Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Cem dias em 72
Papa Bento e o cajado de Moisés: foto Ali Jarekji para Reuters
"E, no septuagésimo terceiro dia, eu vou descansar, prometeu, ironizando os que acusam de ser messiânico", li no Blog de Lúcia Guimarães (faltou o "o", Lu, ou fica parecendo que Obama é quem acusa, tudo bem, é só blog), onde ela explica que um hilário B.O., em seu discurso de estréia na Associação de Correspondentes da Casa Branca que, por tradição, deve ser cômico, "prometeu completar os próximos 100 dias em 72", assim, duas vezes na mesma frase, promessa pouca é bobagem. Eu poderia, é claro, ter visto ao vivo o discurso de Obama como sempre fiz, ter visto o pappanazi beixar o chão da Terra Santa (ui: "pappanazi" é pesado, vamos combinar, perdão, leitores, que é cristão perdoar, mas "beixar", tendo sido na verdade um lapso de teclado, resolvi deixar: poderia ter sido Joyce em Finnegans Wake e estaríamos combinados) e o Talibã tomar de assalto o Paquistão, ou seria, caso Deus existisse, o contrário desta quase-rima, de acordo com a Lei do Talião? Pois é. Eu poderia também ter ficado quieta, começar meia hora mais cedo o expediente de arquiteta que é o que tem me ocupado tanto, mas tanto, quem nem deixa brecha pra noticiário, discurso ou breviário, ah, tudo bem, com a breve exceção dos curtos e despretensiosos passeios relaxados (meia hora antes de tentar adormecer) pelas páginas intrincadas de Finnegans Wake que Joyce levou, imaginem, 17 anos pra escrever, nada desses trocadilhos malpagos e meio apressados de Noga Bloga, pelo telufano a caminho da obra (de Joyce: tellafun, ui, que essa coisa pega, mas que é gostosa a mais não poder, é, eu, pelo menos, gosto, imaginem agora a espantosa interpretação futurista: telafone).
Ih, me perdi. Tudo [o?] que eu queria nesta prosaica segundafora enquanto me visto para ir à vizinha Três Rios fechar um negócio de vidros era explicar por amaisbê como por mais que eu evite me comparo a Obama: enquanto ele constrói um mundo eu por cá vou terminando a minha modesta obrinha, um mundo pra mim, façam a conta aí: 29 de abril (o dia 100) + 72, ou muito me engano* ou vai dar bloomaicos meados de junho quando se Deus quiser — e apesar do empreiteiro tê-la de fato prometido para os 17 de julho, isto é, exatamente os cem dias projetados, já que a obra vai indo tão bem... que, ah, melhor deixar pra lá —, no septuagésimo terceiro, descansarei contente no meu novo terraço, ensolarado e cercado das montanhas mais verdes que vocês já viram na vida, (re)lendo o "Gozo", meu livro recém-publicado de crônicas sobre Ulysses: uma declaração literária de amor a Joyce que prometo a vocês, por mais que o cinzento diabo de Erin me tente, não repetirei com Finnegans Wake. Falei.
*ops. me enganei, não? 72 dias depois do 29 de abril vai dar 10 de julho, muito cansada pra contar, mas, ah, deixa pra lá, tô sempre me enganando mesmo, e macacos me aceitem se não é assim que nos empolgamos com grande parte das maravilhosas coincidências numerilógicas durante a vida...
Sendo "Finnegans Wake" de James Joyce o tesouro literário mais escondido de todos os tempos, mas, pornocanto, acessível a qualquer leitor (Homem. Comum. Enfim.), o obrigatório, delicioso "Joyce’s Kaleidoscope – An invitation to Finnegans Wake" de Philip Kitcher é o mapa desta riqueza quase perdida, oculta em seu próprio encanto ainda que à vista de todos — um fingeral por todos condenado como ilegível, ilegal, iliterante, assustador e irritante —, a salvo para os felizardos raros que não se deixam enganar com tal feitiço isolante. Ousado explorador de Joyce, Kitcher nos dá o mapa ideal, dedicado e fiel como todo amante: conduz, atrai, ilumina, enquanto preserva o cerebral mistério itinerante desta mina. Ambos maravilhantes: mapa e mapeado, inesquecíveis. E, claro, francamente cômicos, sim, e daí? Taí: é assim mesmo, o Gozo de Joyce.
Being as James Joyce's "Finnegans Wake" is the most obscure of literary treasures of all time and, neverlesscrass, openly accessible to every reader (Here. Comes. Everybody.), the exquisitely delicious "Joyce's Kaleidoscope – An invitation to Finnegans Wake", a mandatory book by Philip Kitcher, is the roadmap into this almost lost richness: Occult in its own enchantment — a funferall generally condemned as illegible, illegal, illiterating, frightening and irritating —, yet manifestly visible to those happy few who will not be fooled by the Wake's isolating spell. As a daring faithful lover of Joyce, Kitcher provides the quintessential treasure map: It guides, attracts, enlightens, while preserving the wandering mystery of this cerebral mine. Both wonderfilled: map and mapped, unforgettable; and, of course, frankly funny, so what? That's Joy. That's Joyce.
dizem que escrever é arte,ofício,e são,mas pra mim,antes de qualquer coisa ,éh necessidade. eu preci linha anônima de busca no Google que induziu o escritorleitor ao preblog de crônicas de Ulysses, desgrafia original, sem nenhum retoque, concordância ou espaço de vírgula
"A pergunta realmente complicada é o que ela espera ganhar com este livro", escreve a minha fora-isso normalmente admirada Maureen Dowd, colunista do NY Times, a respeito da seduzida, abandonada e esquecida Elizabeth Edwards, ops, seduzida é a outra, ah, sedutora.
Ah. Tá bom. Este tipo de já-cansou livro escrito por fora-isso anônimas celebridades que de escritor não têm nada, nada, acrescido de algumas poucas fofocas confessionais tendendo ao picante embrilhadas num marketing aliciante e apesar disso profunda e tocantemente vazios, ai, cansei também: não me interessa nada, nada. Mas se escrevo sobre isso e um dia apenas depois de liberar as amarras do pós-após dia post publicado haja assunto ou não, é por não aceitar a vergonhosa proposta básica do artigo, isto é, que a gente escreve livro pra ganhar alguma coisa. Francamente. Não conheço nenhum escritor digno de seu nome que confesse isso, isto é, não que ganha pra escrever, que isso eu acho normal e até desejável, um sonho tudo bem, raramente realizável, mas que escreve pra ganhar, ui, sai pra lá. Éh necessidade, eu preci, apuro e vício e por baixo disso, claro, uma neurótica, histérica, traumática, histriônica necessidade de ser amado não por um único e até devotado amante, mas por uma humanidade inteira diletante. Não é outro o motivo destas rimas todas, confesso, permitam que eu me derrame, um truque pouco mais que infame, herdado, não como Joyce queria, das ingênuas e indutoras de sono explícito cantigas-de-ninar da infância, mas dos misteriosos feitiços da mais eficiente e literal magia militante. Pronto. Entreguei.
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem para o bem de quem não tem vintém. Chico Buarque, arquiteto e poeta
Para quem quer saber como é que se constrói uma casa não tenho muitos conselhos, eu mesma, vejam bem, apesar do meu instinto apurado de arquiteta formada quanto à harmoniosa organização dos espaços, esquemas de cores e aberturas para o céu ou mato, panorâmico terraço alçado às alturas, negros mármores morenas madeiras cativantes ardósias encaloradas, com respectivas e exclusivas agruras, posso contar:
do grau de aspereza da argamassa à espessura do ferro tensionado que anima o concreto por dentro como se dele fora a alma pura... mal entendo os mistérios, deixo-os ao cargo de quem, com trinta anos de labor nas costas e os ressentidos nós calosos inflamados nas palmas, dá conta, tão bem quanto, de tais tão normais desafios de um novo abrigo erguido sob medida. Mas Alan não se contenta com isso, gente, não. Quer impingir-me à força por força da cultura sua vivência e visão das coisas Made in USA, o que, cá entre nós, tem me deixado doida. O empreiteiro que antes era excelente de repente nem desconfia por onde o competente cano de água quente passa, descalibrada a massa bruta que reveste as paredes e sai por seu lado esfarelada e torta e por aí vai, entendam, nada disso é realmente real, ih, soou mal... Sabem aquela filosofia do ready-made e do do-it-yourself com vídeos how-to no youtube? Agora imaginem: transferida para os pobres pedreiros de Petrópolis, isso não funciona, né? Ah. Tudo bem. Abandono a prancheta que ninguém mais usa por um software qualificado que aos poucos domino, ou ele a mim, enquanto penso o apuro estressante em termos de texto como ninguém mais pensa mas que em James Joyce (me refiro desta vez a Finnegans Wake), ao contrário do que todos pensam, coisarada!, fascina a quem lê: mais um engodo. Enquanto me divirto — gargalho na cama com aqueles trocadilhos todos, transmitidos em aliterada poética lettera oscura, num estado de crenças onde a autoinflingida ironia dita por si o abandono perfeito de uma ação contrita —, Alan me dilacera o estômago, me embrulha o firme intento já que o humor irlandês, ele diz, não me alcança o intelecto chicano e ou muito me engano ou é mesmo impossível conviver assim, trocando ardores com tal disparidade mental-paradigmática? Ai, meu tropical-universalismo, valei!, Santa Gincana que me redoma.
Está no Los Angeles Times, num — bastante inadequado ao fatalismo vigente — rasgo otimista: "especialistas parecem estar chegando à conclusão de que, em sua forma corrente, o vírus H1N1..." — cumpre esclarecer, responsável virótico pela gripe suína, assim oficial e eufemisticamente renomeado para preservar o florescente comércio da magra carne branca dos criadores de porcos, após tanto e tão caro sacrifício finalmente libertos do estigma kosher, reflitam, estúpidos: será que é mesmo a economia? Vai que Deus castiga.
E prossegue: "...não está se configurando como tão fatal quanto outras linhagens propagadoras de pandemias anteriores. Embora o vírus pareça se espalhar facilmente, não parece provável que sua taxa de mortalidade sequer se aproximará de uma estação típica de gripe, que mata 36.000 pessoas nos Estados Unidos", que tal isso para um alarmismo da imprensa? Hein? E no entanto, as manchetes insistem: parece que é o fim do mundo como o conhecemos, mas, gente, esta fase terminou faz tempo. Quanto ao brilhante aforismo aí em cima, de autoria do meu brilhantíssimo porém preguiçoso marido — cartunista que não desenha, filósofo que não escreve, escultor que não esculpe mas amante devotado que, com a graça de Deus e apesar da provecta idade, ainda trepa divinamente (bem, devo-lhe alguma justiça neste meu áspero julgamento: um arquiteto que jamais construiu mas que como eu, agora, depois de velho, constrói sim, e o faz muito bem) — os leitores que me desculpem, mas nem com meu prévio atrevimento — avançando com letras e vírgulas, sem nenhum constrangimento, no raro entendimento de Finnegans Wake — consegui traduzir tanto virtuosismo. E como não deve fazer um humorista nem em seus piores momentos, explico a piada no idioma estrangeiro: em inglês, pra quem não sabe, "flew" [voou, pretérito de "fly", voar] e "flu" [gripe] têm o mesmo som; já "when pigs have wings" [quando porcos tiverem asas] significa algo assim impossível mesmo, próximo do nosso "no Dia de São Nunca", sendo "swine", é claro, suíno. Deu pra entender? Hahaha. Desse alarmismo publicamente conveniente, vamos combinar, nem Obama escapou, vai que até nosso amado BO lançou mão deste novo ingrediente, fermentando com ele a perfeita receita de crise pra justificar os trilhões que amealhou? Hein? Não, gente. Não quero dizer com isso que me desencantei com Barack, longe disso. Acho até que pra meros cem dias o sujeito apresentou um bocado de serviço, mas não vou cair nessa de me declarar incondicionalmente apaixonada por um político, como têm feito, ingenuamente a meu ver, algumas vozes famosas da nossa blogosfera, vocês sabem, é sempre bom a gente se precaver: vai que, como o Alan cansa de me prevenir, Obama se revele uma fraude? Ou, pelo menos, um midiartista? Certo. Combinado. Deus nos livre de tal pierismo [de Joyce, em Ulysses, "píer: uma ponte decepcionada"], mas é sempre preciso preparar-se para o pior, não? Ou bem me vacino ou ainda morro disso: se escapar da gripe, resvalo incontinênti no pessimismo. Sai pra lá, azar.
*[Here Comes Everybody, ou... Haveth Childers Everywhere, ou... HCE, um dos possíveis acrônimos do personagem principal de Finnegans Wake, para o qual eu diria que estou "acordando", ou com quem "estou ficando" e que, aparentemente e contra o senso comum, pretende ter sido escrito pra todo mundo, dispensando a traduição]