Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
A Morte de perto
Alguém de vocês aí já viu a Morte de perto? Eu já. Cruzei com ela ontem à tarde, de volta de uma caminhada até o topo do mundo pertinho do céu no meu Vale, isto é, no Vale do Sossego, pedacinho de paraíso para onde me mudo, se Deus quiser, na próxima terça. A Morte, de pele parda e cabelos pretos desgrenhados amarrados junto à nuca, estava de tênis branco. Vestia jeans, camiseta azul clara de gola baixa e mangas compridas. Me olhou simpática com um meio sorriso torto, divindo ao meio a cara medonha: "Boa tarde." "Boa...", respondi, da boca pra fora. Da boca pra dentro foi "...tarde, Dona Morte, mantenha distância e me inclua fora dessa". Tô até agora tentando convencer a mim mesma de que se tratava apenas de uma pobre inocente lavradora local, meio feinha, coitada, indo pra roça com uma foice às costas, coisas de morar no mato, vocês me entendem. Mas não consigo: terá sido um [mau] sinal? Hein?
Falar nisso, como resultado de minhas andanças no mato, acabo de detectar um carrapato grudado no meu pescoço engordando com meu sanguinho, ih, será que isso mata, gente?
"Ainda perdendo seu tempo?", me provoca um ácido Alan, entre irônicos sorrisos maledicentes, se referindo, é claro, ao interminável segundo expediente de revisar um novo livro de crônicas — mais um, é isso mesmo, mal tendo publicado, com grande sucesso de crítica e nenhum de prateleira, o delirante O Gozo de Ulysses — já que o primeiro, ultimamente, tem sido dedicado à tardia mas nunca arredia prática de arquitetura.
Pois o tempo se esgota, está em vias de se esgotar, assim como o dinheiro: a casa está pronta, e havendo disponibilidade da empresa de mudanças, devemos ocupá-la na próxima quinta-feira, até pelo menos que um ávido comprador afortunado se apresente. Mas no momento é domingo, faz sol, durante a semana envio o manuscrito, como [a mim mesma] eu havia prometido, a qualquer grande editor que se interesse por ele [que de editoras pequenas estou por aqui, ó], porque agora, meus amigos, preciso encerrar esta obra demente e sair de uma vez pra cuidar da minha grama, isto é, do meu gramado recém-plantado que se não for bem regado — e bem frequentemente —, se ressente, ou melhor, se resseca. Quanto à minha rara presença no blog na semana que passou me desculpo, não é por excesso de serviço, mas sim porque na última crise de conexão com a Oi o meu roteador pifou: agora internet no meu notebook só discada mesmo, pelo menos até que o novo sem-fio, despachado pelo correio, possa substituí-lo, meu Deus!, que drama mais lento, lento e caro, né, gente? Pelo menos gratuito aos domingos, como é que tem gente que ainda convive com isso? Hein? Não entendo...
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante... Fernando Pessoa, Poema em linha reta: uma bíblia
Minha casa está pronta e está à venda. Espero que venda logo. Espero que não venda nunca. Explico. Já houve quem dissesse recentemente que faço de tudo um negócio, mas, gente, nada poderia estar mais longe da verdade. Planejei esta casa, nos mínimos detalhes — e quando eu digo mínimos, I mean it: desde a papeleira do banheiro à cor do rejunte da soleira da varanda, passando, é claro, pelas divisões racionais dos armários, pelo design das maçanetas e até por um requinte invisível como a maçaneta do banheiro, fosca do lado de fora e polida do lado de dentro, vocês sabem, para combinar com os demais metais, nosso pintor sorriu quando entendeu: ah, bom —, para morar nela. Casa de artista, de arquiteta, de escritora, you name it, vocês me entendem.
Mas como toda empreitada arriscada a construção desta casa, que começou como um sonho já condenado, excedeu em muito a previsão orçamentária, et voilà: não tenho os recursos necessários para morar nela. Pra dizer a verdade, nem tenho os recursos necessários para a próxima compra de supermercado: graças a Deus a geladeira está cheia. E por falar em Deus, em anjos, em guias, eis aí, turminha escondida, uma boa oportunidade de provar, para todos e para sempre, a cabal existência da bondade divina, da guarda, da energia, da ascensão dos espíritos iluminados para uma dimensão bem melhor que esta, todo este tipo de coisa, ih, fiquei amarga agora, mas, gente, fui sincera. A vida toda — com exceção, é claro, desses últimos anos ateístas — lutei contra a impressão de que a espiritualidade não existia — espiritualidade aqui, definida como algo extrassensorial que nos guia, nos auxilia —, sempre desejando, no entanto, provar que sim, existia sim, que um "eu superior" em mim ou qualquer outro espaço sideral ligado a mim enxergava mais longe, pautando seguro os caminhos da vida. Enxerguei sim. Cheguei até a porta do paraíso, por exemplo, num movimento perfeito pra fora do Rio em direção à Serra e estava sim, tão feliz aqui, no meu lindo apartamento alugado lidando com os sons dos vizinhos do lado, mas bem, hum, agora que tenho a utopia do outro lado, a meros 8 quilômetros de distância estrada abaixo, nada disso é mais suficiente, deu pra entender daí a natureza humana? Bem. Tudo bem. Pelo menos desta vez construí, modéstia à parte, uma obra prima fácil de apreender com um único olhar, numa paixão de segundo. E não como as minhas últimas — mais sem falsa modéstia ainda — escondidas entre as orelhas de livros que poucos se aventuram a conferir, ô vida. Você aí, Deus, vai a última chance. Passo uma listinha de possibilidades concretas com um prazo apertado pra se concretizar, me salvar sem ressalvas do (quase inevitável) buraco, da depressão, da bancarrota, não necessariamente nesta ordem de importância ou ilusão: - contratos de tradução do inglês, revisão, edição, leitura crítica e o escambau, tudo que existe no campo editorial - contrato de publicação de meu novo livro por alguma enorme editora (de preferência com um adiantamento polpudo, é claro) e/ou farta distribuição dos demais já publicados - projetos de casas na Serra - ganhar um prêmio literário - ser contratada como cronista, pelo Globo ou qualquer revista, ou, vá lá que seja, um portal da internet, desde que eu seja paga, claro - ganhar na loteria - encontrar dinheiro na rua - vender a casa - arranjar um emprego de balconista nas Lojas Americanas, não vai daí nenhum preconceito, pelo amor de Deus, só mesmo uma dó no peito criativo
Ah, tá bom, peguei pesado agora. É a sexta, gente, é o vazio, fim de gripe, depressão pós-parto de artista sem filhos que só deu mesmo à luz durante sua (breve ou longa, depende do ponto de vista) vida três ou quatro modestas obras de arte. São todas pra vocês. Que vos iluminem, amém. De coração.
Tudo bem? Tô sem tempo pra crônica hoje porque, vocês sabem, devido aos nobres motivos que descrevi ontem, fiquei até tarde na tevê vendo futebol americano com legendas (gulp!), custei a adormecer pensando no drive definitivo daquele quarterback estonteante, acordei tarde, tô atrasada.
Afinal de contas, tô num dia crucial na obra: transformando em obra assinada o que era pra ser apenas um paisagismo vagabundo, ô felicidade, sô, adorando isso bem mais do que imaginava. Mas nem por isso vou deixar vocês sem sua diatribezinha diária de Noga Bloga. Li (pra variar) no velho e bom NY Times de cada dia uma crônica excelente de Roger Cohen que resume bastante bem o meu pensamento dos últimos tempos, ufa, em franco contraste com quando eu pensava que valia a pena viver bastante, e pagar qualquer preço por isso: malhar 3 horas por dia, beber 4 litros de água, não comer quase nada dividido em 5 pequenas porções com a desculpa esfarrapada do vegetarianismo estrito, manter em dia as visitas ao dentista e ao ginecologista e o emplacamento do carro, bem, hum, como dizia Oliver Reed, o ator horroroso mais charmoso do mundo: "Não beba; não fume; não trepe. Morra assim mesmo." É isso aí, puta programa de índio: todo dia é um bom dia pra morrer e rir é o melhor... etc., etc. Como afirma RC. Falando nisso, todo dia eu tenho lido na imprensa que procurar demais, fazer ressonâncias demais e se preocupar demais com o andamento da sua saúde, aumenta demais o seu risco de morrer de câncer, bem, de morrer, pelo menos: dá um estresse danado. Melhor deixar tudo isso pra lá, e a vida a nos levar. É isso aí. Boa sexta procês que já estou de saída pra curtir a minha obra (calma, gente, "obra" no sentido, vocês sabem, de "construção", ah, entendam como quiserem que eu não tô nem aí).
Quer emagrecer? Construa uma casa. A tensão do dinheiro escorrendo descontrolado pelo ralo, mais a preocupação de acertar em cheio, fazer com que tudo saia perfeito, ao melhor preço e no menor prazo possível, tira a fome de qualquer um. Somado ao exercício feroz de ir à obra todo dia, discutir, acordar cedo... eu garanto. Não que este tipo de dieta seja livre de efeitos colaterais, não, gente. Confesso. Dá uma insônia danada, uma angústia, quase um colapso nervoso, bem, hum. E arrisca acabar em divórcio, vocês sabem: nada muito diferente de uma TPM constante, ou dos defeitos concomitantes de qualquer fórmula brilhante pra conter o apetite. Mas tem final feliz: você magra, contente e morando bem. Tomara.
Não sei o que me acontece que desde que fechamos a casa — pra quem não sabe, motivo obrigatório de um segundo churrasco para os trabalhadores, que ainda não aconteceu, quem sabe é por isso —, quer dizer, colocamos vidros — e portas e dobradiças e trancas, não necessariamente nesta ordem —, que me apeguei dentro de mim ao sentimento histérico da insegurança proprietária, isto é: se eu antes mal dormia por medo de fazer besteira na obra e acabar fracassada e falida, agora — que, finalmente, na quarta-feira da semana passada, deixamos de chamar de "lote" pra passar a chamá-la de "casa" — já não durmo por medo de que os vidros explodam ou de que a casa desabe, levando com ela meus sonhos tardios de arquiteta. E põe "Serenus" nisso.
Mas, cá entre nós, eu nunca esperava isso. Chegando na obra, ops, casa, ontem pela manhã, depois de um único dia afastada por estar demais ocupada (com a rotina de dona de casa e com meu novo livro sendo preparado), me deparei desavisada com uma cena [literalmente] dantesca, pra Krajcberg nenhum botar defeito: todo o território em torno tendo sido arrasado, calcinado por uma queimada bem-feita, mas tão bem-feita, que não deixou verde sobre verde na cinta negra de luto que por ora nos cerca. Um sinal? Um alerta? Não sei. Passado o susto (imaginem agora nós na sala, a tevê ligada, e de repente as chamas altas nos cercando, crepitando rubras que nem um círculo de fogo daqueles de circo) — afinal de contas, a cerca não foi erguida, nem o Sansão-do-Campo (que por sinal, descobrimos, é proteção eficaz contra queimadas) ainda foi plantado, foram apenas algumas lindas árvores levemente chamuscadas, ufa —, instalou-se inclemente a fantasia espiritualista: como, quando e por que sorte amena do destino, nossa propriedade inteirinha foi poupada? Só pode ser carta marcada, gente, proteção do divino, nosso céu na terra armado como tendinha amorosa resguardada do atentado, cúpula energética de nuvens como arrisquei aqui no outro dia, morrendo de medo e vergonha de minhas espiritualistas idiossincracias, fazer o quê: taí a prova. O que me lembrou, sei lá por que, a discutida autoria daqueles círculos mágicos da Inglaterra — os Crop Circles [ou: Círculos de Colheita, ou: Círculos Ingleses] —, que por anos e anos desejei ver ao vivo, sei lá, compartilhar a magia e que, se não me engano, apareciam naquele filme de Shyamalan — "Signs" — e que agora, imaginem, estão sendo atribuídos a um bando bêbado de cangurus da Tasmânia, pode?
"E quando volto aos Estados Unidos mais ou menos a cada três meses e pego um jornal, descubro que não perdi tanto assim afinal. Enquanto estive relendo P.G. Wodehouse, ou 'Walden', a loucamente acelerada montanha-russa do ciclo 24 hs por dia de notícias propulsionou as pessoas pra cima e pra baixo e pra baixo e pra cima e depois as deixou praticamente no mesmo lugar em que haviam começado", escreve, no NY Times, Pico Yier*, um bem-sucedido jornalista de Park Avenue que largou tudo para viver num templo escondido no Japão, lendo e escrevendo quando lhe dá na telha com uma tangerina fresca na mão.
Pois não se espantem ao descobrir que o artigo foi publicado a, digamos assim, uns 3 ou 4 dias atrás, porque cá entre nós, embora eu tenha pretendido em bem menor escala atingir essa calma lenta de rotina ideal, tendo chegado a exatamente as mesmas conclusões de Yier pelo menos quanto à compulsiva leitura de notícias online and off, ando tão ocupada, tão preocupada, tão tensa, deprimida e atarantada como nunca estive antes — nem morando no Rio por mais de 30 anos, gente! — sem tempo ou disposição pra mais nada além do trabalho intenso, da ansiedade e da culpa não-sei-de-quê, ah, sim, pra variar: todos os males do mundo, da obra, e, claro, do conturbado casamento. Porque a nossa tão cultivada doença urbana mental, todo mundo sabe, segue firme e fiel, ofegante, latindo e lambendo o nosso ego fatalmente afetado como se um cachorrinho excitado fosse, bem ali do nosso ladinho onde quer que a gente esteja. Com um copo enorme de vodka na mão. Verdade que estou a poucos dias, poucas horas e mais alguns segundos — aiai, respira fundo — de tudo isso se acabar, ou se modificar, para o bem ou para o mal, com alguns poucos sinais de menos ou mais apontando para um fim normal, um novo começo profissional em que um pouco de calma, ou de sorte, ou sem grandes favores o franco resultado do trabalho intensivo de toda uma vida poderá, desdenhosa e finalmente, dispensar-me antes da morte certa algum doce e modesto usufruto, ui, soei trágica agora. Mas isso, gente, é pra me consolar de antemão da ausência futura de uma — (im?)possível? — reviravolta brilhante, vocês sabem, daquelas clássicas, dramáticas, aplaudidas sacadas hollywoodianas que elevam o herói a seu pódio iluminado um teco antes da bancarrota final, coisas de filme, mesmo. Porque embora em minha vida eu dificilmente careça de lances crucio-radicais cinematográficos, dignos da mais imponente e cada vez mais rara tela grande, a grande verdade é que após algum tempo instigante, por artes malignas do destino, tudo volta a um cotidiano chinfrim de mesmice interiorana que eu trago pra lá de oculto em mim, arrastando consigo os grandes amores, os altos e baixos inebriantes de uma drogada dependência de sucesso público a culminar, teatétricamente, num prosaico "me deixem só". No fundo no fundo, não sei se é desejo ou desculpa. A conferir.
*embora Pico Yier afirme em seu artigo que "as ferramentas que escolheu, palavras escritas, estejam aparentemente se tornando meros acessórios de imagens", a qualidade do que ele escreve — e, por extensão, a qualidade lida do calmo lazer literário que pratica — toca fundo em quem o lê. dá uma esperança danada de acertar-se na vida.
carretas namorando na União Indústria: celfoto Noga Sklar
Não sou Susan Boyle nem nada, mas confesso, gente: estou "exausta e exaurida emocionalmente", como afirma "O Globo" se referindo a Susan, embora, acredito, não ao ponto de internação. Ainda. E nem tem tudo a ver com ter sido preterida durante a breve carreira de cronista, respectivamente, pelo Jabuti, o Portugal Telecom, o Prêmio São Paulo, o Man Booker International e o Nobel — não necessariamente nesta ordem, crescente, de valor e importância, aí incluído o convite para a Flip.
Vocês me entendem: 57 anos de idade, feia, pobre, desempregada e mal-arrumada, romancista frustrada, só faltava ainda por cima ser virgem e nunca ter sido beijada, desses dois últimos escapei, graças a Deus. E ao Alan, claro, somado a uma meia dúzia de uns dez ex-namorados dos quais por pelo menos um (como eu, arquiteto e prosista), em momentos de crise, ainda me sinto apaixonada. Pois saibam vocês que hoje em dia grande parte dos meus problemas se deve justamente a ele, Alan, marido aposentado, americano desterrado e, pasmem, remediado — o que hoje em dia com a queda das bolsas já nem é tão raro —, cheio de manias da maior ou menor grandeza. Como, por exemplo, neste episódio dramático de construção da nossa baucasa, onde tudo que a gente adquire tem que ser "no atacado": judeu não compra no varejo, ele diz, nem arquiteto ou empreiteiro, tá certo. Geralmente não cedo. Aceito, confirmo, e por trás das costas torço nervosamente os dedos, faço que não ouço. Mas no caso das ardósias mineiras fartamente rústicas, de generosas texturas, vamos combinar que eu bem que concordei com ele. Decidimos, contra a opinião criativamente simplória do empreiteiro e na contramão dos fatídicos porcelanatos chatos, revestir nosso piso nesta pedra natural, sem corante ou aditivo, produto de Minas que a Europa cobiça e não sem razão: é bonito mesmo. Mas aqui pela Serra, sei lá por que, ardósia acabou virando sinônimo de pobreza, baixa qualidade, produto indigente pra telhado de zinco nenhum botar defeito. E por causa disso, navegando nas águas elitistas e exigentes de Mr. Alan, tanto pesquisei na internet que acabei atingindo a fonte da coisa: a pedreira de exportação propriamente dita em Papagaios, Minas Gerais. Pois foi. Preço acordado, contrato assinado, mal sabia eu o que me aguardava, ah, gente. O frete foi marcado para "impreterivelmente" sábado cedo, e me preparei a contento: dois serventes em regime de hora extra e um dia inteiro esperando, que celular de motorista que nada, sempre fora de área. Veio o domingo e nada do nosso piso, mais um dia maldormido de trabalho extra e plantão na obra, até que quase às dez da noite, quando eu já tinha até desistido, me liga o motorista com uma história triste de funcionário cansado marcando a entrega pra finalmente esta manhã, "dá pra subir com a carreta?", dá sim... claro... pode vir sem susto... Pois é... não deu... e eu nem sabia em que estava metida... Às seis da manhã toca o telefone, e com lançamento de livro e acabamentos de obra tudo ao mesmo tempo aqui e agora, nem posso dizer que tenha me acordado, já que faz tempo que eu mal durmo: era o motorista da carreta a caminho do porto do Rio, já tendo sido xingado, vilipendiado e rejeitado, tendo o trânsito impedido no árduo caminho para o nosso tranquilo cul-de-sac no mato, no mais para domesticado Vale do Sossego, Correias, região serrana do RJ. Me visto às pressas, faço alguns contatos de emergência e saio ao encontro do gigante estacionado... dá pra imaginar a dantesca cena? Nem precisa: segue junto a foto, prova in loco das bodas de ardósia: o magnífico caminhão deles, 29 toneladas de pedra com destino a Sevilha e Oslo e no meio delas, espremidos e meio verdes, os nossos humildes 6 engradados transferidos, 6 toneladas de pretensão para Alan & Noga Sklar no enferrujado caminhãozinho de interior. Tá certo. Com tanto drama sério na vida custa encontrar um bom motivo de regozijo e riso, mas mesmo assim é preciso. Rir, todo mundo sabe, é o melhor remédio, e em consulta a seguir o cardiologista confirma: evita a morte por falha do coração. Sobra a queda de avião, ô tristeza, não é à toa que morro de medo disso. Ai. Passou por aqui um arrepio.
...e, de quebra, no poder do jornalismo (marrom ou azul, isto é, na tela azul), acabo de receber DaObra o email publicado acima, como é justa a lei da imprensa do mesmo tamanho e peso do que logo aí embaixo condenava a empresa. Concedo-lhes o benefício da dúvida enquanto espero, desculpas aceitas, a entrega da cuba na próxima quarta-feira. Ufa. Alívio.
Papa Bento e o cajado de Moisés: foto Ali Jarekji para Reuters
"E, no septuagésimo terceiro dia, eu vou descansar, prometeu, ironizando os que acusam de ser messiânico", li no Blog de Lúcia Guimarães (faltou o "o", Lu, ou fica parecendo que Obama é quem acusa, tudo bem, é só blog), onde ela explica que um hilário B.O., em seu discurso de estréia na Associação de Correspondentes da Casa Branca que, por tradição, deve ser cômico, "prometeu completar os próximos 100 dias em 72", assim, duas vezes na mesma frase, promessa pouca é bobagem. Eu poderia, é claro, ter visto ao vivo o discurso de Obama como sempre fiz, ter visto o pappanazi beixar o chão da Terra Santa (ui: "pappanazi" é pesado, vamos combinar, perdão, leitores, que é cristão perdoar, mas "beixar", tendo sido na verdade um lapso de teclado, resolvi deixar: poderia ter sido Joyce em Finnegans Wake e estaríamos combinados) e o Talibã tomar de assalto o Paquistão, ou seria, caso Deus existisse, o contrário desta quase-rima, de acordo com a Lei do Talião? Pois é. Eu poderia também ter ficado quieta, começar meia hora mais cedo o expediente de arquiteta que é o que tem me ocupado tanto, mas tanto, quem nem deixa brecha pra noticiário, discurso ou breviário, ah, tudo bem, com a breve exceção dos curtos e despretensiosos passeios relaxados (meia hora antes de tentar adormecer) pelas páginas intrincadas de Finnegans Wake que Joyce levou, imaginem, 17 anos pra escrever, nada desses trocadilhos malpagos e meio apressados de Noga Bloga, pelo telufano a caminho da obra (de Joyce: tellafun, ui, que essa coisa pega, mas que é gostosa a mais não poder, é, eu, pelo menos, gosto, imaginem agora a espantosa interpretação futurista: telafone).
Ih, me perdi. Tudo [o?] que eu queria nesta prosaica segundafora enquanto me visto para ir à vizinha Três Rios fechar um negócio de vidros era explicar por amaisbê como por mais que eu evite me comparo a Obama: enquanto ele constrói um mundo eu por cá vou terminando a minha modesta obrinha, um mundo pra mim, façam a conta aí: 29 de abril (o dia 100) + 72, ou muito me engano* ou vai dar bloomaicos meados de junho quando se Deus quiser — e apesar do empreiteiro tê-la de fato prometido para os 17 de julho, isto é, exatamente os cem dias projetados, já que a obra vai indo tão bem... que, ah, melhor deixar pra lá —, no septuagésimo terceiro, descansarei contente no meu novo terraço, ensolarado e cercado das montanhas mais verdes que vocês já viram na vida, (re)lendo o "Gozo", meu livro recém-publicado de crônicas sobre Ulysses: uma declaração literária de amor a Joyce que prometo a vocês, por mais que o cinzento diabo de Erin me tente, não repetirei com Finnegans Wake. Falei.
*ops. me enganei, não? 72 dias depois do 29 de abril vai dar 10 de julho, muito cansada pra contar, mas, ah, deixa pra lá, tô sempre me enganando mesmo, e macacos me aceitem se não é assim que nos empolgamos com grande parte das maravilhosas coincidências numerilógicas durante a vida...
É, gente. Custou. Mas aconteceu. Até hoje eu era virgem, vocês sabem: embora como internauta convicta (fazendo-se a ressalva de que minha fé não é absoluta em nada) eu compre cada vez mais online — tomando o cuidado, claro, de apenas frequentar lojas "seguras", ao menos manifestamente "estabelecidas e confiáveis" como Americanas, Submarino, Ponto Frio, Droga Raia, Zona Sul e que tais e já basta, que não estou aqui pra fazer apologia de quem não faz mais do que a obrigação de ser correto e honesto — em especial ultimamente, desde que optei por morar no "mato", nunca, acreditem, eu tinha caído vítima de um desses "esquemas espertos" de quem se aproveita do impulsivo desejo prático de um comprador de fim de semana conectado.
Impulsivo, eis aí o termo chave. Estava eu navegando online no sábado passado quando me deparei com o que poderia ser considerado como um "sinal dos céus": a linda, sofisticada cuba metálica para a cozinha — da qual eu tinha já me decidido que não abriria mão, por mais que outras opções me custassem — em estoque para pronta-entrega e pela metade do preço no aparente e profissionalmente respeitável http://www.praobra.com.br/. Praquê. Foi eu fazer a transferência online no Banco do Brasil para me arrepender quase que instantaneamente, arrependimento do qual me aliviei temporariamente na segunda cedo ao ter meu pagamento confirmado por email — ufa, dessa eu escapei — e a entrega estimada para 2 ou 3 dias. Desde então, cada minuto que passa é mais um minuto de ilusão perdida: são emails não respondidos, telefonemas não atendidos, ninguém do outro lado da linha — me entendam, qualquer linha — para me acalmar ou esclarecer. É claro que eu entendo que hoje é sábado e, como bem diz meu marido Alan, "vigaristas não operam aos sábados", mas, tudo bem: resta ainda uma tênue esperança de resposta adiada até segunda-feira e, por isso, publico apenas esta prévia de denúncia aqui no blog, mais ou menos assim como um ensaio de defesa por vir. Mas na segunda, me aguardem, de várias uma, ou quem sabe todas menos uma: ou cuba entregue em casa, tendo em anexo um pedido de desculpas pelo atraso e pela mentira no site ("disponível para pronta-entrega", lembram?), ou meu artigo enviado para o Globo online, para a Defesa do Consumidor e, last but not least, amplamente divulgado num concatenado ataque orquestrado no facebook e no twitter: o mal-intencionado cérebro por trás desta obra malparada que se mantenha antenado. A vingança, neste caso em particular, prometo: será um prato que jamais ficará frio.
Pois é, gente, sei muito bem que os motivos mais comuns para blogaditos radicais assim como eu pedirem um tempo à sua abrangente e exigente audiência costumam ser bem mais charmosos que os meus, duvidam?, o Facebook taí mesmo pra provar o que eu digo, algo assim num nível bastante explícito de Oropa, França e Bahia, tudo bem, vocês me desculpem que os meus sejam tão prosaicos.
Me entendam bem: bem que eu quis nesta manhã de maio tecer meus maldosos habituais comentários sobre o divórcio anunciado do assanhado Berlusconi, ou sobre o delicioso fracasso consumado do cinzento rendez-vous oficial entre Mahmoud e Inácio, mas aí, vocês sabem, o empreiteiro interferiu com sua overdose horária de urgente realidade operária, o preço crescente da areia distante de qualquer praia, a inconstante cotação do mármore preto e a interessante e pouco usual opção pela ardósia mineira de exportação, ufa. E eu que pensei que estando escritora poderia assim, com um toque despretensioso de futura moradora, dedicar-me ao breve passatempo de criar um lar, qual, ofício ingrato este de erguer para si um raro edifício privado: tal qual a literatura, é uma amante exigente a arquitetura, e eis porque, sem querer lhes impôr minha íntima e cotidiana tortura, tenho sido forçada a textos breves, banais, nada confessionais como costumam ser e, ainda por cima, infectados de descaracterizados links externos. Ando nervosa, é fato. Imaginem vocês que numa semana apenas preciso aprovar o livro, o piso, o rebaixo de gesso, quilômetros de portas de vidro e gerenciar, a dura penas, a acachapante exiguidade bancária: é dose, pô, texto chato. E pretensioso ainda por cima, mas falta-me o tempo de editar, revisar, optar por outro assunto melhor, menos perdulário. Por essas e outras, se eu ando distante, não é por falta de amor ou empenho: é por excesso de desempenho, puro desgaste mesmo. Pois antes que vocês se dêem conta, respirem fundo por conta do alívio que a minha ausência blogueira afronta, estarei de volta. Com livro na praça e tudo, me aguardem. Até qualquer dia nos próximos trinta e cinco.
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem para o bem de quem não tem vintém. Chico Buarque, arquiteto e poeta
Para quem quer saber como é que se constrói uma casa não tenho muitos conselhos, eu mesma, vejam bem, apesar do meu instinto apurado de arquiteta formada quanto à harmoniosa organização dos espaços, esquemas de cores e aberturas para o céu ou mato, panorâmico terraço alçado às alturas, negros mármores morenas madeiras cativantes ardósias encaloradas, com respectivas e exclusivas agruras, posso contar:
do grau de aspereza da argamassa à espessura do ferro tensionado que anima o concreto por dentro como se dele fora a alma pura... mal entendo os mistérios, deixo-os ao cargo de quem, com trinta anos de labor nas costas e os ressentidos nós calosos inflamados nas palmas, dá conta, tão bem quanto, de tais tão normais desafios de um novo abrigo erguido sob medida. Mas Alan não se contenta com isso, gente, não. Quer impingir-me à força por força da cultura sua vivência e visão das coisas Made in USA, o que, cá entre nós, tem me deixado doida. O empreiteiro que antes era excelente de repente nem desconfia por onde o competente cano de água quente passa, descalibrada a massa bruta que reveste as paredes e sai por seu lado esfarelada e torta e por aí vai, entendam, nada disso é realmente real, ih, soou mal... Sabem aquela filosofia do ready-made e do do-it-yourself com vídeos how-to no youtube? Agora imaginem: transferida para os pobres pedreiros de Petrópolis, isso não funciona, né? Ah. Tudo bem. Abandono a prancheta que ninguém mais usa por um software qualificado que aos poucos domino, ou ele a mim, enquanto penso o apuro estressante em termos de texto como ninguém mais pensa mas que em James Joyce (me refiro desta vez a Finnegans Wake), ao contrário do que todos pensam, coisarada!, fascina a quem lê: mais um engodo. Enquanto me divirto — gargalho na cama com aqueles trocadilhos todos, transmitidos em aliterada poética lettera oscura, num estado de crenças onde a autoinflingida ironia dita por si o abandono perfeito de uma ação contrita —, Alan me dilacera o estômago, me embrulha o firme intento já que o humor irlandês, ele diz, não me alcança o intelecto chicano e ou muito me engano ou é mesmo impossível conviver assim, trocando ardores com tal disparidade mental-paradigmática? Ai, meu tropical-universalismo, valei!, Santa Gincana que me redoma.
Com tanta coisa encaminhada e prestes a terminar — casa encantada, livro aprontado no prelo e, claro, como consequência meio que inevitável nesta estressante rotina criativa sob um automecenato apertado, o saldo minguando no banco — tenho testado em meus dias e noites minha enxaquecosa resistência à pressão externa e descubro: é bem mais limitada do que eu acreditava.
Tá certo que houve ainda ontem uma divertida, vitoriosa polêmica construtiva entre os egos inflados sobre a composição ideal de determinado impermeabilizante de aplicação universal para a qual, pasmem, desloquei ao mercado petropolitano o próprio criador paulistano da essência para, finalmente, desmontar um inusitado complô de resistência no qual, imaginem, o oficial representante local acabou confessando seus prolongados ardis destrutivos, para delícia da semiarquiteta metida que aqui vos fala: não é que o sujeito exclusivo enganou todo mundo, e por muito tempo? E no entanto, não me salvou de mim: estou naqueles dias em que tudo que faço ou escrevo ou penso parece menor, pouco intenso, fatalmente propenso ao fracasso total. Eu passaria com quase nada o meu dia inteiro na cama, deprimida com gosto e assistindo, com a nuca torcida no encosto, ao meu mundo cair em alvoroço do altíssimo pico anteriormente conquistado dos meus sonhos mais vastos. Devassa. Despisto. Me aplico em detalhes entendiantes pra tentar evitar, ainda que apenas momentaneamente, a postura suicida das contas discordantes. Em momentos como estes busco consolo em outras paragens inusitadas, histórias diletantes de opções bem mais desafiantes, uau, que agora já chega. Como a aventura instigante (caramba que este vocabulário terminando em "ante" e "antes" parece inesgotável, jorra da mente intrépido e sem conflitos, com a arranhada pujança invasora de um poema inconsciente, beirando o delinquente) da escritora colombiana Pilar Quintana sobre a qual leio fascinada no rascunho do Blog da Adriana que me lembrou, por outro lado, outra esquisitíssima personalidade literária americana que vive no mato e nem por isso, sem tempo pra pesquisar agora o nome da figura que inevitavelmente me falha à memória, pronto, acabou: o telefone tocou, o empreiteiro convocou, e lá se foi pelo ralo afora a minha intenção de crônica. Ah, sim, os tais cem dias a que me refiro não descrevem somente a minha construtiva batalha particular, mas bem além dela uma muito maior, mais empolgante e abrangente: os cem dias de Obama que se completam hoje, sem tempo extra para devaneios políticos. Fui. Desculpem ai o apressado mau jeito gramático: depois, se for preciso, me edito.
Alimenta a chama de tua luz com teu próprio alento. do lírico inglês William Shakespeare, no português poético de Thereza Christina Rocque da Motta
Foi eu pensar na epígrafe [ausente] deste texto, "Jorge sentou praça/ Na cavalaria/ Eu estou feliz/ Porque eu também/ Sou da sua Companhia", pra perceber que, apesar de tantos anos sentada sob a sombra segura das belas palavras de, hum, Jorge Benjor — "para que meus inimigos tenham mãos, e não...", "olhos e não...", e "nem mesmo pensamentos eles possam ter, para..." — a espada protetora de São Jorge em minha vida já não faz mais nenhum sentido: estou em paz com o mundo, já não vivo entre inimigos. Alívio.
Nunca na verdade entendi muito bem a ligação carente com São Jorge sendo eu judia e, em geral, descrente. Deve ser a lua, ou por eu ser de lua, adepta do hábito patente de matar um dragão por dia, havendo dragão ou não sob a luz vermelha de qualquer altar, banida, bandida, sua cruz vermelha a abençoar, ah, cá entre nós, eu não tinha a menor intenção de me tornar poética, mas sim de informar, me espantar na internet com o fato de que, além do Rio, há muitas outras plagas devotas do nosso São Jorge, a Inglaterra, por exemplo. E sua mundialmente famosa Ordem da Jarreteira, vocês sabiam? O que me conduz finalmente ao tema, bem mais instigante do que essa pregressa carolice gabola de rádio-relógio (ih, soei antiga, agora!, mais antiga até do que realmente sou): o aniversário de Shakespeare. Pois é, de nascimento e de morte na mesma data, imaginem, põe devoção a São Jorge nisso: haja dragão e o nosso Bardo continua por cima, nunca atravessa o ritmo da rima. Sem sarcasmo, juro, nenhuma ironia: é pura devoção literária mesmo, sorte de Shakespeare que na Inglaterra não tem essa de dar ao filho o nome do santo do dia, ou Will não escaparia de ter se chamado George, George Shakespeare it is, será que ele gostaria? Teria desejo? Ou pontaria? ("where there's a will there's a way", o povo já dizia, mas Joyce distorceu: "If others have their will, Ann hath a way", deu pra entender o trocadilho? porque se não deu, estará no meu livro, aguardem, é ler e conferir). Vamos combinar que este post começou por eu ter percebido que, por armas sutis do destino e pelo desejo dos pedreiros, a festa da cumeeira da minha obra primeira caiu direitinho hoje, Dia de São Jorge, padroeiro dos guerreiros — bênção ou armadilha? — um belo teto afinal, e de quebra, se Deus permitir, um belo texto, São Shakespeare que me inspire, deu pra entender agora? Ih. Me enrolei a tal ponto com devoções diversas, de São Jorge e São Shakespeare (e até São Joyce, imaginem, este último um explícito devoto de São Sinonymus) à Santa Arquitetura compartilhada com a literatura, que... ah, deixa pra lá: essa coisa de rima pega, pega até mal em prosa moderna, quero dizer. Mas eu não ligo. Sigo rimando e cortejando o perigo, eparrei. E só pra terminar esta algaravia impossível de 23 de abril com um nepótico tom local — ah, tudo bem que nepótico nem sequer existe no dicionário, mas lembra em tudo [palavras-valise, vocês entendem] aquele emissário malvisto que mistura como ninguém nepotismo com despotismo: o editor —, aviso aos navegantes do lirismo que minha editora favorita do momento, Thereza Christina Rocque da Motta, está lançando em comemoração à data sua tradução personalista dos completíssimos 154 sonetos de Shakespeare, comemoração não só dos aniversários descritos acima, mas também dos 400 anos da primeira edição: eis porque no final, isto é, aqui, no começo, a cito em epígrafe em lugar do velho e bom "ser ou não ser". Dormir. Talvez sonhar. Foi aí que bati no ponto, valei-me meu Santo Onofre, patrono da sorte, ui, ansiosa demais que este santo é de junho, mês do Bloomsday e lançamento do meu livro, okê, Oxóssi!, Ogunhê!, São Jorge e Santo Will que me protejam, e assim seja.
acordei esta manhã com o sol brilhando, os passarinhos cantando, a mente bombando e basta de rimas babacas. Pois é. Separei o dia de hoje — já tomei meu chá, já lavei a roupa, já li o NY Times e a falta esperada de notícias sobre a tal forjada Tea Party dos conservantistas, declarei meus impostos e tudo o mais que me foi imposto por estar inserida num pacto social insosso — pra ter um dia puro e simples de arquiteta sem prancheta, sim, artista, é o momento cruel e crucial dos detalhamentos de projeto, banheiro, cozinha e fortes argumentos entre esposa e marido à beira de irremediável enfrentamento, deve ser por isso que, ufa, sonhei.
Eu estava, imaginem, num encontro de arquitetos (ardendo de vontade de me bandear pra sala ao lado, onde se desenrolava um encontro de escritores, juro por Deus que não estou inventando) onde, uma a uma, reconheci a ruiva Cristina, a energética Nilza, a ossuda Bete — ex-sócia classuda, pra me redimir de qualquer crítica à obra surda — e mais algumas desnomeadas colegas da faculdade, aí, ó, me socorram se um dia... vocês que me lerem. Pois lá estava eu no sonho no tal congresso, de regresso à injuriada profissão pregressa na qual jamais registrei um progresso palpável, vamos combinar, orgulhosa a mais não poder do meu projeto minimalista, cozinha e banheiro e correlatos nos minimamente elaborados relatos, novesfora adjetivos baratos, ui, meu cantinho gostoso de mato, ai, gente: pra quê. Foi quando uma delas me disse que meu sonho de casa estava na favela, em meio aos barracos iguais a ela, ui, ao alcance das múltiplas balas que vinham dela, favela, ai, que dor, que vasto e carioca horror... Pior de tudo é que não consegui no sonho a resposta esperada para o pior dos meus dilemas: gasto ou não gasto o dobro do suposto naquele impermeabilizante mirabolante mais moderno de todos no mercado? Quem mandou abrir mão de um telhado? Hein? Enfrento ou não a fúria consumista que se apoderou de repente do tão razoável antes empreiteiro? Ai. Dúvidas cruéis de diletante pesando na mão oculta, presa na armadilha do bolso, ai meu orçamento.
Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor desta vez. Samuel Beckett
A gente percebe que está com sérios problemas quando passa uma semana inteirinha, e uma semana importante como essa (para a posteridade: a do G20), republicando palavras e imagens alheias. Mesmo que sejam sábias, poéticas, instigantes. Algumas até de vergonhosa memória mas mesmo assim memoráveis, como este nazista "Triunfo da vontade" aí embaixo, fazer o quê, me desculpo, mas foi o que me veio.
Tudo bem. Uma semana inteira e finalmente acordei tarde, foi-se, o rancho enxaquecoso do Rio de Janeiro, palavra feia, eu sei, mas usei para dar a medida exata da ressaca (i)moral que me acomete quando... ah, vocês sabem. Melhor nem falar mais disso, taí, é o medo de falhar, o velho medo pânico de falhar, terminar no limbo e sem nenhum dinheiro, foi o que aconteceu. E me deu na medida exata de deprimir, incapacitar, reprimir o intenso prazer que sinto, que venho sentindo, nas grandes e pequenas coisas que tenho recém-passado com minhas escolhas na vida, construído, revisado. Medo de destruir, degringolar no acabamento. Medo de publicar, precipitar por alguma besteira os bons relacionamentos. E por aí. Vai ver é por isso que gosto tanto de Obama, por sentí-lo tão próximo a mim (psiquicamente), estar na pele dele, pensar o que ele pensa sentir o que ele sente. Ou, pelo menos, imaginar que faço isso. Já pensaram o medo deste (grande?) homem, na hora mundial de herdada necessidade? Medo de faltar, fracassar, dar passo em falso, falso testemunho? Verdade. Com corte e tudo (o enfoque tônico no ô), e jantares de gala, a mais festejada dama (que até a Rainha, protocolos fora, se apressa em tocar), não, não queria estar na pele dele por nada. Felizmente, ao que parece, correu tudo bem, um trilhão extra a mais e o encontro global transcorreu na calma, tudo terminará bem fora um morto ou outro lá fora na calçada. Resta-me relaxar no meu couto otimista, consolo intimista de uma mente doente, irremediavelmente: o neurótico ainda dá pra passar, constrói castelos no ar; mas o psicótico, ah, decide que é neles que ele vai morar (diz o dito popular).
celfoto NL Sklar: a vista do lado direito, 120/360 graus de curvatura da Terra
Caros, vou contar pra vocês pqneeh (porque..., etc.): de repente não sei o que me deu, um senso assim de uma coisa maior, overwhelming, com o perdão do inglês [fui ao dicionário e achei a tradução do termo fraquinha, fraquinha, não fazendo o menor jus], um algo assim indefinível grande demais que me secou temporariamente (espero...) o palavrório interno, sabem como é.
Obama, por exemplo, tema constante aqui do blog e, não escondo, projeto dileto de livro de crônicas futuro, só se a presidência der certo, claro, agora imaginem: essas picuinhas todas do dia-a-dia, bailouts [olha o inglês aí de novo: é NY Times demais e O Globo de menos, confesso] gigantescos, resgates, falências evitadas e outras provocadas, tsunamis, ataques, terremotos, tudo isso, se é que vocês me entendem, tão chinfrim perante the bigger picture (ih!) que emergirá sei lá quando de quantos escombros da crise, uai, gente, mas não é a crise o escombro? Ou seria... um assombro? Tudo isso nada a ver, percebem?, tudo tão pouco frente ao espanto provocado por inédita subida ao meu novo terraço recém-concretado, a acachapante sensação de cúpula de nuvens (ou seria melhor: uma redoma cósmica de energia, ui!) preservando [o sentido d]a vida, o sopro, o meu futuro estúdio literário cercado de montanhas e mata. Isso, que por enquanto tudo meio encoberto sob a névoa baixa e rajadas constantes de chuva, monolito fenício oculto noutra face da vista, sei lá, para amansar o impacto. Não sei, gente, tudo ficou tão menor, tão lá embaixo, tão dispensável e distrativo que perdeu todo o sentido. Me enrolei no desejo. Quando passar eu volto.
***
E enquanto isso, menos de uma hora morro abaixo... é o horror instalado. Ui. Arrepio.
Se do alto do título deste post te contempla uma estranha familiaridade de tema, você não está errado, me acredite. É isso mesmo, um comercial da Light de muito tempo atrás em que energia elétrica à vontade era quase novidade: batedeira, liquidificador, aspirador e o que você imaginar, tudo era inédito, luxo, raridade.
Mas é claro que aqui no blog não é a isso que me refiro, mas aos primeiros transtornos que aparecem quando você planeja construir uma casa, e não qualquer uma, mas a exata casa que você sonhava erguida do nada numa bela paisagem, silêncio, calma e piscina, e claro, num ambiente saudável bem distante do seu dia-a-dia corrido, uma casa gostosa, confortável, prática e firme, assim, digamos, para a completa e definitiva posteridade, a próxima geração incluída. Pois é. Era esse mesmo o meu desejo. Vai daí que você viaja (na mente e na estrada), descobre o local adequado — estado, cidade, terreno — e se convence que uma mensagem divina te conduziu até ali, não haverá nenhum problema, tudo transcorrerá, daqui por diante, de acordo com a sua mais que perfeita conveniência, mas qual, a mão carregada do destino te reservou coisa bem diferente, e você não demora a pressentir um tipo inusitado de medo que nem imaginava que existisse: medo de ter sido enganado pelo corretor de imóveis local — muito mais esperto do que você jamais seria, claro —, que te garante, a princípio, que todas as áreas à venda são amplamente edificáveis e não existe nenhum limite, nem de água, nem de luz, nem de internet, nem restrições mais sérias e intransponíveis como, por exemplo, uma zona de preservação ecológica — aqui em Itaipava, por mais um exemplo, é pirambeira protegida pra todo lado —, com ele qualquer cuidado é pouco; medo de que chova demais e o terreno deslize, a parede infiltre, o muro desmorone; medo de ser roubado, e preste atenção porque em área urbana este medo nem existe, e que o lindo chalé pré-fabricado — na loja tão charmosa a preço tão convidativo, que você pagou em parcelas quitadas bem antes de ser montado — não só não existe, como nunca existirá porque a empresa faliu e levou sua grana (e mesmo que existisse seria frágil demais, não legalizado e não-legalizável, apertado e escuro, e pior: completamente incinerável; você não tarda a descobrir que banco nenhum faz seguro e nem financiamento para esse tipo tão romântico de pesadas construções pré-moldadas de madeira). Quando enfim, todos estes medos primários foram vencidos e descartados — você já se decidiu por um lindo condomínio de porteira e guarita e uma casa mais sólida, da mais tradicional alvenaria —, um outro ainda pior, e ainda mais definitivo, cresce aos poucos, cada vez mais intrusivo: o da incompetência do empreiteiro escolhido. Arre. Uma lenha (ou quem sabe um tijolo furado). E nada disso é ficção — argh, será que eu me lembrei de tudo? —, embora nem tudo tenha acontecido de verdade com a gente: aconteceu com alguém que a gente encontrou por acaso, o amigo de um amigo que em conversa de bar, confidência de outsider, passou em confiança o (seu) trauma pra que a gente o vingasse, o passasse em frente. Pode acreditar que nos últimos meses passamos por quase tudo isso, com algumas exceções que creditamos à sorte de iniciante, intuição, sei lá, blablablá, puro acaso. Isso, claro, até que incomode o próximo compromisso. Mas enquanto isso, temos curtido bastante um casamento tranquilo, mais um harém promíscuo (de sexos mistos) incluindo empreiteiro confiável — quase um milagre — fiscal, engenheiro, arquiteta (que graças a Deus sou eu mesma) e um esquema de crédito aberto na loja favorita do nosso comissionado construtor, claro, que eu rezo todo dia pra que não seja uma fraude. Cansou? Imagine a gente, que mal tem dormido. Ontem mesmo descobri que é preciso esperar por longos — e caros e tensos e dependentes do favor dos vizinhos — noventa dias pra que um necessário novo transformador na esquina da nossa rua instalado pela Ampla, nossa Light local, finalmente nos ilumine. Pois é. Respondendo à pergunta inocente de meu irmão acostumado ao ritmo louco do Rio, que duvidava que eu tivesse o que fazer na imaginada calmaria aqui da Serra, Alan e eu até agora não relaxamos nem um minuto, procurando acertar nem tanto no milhar, mas no melhor projeto possível de moradia. Aprendemos muito. Encontramos parceria e agora, sorte sua: queremos compartilhar a expertise. E sem restrição nenhuma: até mesmo essa nossa primeira casa em Correias, sonhada a fundo e até o último detalhe de refinamento construtivo, postada bem em frente à Maria Cumprida de Araras e descortinando sem nenhuma cortina aparente uma paisagem que para o Alan — e olhem que ele é exigente — é uma das mais lindas que já viu na vida, acredite, eu não gostaria, mas se for seu desejo poderá ser a sua: afinal de contas, o negócio é a alma da beleza, ou seria o contrário?
Agora. Se você planeja ainda que remotamente seguir por sua conta os nossos pioneiros, ousados primeiros passos em direção a viver no mato, e acredita que o que aprendemos pode te servir um dia, não hesite, poupe a sua energia: use a nossa. Acompanhe online o emocionante diário da minha, sua, nossa obra favorita e veja surgir do zero, materializado em cimento, tijolo e vidro, um maravilhoso (e não é exagero não, é só o que a gente deseja mesmo, e trabalha bastante pra isso) projeto de uma nova vida. Aproveite que é boa a dica.
Se de hoje em diante até mais ou menos lá pela segunda semana de inove-dois-mil-e-nove eu sumir daqui de vez em quando, vou logo contando porquê.
E não, não se desesperem: não é pelo mesmo motivo que quase todo mundo (inclusive escritores, pois é, minha editora afirmou no outro dia que mesmo escritores reservam este careta período clássico de férias para adiar projetos, pensar na vida ou, quem sabe, no caso muito particular de escritores, na trágica morte da bezerra e suas funestas conseqüências narrada em estilo misto de prosa e verso através de inéditas metáforas), uai, gente, e eu que pensei que artista parado, só morto? Pois é. O caso é que como mostra o vídeo anexo — cujo partido estético, apesar de interessante, já vou logo deixando claro que nem endosso, mas o filosófico sim, claro — a casa dos sonhos de qualquer escritor, embora seja em regra um sonho de projeto, corre às vezes o sério risco de se transformar em breve pesadelo (pelo menos até as fundações), agora imaginem se você for ao mesmo tempo o cliente e o projetista (e pior: projetista de um marido cliente e exigente, que pensa que é projetista), o arquiteto e o escritor, o morador e o investidor, colaboradora e domadora de empreiteiro sensível (ops: sensível aqui sou eu, ou não?) e, ainda por cima, sabendo exatamente o que quer mas não pode ter, que enrascada, hein? Dá pra sonhar solto, me digam, com essa tranqüilidade toda aí do vídeo, tendo que pensar no peso da estrutura, no preço do cimento, na crise do crédito e no prazo apertado da mudança? É de deixar qualquer um, se não completamente doido, no mínimo roído de ansiedade — meu estado normal no momento —, e eis porque neste fim de ano, em vez de dar o tempo tradicional de a poeira baixar, vou fazer o que posso pra levantar toda a poeira de uma só vez o que, vamos combinar, talvez me impeça de escrever todo santo dia assim, bem de vez em quando. Mas não se assustem, ou melhor, não suspirem de alívio tão depressa assim que logo logo estarei de volta à ativa, isto é (como quem me conhece já sabe, cão que ladra, etc etc), sempre existe o perigo de eu nem deixar de escrever e ainda por cima chatear vocês um dia sim e o outro também com minha recém-renascida paixão pelo objeto-casa que aprendi a amar, vocês sabem, desde criancinha: bora de volta às origens. Pra preocupar a mente, ó, faz um bem danado.
"Isso não vai dar certo", eu dizia a mim mesma sem nem virar o pescoço, tensa na cadeira dura, as mãos crispadas enquanto prescrutava descrente, pelo rabo do olho, a sala que à minha revelia se enchia de gente inusitada — pra não dizer esquisita, mesmo: velhos, solitários, aleijados, os politicamente corretos que me desculpem mas Jeronimus Bosch se sentiria homenageado —, todos pessoalmente festejados pelo avaliador que eu já conhecia de há poucos dias, um sujeito dos mais insinuantes que se possa imaginar, olhos profundos e o tipo da barba branquinha, curtinha e bem aparada que, somada àquelas mãos rapidinhas, bem, hum.
Pegaria de jeito qualquer um mais desavisado. E não, gente, não estou falando de nenhum recrutador de prostitutas ou aliciador de traficantes, nada disso. Mas quase isso, quer dizer: um atravessador de esperanças ou, no mínimo, um pérfido mercador de memórias. Bem que o Alan me avisou (e o Alan, vocês já sabem, é um especialista em tudo que, infelizmente, eu raramente levo a sério, por puro preconceito conjugal, azar o meu): é tudo teatro. Mas eu, teimosa, enxerguei bem o contrário, embora no fundo no fundo achasse pouco provável que aquela turminha mal-ajambrada estivesse mesmo preparada para investir milhões, assim, como se fosse nada. E, cá entre nós, pra onde o pregoeiro apontava eu nunca via nada, nenhuma mão levantada, vá lá que eu sou confiada, mas vamos combinar: cairia bem melhor nesse caso o sarcasmo iídiche de vovó: "Me kakt mit die millionem", é isso aí mesmo que vocês estão pensando. Ah. Pobre vovó. Deve ter dado voltas na tumba ontem à noite, enquanto a maldita neta preferida dela — preferida, vamos combinar, talvez só mesmo por ser a única — tentava trocar por uns trinta dinheiros um par de caprichosamente enfiados fios herdados de pérolas arrematados por não muitos mas todos legítimos brilhantes, sabe-se lá com que intenções românticas, e tudo isso agora por quê? Pra quê? Pois é. Pra toda a obra, essa gulosa engulidora de notas, e olhem que nem começamos ainda a levantar as paredes (e já sonhando com todo aquele blindex transparente à nossa volta), mas vocês entendem: a gente se mete num sonho de casa e pra angariar recursos apela pra qualquer nota, até mesmo pro leiloeiro pra lá de picareta que esbraveja no microfone a cada nova peça exibida na tela, tá certo, gente. Bem que até tem certa graça eu ter acreditado, apesar dos apelos do Alan, neste legítimo circo do falso pregão milionário, põe conto do vigário nisso. Mas cá entre nós, a coisa toda me deixou muito triste, isto é, primeiro irritada por minha burrice e só depois muito triste, porque afinal de contas o que se tenta vender nesses leilões de jóias não são peças únicas, nem pedras preciosas, nem objetos caros, quer dizer, caros sim, mas só para quem os guarda por vários motivos afetivos, nenhum deles efetivamente transmutável naquela esperada salvação da pátria quando o cinto aperta como, às vezes, a gente gosta de pensar. E entretanto: é deprimente demais ver o gesto amoroso de um marido, um anel de noivado ou como no meu caso um mimo herdado, há tanto tempo preservado, quem sabe uma poupança em fuga — numa terrível situação antiga de guerra, um recurso condensado, camuflado no bolso oculto do velho casaco esfarrapado —, tantas histórias, imaginem, transformadas em minguados trocados e ainda por cima, no mais das vezes, só de mentirinha arrematados pela turba contratada, que nem claque de comédia barata, ô miséria. Pra encurtar a história: escapei por pouco de grande perda eletiva. Embora na hora eu tenha acreditado que o meu lindo colar fora leiloado, bem, hum: graças a Deus me enganei, ah, pra nunca mais. E pra quem se interessar uma moral da história: sabe aquela jóia quase nunca usada, guardada com tanto cuidado pra tempos bicudos? Vai o meu conselho: limpe, curta... e use, porque mais vale um gosto que um tostão no bolso, mais ou menos isso, e quanto ao ladrão, ô, vê se passa ao largo já que jóia antiga não vale mesmo nada, viu?
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E tem mais, mais uma ilusão perdida (ou finalmente perdoada): engoli em seco o prejuízo, aproveitei a janela de repique e, de novo, a conselho do Mago Alan, caí fora do fundo Petrobrás — aos 24 reais dos 40 originais —, ai que alívio. Francamente, eu não nasci pra isso. Agora posso dormir à vontade e estando de fora, falar mal, mais tranqüilamente, de tudo que me der vontade: da poluição, da especulação, da falta-de-vergonha e franca corrupção. Vamos ver se daqui pra frente eu crio juízo, ou, pelo menos, raízes menos interesseiras.
"Ele encontrou quatro acres de terra, arborizados e isolados, o terreno declinando num pequeno vale. Idéias se precipitaram... A casa deveria ser imponente mas acolhedora: a casa de um escritor famoso mas também uma casa de família." Arthur Conan Doyle em "Arthur & George", de Julian Barnes
Eu ia contar pra vocês sobre minhas últimas aventuras como arquiteta renascida, mas ah, deixa pra lá. Lendo o jornal esta manhã, imaginem, até me lembrei de ousadias passadas, como, por exemplo, quando devorei, ops, decorei o primeiro apartamento de Evandro Mesquita na Gávea, duvido que ele se lembre, com grama sintética no piso, só o Evandro mesmo pra topar uma coisa dessas.
Ou mais ousada ainda quando quebrei (quebrar parede era comigo mesmo) um apartamento alugado em Sampa inteirinho pra integrar a vista da Paulista na sala com a do Pacaembú na cozinha, no que seria um showroom da Pólen na cidade, mas aí, vocês sabem, foi preciso reconstruir tudinho com o rabo entre as pernas poucos meses depois — showroom fracassado e Plano(s) Cruzado(s) — pra devolver ao dono, tristes, instigantes memórias. Pois é. Agora estou eu aqui, posando de escritora quando de repente, não mais que de repente, pinta essa coisa de casa e eu ali, ó, nem um mísero diploma na parede eu tenho mais, nem número de CREA, taí: não sou famosa, nem gringa, nem contratada por milhões como aquele francês da Cidade da Música nem nada, mas já dei o meu jeitinho local (pra desenvolver o projeto) quando encontrei o Tiago Defaveri (guardem bem o nome dele), um quase-arquiteto gente boa e supertalentoso aqui da terra mesmo, mas peraí, eu falei que não ia dar crônica, não falei? Mas isso porque, procurando uma imagem dos grandes clássicos que têm me influenciado — fora a insistência do Alan, claro, que nem arquiteto é mas leva um jeito pra coisa e pretende saber tudo, ai, insuportável — acabei abismada com a beleza das fotos e desisti de escrever. Uma imagem vale mais que mil... etc etc. Quanto a essa pretensão horrorosa do nome da casa, relevem, mas é que as casas aqui em Itaipava — e por falar no assunto, casas bacanas de arquitetos importantes também, como essas aí da foto — costumam ter nome, e enquanto eu ralava pra encontrar um o Alan, que não é escritor nem nada, se saiu com essa, vamos combinar que ficou bom, né? Vai que me acostumo?
"Shift happens" [O movimento acontece] Mantra da Nova Era
"Shift happened. Changes will come." [O movimento aconteceu. As mudanças virão.] Oprah Winfrey, nov/2008
Engraçado que no outro dia mesmo escrevi aqui no blog que um Starbucks em Itaipava cairia muito bem, tornaria o paraíso ainda mais perfeito. Pois é. Li agorinha no Gente Boa, imaginem, que um Starbucks será inaugurado no Shopping Leblon em 3 de dezembro. É um começo, mas ops, ando muito bairrista, gente. E muito mal informada, claro, como sempre: já tem Starbucks em São Paulo faz tempo.
O caso é que a coisa toda em torno da cultura Starbucks é bem mais do que simplesmente um bom cafezinho porque, se se limitasse a isso, o "crime de lesa-pátria por vender café de procedência estrangeira num país com a qualidade de produção do Brasil" — como afirmou Marcos Modiano, do Armazém do Café — teria até tudo a ver. Mas não tem. Starbucks é ecologia. Starbucks é reciclagem. Starbucks é uma nova energia. Starbucks é filosofia cotidiana para consumo imediato, impressa nos copos de café que a gente agora, além de beber, pode ler — e entender — no café da manhã: uma boa idéia. Starbucks é contribuição social, revertendo a venda de produtos politicamente corretos para causas mais corretas ainda como, por exemplo, a água mineral Ethos que eu, claro, quando posso, faço questão de beber, pra matar pelo menos a sede de solidariedade. Starbucks é cardápio orgânico e mais saudável. Starbucks é muito bom design e, mais recentemente, consciência política, algo assim como a Body Shop do café, só pra mencionar outra idéia bacana: também sou fã de Anita Roddick, não coincidentemente, se é que vocês me entendem, mais uma militante voluntária pro-Obama. Starbucks é hábito de consumo de quem faz a maior questão de não ser consumista: Starbucks fez o movimento; as mudanças não tardarão, e olhem que nada disso aqui é matéria paga, viu, gente? Mas antes fosse, claro, porque cá entre nós: eu curtiria demais publicar outras crônicas como esta naquele jornalzinho charmoso deles, ou, no mínimo no mínimo, num copo de café daqueles, a gente se contenta com pouco, fazer o quê? Por enquanto é só mesmo empolgação de cliente, e quem duvida de tudo isso poderá conferir, muito em breve, no Shopping Leblon, isto é, desde que a qualidade continue a mesma: dá gosto um café com bom gosto, taí, quem sabe faturo algum pelo menos com o slogan?
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Bom. Continuando com esse ativismo chato: dá o maior desgosto (e surpresa nenhuma), descobrir que a nossa Petrobrás, além da queda vertiginosa no preço das ações foi, ainda por cima, eliminada do índice Bovespa de empresas socialmente responsáveis, mas cá entre nós, com este tipo de produto a atividade poluente é sempre um risco, não? Mais um motivo pra que eu lamente o meu desastrado investimento na companhia, menina-dos-olhos de grande parte dos brasileiros, no mínimo tão decepcionados quanto eu com a lenda frustrada de nossa imensa futura riqueza, diretamente extraída do óleo pré-sal.
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Mas decepcionante, decepcionante mesmo, é a gente descobrir na hora agá que não é tão legal e nem tão ecologicamente responsável quanto se pensava, imaginem. Sabem aquele sonho da casa própria completamente auto-sustentável, com energia solar, esgoto renovável e água pluvial coletável? Pois é. Desisti. O equipamento ora existente acaba sendo tão mais complicado, tão mais caro, e tão incompatível com a desejada simplicidade estética, que decidimos deixar tudo isso de lado, bem, pelo menos por enquanto. Eu sei. É pena. Em todo caso, a fundação está lançada, ai, que nervoso.
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No mais, enquanto as mudanças de verdade não vêm, o negócio é se divertir com a expectativa, torcer pra que tudo dê certo e assistir ao edifício sustentável do futuro sendo erguido passo-a-passo e isso, imaginem, não é militância política contratada, nada disso: é só empolgação de cidadã mesmo. Mais a grande esperança, até agora plenamente justificada, de que a Era Obama não nos decepcione. O movimento ocorreu. E as mudanças, nos custa um bocado esperar: mas com certeza virão.