, no entanto, confesso, ainda a quero. Against all odds acredito nela. Ou melhor: queria; acreditava. Mas isso foi ontem. Que eu tenho uma certa intimidade com a tecnologia é fato: não preciso de ninguém pra programar meu vídeo, ops, coisa mais antiga, nem vídeo existe mais, é tudo mídia digital, tá certo, eu sei. Mas me acostumar com essa velocidade da caduquice das coisas, não me acostumo. Pra escrever e publicar online não preciso de intermediário nenhum. Não preciso de Luis Schwarz nenhum pra me conferir credibilidade, mas da minha doença grave eu não me curo: não sou lugar comum. Não fui feita da matéria da popularidade, gente. Já está mais do que provado. E se ter popularidade é o que recentemente se viu aqui no blog, é sem saber autorizar em seu nome vandalismo e preconceito, vamos combinar: me esqueçam. Deus me livre deste tipo de fã, desta categoria infame de crédito que desqualifica tudo o mais que existe. Sei que no mundo de hoje é o jovem, o adolescente que dita mercados, mas eu não, não escrevo pra adolescente, não sei do que adolescente gosta e não entendo como adolescente pensa, ou melhor: entender eu bem que entendo, mas não me limito a este limitado entendimento. O que não quer dizer que eu não possa admirar, quando aparecem, a abertura, a generosidade, a curiosidade e a doçura de que o humano em crescimento é capaz. Posso. E até cito: "Apesar de não ter uma atmosfera jovem, pode ser um bom canto para jovens que querem sossego", ah, bom. É o que diz Gabriela Dore, estudante de artes e conselheira do Megazine numa matéria sobre o Instituto Moreira Salles: um bom lugar, aparentemente, pra quem já não é jovem. Seres humanos em fase de crescimento, aliás, somos todos nós. Porque quem não cresce, pára. Pára no tempo. Pára na vida. Pára numa parada qualquer que paralisa a mente. Você aí que me agride, acredito, não haveria de querer isso. Eu, pelo menos, não quero, não paro, não deixo. Vou lá e confiro: se eu achar que é bom, digo. Se eu achar que é ruim, digo também, ora. Ou você preferiria que eu mentisse, enganasse, iludisse? Porque eu, aliás, não estou nem aí para o que o leitor prefere. Não me curvo. Não me entrego. Vou em frente: faço e digo o que tenho pra fazer e pra dizer, e é por isso que a popularidade não me serve. E a partir de hoje entendo bem que já nem a quero mais.
Deus me livre de ser a favor de qualquer censura, gente. Deus me livre, nunca é demais repetir. Li hoje de manhã no Info & Etc sobre a horrorosa tentativa italiana de restringir a publicação em blogs, eu, hein? Liberdade absoluta online, essa sim, é que nunca é demais. Mas suponha... ah, bom. Lá vem o MeMo como o primeiro... REMUNERADOR E EDITORA DE BLOGS, à frente do seu tempo, hãhã.
Mais sobre tecnologia: acabei de migrar para o mais xingado, desprezado e evitado novo sistema operacional: o Vista. Meu irmão bem que me avisou: não vai lá que é roubada. Mas só tive um problema até agora: não consigo instalar de jeito nenhum a impressora conectada na rede ao computador do Alan, alguém aí pode me ajudar? Pois está no Globo: dificuldade com periféricos. Mas os outros todos, celular, impressora usb, todos os softwares de praxe, etc, etc, foi mamão-com-açúcar. Estou me divertindo, vivendo ligeiramente no futuro, à frente de todos os demais. Ah, sim: mudei de notebook também, aleluia, cinco minutos antes do antigo quase pifar, e já estou curtindo o side-effect: entre outras (mil) coisas, um teclado abnt, fala sério. Tá certo: a gente se acostuma com as piores coisas mas não é de graça. Quase arrumei uma tendinite catando o til no canto esquerdo da tela a cada 5 min, pode isso? Pra não falar da delícia de ter... um aurélio integrado ao novo word 2007, e confessar que levei muitos, nem sei quantos anos pra me render a uma agenda online, e dá-lhe de papeizinhos rabiscados espalhados pela mesa. Eu mereço.
Se não fosse o sincronismo dos temas, eu bem que teria resistido. Não teria jamais confessado em público a mulherzinha chinfrim, emocionada e carente que mora em mim. Teria deixado a vocês, leitores, a escolha de se iludir quanto à minha verdadeira personalidade, de acreditar na intelectual, na escritora exótica, na inteligência lúcida, não teria decepcionado o meu clubinho. Mas não deu. Nada disso, aparentemente, sou eu. Ou, pelo menos, sou mais do que apenas isso. Tudo começou com o post aí de baixo sobre o recente dilúvio carioca, onde eu descrevia meu antigo apartamento de São Conrado, isolado pela enchente, como a minha "arquinha de noé". Depois chegou da locadora aquele filminho que eu tinha reservado pra ver na cama, só por diversão, alguns dias antes.
Foi pura coincidência, gente. Eu sei que foi porque, fala sério, eu mal tinha lido a sinopse. Sabia de uma história de Deus convocando o ex-virgem de 40 anos Steve Carrell a fazer alguma coisa ridícula que ele não queria, nada mais. Juro. Na cama, vocês sabem, na intimidade recôndita do lar, a gente assiste a (quase) qualquer coisa. Historinhas simpáticas de um deus que não existe encarnado aqui na terra me atraem, vai saber porquê. Deve ser por alimentar a esperança de viver, encontrar um sentido qualquer pra tudo isso, sei lá: uma bobagem como tantas outras. Já teve o do mesmo diretor "Bruce Almighty" ("O Todo-Poderoso"), e o Antônio Fagundes em "Deus é brasileiro": é sempre aquele Deus demasiado humano, que é como, aliás, a maioria de nós imagina Deus para o uso mais particular. Mas nada, nada me preparou pra ver a fábula daquele cara ligado em aparências, tentando subir na vida sendo o que não é, ou realizar um sonho grandioso do tipo "mudar o mundo", usando (mal) as regras de um mundo que desconhece. Um sujeito como eu, morrendo de medo de parecer inadequado. Nada me preparou praquela pessoa normal, forçada a fazer o que não sabe e a romper com o estabelecido, ouvindo a todo instante que é um louco, um inútil, um iludido que acredita falar com Deus... e ouvir a resposta dele, ops, peraí. Assim também não. No meu caso, tenho a consciência plena de dialogar como minha própria neurose, uma tal de "voz interior". Mas que em todo caso, acabo forçada a escutar. (Bem, Noga. Agora já deu, né? O resto, vocês já podem imaginar. Acabei de entregar meu péssimo hábito, que nem tão raro é, de transformar qualquer filminho da sessão da tarde em prolongada sessão de terapia.) Antes de ceder ao destrutivo impulso de confessar que me deixei envolver por este filme e até chorei... andei conferido as críticas, gente: é de médio pra baixo, quase um bonequinho dormindo. Mas bastou-me um simples extra do dvd pra entender, vendo no vídeo a figura messiânica do diretor, o que estava acontecendo aqui. O cara invocou dentro de mim um passado nem tão passado assim, quando eu também tinha uma certa mania de messianismo. Mas o que matou mesmo a pau, além da maratona (verdadeira) de construção da arca e da presença inusitada de mais do que não sei quantas centenas de animais treinados, foi o acrônimo do "Deus" de Morgan Freeman para "ark": random acts of kindness. Trazendo pro português, "ARCA" significaria algo assim como "Atos Randômicos de Compaixão Amorosa", deu pra sacar agora? E eu metida neste projeto visionário que terminei ontem, depois de três semanas fazendo o que não sei, conversando com um Deus que nunca vi e em quem nem acredito numa linguagem (de computador) que eu não entendo, resistindo ao impulso de achar que é tudo bobagem, besteira, babaquice, três bês de já basta tentando me convencer que nada disso vai dar certo... e seguindo em frente mesmo assim até botar no ar a coisa pronta: atos randômicos de compulsão ardorosa. Quem sabe vem vindo aí um grande dilúvio de generosidade cultural. Sonhar não custa.
"Acreditamos que o público de cultura tem a lucrar com novos espaços de crítica livre e sem compromissos comerciais com seu conteúdo." Carolina Vigna-Marú, editora do Aguarrás
Meu projeto para o Mecenato Moderno estava indo de vento em popa, coletando apoios e entusiasmos, e alimentando aquela energia esfuziante da qual se precisa para romper com uma idéia nova a barreira da inércia, quando ontem à noite recebi um baque, um balde de água fria na minha cabeça que me acordou do transe, e bem, como sempre acontece, acabou resultando num novo patamar de entendimento.
Mantenho há anos, desde sempre na minha vida adulta, uma relação de amor e ódio com os jornalistas da mídia impressa. O amor é fácil de entender: você acorda de manhã, abre a porta pra pegar o jornal, e encontra seu nome citado lá. Nem precisa ser grande coisa. Uma notinha no lugar certo, uma resenha do seu último livro, uma linha na agenda, e fala sério, até mesmo carta de leitor publicada já serve pra dar aquele high. O ódio... bem, o ódio é ainda mais fácil de entender: você manda seu novo livro — que acredita ser o máximo — pra todos os "formadores de opinião", esperando que eles finalmente o leiam, e descobre que ele vai parar embaixo de uma pilha imensa onde ficará para quase sempre, até ser doado para alguma biblioteca obscura, ou até quem sabe, despejado sem dó num compartimento de lixo; manda centenas de emails pra gente que considerou amiga e nunca recebe resposta; tem seu livro resenhado, porém arrasado, por quem mal passou da orelha; aborda na rua e nas festas os "semi-deuses de segundo caderno" pra receber de volta o mesmo olhar de horror dedicado a qualquer pedinte. Quem são estes caras? Bom. Vou dizer quem são: são aqueles que conseguiram, e defendem com unhas e dentes, aquele emprego mal-remunerado que você sonha em conseguir, mas não consegue nunca; são aqueles que entram sem pedir licença nas casas de todo mundo destilando verdades absolutas; são aqueles que, por fim, embora você negue, esperneie e grite desesperada, têm nas mãos o poder da opinião. Bem. Tudo isso está pra mudar. Mas é claro que não vai ser fácil. Nem rápido. Não. Vai levar anos, milhões investidos e muita lambida de chão. O importante é a gente não se iludir, e aprender a separar as coisas. No jornal de hoje, por exemplo (olha aí meu vício), James Watson, um dos descobridores do DNA, resolveu declarar que os pretos são menos inteligentes que os demais. Absurdo. Na minha leiga opinião, o cara misturou dois fatores: a herança genética, que tem a ver com inteligência sim — mas pelamordedeus, nada a ver com cor de pele —, e a localização geográfica. Já pensei muito sobre o assunto, e concluí faz tempo: o clima mais frio favorece, não a inteligência, mas os resultados práticos dela. Observem: convida ao recolhimento e ao conseqüente mais tempo pra pensar; reduz o lazer natural ao ar livre e o conseqüente mais tempo pra trabalhar; e atire a primeira pedra quem não sente o maior cansaço decorrente das altas temperaturas. Tá certo, tá certo. O friozinho dá uma preguiça danada, mas no meu entender, combatê-la é só questão de disciplina. Taí. Pode até ser besteira, mas o resultado... Insira um negro escravo, pobre e ignorante numa sociedade desenvolvida: transformá-lo num Barack Obama é apenas questão de tempo, e um pouco mais de tempo até um sujeito desses virar o homem mais importante do mundo. Bem. Tempo e persistência. E resistência à frustração, à humilhação. E inteligência suficiente pra provar pra todo mundo a capacidade, o brilho, o valor. Quem está no poder oposto faz o que pode, é claro, para opor-se ao crescimento de quem começou por baixo, e já foi explorado, constantemente rebaixado, ignorado. Agora voltemos pro nosso mundinho plugado. Imaginem a vidinha ingrata do blogueiro profissional, um sujeito que ameaça com seu jeito metido, meio querendo e meio sem querer, o (já nem tão) confortável estado de coisas no império da mídia imprensa. Deu pra entender? Um profissional da escrita que diz o que quer, quando quer e do jeito que quer e acaba, claro, ouvindo o que não quer, quando não pode e o quanto não vale. Ah, sim: a mídia estabelecida favorece, não o talento e a inteligência, mas os resultados práticos deles. Exagero, é claro. O ostracismo forçado da cultura de blog é menor, e menos importante, que a mosca no cocô do cavalo do bandido, não é mesmo? Enquanto as questões raciais e preconceitos maiores contra as minorias majoritárias têm sido a pedra de toque, a vergonha da nossa civilização. Sei disso, mas vocês me entendem: é pura técnica de retórica, tentativa limpa, porém radical, de desconstruir um mito. E ademais, nós os blogueiros temos algo de maior valor que afasta de nós qualquer sentimento de vítima: nossa liberdade interior, nosso compromisso somente com aquilo em que acreditamos, com este mundo novo de cultura livre que decidimos construir. E que mais cedo ou mais tarde, vai (re)virar o estabelecido. No que depender de mim, e da minha tenacidade, mais cedo. Começo hoje como deve ser, pela minha casa, a destacar um mundo do outro, valorizando o que acredito em detrimento do que me acostumei a acreditar. E como dieta radical nenhuma costuma funcionar, seguem listadas as (poucas) coisas bacanas que li no jornal de hoje, e que de um jeito ou de outro, também sinalizam alguma novidade:
— Demétrio Magnoli (nunca imaginei que um dia citaria este cara) desconstrói o mito de Che: "A vantagem insuperável do homem que morreu na Bolívia, há 40 anos, é precisamente a circunstância de não ter sobrevivido."
— favorito não tem vez no Booker Prize.
— segundo colocado no Portugal Telecom, Dalton Trevisan declara: só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.
Ah, sim. Você perceberam: notícia boa pra mim tende a ser notícia de cultura, arte, literatura. Bem, fazer o quê: é isso que na verdade me interessa, e disso escolhi fazer a minha vida. Para os blogueiros que andam pretendendo integrar o nosso crescente movimento, um conselho: escrevam; escrevam muito; escrevam todo dia. Quanto mais a gente escreve, mais sobe no ranking, recebe mais visitas, e escreve mais, e sobe no ranking, e recebe mais visitas, e...
Faltou esclarecer: o balde de água fria que citei lá em cima não foi nada de grave, só um passo em falso da minha parte, ao pretender misturar realidades estanques, mais antagônicas que água e azeite. Já passou. Sacodi a poeira e vou em frente: o Mecenato Moderno vai de vento em popa. Me aguardem.
série Estudio de Lucia Laguna, 2007 Eu sei que prometi a mim mesma descansar por estes dias. Mas vocês sabem, blogar é um vício. Um vício grátis que estou inventando um jeito de remunerar, tomara que eu consiga. A verdade é que quando me deparei com a primeira página alternativa de O Globo, criada pelas crianças no dia delas, entendi que minha breve abstinência para o feriado nem ia começar, e dá-lhe de overdose. São sabidas as danadinhas. Enquanto o jornal de gente grande, em letras garrafais, gasta tempo e espaço pra bater em cachorro morto, a dos pequenos vai direto ao que interessa:
o dia lúdico da cidade envolta em névoas, as novidades da tecnologia, e em grande manchete assuntos (reais) que podem, realmente, mudar o cotidiano e a qualidade da vida. Ponto pra elas. A verdade é que faz algum tempo eu finalmente percebi que ninguém tem tempo pra ler o jornal inteiro (e nenhum interesse). Um jornal é mais assim como um supermercado de notícias: você vai lá e só lê o que quer. Só que eu, vocês sabem, sinto a maior culpa de não conferir a política, a violência urbana, o banho de pessimismo, além do que, são essas e não outras as ênfases da mídia escrita*. E falada. Mas guiada pela sabedoria nata desses meninos, que já nasceram jornalistas, ainda chego lá: só lerei o Segundo Caderno e a página de ciência, ou melhor, desisto do jornal de vez e assino uma meia dúzia de bons blogs. Taí uma boa idéia: assinatura anual de blog, debitada no cartão de crédito, registra aí para o futuro próximo. Aliás, tenho me sentido bastante bem. Parece que finalmente encontrei um jeito "noga" de contribuir para o bem-estar da sociedade. Tomara que dê certo, afinal de contas, nunca é tarde, né não? Doris Lessing, vejam vocês, aos 84 e fora da reta de chegada, levou seu Nobel. Tem gente que acha esse prêmio cafona, mas vamos combinar: não existe ainda glória maior, e que linda a velhinha sorridente, que bela a trajetória dela traduzida por José Castello, uau, finalmente consigo linkar no Globo alguma coisa que preste. E prosseguindo. Chego à crítica de arte e reconheço, vagamente, o nome da artista: Lucia Laguna, mas gente, quem é? Ah, sim, é aquela aposentada que levou, no ano passado, o Marcantonio Vilaça, prestem atenção no link: é, gente; estou de namoro novo com o Aguarrás, vamos ver se rola alguma coisa. Mas voltando à Lucia, olho a foto das telas com mais atenção, e, gente, não é que é muito interessante? A visão desconstruída da realidade, assim como um mundo novo visto de dentro, com os olhos da impressão? Ponto pra Lucia: ao se aposentar, se apresentou. Disse bem ao que veio, e continua dizendo. Nunca é cedo. Nunca é tarde pra ser você mesmo. É o que espero.
* prometi a mim mesma não tocar no assunto, mas... como filósofo, Mário Sérgio de Brito Duarte, que assina artigo no Globo de hoje na página de Opinião, é um típico policial: obscuro, confuso e livre-atirador
Estava eu aqui toda empolgada com meu projeto de mecenato online, crente que avisei a umas 3 mil pessoas que publiquei um romance, e acima de tudo feliz à beça com um marido que me conquistou, e que eu conquistei, na base do namoro na internet, quando apareceu este artigo (online) no New York Times pra estragar a festa, alertando sobre os perigos e falhas da comunicação na web.
Alan e eu rimos muito no outro dia. Ele contava, brincando, que andava pensando em profissionalizar seus serviços de conquistador. Olhei bem pra ele, pra barriguinha proeminente, pra calva lustrosa e uma meia dúzia de manchinhas brancas — pra falar a verdade, nem tão pequenas — plantadas solenemente na perna esquerda, e... já viu. Imaginem a cena: aquele homenzinho de um metro e sessenta, meio estrábico e já entrado em anos, posando de latin lover pra cima de alguma tremenda gata. "Você vem sempre aqui?" Calma, gente. Cá do meu lado é pior ainda, vocês sabem: as rugas, os cabelos grisalhos e as "dobrinhas do amor", só pra ser mais simpática, pois afinal, trata-se de uma senhora. Mas online não tinha nada disso. Éramos ambos poéticos, lindos, nobres apaixonados, mestres ousados do alto erotismo, cabelos brilhantes, peles macias, rios de esperma e conas pingando de úmidas. Em 42 dias de orgasmos múltiplos acumulamos assim, digamos, um vasto capital amoroso, que seria investido, e compulsivamente gasto, quando nos encontramos. Apesar de reconhecer hoje que ambos melhoramos, na aparência e em qualidade de vida — vocês sabem, o amor faz mesmo o maior bem, dá um brilho extra nos olhos —, nunca deixo de pensar que, ao vivo, o nosso "charme", "magnetismo animal", ou simples "química" jamais teriam funcionado. Agora vem esse Daniel Goleman, um gênio reconhecido do comportamento humano e autor do mais que falado "Inteligência Emocional", chamar a atenção para os aspectos negativos da comunicação online. Chega ao ponto de afirmar que o email é pouco melhor que nada, hum, será por inteligência ou burrice emocional? Me pergunto, e pergunto a vocês: será que ele está mesmo certo? Ou só mesmo sendo careta? Falar nisso, em virtude do feriadão e do acúmulo de trabalho nos últimos dias, só pinto por aqui antes de terça se rolar algum assunto muito instigante. Caso contrário estarei me dedicando aos livros citados aí do lado, e a algum lazer tête-à-tête com meu maridinho ex-cibernético que confesso, hum, anda meio preterido pelo notebook. Aproveitem pra reler o excelente e engraçadíssimo post aí embaixo: se você não achou a menor graça, leia de novo; faltou, com certeza, a empatia muito necessária do riso e da performance ao vivo, mas a graça está toda lá, eu garanto: vale a pena insistir.
1. Ontem, vocês notaram, não escrevi. Mal dormi. Acordei antes do sol e mesmo antes do café, já estava no teclado do computador. Nem jornal eu li, só o horóscopo de Rosângela Alvarenga (sem ele, nem acordo), que afirmava benevolente: "Marte e Vênus lhe enviam vibrações muito favoráveis. Tudo tende a se resolver de modo positivo", ah, bom. Só de ler o horóscopo, claro, dificilmente se arranja assunto para post, e somado ao meu frenesi criativo, explico agora porque não escrevi: não havia espaço algum, em minhas conexões neuronais, pra divagar em lirismos de blog.
Vibrações de Marte e Vênus, hum, poderiam significar amor, romantismo, bem, vocês sabem: homens são de Marte, mulheres de Vênus, e quanto ao encontro favorável fora do horóscopo? Bem raro. Ou por outro lado, em interpretação mais livre, Marte significa o esforço consciente, a energia do trabalho. E Vênus, a do dinheiro e da arte, deve ser isso. Deve ser por isso que tenho me dedicado por dias e mais dias à idéia dos MEMO's. Deve ser por isso que trabalhei 14 horas seguidas sem comer nem beber pra botar um site básico no ar. Sim, deve ser por isso. Tem gente que achou genial: "É daquelas coisas tipo abridor de latas: simples e óbvias e que depois de algum gênio inventar, a gente não sabe como vivia sem antes. Tem tudo para dar certo." Mas tem outros que vieram com a costumeira ladainha do brasileiro chinfrim, que não doa nem o favor da palavra amorosa, do minutinho de atenção e já vai logo derrubando tudo: "brasileiro é tão carente que periga pedir em vez de dar". Mas gente, deixa eu explicar. Esta idéia dos MEMO's não é mesmo coisa de quem não tem nada pra dar. É um jeito generoso, caloroso e barato de expressar prazer, aprovação, fruição do fazer artístico. Não é coisa para mortos de fome, que infelizmente são muitos neste país, mas de gente que já ultrapassou faz tempo a curva básica da sobrevivência, tem computador, tempo pra gastar online e fome de outras coisas: cultura, lirismo, beleza; e faz por garantir que tais valores, tão relegados a segundo plano, permaneçam vivos. A idéia da generosidade me persegue. Fico babando com estas pessoas que fazem trabalho voluntário, sobem favela, doam para instituições beneficentes. Infelizmente, não é muito o meu estilo. Não acho tempo pra trabalho voluntário, não sou naturalmente boa com crianças e não me sobra dinheiro para doações, vocês sabem, meu orçamento é apertado, e ainda por cima duvido muito do destino do dinheiro doado. Mas dou tudo, tudo, pela sobrevivência da arte, dos artistas: algo pra mim tão fundamental quanto a comida na mesa, bem, muitos dirão que é porque a tenho sobrando, mas imaginem um mundo sem criatividade, sem prazer estético, sem um livro que seja à cabeceira para ser lido e comida à vontade, teto e roupa lavada. A gente chega lá. Só periga acabar é o hábito gostoso, antigo — e já quase ultrapassado pelas realidades virtuais do videogame —, de imaginar. Todos os projetos, como se sabe, começam na imaginação. E isso é comigo mesmo: projetos... e imaginação. Agora, se vai dar certo? No momento, não dá pra especular. Porque se me perco em pessimismos nem mesmo sei onde vou parar. Certamente não será na paz, sombra e água fresca que o horóscopo de ontem prometeu. Vou em frente, apesar dos conselhos derrotistas.
2. Chovia mais no banheiro que no Rio de Janeiro em dia de tempestade. A água estava por todo lado, o vaso até a borda, minando do teto e escorrendo pelas paredes com energia de dilúvio. É o único banheiro da casa e é de manhã, não sei mais o que fazer, bate um desespero, ai meu Deus, só faltava essa agora. Chamo o porteiro, um sujeito interesseiro, com a maior má vontade quando se trata de ajudar: não sou bombeiro mas olha daqui, olha dali, nossa, de onde vem tudo isso, eu não sabia que estava tão mal. Olha daqui, olha dali, acabou descobrindo: o registro aberto no chuveirinho ao lado, virado pra cima e perdido na confusão, causava o estrago todo. E eu já culpando a vizinha de cima, imaginem. Acordei pensando no sonho, a água, a emoção por todo lado... sou responsável por meu próprio desastre? Ou por minha própria abundância? O banheiro real está mais que normal, ufa. Abro o jornal e vou direto ao horóscopo, é, gente, confio mesmo em horóscopo de jornal: uma espécie de bússola, de dica gratuita para o resto do dia, mesmo que seja inventada pelo astrólogo de ocasião, obra pura e simples do acaso. Mas não, não é o caso de Rosângela Alvarenga, uma astróloga de verdade que eu até conheço pessoalmente, e por isso a leio: "Marte e Vênus lhe enviam vibrações muito favoráveis. Tudo tende a se resolver de modo muito positivo", uai, gente, eu já não li isso no jornal de ontem? Que em casos normais já estaria no lixo, mas como ontem, etc etc, estava bem aqui pra conferir, e espanto: estava mesmo repetido, signo por signo, engano ou desígnio? Uma insistência benigna nas vibrações positivas, hein, hein? Um sinal? Já viram isso acontecer? Nem eu. Nem uma em milhão, e não... Não sei o que significa, provavelmente nada, um simples deslize do revisor, ou... Licencinha, gente. Vou optar pelo mágico e insistir no meu projeto, afinal, o sonho avisou, sou responsável por meu próprio dilúvio... ou descaso... ou solução. Pelo menos descobri um jeito de ser generosa nos meus próprios termos, dando força ao que mais me interessa nesta vida: a batalha instigante da arte. Não será por falta de insistência, ou de sinais do céu: coisas de Vênus e Marte.
3. Agora imaginem, se as previsões do horóscopo repetido fossem pessimistas.
A gente cria. Escreve. Publica. Livros. Blogs. Comunidades. Mas no vamos ver, vamos viver de quê? A coisa, entre outras coisas, tem me encucado. Andei buscando uma solução. E a encontrei.
Fiquei devendo pra Martha Medeiros no outro post mas me redimo hoje, com citação e tudo. (Morde e assopra é comigo mesmo. Mas não é por ser puxa-saco, ou por insegurança, ou por pena. Nada disso. É que digo o que penso, e se for de amigo e não for o melhor, o mais elogioso, logo me arrependo. Não de dizer a minha verdade, hum, mas de pensar e sentir aquilo, fazer o quê.) Na Revista deste Domingo, Martha mostra porque é mesmo uma deusa, vai lá. Concordo com ela em conceito, exemplo e atitude, vejam só: "Não se sinta culpado por pensar em si próprio. Cuide do seu espírito, do seu humor. Arrume seu cotidiano. Agora sim, vá em frente e mostre aos outros como se faz." Detto e fatto, bem, não é tão fácil. Arrumar como? Diz o Globo que existe escassez de 20 mil engenheiros no país, em todas as áreas. Bem. Nem todo mundo quer (ou pode) ser engenheiro. E a vida de artista, como é que fica? De escritor? De blogueiro? Vender livro, já se viu, dificilmente é solução pra bolso. Emprego em jornal, nem pensar, como disse uma amiga no outro dia: "nem dando pro Xexéo", ah, tá bom. Melhor deixar pra lá. A gente tem o que dizer, vai e diz: escreve no blog, e não é coisa pouca. Exige pesquisa, criação, revisão e edição, fotos, links, cuidado. Ou vocês pensam que só leva um segundo? Não, gente. É trabalho, trabalho sério. Do bom. Vai daí que eu já tinha pensado: com essa audiência toda, imagine se cada um que te curte resolve te patrocinar, hum, digamos, com cinco reais por mês. Nem falo daquelas visitas todas que o contador mostra, não mesmo, falo dos 10 por cento que te lêem mesmo, ficam mais de uma hora contigo todo dia, sacou? Hum... um, dois, cinco reais, mas só quando a gente quiser, se der vontade de apreciar um texto bom, sem vínculo ou compromisso. Gostou? Patrocine. De NY, comenta aqui no blog a Simone K. : "Como sabe o doar aqui, ou a falta dele, pode até ser um motivo de vergonha. Trabalho voluntário é a forma mais popular, não? Se a gente não faz, o vizinho reclama." Ah, sim. Brasileiro não dá nada de graça pra ninguém, mas bem que a gente podia mudar um pouco isso. Um amigo meu, artista como eu, achava humilhante um link que eu tinha aqui no blog, pra doações no PayPal: acabei apagando. Mas continuei pensando: uai, gente, humilhante por quê? É humilhante ser apreciado? Ser pago por seu trabalho? Já faz um bom tempo que me debato com a questão; como "trabalhadora da luz", o dilema era o mesmo: trabalhar pode; cobrar não. E nesses tempos de ascensão, quem é esotérico sabe bem do que estou falando: fala-se muito em mudanças radicais, em um novo ambiente de altíssima energia onde cada um só faz o que lhe dá prazer. Muito belo. Muito bom. Mas a pergunta persiste: se o nosso mundinho tresdê ainda funciona à base de dinheiro, como é que se vai sobreviver? Novas formas de viver? E quais seriam? Hein? A web é uma resposta, com certeza. Uma mente coletiva: troca de idéias e ideais, um celeiro criativo de tudo. Dos engenheiros (a troco de salário, gente, pra eles não falta emprego!) vêm as ferramentas. Dos artistas, o conteúdo: todo mundo usa e abusa, e online, se doa de graça, não tem o menor problema. A web já está no futuro, no admirável mundo novo onde a gente só faz o que quer, e não precisa de dinheiro: é muito maior do que o Second Life. It's the One and Only Life. Eu penso, gente, e penso muito. Vai daí que surgiu essa idéia de patrocínio voluntário de blogs. Gostou? Patrocine. Não espere o governo, o bolsa-família, o Ministério da Cultura, o prêmio, a lei, a corrupção. Nem precisa de projetos complexos, de concorrência ou aprovação. Gostou? Patrocine. Simples assim. Pode ser que funcione. Pode ser que não. Mas é, certamente, uma opção. Faço como a Martha diz: penso em mim, começo por mim, ensino como se faz, e... bem. Espero que façam o que eu digo. E faço. Bom domingo pra vocês, e pra mudar de vida hoje mesmo, seja um MEMO* você também.
Tem alguma coisa errada nesse Oi Futuro, gente, e não consigo saber se é só aqui em casa. Aparentemente, a mostra "Blooks - Tribos & Letras na Rede", que abre lá amanhã, pretende entender tudo de blogs, mas não entende nada de futuro: vai da internet para a galeria mas não vem da galeria para a internet, pelo menos, repito, aqui em casa. Clico no site, passo por flashes esparsos e acabo numa tela vazia: esgar. Não é de hoje que eu tento acessar esse OiFuturo.org e sempre dou com a cara na porta, isso é, no link vazio, nenhum patrocínio cultural pra pleitear.
Só usei a pouco usual palavra aí em cima pra afirmar o que a gente já sabe há muito tempo, mas que os cientistas acabaram de provar, e de publicar na Science: não é o cérebro grande, nem a inteligência, que distingue em última instância os humanos de outros primatas; é, isso sim, a capacidade de aprender, de crescer num grupo social se "beneficiando do conhecimento adquirido pelo resto da espécie", incluída aí a linguagem. Em outras palavras: se comunicando. Oi? Alô? E o esgar com isso? Explico: a curadoria do evento deixou de fora os blogs confessionais. Puro preconceito. Merece um esgar, uma boa e expressiva careta de desgosto, aprendida em tempos ancestrais e tirada da memória a fórceps no logodesafio de hoje, isso porque: há blogs confessionais e blogs confessionais, e é preciso distinguir entre eles, agora, fala sério. O que é um blog? Nada mais que um diário de experiências online, onde o autor faz uma lista de entradas interessantes em outros sites — e blogs — e opina sobre elas: uma rede viral de conhecimento humano, baseada em ligações e comunicação ampliada de experiências. Enfim: basicamente conectado... e confessional. Blog metido a literatura "séria", e ainda por cima sem links colorindo o texto, pode ser qualquer coisa, mas blog é que não é. O que se convencionou, com o tempo, criticar nos blogs, é a convicção de que o tal confessional se alimenta exclusivamente de abobrinhas. Sob esse ponto de vista, torna-se o blogueiro típico um quase-macaco, como o chimpanzé observado pela Science: domina o uso da ferramenta "blog" mas não transcende, não evolui socialmente ao compartilhar vivências. Isso porque meia dúzia de escritores não-publicados houveram por bem transformar a rede numa "vitrine criativa" para seus delírios pseudo-literários, uma maçaroca de textos apressados, sem revisão ou cuidado. Não todos, claro, ou seria apenas preconceito ao contrário. Assim como nem todo blog confessional se limita a uma versão online de fantasias adolescentes, como querem afirmar os defensores da literatura publicada online auto-intitulados doutores no assunto, enquanto nos deixam de castigo — nós, os blogueiros tradicionais e nossas modernas conexões — num cantinho desprezado da blogosfera. Embora eu aprove e pratique a disponibilidade online de literatura em forma de e-books para download, e até mesmo em formato blog, é preciso que uma coisa fique bem clara: blog não é lugar exclusivo de experimentação literária marginal, gente, não. A blogosfera é um fórum imenso, um espaço aberto de discussão onde cabe de tudo, e acima de tudo, a vida experimentada por cada um. São todos bem-vindos, cada tribo com seus índios. Deixando de fora o preconceito virtual dos clubinhos, que na vida real, a gente é forçada a agüentar.
Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui escrevendo este post. Eu poderia, pelo menos, ter posto a frase entre aspas, porque fala sério: alguns dias antes de lê-la na coluna do Xexéo de hoje, eu já a tinha lido no blog do Michel Melamed, mas tudo bem. Por onde anda a citação original, não sei: tudo se copia, e na atual conjuntura das coisas o jornal, que é impresso só uma vez por dia, está sempre atrasado.
Quanto ao título do post, eu juro: já tinha decidido muito antes de ler a coluna do Xexéo, afinal de contas, o primordial assunto "Paraíso Tropical" atravessa o jornal desta quarta de cabo a rabo, com uma breve, pontual interrupção pra discutir a montagem "moderninha" de Alberto Renault para a ópera L'Orfeu: tem sexo oral e tudo. Tá certo. Mais moderno do que discutir novela — assunto que domina, segundo ainda o jornal de hoje, as cabecinhas pensantes de 59 milhões de brasileiros — é falar de sexo oral. Mas falar de si mesmo — no blog, em literatura, em documentário — é umbiguismo, dispensando "quem consegue verdadeiramente criar personagens e construir uma narrativa". O tal "falar de si", coisa da qual o "overpaid prophet"* dos anos 60 Bob Dylan fugiu, que nem o diabo da cruz, até capitular no "I'm not there", filme em cartaz no Festival de Veneza — com um título desses, não precisa dizer mais nada. mas diz. — é o paradoxo máximo do que se publica hoje em dia. Falar de si é falar do cachorro, dos namorados, de dietas, de plásticas, de seus 15 minutos de celebridade, enfim, de miudezas, generalidades: não tem ninguém aqui. Porque na vida real, a atenção de todos está voltada mesmo é para o mais bem guardado segredo do país, afinal: quem matou Taís? Espaço para reflexão? Para a consciência desperta? Para os destinos do mundo e meu, eu como parte daquele? Quem liga pra isso? O que acaba resultando em clichês vazios, em tentativas formais de escapar ao que realmente interessa a todos: a vida íntima de cada um. Quanto a mim, com tanta obrigação de ver isso e aquilo, seguir esta ou aquela regra, agradar a um e a outro e conseguir meus 15 minutinhos que aliás, como se viu em Factory Girl, se resumem a um consumo desenfreado do si mesmo sem nenhuma perspectiva de crescimento, acabo escrevendo sobre o que não vi, sobre o que não senti, sobre o que não sei soltando em público, de qualquer maneira, os meu demônios. Deus me livre de ser domada, adjetivo usado por Rodrigo Fonseca em sua ótima crítica ao "Santiago", documentário de João Moreira Salles a que não, não assisti. E depois do que o Rodrigo disse, nem sei se vou. Afinal de contas, é "encantador preservar o que há de mais sincero", mas falta ao filme "vigor". Ficou claro, João Moreira Salles sabe muito bem disso: falo de mim sem falar de mim. O resto é de um umbiguismo que descamba em ambigüidade, por falta absoluta do tal enfrentamento. É claro que eu não acho que toda arte tem que ser confessional. Não. Há modos... e modos do artista se fazer sempre presente, atuante, consciente e, como ouvi ontem à noite num debate sobre João Cabral de Melo Neto lançando a nova coletânea do poeta, reconstruir o mundo a partir de sua visão dele. Há os que falam de si falando de si. E há os que falam de si evitando ao máximo falar de si, incluídos aí os praticantes de ficção. O que não pode, de jeito nenhum, é o artista se colocar à parte de si, evitar o confronto, perder-se em fórmulas vazias de agradar, de não contestar nada, de nada arriscar. É isso o que queremos da arte? Mover multidões com a força pura do estereótipo? Da profundidade dramática cuidadosamente estudada — como prova Xexéo —, matematicamente calculada para durar 120 capítulos e render alguns milhões em publicidade, manipulando a atenção do público com firulas? O Valtinho eu sei, vai me condenar hoje. Vai dizer que eu não entendo nada de novelas e poderá se estender: dizer que, apesar de pretender saber tudo, eu não sei nada de nada. No fundo no fundo, só sei de mim e não, não tenho mesmo talento pra ficção. Me preocupo demais com a vida real e é dela que extraio o meu suco, com seus dias de néctar e outros de cicuta. Não perco meu tempo com bobagens, não é com banalidades que cativo o leitor, se é que em alguma medida o faço. Mas duvido que alguém, em algum momento, me acuse de falhar no enfrentamento e como conseqüência disso, carecer de vigor. Sou chata? Sim. Porque penso, logo... maria-vai-com-as-outras, jamais. Atire a primeira pedra quem acredita que onde há vigor e vida em literatura, falta um profundo envolvimento com a arte de escrever. Pra quem não concordar, sempre resta uma saída: escreva em cinco linhas sua teoria sobre "Quem matou Taís" e envie para o blog da Patrícia. As melhores serão publicadas e ganharão uma coleção Discoteca do Século XX, aquele que sim, passou. Passou arrebentando e abrindo caminhos pra que a gente pudesse, um a um, cuspir com vontade neles. Desculpem o desabafo, gente. Pelo menos no Noga Bloga, uma coisa consola: descontado o umbiguismo normal de blog, enfrentamento e vigor não faltam nunca por aqui.
* a expressão consta no já citado aqui no blog, em alguns aspectos excelente, Factory Girl
scan do artigo de Alexei Bueno, O Globo, 01/09/2007 - detalhe
"A maior ameaça que um artista enfrenta é a obscuridade, não a pirataria” , diz o editor Tim O’Reilly, citado em artigo do escritor canadense Jon Evans no Blog de livros do Guardian, tema do post de ontem no Todoprosa, e que gerou uma discussão, se não interessante, pelo menos verdadeira, (des)qualificada online com a habitual contundência por um leitor do Sérgio: "A maior ameaça é a mediocridade. Estando definido este ponto, observo que esse tal Jon Evans está meio desesperado, disposto a tudo para divulgar seu trabalho. Isso é degradante."
Agora vem cá: degradante por quê? Costumo ser atacada por isso, pelo que muitos julgam ser uma pura e simples busca degradante de notoriedade. Um discurso bonito, muito ético — e muito teórico também —, praticado por leitores intelectuais e sérios que, provavelmente, não fazem a menor idéia de como é a vida de um escritor obscuro. Ou quase. Todo escritor começa obscuro, e competentes ou não, são poucos os que têm a sorte de escapar à maldição descrita por Jon, não por capricho, ou mera questão de vaidade, de exibida mediocridade. Mas sim, pela mais pura, prosaica e simples necessidade de sobrevivência. Em seu pra variar ótimo artigo no Prosa deste sábado, José Castello descreve (e enaltece) os "homens que, em vez de se afirmar pela presença, se afirmam pela ausência". Belas palavras, mas como o próprio Castello diz, traiçoeiras. Expressam um desejo de liberdade do criador, uma visão de paraíso literário onde o autor paira oculto, absoluto, misterioso, a salvo de ataques de críticos e leitores, de julgamentos mesquinhos (ou até verdadeiros), sempre dolorosos para quem os sofre. Quem é que não gostaria disso? Eu sim. Daria tudo pra ficar na minha, sozinha em casa delirando em textos, emboscada por trás de um computador e através dele filtrando a ingerência do mundo com o dedo colado na tecla "del", embora meus críticos afirmem justamente o contrário. Faço de tudo sim, pra que meu texto apareça do outro lado da tela, exposto a tiros e flechadas. Mas é por puro e absoluto anseio de sobreviver como escritora. A liberdade poética a que Castello se refere é descrita com exatidão por Drummond, ainda no artigo, quando fala de papagaios: "infame liberdade, disfarce de prisão". Existe prisão maior do que ser incapaz de tirar sustento do seu próprio trabalho? E por que com o artista seria diferente? Ainda me acusam de só falar de mim. Estão certos: meu tema sou eu, e que risco... Serão meus anseios universais? Serei normal a ponto de expressar nos textos inquietações de outras mulheres da minha idade, semelhantes ou diferentes de mim? Serei honesta, contundente, entregue, transparente, a ponto de mudar alguma coisa? Ou simplesmente vaidosa, egóica, iludida? Uma neurótica banal com mania de grandeza? Bem. Fica aqui a questão: somente ao tempo cabe respondê-la. No mais, é a emoção que brota em estado puro e a vida dura (porém maravilhosa) de quem se aventura a mergulhar nela, sem mentiras ou dissimulações. Afinal de contas, como escreve Alexei Bueno no Globo de hoje, em defesa de Fernando Pessoa: "me interessa muito mais a minha angústia pela morte do que um ovo ou uma pedra". Espero que por causa disso, não me atirem nem um, nem outra.
"31 de Agosto é o Dia do Blog, ou BlogDay, data escolhida pela semelhança entre 3108 e a palavra blog. Como o Natal, não passa de uma data comercial que certamente surgiu de um linkbait como qualquer outro.
Em 2005, o israelense Nir Ofir teve uma idéia bacana. 'Nos últimos meses, eu senti que, à medida em que surgem mais blogs, perco menos tempo com eles. Com o excesso de informações, visito apenas meu blog favorito. Então por que não incentivamos nossos visitantes a conhecer novos blogs?'. Poderia ter escolhido qualquer dia do ano, mas optou pelo 31 de agosto por razões semióticas: em inglês, 31-Aug vira 31-Og, que vira 31OG - já dá pra ler a palavra blog escondida ali? Durante o dia 31 de Agosto, bloggers de todo o mundo farão um post para recomendar a visita a novos blogs, de preferência, blogs de cultura, pontos de vista ou atitude diferentes do seu próprio blog. Nesse dia, os leitores de blogs poderão navegar e descobrir blogs desconhecidos, celebrando a descoberta de novas pessoas e novos bloggers."
Instruções do BlogDay:
Liste cinco novos blogs que você ache interessantes.
Notifique por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por você no BlogDay 2007.
Publique no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
Junte a tag do BlogDay usando este link: tag e um link para o site do BlogDay.
Noga Bloga recomenda (fora da lista habitual de favoritos):
Lendo Engana - blog novíssimo de Edgar Lubicz, Tiago Rios e Ju. A garotada leva o maior jeito.
Kaleidoscope - blog da poeta, escultora e artesã muito especial Simone Kaplan, uma brasileira em Brooklyn Heights.
Crônicos - blog dos meus companheiros de Paraty, já que não dá pra citar todos individualmente.
Verdes Trigos - o portal cultural mais ativo do Brasil também é blog.
"Let's not, and say we did", repete o Alan. Tem sido este, ultimamente, o mantra preferido dele, que enjoou de vez de sair de casa. E segundo ele mesmo conta, o do pai dele antes dele, e antes disso o do avô, e por aí vai. Ou diz que foi. Algo que, com meu parco talento de tradutora, não consigo importar pro português de jeito nenhum.
Não com o ritmo e a cadência que eu gostaria, ah, Noga, deixa de frescura e traduz assim mesmo, afinal de contas, não tem ninguém lendo: "a gente não vai, mas diz que foi". Fudeu*. Se estrepou. Criou-se o mito, a mania, a onda: simples assim. Todo mundo diz que foi, mas não vi ninguém lá. Todo mundo tem, mas ninguém usa (até parece vibrador). E aquele best-seller então? Todo mundo comprou, mas ninguém leu. Tô falando de quê, mesmo? Pra quem? — Ei, você aí! Tá me ouvindo? — Quem? Eu? — É. Você mesmo, que me encontrou online. — Tá falando comigo? Eu, hein! Já fui. Tô fora. Bato na porta. Grito. Insisto. Mas não acho ninguém. Escrevo para milhões, todo mundo sabe, faço isso faz tempo. Desde que resolvi publicar online, todo santo dia, uma versão vagamente confessa dos meus dramas cotidianos. Draminhas. Dramalhões. Transformados com alguma arte em projeto único de literatura, é. Pra você aí que (não) me lê (nunca), faço do blog um compromisso sagrado, um cultivar diário do ritual de escrever, quase outra religião, ah bom, agora entendi: digamos que eu rezo, mas não tenho a menor fé. Capricho no tema, no toque, no bom ou mau humor do dia, na dor, na nudez* da emoção, no gozo* da poesia. Corrijo a sintaxe com o maior carinho, a grafia, o ritmo. Leio em voz alta feito louca, o dicionário sempre ao lado, ops, na janela do lado. Digamos que eu escrevo, hum. Gosto de escrever, e não tenho mais nada pra fazer. Digo pra todo mundo que tenho um blog, sim, um sucesso de público, muito lido e apreciado, pode publicar aí, Joaquim, no Gente Boa: "Está no ar, totalmente remodelado, o blog da escritora e cronista Noga Lubicz Sklar, retumbante sucesso na blogosfera — onde sua audiência vem crescendo, e em ritmo chinês. Noga autografa no dia 4 de outubro, na Travessa do Leblon, o seu mais recente e pornográfico* romance: Hierosgamos - Diário de uma Sedução." Tudo pelo leitor, este feitor. Ou melhor: esta ilusão. Sim, gente. Foi pensando em vocês — e claro, naquele chatíssimo, indesejadíssimo pop-up do Mercado Livre que tanto nos atormentava — que eu mudei de contador, e foi aí que a coisa pegou: acabei descobrindo que oitenta e quatro por cento da minha querida, valorizadíssima audiência, que me enche tanto a bola, passa menos de 5 segundos por aqui, ouviu? — Hei, você! Peraí, volta aqui, pô! Fica mais um pouco! Inútil, já era. Paciência. Pesquiso e descubro que isso acontece nos melhores blogs, verdade: coisas da ingrata blogosfera. E por causa disso, ou melhor, apesar disso, o Noga Bloga volta hoje a ser o que sempre foi: um espaço aberto, democrático e transparente, onde me mostro inteira e provo por a+b — e outras 21 letrinhas, parágrafos, travessões e vírgulas, claro — ser uma escritora única, erótica*, ousadíssima, genialíssima, injustiçada... e não-sei-por-que-cargas-d'agua, ainda inédita. Azar de quem não me lê, viu? Perdeu. Perdeu. Não gostou? E daí? Eu sim. Afinal de contas, ninguém me lê a não ser eu mesma, e francamente: não existe, atualmente, escritora melhor do que eu, espelho, espelho meu. Resistiu até aqui (são 5%! só 5%!)? Pois saiba que aqui se pratica literatura, sim, a verdadeira, a amadora, a de quem escreve por puro amor à arte de escrever. Nada dessa chatice, dessa obrigação careta de ser profissional. O que não dá dinheiro, mas pelo menos, dá uma liberdade danada. Tchauzinho. Cansei, vou pra praia agora e pronto. Ninguém tem nada com isso.
* ah, sim. te peguei. essa foi só pra gerar tráfico, viu? ops. tráfego. dos sites de busca. entendeu?
A gente xinga a máquina, maldiz, mas às vezes a surpresa é boa, vejam só: acabei de encontrar o rascunho do post perdido de ontem, arquivado no blog errado. Vale a pena conferir, apesar do assunto repetido... o texto tem sua graça, e é melhor que o que se seguiu:
Este emprego de blogueira, fala sério, é dos piores que existem. A gente lida, não com a falta do assunto, mas com um excesso endêmico dele. Depois é o trabalho de formiga de embaralhar tudo aquilo, separar as peças, classificar por cores e remontar tudinho de um jeito inesperado, criando ineditismo onde não existe novidade nenhuma, só mesmice. Não ganha nada, trabalha nos fins de semana e até doente. Não tira férias nunca e ainda compete num mercado monstruosamente amplo, não para trabalhar menos, como a maioria dos trabalhadores normais, mas para trabalhar mais. Ter mais visitas. Ser mais lido, mas peraí. Tem pior, gente. Tem pior. Pior que ser blogueiro e falar do cachorro, da dor de dente, da falta de namorado e do mistério da balada, é ser blogueiro metido a escritor, filósofo, colunista de jornal. É duro, gente. Tem que ser mais inteligente, mais gramaticamente correto, mais original e ousado, e além do mais manter, sob chuvas e trovoadas, uma atitude profissional num mercado de trabalho que vai e vem não por mês, não por dia, mas... por hora. É, gente. Nossa audiência é medida por hora, e dela depende o nosso prestígio, o nosso futuro nessa profissão ingrata da qual não abro mão. Adoro blogar. Mas tem algo de errado aí. Tá certo que a liberdade do blogueiro, a independência de editor, de patrão, e em última instância, até de gosto de (e)leitor*, é algo que todo mundo inveja. Usar o blog como trampolim pra uma vida boa, mais tranqüila, mais relaxada, é até bem fácil: ninguém confessa, mas ter e manter blog pode ser melhor que divã de analista, e neste aspecto, a economia é boa: no bolso e na alma. O blog é uma espécie de amante, se é que vocês me entendem, dá um prazer danado, mas só funciona bem quando existe um marido oficial: um emprego (bem) remunerado. Em resumo: ser blogueiro não é profissão. É hobby. Errado é quando o hobby te consome a um ponto... que não sobra energia pra mais nada, mas fala sério, se assim não fosse o texto aqui no blog não passava de porcaria, coisa dispensável, chata, repetitiva... e não daria futuro, prestígio, alavancada no ranking: um vício sem remédio. Mas hum. Não era sobre isso que eu queria escrever. "Isso é nefasto para a sociedade", afirma em entrevista para o Megazine do Globo a psicanalista Lulli Milman, "pois a vida não anda". Refere-se a doutora à tendência que os jovens têm de permanecer cada vez mais tempo na casa dos pais, segundo ela, um desejo inconsciente de eterna juventude: os pais não envelhecem, os filhos são eternas crianças. Mas o que eu quero analisar aqui é um pequeno aspecto desta afirmação, ui, que não tem nada a ver com pais, filhos, e hum, em última análise, com o que é nefasto para a sociedade: a sensação bem real de que a vida não anda. E eu até entendo porquê. É que mudanças no comportamento são mesmo lentas, gente. Se alguém duvida, basta conferir online, e direto da fonte — que o Noga Bloga, quando pode, vai mesmo fundo —, porque as mulheres preferem o pink, apesar de uma moda que insiste no preto há décadas. E voltando ao assunto do post, eu quero dizer com isso o quê, mesmo? Falando sério, nem eu mesma sei, e é este o pior problema dos blogs: o texto de momento, improvisado, datado... e mais volátil que cotação na bolsa, só pra usar o jargão do momento e pegar umas tags de pinga. Listo a seguir as respostas possíveis, votos para a redação: * é, gente. danou-se. leitor agora virou eleitor: além de ler, ainda tem que votar, pode?
O post já ia longe quando de repente, não mais que de repente, o incontrolável painel deslizante embaixo do teclado — em outras palavras, o sensível demais pro meu gosto 'touch-pad', que no notebook substitui o mouse — me enfiou na cara a ampulheta metida, com seu barulhinho típico de hard disk enrolado (coisas de memória limitada), ai, gente, de novo? Pra variar, o backup falhou... e tudo se apagou num segundo, fala sério: quase desisti. Afinal de contas estou aqui de roupão, com gripe, indisposta e infeliz. Quem é que consegue trabalhar assim?
— O blogueiro! — responde com um dar de ombros desdenhoso, entre triunfante e irônico, meu eu escritor, aquele, vocês sabem: um ser superior, charmoso e livre, que só escreve quando baixa a inspiração. No resto do tempo ele bebe, lê (livros, não blogs), viaja, faz sucesso, se apaixona, transa muito e goza mais ainda, dá autógrafo, dá palestras e conselhos aos novatos ("desistam!"), em outras palavras: vive intensamente. Pois só quem vive intensamente tem assunto pra escrever. Já com o blogueiro, o negócio é outro. Gozando ou não, escreve todo dia, e pouco importa o assunto: escreve sobre o cachorro, sobre a dor de dente, a ressaca e a falta de namorado. Tudo coisa de momento, que dura online pouco mais que um momento, principalmente quando um toque involuntário no teclado leva embora a tela do blogger, taí, excelente metáfora: o que se diz em blog não se escreve, ou melhor, até se escreve. Mas não se publica, uai, gente: se está no blog já não foi publicado? Ah, bom. Não se publica em livro, Noga. Isso, todo mundo sabe. Enquanto lamento a dissertação perdida sobre os ups and downs de ser blogueiro — com meia dúzia de considerações brilhantes das quais, sinceramente, já nem me lembro —, desprezo arrogante o aviso do destino e retomo exatamente o mesmo tema: ser blogueiro, hum. Já sei que isso não vai dar certo, mas pelo menos, não repeti a palavra "assunto". Ser blogueiro profissional: um oximoro. Já que o blogueiro, com toda a liberdade (literária e literal) de que dispõe, é essencialmente... um amador. Se escreve todo dia, é por puro amor. Escrever em jornal é emprego. Mas em blog, é diversão. Pra escrever a sério, ser mesmo um profissional, quem tem blog tem que ser insistente. Insistente mas iludido, se é que vocês me entendem: um desempregado fingindo que trabalha. E mais: carregar nas tags, nos links, e tratar de inscrever o blog em todos os feeds que aparecem. Jornal tem prazo, reunião de pauta, editor e revisor. Blog tem preguiça, falta de assunto, cara-de-pau e corretor de texto — ferramenta que aliás, nem sempre funciona, e nisto até se parece com o revisor de jornal, só não pode é levar a culpa: qualquer deslize em texto de blog é responsabilidade única e exclusiva do blogueiro. É, gente: a liberdade tem seu preço, e custa sempre mais caro. O jornal recebe cartas dos leitores, centenas, milhares. Mas só publica as que o interessam. Já o blog recebe comentários, vocês sabem, publicados automaticamente, sem seleção nenhuma: quem manda em blogueiro é o leitor. Bem. Às vezes. Comentário de blog, quando existe, é uma questão complicada. Tem o problema dos pseudônimos... e da freqüência. Se os comentários são poucos, o blogueiro é ruim. Se são muitos, o blogueiro é ruim. Quem fala bem do blogueiro é puxa-saco e quem fala mal, agressivo. E se o leitor pesar na mão, e o blogueiro apagar... ninguém hesita em classificar: é censura. Mas o pior censor do blogueiro profissional, eu garanto: é ele mesmo. Como neste post, caramba: este texto não rola mesmo, desisto. Vou voltar pra cama. Afinal de contas, blogueiro profissional que se preza não escreve por obrigação. Nunca, ouviram? E encara de frente, ainda por cima, a mais dura e cruel das decisões: apago este post ou não?
Quando eu era garota escova progressiva não existia, claro, mas a questão dos cabelos lisos, sim. A gente praticava um tipo diferente de tortura, a assim chamada "touca": enrolava os cabelos ainda molhados em volta da cabeça, prendia com pinças e pressionava com uma meia de náilon (ahn?), deixava metade do dia, depois virava de lado e deixava o resto do tempo. O resultado era satisfatório mas demorado à beça, e sempre ficava uma ou outra marca de pinça. Mesmo assim, ninguém saía de casa sem ela, e lavar cabelo era complicado, um ritual complexo e freqüentemente adiado. Ainda tinha o problema do clima: se estava muito úmido o cabelo escorria; se muito seco o cabelo encolhia. Eu era insegura pra caramba, e não me aceitava de jeito nenhum.
Pelo menos no quesito cabeleira, isto hoje em dia até que mudou. Mesmo com ela crespa e compridíssima — sei, sei. na minha idade não cai nada bem, mas o Alan curte assim e pronto — não raro vou pra cama logo depois de lavar; no dia seguinte, é só passar o pente e pronto: um penteado perfeito, ou melhor, a perfeita falta dele... mas é assim que eu gosto, e não ligo nem um pouco pras opiniões em contrário. Já em outras áreas da minha vida não tenho tido a mesma sorte, ou quem sabe, a mesma sabedoria. Profissionalmente então, desde que optei por ser escritora, tem sido um verdadeiro inferno. Apesar de acreditar na qualidade e originalidade do meu texto, me sinto culpada e francamente envergonhada de sair por aí apregoando isso. Quem acha que eu me promovo além da conta vai até se espantar, mas gente, é a pura verdade: sofro à beça com isso. Num mundo plenamente narcisista como este da internet, autopromover-se é a coisa mais normal, mas não sei porque, todo mundo critica... como se fosse crime: hipocrisia pura. Já fui quase expulsa dos comentários do Todoprosa por não perder oportunidade de falar no meu livro lá, mas pensem bem: se eu não fizer isso, quem é que vai fazê-lo por mim? Como é que vai ser? Tá certo que o espaço online é amplo. Amplo e indiferenciado, e tome de acrobacia pra se destacar na multidão. A gente lida com todo tipo de limitação, trabalha todo dia de graça (ih, gente. tô encasquetada ultimamente com esta questão, deve ser o desespero financeiro), e ainda querem nos empurrar um assessor de imprensa? No meu caso, por exemplo: com vergonha ou sem vergonha, o fato é que com meu passado de designer — e publicitária — tenho talento e capacidade suficientes para criar — e veicular —anúncio e comecei hoje mesmo, com o AdWords do Google. Também sou perfeitamente capaz de escrever um press-release, mas aí a coisa pega: enaltecer a si mesma? Hum. Não pega nada bem. E mesmo que desse pra superar isso, não ia adiantar grande coisa. Destino de release enviado à redação pelo próprio autor não é nada nobre, já dá até pra imaginar qual é: E no entanto, muita gente boa advoga a autopromoção, como neste artigo do NY Times (acham até que é obrigatória): "Quando um colega escritor me qualificou como 'mestre da autopromoção', senti um frio na barriga. O fato dele acrescentar 'no melhor sentido' não aliviou minha aflição." Confere lá. Voltando ao Todoprosa: nessa semana mesmo, comentando um artigo interessante do Sérgio Rodrigues sobre a necessidade de editores na internet, eu disse que fazia questão absoluta de submeter meu texto a críticos experientes, com espaço na mídia impressa. Ao que um gaiato respondeu que se eu dizia isso... era por meu livro não estar vendendo nada (verdade: a distribuição só está começando agora). Ora, gente. Basta de falsos pudores, de sucessos forjados, de orgulho humilhado: vamos cair na real e pronto. Vender como, se não puder promover? Como diz a epígrafe talmúdica no início do Hierosgamos, quem já baixou, leu: "Se eu não for por mim, quem será?" Tudo isso pra justificar as recentes atitudes promocionais aqui no blog, como o capítulo grátis em pdf (um sucesso de download!) e o banner autoveiculado aí de cima: vendo sim, e quem quiser comprar, compre de mim. Afinal de contas, a casa aqui é minha, e é da boa educação honrar sua anfitriã. Além dos direitos autorais, levo comissão de 4% na Cultura, sim senhor (com qualquer livro que vier do meu clique no banner deles), ou vocês querem que eu viva de quê? Ah. Antes que me esqueça: uns meros cliques nos ads do Google também contribuem com algum trocadinho. Não chega a ser um salário, bem, mas pra quem me lê todo dia, dá um certo apoio moral, não é, queridos? Não há vergonha nenhuma nisso. É toma lá dá cá, e bom domingo pra vocês.
É, gente. Espero que vocês gostem dos improvements sutis que andei fazendo aqui no blog. Faço com gosto. É tudo pra vocês se sentirem melhor aqui na casa. E quando eu disse que faço, é porque faço mesmo, isto é, eu mesma faço, não tem nada de webdesigner de oito mil reais por aqui não. Pesquiso, roubo um script daqui e dali (o blog da Carla é um dos meus preferidos) e boto mesmo fogo nos neurônios, bem, só pode fazer bem, pelo menos afasta o alzheimer, não?
Agora, claro que como tudo, este método caseiro tem lá suas desvantagens. Aqui e ali aparece um bug e pronto: são horas e horas pra consertar, não vai rindo não, afinal de contas sou velha o bastante pra ser da geração que nem consegue programar gravação de vídeo, ih, gente!, me entreguei, com tevê de plasma e timer-não-sei-de-quê embutido, quem é que ainda programa vídeo? Enfim. Fica o consolo da inteligência, já ajustei muita tralha eletrônica nesta vida. Isso tudo é só pra me desculpar por não ter escrito muito esta semana. Estes meros botõezinhos java espalhados por aí, somados à memória exígua do meu notebook, me exigiram aí por volta de umas 100 horas de quebra-cabeça e briga com o computador, mas pra mim valeu. É sexta. Faz sol. Vou tomar café e caminhar um pouco que já nem sei de que cor anda o mar. Depois escrevo mais, ah, e claro: comentários para a redação.
Momix: Lunar Sea, ou... as aparências enganam. enganam mesmo. Se eu fosse um dia ser descrita em artigo de jornal, poderia quem sabe passar por uma espécie de Moses Pedleton da crônica, alguém que juntou pedaços esparsos de informação sob alguma inesperada luz e transcendeu, transgrediu completamente o sentido da info original como os bichos estranhos no palco do Momix, em mágica metamorfose: nada é o que parece ser, o que parece claro, transparente e óbvio em página avulsa de jornal. Se eu fosse hoje arriscar algum palpite profético, eu diria agora que os anos 60 estão chegando ao fim, sim, finalmente digeridos e quem sabe nunca, como disse o Domingos, totalmente compreendidos, isso porque.
Faz dois dias que o Segundo Caderno do Globo carrega no assunto, migrando de Bergman para Gilberto Gil com escalas breves em Hélio Oiticica, Lygias (Clark. Pape.), Leila e outros tantos. Dá pra juntar no mesmo saco essas mentes todas? Teriam existido os anos 60? Teria existido mesmo o Tropicalismo? Ou o Cinema Novo? Ou o Cubismo, o Dadaísmo, a antropofagia mais além de Oswald de Andrade? Teria sido Leila Diniz realmente uma mulher feliz? Joaquim Ferreira dos Santos de volta das férias vai afirmar que sim, no livro que está organizando, mas cá entre nós, se não houvesse a imprensa, o desastre, a vida abreviada, pergunto ao Domingos, seu ex-marido: Leila era mesmo feliz? Ou tudo se resume em mito? Não sei se a vida, como quer Zé Celso, é uma devoração, mas que hoje em dia a gente engole sem mastigar bocados indigestos de informação, isso é verdade. A vida de verdade nos chega picadinha, cozida e frita depois de amargar uns bons anos numa vinha d'alhos carregada de ervas aromáticas, quer dizer, o gosto e cheiro da verdade totalmente transmutados em algo facilmente digerível. Como a alegria generalizada de Leila Diniz, comprovada pelas fotos sorridentes de vedete. Tudo bem. Quem quiser saber (de)mais vai no google que lá tem de tudo, mas vem cá: saber demais pra quê? Interessa a alguém por exemplo, que o mais novo ingrediente no circo literário de Cabul, que nos querem empurrar a fórceps na próxima Bienal do Livro, se baseia numa mentira, já convenientemente desmascarada pelo New York Times? E nem foi escrito pela autora do livro? Ah, gente. Não liguem pra mim hoje porque estou irritada à beça, e não gostei nem um pouco de ver uma década inteira de criatividade resumida a rótulos, e de conferir outros rótulos devidamente arquivados em gavetas trocadas pro caos da arte soar assim, bem arrumadinho numa exposição. Afinal, também sou subproduto da década de 1960, me acostumei a rotular tudo e a reorganizar a verdade pra poder engoli-la, ou melhor, empurrá-la goela abaixo de quem não tem tempo, nem saco, nem o mínimo interesse de destrinchá-la e anda com uma baita indigestão de google. Ainda bem que daqui a uns 40 anos, se alguém tentar em artigo de jornal resumir em duas laudas a década da informação, será forçado... Ah. Desistam. A criatividade original, como um câncer do bem, vai se espalhar descontrolada por bilhões de bytes, numa gigantesca metástase cultural que em vez de matar, terá feito renascer como artista cada morador do planeta, numa profecia de Andy Warhol elevada à enésima potência. Ah, verdade. Daqui a 40 anos não vai mais existir jornal, nem verdade, nem mente, nem hábito de resumir ou analisar nada, então como é que vai ser? Eu não sei. Já me perdi completamente, pelo menos neste post. Tô com a maior vontade de me mudar pra uma ilha deserta onde não exista computador, nem informação, nem futuro, mas calma, gente. Esse tipo de desespero é pura adaptação à nova dose do remédio, quer dizer, à overdose de informação. Amanhã me acostumo, vira tudo normal de novo. Tchau.
Não sei se é por causa da idade, mas deve ser. A morte de Antonioni e Bergman fez muita gente chorar de nostalgia, refletir sobre a vida, sobre a arte, sobre estilo e até sobre o marketing milionário que hoje em dia controla tudo o que a gente lê, o que a gente vê e o que a gente vive. São páginas de revistas, páginas de jornal, entrevistas, artigos e crônicas. O curioso é que quem as escreve é sempre a geração de 1950, no máximo 1960, sobreviventes, como o Alan diz, da mind-blowing magic dos anos de nossa juventude. Quer ler mais sobre isso? No Hierosgamos tem, afinal de contas é a nossa geração também. Sei, sei. É típico. Alguns posts aí atrás, saudosista pra caramba, também dei minha choradinha.
Se o Domingos escreve, eu também posso escrever: "toda essa expansão de consciência permanece incompreensível para quem não a viveu... Deixam saudades os anos 60, quando a resposta estava blowing in the wind. Hoje, é mais difícil ter ideais. Sem ideais, a arte caminha. Mas puxa de uma perna." Será mesmo? Desculpe, Domingos, até te cito, mas concordar não concordo: pensei melhor no assunto. É quase certo que a nossa consciência expandida tenha revolucionado tudo. Mas de onde vieram os yuppies, os executivos de mercado, e para ir mais longe, a própria noção de mercado? De dentro dos intestinos do movimento hippie em São Francisco o Alan conta como o emergente "mercado" se apoderou da alegria deles, bem, da fantasia que eles vestiam, por dentro e por fora: foi por esta época que ser jovem virou moda, uma moda sustentada por uma geração única de pais, sobrevivente num pós-guerra próspero e endinheirado, cujos filhos podiam, pela primeira vez na história, comprar tudo. E compravam. Se havia quem comprasse tudo, nada mais óbvio que o surgimento de interessados em produzir tudo, e por aí foi numa bolha cada vez mais inflada que está pra estourar agora, por esses dias, ou de onde vocês pensam que veio, essa crise do crédito americana? "Tudo começa em algum lugar", diz Alan Sklar, o sábio ex-hippie do Hierosgamos. Pode ser até numa garagem velha, ou tentando ser mais moderna... num estúdio caseiro de vídeo. Não chego ao ponto de Ivana Bentes, na discussão, afirmando ser o YouTube a nova Nouvelle Vague. Mas que no meio do caos há algo novo germinando, disso eu tenho certeza. Basta pensar no que significa hoje em dia, só pra falar de cinema, o velho conceito "uma câmara na mão e uma idéia na cabeça". No admirável mundo novo da mídia, onde todos são autores por bem mais de quinze minutos, pode ser que já não haja um cinema de autor, uma arte de autor. Quando a bolha dos anos 1960 finalmente estourar — e vai ser por esses dias, quem souber olhar, verá —, espirrará lá de dentro uma arte inteiramente nova: a vida de autor. Não é que o mercado explodirá junto. Não. Me arrisco a dizer que se tornará mais mercado ainda, retomando a noção de um mercado livre, que existia na Idade Média: uma praça central comum, onde cada um expõe seu produto pra quem quiser comprar, ou vocês acham que é outra coisa a nossa cultura online? O que está pra acabar — e sem deixar saudades — é essa vida modelo, apregoada constantemente em praça pública, que muito poucos podem bancar. Esse agonizante culto da celebridade, que cá entre nós, parece mais um leilão de escravos, na contramão absoluta da liberdade de expressão. Estamos em crise, amigos. No sentido mais chinês possível da coisa, essa é que é a verdade. O mundo que a gente conhece, que gente como a gente conheceu um dia está sim, pra acabar por esses dias. Vem coisa boa por aí e tenho trabalhado pra ser parte dela: faço da vida plenamente vivida a minha arte hiper-neo-realista, mantendo a minha banquinha aberta, 24 horas por dia, neste admirável mercado novo. Quer arte mais autoral que esta?
"Não se pode ter tudo", Cora Rónai foi na mosca. É disso tudo que é preciso entender para se entender, se perdoar, engolir o mico e se preservar. É. No turbilhão — clichê! — da informação que sufoca, desgosta, deleita, se descolar, decolar no espaço do admirar, parar, calar: um breve intervalo entre poema e prosa, entre ficção e vida. Entre a banda larga e a banda que passa, ah, gente, na janela: vendo ela passar quando ainda era música, não megabytes por segundo. Saudade, é.
Estou num momento assim, ai, que medo de algum tipo "nossa, como ela é feia", ou, "burra", ou, "preguiçosa", ou, resumindo tudo, "decepção, coitada, prometia tanto...". É tudo mentira. Lá fora, sim, é o século 21, mas aqui dentro é o esterno que dói, o corpo que se rói, a falta de saco, o chamego, a vontade de fazer nada, a prisão de ventre, a fome voraz sem vontade nenhuma de comer nada. A verdade é a anemia dos vegetarianos, gente, é. A falta do excesso de assunto, pra não dizer coisa com coisa. Ou vocês pensavam que era tudo brilho? Perdeu, meu chapa. Falou besteira, e se não der pra apagar, voltar atrás... fica na fama feito nódoa. Um dia no hype outro no skype, se for preciso eu explico: vendo a vida de fora. Se algum texto precisa de explicação (é o que me diz o Alan, me exasperando na praia ao sol do meio-dia) é que não vale nada, deixa de fora a mesmice. A curta-imaginação. Uma ousadia de arriscar poema, ouvindo a trilha digamos assim... acabar em ruído. Todo mundo tem seu dia, essa nem fal(h)a, de coelhinha aparecendo vestida. A burrice alheia diverte, nos engrandece, tá certo: *Mulher-Samambaia e seu cérebro-de-minhoca, fatiado ao vivo no Gente ?Boa? do Globo (de graça online sob cadastro), em público, para milhões, hum. No fundo do intestino a merda sempre fede, chegar lá pra quê? Mais compaixão e menos sensacionalismo, gente, porque do mico ocasional ninguém escapa, certo, hum: dizem que há limites. Mas a "vida pequena", sim, continua (entre as aspas o termo é da Cora). Apesar da banda: cada vez mais larga e menos musical, respira fundo e toca o sino três vezes. Om.
Miguel Conde comenta hoje no Globo que a versão orkutiana de Harry Potter, traduzida por uma força-tarefa adolescente, já está no ar em edição revisada. Só li o último capítulo, isso antes da tal revisão, e francamente: não fez vergonha nenhuma a traduções publicadas por muita editora grande, onde não faltam absurdos.
Descontada a atitude pirata, meio inevitável em casos divulgadíssimos de grife como esse, a iniciativa estilo jeitinho brasileiro dos fãs chama a atenção para o sofrimento constante dos pobres leitores de traduções, e já deu seus frutos: a Rocco promete revisar a versão oficial de Lia Wyler — que será publicada em novembro — não três, mas cinco vezes. A conferir.
IH. Vai ter barulho. Vai ter confusão. Porque a NoMínimo, a confiar numa notinha discreta de hoje na coluna infalível de Ancelmo Góis, não vai se acabar coisa nenhuma. O que é muito bom. Vai no máximo se "transformar em outra coisa", nas palavras "proféticas" de alguns dos colunistas de lá, sem querer revelar ainda que outra coisa é esta, mas dá pra ver que é algo assim ali pros lados da Piauí, que já anuncia no site e pelo visto é vizinha de porta, com banco por trás e tudo. Tem gente que vai mais longe: promete aos leitores continuar em outro domicílio, pra alívio dos viciados na janela de comentários.
Eu não escreveria sobre isso se não detectasse no fim anunciado o mesmo fim (palavra repetida, reclama o editor, isto, considerando que em breve eu possa ter um: sonhei com isso a noite passada. para as crônicas, gente, só para as crônicas, porque pro romance já descolei um...) de todas as profecias que antecipam o fim do mundo: fiasco. E neste caso, um fiasco coletivo, engolido e mastigado por todos que deram o seu adeus ao público, no caso de alguns dá pra entender: a mudança de mãos talvez exija a cabeça deles, e não, não sei de jeito nenhum do que estou falando nem tenho nenhuma informação privilegiada, só uma cabeça pensante mesmo. Desde Nostradamus que a humanidade sonha com o seu anunciado fim, e manipula o hábito da profecia para justificar mudanças. É justo. Justíssimo (de novo, ai meu Deus. tô precisando de um glossário novo, deve ser a ansiedade pre-FLIP, vocês pensam que é brincadeira?). Mas... não se iludam: um profeta que se preze sempre sabe de algo que não publica de jeito nenhum, e que de um jeito ou de outro explica (mas não justifica) a profecia.
A verdade é que todo dia este mundo está se acabando e nascendo de novo sob um formato mais contemporâneo. Todo dia o corpo nosso de cada dia morre um pouco, e com um pouco de sorte renasce em células novas, até o dia em que... deixa pra lá, como diz o Ancelmo, este último deve estar longe, a não ser que seja abruptamente precipitado pela violência carioca.
O que imagino é que enquanto a gente do lado de cá lamenta e chora a nossa separação, a equipe de NoMínimo já elabora as novas bodas. Enquanto a Rocco ainda se ocupa em me recusar com cartas-padrão a Giz Editorial já prepara o lançamento oficial do Hierosgamos, e enquanto minha psique ainda resvala em pesadelos de rejeitada uma outra parte do meu cérebro já comemora o dia da virada, porque a vida é assim mesmo, uma eterna transição: pura passagem, um organismo em constante transformação. A internet só veio tornar este processo mais ágil, mais transparente, o que torna as ilusões cada vez mais desbaratáveis, ui. Melhor, mais aceitável: descartáveis.
Tudo muda e ainda hoje o que deve mudar é a versão do nosso video online, porque francamente, depois que a gente assiste no ar encontra um monte de defeitos que ninguém mais vê, e viva a possibilidade da mudança, embora resulte na perda do glorioso contador de visitas: volta tudo à estaca zero e haja confiança no futuro.
De volta à NoMínimo, aguardamos para breve o convite pra visitar a casa nova, e com um conselho: melhor parar por aqui a lamentação porque senão, como justificar pra todo mundo, que no final das contas, a revista online não acabou*?
* NoMáximo, sim, mudou de nome, de cara e de endereço, andem rápido antes que a esqueçam
Anunciaram e garantiram que a NoMínimo vai se acabar na próxima sexta-feira, no sopro agônico do mês de junho. Azar do IG, e um pouco azar nosso também, que vamos ficar sem o conteúdo nosso de cada dia. Arranjaremos outros. E os colunistas de lá, cada um por sua vez em melancólicas despedidas, certamente encontrarão outros rumos, alguns online, onde eventualmente nos cruzaremos. Carla Rodrigues, à frente de alguns pares, já vai delineando brilhantemente o seu futuro, pelo menos é o que se vislumbra ao ler o primeiro capitulo de seu novo livro, cuja leitura prazerosa escapa, logo às primeiras páginas, ao destino entediante que costuma ameaçar de morte as biografias: "Betinho - Sertanejo, mineiro, brasileiro", disponível online para download, dá-lhe Carlinha, que já tem até novo site. Só falta agora a disposição pra blogar de graça como todo mundo.
Tudo aconteceu tão rápido que nem deu pra controlar. Num dia eu estava pesquisando, meio desanimada, a possibilidade de imprimir uns volumezinhos chinfrins no Armazém Digital, ao preço absurdo de 50 reais cada, pra ter algo nas mãos pra mostrar na Flip. Não sei como a encontrei — deve ter sido, certamente, no google —, mas na cena seguinte eu estava falando ao telefone com a Simone da Giz, uma figura simpática, de fala honesta e franca, bem ao meu estilo. Fiz uma enquete rápida, falei com alguns autores publicados por ela — todos satisfeitos —, e tínhamos um acordo. Comecei a trabalhar nos detalhes finais. Naquele momento minha vida mudou, mas já falei sobre isso antes.
Depois apareceu o Henrique Chagas, gente, outra coisa que não lembro como foi, não sei se fui eu, se foi ele, um espiando o outro no orkut. Achei que ele estava ligado à Giz, e era interessante, porque do site cultural dele, o Verdes Trigos, eu já tinha ouvido falar. O cara tem reputação excelente, e já que ele estava rondando, atirei: quer publicar minhas crônicas? O Henrique topou, e o resto... é história. Resolvi convidá-lo pra escrever a orelha do livro, ele topou também, bem, depois se arrependeu um pouco, não é, Henrique? Afinal de contas o livro é assim, digamos, meio volumoso, bem mais que as 98 páginas regulamentares. O caso é que depois do susto o Henrique mergulhou no livro... e se deixou levar... leiam o texto dele e vocês vão ver.
Pra mim já estava de bom tamanho, a orelha pronta e linda — nenhum Pitanguy necessário —, quando a noite passada recebi este presente. Ó, gente, ó: melhor parar por aqui, senão a emoção vai transbordar pra vocês aí. Só me resta um recurso, é, aquele que vocês já conhecem: um trecho do Hierosgamos.
"Terça-feira, 2 de dezembro
Tudo aconteceu como ele planejou. Sonhei com ele a noite inteira, e o encontrei de manhã na tela pour me reveiller, com aquela gentileza adorável. Claro que te perdôo, querido, pois te amo profundamente. Importante é não ir pra cama com o coração pesado, nunca afogar a dor no sexo... Evoluímos como casal, e o amo ainda mais. A crise sombria dele me lembrou uma frase de Pina Bausch num de seus balés: "Você tem medo de quê? Dinossauros?" Reparou, Alan, que apesar de separados, temos dançado a mesma dança? A duração e a natureza de nossos casos de amor se assemelham: o primeiro mais longo, com parceiros de boa aparência e consciência limitada; o segundo, breve mas profundo, cortejando o tantra: mero ensaio para o encontro de almas gêmeas — os companheiros mentalmente fodidos — onde nos perdemos, dolorosamente equivocados... Chegou a hora, Alan, de dançar a nossa dança. Komm tanz mit mir, meu amor, sem demora!"
Não é 2 de dezembro nem nada, mas chegou a hora: de dançar esta dança. Estão todos convidados para a rave.
Há 20 anos atrás — cruzes. estou nostálgica hoje. —, quando resolvi fechar a Pólen... (é. os fortes também sucumbem. principalmente no Brasil, dos planos p, a, c...) liguei para alguns jornalistas — gente que sim, babou na Pólen por 7 longos anos, e fez ali seu sucesso editorial — caramba, não saio deste travessão hoje. Enfim. Quando resolvi fechar a Pólen, que apesar do sucesso todo não dava grana nenhuma, liguei para alguns jornaLISTAS. Ops, maiúsculas sem querer, ou porque estou meio bêbada:
— Alô. Patrícia? Escuta, Patrícia. A Pólen vai fechar. Quer fazer uma matéria? — Uau, Noga. Lamento. Mesmo. Mas não acho que seja do interesse dos leitores.
Babau. A Pólen fechou, vítima do cruzado um, ou do cruzado dois, ou do Sarney, sei lá, sarna pra se coçar ou da minha própria tendência bipolar. A Pólen fechou e toda aquela legião de adoradores, dos puristas do Shopping da Gávea aos modernistas do Itanhangá Center — uau. quem é esta gente toda de quem nunca ouvi falar? — ficou órfã. Nem notícia foi, e me acreditem, a Pólen era famosa. Mesmo. Faz 20 anos.
Ontem mesmo, no estúdio do jovem candidato a cineasta que está fazendo o vídeo do Hierosgamos, lembrei a dita, uau, um domingo chuvoso desses se presta, com certeza, a um bocado de nostalgia (chove no Rio, gente, não sei se aí na sua casa também, mas chove no Rio e faz um frio danado, e isso aqui no Rio é coisa rara, raríssima):
— E aí, Tiago. Você sabia? — confesso nostálgica, como sói ser o artista num sábado chuvoso e triste. — Fui eu que criei, há mais de 20 anos, este painel de fotos com imãs. — O garoto olha pra mim incrédulo, e eu entendo. Os dois artistas ali, com menos de 20 anos de idade — e alguma dificuldade em lidar com aquela coroa com mania de sexo, e uma meia dúzia de frases e fotos eróticas — não podem, se recusam a acreditar que quem inventou aquele utilitário prosaico, pendurado na parede e destinado a colecionar fotos, recados... fui eu. Mas é verdade, gente. Inventei aquilo nos tempos da Pólen, e quando a Pólen ameaçou fechar, ninguém se tocou. Como hoje, esta ameaça sobre o No Mínimo. Dizer o quê? Ninguém liga, esta é a verdade: rei morto, rei posto, e em tempos de informação democratizada, muito mais ainda. Morreu, sumiu. A gente escolhe, rapidinho, um ídolo novo.
Foi o que aconteceu comigo, nos tempos da finada Pólen. Não teve jeito. Ninguém quis, ninguém bancou. Eu desisti. Duvido que alguém tenha realmente sofrido por encontrar na vitrine, menos de um mês depois, em vez dos ousadíssimos objetos de vanguarda, o simples figurino nouveau riche da Folic. Todos sobreviveram, e eu bem melhor que todos, porque nesta data, tendo sobrevivido à humilhação, à falta absoluta de objetivos, à dor da morte de sua suprema criação... me preparo para compartilhar em público algo muito maior, muito melhor, muito mais irresistível. A soberba do artista não morre nunca, é algo assim como um perfume raríssimo que resiste, subjuga. Custa, mas se perpetua. Ou vocês acreditavam que eu tinha nascido ontem?
Tatá. Se estivesse mesmo bêbada num domingo chuvoso, eu diria que este texto é produto exclusivo de uma mente... bêbada, mas estaria, claro, mentindo. Omitindo. Quem é bom já nasce feito, e quem delira, imagina poder um dia influenciar o mundo... não se iludam: é porque pode mesmo. O dia chega. E quanto aos companheiros do No Mínimo... se rolar, rolou. Se não rolar... prossigam. O mundo é feito de muito, mas muito mais que um mero patrocínio, e a vida, de maravilhosas e inesperadas surpresas.
Faz dois dias que estou atravessando uma séria crise de falta de assunto. Não estou acostumada. Não sei se é ressaca, por conta do contrato do livro — bem que eu avisei: livro publicado acaba com o assunto "escritor não-publicado se autopublica em blog" —, ou se é pura expectativa: da capa, da Flip, do vídeo no YouTube. O caso é a crise, ou melhor, o caos, joga o ésse tonto de lá pra cá que não estou nem aí. No primeiro dia até que eu me conformei. Fiquei quieta. Li o jornal todinho e não plagiei nada, mesmo porque ultimamente ando chegando na frente, gente. É. Ou vocês não viram que escrevi um dia antes sobre a epidemia de harakiri em Brasília? É. Definitivamente, tem algo mudando por aqui... ou se mudando definitivamente daqui. Ainda bem que não aluguei meu espaço no No Mínimo, como um dia pretendi: parece que a turma de competentes jornalistas off-midia está sendo despejada, deve ser porque no Clube do Bolinha deles só entra mesmo... jornalista — vocês sabem, aquela turma que tem a obrigação da seriedade, e seriedade hoje em dia não está com nada. Mas não, gente. Não comemorei nada. Fiquei foi triste, afinal de contas todo dia eu bato meu ponto lá. Deste jeito, como é que vou arrumar assunto? Vem daí talvez o caos da crise. Esta coisa de dinheiro é um caso sério. Querem meu conselho? Escrevam de graça e pronto: acabou-se o problema da falta de patrocínio. Pena que ainda não inventaram um jeito de se viver sem dinheiro... em breve. Em breve. Enquanto não rola, quem sabe nos dão alguma cesta básica, o bolsa-blog ou qualquer coisa assim. Tudo pelo bem da livre cultura no país. Mas crise boa mesmo a gente enfrenta quando percebe que participou de tudo que está fazendo 40 anos neste junho, e pior, se lembra muito bem disso. Sobre o Sgt. Peppers já escrevi aqui no blog. É a trilha sonora da minha juventude, vejam bem: eu disse juventude, e não infância, tsk tsk. Quanto ao Canecão, já existia quando cheguei ao Rio, o que não diz muita coisa porque já cheguei ao Rio adulta. Só fui lá duas vezes: num baile de carnaval com meu primeiro marido (!!??!!) — calma, gente. o cara era publicitário, tinha lá suas obrigações. eu só acompanhei — e no show da Laurie Anderson, este sim, valeu, já faz mais de 20? anos.
Outra coisa que está fazendo 40 anos é a Guerra dos Seis Dias. Dessa eu me lembro muito bem também: foi quando eu fiquei séria de repente. Andava naquela farra adolescente de Minas, com primeiro namorado, primeiro beijo de língua, e outras cositas mais que hoje em dia são tão corriqueiras que ninguém se lembra mais das primeiras. Rebentou a guerra e eu percebi que a vida era uma coisa séria que pode, de uma hora pra outra, se tornar coisa rara. Esta crença nunca mais me abandonou.
1967, enfim, foi um ano mágico: debutei. menstruei. namorei. beijei. dancei. E no dia 5 de junho — daqui a dois dias faz 40 anos —, como eu já disse, fiquei séria de repente. Mandei a superficialidade para a puta-que-pariu de vez, e tudo isso já faz 40 anos, um espanto, quase não dá pra acreditar. Não é pra menos que eu esteja em crise: mesmo que não seja a crise dos 40 e talvez não passe de dois dias, porque afinal de contas já estou de volta, e escrevendo de novo. Bom domingo.
pode não ser uma rima... Nem sempre o bagre gozou da reputação e do carinho que vem recebendo do governo nos últimos dias. Não. De acordo com o aurélio, cabeça-de-bagre, uma gíria antiga, quer dizer "indivíduo estúpido, idiota, imbecil". Faz o maior sentido. Se assim não fosse, não seria recomendável ao bagre deixar de lado esse apego todo ao velho Madeira, arranjar lugar mais adequado pra procriar? Adaptar-se ao progresso, à nova realidade?
Pois é, gente. De acordo com artigo publicado hoje no Globo, apesar de não ser idosa (adiantada em anos) estou mesmo velha, incapaz de me adaptar às muitas novidades, uma perfeita idiota. Cabeça-de-bagre, faz o maior sentido. Viajando pelo mundo com o projeto Amores Expressos, na falta de recursos mais generosos que me permitam estar lá por conta própria, chego a várias conclusões. A primeira é que talvez já não tenha tanto tesão em viajar. A segunda é que não só o mundo, mas as escolhas artísticas, estão tomando um rumo que não desejo, e nem xxxxxxxxx...mas é uma solução.xxconsigo seguir. A depressão me atinge em cheio ao ler o Cuenca:
O único lugar no mundo onde aparentemente sobrevive algum romantismo é na vizinha Argentina, onde um Galera de poucas e escolhidas palavras anda curtindo um tango, mas apelar pra Argentina, hum... não sei não. Melhor ficar por aqui e rezar pro amor ser uma característica latina imortal, afinal, ainda sobra Paris. Vamos ver o que o escritor premiado vai descobrir por lá, porque se for mais uma cena punk ou clubber, em vez de champanhe e beijo à margem do Sena, me mato. E por falar de amor em Paris, nunca experimentei mas já escrevi isso - é, gente - no mesmo romance só pra variar, afinal de contas só escrevi um e do jeito que as coisas vão, não haverá outro: vou ter que me virar com esse mesmo.
É sábado. Faz sol. A temperatura está amena mas estou deprimida do mesmo jeito, depois de entender que estou velha, perdida, descrente do mundo. Antiquada. Não há Judith Malina que dê jeito na minha desesperança.
Hoje está tudo mais lento, nem amanheceu direito. Já estava tudo mais lento mesmo antes que eu acordasse, fosse ao banheiro, e descobrisse que está chovendo e a temperatura caiu. Sonhei com Chico Buarque pertinho do meu nariz, eu cantando: "até pensei que fosses minha". "Você tem namorado?" "Antes de vir pra cá eu tinha", pegamos um táxi eu e aquelas amigas íntimas que eu nem conheço, atravessamos o túnel, pensei no marido que estava fora o dia inteiro e que eu esperava, sinceramente, que não se perdesse. Ufa, alívio, acordei e vi o Alan dormindo calmamente ali na cama: não preciso esperar mais nada, está chovendo e estou em casa nesta quarta de manhã. Não preciso sair pra nada e vou descansar o dia inteiro. Mesmo cansada já não sinto sono e decido me levantar. Na tela do lap o blog do Prata que não tive tempo de ler ontem, já vou recuperando. Ele é bom de crônica e ontem à noite ouvi uma palestra sobre crônica - encontrei ao vivo um ídolo da crônica, mas não foi Chico Buarque - no jornal leio anúncio de workshop de crônica na Estácio em Paraty a Flip homenageia a crônica, opa: escrever crônica está (re)virando (a) moda .
Leio a crônica no blog do Prata - tão lírico hoje que, de tola, até pensei que fosse minha - e penso aliviada que não estou na China, não tenho obrigação nenhuma e nem me sinto sozinha, mas a compulsão é a mesma. Sento no micro e escrevo até mesmo antes de tomar café, acalmada pela chuva lá fora. Chove na China, chove no Rio, e graças à rede, a chuva parece uma só. A dor também.
Esse menino Antonio Prata é muito bom: merece ficar milionário. Eu também.
Puxa, não dou mesmo sorte. Quando já consigo, pela primeira vez na vida, uma informação privilegiada sobre alguma coisa, não foi sobre o lançamento de ações na bolsa não. Nem sobre uma barbada no jóquei, nada que me deixasse, assim, milionária de uma hora pra outra. Não. Vou ao centro apanhar o registro do meu último livro na Biblioteca Nacional (a Rocco exige), e saio pra um café com uma amiga que trabalha lá: - Tem algum outro livro pra registrar? - Eu não, você acha que a gente escreve livro assim, com essa facilidade toda? Que nem comprar banana na feira? - Não é por nada. É que vamos entrar em greve, por tempo indeterminado. Ah. Tá certo. A parte do "por tempo indeterminado" foi uma ficcionada de leve, ela não tocou no assunto "tempo". Agora vem cá. Bem que pensei que a informação fosse privilegiada, mas está hoje no jornal pra todo mundo ler. Greve anunciada com essa antecedência toda? E logo agora, na boca do PAN, todos os museus e exposições f-e-c-h-a-d-o-s? E olhem que li que o MinC acha até justas as reivindicações do pessoal da cultura, mas não pode atendê-las por medo do "efeito-cascata". Ou será... porque na verdade ninguém liga pra cultura neste país? Nossa, problemão. Sabe-se lá por quanto tempo todos os livros escritos por aqui terão que esperar pra dar entrada num registro, pra não falar da concessão de ISBN's e outras práticas do mundo editorial geralmente desconhecidas do público. É, gente. Estamos em crise. E como se não bastasse, minhas referências culturais de blogueira se mandaram todas ao mesmo tempo. Paulo Pires desistiu. Carla já saiu de férias há 3 semanas, e agora o Sérgio Rodrigues. Cuenca está no Japão e Arnaldo Bloch quebrou o tornozelo de férias em Búzios. Galera só escreve sobre games, será que vou acabar por lá? Como é que esperam que eu trabalhe nessas condições? Como vencer a batalha da falta de assunto? Se até o Jabor - que só escreve uma vez por semana e ganha pra isso - anda com problemas, escrevendo artigo sobre o artigo do colega Demétrio Magnoli publicado poucos dias antes no mesmo jornal e citando à vontade... Esperam de mim o quê? Só me resta endossar o secretário do ministério: "não há possibilidades de os serviços culturais públicos adquirirem qualidade e importância se os servidores não forem valorizados".
Uai. Blog não é serviço público não? Só publicado? Tsk tsk. Só mesmo apelando pro New York Times, quem não souber inglês se prepare: tem um curso em cada esquina da cidade.
"Hoje eu sou como sou realmente", afirma o tremendão, lançando disco novo aos 65 anos. Escrevendo livro de crônicas, "casos dos quais participou", Erasmo se impõe: "Se alguém não gostar, paciência". Rock é liberdade. Maturidade também. Sou como sou, e se alguém não gostar, paciência, juntando as duas coisas é o que vale pra todo mundo. Paulo Roberto Pires, meu preferido num mercado que ainda não me enxerga, pede licença pra arquivar seu blog musical Tocatudo, fechar a janela dos comentários, e passar a escrever sobre tudo uma vez por mês.
Blogar também é liberdade, e eu, neste domingo que ficou mais triste - ou pelo menos mais vazio -, peço licença pra não escrever sobre nada.
(a foto não é por nada. só porque achei bonita, me deu saudade e me deixou meio triste com as coisas que acabam)
O ano (creio) era 1986. O cenário - em Botafogo - o Cochrane's, nosso bar cotidiano. A noite costumava ser longa e os personagens muitos, todos enigmáticos, entre eles um cara baixinho já de cabelos brancos e aparência exótica: Paulo Coelho. Tudo o que ele viria a ser um dia já estava contido ali, no seu jeito de "sei muito bem o que estou fazendo e não ligo nem um pouco pro que dizem". Esta última parte aí eu ficcionei, já que assim de memória o Paulo naquela época, apesar do physique du rôle original, era bem discreto no bar: esta é a verdade que não vende livro. Ah, se eu fosse visionária: teria aproveitado pra buscar uma parceria que realmente mudaria a vida, mas bah... eu estava ocupada com outra coisa, outras ilusões. É esta a diferença entre Paulo Coelho e eu, Paulo Coelho e nós: o que ele sempre quis aconteceu, e tenho certeza, excedeu até mesmo o que ele sempre quis, como mostra o longo artigo da New Yorker, segundo Sérgio Rodrigues "a bíblia dos intelectuais de nariz em pé", entendeu, papuda? Vai continuar metendo o pau? Discutir a qualidade literária de Paulo Coelho tem sido o esporte preferido de dez entre dez pretensiosos da cena cultural. O certo é que ele dá o recado, e ultimamente - com seu comportamento impecável - também o exemplo, um guerreiro do bem, walk your talk total e acima de tudo, surpreendentemente acessível, como a própria New Yorker afirma: "num site que concede amplo espaço para comentários e conversas, Coelho mantém um relacionamento incomum e afetuoso com seus leitores", e mantém mesmo. Tá precisando de colo? Vai lá, tem download do artigo também, gente. Pra acreditar, só lendo: o homem virou mesmo lenda e já não é lenda pessoal não, agora é global. O resto é sonho, se é que restou alguma coisa pra se sonhar.
Embora eu circule nos meios corretos, sofistique o texto, e me compare a Joyce, Shakespeare e Vila-Matas, o que eu sempre quis mesmo foi ser Paulo Coelho. Verdade. Basta clicar aqui pra confirmar. E não estou falando de vender milhões nem de castelos nos Pirineus, mas de tocar a alma do mundo - termo do próprio Paulo - escrevendo. Se eu chegar lá um dia, ainda assim vou continuar querendo ser como ele: simples, direta e acessível, postando comentário no blog dos outros com o próprio nome e endereço de blog. Aberta como uma fratura exposta - isso eu já sou -, mas sem a dor inerente, com um par de vírgulas a mais e revisão mais apurada.
Ah, gente. Não sou nenhum alquimista mas também sei de um segredo ou dois: se é imprescindível acreditar no sonho é também necessário exercitar, cotidianamente, a nossa própria voz, e é por isso que no final das contas não quero ser Coelho, nem James, nem Will, nem Enrique nenhum. Quero ser eu mesma e seja o que Deus quiser, verdadeira e pura de intenções. Shabat shalom pra vocês.
A internet tem mesmo seus momentos intrigantes, agravados - ou tornados ainda mais misteriosos - pelo já extensamente discutido aqui uso de apelidos. Outro dia foi meu querido Paulo Roberto Pires que perdeu a calma - e quase a classe - com uma comentadora anônima pouco gentil e bastante equivocada. A gente nunca sabe quem, por trás de criativos nicks - muitas vezes bastante realistas - está emitindo opinião. Hoje, por exemplo, apareceu na discussão do affaire RC no Todoprosa a grande Lucia Riff. Gente, será a própria? Participando do nosso blog de cada dia como se fosse qualquer uma? Por isso é preciso, por trás de nick ou não, em cada post ou coment, dar o maior capricho no que se diz. Nunca se sabe quem está nos lendo.
Ontem, outro exemplo, publicou artigo no Brazzil Magazine (assim mesmo, com um zê gago)... Fidel Castro (o próprio, gente! e eu que pensava que ele já estava morto!) e pasmem, em perfeito inglês, não é que ele domina a língua do arqui-inimigo? Tá certo o comandante, é isso mesmo. O que me irritou foi ele tentar se meter, e logo em território nosso (embora com um zê irritante), a criticar nosso sucesso etílico; o velho deve estar puto por não se tratar da cana dele, ops, desculpem a falta de respeito, companheiros da velha esquerda: foi mal. O mais engraçado, porém, foi o Alan - contribuinte assíduo e freqüentemente lúcido da revista - se precipitando na madrugada e chamando o caudilho-mór às falas. De manhã ele vem de mansinho:
- Sabe quem escreveu ontem no Brazzil Magazine? Fidel Castro.
- O quê? Alan, e você acreditou nisso?
- Foi ele mesmo! Pode ir lá ver!
- E você já foi logo criticando ele? Discutindo ao vivo as idéias dele?
- Yes! Disse a ele que se queria o bem de Cuba, o melhor a fazer era renunciar de uma vez.
Haha. Fui conferir e era mesmo verdade, lá estava o velho comandante assinando o artigo sobre o etanol brasileiro. Rolando a tela pra baixo que não nasci ontem, elucidei o mistério: "Fidel Castro Ruz is the president of Cuba. This article appeared originally in the daily Granma", ah, bom. No entanto, nunca se sabe... um gesto gratuito e já pensou? Se meu tardio casamento feliz acaba em paredón?
Vale a pena, gente, pra se divertir numa sexta à tarde, conferir a seriedade dos comentários en su discusión abierta con Fidel.
De vez em quando eles aparecem por aqui - pra dizer a verdade, praticamente todo dia - discretos e calados como meus milhares de admiradores anônimos. Tudo bem: centenas. Tudo bem: dezenas, meia dúzia. Mas ó: se quiserem passar despercebidos, melhor optar por servidor fantasma, é. Contador da web agora, meus amigos, além de contar... rastreia, e por isso eu percebo nos meus stats os infoglobos. Eles é que, aparentemente, não me percebem. Ou pensam que não sirvo pra primeira página. Alan diz que é porque eu sou, assim, meio uma Rosie O'Donnell do terceiro mundo e não, gente, não é por causa do cabelo liso dela não, mas devido à língua ferina mesmo. A comparação é injusta. Ela já passou brilhando pela mídia oficial, embora é claro, tão desbocada não poderia se sustentar por lá: dançou. Se eu fosse me comparar a ela, ainda estaria naquele estágio da irmã "estranha" de Andie McDowell, com os cabelos ainda crespos mas nem de longe tão popular. Ou sofrendo da síndrome de Davi x Golias: O'Donnell x o Donald e Noga Sklar x o Globo. Tá bom, pelo menos eles podem me processar pelo uso indevido da imagem no post aí de baixo, ou pela citação insistente e inconveniente de alguns colunistas. Mas de Davi, reconheço, não tenho mesmo nada além de uma breve ascendência: ele acabou com a cabeça coroada e eu não passo de uma coroa cabeçuda. C-A-B-E-Ç-U-D-A, viu? Que eu não sou a Rosie e ainda nem consegui meu primeiro emprego.
Agora, se vocês quiserem conferir in loco o efeito infoglobo de audiência: red.blogger.stats. Ainda está em tempo, gente. Vocês podem votar online em mim, provar pros infoglobos que apesar de metida, eu sou interessante.
Causa espanto a surpresa de alguns e afirmações do tipo "já se discutiu demais a sua literatura neste blog". Uai. Este é um blog de literatura, e se existe algo aqui a ser discutido é isso: a minha literatura. Pelo menos é o que faço neste espaço comigo mesma: discuto literatura, a minha, e quando dá, a de outros, comigo, e quando dá, com outros. Não está em discussão a minha vida, o meu endereço, o meu nome estado civil ou meu orgasmo, mas sim estas coisas em relação à literatura que produzo, quando esta, em nome da reflexão e da arte, cita aqueles. Entenderam? Há honestidade aqui do autor ao tag. Eu poderia me chamar "Clarice", ou "Martha", ou indo um pouco além, "Jorge Reis Leão". Poderia atribuir ao conteúdo um tag fictício qualquer, que me posicionasse melhor no ranking, como por exemplo, "sportporn". Poderia até mesmo, como me sugeriu outro dia ao tel uma amiga - comentarista calejada de blogs - discutir comigo mesma através de múltiplos nicks. É. Tem gente que faz mesmo isso, ela afirma. Embora assim pareça, o subject matter deste post não é comentário de blog. Pra quem quiser o assunto, está muito bem abordado no Info&etc de hoje, sob a chancela editorial indiscutivelmente válida de Cora Rónai. Dizem que o tema anda tão quente que até gerou site wiki para o "debate". By the way, embora apoiemos a liber(ali)dade total na internet, em nosso comportamento pessoal adotamos na íntegra o código de conduta defendido pelo caderno (ih. a coisa anda tão feia que até já deu plural majestático, sim, eu e minhas cópias). Troll aqui é condenado ao ostracismo e pronto. Quanto aos anônimos & cia, amigos ou não, nicknamed ou não, o que vale é o conteúdo. E que os ofensores se enforquem em sua própria corda. Pois o tema deste post de hoje, pasmem, é literatura. A minha e a do meu novo ídolo - pelo menos para esta semana -, que substituiu no personal Olimpo das Letras o falecido Kurt Vonnegut: Enrique Vila-Matas. O curioso é que ouvi falar do cara pela primeira vez numa palestra, exatamente quando morria, do outro lado do mundo, o meu guru literário da adolescência, descanse em paz no céu da ironia. Pois li do Vila-Matas o Mal de Montano, li não: engoli. O cara é muito bom. Fala de tudo que a gente já ouviu falar um dia com a desenvoltura de quem fala do amigo ali na esquina. Cita escritores a torto e a direito sem que a erudição (ou a falta dela) de quem o lê provoque obstáculos. E trata de um assunto palpitante, no qual eu me confesso absolutamente virgem, ao menos em papel: os diários íntimos de escritores. Ora. Se não é o que eu, eletronicamente, faço. Misturando a esmo cotidianas ninharias, reflexões de estilo (blargh), filosofices de leve e a sempre polêmica, auto-referente, problemática e potencialmente depressiva dúvida sobre a existência e pujança de algum talento literário. Gente. Tudo isso é a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e... normal. Fiquei tão preocupada, ao me ver desavergonhadamente retratada no Vila-Matas, que mal pude dormir, com a certeza de que o editor que o recomendou já veria claro: o que escrevo é plágio. Mesmo que seja um plágio assim do tipo espiritismo de mesa, pois ao mesmo tempo que ouvia falar do Mal de Montano pela primeira vez eu já confiava ao (não) citado editor um manuscrito - como são os "manuscritos" modernos, claro, digitados e impressos numa máquina de tudo: máquina de ler, de escrever, de debater, de sonhar, de desistir. E isto poucos dias antes de descobrir que aos 21 anos, a mui apreciada Clarice Lispector escreveu carta ao então Presidente da República reclamando um processo de nacionalidade, gente, nos mesmíssimos termos em que lavrei o meu.
Fala sério. Se eu não der pra escritora, e não resultar jamais num ranking de prateleira, pelo menos agora sei que dou pra medium: tá na hora de abrir uma tendinha.
E o que aprendi com Vila-Matas que me impressionou tanto? Além, é claro, da indiscutível QUALIDADE LITERÁRIA? Aprendi, gente, que ao escrever não se deve ligar pra nada. Nem pra ninguém. Nem pra futuro nem pra editor e muito menos pra dinheiro. Nem pras firulas estéticas que não me preocupam mas que prezo tanto, caloura que sou por mais burra velha. Quanto mais delirante, diletante, desmoralizante ou dúbio, melhor. Ou como escrevi noutro dia e não tinha aproveitado em texto ainda: tradutora ou interpretante de uma vida real, levemente enficcionada para efeitos dramáticos.
Martha Medeiros, em sua coluna de domingo, quer "testar sua capacidade de ficar extasiada sem estímulo prévio, descobrir se ainda consegue destacar o raro sem que ninguém o anuncie." Eu poderia dizer que ela não está só e estaria muito, muito errada. Raros são os que ainda procuram isso: extasiar-se com algo único e a partir daí, gerar o estímulo. Contagiar o outro. Era isto que, no meu tempo, a gente entendia como "cult".
"Não estamos preparados para a beleza pura", ela afirma. Não mesmo? Racionalmente pode ser que não, mas geneticamente sim, qualidade é algo que a gente sente. Depois leva tempo pra tirar de cima o monte de entulho midiático que exige nossa atenção... imediata. Duro para quem o produz é manter vivo este embrião do novo, e pelo tempo invernal necessário para vê-lo brotar. Nos consolamos às vezes com mera erva-daninha, um sinalzinho qualquer de verde irrompendo da terra fértil onde largamos, como se fosse nada, todo santo dia um pacotinho novo de semente - comprado em qualquer esquina da mente - sem nenhum certificado oficialmente reconhecido de autenticidade.
Se digo que não estou mais só vou muito além do simples caso de amor bem-sucedido, sim, um adubo dos bons. Não estou mais só quando encontro meu tom fazendo coro com uns poucos escritores que admiro. Não estou mais só quando tenho a certeza íntima de ter encontrado alguém que sim, certamente irá me entender sob a poeira alergizante do estado de coisas. Não estou mais só, meus caros, e nisto vos agradeço, quando meu contador oculto de visitas - não este aí do lado, que só mostra um canto da vitrine - bate a marca dos 600/dia: tenho quem me ouça e já não preciso gritar, mas é por puro inconformismo nato que eu sim. Continuo falando bem alto porque minha voz é assim, estridente: raramente doce. A dor que é do falar não se acalma com o benzodiazepínico de uma incipiente notoriedade. Exige bem mais: uma overdose de prateleira pra enfrentar uma tendência literária suicida. Ops. De mídia.
O fato é que a possibilidade de escrever em blog criou sem querer este gênero novo de cultura: a fast-literature, mais próximo da fast-fashion - segundo a Business Week, traduzida em blog de moda: "A abordagem fast-fashion também ajuda a reduzir sua exposição aos riscos ...produz lotes de roupas em quantidades tão pequenas que se por acaso é produzido um que ninguém compre ...ela pode cortar suas perdas mais rápidamente e mover-se para outra tendência" - que da fast-food, um engodo indigesto e insípido que já cansou todo mundo.
Pensando bem, não. Em literatura, não se trata de seguir ou formar tendência, mas de encontrar voz própria, uma voz que se auto-educa no desempenhar-se de uma expressão diária, onde o assunto às vezes muda não pra seguir o fluxo, mas por sua própria natureza intrínseca de onda: fluente. Em nosso mundo inundado de mídia imediata, cada fast-tudo tem a velocidade de consumo que o engole. Duro é se manter na superfície. Sem ser, é claro, intrinsecamente superficial.
Meu primo Alberto sempre foi Bito. Meu irmão, às vezes, Tum, mas eu? Nunca tive apelido, nem nome iniciático, nem nada. Não gosto. Meu nome de batismo me define muito bem. Taí uma coisa em que mamãe caprichou. Em português, hebraico ou inglês, sempre o mesmo som: Noga. E expressa a minha personalidade brilhante: é o nome israelense de Vênus, ah, bom, soletra aí. Já soa como apelido. Por um breve período fui Nogarete, na língua de um querido amigo meu, que já morreu. Apesar de ser baixinha, nunca dei pra Noguinha ou outro inha do gênero: é energia demais pra isso. Agora. Pra expressar um nick na internet fica fácil: Tesoura. Linguona. Balofa. Safada. Noves-fora-nada.
Tem gente pensando que com a farra virtual dos comentários de blogs aprendemos a debater, a nos expressar com liberdade e, extrapolando bastante, influir nos rumos da sociedade. Me incluo nessa. Ops. Sou assim, e quem mais é? Pelo que se vê, ninguém. Quando apareço num quadradinho desses, digo o que penso, dou nome e endereço. Sou assim, e quem mais é? Pelo que se vê: ninguém.
Porque pelo visto, as intenções de quem ali se expõe são, via de regra, bem menos nobres: um tipo light (e grátis) de Second Life. Ops. Second. Third. Tudo com segundas, terceiras e quartas intenções por trás: aparecer. aparecer. aparecer. Ah, sim. Tem quem dê vazão à personalidade múltipla, só pra se divertir. Ou fazer da participação online um bom laboratório de aceitação social. Três Faces de Eva, um filme clássico sobre a "doença" da múltipla personalidade, virou normal: atire a primeira pedra quem tiver só três. Eu não. Só digo algo quando tenho algo a dizer.
Tem gente que se espanta com o que eu digo, mas tem tudo uma intenção por trás: ser sincera. Compartilhar, num mundo de aparências, os verdadeiros conflitos, fracassos e sucessos de uma mulher... normal. Bem. Eu pensava que era isso, mas acabo de descobrir que não, não tenho nada de normal. Tenho uma persona só, e em comentários, blogs e livros, mudo de assunto mas não de atitude. O meu critério? Digo o que sinto, o que me dá vontade de dizer: sou transparente. Só assim não me confundo nunca, vivendo o múltiplo cotidiano como um gigantesco grupo de terapia: vou resolvendo de graça os meus perrengues. Tenho uma personalidade só, e medo nenhum de me expor, porque no fundo, no fundo, gente é tudo igual. Claro que não recomendo a ninguém esse tipo de comportamento: sai daí que a idéia é minha. A verdade é uma coisa perigosa, não tente praticá-la em casa, nem no trabalho, nem em lugar nenhum. No meu caso, pode parecer que não, mas me protejo o tempo todo: digo sempre o que penso e ninguém me pega, porque o que penso evolui o tempo todo e não estou nem aí. Ah. Esqueci. A melhor proteção é não ter ninguém pra me ouvir.
Porque existe um porém: é claro, gente, que o anonimato em que vivo, com meus raros leitores aqui no blog, tem até hoje me protegido. Como é que seria se eu fosse famosa, meus livros em lista de best-seller, todo mundo querendo pegar um pedacinho de mim pra chamar de seu? Olhem. Por não ser ninguém, me preparo para a fama todo dia, e como não há, no meu caso, "por trás da fama", escrevo diariamente o meu roteiro para o caso de necessidade: "à frente da fama". Duvido que o Alex Lerner me pegue numa mentira.
Sim. Eu sempre digo que não vejo tevê, e é verdade. Desde que me casei com o Alan nunca mais vi novela, nem Jornal Nacional, raramente o GNT. Mas querem que eu exponha logo os podres? Sim. Leio as colunas de tevê no jornal, principalmente a Patricia Kogut: me informo sobre tudo, até sobre as técnicas que o tal Alex Lerner, celebridade da qual nunca ouvi falar, usa pra "desmontar a pose de um entrevistado que está mentindo".
Agora imaginem se eu fosse online com esta atitude: descobrir os gaiatos, por trás dos apelidos ridículos. Ah, gente. Deixa pra lá. Não tenho tempo pra intenções veladas. Eles que são brancos que se entendam, mesmo se brancos não forem, pois por trás das telas há brancos, pretos, amarelos, vermelhos. Ricos, pobres, remediados. Moradores da zona norte, oeste, leste e sul, todos igualados pela expressão escrita, não é demais? Bom. Ainda existe quem comece a aparecer por todo lado, nos lugares mais inusitados, com uma claríssima intenção oculta por trás. Eu, todo mundo sabe, quero ser publicada, e ser forçada a deixar pra trás essa minha mania de expor a intimidade. Porque claro, quando eu for celebridade, tudo que eu disser poderá se voltar contra mim: desde já quero os meus direitos, e um telefonema para o advogado. Mas que é divertido observar na imprensa os meandros das segundas intenções, isso é: quando alguém começa a aparecer demais... em se mostrar discreto demais... normal demais, passeando com o cachorro à noite e coisa e tal...
Uau, gente, acabei de descobrir uma mensagem subliminar dessas rolando, ó paí, ó:
Pedigree bom o cara tem, e já vou me adiantando. Embora ele more em Copa - bairro que aliás andava doido pra ser cenário de novela (é inveja, é inveja) - eu voto nele.
Gente! Acabei de ser visitada online por um servidor do Irã! Será porque nomeei a canalhice deles aí embaixo, deplorando a crise com os ingleses? Uai. Não é unanimidade na imprensa ocidental não? Tudo bem. O copo só derrama depois da gota d'água, e tem muita gente no mundo com sede de justiça. Não me perturbo nem um pingo. A boca é minha e não fecho.
Arnaldo, adorei a sua crônica de hoje no Globo. Marcou um gol a favor de um time que tem andado na terceira, quarta divisão: a crônica carioca, leve, bem-humorada e temperada de ironia (venho tentando sair do banco de reserva). Quanto à alegada miopia da Ivete Sangalo, tenho a declarar o seguinte: outro dia, vi você atravessando a rua no Leblon, em frente ao Jobi, e quase te abordei. Pra falar de crônica, claro, não me entenda mal. Sou casada e muito bem casada, além do mais tenho idade pra ser sua... tia mais nova, e fui amiga de uma prima sua, que hoje mora em Israel. A verdade é que sua foto no Arnaldo Blog não te faz a menor justiça, e me surpreendi com o charme do seu rabinho de cavalo, sua altura e sua desenvoltura, elegante numa pólo preta. Por não te conhecer pessoalmente, até duvidei que fosse você, tenho um histórico bom em confundir famosos: já escrevi sobre isso aqui no blog. Mas a crônica de hoje desfez as minhas dúvidas. Da próxima vez, você não me escapa.
Bem que tentei postar ontem já tarde, criticando os recentes abusos verbais do nosso presidente-funk, mas o "sistema" me sabotou. É, gente, um reflexo dos tempos. Pra quem é jovem demais (e pra isso até eu mesma sou), trata-se de um trocadilho infame com JK, o presidente-bossa-nova. Tipo da coisa que o Lula curte, quando deixa de lado seu complexo de Vargas. (ih, mais antigo ainda) Mas tudo passa, e Lula também há de passar. Com um mínimo de danos colaterais, espero. Enquanto isso, com ou sem heróis, o Brasil começa a crescer: tal é a confiança que deposito na renovação energética global, por todas as razões possíveis.
Andei deixando a atualidade de lado, preocupada com o heroísmo caseiro do meu próprio umbigo. Mas como cronista do cotidiano, não deixei de admirar meus pares.
Jabor declarou - tentando abrir a alma, e abriu - lúcido como há muito tempo não vinha: o catastrofismo beneficia o atraso.
Cora Rónai nomeou muito bem (mais tarde, com certeza, online) o que eu pensei, mas não disse: criticou o absurdo do Bolsa Crime.
Quanto às besteiras ideológicas pós-brechtianas de Lula, os leitores de O Globo deram muito bem conta do recado. Estou vingada. Posso cuidar da minha vida.
Me distraíndo dos eflúvios esotéricos da semana - eclipse do sol, ano-novo astrológico, Leviticus - analisei o presente em dvd: um mergulho no passado e outro no futuro. O Passado, se por um lado entristece, por outro explica a euforia do discurso livre, minimizando as firulas do atual governo: O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias. Quanto ao Futuro... tsk tsk: Chidren of Men, behold! Pra que este mundo estéril e cinzento seja em breve o estado de coisas na Terra, ou pelo menos na poluída Inglaterra (logo eles, logo eles), a onda de abortos espontâneos tem que começar hoje... e como Jabor afirmou: o catastrofismo, etc, etc. Abaixo a cultura do medo.
Encerro o meu resumo com uma nota de negócios: Johan Reckman, da Folic, acaba de abrir sua quinquagésima loja - ops, desculpem o palavrão, não localizei aquele ázinho elevado no teclado. E o que isso tem a ver comigo? Explico. Há vinte anos atrás, vendi pro Johan o ponto da última Pólen, a do Shopping da Gávea. Como é que a Carla chamaria isso? Saudosismo ou nostalgia? Nem um nem outro, gente. Não nasci pro comércio, embora desconheça nesta vida atividade que dispense negociação, a arte incluída. Pra seguir o ritmo criativo da própria Carla, acabei na rede, onde rola livre a minha arte, pra quem quiser usufruir. Tomara que num futuro próximo inventem um jeito da gente sobreviver disso.
Uai, gente. Peguei esta num título de matéria, ainda bem que estava "entre aspas", ah, bom. Pensei que toda ilusão era falsa, e sob esse ponto de vista, uma falsa ilusão seria o quê? Uma verdade?
Se eu fosse enfocar a falsa ilusão da aparência, comemoraria o fato: depois de descoberta a verdadeira imagem de Cleópatra, o narigão está entrando na moda, na contramão da ditadura rinoplástica.
Mas se fosse abordar a insegurança do carioca, estranharia a força da convicção oficial contra as milícias. Uai, gente. Esse blablablá ajuda em quê? O que sei: a polícia é corrupta, ineficaz e pouco confiável. Já as milícias, por outro lado, garantem aos moradores das favelas a falsa ilusão da proteção contra o crime. A fax