Kindle agora no seu PC, baixe aqui.


Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer."
J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo





A lenta agonia de um agapê e outras memórias do futuro

Quando no final, chegou o dia em que eu estava indo embora, aprendi o estranho aprendizado de que coisas podem acontecer que nós mesmos nunca teríamos possivelmente imaginado, nem antes, nem enquanto aconteciam, nem mais tarde quando as recordávamos.
Karen Blixen in Out of Africa, 1937


Pois é, gente, voltei, como sempre faço quando ameaço férias, mas desta vez não sei por quanto tempo, nem a bem da verdade sei, por exemplo, se chegarei ao fim arrastado desta crônica de domingo antes que meu velho HP (sem mãos nem olhos nem ouvidos e agora também) sem coração desfaleça, vocês entendem, consegui prolongar-lhe a vida (por um fio) arrancando-lhe a pilha Made in China e o condenando, pelo breve tempo que lhe resta, à eletricidade mecânica, nada messiânica: ao remodiado orifício na parede. Mas por enquanto vai indo, vamos, como tudo o mais: lenta e confusamente. (tem gente que sofre com gatos doentes, por que não sofreria eu com o triste fim de meu companheiro mais premente?)

Marcadores: , , , ,

Cena sem jogo

Nem ligo se eu ganhar um monte de polegares para baixo. O que eu disse é praticamente a verdade.
resposta anônima a uma pergunta no Yahoo sobre racismo no Havaí
(a propósito de engano apontado por Alan na crônica de Maureen Dowd, pois é, a verdade tem muitas faces, e nenhuma delas é tão importante na crônica quanto a versão irônica, sabem como é)


"Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio", é, gente, eu fui uma delas. "Em junho de 2006, vinte e três delas", nas quais, claro, eu não estava incluída (ou vocês com certeza já saberiam) "foram selecionadas e filmadas no teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas."

Marcadores: , ,

A verdade nua


Duas ou três citações memoráveis que peguei de ouvido ontem à noite, assistindo no Telecine Cult à (incrível? nojenta? impressionante?) proposta de David Cronemberg para "Naked Lunch" [Almoço Nú, ou, no incompreensível e irreconhecível dialeto dos tradutores de cinema, "Mistérios e Paixões"], o (incrível? nojento? impressionante?) romance autobiográfico de William Burroughs:

"Um escritor vive a triste verdade como todo mundo. A única diferença é que ele escreve um relatório a respeito."

"Escrever é muito perigoso. Mas só quando há leitores, o que até agora não nos aconteceu."

Marcadores: ,

Ainda um diário de leitura

I


Joyce escreveu assim: "He fingered shreds of hair, her maidenhair, her mermaid’s, into the bowl. Chips. Shreds. Musing. Mute."

Eu traduzi assim: "Com os dedos ele tocou fiapos de fumo, fios de avenca, cabelos de donzela, dela, sereia, dentro da taça. Lascas. Fiapos. Ensimesmado. Mudo."

E Bernardina Pinheiro assim: "Ele colocou com os dedos dentro da tigela fiapos de cabelo, do cabelodemoça dela, de sereia dela. Lascas. Fiapos. Refletindo. Mudo."

Marcadores: , , , , ,

2012

Tempo é arte.
José Argüelles



Taí. Já não era sem tempo: nossa velha profecia favorita acabou de virar filme. E vamos combinar que não é só este mundo que vai acabar em 2012, gente, não. E nem só o reinado do dinheiro, ou melhor, nossa moderna concepção capitalista de vida baseada no axioma "tempo é dinheiro".

Marcadores: , , ,

Haja "Estômago"

Para que você quer fazer teatro? Você é feio, negro, queixudo. Corta um dobrado para sobreviver, para que tentar o teatro? A atitude desestimulante da moça não é incomum, mas vamos combinar, não foi nada babu da parte dela.
Noga Sklar, em O Gozo de Ulysses


Curioso como o cinema andou na contramão da voracidade de informação: basta ficar em casa em silêncio, aguardar pacientemente, que o mais esperado dos filmes acaba chegando sem fila até você. Como o incensado "Estômago" de Marcos Jorge, por exemplo, pescado ontem com enorme atraso, por total acaso, no anoitecer de sofá do Cinemax.

Marcadores:

As causas nobres de Notre Obama

foto Reuters: Doutor Obama, Honoris Causa na Universidade Notre Dame

Leio no NY Times esta manhã, apressadamente, café numa mão e telefone na outra, que Obama dará nesta terça algum tipo de declaração no Salão Oval a respeito de sua política nuclear de não-proliferação, sim, a ordem dos fatores enriquece o produto: por mais que se diga, negue e maldiga, os "combalidos" Estados Unidos se mantém intactos no núcleo do globo propagador de ideias, isto é, na vanguarda da humanidade.

Serviço:
Mulheres no Cinema
Aborto em Julgamento
Martine ajuda sua filha, que fora estuprada, a fazer um aborto e as duas acabam sendo acusadas de infanticídio. Conheça a história do julgamento que foi um marco para a descriminalização do aborto na França.
terça - dia 19 às 16h02
domingo - dia 24 às 08h30
terça - dia 02 às 16h00
domingo - dia 07 às 08h30

Marcadores: , , ,

Meu Brasil brasileiro

Se faz tempo que não falo de filmes aqui no blog não é que eu tenha me desencantado de vez da sétima arte, não mesmo. Mas, gente, é que morando no mato a gente (ih!) escolhe outras prioridades, como, por exemplo, deixar pra lá como se fosse nada o superoscarizado "Quem quer ser um milionário" e hesitar bastante quanto ao "Gran Torino", bem, a paixão por Clint Eastwood talvez me faça descolar um tempinho na minha agenda agitada pra visitar, na semana que vem, o único porém charmoso cineminha local.

Marcadores: ,

Na lata

"Quer uma catarse? Apele para a literatura", afirma a certa altura a escritora Ilana Mather, sobrevivente por milagre do inferno nazista. "Não visite um campo, porque um campo é um lugar tão morto que de lá nada sai."
Eu poderia dizer tantas coisas (já ditas) sobre O Leitor — filme que deu o Oscar à bela Kate Winslet e que só assisti ontem —, ponderar sobre culpa, resistência, omissão, incompreensão, compaixão, capacidade de superação ou não, arrependimento de vítimas e até sobre a monstruosidade humana confrontada com uma mente simples, básica, necessitada.

Marcadores: ,

António e Benjamin online

Foi uma noite rara, lua cheia estrelada demais clichês. O que mais surpreendeu foi a sala cheia aqui na remota Itaipava, em plena quarta-feira, e mais, Alan e eu concordando, na contramão de muita opinião publicada, que "O curioso caso de Benjamin Button" era um bom e belo filme, nem tanto a ver com a magia sempre renovada, eu acho, do belo casal protagonista na tela, porque fora dela, hum, embora Blanchet se sustente, Brad Pitt já resvalou no bigode.

Marcadores: ,

Apenas um pesadelo

O novo orçamento apresentado pelo Presidente Obama representa um rompimento gigantesco, não somente com políticas dos últimos oito anos, mas com tendências dos últimos trinta.
Paul Krugman, para o NY Times


Umas das raríssimas coisas de que sinto falta desde que me mudei pra Serra, vocês sabem, é o cinema, não só o ato de ir ao cinema, mas simplesmente o de assistir a bons filmes, em casa ou na rua, quase todos na contramão dos blockbusters e que apareciam a rodo no catálogo da locadora no Rio.

Marcadores: , ,

Farsa explícita



Pra vocês eu não sei, mas pra mim parece tão óbvio que o quase-oscarizado Joaquin Phoenix está atuando e, de propósito, atuando mal — numa provável zombaria futura do mundinho simplificado dos rappers — enquanto produz material "live" para o vídeo de seu cunhadinho "genial" Casey Affleck e faz a gente de idiota que, pelamordedeus: não sei como é que tanta gente embarca nessa. Não que eu ligue pra isso, mas, cá entre nós: deve ser um testemunho da declinante inteligência humana profundamente afetada pela exposição ao constante bate-estaca, sei lá. Hahaha. "He's a funny dude". Nem tanto, né?

Marcadores: ,

Uma questão de imagem

Words? Music? No: it’s what’s behind.
James Joyce, Ulysses


Quando cedo esta manhã a caminho da obra o Alan me perguntou qual seria o tema do dia aqui no blog, hesitei bastante ao responder. Já vinha se formando aos poucos na minha mente o paralelo irônico entre a manchete do dia sobre as distorções do PAC e o falso rosto sorridente de Dilma Rousseff logo abaixo, em dose pra calar na capa d'O Globo, exemplar perfeito de publicidade engajada: ambos, mãe e filho, repaginados e cuidadosamente maquiados para adaptar-se ao crucial momento político e às conveniências eleitorais do partido, pô, meio chata hoje, irritada, não estou me encontrando no tom, aí, foi mal. Deve ser por medo do diabo, mais feio até quando se pinta.

Marcadores: , ,

Pesos e medidas

Che, Mao e Stalin: Trio Ternura da humanidade

Triste do país que precisa de heróis.
Bertolt Brecht


Tem causado espécie no blog de Reinaldo Azevedo a patética entrevista concedida por Benicio del Toro a uma engajada Marlen Gonzalez, um vídeo que tem percorrido o youtube com o maior sucesso, e em se tratando do popular Tio Rey (com y, sim, pra evitar a tentação de uma excessiva majestade), vocês sabem, as centenas de comentários fazem a festa, mas é mais uma coisa do tipo "quando um burro fala o outro abaixa a orelha", se é que vocês me entendem:

Marcadores: , , ,

Os de(zzzzzzzzzzzzzzzz)mais

Umas das (poucas) vantagens de (ainda) não ser uma cronista famosa é que ninguém pergunta a minha opinião a respeito de quaisquer dez mais, praga crônica que assola os jornais nos feriados de ano novo e, não se enganem: é pura falta de assunto, todo mundo ocupado com todo outro tipo de coisa que se apresente enquanto se tenta — sem muito sucesso, como é o meu caso, diga-se de passagem — praticar o ócio, essa delícia fugaz, complexa e fora de contexto.

Marcadores: ,

Hipnóticos

A coisa aconteceu tão de repente que nem deu pra reagir, vocês sabem, um dado se somando ao outro sem coincidência possível: "quando uma pessoa se sente confusa tenta sair, conscientemente ou não, de seu estado de confusão", ensina o vídeo sobre hipnose que o Alan recomendou, pois é, ele disse. Que pratica comigo e eu mal percebo, interessante o efeito do humor, da ironia, da intencional confusão, três hipnóticos geradores de transformação — lembra alguma coisa? — e eis que o acaso (ou seria o controle remoto?) me leva a "Invasores", filme de terror do ano passado com a eterna Nicole Kidman e o hoje famoso Daniel Craig na HBO, algo que foge ao meu estilo diário e é justamente aí que a coisa pega: o que é hipnótico em nossa vida e o que não? Quem hipnotiza? Quem é hipnotizado?
O mais curioso no filme, pra lá de bê de gosmento, é o noticiário na tevê dando a conta de um mundo sem guerras — retirada dos Estados Unidos do Iraque, calma na Coréia, paz entre Paquistão e Índia, fim do terrorismo, pode ser mais atual? — só que isso tudo, vocês sabem, como (falso) efeito colateral de uma invasão alienígena porque nós humanos, afinal de contas, não podemos viver sem algum conflito.

Marcadores: ,

Bonequinha sem luxo

Eu já tinha até passado batido no Blockbuster embora tenha hesitado um pouco, devido ao apelo charmoso de Andrée Tautou, quando vi o tal filme recomendado no blog de um amigo. Aluguei. Mas, gente: misturando o já esperado bom gosto francês à beleza da naturalmente fotogênica Riviera em Nice e, pra quem gosta do gênero, ao vão consumismo freneticamente traduzido, com inesperada volúpia, em múltiplos chanéis, guccis, pateks e outras tifannys mais (essa última aí bem que eu sei que está menos pra zona do Euro do que pra Wall Street, mas fazer o quê, um Boucheron aqui não encaixa nem rima) que emergem dourados de embrulhos estraçalhados nos hotéis mais caros que se possa imaginar — onde a busca hedonista repousa amassada por breves e tensos momentos, em camas descomunais, pra acordar renovada no café da manhã seguinte, soterrada em pirâmides tostadas de croissants caloricamente amanteigados —, o roteiro com um solado sabor de passado resulta em quase duas horas perdidas, num clichê lamentável e seu desfecho dispensável de fraca comédia romântica, versão mais pobre do clássico gostoso e bem mais moralista de Audrey Hepburn, em outras palavras: bonequinha sem nenhum conteúdo e pior, sem nenhum verdadeiro luxo. Um lixo.

Marcadores: ,

Beethoven neles

foto original: Extra, 08/10/08


Da série: uma imagem vale mais que mil palavras.

Marcadores: ,

Era o belo da raça: e isso é raro.

confira o slideshow

Marcadores: ,

A lente ou a vida

Aluguei no Blockbuster da esquina este precioso documentário de 2008 sobre Annie Leibovitz, assinado pela irmã dela. E recomendo enfaticamente: passei uma tarde linda. Segue uma prova:

Marcadores: ,

Segunda divisão

"Sei que o time está na segunda divisão e que está ganhando todas. A alegria de quem foi rebaixado é essa."
sobre o Coríntians, da premiada em Cannes Sandra Corveloni


Tem muita coisa acontecendo ultimamente que é séria candidata a me tirar o sono, como as quedas contínuas da bolsa, o dedo acusador em riste de Sarah Palin e até mesmo o costumeiro blablablá anônimo de quem se sente cotidianamente agredido pelos textos aqui do blog, menos, gente, menos: tudo isso não passa de uma insistente tentativa de literatura.

Marcadores: , , ,

Enquanto o mundo se explode...

...Barack Obama pega uma onda no Havaí, tamos aí (foto AP)
Obama em férias

Tá certo que em termos de história e geografia pode-se até dizer que eu fugi da escola. Francamente. Meu negócio é arte e literatura, sempre foi. Mas quando eu li esta manhã na crônica do Dapieve que "a malfadada invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, foi planejada pelo republicano Dwight Eisenhower e executada pelo democrata John Kennedy" dei uma parada. Uai, gente. Kennedy não ficou famoso, justamente, por ter evitado essa mesma invasão? Me vem à memória não aquele velho livro de história — vocês sabem, a história nos livros é sempre escrita pelo lado vencedor, não dá pra confiar meesmo, confira-se aí a incrível história dos falsários judeus a serviço da corrupção alemã no interessante lançamento em dvd "Os Falsários", Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007 — mas sim aquele ótimo filme, com aquele ator, vocês sabem, no papel de espião, como é mesmo o nome dele? Ah, sim, lembrei: Matt Damon.

Marcadores: , ,

Criando limo

eu sou você amanhãEm sua crônica desta sexta, Dapieve escreveu que John Cage escreveu que "quase tudo que ouvimos é ruído e que, se tentarmos ignorá-lo, ele nos perturbará; mas, se prestarmos atenção nele, ficaremos fascinados". Fascinada fiquei eu com o tema musical no cabo e no rabo do Segundo Caderno de hoje, que caiu como uma luva sobre meus apontamentos noturnos a respeito do novo documentário dos Stones, "Shine a Light": no vídeo e em close é que a gente percebe que as pedras rolantes acabaram criando limo, sim, ô gente feia, sô. E barulhenta demais para o meu gosto de madura — a julgar pelas rugas, nem tão madura quanto eles, claro —, mas bem, hum.

Marcadores: ,

A maldição do cavalheiro negro


Eu juro. Juro pelo que há de mais sagrado que muito antes de ler o Jabor eu já tinha me decidido pelo título acima, em outras palavras: A Maldição do Batman, e gente, imaginem que nem vi o filme, e mesmo com tanta discussão em cima, tanto espaço importante de crônica — Jabor, Xexéo, Arnaldo Bloch et al e hoje o Jabor de novo, hãhã, só faltava eu — ocupado por este que não sei, mas desconfio, é apenas mais um dos mais quentes blockbusters americanos da temporada, especialmente produzido para produzir rios, rios de dinheiro (e pra injetando o sutil espírito intrusivo do medo nos distrair do que mais importa, claro, embora eu não saiba exatamente, a esta altura, o que é que mais importa), não pretendo ver tão cedo.

Marcadores:

Apocalipse já

Não sei o que há de errado com a nossa civilização, com o nosso país, com a nossa mentalidade íntima ou simples estrutura particular doméstica: posso até soar careta, e sou mesmo, mas, sinceramente. Não sei se é puro reflexo do meu particular estado sensível de espírito no momento, uma montanha russa do pensamento que tem alternado alegria com luto com alívio com sorriso com sonho com susto com soluço com drama com culpa com liberdade sem nenhum aviso de êxtase ou queda da mente carente de eterna novidade.

Marcadores: ,

Cinebreves de sexta

clique para ampliar... e imagine a vista da sala

Algumas referências cinematográficas cruzadas no Globo de hoje:

* Arthur Dapieve recomenda o dvd "turbinado" de Louis Malle em "Trinta anos esta noite" (no Dvd Clube ainda não tem, alôô!). Não lembro do filme, mas vou conferir com certeza: no meio de tanta porcaria devedesiva, é o tipo de coisa que eu gosto. Quanto ao comentário sentido do Arthur — "Nas noites difíceis, eles me disseram que eu não estava tão solitário assim. Às vezes, apenas isso já basta para afastar a tentação da pistola" — bem... Tô preferindo outra opção.

Marcadores: , ,

Woody Allen já era






Das Crônicas irônicas de Ulysses: "Outros povos têm uma nacionalidade, mas irlandeses e judeus têm uma psicose", afirma Brendan Behan, famoso escritor, poeta e dramaturgo irlandês do século 20 que descrevia a si mesmo como um "bebedor com um problema de escrita" — inspirado, com certeza, nas semelhanças nacionais que Bloom aponta para Stephen no Ulysses, entre elas: a antiguidade dos dois povos, ambos descendentes de Noé; os alfabetos tradicionais, hebraico e celta; o pendor para a literatura; sua dispersão, perseguição, sobrevivência e renascimento; o isolamento de seus ritos no exílio e a proibição de seus costumes por via de lei. Isso sem esquecer, claro, que os irlandeses sempre se consideraram uma tribo perdida de Israel. Tara torá."

Vamos combinar. O problema das minhas críticas de cinema, que eu evito ao máximo aqui no blog por motivos que nem adianta confessar — um deles é que não tenho saco pra analisar, prefiro me envolver emocionalmente com o filme, coisa que o Alan não se cansa de criticar — é o mesmo da minha literatura: chega sempre antes da hora.

Marcadores: ,

Fim de uma era



Morre Cyd Charisse, 86, a dançarina de seda do cinema. Ah. Tá bom. Já tinha terminado há muito tempo. Mas agora morreu mesmo.

Marcadores:

Porque adoro o Arnaldo Jabor


Esta noite tive em sonhos uma mensagem reveladora e era tão real, mas tão real, que acordei na dúvida se a sonhei mesmo ou se simplesmente alguém a dissera pouco antes que eu adormecesse, na tevê, no dvd, no computador, sei lá: "você é artista, não precisa ouvir ninguém". Isso, quem sabe, porque venho me debatendo (e vocês aqui no blog acompanhando) com o assunto, se devo acatar ou não a opinião alheia, a não ser, é claro, quando é elogio (raro).
Em sua imperdível coluna de hoje, Jabor deplora a poluição cultural que nos assola, "perigosa como o efeito-estufa", grande Jabor.

Marcadores: ,

Bonequinho horrorizado


O blog do bonequinho avisa: Wim Wenders, diretor alemão que tem lugar de honra no meu panteon de carinho, vai dirigir um filme de horror, que horror, no Japão: "um empresário bem-sucedido que aproveita sua passagem por terras nipônicas para cometer brutais assassinatos."
Abomino o gênero. Taí uma coisa que não merece a democracia da imagem, gente. Aliás e a propósito. Acabei de assistir o terrível, desprezível e imoral "Violência gratuita", francamente, coisas assim deveriam ser proibidas para a raça humana, sério, é preciso um limite. Me lembrou o horror inspirado de "Laranja Mecânica", mas o tempo de Kubrick deixou saudade, e a reabilitação histórica de um torturado e inesquecível Malcom McDowell/Alexinho ao som de Beethoven, também. Mais moral e menos arsenal, gente. Fujam.

Só nos resta tentar regenerar, com torturantes requintes de Mozart, os adoradores deste tipo condenável de ruído ensurdecedor.

Marcadores:

No piscar de um olho

Bauby na vida real e no filme de Schnabel

"Só trabalho com o que me afeta pessoalmente", declara Julian Schnabel, brilhante judeu novaiorquino de 56 anos que enquanto excelente pintor é ótimo cineasta. "Transformar o Escafandro e a Borboleta em filme foi, para mim, uma forma de lidar melhor com a idéia de morte e, também, de compensar uma tentativa frustrada de aliviar meu pai — de quem eu era muito próximo — do medo que ele tinha da morte."

Marcadores: ,

Falsas promessas

Se existe uma coisa que todo mundo sabe a respeito de sonhos é que sonhos não são chatos. Podem ser prazerosos, eróticos, assustadores, mas chatos nunca. A gente acorda sobressaltado no meio da noite, o peito acelerado, o corpo imóvel afrontado, a sensação do extasiado. Dolorido. Surpreso. Esclarecido. Mas entediado? Alguém aí já experimentou despertar de um sonho... por tédio puro?

Marcadores:

É a vida real, Wendy

Não dei 5 estrelas aí do lado ao filme porque, sinceramente — e apesar da indicação (frustrada)ao Oscar 2008 —, continuo achando Laura Linney monocórdia e chata. Em franco contraste com o camaleão do momento, Philip Seymour Hoffman, superconvincente em seu papel: não sei se por coincidência ou não, vi recentemente três ou quatro filmes com ele, e em todos eles o cara arrasa, com todo o seu inexistente sex appeal de antigalã.
Como consumidora voraz de filmes, tenho dois jeitos bem diferentes de assisti-los: com distanciamento e avaliação crítica enquanto obra de arte, ou, com envolvimento total, chorando do primeiro ao último fotograma (há gradações entre os dois extremos, claro): é o caso deste A família Savage.

Marcadores: ,

Para além do bem e do mal

"A vida só é entendida em retrospectiva, mas deve ser vivida sempre em frente."
Soren Kierkegaard


Nem vou me estender na louvação do excelente "Jogos do Poder" de Mike Nichols, drama baseado em fatos reais com roteiro enxuto e ótimas atuações de Tom Hanks (tudo bem: meio fantasiado de Bill Murray, mas deixa pra lá) e Phillip Seymour Hoffman, mais toques breves da habitual canastrice estelar de Julia Roberts: apesar de cortejar o gênero, crítica cinematográfica não é o meu negócio, mas crítica da vida, sim.

Marcadores: ,

Sobre "O passado"

Do IMDB:

"Este filme é o pior que já vi
Vi este filme com poucas expectativas e não me decepcionei. É tão ruim que chega a ser engraçado de um jeito respeitavelmente excruciante.

Marcadores: ,

No zoo

"O propósito da arte é revelar a sensação das coisas como são percebidas, e não como são conhecidas."
Viktor Shklovsky, Russia, 1893/1984


Eu recomendo. Levada pelo entusiasmo raro de Dona Bárbara Heliodora, abandonei momentaneamente minha toca de fera enjaulada no Alto Leblon para ir ao teatro no Centro, fato também raro e, ultimamente, cada vez mais destinado a desembocar na verdadeira selva. Valeu a viagem.

Marcadores: , ,

O sangue do anho

(ainda sob o impacto da tradução de James Joyce)


apelo evangélico nos postes do RioSem querer comparar, porque comparação assim, direta e explícita, na verdade não existe, a reportagem do Globo sobre a atuação evangélica nos tribunais do crime "organizado" mostra alguns pontos de convergência com a trama do excelente "Sangue Negro", filme que valeu o Oscar de melhor ator para Daniel Day-Lewis. Ambos mostram muito bem o deletério efeito da leniência do estado e da ausência de qualquer respeito aos direitos humanos, compreensível nos tempos pioneiros da exploração do petróleo nos Estados Unidos de princípio do século passado mas inaceitável para nós, cidadãos, imaginem, de um "avançado" século 21.
Acuados, aprisionados na perversa armadilha que confronta a ganância material com a ganância espiritual, a tendência — personificada no filme pelo garoto "usado" como filho pelo oilman Plainview — é que a gente acabe surdo. O que não significa, de modo algum, morto. Enquanto existir amor, existirá esperança e apoio, espaço para reação e, porque não, possibilidade de salvação. Não no outro mundo, que fique bem claro, mas neste aqui mesmo — soa piegas, eu sei, mas não é nada disso, nem se trata do "amor de Jesus" ou de "milagre" contra as forças do demo: é que no filme o garoto, já adulto, encontra mesmo o amor de uma mulher e forma família, quebrando o ciclo perverso de perpetuação da violência.

Marcadores: ,

Empinando pipas

O livro não li e, portanto, não posso criticar. O autor é simpático, tranqüilo, centrado. Gostei dele. Não liga pra fama. Não é celebridade. Preocupa-se com o presente e o futuro do seu país, e que país. Nem consigo descrever, apesar do autor de "O caçador de pipas" descrevê-lo muito bem. Seco. Torturado. Como o próprio Khaled Housseini diz: estuprado, coisa que, bem, como o filme mostra, vai bem além da metáfora.

Marcadores:

Natureza humanofóbica

(atenção! contém spoilers!)

"A felicidade só é real quando compartilhada."
do livro de anotações de Christopher McCandless


Mais do que a temática aventureira do filme, o que me preocupou demais, confesso, foi a procedência da recomendação. Me perguntei: será que meu sobrinho brilhante, um autêntico viajante, tem apetite por aventuras perigosas? Espero que não, porque eu, nunca tive. Aventuras mentais e emocionais? Todas. Mas bem vestida, abrigada e alimentada, obrigada. Não me excito nada com a possibilidade do risco, com o amor ao perigo, e pra dizer a verdade, nem entendo bem isso.

Marcadores: , ,

A felicidade é uma batata quente

(das Crônicas de Ulysses)

"When you talk about destruction you can count me out", cantava John Lennon, um rebelde de todas as causas.
Se geração tivesse trilha sonora, a da minha seria algo assim como este "Across the universe", o (delicioso? imperdível? maravilhoso? sei lá, tudo isso ou nada disso, mas tocante, sim, a mim pelo menos tocou: basta de adjetivo clichê) filme de Julie Taymor.

Marcadores:

Sed lex

Eu já não estava no melhor dos meus dias quando, à noite, veio aquele soco na cara. Francamente. Às vezes eu penso que quem faz as leis não é gente. É, sei lá, um raça à parte, que não tem filhos, nem pais, nem amores, nem coração: bate no peito uma bomba-relógio, sempre a ponto de explodir. De explodir o outro, claro.

Nas Crônicas de Ulysses: Direitos, O chapeleiro louco

Marcadores: ,

O fim do mundo segundo Arnaldo Jabor



"Daqui a uns dez anos", afirma no Megazine a jovem atriz argentina Inés Efron, "me imagino vivendo no campo, apaixonada." Eu também, Inés, isto é, vivendo no campo, porque apaixonada na minha idade eu já não sei, bem, nunca se sabe. E muito menos se o nosso mundo insano resistirá a mais dez anos.

Hoje, nas Crônicas de Ulysses: Alimentando o Cérbero

Marcadores: , , ,

A arte imita a arte

Depois que descobriram um novo monstro marinho — isto é, um velho — numa ilha da Noruega, não vou me espantar nadinha se afirmarem que o de Loch Ness existe mesmo. Isso, claro, devido às descobertas tecnológicas de um Michael Crichton, que nos permite fertilizar dna de fóssil. Já estou pagando pra ver.

Nas Crônicas de Ulysses: Intraduzíveis/ Tolerável, apenas tolerável

Marcadores: , ,

Diga isso cantando



"O politicamente correto está matando a vida intelectual e literária"
Denys Arcand em entrevista aO Globo, sobre seu novo filme "A idade das trevas"


O repórter pergunta a Denys se a palavra "nigger", pejorativo em inglês para preto, é realmente proibida no Canadá. Nos Estados Unidos, é. No outro dia, todo mundo viu um âncora famoso perder seu emprego de décadas por ter chamado alguém de sei lá o quê, que não me lembro, nem presto atenção. Aqui no Brasil, seria o correspondente "crioulo". Soa forte, mas ah, gente. São apenas palavras.

Nas Crônicas de Ulysses: Líquido amniótico

Marcadores: ,

Iron Jane

"Ser irônico é colocar lado a lado verdades contraditórias, e desta contradição criar uma verdade nova acompanhada de um riso ou de um sorriso. E confesso que a verdade deve ser acompanhada de um ou de outro, ou a considero falsa e uma negação da própria natureza humana."
Jane Austen


Na primeira noite, confesso que dormi. Não foi pra menos: eu estava exausta. Mas fiquei com a falsa impressão de que era puro tédio, uma filminho chato meio mulherzinha. Mesmo assim, no dia seguinte, insisti. Afinal de contas, tudo que se fala sobre literatura e, principalmente, literatura feita por mulheres — mas nada disso de "literatura feminina", eu, hein, isso não —, me interessa muito.

Marcadores: ,

Como gostais

Não sei se vocês estão sabendo, mas numa última cartada a cada vez mais desesperada Hillary acusou Obama de plágio em seus discursos. Cada detalhe eu não sei, mas ouvi comentários na tevê sobre uma das frases copiadas: "Todos os homens nascem iguais". Outra: "Eu tenho um sonho", uai, gente. Pensei que esta última era de Martin Luther King, não mais um homem, mas um monumento, e quando a gente a usa não plagia, mas cita.

Hoje. Nas Crônicas de Ulysses.
O belo e a fera/ Falando de sexo com James Joyce/ Bate-bola

Marcadores: , , ,

Idealismo ou ingenuidade?

d'O Globo
Como qualquer brasileira, é claro que fiquei contente com o Urso de Ouro de Tropa de Elite: é o nosso Brasil brilhando no mundo, gente. E a gente merece.
O problema é que, apesar de reconhecer que se trata de um filme bem feito, não consigo compactuar com aquela violência toda. E nem aceitar o fato, que muitos encaram como consumido — ou melhor, consumado —, de que sem uma ação armada este mundo não vai pra frente, e nossa utopia de paz vai ficando perpetuada como o que sempre foi: uma utopia.

Nas Crônicas de Ulysses: A beleza do perdão

Marcadores: , , ,

Bloom, o filme

"O sonho é uma arte poética involuntária"
Kant by Mario Benedetti by José Castello


Acho que foi Joyce quem disse certa vez não acreditar na possibilidade de tornar seu Ulisses uma obra universal através de traduções. O cinema, afirmava ele, seria um meio melhor, e isso nos anos 1920, quando a arte filmada carecia dos múltiplos recursos que tem hoje. Joyce era fã de cinema, e abriu o primeiro deles em Dublin em 1909. E leio en passant, no google, que chegou a discutir a filmagem de Ulisses com Eisenstein, isso sim, teria dado samba. Ops. Odisséia. Mas a verdade é que, apesar da riqueza de possibilidades, a posteridade ainda fica nos devendo, como no caso das traduções, um filme decente sobre o Ulisses.

Marcadores: ,

Uma nota breve sobre "Trade"

Não pretendo escrever uma crítica, mas me estender por pouco mais que um link na coluna aí do lado. O caso é que "Trade" ou "Desaparecidos" — segundo o DvdClube em março nos cinemas — toca num nervo exposto pela terceira vez em pouco mais de um mês aqui no blog: o tráfico sexual. Gente. Não é possível tanta maldade no mundo, mas há mais que maldade na ironia destrutiva disso tudo: transformar nosso maior prazer no nosso maior pesadelo.

Marcadores: , , ,

Gene recessivo

No livro "A ciência da Felicidade", que está sendo lançado esta semana pela Ed. Campos, a "especialista" no assunto Sonja Lyubomirsky afirma que até 50% dos níveis de felicidade de cada indivíduo seriam atribuídos aos genes. Dez por cento se relacionam às condições de vida, tais como riqueza e boa saúde — só dez, imaginem! — e os demais 40 estariam ligados a pequenas ações e gestos cotidianos. O que provoca a pergunta: o que é que nos leva a determinadas escolhas, exatamente as que determinam quase metade de nossas chances de obter a felicidade? Seriam os primeiros 50 porcento? Uma tendência nata?

Marcadores: ,

A arte é que interessa

Passei o fim de tarde assistindo a um filme que já não é novo, e que por isso aluguei de graça no dvdclube: Feliz Natal, filme francês de 2005 indicado ao Oscar. O filme é legal: um documento surpreendente provando que a guerra vai contra os mais básicos instintos humanos e usando a música como arma para neutralizá-la. Impressionante mesmo foi essa ária maravilhosa que ficou na minha cabeça, confiram:



O vídeo do YouTube é ruim mas, no caso, é a música, Bist du bei mir, que interessa.

Marcadores: , ,

Falsas promessas

"É mais fácil e mais lucrativo traficar gente do que traficar drogas", afirma nos extras do dvd o roteirista de "Senhores do Crime", candidato ao Globo de Ouro de melhor filme no próximo domingo. Não vi ainda todos os concorrentes, mas embora meu coração romântico se incline sempre para o lado do amor, fiquei na dúvida entre dois filmaços: este, e o já elogiadíssimo aqui no Noga Bloga "Desejo e Reparação". McEnvoy é também um preferido, mas fala sério: o queixo duro, a cabeça rígida sempre meio inclinada, e o corpo desenhado na agulha de Viggo Mortensen dão de dez a zero*.

Marcadores: , ,

Doente

Tá certo que escolhi mal o dia. Um breve sangramento dois anos menopausa adentro me deu o maior susto, e embora duas horas de google e consultas informais com outras mulheres prometam pouca gravidade ao caso, a cabeça já se encheu de fantasias mórbidas de câncer, é claro. E aqui em casa, vocês sabem: como diz o Alan, nosso único seguro saúde é a boa saúde mesmo.
Mas como coincidências existem — ou sei lá, apenas denunciam a presença de uma camada superior de percepção — foi exatamente num dia desses que escolhi alugar o novo filme de Michael Moore, Sicko.

Marcadores: , ,

Ainda dá tempo

Sem programa pro "réveillon"? Hum: uísque barato (29.99 no Zona Sul), amendoim fresquinho (2.99) e um filminho delicioso — com o tema das "festas" (eu vou devolver hoje, você ainda pode alugar) e o astro gostoso do momento, James McEnvoy — , escutem o que eu digo: Starter to ten, o cult filme do ano (8.00) e que quase, quase passou em branco. Não dispensa a boa companhia. Mas poderia.
O curioso é que, apesar do cara ser baixinho, acerta em cheio a descrição que McEwan faz de seu personagem Robbie Turner, que McEnvoy materializa em "Desejo e Reparação": um homem grande. Grande o suficiente pra encher qualquer tela, apesar de não ter nascido "nem bonito nem inteligente o suficiente". Vale arriscar que isso não é tudo, taí um bom tema para 2008.

Marcadores:

Engulhos, gargalos, gorjeios

ilustração de Sandra Ronca em homenagem a seu filho HugoPassei a última hora e meia a café e jornal, debatendo comigo mesma a possibilidade de romper meu breve voto de silêncio. Bah. Já está ficando chato. É sempre a mesma lenga-lenga, mais repetida que show de fim-de-ano de Roberto Carlos: prometo não escrever e acabo cedendo ao vício, é, gente, não tem jeito. Sou mesmo viciada em vida, isto é, em escrever sobre a vida. E a vida não pára para o Natal, muito antes pelo contrário: se agrava.
Eu não estava pensando em nada disso, claro. Comprei um vestido novo e estava acordando tarde, almoçando fora, engolfada nas calçadas do Leblon pelo movimento impressionante dos pedestres festivos, quando, bem, acordei, ou melhor, fui acordada: cheguei em casa e encontrei um comentário de Sandra Ronca aqui no blog que me deixou instantaneamente nervosa.

Marcadores: , ,

Terra Prometida

"Parece até roteiro do filme "Uma linda mulher": Gabriela Leite, a ex-prostituta que fundou a Daspu, passará o Natal em Veneza."
do Gente Boa


Tá certo que isso não é assunto pra véspera de Natal. Paciência. Não fui eu que comecei. Melhor seria comentar as novidades tecnológicas que vêm por aí, um admirável mundo novo em apenas cinco anos, está no INFOetc de hoje: pode conferir.
Pra dizer a verdade eu nem pretendia escrever, pois como diz o Joaquim, em ótima crônica sobre Rubem Braga (eu queria ser ele, sô. o Rubem, não o Joaquim), não há mesmo leitores neste dia, todo mundo ocupado com coisa melhor. Mas paciência. Não fui eu que comecei.

Marcadores: , , ,

Festival Michelle

Foi por pura coincidência, mas acabei criando aqui em casa nesta última semana um festival Michelle Pfeiffer. Ela merece: é linda; não se enrolou em plásticas mal-feitas; é boa atriz; e ainda por cima, canta. Não tem ninguém melhor pra nos envolver na magia ilusória de Hollywood e esquecer um pouco da aridez da vida.

Marcadores: ,

Será que ela é?

Theo Van Gogh foi um símbolo da liberdade de expressão e do pensamento crítico, por vezes exacerbado, que são característicos de uma sociedade pluralista e moderna.
da Wikipedia

Imaginem um mundo onde todo mundo só falasse a verdade, onde persona pública e privada fossem sempre a mesma, ou melhor ainda, essa idéia de "persona" sequer existisse. Poderia até ser um pouco caótico no início mas... não seria bom? Poder falar o que a gente pensa sem se sentir culpado? Ou ameaçado?

Marcadores: ,

Posando de poeta

Artigo entre os mais lidos de hoje no NY Times explica como uma "reserva mental" pode nos proteger do Mal de Alzheimer. Oba. Meu risco de contrair a doença, como todos sabem, é grande. Mas por outro lado, não faço tricô. Não jogo bridge. Não sou social, ops, sociável. E não deu pra saber se as minhas habilidades literárias serão suficientes pra me proteger no futuro, bem, já estou quase no meu futuro, considerando que sigo acelerada rumo ao fim da década de cinqüenta.

Marcadores: , ,

Dá um tempo aí

"Quem tiver computador e doze minutos disponíveis pode ver o filme "Laços", vencedor brasileiro de um certame internacional do Youtube disputado por 3500 vídeos", está no jornal de hoje. Nesta manhã de domingo eu tive os doze minutos e, oba, o filme que eu vi só leva seis porque sim, dei um tempo e fui lá ver.

Marcadores: ,

Que livro é esse?

Promoção inédita no Globo premia com um exemplar de "Eu sei que vou te amar", novo livro de Arnaldo Jabor, as sessenta melhores respostas para a pergunta "Qual a maior loucura que você já fez por amor?" enviadas para o endereço promoglobo@oglobo.com.br.

Marcadores: , ,

Estado de férias

"O problema em se comprometer a dizer alguma coisa regularmente é não ter sempre alguma coisa a dizer."
Philip Pullman, autor de "A bússola de ouro"



Ao que parece, foi oficialmente inaugurada hoje a temporada de listas: uma chatice. São melhores do ano pra cá, piores do ano pra lá. Entender a importância da retrospectiva eu entendo. Conhecer a nossa história é uma estratégia fundamental no desenvolvimento humano, e até as Profecias Celestinas falam nisso mas, sinceramente, esta coisa de estar sempre reeditando alguma outra coisa já deu o que tinha que dar, se esgotou faz tempo: estamos perdendo o foco.

Marcadores: , ,

Respeite ao menos meus cabelos brancos



— E então, Noga, o que você achou do Dalai Lama?
— Ai, Alan, não sei. Me pareceu meio bobo, com todos aqueles risinhos. Meio assim superficial, sei lá, ao tratar dos problemas do mundo.

Curiosamente, não se vê sinal de cabelos brancos no velho monge de mais de 70 anos — embora, claro, a cabeça esteja raspada. O rosto, liso e sem rugas, deixa margem a dúvidas.

Marcadores:

Feel-good pie

um filme doce e crocanteSabe aquele tipo de filme que conforta e alimenta como o colinho da mãe? Se fosse um gesto, "Garçonete" seria um abraço carinhoso, daqueles que te aquecem e não exigem nada em troca. Se fosse um prato, seria a típica comidinha caseira, receita gostosa pra ir levando a vida na boa, deixando de lado os problemas cotidianos. E não causa espanto nenhum que a personagem principal, com toda a tristeza que a cerca, viva sorrindo e seja uma exímia fazedora de tortas, cada uma com nome e receita mais originais que a outra. Bem. Pelo menos uma infância feliz e doce ela teve, o que já garante uma certa dose de alegria.

Marcadores:

Idiocracia

Enquanto para alguns de nós o problema crucial da informação moderna é ser capaz de escolher o que ler, para a grande maioria parece que o saber está, na verdade, se afunilando. O que vai contra tudo o que tenho procurado defender. Ao procurar perceber, parece que me equivoco, tenho me equivocado quanto ao que vem por aí.

Marcadores: ,

Cumbuca de vermes

Lá vou eu de novo me metendo a falar do que não sei, criticar o que não vi, baseada no que apenas ouvi dizer, mas gente, não resisti.
Não sei se Alessandra Negrini se inspirou na famosa peruca preta de Elizabeth Taylor, ou se a sensível Laís Bodansky algum dia assistiu a um certo filme de Ettore Scola sintomaticamente intitulado "O baile". Julio Bressane eu conheço do excelente Tabu, que de louco não tinha nada, e os filmes em Brasília não vi, mas me pergunto quem está com a razão: o aplauso ou a vaia.

Marcadores:

Vê se cresce, Aguinaldo!

Não foi minha intenção criticar Cora Rónai quando eu disse, aqui no blog, que nem atropelada ela parava de blogar, gente, não. Eu talvez não tenha sido bem clara, porque eu queria dizer é que essa coisa de blogar, de tão excitante, pode às vezes se confundir com vício, e cá entre nós, a Cora ferida bem que merecia algum descanso.

Marcadores: ,

Para alívio dos impulsos insuportáveis

compre na Livraria CulturaPodem me prender. Podem me bater. Podem até deixar-me sem comer que eu não resisto e já vou logo declarando: assisti "Tropa de Elite" no conforto irresistível da minha cama, num dvd bastante suspeito que foi gravado, pasmem, em Cingapura. Confesso que, a princípio, até hesitei. Pirataria é crime, prejudica os artistas, mas... ai, gente. Que preguiça de sair de casa e ainda arriscar ser assaltada ou atropelada, vocês sabem.
Desde que li a excelente crônica de Cora Rónai no Globo de ontem, e descobri que ela decidiu não denunciar o motoboy que a atropelou (coitado, vocês sabem: o cara leva uma vida miserável, é pressionado de todos os lados), estou querendo escrever sobre o assunto. É, gente. Eu também ficaria com pena do sujeito, mas a verdade é que se a gente deixa sempre rolar a ilegalidade, por pena ou por simples jeitinho, as coisas não melhoram nunca.

Marcadores: ,

Triste elite

Se o roteiro fosse americano, como no excelente "Os Infitrados" de Martin Scorsese, o personagem inteligente, com o perfil de mobilidade social de André Matias, seria um herói do serviço secreto e, como tal, perfeitamente integrado ao ambiente que pretende combater, explorando a fundo seus mais recônditos intestinos para atingir seus próprios fins.

Marcadores:

Amazing grace

"I once was lost, but now am found, I was blind, but now I see."
John Newton


Embora eu não seja a favor deste feriado extra recentemente inventado, que festeja a consciência negra, vai uma sugestão para um programa cult neste dia: assistir em dvd ao "Amazing Grace", filme de Michael Apted sobre a abolição da escravatura na Inglaterra, em fins do século 18. As três estrelas da cotação são por conta de um certo enfado que complexos filmes históricos me provocam, mas não se enganem: em se tratando do gênero, as 3 estrelas valem, no mínimo, 4. O filme é bom pra se conferir o absurdo da idéia de que alguns seres humanos são inferiores a outros. A troca espirituosa de ofensas no improvável ambiente político do Parlamento inglês, já saudavelmente democrático naquela época, é mais um motivo de diversão. E sobra ainda uma curiosidade: descobrir que o hino com jeito de spiritual "Amazing Grace" tem sangue escocês e foi composto, na verdade, por um pastor branco, ex-traficante de escravos arrependido, que numa self-fulfilling prophecy ao contrário acaba cego de verdade. Vale conferir.

Marcadores:

Parle moi d'amour

Paris, te amo"Paris é tão civilizada", comenta um deslumbrado Elijah Wood com aqueles olhos impressionantemente azuis. "Você se senta pra almoçar, te servem a comida com uma baguete ao lado e uma garrafa de vinho na mesa". A equipe, imaginem, faz um intervalo na filmagem pra tomar um vinho, uma cerveja, comer uma pizza, e tudo funciona tão bem, todo mundo tão relaxado.
Se você se deixar seduzir na locadora por este dvd, um "passeio íntimo, recheado de estrelas por Paris", comece pelos extras. São 20 diretores convidados, entre eles nosso Walter Salles, e um elenco internacional incrível em filmetes de cinco minutos sobre a cidade-luz, tendo o amor como tema. Parece bom demais, não? Aproveite as cenas de bastidores, os depoimentos, o estilo original de cada um, porque francamente, o prato principal é decepcionante.

Marcadores:

Paris, Texas

Paris, TexasOutro dia um jornalista conhecido do Globo, um cara que eu respeito e que até já me deu colher de chá, achou cool declarar no blog dele que "Paris, Texas", um clássico de Wim Wenders de 1984, era chato de adormecer o mais resistente dos insones. Foi o que bastou: choveram 50 comentários de piadinhas, críticas infundadas, até o infame wim-wenders-e-aprendenders tinha, todo mundo se achando por detestar um diretor famoso, vaca sagrada do cinema.

Marcadores:

Cara-de-pau

O vigarista do ano, por ele mesmo
"Todos os cretenses são mentirosos".
Paradoxo de Epiménides, filósofo cretense


Apesar de Paulo César Araújo nunca ter alegado intimidade com Roberto Carlos, ou afirmado ter escrito uma "autobiografia" autorizada pelo próprio, a incrível história real de "O vigarista do ano", filme de Lasse Hallström — com Richard Gere e um ótimo elenco — sobre o engodo de Clifford Irving nos anos 1970 guarda semelhanças com o nosso caso de escândalo literário não-autorizado tupiniquim. Ambos os livros acabaram na fogueira. Ambos os livros continham verdades incontestáveis. E ambos, bem, tratavam de personalidades reclusas com um pé na esquisitice. Foi o que deu margem aos dois eventos, pensem bem: a melhor proteção da intimidade é não ter nada a esconder.
Paulo César, claro, não é um criminoso, apesar de ter avançado um certo e notório sinal vermelho. E no caso de Clifford Irving, bem, não se pode dizer que se tratasse do único mentiroso, não?
Vejam agora a diferença que faz uma internet: o livro de Paulo César, apesar de banido, só não leu quem não quis. Já o de Irving, diz o letreiro ao final do filme que até hoje o autor — apesar de ter pago sua dívida com a sociedade, e publicado a história da vigarice — ainda tenta publicá-lo, bem, hum. Mais um pouco de pesquisa e facilmente se descobre que...
Pena que ninguém mais se interesse pelo mistério de Howard Hughes e Roberto Carlos, com toda certeza, há de chegar lá. E se alguém quiser mesmo saber o que havia no livro original de Irving, bem, a internet está aí pra isso mesmo: pode baixar no site dele. Divirtam-se.
Ah, sim: embora os produtores do filme afirmem que é tudo verdade, Clifford Irving himself no site declara que trata-se de um relato falso sobre a falsidade de um relato. Vai saber.

Marcadores: ,

Genealogia da repressão

"Uma equipe de biólogos franceses isolou um "gene Mestre", que faz as pessoas tentarem controlar o outro ... O estudo mostra que o gene está presente não somente nos que gostam de mandar, mas também nos que gostam de ser mandados, pessoas extremamente inclinadas a adotar modas de todos os tipos — um comportamento "fashion" —, e a suprimir opiniões e preferências que não são compartilhadas por seu grupo."
Michael Crichton em "Next" (tradução livre do original em inglês)


A maioria das pessoas que eu conheço não confessaria nem sob tortura que um dia leu Michael Crichton. Nem eu. Mas a verdade é que, pra relaxar, gosto de ver filminhos, e se a coisa estiver muito preta, ler livrinhos, vocês sabem, só pra distrair.
Por conta desses enganos é que caí na esparrela do último filme de Meg Ryan, esse "In the land of women" aí do lado.

Marcadores: , , ,

No! No! No!

Coração Valoroso na Livraria CulturaQue o filme fosse bom já era de se esperar. A pegada firme e clara de Michael Winterbottom a gente já conhece de outros dramas reais, como a inesquecível cena dos dois refugiados afegãos passando a fronteira a poucos centímetros do chão, agarrados ao chassi de um caminhão; a verdadeira história do jornalista Daniel Pearl e as cenas terríveis da decapitação dele ainda tiram o sono da gente. Mas nenhuma tradição cinematográfica permitiu prever a energia em cena de uma bela e expressiva Angelina Jolie, maquiada para convencer de cara lavada no papel de Mariane grávida. O filme, enfim, impressiona, não tanto pelo drama como pela força impressionante desta mulher. Imaginem se eu seria capaz de reagir de forma tão positiva a uma perda dessas, a uma violência e crueldade própria de animais, não de gente. Posso dizer que o filme é bom, mas meus sentimentos quanto à situação que ele retrata são francamente impublicáveis.

Marcadores: ,

O ano que não terminou

2001 - O ano que não terminou
Os 40 anos de 1968 serão comemorados com um novo livro de Mestre Zuenir, "1968 - terminou?", que será lançado em edição especial da Editora Planeta, junto com nova edição de "1968 - O ano que não terminou", sob o título "1968 - Terminou ou não terminou?" Bem. Eu diria que sim. Apesar de insistentes insinuações de que a ditadura continua, desta vez protagonizada pelo tráfico de drogas, creio existir no Brasil de hoje uma liberdade intelectual plena. Exemplo disso é a contundente e imperdível crônica de Arnaldo Jabor no Globo de hoje. É, gente. No apagar das luzes do meu hábito cotidiano de ler o jornal impresso, fiz as pazes com o Jabor. O cara anda impecável.

Marcadores: , ,

Minha ARCA

Um Deus no céu e o mesmo Deus... aqui na Terra
Se não fosse o sincronismo dos temas, eu bem que teria resistido. Não teria jamais confessado em público a mulherzinha chinfrim, emocionada e carente que mora em mim. Teria deixado a vocês, leitores, a escolha de se iludir quanto à minha verdadeira personalidade, de acreditar na intelectual, na escritora exótica, na inteligência lúcida, não teria decepcionado o meu clubinho. Mas não deu. Nada disso, aparentemente, sou eu. Ou, pelo menos, sou mais do que apenas isso.
Tudo começou com o post aí de baixo sobre o recente dilúvio carioca, onde eu descrevia meu antigo apartamento de São Conrado, isolado pela enchente, como a minha "arquinha de noé". Depois chegou da locadora aquele filminho que eu tinha reservado pra ver na cama, só por diversão, alguns dias antes.

Marcadores: , ,

Balança mas não cai

Crash, ou melhor, ColisãoSe não me engano, foi Sérgio Rodrigues quem disse que o filme era chato e o livro, ilegível. Sérgio diz no post que o filme foi dirigido por David Cronenberg, mas pelo que sei, é na verdade de Paul Haggis, um diretor badalado que em 2006 arrebatou longa lista de prêmios, Oscar de melhor filme e roteiro original. Me lembro de ter gostado do filme, mas essa de roteiro original me confundiu: é baseado no romance homônimo ou não? Ah, bom, santo google que resolve todas as dúvidas, mas o fato é que o filme de Cronenberg não consta em lugar nenhum: não saiu em dvd, nem está no IMDB, ops, procura daqui, procura dali, achei: eis a diferença entre uma cronista que chuta e um jornalista que apura, sendo eu a primeira e o Sérgio, claro, o último, caramba, esbarrei sem querer numa polêmica das boas.

Marcadores: ,

Limites

A vida dos outros no DVDClubOnline
Enquanto eu lia Roberto da Matta sobre a questão dos limites em Tropa de Elite, que ainda não vi, percebi que não poderia deixar de recomendar o filme que vi ontem, sim, se preparem, como o diretor enfatiza, duas horas e dezessete minutos, um tratado sobre a crueldade humana sem sangue, sem tortura, apenas um ilimitado abuso moral. Mal dormi depois disso, gente.
"As pessoas", explica o filho-da-puta fardado enquanto exibe orgulhoso a tese de mestrado, "se dividem em cinco categorias. Os artistas estão na número quatro. Você faz assim: não os tortura, não faz perguntas, não os maltrata. Apenas os joga na cadeia e os deixa mofar por lá por um mínimo de 20 meses (pra ser sincera nem me lembro do número, tal o meu estado de choque). Terminado o período, sem uma palavra, deixe-os ir. Não sei o que acontece. Depois disso, costumam nunca mais escrever uma palavra, ou pintar uma tela, ou seja o que for essa coisa que os artistas fazem." Kaput.
Schweine.
Ah, sim. "A vida dos outros" ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006. Vale conferir. Não percam, nos extras do dvd, a emocionada entrevista do diretor.

Marcadores: , ,