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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer."
J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo





Cem dias em 72

Papa Bento e o cajado de Moisés:
foto Ali Jarekji para Reuters

"E, no septuagésimo terceiro dia, eu vou descansar, prometeu, ironizando os que acusam de ser messiânico", li no Blog de Lúcia Guimarães (faltou o "o", Lu, ou fica parecendo que Obama é quem acusa, tudo bem, é só blog), onde ela explica que um hilário B.O., em seu discurso de estréia na Associação de Correspondentes da Casa Branca que, por tradição, deve ser cômico, "prometeu completar os próximos 100 dias em 72", assim, duas vezes na mesma frase, promessa pouca é bobagem.
Eu poderia, é claro, ter visto ao vivo o discurso de Obama como sempre fiz, ter visto o pappanazi beixar o chão da Terra Santa (ui: "pappanazi" é pesado, vamos combinar, perdão, leitores, que é cristão perdoar, mas "beixar", tendo sido na verdade um lapso de teclado, resolvi deixar: poderia ter sido Joyce em Finnegans Wake e estaríamos combinados) e o Talibã tomar de assalto o Paquistão, ou seria, caso Deus existisse, o contrário desta quase-rima, de acordo com a Lei do Talião?
Pois é. Eu poderia também ter ficado quieta, começar meia hora mais cedo o expediente de arquiteta que é o que tem me ocupado tanto, mas tanto, quem nem deixa brecha pra noticiário, discurso ou breviário, ah, tudo bem, com a breve exceção dos curtos e despretensiosos passeios relaxados (meia hora antes de tentar adormecer) pelas páginas intrincadas de Finnegans Wake que Joyce levou, imaginem, 17 anos pra escrever, nada desses trocadilhos malpagos e meio apressados de Noga Bloga, pelo telufano a caminho da obra (de Joyce: tellafun, ui, que essa coisa pega, mas que é gostosa a mais não poder, é, eu, pelo menos, gosto, imaginem agora a espantosa interpretação futurista: telafone).

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Finnegans Wake: um convite

Sendo "Finnegans Wake" de James Joyce o tesouro literário mais escondido de todos os tempos, mas, pornocanto, acessível a qualquer leitor (Homem. Comum. Enfim.), o obrigatório, delicioso "Joyce’s Kaleidoscope – An invitation to Finnegans Wake" de Philip Kitcher é o mapa desta riqueza quase perdida, oculta em seu próprio encanto ainda que à vista de todos — um fingeral por todos condenado como ilegível, ilegal, iliterante, assustador e irritante —, a salvo para os felizardos raros que não se deixam enganar com tal feitiço isolante. Ousado explorador de Joyce, Kitcher nos dá o mapa ideal, dedicado e fiel como todo amante: conduz, atrai, ilumina, enquanto preserva o cerebral mistério itinerante desta mina.
Ambos maravilhantes: mapa e mapeado, inesquecíveis. E, claro, francamente cômicos, sim, e daí? Taí: é assim mesmo, o Gozo de Joyce.

Being as James Joyce's "Finnegans Wake" is the most obscure of literary treasures of all time and, neverlesscrass, openly accessible to every reader (Here. Comes. Everybody.), the exquisitely delicious "Joyce's Kaleidoscope – An invitation to Finnegans Wake", a mandatory book by Philip Kitcher, is the roadmap into this almost lost richness: Occult in its own enchantment — a funferall generally condemned as illegible, illegal, illiterating, frightening and irritating —, yet manifestly visible to those happy few who will not be fooled by the Wake's isolating spell. As a daring faithful lover of Joyce, Kitcher provides the quintessential treasure map: It guides, attracts, enlightens, while preserving the wandering mystery of this cerebral mine.
Both wonderfilled: map and mapped, unforgettable; and, of course, frankly funny, so what? That's Joy. That's Joyce.

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Arte ou ofício?, pergunta difícil

dizem que escrever é arte,ofício,e são,mas pra mim,antes de qualquer coisa ,éh necessidade. eu preci
linha anônima de busca no Google que induziu o escritorleitor ao preblog de crônicas de Ulysses, desgrafia original, sem nenhum retoque, concordância ou espaço de vírgula


"A pergunta realmente complicada é o que ela espera ganhar com este livro", escreve a minha fora-isso normalmente admirada Maureen Dowd, colunista do NY Times, a respeito da seduzida, abandonada e esquecida Elizabeth Edwards, ops, seduzida é a outra, ah, sedutora.

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Um oximoral:

(de Joyce, quem mais?)

ALCOORÃO
(o oculto e o expresso e o que falta no impresso)

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Pobres pedreiros de Petrópolis

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem para o bem de quem não tem vintém.
Chico Buarque, arquiteto e poeta



Para quem quer saber como é que se constrói uma casa não tenho muitos conselhos, eu mesma, vejam bem, apesar do meu instinto apurado de arquiteta formada quanto à harmoniosa organização dos espaços, esquemas de cores e aberturas para o céu ou mato, panorâmico terraço alçado às alturas, negros mármores morenas madeiras cativantes ardósias encaloradas, com respectivas e exclusivas agruras, posso contar:

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Porcos voadores

ou... nem só de Joyce vive o intraduzível

Swine flu when pigs had wings.
Alan Sklar


Está no Los Angeles Times, num — bastante inadequado ao fatalismo vigente — rasgo otimista: "especialistas parecem estar chegando à conclusão de que, em sua forma corrente, o vírus H1N1..." — cumpre esclarecer, responsável virótico pela gripe suína, assim oficial e eufemisticamente renomeado para preservar o florescente comércio da magra carne branca dos criadores de porcos, após tanto e tão caro sacrifício finalmente libertos do estigma kosher, reflitam, estúpidos: será que é mesmo a economia? Vai que Deus castiga.

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Lá vem todo mundo!*

payrents . beautifell . collideorscape . dumblynass . alteregoases . moanday . tearsday . wailsday . thumpsday . frightday . shatterday . returningties . setalite . mudder . delited . stollentelling . reawlity . nightinveils . uterim . funferall . twoinns . nooningless . lacessive . doffensive . oystrigods . owlwise

(um tira-gosto — intraduzível? — de James Joyce mas que é até fácil de entender, bom pra quem tem tanto o que fazer)

paguis . bonistra . colideoscapa . dubionéscio . altergago . segura-féria . torce-a-féria . guarda-féria . quanta-féria . solta-féria . sambado . voltários . sentélite . lamãe . delicitoso . contrafação de histórias . horrilidade . peraquieto . uterim . fingeral . gendois . meio-disse . rendessivo . disfuncivo . ostragados . prassabido

*[Here Comes Everybody, ou... Haveth Childers Everywhere, ou... HCE, um dos possíveis acrônimos do personagem principal de Finnegans Wake, para o qual eu diria que estou "acordando", ou com quem "estou ficando" e que, aparentemente e contra o senso comum, pretende ter sido escrito pra todo mundo, dispensando a traduição]

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