Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
A lenta agonia de um agapê e outras memórias do futuro
Quando no final, chegou o dia em que eu estava indo embora, aprendi o estranho aprendizado de que coisas podem acontecer que nós mesmos nunca teríamos possivelmente imaginado, nem antes, nem enquanto aconteciam, nem mais tarde quando as recordávamos. Karen Blixen in Out of Africa, 1937
Pois é, gente, voltei, como sempre faço quando ameaço férias, mas desta vez não sei por quanto tempo, nem a bem da verdade sei, por exemplo, se chegarei ao fim arrastado desta crônica de domingo antes que meu velho HP (sem mãos nem olhos nem ouvidos e agora também) sem coração desfaleça, vocês entendem, consegui prolongar-lhe a vida (por um fio) arrancando-lhe a pilha Made in China e o condenando, pelo breve tempo que lhe resta, à eletricidade mecânica, nada messiânica: ao remodiado orifício na parede. Mas por enquanto vai indo, vamos, como tudo o mais: lenta e confusamente. (tem gente que sofre com gatos doentes, por que não sofreria eu com o triste fim de meu companheiro mais premente?)
Só voltei pra dizer que não é normal, mas bastante natural, a gente se interessar ardentemente por algo que já viu a tanto tempo atrás mas revê na tevê, sabem como é, numa noite chuvosa e amorosa de sábado repassada entre lençóis amassados, pois é, quando assisti ao oscarizado "Out of Africa" com Meryl Streep & Robert Redford jovens e lindos nos papéis principais, eu mal tinha prestado atenção — estando sozinha em casa com minha própria alma solitária, ainda sem instantânea comunicação publicada com o mundo conectado, claro, quase citando Karen: quem é que nos longínquos anos 1980 imaginaria isso? — no aspecto escritora da autora, baronesa dinamarquesa e incrédula personagem de si mesma. Mas desta vez fui direto ao google, seguem alguns dados rápidos pra vocês: grande parte da obra de Karen Blixen, mulher e modernista, foi publicada sob o pseudônimo (masculino) Isak Dinesen (porque será, hein?)/ Karen fracassou como fazendeira e foi a vida inteira sustentada pela família, faturando com literatura apenas o necessário para pagar os funcionários/ também escreveu "A festa de Babette", que também virou filme e também levou o Oscar como todo mundo sabe/ perdeu o Nobel para Hemingway que lamentou o fato/ tem uma escrita única em que cada frase é como um poema em prosa... ...bem, foi essa aí que me levou a descobrir que, embora existam (ou resistam) publicadas algumas biografias de Karen, seus próprios livros vão ficando raros, indisponíveis e esgotados, bem, isso nunca aconteceria na Era Kindle, não é mesmo? Pois pasmem: embora eu tenha dito pro Alan que "se eu já tivesse o meu leria Blixen hoje mesmo e provavelmente de graça", Karen Blixen não está no Kindle (será que é porque escreveu em dinamarquês?), taí porque o objeto livro não morrerá tão cedo: acabo de encomendar o Out of Africa na Livraria Cultura, como dantes para diletantes, e só ao clicar no meu próprio link pra faturar algum foi que percebi que andei escrevendo ultimamente sobre a Dinamarca e os dinamarqueses, será um sinal? Mas de quê? Ufa. Ainda bem. Tantos links mas mesmo assim terminei, sem que a tela à minha frente se apagasse*. Até a próxima, gente. Ou até que me leiam no Kindle.
***
postscriptum pós-revisão: como diz a coleguinha Maureen Dowd, na crônica de domingo dela que acabei de ler, há filmes que quando passam a gente sempre precisa ver e outras tantas coincidências bizarras, cá entre nós cronistas que ninguém nos imite
* isto é, no último detalhe acrescentado ao texto a tela foi-se e me mudei para o PC do Alan, onde terminei a crônica
Nem ligo se eu ganhar um monte de polegares para baixo. O que eu disse é praticamente a verdade. resposta anônima a uma pergunta no Yahoo sobre racismo no Havaí (a propósito de engano apontado por Alan na crônica de Maureen Dowd, pois é, a verdade tem muitas faces, e nenhuma delas é tão importante na crônica quanto a versão irônica, sabem como é)
"Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio", é, gente, eu fui uma delas. "Em junho de 2006, vinte e três delas", nas quais, claro, eu não estava incluída (ou vocês com certeza já saberiam) "foram selecionadas e filmadas no teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas."
Nem sei se foi por pecado de inveja que levei tanto tempo pra conferir o filme, ou quem sabe falta de tempo, até que o mesmo me foi jogado na cara, isto é, na tela de casa, num sábado à tarde no GNT. Mesmo assim precisei brigar com Alan — ai, que vítima — por um exíguo tempo pra mim na tevê, taí, o que não fugiu grande coisa do tema central, rasteiro, rasteiro (um "vale de lágrimas", na opinião sem nenhuma compaixão do diretor Eduardo Coutinho), quer dizer, o que eu pensava que era o tema central do documentário: retratos vividos de uma grande família humana, mães e filhos, amor e conflito, encontro e perda com o que existe nisso de dor e riso, cá entre nós: existe outra coisa na vida? Ou, pelo menos, outra coisa que nos interesse tanto? Tendo sido rejeitada (como em todos os demais) nesse teste de elenco — tudo bem que eu me faria um bem passando por cima disso e de tudo o mais, mas ah, ser artista é isso aí: lamber, ou salgar, sei lá, as próprias feridas, sem ter um fim em mente — vi o filme na esperança de entender, finalmente, porque tenho sido tão frequentemente vil, rejeitada, inadequada e demente, põe um drama interminável nisso, deve ser por isso que sempre encontro um jeito de não fazer nenhum dinheiro, ou então é como Alan sempre diz, e com toda razão: meu problema principal é que trabalho o tempo inteiro. Quem é que chega a algum lugar com essa insistente postura cultural de submissão herdada, com essa superativa mentalidade social escravizada? Mas, confesso: sofri o filme inteirinho sem chegar a conclusão nenhuma, a não ser que, diferente das mulheres abordadas, dou um chega pra dor e a transformo em arte, em livro, em estandarte, mesmo que o resultado na maioria das vezes mal passe aqui do blog. Tudo bem. Agora. O que achei interessantíssimo no filme — e com isso, aparentemente, até Coutinho concorda em entrevista —, e que o transforma em experiência imperdível, foi o confronto de cena entre a vida real e a vida representada, e olhem que as atrizes contratadas eram barra-pesada, com exceção de uma só que eu nunca havia visto, e cá entre nós, foi quem me enganou, salve a falta que nos faz um prévio conceito: até quase o finzinho da sessão eu tinha absoluta certeza de que ela era "the real thing", taí, valeu. Me surpreendi meesmo, ô coisa boa. Agora imaginem a vida bem real de uma mulher banal contada cotidianamente com insistência e competência de arte, tem coisa melhor? Hein? E no entanto... Ah. Melhor deixar pra lá. Tudo o que eu obviamente queria, ao submeter-me à apreciação de Coutinho, era chamar a atenção para o romance de ficção autobiográfica que eu escrevia na época, tudo bem, que com filme ou sem, acabou publicado exatamente um ano depois. Pois é. Escritor sofre, não é mesmo?
Duas ou três citações memoráveis que peguei de ouvido ontem à noite, assistindo no Telecine Cult à (incrível? nojenta? impressionante?) proposta de David Cronemberg para "Naked Lunch" [Almoço Nú, ou, no incompreensível e irreconhecível dialeto dos tradutores de cinema, "Mistérios e Paixões"], o (incrível? nojento? impressionante?) romance autobiográfico de William Burroughs:
"Um escritor vive a triste verdade como todo mundo. A única diferença é que ele escreve um relatório a respeito."
"Escrever é muito perigoso. Mas só quando há leitores, o que até agora não nos aconteceu."
Joyce escreveu assim: "He fingered shreds of hair, her maidenhair, her mermaid’s, into the bowl. Chips. Shreds. Musing. Mute."
Eu traduzi assim: "Com os dedos ele tocou fiapos de fumo, fios de avenca, cabelos de donzela, dela, sereia, dentro da taça. Lascas. Fiapos. Ensimesmado. Mudo."
E Bernardina Pinheiro assim: "Ele colocou com os dedos dentro da tigela fiapos de cabelo, do cabelodemoça dela, de sereia dela. Lascas. Fiapos. Refletindo. Mudo."
Mas ops, peraí: tigela? Cabelodemoça? Ficou faltando que alguém explicasse a vocês o que Joyce realmente queria dizer com esta brilhante e enigmática passagem do episódio "Sereias", que infelizmente ficou de fora de "O Gozo de Ulysses", ah, o tempo, gente, ainda bem que dá tempo de acrescentar ao texto antes que a fama o ataque. E em primeira mão aqui no Noga Bloga, claro: é que o sujeito havia entrado no bar roendo as unhas e cuspindo as lascas, se é que vocês me entendem; pediu um uísque à garçonete de cabelos dourados e crespos enquanto tirava do bolso sua bolsa de tabaco para encher o cachimbo e logo depois, com os dedos ainda sujos de lascas de unha e fiapos de fumo, mexia o gelo dentro do copo admirando a loura cabeleira dela, deu pra entender agora? Ah. Bom. Era só isso.
***
II
Pois é. Eu já ia começar o post com aquela velha lenga-lenga num tom lamuriento de ninguém me ama, ninguém me quer, alguém lá em cima gosta de alguém aqui em baixo, mas de mim é que não é, quando me deparei com algo bem mais interessante do que minhas mais íntimas autopiedosas picuínhas, vamos combinar. O surto de inveja que se apossou de mim — eu, mim, comigo, já basta agora? —, anteriormente, tinha a ver com o grande sucesso do filme de Julie Powell, lembram-se dela? Eu, sim. Gordinha demais para a tevê, comentou alguém maldosamente no YouTube, mas eu, francamente, se antes já me enxergava refletida nela, agora muito mais ainda: meu dia há de chegar, é apenas questão de esperar. Principalmente quando a vejo toda bela e charmosa e magra três anos mais tarde na pele de Amy Adams, ah, quem é que liga para a suja realidade da vida? Hein? E tem mais: seu livrinho de blog, originalmente relegado às últimas prateleiras de algumas poucas livrarias, agora relevado, elevado à categoria de best-seller, melhor, traduzido no Brasil e (re)publicado* pela poderosa Record, tem glória maior? Pois entre todas as maldições traumáticas que pesam sobre minha maltratada pessoa, penso que a pior delas é esse involuntário destino de estar à frente do tempo. Enquanto uma Julie desempregada, por exemplo, anotou em seu blog diário a aventura culinária de decifrar os códigos ocultos de tempos bem mais saudáveis que os nossos, quando a manteiga — em mais de um sentido explícito — aquecia o coração, cá no meu notebook solitário anotava eu a aventura literária de ler Ulysses, decifrando os códigos ocultos de tempos bem mais cultos que o nosso, quando a arte literária aquecia a imaginação, pois imaginem vocês: agora virou regra, rotina primária de educação, pedir aos alunos que elaborem um diário de leitura, ou, como disse o Dapieve na orelha do meu livro, um "diário de bordo" de seus livros favoritos, meu Deus!, é aí que a coisa pega, se é que vocês me entendem. Achei a ideia do diário bastante interessante, e até relevei o uso escrito, oficializado daqui por diante, daquela incompreensível mania de meshugaas, ops, miguxês. Agora. Deixar por conta de adolescentes inexperientes a escolha dos livros que querem ler, bem, aí já não tenho tanta certeza assim, mas me parece ser, hum, mais uma dessas modernas iniciativas destinadas a nivelar por baixo, não é? Vocês poderiam, por exemplo, imaginar alguém na oitava série escolhendo... Ulysses? Pois é. Nem saberão daqui pra frente o que estão perdendo. Em nossa geração a gente também não lia, mas pelo menos sabia, ouvia falar de alguma coisa mais intelectual que sobrevivia no ar mental. Ah. Tudo bem. É domingo na Serra e faz mal reclamar num dia lindo desses, tomando sol no terraço com uma fresca caipirinha de lima ao lado. Ainda por cima quando em tudo e por tudo a vida vai provando, embora com certo atraso, que Deus existe. Existe sim. Principalmente por ter a providência divina impedido o sucesso de meu último livro antes que eu aprendesse ao vivo, numa tardia visita eco-irresponsável ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos — que fica nos fundos aqui de casa, não custa esclarecer — ao lado de Alan, inesperado botânico em forma de marido, que "maidenhair" não é "cabelodemoça" coisa nenhuma, mas sim uma espécie bastante comum de samambaia que em bom português atende por "avenca", fala sério, como entender de verdade a mensagem profunda de Ulysses se até ontem mesmo eu não sabia disso? Taí. Dizem por aí que o riso é o melhor remédio, mas não é. Nem a manteiga. Nem mesmo Ulysses, como prometi em "O Gozo". O melhor remédio, gente, eu garanto: é o passar do tempo que dá jeito em tudo. Tudinho.
***
III
Conclusão: se a ultrapassada bíblia culinária de Julia Child poderia ocupar uma vida inteira dedicada à sua pesquisa, eu não sei. Mas o Ulysses de Joyce, como se viu, eu sei que sim: eita prazer interminável esse, gente.
Tem mais (*). O livro de Julie, descubro surpresa no site da Cultura ao encaminhar meu link, já havia sido traduzido e publicado no Brasil, em 2007, pela Editora Conrad, taí: deu uma esperança danada. Cá entre nós, não é pra isso que a gente assiste a filmes?
Taí. Já não era sem tempo: nossa velha profecia favorita acabou de virar filme. E vamos combinar que não é só este mundo que vai acabar em 2012, gente, não. E nem só o reinado do dinheiro, ou melhor, nossa moderna concepção capitalista de vida baseada no axioma "tempo é dinheiro".
Pois saibam vocês que o copyright das obras de James Joyce (literatura é lucro?), até agora ferozmente defendido entre quatro paredes de aço por seu neto Stephen, deve expirar também na mesma data, salvo prorrogações em contrário, confiram nO Gozo de Ulysses: "Se apesar da ardente torcida ele não desencarnar tão cedo, não tem problema: em 2012 – se o mundo não acabar antes, já disse e repito – a obra do nonno cairá em domínio público." Mas agora falando sério: vocês aí, leitores, que me conhecem tão bem, sabem muito bem que, para mim, esse tipo de superstição apocalíptica ficou bem para trás, nos bancos de trás daquele encrencado ônibus do destino onde viajei com alguns amigos e companheiros de culto, do Rio a Curitiba, para encontrar José Argüelles (ai, gente, saudades do trema) em pessoa, com sua sonolenta interpretação dos Calendários Maias. Hoje em dia, felizmente ou não, estou mais para o racionalismo deste artigo da Slate, ai, isso dói, Dawkins (a racionalidade da pura verdade, digo). Dói tanto que nesta semana crítica mal estou me segurando, isto é, já estou de novo me segurando em pêndulos, Mercúrios retrogrados e afinal, mas não finalmente, nas promessas contundentes de uma nova era brilhante que se inicia, não em 2012 como prometido anteriormente — logo depois do tsunami arrasador mostrado no filme —, mas, pasmem, já nas próximas semanas: para ser exata, no próximo solstício de verão (21 de junho, meros 5 dias depois do [meu] Bloomsday), quando enfim inauguramos — somente nós, claro, seres iluminados e ascencionados, verdadeiros anjos encarnados neste estranho planeta que atende pelo nome de Terra, embora seja 70 por cento água: os demais, fadados, que se danem de uma vez — a mais perfeita oposição ao Doomsday de que já se teve notícia. Não é pra menos. Até lá, espero, rindo e cantando, seremos todos aficionados, convertidos leitores apaixonados pela ficção co(s)micopoética de James A. Joyce, cá entre nós, tem coisa no mundo mais iluminadora? "Cá do Brasil, dou a minha mineira mãozinha."
Para que você quer fazer teatro? Você é feio, negro, queixudo. Corta um dobrado para sobreviver, para que tentar o teatro? A atitude desestimulante da moça não é incomum, mas vamos combinar, não foi nada babu da parte dela. Noga Sklar, em O Gozo de Ulysses
Curioso como o cinema andou na contramão da voracidade de informação: basta ficar em casa em silêncio, aguardar pacientemente, que o mais esperado dos filmes acaba chegando sem fila até você. Como o incensado "Estômago" de Marcos Jorge, por exemplo, pescado ontem com enorme atraso, por total acaso, no anoitecer de sofá do Cinemax.
"Na vida há aqueles que comem e aqueles que são comidos", reza a sinopse do filme, faltou acrescentar: aqueles com algum talento extra pra preparar a comida e que, graças a isso, decidem a seu bel prazer o que todos os demais devem comer. Mesmo que mal percebam a tênue fronteira que existe entre alimentar e eliminar, vocês sabem, com aquele indiferença típica de um criminoso superdotado, um manso autoritário com alguns neurônios a mais e outros a menos, leso e ileso, passando pela vida sem jamais cair em si: um artista. A direção é boa, e o cearense sonso de João Miguel — o sensaboroso "Alecrim" —, sem nenhum trocadilho, uma delícia. Embora fique claro o tempo todo que aquele idílio todo não vai ficar bem assim: a gente passa, mal percebendo como isso se passa, da água na boca ao arrepio de medo, esperando ansioso, com um prazer a menos e uma angústia a mais, o momento preciso em que "A festa de Babette" vai se transformar em "Sexta-feira 13" (ou não estaria Alecrim na cadeia alimentando e eliminando seus companheiros de cela, não?), que coisa mais "Comilança", gente! Ah. Tudo bem. Pela idade dos filmes que citei aí em cima dá pra facilmente concluir a minha, pega até mal, melhor cancelar tudo, né? E também pra medir uma desmedida paixão antiga, voracidade já naquele tempo latente que me conduziu viciada, através dos anos, por muitas salas e festivais de cinema pra terminar assim passada, meio cansada meio anestesiada: uma patética couch potato no pouco tempo livre que a internet me deixa, deglutindo sem devorar com gosto o que a telinha oferece, nem grandes emoções nem maravilhosos meios-tons de uma sétima arte relegada a décima. Se gostei, finalmente, de "Estômago"? Sei lá. Prefiro comer mais devagar, e às vezes cozinhar, sem ceder ao irresistível impulso de matar!, matar!, que o cinema engoliu sem mastigar. Azar o meu.
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Poscrita, elucidando a epígrafe: nesta época angustiante de lançamento de livro, ver "Estômago" teve pra mim um bônus extra: o talento na tela de Babu Santana — como o guloso chefão presidiário Bijiú — que eu nunca tinha visto e que, mesmo assim, imaginem, é personagem de "O Gozo de Ulysses", será que é sinal de alguma coisa? Hein?
Serviço: Estômago Ano de Produção: 2007 Duração: 113 Direção: Marcos Jorge Elenco: João Miguel, Fabiula Nascimento, Raimundo Nonato, Carlo Briani, Babu Santana. Próxima exibição no Cinemax na sessão da tarde: Sab 30/5/2009 15:25 e 17:05
foto Reuters: Doutor Obama, Honoris Causa na Universidade Notre Dame
Leio no NY Times esta manhã, apressadamente, café numa mão e telefone na outra, que Obama dará nesta terça algum tipo de declaração no Salão Oval a respeito de sua política nuclear de não-proliferação, sim, a ordem dos fatores enriquece o produto: por mais que se diga, negue e maldiga, os "combalidos" Estados Unidos se mantém intactos no núcleo do globo propagador de ideias, isto é, na vanguarda da humanidade.
Ainda mais agora que, finalmente, têm um líder novamente, sim, clichê ou não: com L maiúsculo. Viram a contagiante segurança do cara na incrível entrevista coletiva com Netanyahu, tantos detalhes delicados tratados assim, irancontra, na cara e na lata? Não é nada não é nada, me deu uma esperança danada: muita esperta a estratégia, por sinal nem um pouco inédita, de eleger um inimigo comum para árabes e judeus, quem dentre nós jamais imaginaria isso? Muita gente reclama que Obama só fala, mas fazer mesmo que é bom, não faz nada. Ora, gente!, é que a gente se desacostumou da ideia de poder sempre contar com alguém que coloca em palavras, claras e calmas, o nosso cotidiano pensamento confuso e ao mesmo tempo, com esta simples habilidade semântica, transforma o mundo à nossa volta: muda a perspectiva dos fatos enquanto afeta o viciado status quo dos pontos de vista mais comuns, e não é que isso é (quase) tudo? Porque líder, todo mundo sabe, é quem lidera, aquele que manda mas não faz, mas Obama não: é "walk your talk" até debaixo d'água, faça o que eu digo porque é o que eu faço... e tome de sabedoria urbana. Melhor: civilizada. Civilizatória. Pois é. Apaixonada ilusão de fã, diriam alguns. E é mesmo. Mas ter alguém que me empolga tanto e que permanece assim, digamos, por 4 meses inteiros sem perder para a plena decepção seu posto... Pra vocês não sei, mas pra mim é mais que raridade, se levarmos em conta que cair do cavalo, de todos os cavalos, é minha maior especialidade e, cá entre nós, estou surpresa. Não esperava tanto. Agora voltando àquela velha história de colocar em palavras etc., etc., aconteceu no último domingo, imaginem, quando o Nosso Obama — abrindo mão ("esnobando"?) de um pouquíssimo divulgado convite de alguma esperançosa universidade sulista de negros (argh, heranças malditas de racismos unidos) só para rapazes — deixou bem claro que não é de ninguém: é de todos nós. E de todos e todas nós se tornou (dando a cara melada a um esfaimado pote de abelhas assassinas) com seu católico grau de doutor quando afirmou com clareza, coragem e salomônica sabedoria (ui), sua controversa posição sobre a questão do aborto: pro-vida ou pro-escolha? Ops. Peraí. Deixa eu me explicar antes dos tomates: não é que eu seja a favor do aborto, gente, não. Sou a favor, isso sim, da informação, da educação e do controle do próprio corpo, afinal de contas, no meu próprio caso, uma vida inteira de entregas apaixonadas jamais resultou em gravidez indesejada, e se eu posso, por que não todo mundo? Mas, entendam bem, em caso de falha nisso tudo — e mesmo encarando o feto no útero como um serzinho completo em potencial, com pleno direito à vida —, prefiro que seja possível a escolha, legal e segura, de desistir dele. Pra não mencionar aqueles terríveis casos de estupro, abuso, etc., etc., como aquele recente, tão triste, da menina de 9 anos emprenhada à força pelo padrasto perdoado, lembram? E o Nosso Obama, me entendam, colocou isso claramente, bem melhor que qualquer texto convoluto de irônica cronista, metida a moderna e a feminista. Resta lembrar que o último domingo 17 de maio, que eu saiba, não foi nenhum dia dedicado à defesa do aborto mas mesmo assim, por insistência do destino, o marcante discurso de Obama (na Universidade Notre Dame, South Bend, Indiana), transmitido ao vivo pela tv a cabo, foi seguido imediatamente por "Aborto em Julgamento", um filme francês no GNT que relembra, de um jeito bastante emocionante, os primeiros passos hesitantes da humanidade dita civilizada em favor do aborto voluntário, vale conferir. E não preciso escrever mais nada, meninas, bom dia.
Serviço: Mulheres no Cinema Aborto em Julgamento Martine ajuda sua filha, que fora estuprada, a fazer um aborto e as duas acabam sendo acusadas de infanticídio. Conheça a história do julgamento que foi um marco para a descriminalização do aborto na França. terça - dia 19 às 16h02 domingo - dia 24 às 08h30 terça - dia 02 às 16h00 domingo - dia 07 às 08h30
Se faz tempo que não falo de filmes aqui no blog não é que eu tenha me desencantado de vez da sétima arte, não mesmo. Mas, gente, é que morando no mato a gente (ih!) escolhe outras prioridades, como, por exemplo, deixar pra lá como se fosse nada o superoscarizado "Quem quer ser um milionário" e hesitar bastante quanto ao "Gran Torino", bem, a paixão por Clint Eastwood talvez me faça descolar um tempinho na minha agenda agitada pra visitar, na semana que vem, o único porém charmoso cineminha local.
Pois deixa estar que de vez em quando, confesso, ainda alugo, e, mais espantoso, assisto, algum dvd mais auspicioso. Exemplo? O épico "Australia" de Baz Lurhmann, o desprezado de todos os Oscars apesar do milionário trio aussie que encabeça a ficha técnica, nepotismo perde: Kidman/ Lurhmann/ Jackman, todos com um pé na ilha e um sotaque bem real, bem, o real de Kidman meio elitizado, filtrado num tom empinado, algo elizabetano. Nicole Kidman — que, aliás, como atriz e nariz (eu bem que preferia o de Virginia Woolf) já não curto muito — vem perdendo a beleza pra guerra da idade, queixo duplo etc. e tal, ai, gente, nem acredito que escrevi isso, e ainda por cima arrisca em cena um resgate de terapia quando explica (ao público ou a Katie Holmes?), na pele da personagem Sarah, que não pode ter filhos (tudo bem, relevo: aí também já é muita projeção de minha própria parte). O caso é que o filme acaba, sob a batuta grandiosa de Lurhmann (que além de dirigir arriscou o roteiro, ah, bom, entendi tudo), numa arena aberta de egos e canastrices, eu disse acaba? Minto. O filme, vamos combinar, não acaba nunca: são quase 3 horas de projeção, em explícita menção a todos os gêneros conhecidos de Hollywood, do caubói tocador de gado — ih, redundância — ao mais romântico drama aborígene, trançados e retorcidos que nem redemoinho de areia, este, aliás, uma das incontáveis metáforas infames inenarradas por um mágico garotinho mestiço (que não cresce nunca!), em falso inglês castiço. Oy vey. Australia, o filme, é tão ruim, mas tão ruim, que até me despertou para aquela mania que eu tanto abomino em qualquer outra pessoa: em vez de se deixar envolver pela trama, gastar atenção com incongruências, anacronismos, erros de continuidade. Pois, gente, o anúncio insistente de "O Mágico de Oz"* no cineminha local lá deles levantou a lebre: "Alan, o mágico de Oz já estava na Austrália em 1939?" Bem. Poderia até já ter sido lançado naquele ano, mas pesquisando um pouco a gente descobre que só foi exibido na Austrália em abril de 1940, ui, 69 anos atrás, não espanta nada que a gente se confunda. Barafunda. E se eu duvidei da certeza do furo quanto à eficiente carreira internacional da Yellow Brick Road — a de Judy, não a de Elton — a impressão confirmou-se, com a pontaria fulgurante de um raio, quando ouvi a "Aquarela do Brasil", a nossa aquarela de Ari Barroso, bombando nos sopros da orquestra de Darwin — Darwin, Austrália, claro — ops, peraí: Ari Barroso na Austrália em 1939? Num baile perdido de província? Taí. Embora o nosso Ari tenha sim, composto em 1939 a canção que botou nosso Brasil no mapa do showbiz — porque me ufano, etc., etc. —, o filme da Disney que a consagrou na voz de Carmen Miranda só foi lançado na América em 1943, cqd. Volta pra escola de cinema, Baz Lurhmann. E da próxima vez, aprenda português.
*obviamente um fetiche de Lurhmann, renomado e meio-frustrado reabilitador de musicais
"Quer uma catarse? Apele para a literatura", afirma a certa altura a escritora Ilana Mather, sobrevivente por milagre do inferno nazista. "Não visite um campo, porque um campo é um lugar tão morto que de lá nada sai." Eu poderia dizer tantas coisas (já ditas) sobre O Leitor — filme que deu o Oscar à bela Kate Winslet e que só assisti ontem —, ponderar sobre culpa, resistência, omissão, incompreensão, compaixão, capacidade de superação ou não, arrependimento de vítimas e até sobre a monstruosidade humana confrontada com uma mente simples, básica, necessitada.
Mas não vou. Como a mesma Ilana aí de cima declara quase no final da história (é, gente, gostei demais das duas cenas curtas que Lena Olin faz, à altura do seu talento), não estou interessada em qualquer tipo de redenção nazista, envolva ou não uma antiga injustiça. Fico com a lata, memória simbólica do vazio que nos deixou por dentro. A lata, no caso, uma antiga lata de chá aproveitada para ocultar tesouros íntimos, roubada e milagrosamente recuperada — mesmo que nem seja a mesma, é o símbolo que importa — guarda a chave da trama: não importa que dor há lá fora, que absurdos familiares da porta de entrada nos contemplam, há vida pulsante no ato da leitura, no fruir pessoal da literatura. E como bem disse Ian McEwan em entrevista recente à The New Yorker, no egoísta e pouco divulgado prazer de escrever. Há no filme uma dor maior que a consciência eterna do crime cometido, uma vergonha mais profunda, pecado mais inconfessável: não saber ler (tá certo que é um certo exagero do roteiro, mas essa falta, pobreza inaceitável de alma, pode mesmo definir uma vida, acreditem). Pior ainda se associado a um inesperado amor à literatura, uma espécie assim de indulto cultural, será por isso que tantos detentos escrevem, e publicam livros? Para purgar suas culpas (bem, hum, a bem da verdade nem precisa ser detento), lavar-se de seus crimes? Terá pelo menos a robótica Hanna Schmitz, ao aprender a ler, adquirido uma consciência mais clara, mais ampla, do significado drástico de seus atos de guerra? Não sei. Não importa o que ela pense, não importa do que se lembre, os mortos continuam mortos. Só sobrevive a literatura.
Foi uma noite rara, lua cheia estrelada demais clichês. O que mais surpreendeu foi a sala cheia aqui na remota Itaipava, em plena quarta-feira, e mais, Alan e eu concordando, na contramão de muita opinião publicada, que "O curioso caso de Benjamin Button" era um bom e belo filme, nem tanto a ver com a magia sempre renovada, eu acho, do belo casal protagonista na tela, porque fora dela, hum, embora Blanchet se sustente, Brad Pitt já resvalou no bigode.
Não é pra menos, concordamos ainda no carro por breves minutos quando conto que o filme, mais que uma fantasia boba, se baseia num conto de William Faulkner, ops, reviso nos créditos: F. Scott Fitzgerald. Pois a paz conjugal vai embora de vez quando cogito que a fantasia do caso se deve, quem sabe, a mais um porre homérico de Scott. Alan perde as estribeiras: "quem chama os outros de alcóolatra não é artista", mas, darling, Scott Fitzgeraldmorreu de alcoolismo, como é que eu deveria chamar isso? Sendo o filme, aliás, uma bela reflexão sobre a morte. Alan, vocês sabem, adora dizer que não sou artista, não entendo nada do que vejo ou leio e que meu pensamento é linear e careta. Escuto e choro. Deve ter sido por isso o único senão que me perturbou no filme: o tempo todo eu tentava fazer as contas da idade dos personagens, de trás pra frente, claro — como num prosaico teste de Alzheimer — já que Benjamin Button, todo mundo sabe, nasceu velho e morreu bebê, tendo vivido, deixem-me ver, de 1918 a 2002, dá quanto mesmo?, cada vez mais belo e jovem, bem, até certo ponto quando passa a ser uma criança senil, isto é, com demência senil. Não consegui descobrir a idade real da impressionante Elizabeth de Tilda Swinton pouco antes da guerra na Rússia, quando ama Button (que aos vinte e poucos parecia ter mais de 60), mesmo sendo informada mais tarde que ela cruza o Canal da Mancha a nado aos 88 anos, hum, em que ano foi mesmo isso? Chegando em casa, a tênue paz marital quase esquecida, vamos logo online, cada qual com seu computador, pra ver os extras que encontramos sobre o filme, eu, o conto original, lá está, em domínio público. Numa rápida passada d'olhos descubro que o texto de Scott Fitzgerald tem pouco a ver com o filme enquanto Alan, de mente mais jovem embora bem mais velho, se interessa em saber que o roteiro levou 20 anos pra ser "solucionado", até aí tudo bem. A gente ainda estava na discussão pós-cinema, como todo casado sabe, um bom momento de qualquer casal. Mas o pior, mal sabia eu, ainda estava por vir, quando na cama, tentando ler um pouco antes de dormir, voltei a comentar minha crescente inabilidade para me concentrar no texto hermético e emaranhado de Lobo Antunes (que alguns, aí sim, comparam a Faulkner): Conhecimento do Inferno. Alan, vocês sabem, bem mais brilhante que eu, duvida de mim quando, à beira do desespero, traduzo para o inglês "um pedaço de carne peluda idêntica à gelatina dos polvos, à gelatina das gordas flores marinhas de Sesimbra", depois de arrancar os cabelos com "azul e plano como as férias grandes". Pesquisando na internet, sempre ela, Alan encontra na íntegra a versão em inglês, Knowledge of Hell e está tudo lá exatamente como eu disse, "gelatin of octopuses" e todo o resto e vai logo dizendo que Antunes é mesmo um gênio, não se trata de "flores marinhas" mas de "flora marinha" e que, se fosse eu, hesitaria em criticá-lo em público para meu próprio bem. Tá certo. O cara escreve bem. Mas para o meu intelecto encolhido, vocês sabem, ficou difícil entender "a língua do rio pelas varandas fechadas à chave...comungavam cafés rituais nos seus confessionários laicos separados por estreitas divisórias de tabiques", bem, como uma fila de doentes mentais recebendo na boca o remédio ministrado pelos residentes em boxes de atendimento, cá entre nós, Alan é muito inteligente mesmo, não? Talvez por que não esteja com tanto sono (fica ainda por me explicar "o azul e plano como as férias grandes", mas, bem, aí já seria querer demais, como diria Stendhal, "se não sou claro, todo o meu mundo está aniquilado".) Agora imaginem essa complexidade toda em cada linha de cada uma das 246 páginas do livro, à laia de galinhas sacolejando como maridos. Tranco-me às pressas na solidão rimada da óbvia literatura chinfrim que diariamente pratico online enquanto apaziguada, silenciosamente, me conformo finalmente com minha metafórica burrice.
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Bem. Só para descobrir minutos depois, online, em insistente pesquisa, que não, não estou tão só como imaginava no meu vago pesadelo luso, confiram só. Ufa. E pensar que com tudo isso quase "fui para dentista".
O novo orçamento apresentado pelo Presidente Obama representa um rompimento gigantesco, não somente com políticas dos últimos oito anos, mas com tendências dos últimos trinta. Paul Krugman, para o NY Times
Umas das raríssimas coisas de que sinto falta desde que me mudei pra Serra, vocês sabem, é o cinema, não só o ato de ir ao cinema, mas simplesmente o de assistir a bons filmes, em casa ou na rua, quase todos na contramão dos blockbusters e que apareciam a rodo no catálogo da locadora no Rio.
Pois ontem, tendo ido ao "centro" — centro, pra quem não mora na Serra, explico, é a cidade de Petrópolis propriamente dita, excluídas as luxuosas (e naturalmente luxuriantes) periferias de Itaipava, Corrêas, Nogueira, Araras, Secretário e outras mais — para a revisão semestral do carro, me deparei com uma escolha de sofia: dois bons filmes e um só horário disponível, bem, hum, hesitei sim, entre o impositivo apelo do Oscar e o mais sutil apelo do tema. Acabei no segundo. Sob protestos iniciais de Alan, que acima de tudo preferiria, é claro, estar em casa dormindo, optei por assistir ao drama emocional do atormentado jovem casal Leonardo di Caprio e Kate Winslet em Revolutionary Road, que em português resumiu-se a um prosaico "Foi apenas um sonho". Eu tinha imaginado que Alan — que enquanto eu penava na fila da bilheteria resgatava por menos de um real num cybercafé seus emails do dia, sem se interessar por minha dura escolha — gostaria do tema: a vida suburbana americana em meados dos anos 1950, mais ou menos isso, rígida mentalidade moral em meio à qual eu nasci. E radicalmente contra a qual Alan e eu e toda a geração de que ambos fazemos parte passou boa parte de nossas vidas, claro (a alternativa era o fantasioso Benjamim Button, mais um comercialmente privilegiado pela enxurrada de indicações ao prêmio da Academia, recomendação que, francamente, prefiro evitar, e tenho razões de sobra pra isso, não?). Depois de um dia perfeito, perfeitamente à prova de reclamações — e que havia incluído até o momento: gostoso café da manhã com Mozart ao fundo, alvas cortinas rendadas infladas por brisa suave, em frente à janela os ipês floridos na mata e um alentado pé-direito alto do século XVIII, ufa; visita arrastada ao Museu Imperial, arrastada por conta das pantufas obrigatórias para lustrar com nossos pés turísticos cansados o mais que antigo perfeito piso de Pedro II e Teresa Cristina; e, last but not least, visitas investigativas a representantes de lareiras a gás e reprodutores de peixes raros em lagos domésticos com vistas a paraíso futuro, uau —, assisti com gosto Alan curtir um filme, e melhor, discuti-lo comigo mais tarde, um raro prazer. O filme é triste. Triste, bem-feito e realista. Embora hoje em dia a gente viva na margem oposta daqueles velhos dilemas sexuais-deterministas, não acho que a discussão tenha ficado ultrapassada, não, gente, de jeito nenhum. Em tempos de acachapante crise financeira, onde mais do que nunca vem sendo provado (e reprovado?) o discutível valor real do dinheiro, faz bem lembrar crises morais mais palpáveis, e mais sobranceiras. Sombrias. Deprimentes. E mais: sem nenhuma saída à vista. Curioso é observar que em nossa sociedade conectada nada daquilo teria acontecido e, no entanto: na sequência da revolução de costumes, gerada por aquela indefinida dor existencialista, sobreveio uma ausência total de conexão com o que mais importa nesta vida: nossos valores humanistas. Taí: passa por aí um dos bons objetivos da presente crise, e o incansável Barack Obama vem se provando bom nisso. A conferir se, dessa aflição toda, alguma positiva mudança crucial resultará. Mais curioso ainda, e pra quem pensa que dizer o que se pensa não passa de pura loucura: o "louco" do filme, sujeito dolorosamente inteligente, traumatizado sobrevivente da mais radical terapia de choque de que se tem notícia, é a mais pura expressão das mais simples verdades. Só louco, meu.
Pra vocês eu não sei, mas pra mim parece tão óbvio que o quase-oscarizado Joaquin Phoenix está atuando e, de propósito, atuando mal — numa provável zombaria futura do mundinho simplificado dos rappers — enquanto produz material "live" para o vídeo de seu cunhadinho "genial" Casey Affleck e faz a gente de idiota que, pelamordedeus: não sei como é que tanta gente embarca nessa. Não que eu ligue pra isso, mas, cá entre nós: deve ser um testemunho da declinante inteligência humana profundamente afetada pela exposição ao constante bate-estaca, sei lá. Hahaha. "He's a funny dude". Nem tanto, né?
Words? Music? No: it’s what’s behind. James Joyce, Ulysses
Quando cedo esta manhã a caminho da obra o Alan me perguntou qual seria o tema do dia aqui no blog, hesitei bastante ao responder. Já vinha se formando aos poucos na minha mente o paralelo irônico entre a manchete do dia sobre as distorções do PAC e o falso rosto sorridente de Dilma Rousseff logo abaixo, em dose pra calar na capa d'O Globo, exemplar perfeito de publicidade engajada: ambos, mãe e filho, repaginados e cuidadosamente maquiados para adaptar-se ao crucial momento político e às conveniências eleitorais do partido, pô, meio chata hoje, irritada, não estou me encontrando no tom, aí, foi mal. Deve ser por medo do diabo, mais feio até quando se pinta.
Pois o tema do post tomou força em seu rumo próprio enquanto eu, ao mesmo tempo, enveredava em meu papo com Alan por confuso atalho de estilo que me desgostou mais ainda: meu ilustre, republicano e irritante marido comparou de imediato o nosso frustrado ensaio visual de simpatia local à disputa, nos anos 1960, entre Nixon e Kennedy — a primeira a acontecer num estúdio de televisão onde, fato inédito, a aparência pessoal ultrapassou em importância a autoridade (m)oral — de um lado Richard Nixon, um coitado, caipirão meio adoentado na época do debate e do outro, um jovem John Kennedy aristocrático, enturmado em Hollywood e com aquele brilho carismático único (recentemente lembrado e, de alguma forma, reencenado na incrível campanha de Obama), e mais: muito bem maquiado para aparecer ao vivo, Kennedy, digo, mais ou menos assim que nem a nossa Dilma de hoje, ops, minha não, eu hein? Deu no que deu. Imediatamente me veio à memória a traumática derrota de José Serra e seu olhar cansado para o carismático Lula da Silva em 2002 e coisa e tal, tudo bem, o problema aqui é que, muito contra tudo o que o Alan diz (nem só pra me irritar) e no que piamente acredita, eu sempre fui, claro, bem mais Kennedy do que Nixon (nem Ron Howard me convence do contrário) e, por outro lado, mais Serra do que Lula e mais qualquer um do que Dilma Rousseff, ufa. Pronto. Falei. Deixa esse papo arriscado de carisma de lado, descontado o fenômeno Obama, claro. No mais, já que a coisa toda se resume, no fundo no fundo, à melhor imagem, é esperar com o coração na mão que os outros candidatos quaisquer em 2010 vençam Dilma no vamovê, o que, vamos combinar, com tanto botox, pancake e laquê, nem deve ser tão duro assim. Argh. Melhor apostar na conversão da Regininha, minha ex-quase-priminha, rá, disso vocês não sabiam, né? Ai. Mais uma Darlene Helena pra nos redimir de tantos pecados cometidos. Tarrenego. Tesconjuro.
Triste do país que precisa de heróis. Bertolt Brecht
Tem causado espécie no blog de Reinaldo Azevedo a patética entrevista concedida por Benicio del Toro a uma engajada Marlen Gonzalez, um vídeo que tem percorrido o youtube com o maior sucesso, e em se tratando do popular Tio Rey (com y, sim, pra evitar a tentação de uma excessiva majestade), vocês sabem, as centenas de comentários fazem a festa, mas é mais uma coisa do tipo "quando um burro fala o outro abaixa a orelha", se é que vocês me entendem:
ninguém naquele território exaltado da livre opinião se atreve a criticar o dono do pedaço, só comentam lá para enaltecê-lo. O que em termos de web é mesmo um espanto de provocar inveja. Hum. Olha aí o perigo. Mas, gente. Um pouquinho de boa vontade não pode fazer mal. Imaginem agora Benicio del Toro, um latino de Porto Rico de uns quarenta e poucos anos, com falha formação acadêmica de artista e um (superexplorado comercialmente) rosto marcante de facínora arrependido, crescendo com aquele famoso poster de um Che guerrilheiro, lindíssimo revolucionário, pendurado na parede, em todas as paredes, digo, vocês sabem qual? Aquele da estrelinha no boné? E, vamos combinar, este filme recente de Steven Soderbergh, um diretor considerado sensível até (não, ainda não vi o filme), não é o primeiro e nem sei se será o último a babar por Che, lembram Diários da Motocicleta? Pois, gente, vou contar pra vocês que talvez nem saibam disso: em nossa reprimida juventude, Che era um herói como poucos, e Mao, e Stalin — a bem da verdade, um trio maldito, três grandes carniceiros, mas quem, nos anos 50 e 60, diria isso? Me surpreendi no outro dia, assistindo a um excelente documentário no Eurochannel, quando vi um reconhecido Bertolt Brecht, ácido crítico do nazismo, recebendo com o maior orgulho o Prêmio Stalin da Paz. Bertolt Brecht, o autor da epígrafe acima, imaginem, um paladino da justiça social (mas, ops, peraí, fui lá conferir, era o Prêmio Lênin, não? ah, tudo bem, não faz mal: mais um carniceiro oculto, ou serei eu, como o pobre del Toro, nada mais que uma metida inculta?). Quando eu era adolescente, lá se vai um bom tempo, eram dois os livrinhos obrigatórios, literatura axilar, como a gente costumava dizer: A Náusea de Sartre... e o Livro Vermelho, de Mao. Sorte nossa que Mein Kampf acabou de fora, não? E este culto a carniceiros ocultos impera por todo lado na literatura branché da época, basta ler Simone de Beauvoir para ver que não estou mentindo. E por tudo isso, o que estou sugerindo? Não que sejamos mantidos sob o manto de ignorância temporário que a história recente nos atira, não, gente. Mas que sejamos, pelo menos, mais benevolentes com o downside alheio. Ainda bem que, com todo este clima de corretismo da Nova Era Obama (no qual, cumpre esclarecer, me incluo e, confesso, bastante entusiasmada: é a mania do século), a equipe da Casa Branca não tem esperado muito pra defenestrar seus gurus decaídos, como este Daschle aí que apoiou Obama nas eleições, e agora, tsk tsk, caiu transformado em vilão sonegador. Vamos combinar: pra qualquer lado que a gente se vire, seja pra enaltecer ou pra derrubar, é preciso o maior cuidado com julgamentos duros e precipitados. (Long live Barack Fizbesteira Obama, e que Deus o proteja da moderna SIDA, aquela outra, tão mortal quanto: Síndrome dos Ídolos Derrubados e Arrependidos)
Umas das (poucas) vantagens de (ainda) não ser uma cronista famosa é que ninguém pergunta a minha opinião a respeito de quaisquer dez mais, praga crônica que assola os jornais nos feriados de ano novo e, não se enganem: é pura falta de assunto, todo mundo ocupado com todo outro tipo de coisa que se apresente enquanto se tenta — sem muito sucesso, como é o meu caso, diga-se de passagem — praticar o ócio, essa delícia fugaz, complexa e fora de contexto.
Esclareço: com tantas opções de hoje em dia, tanto estímulo voraz para o consumo ansioso do cérebro, o que me acontece é que eu vejo e esqueço. Me torno incapaz de selecionar os dez melhores do que quer que seja, imaginem: com sorte me lembro de um e olhem lá. O que não acontecia no meu passado nem tão distante de fã de cinema, se é que vocês me entendem: eu era enturmada e nem sabia. Por isso, foi com espanto ou surpresa ou com certo desgosto que eu percebi que, da lista dos filmes publicada no Globo, assisti a quase todos e, francamente, não adorei nenhum: ou são banais, bordejando o comum, ou são violentos, pessimistas, grotescos e barulhentos, almejando um fim-de mundo à la Coringa tão inevitável quanto desejável, cá entre nós, quem é que curte viver num mundo miserável desses? Vai ver eu já estava me preparando, embora por meses de tal coisa nem desconfiasse, para me retirar do cerne insano deste insensato mundo, mergulhar num bojo verde e calmo de natureza incessante onde o cinema ainda não tem vez, nem mesmo em dvd (há fracos sinais, com imenso atraso, nos canais a cabo da tevê): a vida aqui prescinde de ilusão, privilegia a reflexão, o contato real, que custa a crer que em seus melhores momentos seja exatamente... nada. O ócio. O silêncio. Um desejo crescente de boa literatura. Estranho um pouco, é verdade. Me sinto às vezes tão solitária, nenhum dvd envolvente pra me ajudar a fugir de mim ou, como eu fazia quando ainda era gente, aproveitar uma psicoterapia grátis. Por essas e outras decidi dar um tempo na coluna bibliografilmes — que de toda maneira não tenho conseguido atualizar —, quem sabe ainda volto um dia quando o cinema for mais facilmente downloadável (estou pesquisando, sugestões são bem-vindas). Enquanto isso vou mudando de hábitos e, em certos momentos de nostalgia, me pergunto: mudou o cinema ou mudei eu?
A coisa aconteceu tão de repente que nem deu pra reagir, vocês sabem, um dado se somando ao outro sem coincidência possível: "quando uma pessoa se sente confusa tenta sair, conscientemente ou não, de seu estado de confusão", ensina o vídeo sobre hipnose que o Alan recomendou, pois é, ele disse. Que pratica comigo e eu mal percebo, interessante o efeito do humor, da ironia, da intencional confusão, três hipnóticos geradores de transformação — lembra alguma coisa? — e eis que o acaso (ou seria o controle remoto?) me leva a "Invasores", filme de terror do ano passado com a eterna Nicole Kidman e o hoje famoso Daniel Craig na HBO, algo que foge ao meu estilo diário e é justamente aí que a coisa pega: o que é hipnótico em nossa vida e o que não? Quem hipnotiza? Quem é hipnotizado? O mais curioso no filme, pra lá de bê de gosmento, é o noticiário na tevê dando a conta de um mundo sem guerras — retirada dos Estados Unidos do Iraque, calma na Coréia, paz entre Paquistão e Índia, fim do terrorismo, pode ser mais atual? — só que isso tudo, vocês sabem, como (falso) efeito colateral de uma invasão alienígena porque nós humanos, afinal de contas, não podemos viver sem algum conflito.
Tudo bem. Absurda ficção. Mas que faz pensar, isso faz, descontado o fato de que o próprio filme, como tantos outros, é por seu lado pura tentativa de hipnotismo, e a tevê na tevê faz lembrar nosso extenso otimismo recente, isso faz, uai, gente, e em seguida me lembro de outros congêneres, ai, arrepio: aquele presidente preto, calmo e nobre tentando salvar nosso mundo agredido, vocês sabem do que estou falando. O que suaviza a sensação de estranheza é que — bom sinal — nossa imprensa de sempre continua insistindo em tudo que é ruim, crise, queda e drama que sim, existem sim, melhor: dominam, o que é um tremendo alívio pois como mostra o filme, se não dominassem... já seria tarde demais. Teríamos perdido o que nos faz humanos. E tudo bem que ficção científica, apesar de sua indiscutível qualidade hipnótica (quando não profética), não faz muito o meu gênero, confesso. Mas pra quem gosta da coisa (e até pra quem não: é boa literatura) dizem que este Fome lançado hoje, do ex-inédito mestre Tibor Moricz, é o que há de melhor na praça. Vale conferir, porque afinal de contas, é nossa infinita e voraz curiosidade que nos mantém humanos. Ou quase isso.
Eu já tinha até passado batido no Blockbuster embora tenha hesitado um pouco, devido ao apelo charmoso de Andrée Tautou, quando vi o tal filme recomendado no blog de um amigo. Aluguei. Mas, gente: misturando o já esperado bom gosto francês à beleza da naturalmente fotogênica Riviera em Nice e, pra quem gosta do gênero, ao vão consumismo freneticamente traduzido, com inesperada volúpia, em múltiplos chanéis, guccis, pateks e outras tifannys mais (essa última aí bem que eu sei que está menos pra zona do Euro do que pra Wall Street, mas fazer o quê, um Boucheron aqui não encaixa nem rima) que emergem dourados de embrulhos estraçalhados nos hotéis mais caros que se possa imaginar — onde a busca hedonista repousa amassada por breves e tensos momentos, em camas descomunais, pra acordar renovada no café da manhã seguinte, soterrada em pirâmides tostadas de croissants caloricamente amanteigados —, o roteiro com um solado sabor de passado resulta em quase duas horas perdidas, num clichê lamentável e seu desfecho dispensável de fraca comédia romântica, versão mais pobre do clássico gostoso e bem mais moralista de Audrey Hepburn, em outras palavras: bonequinha sem nenhum conteúdo e pior, sem nenhum verdadeiro luxo. Um lixo.
Além de nem divertir nestes sérios tempos de grave crise, tal abuso inclemente de superficialidade inconsciente pega até mal, vamos combinar. Embora o filme, sendo bem anterior à derrocada dos já revelados castelos de cartas, passa mais como mais um sintoma da aguda doença entranhada na sociedade. Soei careta? Piegas? Mal-humorada? Azar. Paciência. Enquanto leio no Globo cartas motivadas por uma profunda e enraizada aversão ao lucro (dos outros) e demolindo com gosto (demolindo não: demonizando) os pecados mortais do capitalismo — sistema econômico quase tão odiado quanto o próprio país que mais radicalmente o adotou — chego até a cogitar: é muito bem-feito pro tipo de idiota perfeito que pretende comprar o temporário amor de alguém com um polpudo cheque à vista, mas cá entre nós, não tenho nada contra o capitalismo, desde que praticado com um mínimo senso de civismo, ou de civilização, porque as alternativas, a gente sabe, saíram-se muito pior. Quem sabe o deplorável filme de Andrée Tautou devesse ser mostrado como o exemplo típico do estilo de vida que num futuro breve talvez se acabe — um dinossauro da vaidade extinto —, numa exacerbada distorção do uso infeccioso e burro do dinheiro em excesso e resultando sem salvação na recente autofagia dos mercados, ufa. Não acredito, infelizmente, em nenhuma regeneração moral do tipo, fazer o quê. É passar a aflição atual que estarão de volta com força total os mesmos tubarões, mas enquanto é tempo, me distraio da corrupção sonhando que as coisas um dia mudarão. Sonhar não custa, mas como não diz a propaganda subliminada do Credicard no título do dvd em português: também tem seu preço. Pra terminar, um elogio ao trabalho de Andrée Tautou mal-disfarçado de crítica: a simpática atriz está muito mal na fita. Seu estilo estouvado de boa garota não combina de jeito nenhum com a galinhagem malvada e meio forçada da personagem.
Aluguei no Blockbuster da esquina este precioso documentário de 2008 sobre Annie Leibovitz, assinado pela irmã dela. E recomendo enfaticamente: passei uma tarde linda. Segue uma prova:
"Sei que o time está na segunda divisão e que está ganhando todas. A alegria de quem foi rebaixado é essa." sobre o Coríntians, da premiada em Cannes Sandra Corveloni
Tem muita coisa acontecendo ultimamente que é séria candidata a me tirar o sono, como as quedas contínuas da bolsa, o dedo acusador em riste de Sarah Palin e até mesmo o costumeiro blablablá anônimo de quem se sente cotidianamente agredido pelos textos aqui do blog, menos, gente, menos: tudo isso não passa de uma insistente tentativa de literatura.
Mas nada, nada me preocupou tanto nas últimas 24 horas quanto a afirmação de Veríssimo em sua crônica de hoje no Globo: "Quem já trabalhou em publicidade sabe que uma coisa que o público não gosta é ironia demais." Ih. Essa de LFV me pegou de jeito, agora sim acabei entendendo tudo. Tudinho. Um estilo chatinho e metido a inteligente assim como este meu cansa a beleza de qualquer um, eu entendo, mas... fazer o quê. Artista que é artista, vocês sabem, procura expressar-se sempre com a maior autenticidade possível em sua arte, e eu não ousaria ser diferente. Tá certo que na maior parte da vida — até agora, pelo menos — tive a maior vergonha de declarar assim em público, de cara limpa, que me considero uma artista. E olhem que tendo me formado em arquitetura — arquiteto é assim, digamos, um artista de segunda divisão, os coleguinhas que me desculpem — já atuei como designer gráfica, de móveis e de jóias, sempre rondando a arte porém disfarçada de utilitária. Mas desde que descobri que a profissão de escritor constava da lista do Imposto de Renda, foi tiro e queda: perdi a vergonha e daí em diante em todo e qualquer documento ou formulário que preenchi já fui logo afirmando: profissão escritora. O que, pelo menos, conquista a boa-vontade de 9 entre 10 ouvintes, vocês sabem: embora muita gente imagine que ser escritor é um negócio charmoso pra caramba — ontem mesmo, a simpática vendedora da loja de cortinas aqui em Itaipava se derreteu toda — , poucos desconfiam que dedicar-se à literatura significa, na prática, condenar-se a trabalhar praticamente de graça, uai, taí. Vai ver a simpatia é por isso mesmo e eu que não percebi, né? Tem coisa mais segunda divisão do que isso? Hein? Bom. Na parte em que a gente começa a ganhar todas eu não cheguei ainda, mas se Deus quiser estou indo nessa direção, melhorando sempre (de editora, pelo menos, novidades em breve: cuspir no prato é comigo mesmo). Pois parte do encanto desse "Conversas com meu jardineiro", filme já meio antiguinho de Daniel Auteuil que acrescentei ao Bibliografilmes esta manhã — depois de tão longa ausência, vocês sabem, com tanta mudança não tenho encontrado tempo pra cinema e andei na maior seca (nem morta eu confesso que assisti ao Cavaleiro das Trevas na telona do Shopping Estação) — vem de uma saborosa discussão sobre os rumos e significados da arte. Tá certo que a nota boa aí do lado vem acompanhada de uma boa-vontade extra de minha parte: afinal de contas, trata-se da história de um pintor famoso que resolve sair de Paris pra morar no mato em busca de uma linguagem própria, pois é, tenho visto esse filme todo santo dia aqui em casa, parece até coisa feita eu só ter alugado o dvd agora. E já na locadora local, ih, soou meio mal, aí, desculpem o mau jeito. Taí. Isolar-se do mundo e do público, dizem, faz muito bem para o trabalho do artista, só que em tempos de internet este tipo de verdade perdeu um bocado do peso, mesmo assim: o silêncio e a calma aqui da Serra certamente inspiram, tô pagando pra ver onde vou parar, será que eu consigo me livrar do excesso de ironia? Do instinto arraigado de autodefesa disfarçado de texto? Vamos combinar. Parar de me deixar afetar por críticas e comentários maldosos já seria um bom começo.
...Barack Obama pega uma onda no Havaí, tamos aí (foto AP)
Tá certo que em termos de história e geografia pode-se até dizer que eu fugi da escola. Francamente. Meu negócio é arte e literatura, sempre foi. Mas quando eu li esta manhã na crônica do Dapieve que "a malfadada invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, foi planejada pelo republicano Dwight Eisenhower e executada pelo democrata John Kennedy" dei uma parada. Uai, gente. Kennedy não ficou famoso, justamente, por ter evitado essa mesma invasão? Me vem à memória não aquele velho livro de história — vocês sabem, a história nos livros é sempre escrita pelo lado vencedor, não dá pra confiar meesmo, confira-se aí a incrível história dos falsários judeus a serviço da corrupção alemã no interessante lançamento em dvd "Os Falsários", Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007 — mas sim aquele ótimo filme, com aquele ator, vocês sabem, no papel de espião, como é mesmo o nome dele? Ah, sim, lembrei: Matt Damon.
Outra coisa que vem me encucando é essa crise de cidadania na Georgia, uai, gente: quer dizer que o tal presidente de lá (Mengelev, segundo o Alan, mas ops, esse é o da Rússia, Medvedev, né? não se deixem influenciar pelo apelido, herança maldita dos tempos do filho-da-putin, ops: tô pior que o Agamenon hoje) invadiu e atacou seu próprio povo em nome de forçá-los a fazer parte do próprio país deles? Ou o fato é que o pessoal local (Ossétia do Sul e Abcásia, se não me engano) é na verdade de etnia russa, portadores de passaporte russo e superinteressados em pertencer para sempre à Rússia? Ou então ainda, tratando-se em tese de um grupo de separatistas, preferem declarar a independência de uns e de outros, e neste caso, por que é mesmo que a gente não deve apoiá-los nisso (como no caso unânime do Kosovo, lembram)? Ufa. Isso tudo pra nem mencionar o problema da OTAN x HRR (Hegemonia Regional Russa), falando sério. Não sei se ando tão confusa assim com tudo porque a minha cabeça já está em Itaipava enquanto meu corpo continua no Rio, ou porque passei horas no telefone tentando entender os ótimos planos da Oi para banda larga e fixo, com ou sem provedor por um preço que você pode pagar, pagando caro ou não pelo modem obrigatório do Velox, ops, "Noga, você entendeu direito?", pergunta a atendente baiana. Pifei. Desliguei. Viver no mundo anda muito complicado, gente, quer dizer: conectar com o mundo. Deve ser por isso que eu preciso recorrer ao Google pra entender um pouquinho que seja da nossa história passada, da guerra fria à Baía dos Porcos, e descobrir que sim, afinal de contas — o que, aliás, não é surpresa nenhuma — o Dapieve é que está com a razão nesse assunto da invasão da ilha de Cuba pelos porcos, ops, americanos. Vamos combinar que, nessa atual conjuntura global — que está mais pra Stanislaw Ponte Preta do que pra qualquer outra coisa —, certo está o nosso amado Barack Obama, o escolhido: tirou o time de campo e, enquanto o mundo se explode, tem passado os dias descansando, surfando no Havaí. E se ele que é ele, pode, ops, peraí: por que não eu? Já estou de saída e tchau procês.
Em sua crônica desta sexta, Dapieve escreveu que John Cage escreveu que "quase tudo que ouvimos é ruído e que, se tentarmos ignorá-lo, ele nos perturbará; mas, se prestarmos atenção nele, ficaremos fascinados". Fascinada fiquei eu com o tema musical no cabo e no rabo do Segundo Caderno de hoje, que caiu como uma luva sobre meus apontamentos noturnos a respeito do novo documentário dos Stones, "Shine a Light": no vídeo e em close é que a gente percebe que as pedras rolantes acabaram criando limo, sim, ô gente feia, sô. E barulhenta demais para o meu gosto de madura — a julgar pelas rugas, nem tão madura quanto eles, claro —, mas bem, hum.
John Cage, imaginem, um sujeito que em 1952 compôs o silêncio, talvez até se interessasse; eu já nem tanto. Embora, é claro, nos meus bons tempos tenha sido fã dos Stones como todo mundo — sou de uma geração que sim, tinha ídolos, que Deus os tenha — e mesmo bem depois disso tenha ido aos dois concertos deles aqui no Rio (Maracanã e Apoteose), excetuando aquele da praia, porque na época, vocês sabem, já não eram tanto a minha praia: pouco antes do show eu tinha doado o meu boné sagrado da outra turnê, aquela do bocão Jagger com a língua de fora, para alguém que conheci em Bariloche. Tudo passa e os Stones ficam, né? Bem. Nem tanto. Não foi pra menos que o que mais me atraiu no filme de Scorsese tenham sido as imagens de arquivo, testemunho incrível de um século logo ali mas já muito mais do que passado. Um espanto. Mas o que me surpreendeu mesmo no vídeo, de verdade — nem tão fã assim, dá pra ver, e pra entender — foi um sucesso antigo e romântico da banda, traduzido para o rock rascante e travado do Mick de agora: As Tears Go By, taí, já nem me lembrava que era deles, e Jagger, imaginem, quase chorou em cena, confessando-se meio sem graça e um pouco deslocado com seu próprio passado de poeta: "Linda, não?" Bons tempos.
Eu juro. Juro pelo que há de mais sagrado que muito antes de ler o Jabor eu já tinha me decidido pelo título acima, em outras palavras: A Maldição do Batman, e gente, imaginem que nem vi o filme, e mesmo com tanta discussão em cima, tanto espaço importante de crônica — Jabor, Xexéo, Arnaldo Bloch et al e hoje o Jabor de novo, hãhã, só faltava eu — ocupado por este que não sei, mas desconfio, é apenas mais um dos mais quentes blockbusters americanos da temporada, especialmente produzido para produzir rios, rios de dinheiro (e pra injetando o sutil espírito intrusivo do medo nos distrair do que mais importa, claro, embora eu não saiba exatamente, a esta altura, o que é que mais importa), não pretendo ver tão cedo.
Quem sabe nunca: é disso que estou fugindo com minha opção construtiva e profeticamente regeneradora por viver no mato cercada de vida, verde e silêncio. Em outras palavras: a natureza. Lembram? Pros que por aqui ficam, no escurinho do cinema ou em outros escuros cada vez maiores e mais assustadores, tchau mesmo. Explico. Curta e grossa. Encher a cabeça com tanta informação irrelevante, tanta imagem impressionante de um mundo amaldiçoado que se derrete no inferno enquanto em algum outro lugar que não sei onde é, pela mão de um Deus qualquer que eu não sei quem é, um bem maior que eu confesso desconhecer vai impondo sua inevitável e crescente relevância? Não, obrigada. Me iludo? Sim. Provavelmente. Mas para os que mergulham de frente, cada vez mais ousados, mais frenéticos, mais gulosos e esmagadores nas labirintites de uma realidade cada vez mais virtual com gosto, cheiro e som de videogame — perdendo cada vez mais o contato com qualquer coisa humana e palpável que se possa chamar de "real" — só resta um caminho, e é letal: a maldição final. Heath Ledger já foi. Morgan Freeman está a caminho. Quem será o próximo? Cuidado. Não veja este filme!... Não se deixe enganar porque o próximo, meu amigo, o próximo da lista pode ser você.
Não sei o que há de errado com a nossa civilização, com o nosso país, com a nossa mentalidade íntima ou simples estrutura particular doméstica: posso até soar careta, e sou mesmo, mas, sinceramente. Não sei se é puro reflexo do meu particular estado sensível de espírito no momento, uma montanha russa do pensamento que tem alternado alegria com luto com alívio com sorriso com sonho com susto com soluço com drama com culpa com liberdade sem nenhum aviso de êxtase ou queda da mente carente de eterna novidade.
Aproveito um breve intervalo de falsa calma sem milhões de coisas pra examinar, papéis pra assinar, telefonemas pra esperar e decisões pra tomar e concedo relaxar de tarde, vocês sabem, com o tal "Sonâmbulo", prosaico dvd [nota 6 no IMDB], atividade leseira critico-cultural aqui do blog que deixei de lado nos últimos tempos por pura e absoluta falta de oportunidade e/ou paciência. Mas nem bem o filme começa a gente percebe pela paisagem sombria, pela vegetação rasteira, pelo apartamento vazio no topo da escada de vagas paredes descascadas e pelo carro enferrujado na calçada apagada onde é que isso vai parar: é destruição pra todo lado, cadê a rotina luminosa, a camaradagem sonora, a família normalmente amorosa de pai/mãe/irmão/irmã — o pai no trabalho a mãe na cozinha as crianças na escola —, vocês sabem, o figurino inocente das imagens em preto e branco da Hollywood de antigamente? Qual. Cult. O pai da bela menina destoadamente doce produto do estupro precoce da mãe descolada dela que anos depois com o enésimo marido trancafiado por plantação de drogas nos fundos da casa largou a filha com um tio desempregado que ela mal conhece despejado do lúgubre apartamento, ambos vítimas de abuso irmão e irmã por seu lado do pai deles — um filho-da-puta violento e sarcástico metido a feitor de filho e algoz implacável de neta e filha — sem mãe nenhuma por perto pra amenizar a coisa... fugiu da jovem desonrada e sumiu pra nunca mais voltar. A tela é em cores e em alta definição, mas não sei bem pra quê: se é tudo cinza e bege e de qualquer maneira indefinido, numa tensão desmatizada que só relaxa mesmo quando o filho calado que vive meio sonado mata o pai feitor a pazadas sem nenhum comprometimento. Ufa. Já não era sem tempo. Nem precisa de filme na sessão da tarde em dvd, vamos combinar: do noticiário na tevê à crônica de aniversário da Cora no Segundo Caderno onde sobrou pra todo mundo aos comentários desesperançados e esporadicamente agressivos no blog é tudo uma desolação só, eu hein. Apocalipse já.
Algumas referências cinematográficas cruzadas no Globo de hoje:
* Arthur Dapieve recomenda o dvd "turbinado" de Louis Malle em "Trinta anos esta noite" (no Dvd Clube ainda não tem, alôô!). Não lembro do filme, mas vou conferir com certeza: no meio de tanta porcaria devedesiva, é o tipo de coisa que eu gosto. Quanto ao comentário sentido do Arthur — "Nas noites difíceis, eles me disseram que eu não estava tão solitário assim. Às vezes, apenas isso já basta para afastar a tentação da pistola" — bem... Tô preferindo outra opção.
Pra afastar a tentação da pistola, digo, vou me mudar pra Serra e reconhecer de vez que, de um ponto de vista mais fundamental impossível, sou mesmo uma solitária, ao ponto até mesmo de me identificar com a personagem de Jodie Foster em "A ilha da imaginação": uma autora de livros de ação que tem fobia de sair de casa. Ou alguém que escreve muito mas se enrola ao falar a um ponto tal que por isso, cada vez mais, anda procurando o silêncio externo. E mais: reeditarei o sonho realizado de meu avô mas que eu nunca, nunca mesmo nesta vida imaginei materializar, imaginem que eu, arquiteta, trinta anos de formada e obra nenhuma, nunquinha mesmo, comprei um terreno e estou projetando a minha casa. Que tal isto para afastar idéias de suicídio?
* nas estréias da semana, já visto pelo Noga Bloga faz um bom tempo: "As aventuras de Molière". Gostei: dei quatro estrelas na época. Já nem me lembro direito, mas provavelmente não dei cinco pelo mesmo excesso de gracinhas que André Miranda critica, mas como ele diz, vale a pena pela aula de teatro.
* à parte o xororô prévio de Murilo Salles no jornal de hoje — o cara nem sabe se fará sucesso ou não, mas só pra se prevenir de um mico ansiosamente aguardado já vai se desculpando, deplorando a concorrência com os blockbusters da semana, fala sério, Murilo, me lembra eu mesma e a auto-sabotagem cotidiana: pra sobreviver ao massacre, faça um bom filme; se não agradar às multidões, tudo bem; se não render milhões, também: o que importa é o estado de qualidade da sua arte, faça o que eu digo não faça o que eu faço que pelo menos o bonequinho do Globo você já conquistou, né? — a premissa desta realidade ficcionada, vagamente inspirada na realidade ficcionada de Clarah Averbuck que mencionamos esta semana, é nossa velha conhecida: "uma sensibilidade nova, visceral e virtual ao mesmo tempo, angustiada e hilariante" e, acrescento, transparente pra caramba (embora a C.A. sempre negue que seja tudo verdade), lembra ou não lembra os melhores momentos do Noga Bloga? Citando O Globo, "em uma palavra: contemporânea." Dá-lhe globosfera. Ops. Blogosfera.
* notinhazinha da redação: se nos próximos dois meses eu der uma sumida boa de vez em quando, não me condenem, e nem me estranhem, que eu volto em seguida: é porque estou em trânsito para uma nova vida. Fotos muito em breve.
Das Crônicas irônicas de Ulysses: "Outros povos têm uma nacionalidade, mas irlandeses e judeus têm uma psicose", afirma Brendan Behan, famoso escritor, poeta e dramaturgo irlandês do século 20 que descrevia a si mesmo como um "bebedor com um problema de escrita" — inspirado, com certeza, nas semelhanças nacionais que Bloom aponta para Stephen no Ulysses, entre elas: a antiguidade dos dois povos, ambos descendentes de Noé; os alfabetos tradicionais, hebraico e celta; o pendor para a literatura; sua dispersão, perseguição, sobrevivência e renascimento; o isolamento de seus ritos no exílio e a proibição de seus costumes por via de lei. Isso sem esquecer, claro, que os irlandeses sempre se consideraram uma tribo perdida de Israel. Tara torá."
Vamos combinar. O problema das minhas críticas de cinema, que eu evito ao máximo aqui no blog por motivos que nem adianta confessar — um deles é que não tenho saco pra analisar, prefiro me envolver emocionalmente com o filme, coisa que o Alan não se cansa de criticar — é o mesmo da minha literatura: chega sempre antes da hora.
Como este excelente In Bruges — é, gente, não se deixem jamais enganar pelo nome cretino em português, um lamentável "Na mira do chefe" —, por exemplo, que segundo o IMDB só estréia no Brasil em setembro de 2008, pois é: até lá todo mundo esqueceu. Mas pra quem quiser ser moderno, antenado e (uns 3 meses) à frente do seu tempo, já está disponível o dvd da área 1, sorry, folks, com legenda em inglês, fazer o quê, aprendam inglês de uma vez. Bem mais do que aquele também muito bom "Antes que o diabo", que a ele já foi publicamente comparado, este filme remete em tudo ao bem menos que razoável Cassandra's Dream do meu ex-guru Woody Allen: traz o mesmo fascínora-arrependido Collin Farrell no papel de Ray, ah, sim, o ator é o mesmo, mas a direção... quanta diferença!, o mesmo banho de sangue metido a intelectual, a mesma cobertura de arte invadindo a seara do crime... e pronto. Pára por aí a comparação. O advindo-do-teatro diretor de primeira metragem Martin McDonagh (irlandês já oscarizado em 2004 por seu curta Six Shooter) excede no charme, no humor negro, na sensibilidade estética e no roteiro inteligente, isso, se a gente deixar de lado a incrível declaração de turista apaixonado enlevando Bruges, a encantadora cidade-cenário da Bélgica, sim, gente, eu estive lá, e é tudo isso mesmo que o filme mostra. Vamos combinar que eu só dei 4 estrelas devido a meus rígidos princípios morais, vocês sabem, de nunca dar 5 para filmes violentos. Mas confesso que depois do extra inspirado sobre Bruges, no dvd, quase resvalei: esse cara é bom meeesmo, e nota 5 em 5 é o que ele bem merece. Além do mais, McDonagh, aparentemente, navega bem à vontade num tema que para Woody Allen, francamente, nunca deixa de soar esquisito. Se eu fosse ele, Allen, de duas uma: ou desistia de vez ou voltava correndo pro humor judaico, coisa da qual ele entende como ninguém. O que prova mais uma vez que a mais-do-que-requentada afirmação daquele editor do post anterior (ih! rimou!) — "só costumamos publicar crônicas de nomes conhecidos, como Verissimo, Jabor, etc" — não está mesmo com nada. Perdeu. Perdeu. Só não sei quem foi que perdeu pra quem, ou quem foi que perdeu. Period.
Esta noite tive em sonhos uma mensagem reveladora e era tão real, mas tão real, que acordei na dúvida se a sonhei mesmo ou se simplesmente alguém a dissera pouco antes que eu adormecesse, na tevê, no dvd, no computador, sei lá: "você é artista, não precisa ouvir ninguém". Isso, quem sabe, porque venho me debatendo (e vocês aqui no blog acompanhando) com o assunto, se devo acatar ou não a opinião alheia, a não ser, é claro, quando é elogio (raro). Em sua imperdível coluna de hoje, Jabor deplora a poluição cultural que nos assola, "perigosa como o efeito-estufa", grande Jabor.
Na semana passada eu já o tinha condenado à gaveta dos aposentados, senis, derrotados, francamente, com aquela história requentada de videomemória de planeta acabado: fiquei tão triste que nem comentei o assunto. A decadência que nos cerca é tanta, que a gente acaba se acostumando, como, por exemplo, neste epitáfio filmado do (ex)grande Woody Allen que é "O Sonho de Cassandra", assim, com letra maiúscula sim, tratando-se do nome de um barco e não de tragédia grega, embora o filme seja, sim, sob todos os aspectos, uma tragédia, se é que vocês me entendem. Eu nem sei o que ele tem de errado, só sei que não rola, não desencarna, e naquele ramerrame infinito pontuado de música grandiosa (e óbvia)... enjoa. Nem a excelente dupla de protagonistas — Colin Farrell e Ewan McGregor, com o delicioso sotaque britânico —, decola. Pensei que era o caso também do nosso Jabor, e honrando a admiração que sempre tive por ele, "um dos homens mais inteligentes do Brasil", resolvi deixar pra lá, vocês sabem, em sinal de respeito, memória, reverência. Mas eis que o homem ressurge atentado, ou melhor, antenado: "tem muito crítico americano que acha que a decadência da arte européia é provocada pelos subsídios que os governos dão, pois, sem competitividade de mercado, o talento morre", e não é só americano não, Jabor. Do que me lembro é do meu profundo espanto quando fiquei sabendo, lá pelos 1990s, que a maravilhosa companhia de Pina Bausch era T-O-T-A-L-M-E-N-T-E financiada pelo governo alemão, com castelo medieval em Wuppertal e tudo. E como se não bastasse, Jabor complementa com a cereja do bolo: "Pode ser que Obama seja o indício de uma renascença. O alto nível deste homem pode ser a promessa de um novo tempo", dá-lhe Jabor. Com tanto palpite contra, principalmente do enfático republicano aqui de casa, eu até já estava na dúvida, mas agora vem cá: será que tanta gente, importante e inteligente, apoiando o cara... estão todos equivocados? Rezemos pra que não, olha aí, já tô até rezando pra qualquer deus que se habilite: Deus nos salve com os Estados Unidos da América. Desculpe aí, Jabor, o mau jeito da carona. Valeu pela força.
O blog do bonequinho avisa: Wim Wenders, diretor alemão que tem lugar de honra no meu panteon de carinho, vai dirigir um filme de horror, que horror, no Japão: "um empresário bem-sucedido que aproveita sua passagem por terras nipônicas para cometer brutais assassinatos." Abomino o gênero. Taí uma coisa que não merece a democracia da imagem, gente. Aliás e a propósito. Acabei de assistir o terrível, desprezível e imoral "Violência gratuita", francamente, coisas assim deveriam ser proibidas para a raça humana, sério, é preciso um limite. Me lembrou o horror inspirado de "Laranja Mecânica", mas o tempo de Kubrick deixou saudade, e a reabilitação histórica de um torturado e inesquecível Malcom McDowell/Alexinho ao som de Beethoven, também. Mais moral e menos arsenal, gente. Fujam.
Só nos resta tentar regenerar, com torturantes requintes de Mozart, os adoradores deste tipo condenável de ruído ensurdecedor.
"Só trabalho com o que me afeta pessoalmente", declara Julian Schnabel, brilhante judeu novaiorquino de 56 anos que enquanto excelente pintor é ótimo cineasta. "Transformar o Escafandro e a Borboleta em filme foi, para mim, uma forma de lidar melhor com a idéia de morte e, também, de compensar uma tentativa frustrada de aliviar meu pai — de quem eu era muito próximo — do medo que ele tinha da morte."
Sei muito bem do que ele está falando e, além do mais, por incrível que pareça, no mesmo dia em que aluguei o filme tentei aliviar minha tia octogenária do medo da morte que ela tem sentido e... falhei. Se soubesse que seria ouvida — ou se ela ao menos se dispusesse a lutar por sua própria vida —, eu recomendaria este filme: uma lição paradoxal de otimismo e uma ode à imaginação, à memória e à fantasia como premissas básicas, mais básicas até que um corpo, para a existência de vida humana. Nem preciso dizer que me espelho também no trágico protagonista da história, o jovem e charmoso Jean-Dominique Bauby, diretor da Elle francesa que em 1997, aos 42 anos, sofreu um grave derrame que o deixou "trancado por dentro", com a mente consciente mas totalmente paralisado, com a honrosa exceção do olho esquerdo que passa a fazer as vezes de boca, mãos e língua. Nem preciso dizer, é claro, que sofro muito mais do que ele já que eu, com dois olhos, dois ouvidos, língua, boca, pernas, braços e ampla liberdade de discurso e movimento, fracasso repetidamente onde ele com um olho só se deu tão bem: em transmitir pensamento e emoções (por escrito) aos outros e ser por eles entendido. Ironias à parte — não reparem: são só pra disfarçar o nervoso — trata-se de uma história tocante como poucas, um exemplo de fibra moral e uma lição de sobrevivência e mais: uma franca celebração da literatura, estratégia criadora que, literalmente, costuma salvar vidas. Sério candidato a filme do ano e já laureado em Cannes em 2007, a beleza, o dinamismo e o enfoque único deste "O Escafandro e a Borboleta" excedem qualquer expectativa, nada a ver com seu similar mais recente "Mar Adentro", outra história real de superação que acabou em livro: é o que distingue um bom filme (o segundo) de uma verdadeira obra de arte (o primeiro). Gostei demais desse filme e o recomendo, é claro, com entusiasmo. E se dei a ele apenas quatro estrelas aí nos bibliografilmes foi por causa de um deslize, a meu ver indesculpável, na honestidade do roteiro: tendo o apoio da ex-mulher de Bauby e a preocupação de garantir o futuro dos filhos dele, o filme opta por enganar o espectador quanto à verdadeira participação na história da namorada do escritor que, para preservar sua memória afetiva, preferiu se manter à margem do projeto. Acabou rotulada de fraca, superficial e incapaz de lidar com as dificuldades da vida, coisa que ouvi dizer não corresponde à realidade. Para um artista tão comprometido com a verdade, Julian Schnabel, perfeito em tudo o mais, poderia muito bem ter passado sem essa.
Se existe uma coisa que todo mundo sabe a respeito de sonhos é que sonhos não são chatos. Podem ser prazerosos, eróticos, assustadores, mas chatos nunca. A gente acorda sobressaltado no meio da noite, o peito acelerado, o corpo imóvel afrontado, a sensação do extasiado. Dolorido. Surpreso. Esclarecido. Mas entediado? Alguém aí já experimentou despertar de um sonho... por tédio puro?
E gastar com a chatice experimentada uma extra meia dúzia de horas (e de notas de cinqüenta) tentando entender o que afinal está acontecendo? Ou lhe aborrecendo? Pois é. O que eu pergunto é porque sendo os sonhos matéria das mais instigantes, misteriosas e relevantes da existência humana — e além disso, claro, um tipo único de viagem pela qual todo mundo passa, sem distinção de idade, credo, bolso ou raça —, a maioria dos textos e estudos e filmes e livros elaborados sobre eles é tão... chata. Fico pensando se a razão pra isso é a frustração antecipada, a certeza esperada de que por mais que a gente diga, pense ou especule, nunca vai chegar nem aos pés de elucidar esse grande prazer noturno, o que só pode resultar numa tremenda vontade de ir dormir de uma vez e parar de pensar, pra passar a viver. Youth Without Youth, o novo filme de Coppola que assisti ontem (ainda sem título em português, eu acho: o NY Times gostou), depois de um jejum de dez anos do diretor, é uma falsa promessa desse tipo. Foi por puro acidente de percurso — ou de controle remoto — que apertei na opção de legenda "comentários do diretor" e fiquei sabendo que o filme, resumido como um sonho extenso e complexo na seqüência de abertura de uns poucos minutos, levaria contadas duas horas, ah, gente, pra quê. Passei as duas horas seguintes contando os minutos, segundos e frações de segundo (2:04:53) e, por que não dizer, interrompendo a sessão de quando em quando por qualquer desculpa: lanchinho; banheiro; coceira no pé. Não vendo a hora de acordar daquele pesado pesadelo, uai, gente, será que esbarrei num tesouro filológico? Pois é: entre outras mil coisas diluídas é sobre isto o filme: a origem, o desenvolvimento, e o fugidio sentido da linguagem falada e escrita desde os seus primórdios e é por isso, imagino, que parte do filme é falada em chinês, sânscrito, egípcio antigo e sem qualquer legenda. Só escapa à incompreensão generalizada um ocasional namastê, omni padni ohm, ohm, ohm — acreditem: o protagonista da história entabula um diálogo com uma pretensa monja reincarnada na base do ohm pra cá e ohm pra lá, como se fosse assim um "oi tudo bem", se é que vocês me entendem —, e é quando a gente descobre que, apesar da promessa joyciana(mais uma, mais falsa) da capa de um Finnegans Wake mostrada em close sobre a mesa do sonhador, o filme se baseia mesmo é numa história de Mircea Eliade, com iniciação xamânica pelo fogo e tudo (atingido por um raio). O Alan não sabe quem é, mas eu sim, uai, gente, por que será? Se normalmente é ele quem sabe tudo? Vai daí que, pra explicar a ele, me perco num desses labirintos mentais emaranhados da memória e acabo num festival de besteira, descrevendo Eliade como um "historiador medieval". Mas, gente, é fácil de entender: o nível filosófico de complexidade do autor passa pela Lei do Eterno Retorno — vulgo carma —, reincarnação, transmigração, metempsicose — opa, olha Joyce aí — e pra cair no popular: baixação de santo mesmo, com ecolalia e tudo pretendendo uma profunda sabedoria, ops, o termo que eu queria só sei em inglês, desculpem qualquer coisa: gibberish, muito usado nos muitos encontros esotéricos internacionais que freqüentei. Coisas típicas da Idade Média. A menção por Coppola do multinglês de Joyce tem a função, imagino, de afastá-lo do universo redutor de Eliade — que numa rápida consulta ao google percebo que é na verdade, contra o que eu imaginava, um escritor romeno do século vinte mesmo, que ah, bom, escreveu sobre religiões, ritos e outras macumbas, tudo bem: é por isso que eu conhecia seu nome tão bem — para elevá-lo a um patamar intelectual de grande arte mas, ora, gente: ele falha miseravelmente, nisso e em tudo o mais. Sua "ressurreição" para o mundo da consciência consegue ser mais chata, intrincada e desprovida de sentido que o pior dos textos explicativos sobre a intrincada e atraente realidade dos sonhos. Fujam. E se apesar da minha intenção de diverti-los este texto acabou intragável, não se espantem. E me desculpem: é mal do gênero. Melhor sonhar na cama mesmo, e desistir pra sempre de compartilhar a experiência*.
*pra quem não percebeu, segue a explicação da piada infame: "vocês sabem quantos esotéricos são necessários para trocar uma lâmpada? Muitos; pelo menos 20 (não me lembro o número exato): 1 para trocá-la e os demais pra "compartilhar a experiência."
Não dei 5 estrelas aí do lado ao filme porque, sinceramente — e apesar da indicação (frustrada)ao Oscar 2008 —, continuo achando Laura Linney monocórdia e chata. Em franco contraste com o camaleão do momento, Philip Seymour Hoffman, superconvincente em seu papel: não sei se por coincidência ou não, vi recentemente três ou quatro filmes com ele, e em todos eles o cara arrasa, com todo o seu inexistente sex appeal de antigalã. Como consumidora voraz de filmes, tenho dois jeitos bem diferentes de assisti-los: com distanciamento e avaliação crítica enquanto obra de arte, ou, com envolvimento total, chorando do primeiro ao último fotograma (há gradações entre os dois extremos, claro): é o caso deste A família Savage.
Pra começar me identifico tanto com a situação do roteiro que o filme valeu por uma sessão de terapia, contradizendo a fala do professor Jon Savage: "Isto não é sessão de terapia. É a vida real, Wendy." Não custa ressaltar que em alguns detalhes difiro radicalmente dela, Wendy Savage: não minto; não tenho um caso amoroso com homem casado (embora sim, um companheiro oito anos mais velho e dono da verdade, mais uma crise sexual de meia idade); não fraudei o governo ao receber indenizações indevidas (qualquer semelhança com a nossa realidade é mais do que coincidência: é fato real mesmo e, pelo visto, mais comum do que a gente desconfia). No mais, é a vida real retratada em fiéis nuances: a dor provocada pelo pai, primeiro omisso e depois demente; a exploração do sentimento de culpa dos filhos por "profissionais do ramo", mesmo no caso de não ser a culpa nem um pouco justificada; a dificuldade de aceitação de uma situação do gênero e da gravidade dela; o contraste entre os irmãos refletindo as diferenças sócio-profissionais entre mulheres e homens; a vida dura, frustrante e humilhante de escritor iniciante, haja instinto de sobrevivência. O irmão de Wendy, vejam bem, é um sujeito legal. Ambos compartilham um trabalho intelectual, o que não impede Jon de menosprezar a importância da irmã (vocês sabem: que não tem emprego fixo, tem uma vida "portátil" sem "muito o que fazer" e batalha pra produzir uma peça que todos consideram insignificante): tell me about it, era eu na tela e dá-lhe mar de lágrimas. Lavei a alma. Depois do fim já esperado de todos os dramas, da morte do pai, da retomada pelos irmãos de suas rotinas normais — e isoladas quase sempre —, o filme não falha em terminar com uma ponta de esperança que me deixou com alguma, se é que alguma sempre resta enquanto a gente agüenta insistir na espera. Pelo menos fui dormir com a (realista ou ilusória?) sensação de que tudo dá certo no final. Cada qual com o destino que merece e que trabalha como um louco para encontrar. Recomendo.
"A vida só é entendida em retrospectiva, mas deve ser vivida sempre em frente." Soren Kierkegaard
Nem vou me estender na louvação do excelente "Jogos do Poder" de Mike Nichols, drama baseado em fatos reais com roteiro enxuto e ótimas atuações de Tom Hanks (tudo bem: meio fantasiado de Bill Murray, mas deixa pra lá) e Phillip Seymour Hoffman, mais toques breves da habitual canastrice estelar de Julia Roberts: apesar de cortejar o gênero, crítica cinematográfica não é o meu negócio, mas crítica da vida, sim.
Pois é. Enquanto eu me contorcia de dor aqui no sofá com o drama muito particular de um pé torcido — em épocas passadas eu diria, tá certo: uma resposta física ao impulso mental de insistir em andar pra frente a qualquer custo quando tudo me aconselha a esperar sentada — perguntei ao Alan entre os muitos gemidos e a queimação da bolsa de gelo: — Agora vem cá: como é mesmo esta crise do arroz? O preço dobrou em que moeda... já que o dólar caiu à metade? Taí. Me enrolei na vontade e perdi a novidade, claramente exibida antes que eu pudesse fazê-lo em artigo de Roger Cohen no New York Times de hoje e que traz, ainda por cima, outras considerações importantes sobre o mundo especulativo em que temos vivido: é um deus transformado em demônio por dia e vice-versa, uma gincana de fatos duvidosos interpretados à luz de interesses escusos. Desconfie de tudo o que você lê. Para tudo há um segundo, um terceiro, não sei quantos outros lados: tudo depende da habilidade de quem escreve ao enrolar o leitor e da susceptibilidade do leitor ao se deixar enrolar, e é neste mar agitado que é preciso aprender a navegar. Ou então, manter-se à margem dele, porque a verdade está em outro lugar, e é neste ponto que a mensagem do filme no primeiro parágrafo se funde ao CQD deste antepenúltimo: as coisas realmente sérias se desenrolam por trás do véu de nuvens da mídia, pode acreditar. Duvidou? Não entendeu? Não importa: leia o que há pra ler, veja o que há pra ver, escute o que há pra escutar, jogue tudo no liquidificador e bata sua própria vitamina de atualidade para obter um resultado privado tão conveniente quanto... desculpe: enganoso. E por favor não se aborreça por continuar por fora dos fatos: contente-se com o mero exercício de bom senso contrariando a realidade aparente, ou, fala sério, melhor se mudar pro mato. Já estou arrumando as malas. No fundo no fundo, é como o Alan diz: salva-te a ti mesmo e pronto, pois se cada um conseguir se salvar acabaremos todos a salvo, é não é? Parece egoísmo, mas é simplesmente uma boa estratégia de sobrevivência que acaba num ditado antigo e meio fora de moda em tempos onde tudo e todos têm que ser apenas o máximo: pense global, aja local. Ou traduzido em miúdos: pense nos outros mas se vire sozinho. Você pode perguntar: e a solidariedade? E a miséria dos menos favorecidos? E a compaixão? Não sei a resposta pra nada disso, mas no que eu puder, respeitarei a mim mesma e àqueles que me cercam, o que é muito mais do que a média do que se faz. Se no caso de "Jogos de Poder" esta regra tivesse sido respeitada, nem haveria invasão soviética, só pra começar. Imagine trucidar, torturar e estuprar o seu semelhante só porque você pode. Ou pensa que pode. Ah, sim. Vem do filme de Nichols pela boca de Charlie Wilson, personagem real e exemplo típico do oposto de tudo o que acabei de dizer, um excelente conselho: termine sempre o que você começou. Nada resulta em mais nós intrincados do que várias pontas soltas, e todo mundo sabe como foi que acabou a intervenção armada dos Estados Unidos em favor dos mujahedin no Afeganistão. E chega por hoje que estou com o pé inchado, ok? E garanto que não é só o pé não, viu?
"Este filme é o pior que já vi Vi este filme com poucas expectativas e não me decepcionei. É tão ruim que chega a ser engraçado de um jeito respeitavelmente excruciante.
Gael é absolutamente horrível, quer dizer, simplesmente não representa, ponto. Ele deveria desistir já, porque atuar claramente não é a praia dele. Seus companheiros de cena são do mesmo calibre, tenho certeza de que meu primo de 5 anos poderia fazer melhor que todos eles! O diretor deveria se envergonhar de colocar seu nome em algo tão ridículo. De todo jeito acho que o Oscar não está no destino dele. Nunca escrevi um comentário no IMDB antes, mas o filme é tão ruim que me senti compelido a fazê-lo. Se você tiver uma chance de assistir, não dê de 0/10 se houver um zero(?)."
Nunca fiz isso antes, mas assino em baixo desta porcaria de crítica porque, sinceramente, me senti compelida a fazê-lo: tal filme merece tal crítica, mesmo descontando minha simpatia prévia por García Bernal. Tudo bem que estou com um humor de cão hoje e bastante deprimida, mas mesmo assim fui com a maior boa vontade, respaldada pela fama de Alan Pauls na última FLIP. Não deu mesmo. Se eu estivesse com mais energia ainda seguiria no mesmo ritmo para criticar o enredo, mas fica pra outro dia menos terrível, sorry folks. Depois eu conto.
"O propósito da arte é revelar a sensação das coisas como são percebidas, e não como são conhecidas." Viktor Shklovsky, Russia, 1893/1984
Eu recomendo. Levada pelo entusiasmo raro de Dona Bárbara Heliodora, abandonei momentaneamente minha toca de fera enjaulada no Alto Leblon para ir ao teatro no Centro, fato também raro e, ultimamente, cada vez mais destinado a desembocar na verdadeira selva. Valeu a viagem.
Embora eu tenha ficado incomodada com o excesso inesperado de texto na peça (uai, gente: e teatro não é essencialmente texto? bem. nem sempre. Felipe Hirsch privilegia a imagem, que aqui também não faz vergonha na leitura de cena original de Daniela Thomas), mas, peraí: o que eu mais gostei não foi do cenário interessante, nem da atuação por vezes periclitante; gostei muito foi do texto mesmo. Já o Alan, coitado, boiou a maior parte do tempo, foi isso que na verdade me incomodou, deu pra entender? É a tal da solidariedade amorosa. No pouco que relaxei mergulhei nas cartas de amor fictícias de Victor Shklovsky, uma reflexão sobre a natureza da arte e da literatura no início do século 20, e por que não, sobre o exílio e "não sobre o amor", uma espécie de avesso da relação amorosa refletindo a dureza da vida em volta: meus assuntos primordiais. Metáfora básica para o entendimento da peça, ou do nome do livro que deu origem à peça, "Zoo, or Letters Not About Love", é o fato de que os exilados russos em Berlim costumavam morar perto do jardim zoológico — esclarece Dona Bárbara —, mas ah, tanto faz: o que interessa mesmo é o realce dado à vida interior do escritor, como todo mundo sabe, um espécime raro e digno mesmo de um zoo. A pátria, escreve Viktor, é onde está o seu amor. Para o escritor, este amor maior está na escrita: sua pátria é a literatura, e tudo o mais não passa de passageiro endereço postal. Não acredita? Tudo bem que hoje em dia esta nossa profissão anda desacreditada, mais pra um pastiche do que já foi um dia e gravemente contaminada pelo tino comercial, mas nos anos 1920 a coisa era bem outra, bem mais visceral. Se você duvida, pode perguntar pra James Joyce. Zoológico semelhante apresenta Claude Lelouch em seu excelente e sempre-quem-sabe-último-filme, "Crimes de autor". Vindo do Lelouch romântico de "Um homem e uma mulher", eu não esperava tanto. O filme é magistral, da música à cena uma celebração, ah, tá bom: vai ver eu gostei tanto por se tratar novamente do mesmo tema: o animal escritor e seu instinto predador, no roteiro habilmente retratados e analisados à luz do fenômeno vazio da moderna notoriedade. E mais: fazendo de um dos homens mais feios do mundo um monumento ao charme do intelectual. Eu recomendo.
Sem querer comparar, porque comparação assim, direta e explícita, na verdade não existe, a reportagem do Globo sobre a atuação evangélica nos tribunais do crime "organizado" mostra alguns pontos de convergência com a trama do excelente "Sangue Negro", filme que valeu o Oscar de melhor ator para Daniel Day-Lewis. Ambos mostram muito bem o deletério efeito da leniência do estado e da ausência de qualquer respeito aos direitos humanos, compreensível nos tempos pioneiros da exploração do petróleo nos Estados Unidos de princípio do século passado mas inaceitável para nós, cidadãos, imaginem, de um "avançado" século 21. Acuados, aprisionados na perversa armadilha que confronta a ganância material com a ganância espiritual, a tendência — personificada no filme pelo garoto "usado" como filho pelo oilman Plainview — é que a gente acabe surdo. O que não significa, de modo algum, morto. Enquanto existir amor, existirá esperança e apoio, espaço para reação e, porque não, possibilidade de salvação. Não no outro mundo, que fique bem claro, mas neste aqui mesmo — soa piegas, eu sei, mas não é nada disso, nem se trata do "amor de Jesus" ou de "milagre" contra as forças do demo: é que no filme o garoto, já adulto, encontra mesmo o amor de uma mulher e forma família, quebrando o ciclo perverso de perpetuação da violência.
Quanto às formas de truculência de ambos os lados, se levadas ao seu limite, tendem a se anular mutuamente, resultando em sua pura e simples eliminação. O filme, pelo menos, termina muito mal para os radicais opostos mas igualmente perturbado(re)s: o empresário sem escrúpulos e o pastor messiânico no fio da navalha da fé. Falta ao "juiz" do "tribunal" carioca do crime a consciência moralizadora do braço pesado da lei — provavelmente por ser a presença desta rarefeita e rara — que leva Plainview, no filme, a reconhecer sua inescapável derrota: "estou acabado". Leitor articulado em carta à redação do Globo pergunta ao temerário repórter Mauro Ventura porque não chamou a polícia. Direitos constitucionais e interesses sigilosos à parte, compartilho a dúvida. No nosso caso bem real de desprezo absoluto pela ordem estabelecida, ficou faltando a força confortadora da justiça. Da justiça dos homens, digo, dos homens de bem.
O livro não li e, portanto, não posso criticar. O autor é simpático, tranqüilo, centrado. Gostei dele. Não liga pra fama. Não é celebridade. Preocupa-se com o presente e o futuro do seu país, e que país. Nem consigo descrever, apesar do autor de "O caçador de pipas" descrevê-lo muito bem. Seco. Torturado. Como o próprio Khaled Housseini diz: estuprado, coisa que, bem, como o filme mostra, vai bem além da metáfora.
Sob o jugo do talibã um país que, francamente, para nós do laico ocidente modelo século 21 soa bastante demente: adúlteros apedrejados; patrulha de barbas; meninos seviciados; violência sem limite e outras sandices humanas do gênero, um pleno inferno. O filme, empreendimento internacional curiosamente semelhante ao que produziu "O amor nos tempos do cólera" em Cartagena — baseado no também best-seller de Garcia Marquez —, consegue um resultado bastante superior. Mesmo sem nenhum astro, são atuações pungentes. Mesmo filmado na China e não in loco, convence completamente. Envolve. Machuca. Só não gostei do final da trama muito encaixadinho e redentor demais. Não é que eu não acredite em redenção, sei lá, segundas chances. Acredito, e sem este tipo de esperança, sinceramente, nem dá pra seguir em frente, mas no contexto, sei lá, soa meio marqueteiro, assim, adequativo, só para evitar aquela outra palavra desagradável com o mesmo sufixo. Nos extras do dvd a gente percebe que até mesmo o autor compartilha deste breve constrangimento, quando ele confessa ter sido convencido por amigos e pela mulher a suavizar o final pretendido: esse novo, mais feliz, ele aceita, acha que "funcionou". Mas, sei lá, pagou um preço: deixou o bom romance fora da lista das obras-primas, todas impiedosas e sem ligar nem um pingo para a opinião alheia, prestando atenção unicamente ao impulso inicial do escritor. O livro eu não sei, mas seus meses e anos na lista de best-sellers com certeza dizem alguma coisa. O filme, recomendo. Bom domingo procês.
"A felicidade só é real quando compartilhada." do livro de anotações de Christopher McCandless
Mais do que a temática aventureira do filme, o que me preocupou demais, confesso, foi a procedência da recomendação. Me perguntei: será que meu sobrinho brilhante, um autêntico viajante, tem apetite por aventuras perigosas? Espero que não, porque eu, nunca tive. Aventuras mentais e emocionais? Todas. Mas bem vestida, abrigada e alimentada, obrigada. Não me excito nada com a possibilidade do risco, com o amor ao perigo, e pra dizer a verdade, nem entendo bem isso.
Ressalvas feitas, o filme é bom. É bonito. É bem-feito. Arrebatador. Meio longo, mas a atuação, estupenda. Muito convincente, não fosse, é claro, baseado num relato real. Não quero estragar a emoção de ninguém mas, cá entre nós, há um certo parentesco entre este filme de Sean Penn — Na natureza selvagem — e aquele antológico-porém-horrível do Herzog sobre o homem-urso ou coisa assim: entusiastas do meio-ambiente selvagem. Tô fora. Dá pra ler na wikipedia que o Alexandre Supervagabundo real não era assim tão heróico, mas até, sem ser nada burro, meio pretensioso. Iludido. Despreparado. Meio desesperado por dentro e com uma certa mania de grandeza, o que não deu muito certo. Transformado em mito moderno pelo escritor Jon Krakauer, o "fenômeno McCandless" chega a irritar o pessoal dos parques nacionais no Alaska, com o perdão do mau trocadilho: um excesso de candura. Chris/ Alex, em sua jornada de pós-graduação anti-social, aprendeu muita coisa sobre a natureza, e mais ainda sobre a natureza humana. Só não sei se teve tempo pra fazer bom uso, ao contrário do que indica o nome do último episódio no filme: "tempo de sabedoria". No mais, deixou sequelas, uma delas online, pra quem tenta viver à margem do sistema. O Ministério do Bom Senso adverte: há limites. Um filme desses deveria vir sempre com a recomendação na capa: não tente isso em sua vida real; as conseqüências podem ser fatais.
"When you talk about destruction you can count me out", cantava John Lennon, um rebelde de todas as causas. Se geração tivesse trilha sonora, a da minha seria algo assim como este "Across the universe", o (delicioso? imperdível? maravilhoso? sei lá, tudo isso ou nada disso, mas tocante, sim, a mim pelo menos tocou: basta de adjetivo clichê) filme de Julie Taymor.
Vamos combinar: John Lennon não tem nada a ver com James Joyce, a não ser o fato de que ambos me inspiram. E esse filme não tem nada a ver com esta crônica e muito menos com este livro a não ser pelo fato de que descobri, assistindo, que embora na minha memória eu saiba de cor as letras de todas as músicas, nunca as entendi como venho trabalhando para entender o Ulysses: entro no modo automático e as repito até hoje feito uma macaca, ieieiê, eu sou ele que é eu que sou você que é ele também todos somos a morsa mas ops, peraí: quem é o Homem-Ovo? Não faço a menor idéia, mas de experts texperts estou por aqui. Freiras pornográficas, mingau de sardinha, socorro: do que é que este cara está falando? O Sargento Sardinha chutou Poe para o alto, mas poderia ter sido Joyce: gogogoodjob. Elementar, meus caros. "Não sei qual foi a intenção de Lennon", confessa Julie em documentário no dvd. "Talvez ele esteja se revirando no túmulo e todos fiquem chateados [com o filme]. Pois é. Não sei qual foi a intenção de Joyce no Ulysses e pode até ser que ele se revire no túmulo, mas cá entre nós: não creio. J.J. curtia uma boa paródia e não estou aqui pra chatear ninguém, vai dar tudo certo. E se não der, podem me incluir fora dessa. Libertem a mente, porque eu, faço o que posso.
Eu já não estava no melhor dos meus dias quando, à noite, veio aquele soco na cara. Francamente. Às vezes eu penso que quem faz as leis não é gente. É, sei lá, um raça à parte, que não tem filhos, nem pais, nem amores, nem coração: bate no peito uma bomba-relógio, sempre a ponto de explodir. De explodir o outro, claro.
Sentada ontem à tarde no corredor do Forum perdi a minha guerra. Perdi o controle, a chave da fortaleza e, simplesmente, chorei. Vinha tudo correndo bem, mesmo a mais absurda das disposições legais como esta de transportar um idoso incapaz até o gabinete do juiz, visivelmente constrangido, quem não, bem: quem não é gente nem liga, apenas despacha, como aquela atendente do cartório, por exemplo, que ao exigir uma tardia certidão de nascimento não sabe do que está falando. Tive sorte. Mamãe nasceu em Belo Horizonte, não na Lituânia ou outro país desses que nem existe mais, onde a seqüência de guerra destruiu qualquer arquivo ou registro civil, imaginem. Porque se fosse comigo, fala sério, e eu já não tivesse transitado pelos meandros teóricos da nacionalidade brasileira, teria que ir a Israel. Mas neste caso não é nenhum fim de mundo, é só Belo Horizonte, eu sei, e apenas quatro cartórios para dar a busca, coisa que não mata ninguém, mas, sinceramente, matou minha resistência já prestes a ceder. Durante todo o caminho de volta vim chorando por dentro, por fora a lágrima ocasional, como é praxe em ocasiões como esta, revendo a jornada, todos os problemas, todos os obstáculos que enfrentei: não houve sonho de mato que me consolasse. Mas chegando em casa o chuveiro morno, o jantar na mesa, a presença do Alan, me acalmei e encerrei o dia com um dvd alugado no player. Praquê. Eu sei. Não estava no melhor dos meus dias, mas, francamente, para este "O suspeito" não tem dia melhor: só a certeza de que o bem no mundo não passa de ilusão, e todos nós, de carrascos eventuais, ai, gente. Que vergonha de ser gente. Que vergonha de ser branca, ocidental, vítima de teorrorismo, parente daqueles que caíram ontem, ontem mesmo, numa yeshivá de Israel. Que vergonha do marido americano, forçado a deixar de ser gente pra defender sua gente. O Alan, nervoso, procura uma desculpa qualquer pra endossar o absurdo — a decisão mecânica e desapegada de um ET disfarçado de funcionário do governo ou agente secreto ou sei lá que tipo de monstro insensível e pior: mulher —, a opção inumana que transforma a defesa em ataque selvagem e faz de nós nosso pior inimigo: o pior inimigo de todo mundo, um terrorismo do avesso e à enésima potência, um remédio mais letal do que a própria doença. Vergonha. Termina a sessão e o Alan se debate, vê e revê algumas passagens, avança no disco, volta ao capítulo anterior, congela, analisa, tudo na vã esperança de me convencer que há falhas graves no roteiro deste filme, mas gente, infelizmente, todo mundo sabe: não há, é tudo real mesmo e todo mundo sabe que está acontecendo assim, mas prefere fingir que não. Com tudo isso o tesão da arte se esvai, e, sinceramente, não sei quando volta, ou quando volto à minha vida dissoluta de criadora, leitora e escritora de crônicas irônicas, fala sério. O Alan me aconselha um texto leve, com toques de humor, ou então, vocês sabem, o Globo não publica e ninguém vai querer ler, mas me desculpem, amigos: não dá pra fazer piada com a semana que passou, porque pra tudo há limite, até pro detonador de humor que bate automático dentro do meu cérebro, uma bomba-relógio que não consigo explodir. Desarmou.
"Daqui a uns dez anos", afirma no Megazine a jovem atriz argentina Inés Efron, "me imagino vivendo no campo, apaixonada." Eu também, Inés, isto é, vivendo no campo, porque apaixonada na minha idade eu já não sei, bem, nunca se sabe. E muito menos se o nosso mundo insano resistirá a mais dez anos.
Pois este retrato do fim do mundo que Jabor descreve hoje é bandeira à beça: acho que ele está apaixonado. E se não for por mulher, pelo menos por seu retorno ao cinema, vai daí a cena romântica de Fred Astaire nos braços de Ginger, ops, Eleanor Powell. É bacana mesmo, uma cena indiscutivelmente feliz, olha o advérbio aí, gente: nada recomendável em crônicas segundo Mestre Joaquim. Tô nem aí. O que me chamou a atenção no texto de Jabor não foi nada disso, mas a data fatídica que precipitou a desgraça anunciada através da influência gravitacional, há muitos anos, do "Shoemaker-Levy 9, um cometa de gelo ridículo que se enfiou em Júpiter a 16 de julho de 1994", ops, 16 de julho? Macacos me mordam se não é a data do nonagésimo aniversário do Bloomsday, pô, gente, ainda morro disso, isto é, de mordida de macaco: o Bloomsday é no dia 16 mas não é de julho, é de junho, Noga, me espanta você se enganar com isso, e ainda mais se tratando de um texto de Jabor, que todo mundo já sabe, despreza Joyce (fazedor de trocadilhos, etc, etc), ah, quem liga. O negócio é fazer história, ou melhor, criar uma. Outra coisa espantosa é que, depois de décadas de pessimismo messiânico, o nosso Jabor resolveu ser otimista — com o curioso detalhe da imprensa positiva e positivista à beira do fim anunciado e inevitável de tudo, isto é, da vida humana na Terra —, e termina o seu discurso sobre o fim do mundo com o casal dançando "Begin the beguine" e recomeçando sempre, por conta do auto-reverse do player, fala sério, Arnaldinho: só pode ser paixão mesmo. Dou a maior força.
Depois que descobriram um novo monstro marinho — isto é, um velho — numa ilha da Noruega, não vou me espantar nadinha se afirmarem que o de Loch Ness existe mesmo. Isso, claro, devido às descobertas tecnológicas de um Michael Crichton, que nos permite fertilizar dna de fóssil. Já estou pagando pra ver.
Porque se a gente deixar, um clima hiperreal de pesadelo toma conta de nossas vidas, e hoje nem é sexta-feira treze. É quinta. É fevereiro. Embora o dia de amanhã, todo mundo sabe, nem vai existir, calma, gente: é ano bissexto e, vocês sabem, outro assim só daqui a... sei lá. Nem quero saber. Como esse porteiro de Copacabana, coitado, espancado quase até a morte pelo simples fato de existir e ocupar um lugar no mundo, lugar errado, isto é, no prédio comercial fechado à noite. Ou aquele prisioneiro no Iraque, um cidadão comum torturado pelo simples fato de estar ali no carro, ou o garoto atropelado, ou aquele soldado queimado e esquartejado por seus colegas pelo simples comando da mente doente — síndrome pós-traumática — vítima e algoz afundando no mesmo barco, afinal de contas, são atores ou veteranos recuperados? Ou como o finado Tim Lopes que não tinha síndrome nenhuma nem estava no lugar errado, mas foi espancado até a morte, queimado e esquartejado assim mesmo porque, francamente, muito errado mesmo anda o nosso mundo. Ou nossa visão distorcida dele. E o nosso Tim, imaginem, nem foi candidato ao Oscar de ator estrangeiro. Injustiça. Ficou na dúvida se é realidade ou ficção? Eu também. Fico na dúvida o tempo todo, e para dirimi-la, tenho um método simples: a mídia. É livro? Ficção. É notícia? Realidade. Documentário? Realidade. Drama? Ficção. Nem sempre funciona, é claro. Tem documentário induzido, tem drama baseado em fatos reais e tem, principalmente, uma lógica muito humana que nos impede de acreditar nas mais simples verdades, como essa, por exemplo: tem um monstro vivo no Lago Loch Ness. Ah, tá bom. É um rolo intencional, afinal de contas, é assim que funciona um cronista: mistura alhos com bugalhos a um ponto tal que nem ele mesmo sabe se aquilo aconteceu, ou se ele apenas imaginou. Se ironizou tanto, como disse no outro dia uma leitora minha, que perdeu o rumo da crítica e acabou convencendo alguém de exatamente o contrário do que pretendia. Isso, claro, pra cronistas de segunda assim como eu. Que publicam às segundas-feiras, é claro, e também às terças, quartas, quintas e sextas-feiras, treze ou não, o que só pode acabar em confusão, e que tentam, sem muito sucesso, imitar excelentes textos já publicados e reconhecidamente geniais. Mas quando a gente se depara com um cronista grande, daqueles cujo talento não provoca confusão nenhuma, ops, dúvida, dá aquele baque: o tempo passa e o cara só melhora, não azeda nunca. Dá um humor na medida certa, um toque inteligente e único, não se perde, nunca decepciona. Um cronista desses, a certa altura um novo Veríssimo, é Antonio Prata, de quem às vezes me esqueço porque fala sério, tanto talento assim todo dia não dá pra encarar. Para os leitores dele, uma revelação constante. Mas para mim, que sou escritora, uma fonte permanente de inveja, confusão e dúvida, porque, francamente, se não for pra escrever como ele é melhor desistir, pendurar a caneta e desligar de vez o notebook. Ah, sim, o notebook é moderno, não desliga nunca. Nem a mente alerta do internauta: já não consegue se desligar. Deve ser por isso esta confusão crescente entre sonho e pesadelo, entre o fato e a foto, entre a vontade e o que acontece de verdade. Entre o talento e a ilusão, todo mundo na rede, inclusive eu, acreditando que é o tal. Na rede da minha varanda, é claro, de onde só saio para conferir os links e, finalmente, entender o que está acontecendo. E onde. E como. E com quem, porque comigo é que não é: não estou nem aí.
"O politicamente correto está matando a vida intelectual e literária" Denys Arcand em entrevista aO Globo, sobre seu novo filme "A idade das trevas"
O repórter pergunta a Denys se a palavra "nigger", pejorativo em inglês para preto, é realmente proibida no Canadá. Nos Estados Unidos, é. No outro dia, todo mundo viu um âncora famoso perder seu emprego de décadas por ter chamado alguém de sei lá o quê, que não me lembro, nem presto atenção. Aqui no Brasil, seria o correspondente "crioulo". Soa forte, mas ah, gente. São apenas palavras.
A maldade está no coração de quem ouve, já discutimos isso. Na mente de quem se recusa a ouvi-la, e por motivos bastante escusos. E se a percepção não muda, porque o preconceito mudaria? Que valor tem uma ética humanista que só sobrevive da boca pra fora? Agora. Só pra contrariar: diga isto cantando. Diga isto tocando. Desce redondo, não é? (e não. não é de funk que estou falando. é de samba. de bossa. de Beethoven, de Bach.) Tão forte é o poder da arte, afirma Arcand — destacando a sensibilidade profética dos artistas — que quem a pratica deve ser escutado. A música, aliás — embora para o bélico Bush não passe de uma boa besteira —, vem se afirmando, desde o fim de semana, como um novo instrumento de liberdade, de democracia. De mostrar o que há de bom, e quem não quer? Confiram-se as lágrimas norte-coreanas na platéia da Filarmônica de Nova York. Bonito. Gol de placa da cultura americana. Gostei. Grande Maazel: nem só de conflito armado nasce o entendimento. Aliás, vamos combinar: quase nunca. No conflito árabe-israelense, por exemplo, virá talvez, um dia, da orquestra de Barenboim, um bálsamo para o ouvido... e para o coração. Quanto ao resto da entrevista do cineasta canadense, não concordo com quase mais nada. Não vejo uma nova idade de trevas se aproximando, que nos forçaria a todos a mergulhar em obrigatório escapismo. Não. O que eu acho é que a compreensão se amplia, a comunicação se expande, a liberdade se infiltra na mente (e na rede) apesar de tudo. E o que vejo é que tudo isto resulta num entendimento humano que, cada vez mais, ignora fronteiras. O palco se ilumina para a ode à alegria: o hino da União Europeia é o movimento da 9.ª Sinfonia, você sabia? Abracem-se, milhões. Basta de babaquice.
"Ser irônico é colocar lado a lado verdades contraditórias, e desta contradição criar uma verdade nova acompanhada de um riso ou de um sorriso. E confesso que a verdade deve ser acompanhada de um ou de outro, ou a considero falsa e uma negação da própria natureza humana." Jane Austen
Na primeira noite, confesso que dormi. Não foi pra menos: eu estava exausta. Mas fiquei com a falsa impressão de que era puro tédio, uma filminho chato meio mulherzinha. Mesmo assim, no dia seguinte, insisti. Afinal de contas, tudo que se fala sobre literatura e, principalmente, literatura feita por mulheres — mas nada disso de "literatura feminina", eu, hein, isso não —, me interessa muito.
Não me arrependi. Antes, me surpreendi com as tiradas brilhantes, com a coragem e com o inconformismo dela. Difícil é imaginar a vidinha insossa que a mulher levava naquele época. Se conformar com ela: "Uma mulher, especialmente se tem a infelicidade de saber alguma coisa, deve disfarçar o fato o melhor que puder". Pobre Jane Austen. Virou best-seller e até hoje. Mas teve que abrir mão do amor. Vale conferir o filme, vale sim. Anne Hathaway, apesar da doçura mansa, transmite bem a idéia da vontade firme, da força interior. E mais o bônus de um sempre delicioso James McAvoy, ah, sim: Éireann, irlandês sim senhor, com sotaque de Limerick e tudo. Tô com essa turma até o pescoço.
Não sei se vocês estão sabendo, mas numa última cartada a cada vez mais desesperada Hillary acusou Obama de plágio em seus discursos. Cada detalhe eu não sei, mas ouvi comentários na tevê sobre uma das frases copiadas: "Todos os homens nascem iguais". Outra: "Eu tenho um sonho", uai, gente. Pensei que esta última era de Martin Luther King, não mais um homem, mas um monumento, e quando a gente a usa não plagia, mas cita.
Ah, sim: a primeira vem de Thomas Jefferson, na Declaração de Independência dos Estados Unidos. Mas se a gente vai mais a fundo a gente descobre (tá, tá: a repetição é de propósito sim) que a acusação de plágio se refere a um governador americano — ou melhor, afro-americano, tá tudo em casa — que contestou em seu discurso a alegação de que tais ditos famosos não passam de simples frases, apenas palavras, não mais que palavras ao vento. Uai. Complicou. Em seu já famoso incansável afã retórico, o vazio Obama Bin copiou o que já havia sido copiado, citou a citação da citação, excitação no ar: será este Obama uma fraude? Ou Deus nos livre, um Bin laden? É triste. Mas há quem afirme (não eu, Deus me livre: adoro ele) que isso é verdade sim, David Brooks, por exemplo, em artigo mais lido do New York Times. Se eu bem entendi trata o texto de uma febre Obama, claramente abordada como doença. Uma doença que passa, pena. Mas deixa seqüelas. Ainda bem. Nem todo mundo que acorda do "sonho Obama de mudança" descamba sem escalas para o pesadelo conformista do mundo atual, gente. Não. Há os que continuam ligados no desejo e na possibilidade de outros rumos, doa a quem doer, eleja-se quem se eleger. E nesse caso, ainda há muito para ver e ser revisto. Isso, claro, pra quem é capaz de desvendar as mentiras políticas da mídia. Eu não sou. A Cora não é. E onde vale o escrito resta saber quem escreveu, quem leu, e porque foi que o pau não comeu quando foi ao ar. Ah. Tá bom. A vida pública é feita de absurdos. Mas francamente: há limites. Ou não? De acordo com o denso, excelente e oscarizado Michael Clayton não, não há. Mata-se a rodo e tudo por dinheiro, e o fato do filme rezar pela cartilha antiga, verdadeira e já bem manjada de Erin Brockovich não o faz pior. Apenas mais real ainda. Incrível, fantástico, extraordinário: normal. Em política, tudo se critica, tudo pelo poder, tudo pela rejeição à mudança. Mas não adianta: a mudança é a única constante, e a julgar pelas últimas no noticiário, a hora é mesmo essa. Fidel sai de cena. Musharraf também, em breve, se Deus quiser e ele há de querer. E embora bem poucos o queiram, a Guerra da Bósnia também acabou de querer acabar. Vai tudo pelos livros de história adentro e tchau. Ou para o ostracismo da história. Agora, quanto ao furacão, ou onda, ou saco-vazio-que-mal-pára-em-pé Obama, só o tempo dirá o que é mesmo verdade, isso, claro, como lembra Veríssimo em sua crônica de hoje — mas todo mundo já pensou antes, e não se atreveu a dizer — se tudo isso não se acabar logo ali, numa poça de sangue em cozinha de hotel. Toc toc.
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Ah, sim. Só pra não ser acusada de (nunca) mudar de assunto: minhas crônicas sobre Joyce não são plágio não, gente. Joyce, todo mundo sabe, não é um autor, mas um monumento da literatura. E citá-lo não é... ah, bom. Além do mais ninguém o lê, e desse chapéu que nem pára em pé direito não há de sair coelho nenhum, ou pelo menos, não se preocupem: nenhum dinheiro. Fica tudo por isso mesmo, ou pela citação da citação da citação da citação e assim por diante. Deus me livre de qualquer dessas palavrinhas à toa que eu proferi por aqui se transformarem em profecia. Socorro.
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Ai, gente. Assunto muito complexo esse, cansei, que tal falar de sexo? Hein?
d'O Globo Como qualquer brasileira, é claro que fiquei contente com o Urso de Ouro de Tropa de Elite: é o nosso Brasil brilhando no mundo, gente. E a gente merece. O problema é que, apesar de reconhecer que se trata de um filme bem feito, não consigo compactuar com aquela violência toda. E nem aceitar o fato, que muitos encaram como consumido — ou melhor, consumado —, de que sem uma ação armada este mundo não vai pra frente, e nossa utopia de paz vai ficando perpetuada como o que sempre foi: uma utopia.
Como afirma o pai do fim da história Francis Fukuyama em artigo no NY Times a respeito da atuação do nosso Sérgio Vieira de Mello, um idealista convicto e fiel cumpridor dos preceitos pacificadores da ONU: "O fato em questão é que alguns conflitos simplesmente não podem ser resolvidos sem o recurso da força." O Alan acredita mesmo nisso. MacCain e os republicanos também. Enquanto isso, eu e mais uma meia-dúzia de três ou quatro dezenas de milhões de pessoas apostam suas fichas num inovador Obama. O idealismo, será que funciona? E uma plataforma política séria, sem romantismos adolescentes mas baseada no amor e respeito entre humanos, será possível? Não sei. Muita gente boa insiste que não, e neste domingo eu, sinceramente, sinto a tentação da retirada me invadir. Mas é só no domingo, gente, dia universal do relaxamento. Embora no que depender dos apologistas da necessária violência, claro, não há domingo nem dia santo que dê folga. Uma tristeza.
"O sonho é uma arte poética involuntária" Kant by Mario Benedetti by José Castello
Acho que foi Joyce quem disse certa vez não acreditar na possibilidade de tornar seu Ulisses uma obra universal através de traduções. O cinema, afirmava ele, seria um meio melhor, e isso nos anos 1920, quando a arte filmada carecia dos múltiplos recursos que tem hoje. Joyce era fã de cinema, e abriu o primeiro deles em Dublin em 1909. E leio en passant, no google, que chegou a discutir a filmagem de Ulisses com Eisenstein, isso sim, teria dado samba. Ops. Odisséia. Mas a verdade é que, apesar da riqueza de possibilidades, a posteridade ainda fica nos devendo, como no caso das traduções, um filme decente sobre o Ulisses.
Este "Bloom", de 2005, em versão dirigida in loco pelo irlandês Sean Walsh, não passa nem perto. Tá certo que eu estava num dia ruim, nervosa, cansada, sobrecarregada. No entanto, a simples e majestosa visão da Torre Martello sobre o mar esmeraldino (ou verdemeleca) de Eire já seria suficiente para dissipar tudo isso e me fazer mergulhar no clima de encantamento em que tenho vivido, enquanto leio o Ulisses. Que nada. Fui detestando os personagens um a um à medida em que apareciam: Mulligan gordo e gay demais; Stephen, hum, até que eu gostei do Stephen, romântico e delicado à primeira vista; Bloom muito baixo, muito bobo e careteiro demais, e olhem que sou fã do muito irlandês Stephen Rea desde os tempos de Neil Jordan, taí, um Neil Jordan cairia bem nesse projeto pretensioso e desprovido de humor (?!?). Com esse filme tive a dupla experiência de ver-o-filme-depois-de-ler-o-livro e ler-o-livro-depois-de-ver-o-filme, já que estou bem no meio do romance. Hora errada? Não sei. A verdade, vamos combinar, é que eu já tinha alugado este dvd antes mas, sei lá, não me lembrava de nada, acho que dormi, o que diz bastante sobre a força da obra. Na parte que li, concordei com os trechos escolhidos pelo roteirista — que não invejo, ô trabalhinho difícil — apesar de discordar totalmente da técnica de "leitura" escolhida para os fluxos de consciência, fala sério: o cinema merecia mais, e a maravilhosa ousadia criativa de Joyce, muito mais. Na parte que não li... boiei — nem dá pra entender o que está acontecendo e o excesso de texto comprimido em minutos de imagens dá curto em qualquer cérebro, resultando em flagrante desinteresse —, só não dormi porque vocês sabem, fui mordida pela antitsetsé que é a beleza do Ulisses. Resultado: tudo que eu quero agora é esquecer do que vi e me voltar para dentro de novo, para meu próprio arsenal imaginativo e meu casamento criativo muito privado com Joyce, que só funciona na solidão de alcova que é a minha mente. Um parêntesis só para as (cenas do bordel: Alan olha pra mim entre divertido e penalizado, você já leu isso? eu não, ainda não, coitada, quero ver como vai se virar). Muito bem, parece. Apesar das múltiplas teorias estético-psicanalítico-filosóficas que cercam o futuro e enigmático episódio "Circe", acordei esta manhã entendendo tudo muito bem: é a linguagem dos sonhos, gente, que Joyce explorou brilhante e herméticamente mais tarde no Finnegan's Wake, ai, tem dó: só vou chegar lá por volta de 2012, mas então: fui dormir com a cabeça cheia, cheia de dor mas em todo o caso, dormi. No fim da tarde eu recebera uma visita importante: un ami de Paris, é isso mesmo, doutorando de cinema — o que mais? — na Sorbonne que em outra vida havia sido barman do Cochrane's, nosso Davy Byrne's local convenientemente criado por Crocker — pirata britânico dos mares bravios a velas desfraldadas — e sua musa loura Úrsula, amigos de João, mon chéri ex-barman que, para minha surpresa, apareceu com uma família francesa: esposa e filho. Pois fui dormir com a cabeça cheia de Joyce, peixe, passado, pão, álcool, crônica, filme, webdesign, literatura, obrigação, Bloom, Rea, Alan, João, Pascale, Adrien Otávio bebê. No sonho, João já pai ex-barman de dentro da carteira um selo quadrado azul colado na tela ah! histórico completo da doutorando Paris enquanto um conto tudo muito fácil ah! reproduzido em qualquer lugar bastante colante um software distante na telinhafrancesa-meiocomputador ah! primeiro mundo altercoisa ah! ParisFrança! Adrien Otávio bebê contado seis meses de idade o português perfeito raciocínio impecável a aula uma gradação a toques de um francês? transição indigesta de longe o passado o crânio calvo remoto o controle do som ah! louca bebê Adrien Otávio seis meses ou menos ah! precisado de banho João pai ex-barman quase quarenta anos Pascale branconeon um artefato redondo estranho de um lado banheira do outro tela de computador digitada temperatura e tema ah! evitado o tédio lavada a beirada enlamada da calça um bege cru hora do táxi até agora nada aquela tralha toda Adrien Otávio bebê perfeito num perfeito papoperfeito todos trancados cinza nas grades do prédio cinza uma carona? ah! bate na vaga furgão amarelo sorriso amarelo ah! um bebê Otávio nãonão. Ufa. Acordei com os olhos muito espertazuis de Otavinho e pronto, gente: entendi tudo num átimo, só pode ser sonho, porque em outros, entendam, também eu já estive acossada e nua fazendo amor no meio da multidão num flagrante rasgado dos meus próprios pecados mortais. Quem não.
***
Pra adiantar o serviço já vou logo dizendo que o Alan sempre considerou o Hieros filmável à beça, e pelo sim pelo não já fui logo resolvendo os dilemas visuais todos e bolando um jeito de deixar muito claro o que era delírio e o que não, ah, esquece: tudo era delírio. Segue roteiro original para uso de quem há de. Nunca mais.
Filme
Diretor: Fernando Meirelles Sandra Kogut Personagens Noga real: Clarice Niskier Noga virtual: Claudia Abreu Alan real: Richard Dreyfuss part espec. Alan virtual: Eric Stoltz A mãe: Fernanda Montenegro part espec.
Script
parte 1: Claricenoga caminhando em St Aug e Leblon trabalhando no livro. Fazendo coisas normais, fazendo pão, regando as plantas, visitando a mãe com alzheimer na clínica. O livro é recusado em todas as editoras por 2 anos, o dinheiro está acabando, até que Claricenoga decide autopublicar, quando começa a parte 2. Richardalan nunca aparece nesta parte, só a voz no celular, ou vinda lá de dentro do quarto no apê do Leblon sob o toque sonoro do teclado. parte 2: o livro propria/ dito diálogos pinçados entremeados Noga e Alan em seus respec carros, ela (primeiro no avião) num chevy novinho vermelho alugado, ele num caquético e enferrujado BMW, começam a viagem como Claudianoga e Ericalan e vão se transformando ao longo dela, diálogos pinçados entremeados, em Nogaclarice e Alanrichard. Encontro/ corte para cena final, no Odeon da Cinelândia, festa fictícia de lançamento com os atores todos, produção, vips, editores, e Noga e Alan reais.
Ah, liga não. É só fantasia mesmo, e essa é das mais íntimas, embaraçosas e impublicáveis. Esquece tudo aí.
Não pretendo escrever uma crítica, mas me estender por pouco mais que um link na coluna aí do lado. O caso é que "Trade" ou "Desaparecidos" — segundo o DvdClube em março nos cinemas — toca num nervo exposto pela terceira vez em pouco mais de um mês aqui no blog: o tráfico sexual. Gente. Não é possível tanta maldade no mundo, mas há mais que maldade na ironia destrutiva disso tudo: transformar nosso maior prazer no nosso maior pesadelo.
Eu me pergunto: será que isso não faz parte, ou é decorrência, da hipócrita moral sexual a que a civilização social nos obrigou? Não se vê por aí ninguém traficando comida, ou o ar que se respira ou a água que se bebe, bem, ainda. Mas sexo, sim. E cá entre nós: apesar de estupendo, enquadro o sexo na mesma categoria-de-sobrevivência-básica de comida, água e ar. E outro jeito de encarar isso encaro como não mais que hipocrisia. Falsa moral. Ou desvio de poder para manipulação de infelizes minorias, e é preciso com urgência mudar isso. Liberação já.
No livro "A ciência da Felicidade", que está sendo lançado esta semana pela Ed. Campos, a "especialista" no assunto Sonja Lyubomirsky afirma que até 50% dos níveis de felicidade de cada indivíduo seriam atribuídos aos genes. Dez por cento se relacionam às condições de vida, tais como riqueza e boa saúde — só dez, imaginem! — e os demais 40 estariam ligados a pequenas ações e gestos cotidianos. O que provoca a pergunta: o que é que nos leva a determinadas escolhas, exatamente as que determinam quase metade de nossas chances de obter a felicidade? Seriam os primeiros 50 porcento? Uma tendência nata?
Se a gente resolver avaliar nossa tendência para a felicidade por preferências cinematográficas, que conclusão provocaria a opção por filmes incômodos do tipo "Insetos" — onde o trauma de um louco inconseqüente contamina com sua coceira neurótica até mesmo o mais insensível dos espectadores —, que de acordo com a crítica no Megazine de hoje bate longe o drama excepcionalmente belo — mas chato à beça, é o que eles dizem, por basear-se numa crise familiar de valores — de Zhang Yimou: "A maldição da flor dourada"? Vai pro liqüidificador ou não vai? É, gente. Andamos mesmo precisando rever nosso juízo de gosto, ou vamos acabar num clima perpétuo e autogerado de sexta-feira 13.
Passei o fim de tarde assistindo a um filme que já não é novo, e que por isso aluguei de graça no dvdclube: Feliz Natal, filme francês de 2005 indicado ao Oscar. O filme é legal: um documento surpreendente provando que a guerra vai contra os mais básicos instintos humanos e usando a música como arma para neutralizá-la. Impressionante mesmo foi essa ária maravilhosa que ficou na minha cabeça, confiram:
O vídeo do YouTube é ruim mas, no caso, é a música, Bist du bei mir, que interessa.
E a música, dizem, é de Bach, mas houve depois quem pesquisou e descobriu que não é de Bach, mas de G.H. Stölzel (G.H. quem?) e que Bach a aproveitou no caderno da Anna Magdalena Bach. Ora, gente. Papo chato de especialistas. Bom mesmo é relaxar na poltrona, fechar os olhos e curtir a beleza. Aproveitem. O que remete à discussão que fomentei aí em baixo sobre qual tradução de Ulisses é melhor e coisa e tal. Melhor mesmo é poder curtir o original, porque vocês já sabem: traduttore, traditore, tsk tsk. Não tem jeito, e a gente só aceita quando não tem outro jeito. Quem enfrentou este trabalho insano que é traduzir o intraduzível Joyce que me desculpe um comentário maldoso ou dois. É pura inveja, podem acreditar.
"É mais fácil e mais lucrativo traficar gente do que traficar drogas", afirma nos extras do dvd o roteirista de "Senhores do Crime", candidato ao Globo de Ouro de melhor filme no próximo domingo. Não vi ainda todos os concorrentes, mas embora meu coração romântico se incline sempre para o lado do amor, fiquei na dúvida entre dois filmaços: este, e o já elogiadíssimo aqui no Noga Bloga "Desejo e Reparação". McEnvoy é também um preferido, mas fala sério: o queixo duro, a cabeça rígida sempre meio inclinada, e o corpo desenhado na agulha de Viggo Mortensen dão de dez a zero*.
Nunca prestei a menor atenção nesse cara — que, aliás, não faz nem um pouco o meu tipo —, e David Cronenberg, na minha cabeça, nunca passou de um estranho, querendo dizer esquisito mesmo. Pois os dois se juntaram (desculpem a minha ignorância: não é a primeira vez) pra mostrar um lado mais assim, digamos, "ilha das gargantas cortadas" da swinging London. Mas não foi a violência do filme que me atraiu, claro que não. Foi mais uma vez o tema das escravas brancas, do comércio cruel de mulheres — atraídas por falsas promessas de uma vida melhor, e traídas logo em seguida por inescrupulosos traficantes de gente —, e mais uma vez: russos. Vou deixar de lado por enquanto a questão recorrente da truculência dessa turma oriental do crime, que faz os tradicionais mafiosos italianos parecerem benfeitores da humanidade. Não sei o que há de verdade, o que há de propaganda xenofóbica nisso, e tento acreditar que como em qualquer outro lugar há russos bons e russos maus, filhos de uma "Mãe Rússia" que já deu Pushkin, já deu Dostoiévski, Nureyev e Stravinski, gente: melhor parar por aqui pra não deixar de lado grande parte da cultura civilizada. Hum. Melhor falar de um assunto do qual entendo mais: a fragilidade exposta da mulher. Gente: de onde é que vem isso? Essa passividade anacrônica, essa certeza fatal da queda, essa fraqueza de minoria explorada? Essa ilusão de liberdade que nos transforma rapidamente em vítimas do sexo? Soa absurdo, eu sei, culpar a vítima pelo crime que a vitima. Soa injusto e historicamente abusivo dizer que a mulher é conivente no estupro, distorção legal que, aliás, limita a seis meses a pena por tráfico de mulheres: se considera sempre a possibilidade de anuência por parte da vítima. Não é nossa "carne" que é fraca, mas sim — sim e somente — o nosso corpo de carne e osso que é mais fraco, geneticamente, que um corpo de homem: mais sujeito ao abuso, ao ataque, à ferida. O que deixa ao homem, pelo menos, o papel romântico de oferecer proteção. Nosso espírito e nossa capacidade de resistir moralmente, por outro lado, são quase invencíveis, e é nisso que devemos confiar. O que não devemos, de jeito nenhum, é deixar que espalhem a nosso respeito rumores indevidos, como este "moderno" gosto adquirido por brinquedinhos eróticos e sexo casual, deixando o amor de lado como se fosse um passo em falso, do qual deveríamos nos envergonhar. Mas, gente: nossa grande força é a capacidade de amar, de cuidar, de se emocionar. É esta força que os machos "modernos" procuram adotar, é dela que precisamos para sobreviver. Eu não queria tocar no assunto, mas chego a pensar que foi a lágrima explícita — sincera e sentida — de Hillary Clinton, na manhã de ontem, que emocionou o eleitor e acabou virando o jogo. A dureza dela é que não foi. E fico sentida de não conseguir ver nela uma boa chance de ter uma mulher no governo dos Estados Unidos. Não gosto dela e pronto, e acabo de descobrir de onde vem minha implicância: a poderosa... dando um ataque de mulherzinha? Saindo mal na foto e pondo a culpa no... cabeleireiro? Só mesmo brincando um pouco pra relaxar, porque, falando sério: a crueldade realista deste "Senhores do Crime" me tirou do sério. E a vontade de fazer alguma coisa, pra mudar este triste estado de coisas, me faz perder completamente a graça.
*Tá certo. Vocês repararam. Nem uma palavra simpática de minha parte para Keira Knightley e Naomi Watts. Normal. Ambas são lindas e estão muito bem, alternando doçura e força do jeito que a gente gosta, mas sei lá: é a sensibilidade masculina que mexe mais comigo lá dentro, normal, eu acho.
Tá certo que escolhi mal o dia. Um breve sangramento dois anos menopausa adentro me deu o maior susto, e embora duas horas de google e consultas informais com outras mulheres prometam pouca gravidade ao caso, a cabeça já se encheu de fantasias mórbidas de câncer, é claro. E aqui em casa, vocês sabem: como diz o Alan, nosso único seguro saúde é a boa saúde mesmo. Mas como coincidências existem — ou sei lá, apenas denunciam a presença de uma camada superior de percepção — foi exatamente num dia desses que escolhi alugar o novo filme de Michael Moore, Sicko.
Digamos que até hoje eu até... ah, bem, mentira: desde o primeiro filme do cara que eu venho gostando progressivamente menos e menos do que ele faz. Até desembocar neste literal desastre. O povo gosta. O povo aplaude. Mas meu instinto mais básico me garante que há alguma coisa muito errada com esse filme: vou mais para o lado de considerá-lo uma peça intencionada de propaganda, vejam bem, eu disse intencionada: nem bem, nem mal. Não sei se pretende nesta quinta de Iowa influenciar as eleições americanas (olha outra coincidência particular aí, só pra quem o assistiu faz pouco). Michael Moore declara ter recebido 25000 cartas de denúncia contra os serviços de saúde americanos. Que existam problemas bem que eu acredito. E na ganância das seguradoras, também. Mas tudo tem limite, pelo menos o limite da lei. Até no Brasil este limite existe, gente. A primeira cena que me vem à mente é a de Invasões Bárbaras — filme cult de 2004 que levou o Oscar de Melhor Estrangeiro —, onde Rémy precisa atravessar a fronteira do Canadá para conseguir um exame, além do desespero que força seu filho a montar um esquema particular para burlar a ineficiência da medicina local. Em seguida me lembro de meus anos de intensa pesquisa sobre a NHS inglesa: eu lia a seção de medicina do Guardian todo dia, gente (antes de conhecer o Alan: agora nem consigo localizar o link, o que deve dizer alguma coisa sobre nossas preocupações com doenças: ame que é melhor), e nossa, a conclusão era sempre contra o sistema, esse mesmo que Michael Moore e seus figurantes bem treinados aplaudem com um sorriso no rosto. Em Israel eu sei, por experiência própria, que a medicina socializada é dez. Na Alemanha também, ou pelo menos antes do muro cair, era. Agora não sei. Mas na França? Melhor correr pra conseguir tanta mordomia grátis, porque Sarkozy, tsk tsk, vai acabar com tudo, e se for bem-sucedido, talvez acabe tratando como gente os pobres imigrantes nos subúrbios de Paris, que por algum motivo Michael Moore não mostra. E pra terminar: Guantánamo, gente, não era aquele lugar onde se tortura, maltrata e mata suspeitos de terrorismo sem direito a julgamento? Pois o que Michael Moore nos diz é que os tais agentes presos da Al-Qaeda são mais bem-tratados que os cidadãos norte-americanos. Ah, bom. Menos mal para os direitos humanos. E quanto aos pobres e infelizes americanos, se quiserem se dar bem que se mudem para Cuba, lá sim, é que a vida é boa. Bola preta para Michael Moore. A última coisa que me vem à cabeça antes de adormecer, lutando pra esquecer o pesadelo, é que, felizmente, o Globo já não nos obriga à nossa ração diária de hospitais lotados*, doentes pra todos os lados, sujeira e indigência. Porque será, hein, gente? Será que melhorou a nossa medicina pública? E o SUS? Será que vale pralguma coisa? Espero não ser obrigada a descobrir. Pelo sim, pelo não, marquei consulta no meu ginecologista.
* * *
E por falar em bala pra cima, vocês viram? É a teoria do meu vizinho para a bala na minha janela, imaginem: que prazer mais inconseqüente. Quanto às minhas idéias sobre a propagação da violência, arranjei boa companhia, está na Edge: "Atos de violência incitam a violência e contaminam a mente dos que os assistem. Não somente as experiências reais, mas também as que a mídia nos impõe, transformam nossa predisposição, a gente querendo ou não." E enquanto isso o Globo, desde o dia primeiro, publica todo dia a lista dos assassinados no Rio, não todos, é claro, mas somente aqueles a que o Globo tem acesso. Bela maneira de inaugurar um ano novo.
*ops. se alguém reclamar que não fui exata, entendam o caso: acordei esta manhã tão afrontada que escrevi antes mesmo de ler o jornal, onde em página inteira dá pra ver o estado dos hospitais no Rio.
Sem programa pro "réveillon"? Hum: uísque barato (29.99 no Zona Sul), amendoim fresquinho (2.99) e um filminho delicioso — com o tema das "festas" (eu vou devolver hoje, você ainda pode alugar) e o astro gostoso do momento, James McEnvoy — , escutem o que eu digo: Starter to ten, o cult filme do ano (8.00) e que quase, quase passou em branco. Não dispensa a boa companhia. Mas poderia. O curioso é que, apesar do cara ser baixinho, acerta em cheio a descrição que McEwan faz de seu personagem Robbie Turner, que McEnvoy materializa em "Desejo e Reparação": um homem grande. Grande o suficiente pra encher qualquer tela, apesar de não ter nascido "nem bonito nem inteligente o suficiente". Vale arriscar que isso não é tudo, taí um bom tema para 2008.
Passei a última hora e meia a café e jornal, debatendo comigo mesma a possibilidade de romper meu breve voto de silêncio. Bah. Já está ficando chato. É sempre a mesma lenga-lenga, mais repetida que show de fim-de-ano de Roberto Carlos: prometo não escrever e acabo cedendo ao vício, é, gente, não tem jeito. Sou mesmo viciada em vida, isto é, em escrever sobre a vida. E a vida não pára para o Natal, muito antes pelo contrário: se agrava. Eu não estava pensando em nada disso, claro. Comprei um vestido novo e estava acordando tarde, almoçando fora, engolfada nas calçadas do Leblon pelo movimento impressionante dos pedestres festivos, quando, bem, acordei, ou melhor, fui acordada: cheguei em casa e encontrei um comentário de Sandra Ronca aqui no blog que me deixou instantaneamente nervosa.
Tropecei no tapete. Me arrepiei. Respirei fundo antes de ler, gente, será que eu errei? Desrespeitei? Invadi uma seara sagrada que não era minha? Caramba. Não era nada disso. Sou muito neurótica mesmo e acabo de descobrir porquê. Depois de ler o recado emocionante da Sandra, de descobrir que ela é artista, de visitar o blog dela e coisa e tal pra avaliar a força de vida que esta mulher tem, resolvi deixar pra lá. Não linkar. Não escrever nada. Afinal de contas, há momentos na vida em que o silêncio é o melhor comentário, o maior testemunho de uma apreciação profunda. Mas não me deixaram. Não me deixaram não. Vou folheando o jornal até disparar a mente numa ilustração semelhante à da Sandra, desta vez assinada por Chico Caruso, e não, não era uma charge política daquelas que mitigam todo dia no riso a dor do dia, gente. Não. Era uma homenagem dele à filha que morreu, não sei como nem quando, mas pelo teor do texto, "na contramão de sua bondade e em alta velocidade", já dá pra imaginar como: comigo foi exatamente assim. Chico ainda espera a justiça. E eu também. Mas para mim, já não há esperança. Trinta e seis anos de dor prescrevem qualquer crime impune, ainda mais quando é um crime de trânsito e dá margem a dúvida, à corrupção de tribunal. Foi assim que perdi meu pai aos vinte anos, e eu juro, juro que não queria tocar mais neste assunto: já passou da hora de seguir em frente e continuo empacada. Mas a Sandra e o Chico me ajudaram a perceber que é a aprovação impossível dele que eu busco, a cada vez que sou criticada, ou apreciada, rejeitada ou publicada. A piscada cúmplice dele reconhecendo o valor da filha: saiu legal, Noga. Quem sabe agora consigo tocar a vida. Bah. Melhor mudar de assunto. Além da arte, existe outra coisa que supera tudo, rompe todas as regras e adoça qualquer receita, mesmo que com um travo amargo de vez em quando: o amor, o amor sensual, a entrega irrestrita à intimidade do outro, taí um assunto bem melhor pra essa época do ano, e nunca o vi tão docemente abordado como neste Lady Chatterley, apresentado na capa do dvd como o "filme mais francamente sensual que a memória alcança". E é mesmo. Sensual e sensível, belamente explícito como qualquer relato de amor sensual deveria ser — mas coisa realmente rara num mundo onde explícita mesmo é a violência das imagens, mesmo das que pretendem falar de amor —, e ainda por cima temperado de força pela candura e entrega do quase-Brando Jean-Louis Coullo'ch, ator francês que eu não conhecia e que faz belo par com Marina Hands. Pra mim funcionou: o filme, a entrega, a sensualidade, o clima idílico. E é um amor assim que vai me levando cada vez mais para longe das minhas dores remotas. Coloriu meu 2007 como vem colorindo meus últimos três anos. No mais, como diz a Cora, posso também afirmar que foi um ano incrivel, com altos e baixos, sucessos e derrotas como qualquer ano, mas realmente incrível. Deixa como saldo concreto um salto impressionante de audiência aqui no blog, e por isso, vos agradeço. Ser lida é um jeito muito bom de se sentir amada, gente. Funciona mesmo. Obrigada de novo e um feliz ano novo.
"Parece até roteiro do filme "Uma linda mulher": Gabriela Leite, a ex-prostituta que fundou a Daspu, passará o Natal em Veneza." do Gente Boa
Tá certo que isso não é assunto pra véspera de Natal. Paciência. Não fui eu que comecei. Melhor seria comentar as novidades tecnológicas que vêm por aí, um admirável mundo novo em apenas cinco anos, está no INFOetc de hoje: pode conferir. Pra dizer a verdade eu nem pretendia escrever, pois como diz o Joaquim, em ótima crônica sobre Rubem Braga (eu queria ser ele, sô. o Rubem, não o Joaquim), não há mesmo leitores neste dia, todo mundo ocupado com coisa melhor. Mas paciência. Não fui eu que comecei.
Não sei se vocês sabem, mas quando a minha lamentável escalada para a fama começou, há uma semana atrás, fui condenada por meus vizinhos que não queriam, de jeito nenhum, chamar a atenção, vocês sabem, o mercado de imóveis, etc, etc. Fiquei até na dúvida, nossa, gente, será que dei um tiro no pé? Valerá a propriedade mais que a vida? Felizmente, dois dias depois, parece que mudaram de opinião, e iniciaram um movimento de protesto bem mais amplo pra solucionar a violência urbana. Melhor assim. Pensei nisso ao ser pega de surpresa, em meio à chorumela habitual dos especiais de Natal (que eu adoro, gente, não me levem a mal: adoro essa falsa sensação de que tudo dá certo no final, milagres de Natal, etc, etc. refresca. reconforta. e todo mundo precisa disso de vez em quando), por um filme escuro, escuro e obscuro, do israelense Amós Gitai, estão vendo? Eu disse: não fui eu que comecei. Leio mais tarde, no IMDB, que Gitai quis fazer um contraponto convincente a ilusões prejudiciais como "Uma linda mulher", que o Gente Boa citou na coluna de hoje. "Meu objetivo principal com este filme", declarou Gitai, "foi demonstrar que a prostituição não é, de modo algum, uma vida de glamour, champanhe e carros caros, e que imagens do gênero que aparecem em filmes e outras mídias são usadas por criminosos para atrair jovens mulheres ao mercado de escravidão sexual." Uau. Ponto pra ele. Este assunto não é brincadeira, gente. Já escrevi sobre ele. E não foi pouco, mas peraí: o que é que tem a ver com os meus vizinhos, mesmo? Já conto. É que o tal filme — ops, quase deixei de fora o nome: Terra Prometida, em cartaz no Cinemax —, de 2004, mostra o comércio de escravas brancas (estonianas) em Israel, imaginem, falado em hebraico, a língua sagrada da Bíblia. Dá um arrepio quando penso em toda a ideologia por trás daquele país, todo o belo sonho sionista que aprendi a amar desde criança. E agora virou moda mostrar em filmes — com Amos Gitai na crista da onda — somente a banda podre. Me pergunto: isso é mesmo necessário? É um dever político? Ou mais um tiro no pé? No mês passado esteve aqui de visita uma amiga de infância, que agora mora em Israel. Ela adotou uma menina ucraniana — e vendo o filme, não posso deixar de pensar que tremenda sorte esta menina teve — e me contou, em detalhes, a maravilha que é criar uma criança num país que se preocupa com elas, com a educação, com a saúde, com a felicidade. E isso em meio a bombas, ataques terroristas e uma luta cruenta pela mera sobrevivência como estado. Comentou também as facilidades que teve ao precisar de uma cirurgia delicada, e o estado-da-arte da tecnologia por lá. Ah, bom. Resta o consolo de que todo relato é multifacetado, embora a Israel de Gitai seja freqüentemente desse jeito: escura, corrupta, cruel. E apesar da tristeza que sinto vendo isso, só por desmistificar a idéia de que a vida "alegre" é alegre mesmo o filme já vale a pena. Desculpem, queridos, pelo assunto tão anti-natalino, que ainda por cima se passa bem próximo à Belém natal de Jesus Cristo, que tenho certeza, não ia gostar nem um pouco dessa história toda. Mas a coisa, já viu, soou urgente. E insistente. Ah, sim. Já ia me esquecendo. Feliz Natal pra todo mundo. De coração.
Foi por pura coincidência, mas acabei criando aqui em casa nesta última semana um festival Michelle Pfeiffer. Ela merece: é linda; não se enrolou em plásticas mal-feitas; é boa atriz; e ainda por cima, canta. Não tem ninguém melhor pra nos envolver na magia ilusória de Hollywood e esquecer um pouco da aridez da vida.
Em "Hairspray", Michelle é uma das poucas coisas suportáveis, e ilumina a tela quando aparece, nem dá pra entender o que ela está fazendo ali no meio. Deve ser porque ela sabe cantar e dançar, além de ser, obviamente, linda, mas ih, gente, eu já disse isso no outro parágrafo. Em "Stardust" — diz o Alan que é filme pra criança, e é, mas uma delícia de bem-feito: só pra ver o pirata gay de Robert de Niro já vale a pena — ela está impagável como uma elegantérrima bruxa má, até mesmo careca e com cara de monstro, gente, será que Michelle Pfeiffer encarnou de vez a vilã da vez? A impressão se desfaz nesse relaxante e divertido "Nunca é Tarde para Amar". Tá certo, sou suspeita pra falar. Sou uma dessas velhotas que se acha moderna à beça, totalmente inserida no contexto e por dentro de tudo, talentosa e gostosa e radicalmente contra a enxurrada de plásticas. Além de pertencer à geração Baby-Boomer, claro, e a favor do mito da mulher inteligente. O filme apresenta ainda uma fofíssima Saoirse Ronan, de apenas treze anos e já brilhando na tela também em "Desejo e Reparação", o filmaço baseado no romance que estou lendo de McEwan e que, oba, sai na frente na corrida do Oscar. Nossa. Quem diria que a minha sexta-feira negra terminaria com tal bom humor, hein? É o sexo, gente. É o poder do amor. Embora eu esteja hoje em dia bem feliz com meu amante pra lá de experiente, já tive minhas paixonites por um homem mais jovem, como a Rosie, personagem de Michelle no filme. Deu até poema. Confiram:
E de repente este nome... Marcelo, Marcelo, Marcelo (E esta luz) No hall de entrada uma pintura, Uma espiral? É um anúncio - Marcelo. No painel uma capa de disco. Um que faz música? Marcelo. E depois... No dia seguinte, No mês seguinte, Na vida seguinte... Outro Marcelo, que junta espiral, música e luz E esta luz ofusca: você põe véus; e fundos; e negativas. Mas não há como.
Theo Van Gogh foi um símbolo da liberdade de expressão e do pensamento crítico, por vezes exacerbado, que são característicos de uma sociedade pluralista e moderna. da Wikipedia
Imaginem um mundo onde todo mundo só falasse a verdade, onde persona pública e privada fossem sempre a mesma, ou melhor ainda, essa idéia de "persona" sequer existisse. Poderia até ser um pouco caótico no início mas... não seria bom? Poder falar o que a gente pensa sem se sentir culpado? Ou ameaçado?
Existiriam mais livros, e menos revistas. Mais posição, e menos exposição. Mais reflexão e menos verborragia. O mercado de celebridades, claro, deixaria de existir, e com ele profissões dúbias como paparazzi e repórteres de fofoca, que embora declarem revelar a vida íntima de gente famosa, para o cada vez mais ávido deleite dos fãs, apenas reforçam um cuidadoso projeto de imagem, de pontas bem amarradas. Não sei como é na vida real. Mas em "Entrevista", um filme pequeno que cai como uma bomba arrebentando o mito da burrice inocente de estrelas da mídia — exploradas, coitadas, pela voracidade da imprensa —, chapeuzinho devora o lobo, que se deixa enredar nos bons sentimentos provocados pela suposta candura da clássica vítima. Não sei se pela semelhança física, ou pela reportagem que se seguiu (aqui em casa, por causa do Alan, a gente assiste ao noticiário americano), associei a personagem do filme a Britney Spears, mas lendo o Globo esta manhã, vejo que o assunto é bem mais globalizado, ah, melhor deixar pra lá. Mas que o filme dá uma geral nos bastidores da cultura de celebridades, isso dá. Afeta. Impressiona. A gente entende tudo quando fica sabendo que se trata, na verdade, da refilmagem de um projeto original de Theo Van Gogh, realizado na Holanda em 2003. Theo van Gogh, todo mundo sabe, tinha especial predileção pela verdade e a levava às últimas conseqüências. Levou. Foi morto por isso. É, gente. Precisamos repensar nosso conceito de diversão. A coisa pode ser bem mais perigosa do que parece, e revolver por dentro a pior parte de cada um de nós.
Artigo entre os mais lidos de hoje no NY Times explica como uma "reserva mental" pode nos proteger do Mal de Alzheimer. Oba. Meu risco de contrair a doença, como todos sabem, é grande. Mas por outro lado, não faço tricô. Não jogo bridge. Não sou social, ops, sociável. E não deu pra saber se as minhas habilidades literárias serão suficientes pra me proteger no futuro, bem, já estou quase no meu futuro, considerando que sigo acelerada rumo ao fim da década de cinqüenta.
É pensando nisso que reflito sobre o post de hoje (ih?! será que já é?), um tremendo quebra-cabeças com centenas de peças que, à primeira vista, não têm nada a ver umas com as outras. Eu bem poderia escrever um post de notícias curtas, mas bem, hum: qual seria a graça? Não creio que escrever por escrever proteja a sáude mental de alguém, ou com tantos blogs na praça o percentual de alzheimer estaria em queda livre, ah, quem sabe. Não deu tempo ainda de aparecer em pesquisa. Prossigam. Insistam. Escrevam. Mesmo que seu dia de publicar não chegue nunca, faz bem à alma. Pra minha, pelo menos, fez. Faz. Publicar (em livro), afinal de contas, não passa de um sonho empoeirado, e muita gente boa que invejo não liga pra isso nem um pouco. É o caso de Daniele Garcia Pires, estudante de jornalismo que venceu a edição 2007 do concurso "Contos do Rio". É o caso também da escritora e psicanalista Ana Guimarães, que mantém um excelente blog no GO e aparece em contribuições literárias pela internet afora. Por falar na Ana, que é fã de James Joyce, recomendo o filme Bloom, que vai ao ar esta tarde no Telecine Cult, ah, às seis da tarde, pena, só pra quem não tem o que fazer. Ou como a Ana, ama James Joyce, mas não se aborreçam: tem em dvd também e quem não tem o que fazer sou eu, que por ter as tardes livres resolvi aparecer num sarau — organizado por Cristina Terra, "fundadora do Movimento Pró-Maiakóvski e propagadora do trabalho do poeta", ele mesmo um revolucionário militante da poesia — evento cultural onde os poetas não só aparecem em público, como, gulp, lêem seus poemas entre si, um tipo assim, tradicional, de suruba literária. Até ontem eu nunca tinha comparecido a um, bem, talvez por não ser poeta de verdade, apesar de arriscar uns poeminhas safados de vez em quando lá no GO. Prefiro praticar o meu xadrez literário em paz, no recôndito do meu lar, mas ops: e o social? Pois ontem capitulei e fui lá, desafiar minha veia poética e me proteger do alzheimer. Já vou logo adiantando que não deu em nada. Não é minha praia escutar poesia. E ler? De vez em quando pode até ser, mas em voz alta, jamais. Sou tímida demais. Saí de lá convencida de vez de que não sou poeta e, portanto, desisto de concorrer a este Prêmio Literário do governo de Minas, bem, fica aí a dica. O que não quer dizer que desisto da literatura: o problema é que livro inédito e quase pronto, aqui em casa, só tem um, e é de poesia, um gênero que não publiquei, onde é que esta peça se encaixa, mesmo? Ops. Está de cabeça pra baixo, ou só eu que ando correndo o risco de perder a minha? Cabeça, não poesia: o sarau prossegue e eis que adentra o bistrô a senhora aí ao lado, já entrada em anos, cabelos brancos, oba, enfim uma vovó de antigamente, sorriso doce, boa de colo, mas não, me engano: é poeta e sim, senhor, alzheimers fora ainda declama e vai logo contando que é arquiteta, trabalhou a vida inteira como arquiteta e só bem tarde descobriu a poesia, que bom, nem tudo na minha vida está perdido. Pelo que entendi, Maria Thereza de Barros Camargo lançou este ano seu livro de poemas, Oremas (uma espécie de oráculo espiritual, trocadilho poético envolvendo orações e poemas) e herdou o lirismo da bela filha, Thereza Christina Rocque da Motta, poeta e editora da Ibis Libris, mas peraí: qual Thereza herdou o quê? E de quem? Perdi a cabeça ou a poesia em família? (Neste ponto do jogo é preciso algum cuidado, ou já vou me esquecendo de comentar que entre os ganhadores do Contos do Rio há mais barriguinhas e cabelos brancos do que o esperado: mais um ponto contra o alzheimer) Dona Thereza, praticante de um gênero de sabedoria que só a idade permite, diz que é só o amor que vale. Achei bacana, e foi neste ponto que tirei a fotografia. Principalmente porque faz tempo eu queria deplorar o desencanto explícito com o amor daquela senhora de 95 anos que, no outro dia, venceu na Espanha o concurso de BOBs, ops, sem trocadilho: não tem nada a ver com as regras deste jogo, que aliás não tem regra nenhuma. E é por isso que acabei me aborrecendo com a sabedoria de Dona Thereza, que insiste em dizer que somos culpados de tudo, responsáveis por tudo, bem, mais ou menos isso, quando em meio ao lirismo da tarde aparece uma vítima desesperada de assalto na porta do bistrô, acerta o buraco aí. É o Rio de Janeiro, gente, onde qualquer jogo que se jogue conta com a possibilidade da violência, que Dona Thereza afirma: é um jeito de buscar a felicidade. Do que discordo. Veementemente. A violência é um vício social, e um jeito cruel de evitar a felicidade, isso sim. E como se não bastasse a real, tem gente que ainda aprecia a violência de ficção, como prova a reputação deste "Ultimato Bourne", ah, sim, finalmente o jogo adquire alguma forma, já dá pra ver onde tudo se encaixa: assalto, poesia, caos urbano e paranóia, tremenda colcha de retalhos moderna. Moderna e chata, mas você aí, ainda não pode dormir: falta explicar porque foi que adormeci com dez minutos de Ultimato boring (e é por isso que não posso linkar nem avaliar o filme) e fiquei tão desperta com as leis espirituais de Deepak Chopra, para as quais ainda tive o desplante de conceder 3 estrelas, ah, gente, estou perplexa e já não sei explicar mais nada. O caso é que entre uma opção e outra encaixo a última peça e descubro o bem-estar, o que prova que Deepak se engana em dividir por sete uma regra que deveria ser única: se te faz sentir bem, é bom pra você. A não ser que você seja do crime, essa doença mortal. Violência faz mal. Lirismo faz bem. Experimente você também, mas não precisa rimar nem me levar a sério. Afinal de contas, trata-se apenas de mais um quebra-cabeças cultural, e só estou me divertindo. E evitando o alzheimer futuro, claro.
"Quem tiver computador e doze minutos disponíveis pode ver o filme "Laços", vencedor brasileiro de um certame internacional do Youtube disputado por 3500 vídeos", está no jornal de hoje. Nesta manhã de domingo eu tive os doze minutos e, oba, o filme que eu vi só leva seis porque sim, dei um tempo e fui lá ver.
Aí já sei que é mais difícil, mas se você tiver também um dvd player, 120 minutos e alguma paciência com a lentidão do roteiro, se quiser pode descobrir a vida secreta das palavras. E das imagens, claro. É um assunto quatro-estrelas, que só não é cinco por se exceder no tempo. Os dois filmes, o curto e o longo, falam de ver e de escutar. Ou de não ver. Nem escutar. Falam da perda. Do tempo. E do amor. Nenhum da perda de tempo que é o amor, mas eu diria: da parada no tempo que é o amor, este mata-dor. Nos conselhos pra vencer na vida a gente descobre que hoje em dia a conclusão vem antes da introdução. Desenvolvimento de idéias, então, é coisa de colegial, porque na vida real ninguém tem mais tempo pra essa falta do que fazer que é pensar na vida. Martha Medeiros, por exemplo, não tem tempo de dormir, que dirá de sonhar, e para Alberto Goldin o gozo do amor é um ideal impossível, talvez porque o amor nem seja lembrado neste roteiro dele para um curtíssima-metragem sobre a liberdade sexual, que pouca gente sabe, começou na verdade com o amor livre mas acabou deixando o amor de fora, e agora, ninguém mais sabe se o amor é começo, meio ou fim, ops: a frase acabou, e você não me provou nada. O que me espanta é que eu gaste meu tempo com perdas de tempo como essas, porque afinal de contas, ninguém está livre do amor. E muito menos da passagem do tempo. Experimente seis minutos sem fazer nada e você verá que passam bem mais lentamente que cento e vinte de atividade frenética, e é por isso que hoje em dia a vida passa tão depressa, e a gente com ela. Com o sexo é a mesma coisa, e é por isso que muitos têm orgasmo mas bem poucos têm prazer com isso, porque não sabem que embora o prazer hoje em dia esteja em perseguir, só quem não persegue é que o consegue, vai entender. Viver é uma arte complexa que não se destrincha numa só palavra, embora as palavras te ensinem como vencer na vida sem perder tempo, pelo menos é o que diz na revista, ops, peraí, quem foi que disse que eu quero vencer? Afinal de contas, não estou em disputa nenhuma. E o que eu ando querendo de verdade mesmo é ficar pra trás, caminhar em vez de correr e acabar quase parando. Porque pra coisas tão misteriosas e imperiosas como o gozo do amor é preciso parar, ver, escutar, e acima de tudo, dar um tempo ao tempo do outro. Passei o ano inteiro tão ocupada que nem vi o ano inteiro passar, já são dois anos de casamento, da celebração de um amor que me tirou de uma vez por todas da roda infalível dos anos, e que por puro vício de atividade tenho andado sem tempo de ver e escutar. Ah. Dá um tempo. Pára tudo mas não deixa o amor passar, que por tudo que a gente passa só o amor é que há de ficar. O resto não passa de uma brincadeira arriscada, bem pouco mais que uma rajada manjada de palavras. Coisas de mulher desocupada num domingo de dezembro.
Promoção inédita no Globo premia com um exemplar de "Eu sei que vou te amar", novo livro de Arnaldo Jabor, as sessenta melhores respostas para a pergunta "Qual a maior loucura que você já fez por amor?" enviadas para o endereço promoglobo@oglobo.com.br.
Vou à Cultura e descubro que não, não é erro do jornal. O livro acaba de ser lançado pela Objetiva, mas uai, gente, não era esse o nome de um filme de Arnaldo Jabor? Que, se não me engano, deu prêmio em Cannes a uma muito jovem Fernanda Torres? Normalmente o trajeto do livro ao filme se dá na direção oposta, e me acreditem: é a melhor coisa. Ter visto o filme interfere demais na relação muito íntima, quase sexual, que o leitor estabelece com o livro através da imaginação. Tudo bem que a forma escrita, o ritmo, a escolha da palavra certa e da ordem certa das palavras contribui bastante, o sentir na pele o empenho do autor, o gozo pleno da literatura. Bah. Coisa mais antiga, do tempo assim, digamos, de Flaubert, como muito bem mostra este post do Digestivo Cultural. Porque ninguém tem mais tempo pra isso, fala sério: vinte páginas escritas em um mês? E o mercado, gente? E o mercado? Além do mais, a imposição da imagem hoje em dia é tanta, e tão intensa, que tanto faz a linguagem, e é aí que o livro-depois-do-filme perde um bocado da graça. Pelo menos é o que estou sentindo ao finalmente ler, com considerável atraso, aquele que é considerado um dos melhores romances do século, hum, qual? Vinte e um? (É meio cedo pra isso, né não?) Nele, se realiza a contento a descrição dos personagens, das paisagens e ambientes, a vivacidade da trama, todos brilhantemente traduzidos em filme no maravilhoso "Reparação" que estréia hoje em Nova York (sim, depois de ser exibido no Festival do Rio), baseado no romance homônimo de Ian McEwan — nossa, alguém já me ouviu elogiar um filme assim? Acho que eu estava de bom humor naquele dia ou, no mínimo, muito bem acompanhada, me sentindo bem-amada. O problema é que ao progredir no livro não crio a minha própria Briony, ou Cecilia, ou meu próprio Robbie. Apenas vejo os atores do filme no filme da minha mente. Quanto ao texto, pode até ser que eu mude de opinião: estou na página 91 (de 444). McEwan, afinal, merece o benefício da minha dúvida, e é por isso que insisto em lê-lo, apesar de me frustrar sempre: sinto que falta a ele o empenho artístico de um Flaubert. Ou parafraseando Jabor — o sujeito mais parafraseado e indevidamente assinado da internet —, o pendor trocadilhista de um Joyce que faz, na verdade, o incrível jogo de armar literatura. Falta a McEwan um entregar-se desesperado ao ato de escrever, e o que ele faz soa como excelente... roteiro de filme, ou é esta a impressão que me dá, por eu ter cometido o engano crasso de assistir ao filme antes de ler o livro. Problema meu. Quanto ao Jabor, hum, não sei. Vai ver é o novo Flaubert da geração internet, já que não sou eu, obviamente, a ocupar este lugar. Agora, respondendo à pergunta do Globo, quem sabe eu pelo menos ganho o livro: a maior loucura que já fiz por amor foi transformar em romance o meu caso de amor, dando a ele, no entanto, nome e sobrenome de literatura, isto é, me entregando às palavras com uma vertigem de Flaubert que imagem nenhuma consegue substituir, e às vezes nem mesmo o evento real. É o que confere à literatura o estatuto de arte. Pra quem não viu o filme de Jabor, e nem pretende ler o livro, resta o consolo da música de Vinícius. Uma delícia. Uma loucura.
Ao que parece, foi oficialmente inaugurada hoje a temporada de listas: uma chatice. São melhores do ano pra cá, piores do ano pra lá. Entender a importância da retrospectiva eu entendo. Conhecer a nossa história é uma estratégia fundamental no desenvolvimento humano, e até as Profecias Celestinas falam nisso mas, sinceramente, esta coisa de estar sempre reeditando alguma outra coisa já deu o que tinha que dar, se esgotou faz tempo: estamos perdendo o foco.
O ótimo blog Máquina de Escrever, de Luciano Trigo, vem discutindo a pertinentíssima questão da mesmice na arte contemporânea. O importante (?) Turner Prize de 2007, por exemplo, sabem pra quem foi? Para um tal Mark Wallinger, por uma instalação reproduzindo a manifestação de um carpinteiro contra a guerra do Iraque. Agora me digam: porque é que não premiaram... o carpinteiro, que teve a idéia e a realizou, mantendo o seu protesto na rua por 5 anos? Ah, sim: não era arte, apenas uma idéia. Arte é coisa de galeria, se é que vocês me entendem. E este novo Hairspray, gente, o que é? O incrível é que o filme original de John Waters, de 1988, tem nota bem pior no IMDB. Não sou fã do gênero, mas o estilo trash de Waters, cuja musa era o super-decadente travesti Divine (com bife cru na tela e tudo o mais), fazia um certo sentido e, na época, tinha lá sua graça. Já esta patética (e bem cotada) versão, com a mais patética ainda atuação de um absurdamente travestido John Travolta, parece especialmente criada para encher o cofrinho de alguém (o próprio John Waters está envolvido) como, aliás, quase tudo hoje em dia. Um tédio. Parece que o cérebro de todo mundo está a um passo de pifar, que nem o meu. Faz-se urgente uma parada. Ou pelo menos, uma autêntica novidade, pelamordedeus. Pois foi o que encontrei ao chegar da cidade exausta, após meu derradeiro ato oficial do ano. Como eu fazia em criança no último dia de aula, fui logo atirando longe as roupas e a mente cansada quando o Alan chamou: "sentaí". "Mas Alan, tenho milhões de coisas pra fazer", protestei. "Sentaí que isso é importante" ele insistiu, em frente à tevê, assistindo no meio do dia ao documentário que já ia pelo meio: "The real dirt on farmer John". Sentei e fiquei. O filme conta a batalha de um ex-escritor tentando retomar a tradição de uma família de fazendeiros. São 25 anos na vida de John — assim mesmo, sem sobrenome —, que resultaram na interessantíssima Angelic Organics, um projeto incrível que mistura agricultura e arte, isso sim uma novidade. Deu água na boca, gente, vale conferir: o site, os livros e o filme, que por falar nisso, passa de novo no dia 12/12: apesar da data meio assim, cabalística, uma idéia de futuro que de bobagem não tem nada. Taí.
— E então, Noga, o que você achou do Dalai Lama? — Ai, Alan, não sei. Me pareceu meio bobo, com todos aqueles risinhos. Meio assim superficial, sei lá, ao tratar dos problemas do mundo.
Curiosamente, não se vê sinal de cabelos brancos no velho monge de mais de 70 anos — embora, claro, a cabeça esteja raspada. O rosto, liso e sem rugas, deixa margem a dúvidas.
Qual será o segredo da eterna juventude deste homem santo, um dos poucos heróis indiscutíveis de nossos tempos e um lider desterrado, cruelmente desprovido de seu reinado pela impiedosa ambição do Camarada Mau? (sim, gente. eu sei que é Mao, viu, mas resistir à tentação do trocadilho óbvio, quem há de) Penso com carinho no assunto e acabo concluíndo em favor de Sua Santidade. Afinal, soar simplório e meio absurdo, ao declarar profundas verdades, é de praxe na tradição zen. As histórias impagáveis de Nasrudin são boa prova disso, e ontem mesmo, na Revista do Globo, Paulo Coelho publicou uma delas, é, gente, a coisa vai mal: eu leio Paulo Coelho sim, na Revista aos domingos. Melhor do que Martha Medeiros discutindo cabelos brancos, pelo menos, é. Já nós, mulheres, precisamos ser mais cuidadosas: não gozamos de tanto prestígio quanto o Dalai Lama. (É o Alan, mais uma vez, quem questiona: "como é que em 14 vidas a alma do Dalai não incarnou numa mulher, nem uma única vez?") E o recente documentário de Eduardo Coutinho parece ser uma prova disso. Não vi o filme de Coutinho ainda, mas li sobre ele na coluna do Joaquim, e palavra de Joaquim vocês sabem, pra mim é lei, ainda por cima com os parágrafos todos no lugar. Pelo que entendi, "Jogo de Cena" é, no mínimo, superficial, ou superficiais somos nós, mulheres, com nossos dramas e vaidades? Quanto a mim, sou mais que suspeita pra criticar o filme: fui rejeitada no teste de elenco e até hoje não sabia bem porquê. Chorar em frente à câmera, quase chorei. Mas em vez de reclamar de pai autoritário, reclamei da mãe. Em vez de falar de marido desinteressado, falei de sexo explícito pela internet. Foi só ler o Joaquim pra acabar descobrindo o motivo definitivo da minha rejeição: não passo henna em lugar nenhum e cultivo um incomum cabelão grisalho. Mas pelo amor de Deus, meninas: esse assunto já deu. Falar de amor tudo bem: até o Dalai Lama fala. Mas quanto ao resto, francamente. Há bem mais numa alma de mulher que tinturas e lágrimas de abandono.
Sabe aquele tipo de filme que conforta e alimenta como o colinho da mãe? Se fosse um gesto, "Garçonete" seria um abraço carinhoso, daqueles que te aquecem e não exigem nada em troca. Se fosse um prato, seria a típica comidinha caseira, receita gostosa pra ir levando a vida na boa, deixando de lado os problemas cotidianos. E não causa espanto nenhum que a personagem principal, com toda a tristeza que a cerca, viva sorrindo e seja uma exímia fazedora de tortas, cada uma com nome e receita mais originais que a outra. Bem. Pelo menos uma infância feliz e doce ela teve, o que já garante uma certa dose de alegria.
Embora nada no filme seja tão, isto é, o vilão da história não é tão ruim nem a heroína é tão boa assim — afinal de contas, rejeita o filho que cresce em seu ventre e embarca numa aventura extra-conjugal com barrigão e tudo, o que não pega nada bem num filme tão bem-intencionado —, uma tensão permanente o atravessa e deixa a gente o tempo todo tentando adivinhar que horrível drama está por vir. Não sei, gente. Deve ser aquela habilidade que o ser humano tem de organizar os fatos em perfeita sincronia e ordem, porque no filme, tudo se resolve a contento. A gente vai dando um suspiro de alívio e derramando aquelas lágrimas discretas e inevitáveis em casos como este, quando percebe alguma coisa esquisita nos créditos: o filme é dedicado à memória de Adrienne Shelly, diretora e atriz do próprio que a gente fica sabendo logo, deixou órfã a filha de dois anos, garota fofinha que aparece nas cenas finais. Uau. Perplexa. A sensação de incômodo continua nos extras do dvd, onde as imagens e entrevistas mostram Shelly com uma inexplicada textura de fantasma. Pelo Google a gente descobre que Adrienne foi brutalmente assassinada em seu escritório de Greenwich Village em novembro de 2006, antes mesmo de "Garçonete" ser lançado. Aos quarenta anos, não viveu para vê-lo brilhar no Festival de Sundance de 2007, onde foi comprado pela Fox para obter uma bilheteria de 18 milhões de dólares. Seu assassinato inspirou o episódio "Melting Pot" da 17ª temporada de Law & Order, onde Shelly já havia atuado. Um choque.
Enquanto para alguns de nós o problema crucial da informação moderna é ser capaz de escolher o que ler, para a grande maioria parece que o saber está, na verdade, se afunilando. O que vai contra tudo o que tenho procurado defender. Ao procurar perceber, parece que me equivoco, tenho me equivocado quanto ao que vem por aí.
Ah, a ironia cool* do destino. Apareceu aqui em casa ontem por mero acidente — e não sei, gente, onde é que eu estava com a cabeça quando num dia de cabeça quente adicionei o tal título à minha lista de escolhas — um dvd de Danielle Steel mais do que obviamente intitulado "Safe Harbour". Agora vem cá: qual é mesmo o mistério da cultura de best-sellers? No porto seguro do título se juntam, com requinte de obviedade nunca visto, os mais crassos clichês, interpretados por canastrões escolhidos a dedo numa das piores interpretações que já vi na vida. Não posso qualificar tal filme aí ao lado por falta absoluta de critério negativo adequado, ou será que em vista da quantidade de bobagens que chega à mídia, para conformar o nosso "porto seguro" do dia-a-dia, eu deveria instituir os XXXXX? Só sei que foi a indignação que me fez insistir até o fim para depois do fim, contrariando a minha rotina de dormir cedo e evitar por princípio comédias cretinas, embarquei sem intervalo comercial no horário "nobre" da tevê a cabo e caí de boca na "Idiocracia" do título. Gente. O filme é muito engraçado, e embora eu não devesse confessar, ameaçada de perder de vez minha máscara já bastante trincada de intelectual, dei muitas e boas risadas. Mas tudo isso perdeu completamente a graça quando esta manhã, ao abrir o jornal, me deparei com a reportagem do Globo sobre a educação no Brasil: o que era comédia rasgada virou tragédia em um segundo, e percebi que a paródia desvairada corre o sério risco de se transformar em previsão caótica, porém apurada, de um futuro possível. Pode até parecer que o lugar-comum é um porto cultural seguro, e o gosto do "mercado", uma certeza de sucesso. Mas se a gente não reagir a isso o nosso futuro, acreditem, vai ser chapa quente.
*by the way, cool é o termo hype do front fashion de hoje, que declara by all means que ser carbon free é top: basta comprar um art toy com seu pocket money. ah, sim, em tempo: tentar ser cool não é nada cool, viu, gente? e o que vem de fora também não, porque o hit mesmo é ser yourself.
Lá vou eu de novo me metendo a falar do que não sei, criticar o que não vi, baseada no que apenas ouvi dizer, mas gente, não resisti. Não sei se Alessandra Negrini se inspirou na famosa peruca preta de Elizabeth Taylor, ou se a sensível Laís Bodansky algum dia assistiu a um certo filme de Ettore Scola sintomaticamente intitulado "O baile". Julio Bressane eu conheço do excelente Tabu, que de louco não tinha nada, e os filmes em Brasília não vi, mas me pergunto quem está com a razão: o aplauso ou a vaia.
Agora. Se vamos definir a qualidade de uma obra de arte com base na reação simpática ou não do público, e em aceitação de mercado, bem. Corremos o risco de nunca ousar nada, não é mesmo? Aliás e a propósito, vale conferir a ótima entrevista de Robert Hughes a Veja, transcrita no blog de Luciano Trigo. O blog inteiro, aliás, é ótimo. Eu só sei que a coisa da opinião anda tão complicada, mas tão complicada, que nem sei mais o que faz um filme ser bom. Hesitei um tempão antes de atribuir cinco estrelas a "O sobrevivente", de Werner Herzog. O diretor tem cacife; a história é incrível, e além do mais, real (embora pareça impossível alguém meter na boca todos aqueles vermes); a fotografia, belíssima: cinco estrelas na certa, mas bem, hum: trata-se de um filme normal, com cabeça e pé no lugar. Nos tempos heróicos do cinema de autor, das telas azuis de um Derek Jarman, ou das treze horas seguidas de um Fässbinder, ou ainda das obras completas de um Syberberg, não passaria de caretice bem feita, mas hoje em dia... Hum, já não sei de mais nada. É coerente, completamente normal, mas um filmaço. Abaixo a chatice hermética de Bressane e outros, mas bem, hum. Se eu chegar nele um dia pode até ser que eu goste.
Não foi minha intenção criticar Cora Rónai quando eu disse, aqui no blog, que nem atropelada ela parava de blogar, gente, não. Eu talvez não tenha sido bem clara, porque eu queria dizer é que essa coisa de blogar, de tão excitante, pode às vezes se confundir com vício, e cá entre nós, a Cora ferida bem que merecia algum descanso.
Mas por outro lado, achei maravilhoso o que ela fez. Para nós, que acompanhamos com ela um momento difícil, e para si mesma: afinal de contas, tem coisa pior do que ser obrigada a ficar parada, que nem tartaruga virada, "olhando o teto, o céu e o vaivém dos helicópteros?" Fala sério, gente. Pensei melhor sobre o assunto e concluí que ter um blog é uma salvação, e não uma condenação (à hiperatividade, ao trabalho incessante, à superficialidade). Além de ser, é claro, uma ferramenta maravilhosa de compartilhamento de vida, emoções, descobertas. Mesmo que às vezes prescinda de alguma edição, ou reflexão, ou arrependimento. Tudo isso faz parte de um excitante aprendizado e a Cora já vai na frente, liderando a onda da transparência. Agora vem Aguinaldo Silva creditar seus excessos à natureza adolescente de quem se expõe em blog. Peraí. Se em certos posts somos mesmo destemperados, é porque somos destemperados mesmo, né não? E como adultos, precisamos crescer sim, mas em sinceridade, em maturidade de pensamento. Um bom jeito de fazer isso é pondo tudo pra fora, sendo a gente mesmo em qualquer situação. E se a gente não gosta de quem a gente é (mesmo que só por alguns momentos), paciência. Cada um que se envolva em seu próprio processo de mudança. Coisa semelhante acontece com o radialista de R&B Petey Greene — no excelente Talk to me —, um comunicador desbocado que é obrigado por seu chefe na rádio a se retratar no ar, depois de ter ofendido os interesses de um patrocinador. P. se desculpa, mas deixa bem claro que foi obrigado a isso e continua acreditando no que tinha dito. Fez um tremendo sucesso — a ponto de Washington, na década de 1960, se intitular P-Town —, mas terminou a vida meio à margem, por recusar-se a defender a velha hipocrisia da mídia. Seu enterro em Washington DC, aos 53 anos, mobilizou a maior multidão de que se teve notícia na cidade. O que não pode é generalizar, Aguinaldo. E vestir todo mundo com a carapuça do eterno adolescente . Vê se assume uma cara só, e antes de aparecer, cresça. Viu? Pior a emenda, blablablá. Ah, gente. A diferença que um jornalismo maduro faz. Mesmo em fase francamente experimental. E nós? Será que, 40 anos depois de Petey Greene, já estamos prontos para P-Town?
Podem me prender. Podem me bater. Podem até deixar-me sem comer que eu não resisto e já vou logo declarando: assisti "Tropa de Elite" no conforto irresistível da minha cama, num dvd bastante suspeito que foi gravado, pasmem, em Cingapura. Confesso que, a princípio, até hesitei. Pirataria é crime, prejudica os artistas, mas... ai, gente. Que preguiça de sair de casa e ainda arriscar ser assaltada ou atropelada, vocês sabem. Desde que li a excelente crônica de Cora Rónai no Globo de ontem, e descobri que ela decidiu não denunciar o motoboy que a atropelou (coitado, vocês sabem: o cara leva uma vida miserável, é pressionado de todos os lados), estou querendo escrever sobre o assunto. É, gente. Eu também ficaria com pena do sujeito, mas a verdade é que se a gente deixa sempre rolar a ilegalidade, por pena ou por simples jeitinho, as coisas não melhoram nunca.
Esta manhã foi Arthur Dapieve que reforçou o tema, com sua crônica sobre tolerância zero. A vida anda tão complexa, e a gente vive tão perplexa, que fica difícil às vezes tomar a mais simples das decisões. E num país como o nosso, onde há lei que "pega" e lei que "não pega" (a proibição de distribuir folhetos e lavar pára-brisas nos sinais do Rio pegou, nos conta o Dapi), é mais complicado ainda saber o que está certo. Obedecer a lei já não satisfaz. Há algo implícito em nossa natureza humana que faz da simples obediência um ato profundamente humilhante. E não é só no Brasil, gente. Não. Outro dia assisti a um filme israelense, "Uma juventude como nenhuma outra", que mostra o dilema cotidiano das soldadas encarregadas de policiar as ruas de Jerusalém. A gente é levada a nutrir uma certa simpatia pelas personagens. Afinal, são jovens, mal saídas da adolescência e com a libido à flor da pele, não têm culpa do estado de guerra em que vivem e querem, como tantos outros jovens, apenas se divertir. Mas o caso é que no caso delas, qualquer negligência pode resultar em várias vítimas de ataque terrorista. E resulta. Eu vinha pela rua tentando arrumar na mente estes pensamentos todos, organizando o texto e procurando um título bom para o post, quando resolvi entrar na Argumento aqui no Leblon pra ver se o Hierosgamos estava à venda lá. Foi quando dei de cara com a capa rosa-choque (como a do Hieros, mas não era) de "Para alívio dos impulsos insuportáveis", recém-lançado pela Rocco. Gente! Não parece um sinal de Deus? Era um livro de contos de Nathan Englander, jovem escritor judeu de Nova York e que descobri ao chegar em casa, foi "aclamado pelo público e pela crítica especializada dos Estados Unidos" em 1999. Decidi na hora usar o título e bem, pensei que seria mais correto pelo menos comprar o livro, né? Ainda não sei o que tem dentro, mas já vou recomendando. Tem tudo a ver com o que eu já vinha pensando, afinal de contas, diz a crítica do New York Times que o livro comenta uma sociedade com "cada vez menos tabus, cada vez menos regras sobre o comportamento aceitável". Tá certo. Embora isso pareça simplificar as coisas, a verdade é que a vida, sem parâmetros fixos, vai ficando cada vez mais complicada. Até, quem sabe, simplificar de vez. Agora, vamos combinar. Recomendar aqui no blog um livro que ainda nem comecei a ler, e ainda por cima de escritor judeu... não sei não. Parece nepotismo puro, gente. E deve ser mesmo. Essa vida não anda nada fácil.
Se o roteiro fosse americano, como no excelente "Os Infitrados" de Martin Scorsese, o personagem inteligente, com o perfil de mobilidade social de André Matias, seria um herói do serviço secreto e, como tal, perfeitamente integrado ao ambiente que pretende combater, explorando a fundo seus mais recônditos intestinos para atingir seus próprios fins.
Mas no Brasil bem realista dos Caveiras, policial de elite não se mistura jamais com elite nenhuma e nem trabalha pra melhorar de vida. Freqüentar a faculdade de direito e uma ong na favela é "insistir no erro", e não são estes os únicos que Matias comete. Honesto e incorruptível, age por conta própria para proteger seu companheiro corrupto (de quem nem gosta) e desencadeia por inexperiência, indisciplina e ingenuidade, uma guerra desnecessária no morro. Acaba confundindo problema com solução, mas é promovido a comandante da tropa. É, gente. Finalmente assisti, não deu pra escapar. Apesar de uns poucos tropeços no enredo, o filme é bom. Não dá pra dizer outra coisa. Mas mais de três estrelas, sinceramente, pra mim é impossível, porque não consigo compactuar com essa violência toda que eu acredito, existe sim. Só não acredito é que seja a única solução possível, e o que é descrito em "Tropa de Elite" como uma saudável e destemida — embora meio inconsciente — estratégia de integração social poderia resultar em pão e circo de qualidade, para o bem de muitos e o incômodo de alguns. Mas acaba enfiada pela ignorância, e com a máxima truculência, no mesmo saco de farinha podre que não é usada pra alimentar ninguém. Fica difícil determinar ao interesse de quem serve a discutível ação "legal" que proíbe (e não debate) o uso individual de drogas. Ignora a mensagem e ainda por cima pune o mensageiro, ou melhor: chuta; tortura; odeia. Porque na cartilha do Bope, crime imperdoável não é matar. É matar um policial do Bope. São policiais de elite, verdadeiros heróis do povo indefeso, "mais bem treinados que no exército de Israel". Fica por explicar a que pátria eles servem, e contra que tipo de inimigo combatem. Ou estaria mesmo a segurança pública em permanente estado de sítio? Qual é a alternativa não sei. Não me perguntem. Não é minha especialidade combater o crime, e o que posso fazer é não compactuar com ele. Honrar, respeitar a lei na medida do possível. E este tipo de atitude como a minha? Será que é correr da raia? É alienar-se? Como os estudantes riquinhos e relaxados da Zona Sul, que não têm mais o que fazer, e sua patética tentativa de ajudar os desfavorecidos? Filhos-da-puta drogados, metidos em ridículas reivindicações de paz, piores até que os criminosos com os quais se misturam sem pensar no que fazem? Se é assim que pensam os nossos policiais, sinceramente: o que eu acho é que estamos lascados. Encurralados entre a cruz e a caldeirinha. E ainda tem quem diga que o filme de José Padilha é pro-Bope.
"I once was lost, but now am found, I was blind, but now I see." John Newton
Embora eu não seja a favor deste feriado extra recentemente inventado, que festeja a consciência negra, vai uma sugestão para um programa cult neste dia: assistir em dvd ao "Amazing Grace", filme de Michael Apted sobre a abolição da escravatura na Inglaterra, em fins do século 18. As três estrelas da cotação são por conta de um certo enfado que complexos filmes históricos me provocam, mas não se enganem: em se tratando do gênero, as 3 estrelas valem, no mínimo, 4. O filme é bom pra se conferir o absurdo da idéia de que alguns seres humanos são inferiores a outros. A troca espirituosa de ofensas no improvável ambiente político do Parlamento inglês, já saudavelmente democrático naquela época, é mais um motivo de diversão. E sobra ainda uma curiosidade: descobrir que o hino com jeito de spiritual "Amazing Grace" tem sangue escocês e foi composto, na verdade, por um pastor branco, ex-traficante de escravos arrependido, que numa self-fulfilling prophecy ao contrário acaba cego de verdade. Vale conferir.
"Paris é tão civilizada", comenta um deslumbrado Elijah Wood com aqueles olhos impressionantemente azuis. "Você se senta pra almoçar, te servem a comida com uma baguete ao lado e uma garrafa de vinho na mesa". A equipe, imaginem, faz um intervalo na filmagem pra tomar um vinho, uma cerveja, comer uma pizza, e tudo funciona tão bem, todo mundo tão relaxado. Se você se deixar seduzir na locadora por este dvd, um "passeio íntimo, recheado de estrelas por Paris", comece pelos extras. São 20 diretores convidados, entre eles nosso Walter Salles, e um elenco internacional incrível em filmetes de cinco minutos sobre a cidade-luz, tendo o amor como tema. Parece bom demais, não? Aproveite as cenas de bastidores, os depoimentos, o estilo original de cada um, porque francamente, o prato principal é decepcionante.
Parece que a beleza, o mistério, a tradição romântica de Paris são tão ofensivos ao olhar contemporâneo que é melhor abafá-los com um roteiro enviesado, mais para o deprimente. Sai uma Paris com sabor de hamburger mal-passado e frio, absurda e estranha ao prazer dos sentidos. Não foi à toa que Ethan Cohen soou tão constrangido ao repetir em francês: Paris, je t'aime! Porque na verdade quem fez este filme parece que a odeia. E tenta nos convencer de que não passa de mais uma cidade moderna, apinhada de gente e onde a vida de cada um não passa de entediante drama rotineiro com toques de infelicidade. O resto é pura fantasia de estrangeiro.
Outro dia um jornalista conhecido do Globo, um cara que eu respeito e que até já me deu colher de chá, achou cool declarar no blog dele que "Paris, Texas", um clássico de Wim Wenders de 1984, era chato de adormecer o mais resistente dos insones. Foi o que bastou: choveram 50 comentários de piadinhas, críticas infundadas, até o infame wim-wenders-e-aprendenders tinha, todo mundo se achando por detestar um diretor famoso, vaca sagrada do cinema.
Eu li. Matutei. Não disse nada. Na verdade não me lembrava do filme, só da Nastassja Kinski, linda, com o suéter vermelho e da música tema. Fiquei com aquilo na cabeça. Pois esta noite passou "Paris, Texas" no telecine Cult, gente, uma obra-prima vista de todos os ângulos, do roteiro de Sam Shepard (outro craque) à cinematografia de WW, incrível a cena do rosto de Nastassja emoldurado por Harry Dean Stanton no telefone do bordel, só pra citar uma. Tá certo que hoje em dia todo mundo acha chique criticar unanimidades de antigamente, mas em público? No Globo? Eu até me lembro de ter achado "A Noite" do Antonioni, que revi quando ele morreu, meio ultrapassado, mas hoje me arrependi do meu comentário raso. Não pode, gente. Não pode não. Pra falar a verdade até hesitei em escrever sobre isso, mas fala sério. Se eu não o fizesse não seria eu. "Paris, Texas" é um filme incrível, a ponto de tirar o sono de qualquer um, desculpe, periferia. Não é que não respeite a opinião alheia. Respeito. Mas certas obras de arte estabelecidas, sinceramente, estão além da opinião: é o que faz delas clássicos indiscutíveis. Eu recomendo, e dou a ele as primeiras cinco estrelas daqui do blog.
Apesar de Paulo César Araújo nunca ter alegado intimidade com Roberto Carlos, ou afirmado ter escrito uma "autobiografia" autorizada pelo próprio, a incrível história real de "O vigarista do ano", filme de Lasse Hallström — com Richard Gere e um ótimo elenco — sobre o engodo de Clifford Irving nos anos 1970 guarda semelhanças com o nosso caso de escândalo literário não-autorizado tupiniquim. Ambos os livros acabaram na fogueira. Ambos os livros continham verdades incontestáveis. E ambos, bem, tratavam de personalidades reclusas com um pé na esquisitice. Foi o que deu margem aos dois eventos, pensem bem: a melhor proteção da intimidade é não ter nada a esconder. Paulo César, claro, não é um criminoso, apesar de ter avançado um certo e notório sinal vermelho. E no caso de Clifford Irving, bem, não se pode dizer que se tratasse do único mentiroso, não? Vejam agora a diferença que faz uma internet: o livro de Paulo César, apesar de banido, só não leu quem não quis. Já o de Irving, diz o letreiro ao final do filme que até hoje o autor — apesar de ter pago sua dívida com a sociedade, e publicado a história da vigarice — ainda tenta publicá-lo, bem, hum. Mais um pouco de pesquisa e facilmente se descobre que... Pena que ninguém mais se interesse pelo mistério de Howard Hughes e Roberto Carlos, com toda certeza, há de chegar lá. E se alguém quiser mesmo saber o que havia no livro original de Irving, bem, a internet está aí pra isso mesmo: pode baixar no site dele. Divirtam-se. Ah, sim: embora os produtores do filme afirmem que é tudo verdade, Clifford Irving himself no site declara que trata-se de um relato falso sobre a falsidade de um relato. Vai saber.
"Uma equipe de biólogos franceses isolou um "gene Mestre", que faz as pessoas tentarem controlar o outro ... O estudo mostra que o gene está presente não somente nos que gostam de mandar, mas também nos que gostam de ser mandados, pessoas extremamente inclinadas a adotar modas de todos os tipos — um comportamento "fashion" —, e a suprimir opiniões e preferências que não são compartilhadas por seu grupo." Michael Crichton em "Next" (tradução livre do original em inglês)
A maioria das pessoas que eu conheço não confessaria nem sob tortura que um dia leu Michael Crichton. Nem eu. Mas a verdade é que, pra relaxar, gosto de ver filminhos, e se a coisa estiver muito preta, ler livrinhos, vocês sabem, só pra distrair. Por conta desses enganos é que caí na esparrela do último filme de Meg Ryan, esse "In the land of women" aí do lado.
Gente, tem alguma coisa de muito errado lá com a eterna cool girl — do muitas vezes repetido "Mensagem pra você" —, e até o fim do dvd, entre uma cochilada e outra, não descobri o que é. Não sei se é a idade (olha o coxo, etc, etc), ou uma plástica mal-feita, ou se é má interpretação mesmo, numa comédia de equívocos que junta maus atores a um roteiro ruim, passando inevitavelmente por uma péssima direção. Fujam. Já Michael Crichton, que ninguém nos ouça (principalmente o Arthur Dapieve, meu mestre de Flip e recém-saído de um alentado "As benevolentes"), faz muito bem-feita uma ficção rasteira com um pé no pesadelo científico da realidade, e por um breve momento, até convence. Em "Next", que escolhi pra espairecer neste fim de semana, parece estar em boa forma, de acordo com os padrões dele mesmo, é claro. Estou só no comecinho, e descontando os macacos que falam, já deu pra extrair o trecho de utilidade pública aí de cima. Provavelmente será o único: não vou mais aborrecer vocês com bobagens. O fato é que, mandões e mandados à parte, todo mundo tem direito de se distrair como quiser. Além do direito, é quase uma obrigação, num mundo quase sempre sufocante como esse nosso. E é por isso que não vou endossar, de jeito nenhum, a sugestão do jornalista Luciano Trigo no Globo de hoje, mais um a querer culpar inutilmente o usuário pelo uso. Todo mundo sabe que sou contra as drogas, legais e ilegais. Mas respeito a escolha de quem decide usá-las, ou precisar delas. Aqui em casa mesmo: o Alan, vocês sabem, como todo americano que se angustia, curte um alívio químico para seus males mais óbvios. Então fizemos assim: levei ele ao médico, enfrentamos todos os testes, e pronto. Adeus dor neuropática e insônias afins. Eu prefiro ioga. Assim como prefiro os delírios criativos da imaginação sem aditivo nenhum, mas bem, cada qual com seu cada um. E se alguém acredita mesmo que precisa fumar, beber ou cheirar pra viver melhor, o problema é dele. Legalize it. Sinceramente, não vejo antídoto melhor para a violência do tráfico. O resto é uma verborragia só que nunca deu certo, a não ser para a Máfia. Segue meu comentário público ao artigo: "Luciano, li seu artigo no Globo de hoje. Como não fumo nem cheiro, não estou ajudando a destruir o Rio, ainda bem. Mas acho essa visão simplista. Proibir algo foi sempre o melhor caminho para incentivar o desejo pela coisa, todo mundo sabe disso. Nem sempre as drogas foram banidas, e no tempo que você cita, quando eram usadas para expandir a criatividade e até a espiritualidade, nem sequer eram proibidas. Embora eu graças a Deus não precise delas para criar, e advogue o trabalho criativo de cara limpa, acredito que o corpo e a mente são posse e decisão de cada um. Querer que todo usuário se responsabilize pelo fim da violência é acreditar numa utopia: a partir de certo ponto o usuário pesado de drogas não se responsabiliza nem por si mesmo. A única solução para este problema é liberar as drogas, e cada um que se mate do jeito que achar melhor. Afinal de contas, é também um direito humano."
PS - Luciano responde que "querer se matar é uma coisa, alimentar um processo que mata diariamente outras pessoas é outra completamente diferente". Tem toda razão.
Que o filme fosse bom já era de se esperar. A pegada firme e clara de Michael Winterbottom a gente já conhece de outros dramas reais, como a inesquecível cena dos dois refugiados afegãos passando a fronteira a poucos centímetros do chão, agarrados ao chassi de um caminhão; a verdadeira história do jornalista Daniel Pearl e as cenas terríveis da decapitação dele ainda tiram o sono da gente. Mas nenhuma tradição cinematográfica permitiu prever a energia em cena de uma bela e expressiva Angelina Jolie, maquiada para convencer de cara lavada no papel de Mariane grávida. O filme, enfim, impressiona, não tanto pelo drama como pela força impressionante desta mulher. Imaginem se eu seria capaz de reagir de forma tão positiva a uma perda dessas, a uma violência e crueldade própria de animais, não de gente. Posso dizer que o filme é bom, mas meus sentimentos quanto à situação que ele retrata são francamente impublicáveis.
O drama resultou numa bondade ímpar por todo lado. A tolerante Mariane mora hoje em Paris com seu filho Adam, a quem dedica o livro. Os pais de Pearl deram seu nome a uma fundação, inspirada nos ideais do filho assassinado para promover o "entendimento trans-cultural através da música, do jornalismo e da comunicação inovadora". Pelas notícias de hoje no Paquistão dá pra ver, no entanto, que em cinco anos não avançamos muito. Ou nada. Às vezes me pergunto, perplexa, onde foi parar o idílico Paquistão da minha adolescência, um país que eu daria tudo para conhecer. Ou melhor: para ter conhecido, eis aí mais um nefasto efeito colateral do fundamentalismo islâmico. Como diz Mariane em sua entrevista após a morte de Danny, é a miséria a porta de entrada para as atrocidades desse pessoal, como um tipo de infecção virótica. Só existe mesmo uma cura: ajuda e prosperidade neles.
Os 40 anos de 1968 serão comemorados com um novo livro de Mestre Zuenir, "1968 - terminou?", que será lançado em edição especial da Editora Planeta, junto com nova edição de "1968 - O ano que não terminou", sob o título "1968 - Terminou ou não terminou?" Bem. Eu diria que sim. Apesar de insistentes insinuações de que a ditadura continua, desta vez protagonizada pelo tráfico de drogas, creio existir no Brasil de hoje uma liberdade intelectual plena. Exemplo disso é a contundente e imperdível crônica de Arnaldo Jabor no Globo de hoje. É, gente. No apagar das luzes do meu hábito cotidiano de ler o jornal impresso, fiz as pazes com o Jabor. O cara anda impecável.
No texto, com um odor inconfundível de trauma longamente-ocultado-e-só-agora-revelado de infância, Jabor conta um episódio de abuso sexual no colégio onde estudava, e aproveita o embalo pra criticar o absurdo da política católica de celibato para os padres (pelo que sei, de origem medieval e baseada em motivos muito pouco nobremente morais e nada sexuais, como a defesa do patrimônio material da Igreja). O relato emociona, e faz a gente esperar ansiosa pelo filme sobre o tema que vai marcar a volta de Jabor às telas. A prática criativa faz um bem danado, em flagrante oposição à prática da política, fala sério, um Jabor renascido é prova cabal disso. Para ele, a infância não terminou. Falta a ela uma conclusão confessional transformada em (ou pela) arte: só a arte cura. E é pela mão terapêutica da arte que a gente percebe outros anos cruéis que estão longe, mas muito longe ainda, de terminar. Como o de 2001, por exemplo, abordado no filme "Reine sobre mim", com Adam Sandler num inesperado papel dramático de "viúvo do 11 de setembro". É muito triste. Mostra os desdobramentos íntimos da maldade desumana que foi aquilo, e retrata com sensibilidade as vítimas que, segundo o diretor, continuam vagando pelas ruas de Nova York, perdidas e ainda presas naquele trágico dia do passado. Há outros (anos), no entanto, que sim, já terminaram. Deixam na boca apenas o travo amargo da impossibilidade: será que o ser humano permitiu mesmo que isso acontecesse? Como o excelente (olha aí: a arte outra vez) "A vida dos outros" — Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006 —, que discute a prática livre da arte sob um regime ditatorial esfacelado de um dia pro outro, junto com o Muro de Berlim. Na Alemanha unificada ninguém se lembra mais disso (ou será que este filme comprova justamente o contrário?), a não ser pelas marcas da crise econômica que veio no rastro da re-união. A divisão do país depois da Segunda Guerra já foi vista por muitos como punição pelos crimes nazistas. E por falar nisso: o holocausto, terminou ou não terminou? No coração de muita gente, ainda não. Deixa o medo triste, coerente e queira Deus, injustificado, de um renitente anti-semitismo: um risco que não sei bem se já terminou ou não.
Se não fosse o sincronismo dos temas, eu bem que teria resistido. Não teria jamais confessado em público a mulherzinha chinfrim, emocionada e carente que mora em mim. Teria deixado a vocês, leitores, a escolha de se iludir quanto à minha verdadeira personalidade, de acreditar na intelectual, na escritora exótica, na inteligência lúcida, não teria decepcionado o meu clubinho. Mas não deu. Nada disso, aparentemente, sou eu. Ou, pelo menos, sou mais do que apenas isso. Tudo começou com o post aí de baixo sobre o recente dilúvio carioca, onde eu descrevia meu antigo apartamento de São Conrado, isolado pela enchente, como a minha "arquinha de noé". Depois chegou da locadora aquele filminho que eu tinha reservado pra ver na cama, só por diversão, alguns dias antes.
Foi pura coincidência, gente. Eu sei que foi porque, fala sério, eu mal tinha lido a sinopse. Sabia de uma história de Deus convocando o ex-virgem de 40 anos Steve Carrell a fazer alguma coisa ridícula que ele não queria, nada mais. Juro. Na cama, vocês sabem, na intimidade recôndita do lar, a gente assiste a (quase) qualquer coisa. Historinhas simpáticas de um deus que não existe encarnado aqui na terra me atraem, vai saber porquê. Deve ser por alimentar a esperança de viver, encontrar um sentido qualquer pra tudo isso, sei lá: uma bobagem como tantas outras. Já teve o do mesmo diretor "Bruce Almighty" ("O Todo-Poderoso"), e o Antônio Fagundes em "Deus é brasileiro": é sempre aquele Deus demasiado humano, que é como, aliás, a maioria de nós imagina Deus para o uso mais particular. Mas nada, nada me preparou pra ver a fábula daquele cara ligado em aparências, tentando subir na vida sendo o que não é, ou realizar um sonho grandioso do tipo "mudar o mundo", usando (mal) as regras de um mundo que desconhece. Um sujeito como eu, morrendo de medo de parecer inadequado. Nada me preparou praquela pessoa normal, forçada a fazer o que não sabe e a romper com o estabelecido, ouvindo a todo instante que é um louco, um inútil, um iludido que acredita falar com Deus... e ouvir a resposta dele, ops, peraí. Assim também não. No meu caso, tenho a consciência plena de dialogar como minha própria neurose, uma tal de "voz interior". Mas que em todo caso, acabo forçada a escutar. (Bem, Noga. Agora já deu, né? O resto, vocês já podem imaginar. Acabei de entregar meu péssimo hábito, que nem tão raro é, de transformar qualquer filminho da sessão da tarde em prolongada sessão de terapia.) Antes de ceder ao destrutivo impulso de confessar que me deixei envolver por este filme e até chorei... andei conferido as críticas, gente: é de médio pra baixo, quase um bonequinho dormindo. Mas bastou-me um simples extra do dvd pra entender, vendo no vídeo a figura messiânica do diretor, o que estava acontecendo aqui. O cara invocou dentro de mim um passado nem tão passado assim, quando eu também tinha uma certa mania de messianismo. Mas o que matou mesmo a pau, além da maratona (verdadeira) de construção da arca e da presença inusitada de mais do que não sei quantas centenas de animais treinados, foi o acrônimo do "Deus" de Morgan Freeman para "ark": random acts of kindness. Trazendo pro português, "ARCA" significaria algo assim como "Atos Randômicos de Compaixão Amorosa", deu pra sacar agora? E eu metida neste projeto visionário que terminei ontem, depois de três semanas fazendo o que não sei, conversando com um Deus que nunca vi e em quem nem acredito numa linguagem (de computador) que eu não entendo, resistindo ao impulso de achar que é tudo bobagem, besteira, babaquice, três bês de já basta tentando me convencer que nada disso vai dar certo... e seguindo em frente mesmo assim até botar no ar a coisa pronta: atos randômicos de compulsão ardorosa. Quem sabe vem vindo aí um grande dilúvio de generosidade cultural. Sonhar não custa.
Se não me engano, foi Sérgio Rodrigues quem disse que o filme era chato e o livro, ilegível. Sérgio diz no post que o filme foi dirigido por David Cronenberg, mas pelo que sei, é na verdade de Paul Haggis, um diretor badalado que em 2006 arrebatou longa lista de prêmios, Oscar de melhor filme e roteiro original. Me lembro de ter gostado do filme, mas essa de roteiro original me confundiu: é baseado no romance homônimo ou não? Ah, bom, santo google que resolve todas as dúvidas, mas o fato é que o filme de Cronenberg não consta em lugar nenhum: não saiu em dvd, nem está no IMDB, ops, procura daqui, procura dali, achei: eis a diferença entre uma cronista que chuta e um jornalista que apura, sendo eu a primeira e o Sérgio, claro, o último, caramba, esbarrei sem querer numa polêmica das boas.
Tudo isso era só pra dizer, enquanto eu pensava que "Crash" — o livro ilegível de J. D. Ballard que eu não li, que o Sérgio odiou, mas muita gente boa adorou: o sujeito é badalado à beça, tem até ballardosfera na internet — é que tinha sido filmado por Haggis e resultado num filme imperdível... ou melhor, pra afirmar que outro livro ilegível como "O doce veneno do escorpião" tem a chance de resultar, pela intervenção talentosa de Karim Aïnouz, num filme decente e até relevante. Diz o futuro roteirista, diretor de "O céu de Suely", que "o filme vai retratar o submundo da prostituição em São Paulo", já fui gostando da expressão "submundo": dá uma certa esperança de colocar as coisas em seu devido lugar. Agora, não vão vocês me culpar de ter a boca podre se, daqui a um par de anos, alguém fizer um filme homônimo, com tema semelhante e roteiro original (como no caso do segundo "Crash") — bancado pela Globo e estrelado pela estonteante Camila Pitanga no papel de Bebel —, jogando a história real da Bruna no esquecimento e arrebatando kikitos. Trata-se, aparentemente — e a julgar pelo sucesso de público das duas "damas" —, de tema apaixonante, embora a paixão amorosa fique pra sempre fora dele. Isso enquanto, na vida real (na minha, pelo menos), é a única coisa que verdadeiramente interessa.
Enquanto eu lia Roberto da Matta sobre a questão dos limites em Tropa de Elite, que ainda não vi, percebi que não poderia deixar de recomendar o filme que vi ontem, sim, se preparem, como o diretor enfatiza, duas horas e dezessete minutos, um tratado sobre a crueldade humana sem sangue, sem tortura, apenas um ilimitado abuso moral. Mal dormi depois disso, gente. "As pessoas", explica o filho-da-puta fardado enquanto exibe orgulhoso a tese de mestrado, "se dividem em cinco categorias. Os artistas estão na número quatro. Você faz assim: não os tortura, não faz perguntas, não os maltrata. Apenas os joga na cadeia e os deixa mofar por lá por um mínimo de 20 meses (pra ser sincera nem me lembro do número, tal o meu estado de choque). Terminado o período, sem uma palavra, deixe-os ir. Não sei o que acontece. Depois disso, costumam nunca mais escrever uma palavra, ou pintar uma tela, ou seja o que for essa coisa que os artistas fazem." Kaput. Schweine. Ah, sim. "A vida dos outros" ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006. Vale conferir. Não percam, nos extras do dvd, a emocionada entrevista do diretor.