Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Efeito Obama
Ufa, enfim uma boa notícia. Com tudo pesando tanto contra, dá um certo alívio saber que, pelo menos em algum teórico nível, a presença calmante de Obama na cena política teve um efeito positivo, vejam: cientistas acabam de atrasar em um minuto a cronometragem para o juízo final. Salvou pelo menos o fim de semana, né, gente?
Atenção: são seis pra meia-noite no relógio da descriação.
Sinceramente. Não sei o que vem acontecendo com os nossos especialistas ultimamente. Assistindo ao vivo ontem à noite à entrevista coletiva de Janet Napolitano, chefa toda-poderosa do "DHS" — pra quem não domina o excitante mercado americano de siglas: Departamento de Segurança Interna, ou "do Lar" —, se desculpando por "lapsos", "erros", "falhas" e não sei mais o quê, seja lá que absurdo for que acabou permitindo, naquele fatídico voo de Natal, um quase explosivo envio coletivo para o Reino de Cristo... ai, arrepio: foi o que cogitei.
E enquanto ela se enfiava de intenções e vontades públicas no buraco sem fundo da plena insuficiência, me lembrei dos circunlóquios técnicos da Dell, trocando a domicílio todas as peças do meu notebook e ainda assim incapaz de descobrir, até o momento, a origem misteriosa de um simples conflito de memória que tem congelado sem pena, duas ou três vezes por doa, ops, dia, o Windows 7 na minha máquina nova, não sei, gente (será que alguém aí pode me ajudar? com uma solução radical que não seja um "downgrade" de sistema operacional, como já foi sugerido?). Tanto num caso como em outro, eu pelo menos de bom grado dispensaria o grandioso teatro das ações contra o evento — no meu, as peças trocadas sem nenhum critério, chegando ao exagero de duas placas-mãe no intervalo de apenas uma semana; no deles, os pobres passageiros cada vez mais despidos de bem mais que seus sapatos e duras obrigações de turista; em ambos: haja paciência com tanta incompetência — em troca de um ato simples e certeiro, ah, saudades de um tempo, nem tão distante assim, em que era preciso saber bem menos pra simplesmente ir em frente na vida, não é mesmo?
Pois é, pobres de nós, vítimas involuntárias do aventurismo alheio: que nem cego em tiroteio.
Se não der jabá, que dê pelo menos Jabuti. (esperança de autor brasileiro cansa)
"Um futuro incerto nos deixa encalhados num presente infeliz, com nada a fazer a não ser esperar", escreve esta manhã no NY Times o psicólogo Daniel Gilbert em interessante artigo, onde analisa as razões reais para o atual pessimismo global.
O global eu não sei, mas meu atual pessimismo pessoal — segundo Alan uma estratégia psíquica animista longamente desenvolvida como reação ao habitual boicote da família, ufa — tem enfiado, principalmente nesses últimos dias, suas garras afiadas no meu frágil e exposto pescocinho de artista. Porque o artista de fé — seja ele escritor, arquiteto ou exibicionista —, que mesmo pessimista não passa de um esperançoso crônico, ou, vamos combinar, jamais se aventuraria, não se prende a algemas materiais, certezas adultas banais do gênero emprego-e-salário todo santo mês, até a redentora aposentadoria, não, ao contrário: faz da incerteza a sua mais incensada utopia. Mas que cansa, cansa. Cansa mais que rima e dói, dói muito: um topo que nunca se alcança. Vai daí que me enfiei neste último ano numa rodaviva produtiva investiva que agora resulta, somada à crise de que tanto falam, arriscada à beça: chego vazia ao cabo de casa e livro (e releases liberados na rua, vivendo a sua própria vida à minha inconformada revelia, deu pra entender agora?) com a certeza absoluta da incerteza que me aguarda, todo o recurso material de que eu "para sempre" dispunha transmutado naquele tipo de beleza votiva, vaidoso e suicida, que só se reconhece no eco raríssimo do outro, caso necessário, de muitos, centenas, milhares de outros. E põe carência criativo-afetiva nisso. Taí a grande angústia do artista, e ainda criticam quando a gente se "vende" em público em toda e qualquer oportunidade que aparece, ora, gente. O artista é tão naturalmente otimista que nem a bem da verdade se vende: se dá de graça. Sem acreditar no que receberá em troca, embora, claro, espere ardentemente por isso. Só sei que esta tal maratona do espírito para a qual treinei secou por seu lado aquele tipo normal de recurso que acrescenta à vida certo tom relaxado, ou relaxante, sei lá, como por exemplo falar abobrinha com um milhão de amigos, assistir novela, jogar videogame, paciência no computador, comentar em blogs. Me desacostumei de tudo isso e agora, no vazio do ócio que me ameaça bem na hora de apregoar o meu produto, tudo o que ambiciono é um pouco de silêncio. Fui.
Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor desta vez. Samuel Beckett
A gente percebe que está com sérios problemas quando passa uma semana inteirinha, e uma semana importante como essa (para a posteridade: a do G20), republicando palavras e imagens alheias. Mesmo que sejam sábias, poéticas, instigantes. Algumas até de vergonhosa memória mas mesmo assim memoráveis, como este nazista "Triunfo da vontade" aí embaixo, fazer o quê, me desculpo, mas foi o que me veio.
Tudo bem. Uma semana inteira e finalmente acordei tarde, foi-se, o rancho enxaquecoso do Rio de Janeiro, palavra feia, eu sei, mas usei para dar a medida exata da ressaca (i)moral que me acomete quando... ah, vocês sabem. Melhor nem falar mais disso, taí, é o medo de falhar, o velho medo pânico de falhar, terminar no limbo e sem nenhum dinheiro, foi o que aconteceu. E me deu na medida exata de deprimir, incapacitar, reprimir o intenso prazer que sinto, que venho sentindo, nas grandes e pequenas coisas que tenho recém-passado com minhas escolhas na vida, construído, revisado. Medo de destruir, degringolar no acabamento. Medo de publicar, precipitar por alguma besteira os bons relacionamentos. E por aí. Vai ver é por isso que gosto tanto de Obama, por sentí-lo tão próximo a mim (psiquicamente), estar na pele dele, pensar o que ele pensa sentir o que ele sente. Ou, pelo menos, imaginar que faço isso. Já pensaram o medo deste (grande?) homem, na hora mundial de herdada necessidade? Medo de faltar, fracassar, dar passo em falso, falso testemunho? Verdade. Com corte e tudo (o enfoque tônico no ô), e jantares de gala, a mais festejada dama (que até a Rainha, protocolos fora, se apressa em tocar), não, não queria estar na pele dele por nada. Felizmente, ao que parece, correu tudo bem, um trilhão extra a mais e o encontro global transcorreu na calma, tudo terminará bem fora um morto ou outro lá fora na calçada. Resta-me relaxar no meu couto otimista, consolo intimista de uma mente doente, irremediavelmente: o neurótico ainda dá pra passar, constrói castelos no ar; mas o psicótico, ah, decide que é neles que ele vai morar (diz o dito popular).
Acreditei no melhor de cada um. E descobri que é bastante acreditar para que um homem mau apresente o seu melhor, para que mesmo um homem bom eleve mais alto a sua luz.
(ou... tudo dá certo no final e se não der... não deu)
"Imagine all the people/ Living life in peace: A brotherhood of man. John Lennon
Madonna e seu filho David em visita a Yohane, pai biológico do menino / Reuters
"Estou absolutamente confiante de que este encontro refletirá enorme consenso sobre a necessidade de trabalhar em conjunto", disse Obama em Londres, preparando o terreno diplomático pra resistir aos tremores conflitantes de ideias, ou da falta delas, no próximo confronto mundial, uai, gente, será que eu queria dizer "reunião"? Certo, humanos, "pés logo abaixo dos joelhos". Tá tudo em família, o resto é pura convenção.
Pois é. Vai que é tudo retórica, ilusão, mas não sei, assistindo ao noticiário ontem à noite em clima pré-G-20 que começa amanhã, tive a clara impressão de que a grama da discórdia está sendo aparada cuidadosamente, os pneus queimados da crise estão sendo recolhidos criteriosamente e a massa pessimista trancafiada em casa, para sempre calada na mente insurgente, e não só, vai tudo indo bem e este mundo até tem jeito, basta a gente querer, vão-se os anéis, etc., etc.:
— Em Haia, na Holanda, no encontro convocado às pressas, Hillary Clinton debate o perdão, a tolerância e a compreensão em conferência internacional sobre o Afeganistão a que até o Irã compareceu, e não só isso, pasmem, eu ouvi: o vice-Ministro do Exterior de Ahmedinejad em bom inglês, dispensando a tradução (mais o incrível toque "fashion" do presidente em questão, o sempre elegante Hamid Karzai — elegante nas roupas, quero dizer, mas no poder... tsk, tsk).
— Em Basra, no Iraque, uma banda britânica bem menos famosa do que aquela outra, a do exército inglês, encerra com música suas manobras no sul do país enquanto hasteia a bandeira... iraquiana. Antes do que se esperava e mesmo assim é tarde.
— Na Bienal de Havana, Cuba, inaugurou-se a maior exposição conjunta de arte, cubana e americana, desde a Revolução de 1959, uau, são cinquenta anos e agora já basta de embargo, a arte como sempre correndo na frente.
— Madonna no Malaui em momento sensível, longe de Jesus, prova a boa intenção de um coração cabalista ao levar seu David adotado em visita ao verdadeiro pai, deu sorte esse menino que poderia estar morto, holofotes fora essa é que é a verdade.
— E, last but not least, enquanto na Flórida, USA, o Instituto Americano de Cardiologia aprova um amplo estudo na Índia (que se prepara, aliás, para as maiores eleições de que se tem notícia na história da democracia) testando a polipílula — uma mistura barata e eficiente de aspirina, estatina e três betabloqueadores que pode em tese salvar muitas vidas (e enriquecer muitos bolsos, claro) —, uma empresa espanhola promete para esta Páscoa um chocolate que tira a fome. Até aí tudo bem. Mas querer convencer alguém de que além de ser verde, o doce é gostoso... bem, aí já é mesmo Primeiro de Abril, não?
Olho vivo que a vida é um vírus, ah, foi só pra acalmar mesmo.
Quem ama o feio bonito lhe parece, ou... a beleza está nos olhos de quem, etc., etc. Provérbio popular, mais ou menos isso
Meu marido Alan, um sujeito muito inteligente que fala e pesquisa bem mais do que faz e acontece — o que para mim, vamos combinar, é mais do que conveniente: não faz sombra ao meu brilho incipiente e ainda contribui com uns temas a mais —, vive me dizendo que o que ele diz (ui!) já está publicado, prova de quê eu nem sei, por que é que eu haveria de querer que o que escrevo fosse publicado antes mesmo que eu mesma o publicasse?
Pois bem, a última tese de Alan extensamente já comprovada anteriormente em tese — como é possível conferir sem problema algum neste link que ele me enviou, entre excitado e contente —, emagrece substancialmente o meu vago repertório [de metáforas], reprimindo o já lendário apetite dramático por frases feitas: ovo e galinha considerados, não resta dúvida nenhuma (nos tempos científicos em que vivemos) de que o ovo veio primeiro e, pasmem, veio de uma serpente primeiro. Ainda por cima. Isto posto, imaginem meu gosto quando percebi que em cada lustrosa lisura indelével de ovo metamorfoseia-se oculta, aos olhos de quem vê — e como bem lembra Alan em outra impressionante digressão evolutiva: no calor dos acontecimentos, sem acrescentar nem um pingo de matéria externa — uma delirante manipulação de informação genética que, imaginem, da gema ideal original vai gerar sabe-se lá o quê, suspense, mistério: galinha ou serpente? Deus me fulmine com um raio se todo este texto for nada mais do que maldigerida metáfora do mal que se oculta em certas cabeças (parafraseando Joyce, só pra variar, ah, tudo bem: existe um limite entre a homenagem e o plágio, mas... onde? onde estará?) de exterior agradável aos olhos, como já demonstrei aqui faz tempo (o diabo mora na alma de quem o vê... ou seria nos detalhes?). Confiram.
A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. Titãs, de quê, na mais óbvia fome de citações
Não, não é o que vocês estão pensando, mas sim uma explicação convincente para o surto generalizado de obesidade bíblica que ao final das contas tomou conta dos Estados Unidos, uma forma de compensação obsessiva, desembocando com o perdão do trocadilho in fome nessa crise de excessos, de todos os tipos e acessos, que está aí pra todo mundo ver e que eu penso que, fatalmente, resultará não sei quando em maior elegância em todos os matizes, bem, essa é a parte chique e mais divertida da coisa, porque, vocês sabem, passar fome não é brincadeira. E sei bem do que escrevo, claro, do fundo de um estômago vazio, e não, não é de regimes radicais que estou falando — embora, claro, nos tempos em que eu me acreditava gorda tenha passado por todos eles e suas correspondentes fomes extremas, extremamente voluntárias, nada que passasse nem perto de uma ameaça mortal de bulimia política nem resultasse no tão desejado adelgaçamento libertador — mas sim de uma fome maior, mais básica, a nível de nascimento: um reflexo ambiental da dieta comunal à base de pó de ovo que grassava naquele momento [no ano da graça de 1952], num socialista Estado de Israel recente sem tanta graça divina assim, mas, certamente, com muita fome de (sobre)viver.
Pois é. Vocês aí têm fome de quê, eu de muitas coisas, alimento da mente?, fome de decência, fome de justiça, fome de cultura, de humor, e entre as piores e inconfessáveis fome de fama e fortuna, Deus nos livre da verdadeira fome do corpo que essa dói muito mesmo, confiram aqui neste vídeo curioso, às vezes engraçado e às vezes doloroso, sobre a depressão americana — gravado por um garoto esperto de seus treze anos entrevistando a avó — publicado ontem no NY Times, grasnou na encolha o urubu: nevermore.
Oscilando no fio da navalha entre o amor e o ódio à grande imprensa, reconheço nos óbvios resultados o valor da imprensada: nem bem duas semanas decorridas depois de ocorrida a (justa) reclamação de leitor no Globo Serra, et voilà: mato cortado, lixo coletado, e last, but not least, esta manhã os buracos sendo asfaltados, ô beleza. Estrada Carvalho Junior, vocês sabem, é meu novo futuro endereço, e por ele agradeço (quanto à iluminação local já não sei, não vou lá à noite).
Agora, aflição bem maior senti esta manhã logo ao acordar quando li, na contramão da aparentemente ilusória alta expressiva de todos os mercados, o apocalipticamente pessimista artigo de meu guru financeiro Paul Krugman, que poderia ser resumido, sumariamente (ops, redundância) em uma palavra: engodo. Será um enredo esse esquema Obama? Esperemos que não, mas, vocês sabem, entre tantos outros e cada vez mais gente, Alan acredita que sim, são todos sim, incompetentes, ai meu bolso furado. Será que Obama lê o NY Times? Escutaria Krugman? E a imprensa, alteraria mesmo os rumos incertos dos anais financeiros da crise?
[A expressão] "melhores e mais brilhantes" costumava se referir aos mais capazes, não aos que ganham mais dinheiro. Susan Jacoby, autora de The Age of American Unreason, relato best-seller sobre o antiintelectualismo contemporâneo
Outro dia um amigo meu, leitor aqui do blog, comentou que tem me achado muito tensa. Bem. É verdade. E, ao mesmo tempo, não é. Deixa ver se me explico. Se eu fosse rotular o meu "tipo" genético de personalidade, a tensão permanente estaria no pódio elevado das descrições, é isso aí: sou uma pessoa tensa. Mas tensa, vamos combinar, por me arrebentar com vontade nas coisas, dedicar-me intensamente ao que me emociona, não fugir ao desencanto quando for o caso e não resguardar-me no canto quando a onda da empolgação (ou da indignação) me leva. Mergulho mesmo.
Fora isso, sou pura. Não mantenho agenda nenhuma [agenda, aqui, embora segundo Alan meu inglês seja pobre demais pra ser considerado claro, no sentido anglicista da coisa: pre-conceito, pre-julgamento, cartas marcadas, ideias formadas sobre tudo, deu pra entender?] e mesmo sofrendo um tanto com a crítica alheia jamais respondo amarrando a língua, bem ao contrário: solto mais ainda. Tudo bem que ao desabafar cotidianamente na escrita não me furto a perceber, com um laivo envergonhado de autoinsulto, que eu talvez alimente a tensão pra forjar assunto. Imaginem uma vidinha assim bem arrumadinha, sem crise, sem dor de cabeça, barulho de vizinho abusado e com direito assinado a mansidão de marido, dinheiro no banco e verdurinhas na horta, leituras calmantes com vista pra mata de historinhas com começo, meio e fim num portuguesinho comportado chinfrim... eu ia escrever sobre o quê? Desafinar em quê? Pois é. Que importância poderia ter gostar ou não de determinado autor [em tempos antigos sim, queridos, já defini liberdade como a atitude desdenhosa de largar pelo meio um livro que não me agrade, mas agora não, me agarro à infelicidade da leitura como um carrapato faminto dentro de um sapato apertado, por puro dever autoimposto de ofício, o que não recomendo a ninguém, de maneira alguma]? Cumpre aqui, por sede de justiça, esclarecer que não guardo uma birra marcada por escritor nenhum, ah, quem me dera um mundo onde a língua escrita fluísse por todos os rios da imprensa com impetuosidade verbal de talento explícito, ah, gente. Nada há que me agrade tanto como entregar-me numa tarde de encanto a um texto excelente (exceto, talvez, vocês sabem, um cálido gosto amoroso naquela outra parte), e agora vem cá, por que seria diferente? Atiro-me a um autor (por mim) desconhecido, por recomendação de alguém ou de algum artigo, como uma voracidade mental, uma curiosidade, um cuidado acadêmico de cientista, sempre dedicada. Agora. Se termino no mais das vezes tão decepcionada que beiro ao desespero, desespero proporcional em progressão geométrica à qualidade literária esperada, não é minha culpa, mas culpa, isso sim, dos atalhos esburacados e mal iluminados da língua, atalhos que quando os reconheço, evito. Mas reconhecê-los assim, de enfiada, é difícil. Muita palavra inútil seria poupada se a leitora em mim se limitasse, por medidas de segurança intelectual, às clássicas avenidas de quádruplas pistas à altura de um Tolstói, por exemplo, com o radar ligado pra prevenir arroubos em excesso, mas qual, se não sou da pressa tampouco aprecio as pistas limpas. Gosto de aventura. Me arrisco. Me perco. Aprecio uma prainha escondida, mas cá entre nós, até mesmo os recantos mais idílicos da prosa têm sido sistematicamente poluídos pelo afã da renovação vocabular gratuita. "A linguagem política", escreveu George Orwell em ensaio de 1946 sobre a língua, "— e com variações isto é verdade para todos os partidos, dos conservadores aos anarquistas — é concebida para que mentiras soem como verdade e o assassinato pareça respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao que é puro vento". Onde há "política" leia-se "crítica" e aponha-se "da língua" a assassinato: eis aí o que eu frequentemente sinto. Se me dedico ao fruir literário com todo o sangue quente que me corre nas veias, seria isso um pecado? Ou simples luxúria de alguém que, por falta de uma voz clara que apuradamente a defina, tem sido condenada ao tédio da leitura? Ainda bem que em tempos de cobrança o "ponto de mutação" se aproxima, como explica otimista Judith Warner em seu delicioso artigo no NY Times, é, gente, até que de vez em quando eu curto de verdade alguma coisa: "talvez a gente veja uma muito necessária reabilitação da básica noção de "melhor e mais brilhante", conceito intelectual criminosamente desvirtuado, nos ávidos tempos já derrubados da extrema ambição de Wall Street, em favorecimento das mais recheadas carteiras. Ops. Não há mais dinheiro que pague o uso deslavado de tantos adjetivos. Peço perdão a vocês por meus pecados literários.
Curioso é que quando morei nos Estados Unidos com Alan, há quase cinco anos e com o dólar beirando os quatro, eu acreditava, mesmo, que era minha obrigação moral manter-me a par das notícias do distante Brasil, custasse o que custasse, e olhem que não era tão fácil como hoje, com tantos sites de notícias dando de graça, pra quem se interesse, a sopa de letrinhas do Zarur. Pois é. As coisas mudam.
Não sei se já estou naquela fase caquética da velhice, vocês sabem, quando a gente regride passo a passo, suavemente, em direção a uma segunda infância — como filha do Alzheimer cumpre aqui interromper, e esclarecer: não é nada disso, nem é engraçado e nem tão doce a transição como faço parecer, ah, é tudo recurso literário, vocês me entendem — mas, ops, voltando à vaca fria depois de uma lágrima ou duas, não me sai da cabeça atualmente uma frase que eu escutava em criança, é, gente, faz muito tempo: "o que é bom para a matriz é bom para a filial", leia-se "matriz" como "Estados Unidos" e "filial", entre muitas, também o "Brasil". Ou: "o que é bom para os EUA é bom para as "colônias". Vamos combinar: nada irritava tanto os apologistas da pujança nacional, entre eles, à medida que crescia como podia, podada até no pensamento pela mentalidade terceiromundista, esta cronista — ah, sim, vocês pensaram que aqui neste ponto, saudosa e sadista, eu infalivelmente lembraria a ditadura. Não é que eu não tenha sido encorajada, ao longo da vida, a exilar-me desta querida república demoderrotista, o último a sair do aeroporto, etc., etc. Mamãe, por exemplo, sempre me dizia que eu deveria, no mínimo, passar alguns anos estudando fora para, vocês sabem, fazer jus ao meu intelecto incipiente. Não fui e agora é tarde, azar o meu que nas mais caladas tardes, babando nas beiradas da literatura, eu lamente e chore a falta premente do meu diploma de Princeton (embora ontem à tarde, pra minha surpresa absoluta, eu tenha ouvido de Obama que a educação americana deixa a desejar frente ao resto do mundo, uai, gente, será que então acertei na mosca do cocô do bandido por jamais ter passado de uma prosaica Santa Úrsula?). Já Fred, dileto amigo já falecido — e que, por coincidência ou não, cito aqui pela segunda vez seguida, por que será que ando tão saudosista, hein? — dizia e insistia com um tom suspeito de admiração levemente xenofóbica que, marido pra mim, só mesmo um estrangeiro. Taí. Acertou (que o casamento binacional está mesmo com essa bola toda ainda tenho lutado para aceitar, BQD [bem que eu queria demonstrar]), não? O fato é que, acima de todos os cacos, o que eu sempre quis mesmo foi morar aqui mesmo, no nosso Brasil de cada dia: exercer por aqui meu olho caolho na terra onde não se fala inglês (e quem escreve em português? tem vez?). Mas logo agora, que encontrei aqui mesmo, pois é, outra vez, meu "heaven on earth", tenho visto bem claro, não sei se por destino ou pela histórica e predisposta irrelevância deste governo Lula*: tudo o que é não bom para os Estados Unidos acaba também sendo péssimo para o Brasil, que "teoria de descolamento" que nada, mais para "teoria de deslocamento", isso sim. Se a bolsa sobe lá fora, não há má notícia local que consiga impedir a nossa Bovespa de acompanhar a alta externa, e vice-perversa, olha aí a marolinha de Lula virando uma tsunami indonésia sem que a gente mal perceba. Mas isso é apenas dinheiro, não? Vamos combinar, nada mais do que a estúpida economia, e não é isso o mais triste, eu juro, apesar do execrável tom odeteroitmanista deste pretensioso post: fico mesmo deprimida com isso. O mais triste, mais trágico mesmo, é quando a gente percebe, lendo na internet as agências de notícias, como é desimportante este nosso Brasil para o resto do mundo. E, gente, francamente, merecemos bem mais do que isso, não? Taí: bem que este governo poderia tomar tenência e aproveitar, na oportunidade da crise, pra mostrar a que veio este grande país abaixo da linha do Equador. Haja presidência pra isso. Antes que seja tarde, amém.
* não é surpresa pra quem me lê, sempre tendi a ser antipetê, mas que deu um frio encontrar aquele comentário antigo publicado em O Globo, eternizado na página do senado, ah, isso, eu confesso, deu mesmo, o que é que eles pretendem com isso? trauma de ditadura, fazer o quê.
Pena de mim? Não precisava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Paulo Vanzolini, zoólogo e compositor, in "Volta por cima", que até Obama já citou
Desde que li no blog do Nizan sobre as aventuras preparatórias dele na Clinton Global Iniciative, onde o ex-obeso publicitário baiano (ah, bom: entendi tudo*) descobriu, entre outras coisas, que os americanos reais não pensam senão na próxima recuperação, me animei de vez (*compartilhando: longa vida à lendária manemolência baiana, equivalente local da primeiromundista fleuma britânica; e à intrínseca psicologia positivista dos slogans do bem, também; e mais, emagrecer faz bem, seja na carne, no consumo, ou no mercado futuro: abaixo o exagero de quase tudo).
Alan bem que tenta me derrubar, diz que eu não sei nada, etc., etc., que Obama é isso e aquilo (e o que dizer de Rush Limbo e Newt Grinch, argh, mas ah, melhor mesmo deixar pra lá esses famigerados americanos, eles que são trombadinhas que se entendam; ops; infames; trocadilhos; conservatistas). Nossa crise é realmente chinesa, e quanto mais o tempo passa, mais chinesa a nossa crise se torna, se é que vocês me entendem. Não me entenderam? Não quero é claro dizer com isso que a única saída aparente é tomar emprestado aos chineses pra depois comprar deles as vagabundas mercadorias que eles fabricam (ou falsificam) e assim manter, indefinidamente, o ilusório status quo vigente (uai, gente!, pleonasmei, ou, no mínimo, paradoxei: descobri que status quo é passado, ai meu dicionário). Quero, sim, encarar essa grave crise como uma enorme, imperdível oportunidade, exagero nos adjetivos à parte, Deus me livre. Pois desde que encontrei um sinal ilusoriamente fenício na montanha em frente ao meu estúdio futuro, eu ando um perigo: acreditando mesmo que a redenção é possível. Mas não sou só eu. Thomas Friedman do NY Times, por exemplo, explica em interessante artigo como a mentalidade não só mudará [para melhor], como já está mudando. Desemprego? Esqueçam: estamos falando da anunciada destruição apocalíptica dos empregos, isso, claro, abrindo o caminho para um mercado mais livre, mais crítico, mais individualizado, seria enfim o tão esperado adeus às niveladoras-por-baixo culturas acachapantes de massa? Tomara. Em outro artigo do mesmo dia e no mesmo jornal, que me cala mais profundamente ainda no peito, leio excitada sobre as oportunidades de renovação catapultadas por tantas casas abandonadas, delícia: Detroit invadida não só pelos artistas, como também pela criatividade arquitetônica (ou seria "arquitetada", uma coisa assim, digamos, tipo um plano divino de novo fruir estético?). Gamei. Adotei. Que tal vocês acharam a "melhor e mais linda ilha imobiliária de Mies van der Hohe jamais construída", cercada de esqueletos da antiga civilização automobilista, bem longe da vista sendo aos poucos substituída? Sonho de consumo reformista, e, na esteira dele, o inevitável renascimento da arte: o novo sonho americano, "um novo jeito de criar um ambiente urbano", oba, tô nessa. Literária e literalmente, né? E não se preocupem, nada, nada: não se trata aqui de mais uma ilusãozinha barata esotericamente alimentada por algum guru parasita como nos (meus) velhos tempos, não, gente. É coisa palpável, todos vendo, só não vê quem realmente não quer. Como, por exemplo, os barões decaídos do derrocado mercado financeiro. Pois é. Com tanta coisa empolgante acontecendo, ainda tem quem se preocupe com essa bobagem sexista e discriminatória de dia internacional da mulher, pode?