Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Gulag no Rio
Todo mundo sabe que sou completamente contra Lula, sempre fui, mas, francamente, pegar pesado como fez Gerald Thomas no canto de cisne de seu blog defunto, enfiando Lula no saco malhado de Stalin e arranjando de repente pro nosso presidente um lugar de honra no panteão dos carniceiros... peraí. Assim também não.
Espero, no entanto, que não tenha sido por este crasso motivo político que o blog de GT finalmente, depois de um mês agonizante, levou seu tiro de misericórdia: seria o Gulag, meus amigos, e isso eu não aceito, afinal de contas ainda acredito num Brasil onde a plena democracia resiste, apesar das circundantes forças em contrário. Nem compactuo com essa postura que a imprensa tem, ou pelo menos tem tido, de enxergar o Rio como um irremediável inferno perdido, onde um simples passeio no centro resulta em ataque, latrocínio ou morte certa, eu sei, ando por fora do Rio — melhor pra mim —, mas será que as coisas estão mesmo assim? Será que esse caso terrível de Evandro da Silva é tão simplesmente corrupto e burro quanto fazem parecer? Estará o Rio num caos tão dramático e insolúvel quanto um contundente Gerald Thomas, autoexilado há anos — cronicamente deprimido e agora demitido do cargo máximo de blogueiro remunerado —, quer nos convencer? Cala-te boca que não entendo nada disso, mas não consigo aceitar tampouco que nos meros 12 meses e pouco desde que me retirei voluntariamente da selva do Rio as coisas degringolaram tão gravemente ladeira abaixo, com o sério agravante do sonho olímpico (estúpido, para alguns) . O que sei, lendo o Globo de hoje por razões bem mais idílicas do que nega a ensanguentada manchete de primeiro caderno — uai, gente, quando foi mesmo que O Globo se transformou nessa triste imprensa marrom, hein? melhor dizendo, vermelha? (se espremer sai sangue, vocês se lembram dos jornais populares de antigamente) — é que o Rio e, tristemente, grande maioria dos que vivem nele, têm andado um bocado doentes, é, a doença da violência também contagia. Olhem em volta, salvem a pele, gente. Há vida agradável, produtiva e inteligente por fora dos anais anormais da truculência a que o alegado caos urbano têm nos obrigado, a mim não, eu, hein? Me salvei a tempo, pois é. Podem babar que eu mando aí enxugar.
Não tem tanto a ver com o Rio, eu acho, o fato de que toda vez que retorno à cidade, nem que seja pelo mais breve e leve período, a volta pra casa seja sempre acompanhada de uma dor de cabeça, de um cansaço intenso, e da inevitável ressaca que acompanha os dois estados e que se estende, às vezes, por vários dias consecutivos.
Não tem a ver tampouco com as curvas da estrada, onde mesmo que eu busque esquecer as frustrações que tive e não consigo ultrapassar, o resultado é que acabo enjoada. Mesmo em seus locais mais belos, e olhem que beleza não falta, o Rio da minha juventude tem tido sobre mim esse efeito bipolar de me recordar em tudo um passado recente de rejeição familiar, doença, pobreza, sorry, cariocas. Tudo isso um dia há de passar, eu sei. Resolvi vários problemas com razoável sucesso nos resultados. Fui às compras (afinal de contas, está chegando o aniversário do Alan e aqui na serra são bem limitadas as boas opções de consumo, excetuando-se, é claro, um bom restaurante ou outro pra se comemorar o que for dessa vida boa que se leva por aqui, mas bem, hum, somente de quinta a domingo: aniversário na terça não passa na certa de um brinde breve de segunda). Almocei calmamente sozinha com uma taça de vinho no final do Leblon. Mas o melhor, o melhor de tudo, foi a percepção primária do brilho discreto no canto maroto do olho direito, e pela primeira vez, de que a futura publicação de meu livro Língua está empolgando TC, minha supereditora de primeira viagem (minha primeira, quero dizer, com uma boa editora): fez um bem danado. Depois foi tudo ladeira abaixo, até aportar neste extremo cansaço paralizante. Ao ponto de ontem à tarde eu me bandear para o centro com duas horas de antecedência e lá me sentar, desprovida de quaisquer outras ideias para enganar a longa espera (do embarque na diligência mágica em direção à Serra), num banco de praça num canto de espaço no centro do Paço Imperial — temporariamente enganalado por bromeliáceas torres coloridas de um extinto Burle Marx — e, cercada de sacolas por todos os lados, ceder à imagem de uma Noga desesperançada, sem lar nem posses, perdida das lidas desta vida como aquela famosa e dolorosa figura do Baixo Leblon — não sei se vocês a conhecem —, uma gorda mendiga pintora que por onde segue arrasta consigo umas poucas malas velhas e telas mal pintadas, tudo o que jamais angariou desta vida cruel. E isso, por que será? Pode até ser nada mais nada menos que a influência insidiosa deste livrinho perdido de Noll que reencontrei numa feira de livros da Antero de Quental por meros 10 reais, comprei, e agora estou lendo até mesmo sentada em banco de praça, porque no mais, a lúgubre imagem daquela mendiga do Baixo Leblon que insiste em me assombrar nada tem a ver comigo, já que no final das contas o que arrasto arriando o ombro é uma maleta preta chiquérrima comprada em Paris, na outra mão sacolas da Richards com caixas caras de presente pra marido amoroso dentro. Além do mais, claro, estou lendo João Gilberto Noll — seu Harmada essencial —, embora tardia e pela primeira vez, e vou confessar: é bom, mas não é pra qualquer mendigo das letras não, não mesmo. Novesfora tudo isso, pode-se até pensar que, no fundo no fundo, eu não gosto nem mesmo de mim, e que na minha idade, nenhuma ilusória velocidade anda junto a mim (ih, rimar mim com mim não é comigo não, viu, gente? é com Roberto e Erasmo mesmo), mas uma coisa é certa: as minhas curvas nunca se acabam e mesmo assim, no que depender de mim, nesta estrada de serra eu passarei cada vez menos, porque afinal de contas, do outro lado das curvas fechadas dela fica o meu paraíso, minha casa maravilhosa que cresce a olhos nunca antes vistos e quem sabe, se Deus quiser e ele há de querer, meu tardio porém inevitável reconhecimento literário. So be it.
"Os cães ladram e a caravana passa." Provérbio árabe, apud Ibrahim Sued
Nem é que eu queira assim, de última hora, defender a gestão controversa de César Maia no Rio de Janeiro, mas que foi gostoso ler no Globo a *descrição da maravilha que ainda não sei se é, mas que certamente virá a ser, essa Cidade da Música, ah, isso foi — e olhem que ultimamente essa coisa de maravilha é de se contar nos dedos.
A imprensa, como todos sabem, foi radicalmente contra, ninguém me contou, senti por mim mesma. Enquanto uma carta pro Globo ressaltando as vantagens da sala de concertos jamais foi publicada, um curto artigo jocoso, usando a ironia para mostrar as falhas, foi exibido cum laude, quem sou eu pra reclamar. Se existe a onda ela é pra navegar. Com César Maia como cidadã meu intercâmbio foi misto: tivemos momentos bons e momentos maus, como em qualquer cívico compromisso, embora a gente, é claro, espera que o mal jamais prevaleça. Enquanto prefeito ele me atendeu, consertando o buraco na rua — foi pouco, eu sei —, e quanto à bala perdida que em menos de um ano resultou na inesperada revolução radical que deslocou minha vida, vamos combinar, foi devida por regra política à negligência do Estado, embora ao nosso Rio eu deva, com certeza, a opção pelo exílio. Ops. Peraí. Exílio é forte, quando se aporta no fim da jornada bem às portas do paraíso (ah, tudo bem, há males que vêm para...), mas quando escrevi que, na crônica urbana do futuro, César Maia seria lembrado com música sinfônica ao fundo... bem que eu estava certa, e mais certa ainda quando se lê no mesmo Globo, com alguma tristeza e certa nostalgia, a respeito da comprovada pobreza da última temporada de concertos. O Rio merece o melhor, e pelo menos no que se refere à melomania, é isso que o Rio terá. O resto, se Deus quiser, um dia virá, porque todo mundo sabe: uma coisa boa sempre puxa outra coisa boa, como um tumor ao contrário. E o que é bom, confiemos, prevalecerá. Não é que o povo seja bobo, nem é o caso aqui de abaixo O Globo, mas cá entre nós, nem tudo que O Globo apresenta acaba sendo o melhor de tudo, como querem nos levar a crer: o poder jornalístico vigente também se engana. Se empenha. Manipula. Existe vida intelectual ativa bem além das páginas deste jornal, me acreditem. Salve o espírito criador imparcial, ou, pelo menos, descomprometido: longe da esfera política ou da imposição acrítica do marketing profissional. Agora. Difícil, difícil mesmo, é dizer isso tudo com música: e assim se redime a humanidade. Tudo passa. Tudo se rompe. E o que resta à posteridade na verdade é a raridade, e o futuro ex-prefeito apostou nisso. Em termos de história tudo o que sobra importará pouco, registra aí.
no detalhe: amendoeira decepada pelo guindaste oficial
Isso, pra não reportar, na manhã de hoje, o mastodonte oficial da prefeitura, estacionado no mesmo bat-local, no mesmo horário nobre, sufocando as mesmas pobres frágeis pedras portuguesas do calçamento. Me atrasei para a foto. Quando me virei, com o sol a favor, o monstro motorizado já se dirigia para o meio da rua, atravessando a ciclovia, atropelando dolorosamente o meio-fio que a separa da pista. Para estacionar folgadamente do outro lado da avenida. O horário nobre, definitivamente, é uma preferência nacional, ou, pelo menos, carioca. É o horário preferido da Prefeitura para: trocar os postes, recolher o lixo, varrer as ruas (mas não com um gari, entendam bem: com um caminhão-escovão mesmo, desses que ocupa metade da via, atravacando o trânsito ao meio-dia). E a madrugada, gente? Cadê a madrugada?
Bom o artigo do chef Felipe Bronze hoje no jornal. Respeito é bom. E todo mundo gosta: uma atitude civilizada. Mas tem que ser de mão-dupla, é ou não é?
"A calçada é para os pedestres!", vocifero raivosa, a voz baixa e firme, mas potente a ponto de alcançar a resposta agressiva do motorista: "E a senhora quer que eu pare aonde? Na rua?" Bem. É. Quem sabe. E de madrugada, pra não atrapalhar o trânsito, hum. Não seria o certo? Mas o Rio de Janeiro, sabemos, é cidade sem lei, uma imensa casa da sogra de que todos dispõem do jeito que acham melhor. Ou quem sabe, pior. O diálogo é de ontem, quando arrisquei o protesto mas deixei passar a ousadia da foto. Mas hoje, de novo, não dava mais. Cliquei. Pelo canto da foto mal dá pra ver o eixo vergado, sucumbido ao peso mastodôntico do caminhão carregado. Imaginem então o delicado pavimento em pedra portuguesa do calçadão. E depois, imaginem, ainda tem quem reclame que o Rio parece abandonado. E está. Abandonado, pra começar, pelo cidadão, que vê na cidade uma adversária, não a casa da sua família. Isso, pra não tocar no assunto do loteamento da orla, que ocorre a cada verão. Ainda bem que já está terminando a estação, isto é, pelo menos o horário, né? E muito antes do calor baixar, como é que pode.
----- Original Message ----- From: Noga Lubicz Sklar To: Eider Dantas ; Cesar Maia Cc: cartas@oglobo.com.br Sent: Friday, January 25, 2008 1:17 PM Subject: serviço porco
Ave, César Fiquei tão feliz por ter sido atendida no caso do buraco da Timóteo da Costa. Foi por pouco tempo. Escrevi um artigo francamente favorável que tentei, por todos os meios, publicar na imprensa. Não me quiseram. Os jornais, no entanto, sabem mais que eu: pesa a dura experiência. O buraco está lá, a obra largada no meio. O concreto vagabundo e vagabundamente assentado já vai dando vez, canalizado pelo espírito da chuva, a um novo buraco reincarnado. Francamente, prefeito. O senhor não merece a minha força. Nem a de ninguém. Recolha-se à sua franca incompetência. Atenciosamente, Noga Lubicz Sklar
Gente. O carioca está doente. Francamente. Acabou de acontecer bem aqui, embaixo da lage da varanda. "Seu filho da puta! Sabe com quem está falando? Você vai consertar agora mesmo, seu filho da puta desgraçado", a voz ameaçadora atraindo a vizinhança inteira. No background o funcionário da Light, acuado, pede ajuda à central, o cliente ameaça agredir a gente, timoteodacosta e coisa e tal. Uai. Não está faltando luz. Uns quinze minutos, peito desnudo e punhos fechados, palavrões e papéis trocados mais tarde, a gente descobre a verdade: o fulano, simplesmente, não pagou sua conta de luz. A discussão prossegue pela tarde adentro, cala a boca aí, xará, tem gente trabalhando aqui dentro.
Venho morro acima ofegante com pressa de chegar em casa a tempo: sei que o conteúdo online muda por volta das quatro horas. Telefono para o jornal: "quer publicar uma boa notícia? Tipo assim, para elevar a moral no dia do padroeiro?"
A voz do repórter, excitada a princípio por reconhecer do outro lado da linha a vítima revoltada de bala perdida do fim do ano passado, baixa logo o tom num desapontamento flagrante. Essa do padroeiro, vamos combinar, ele nem tinha percebido: ocupado demais em divulgar o desastre. Numa cidade mergulhada no caos, fala sério, quem é que vai querer saber de um buraco consertado? Essa mulher é idiota ou o quê? Não sabe que o buraco é muito, mas muito mais embaixo? Confiro o jornal online sem surpresa nenhuma pra descobrir que não, não publicaram a minha matéria, e é fácil entender por quê: "Leitor registra assassinato à luz do dia na rua General Severiano, em Botafogo." Meu Deus: tá lá o morto caído no chão, isso é, na foto. À noite assisto na tevê um documentário educativo desses, cuidadosamente planejado pra nos fazer acreditar que vivemos uma vida impossível: mostra a absurda quantidade de bactérias que ficam impregnadas no travesseiro e prova na base do microscópio que, mesmo que a gente não saiba, dividimos o sono tranqüilo com uma vasta e perigosa fauna. Caramba. Nem dormindo em casa quieto a gente está a salvo. Viver é muito perigoso. Não me cabe discutir aqui o papel relevante que a imprensa tem tido na solução dos (muitos) problemas do Brasil. Mas não vejo porque faria mal elevar um pouquinho a moral combalida do carioca. Quanto mais a gente acredita que está tudo ruim, mais fica tudo ruim, e um pouco de otimismo não faria mal a ninguém, fala sério, gente: não chega a ser um par de antolhos. Trata-se apenas de um par de óculos de aro rosa, não é nem da lente que estou falando. Pra ajudar a gente a seguir vivendo, se é que vocês me entendem, tomando o rumo da ação positiva. Não custa experimentar e, por isso, eu que não sou dada a campanhas, nem tenho tempo pra criar uma, te convido a tentar: denuncie direto ao prefeito o que há de errado no seu bairro, por email mesmo, e daí? Vai que ele te atende como me atendeu: garanto que dá uma alegria danada, um prazer tão grande como alguém na menopausa que repõe estrogênio. Bem, pelo menos até o próximo câncer, claro. Ops: até a próxima bala. Salve o Rio de Janeiro no dia do nosso padroeiro.
Emails do prefeito: cesar.maia@uol.com.br ; cesaremaia@globo.com ; cesar.maia@terra.com.br
Todo mundo nessa cidade critica a teimosia do prefeito malcriado, metido a moderno, que só atende o cidadão por email. Dá pra entender, mas às vezes eu acho que é má vontade pura. Tem coisa mais antiga que preconceito contra internet? Se não fosse a internet, eu não teria conhecido o Alan. Se não fosse a internet, eu não teria publicado um romance. Se não fosse a internet, eu não publicaria uma crônica por dia, todo santo dia. Se não fosse a internet, bem, hum: meu Projeto Ulisses jamais escaparia de um cavalo-de-tróia. O resultado taí, ó. E pra não dizer que eu não tento, do jeito que posso, fazer justiça: palmas incondicionais para o Mestre Houaiss, herói intelectual de um tempo onde nem se sonhava a internet. E nem o google. Imaginem.
Se fosse em Buenos Aires, era panelaço. Mas escondido num canto perdido do Alto Leblon, é panelinha mesmo. Confira o protesto desanimado no beco da Cortes Sigaud, da esquerda para a direita: Respeito, sim! Mobilização, sim! Violência, não! Insegurança pública, não!
Todo mundo na praia domingo, contra o martírio do padroeiro.
Gente, essa é imperdível. Acompanhem meu diálogo com o prefeito. Por email, é claro. E daí? Depois eu conto se tamparam o buraco que, aliás, não é no meio da rua, e foi provocado por um caminhão que estacionou lá com duas rodas sobre a calçada, põe civilidade urbana nisso. Que tal abordar o prefeito por email pra resolver nossos problemas? Hein?
----- Original Message ----- From: Noga Lubicz Sklar To: cesar.maia@uol.com.br ; cesaremaia@globo.com ; cesar.maia@terra.com.br Cc: cartas@oglobo.com.br Sent: Wednesday, January 16, 2008 2:32 PM Subject: PELO AMOR DE DEUS
Senhor prefeito, pelo amor de Deus. Sou contra este boicote, como o senhor pode ler em meu artigo publicado no Globo online. O que não significa, não me entenda mal, que esteja a favor do senhor. Não é de uns trocados a mais ou a menos que se trata. E tampouco é caso pra vingancinha de gente birrenta brigando pela bola. Prefeito! Trata-se da nossa cidade! E sua resposta ao povo do Rio é totalmente inadequada, pelo amor de Deus, acorde! Resposta certa: "estamos trabalhando pelo Rio. Vamos disciplinar as favelas, combater os abusos, fazer um acordo com o Estado para melhorar a segurança, limpar e iluminar as ruas", só pra citar o que me vem à cabeça de imediato. Há um buraco há semanas na Timoteo da Costa, na altura do 195, grande o suficiente para engolir um carro, o senhor sabia? Que tal terminar com mais dignidade o seu mandato? Hein?
Noga Lubicz Sklar www.noga.blog.br
----- Original Message ----- From: Cesar Maia To: Noga Lubicz Sklar Cc: Eider Dantas Sent: Wednesday, January 16, 2008 4:05 PM Subject: Re: PELO AMOR DE DEUS
Sabe aquela sensação boa que você tem ao ler um livro, ai gente, que nojo, como é que pode, mas não é assim mesmo? O autor descreve exatamente o que eu sinto, duvidando de tudo, pode parecer incrível: de um lado uma mulher madura, careta, zona sul, classe média remediada do Rio, metida a escrever mas sem qualquer pretensão de pertencer a uma elite intelectual; de outro, um gênio irlandês do século passado, sujeito sabidamente hermético, incompreensível, charadista de alto nível, um desafio até para a melhor das mentes: ninguém consegue ler o que o cara escreve, fala sério. Nem tenta.
Mas, gente. Ver-me simples e humanamente retratada com tanto humor, há quase cem anos, é uma graça como poucas. Me imagino outro dia num café lotado da Cinelândia, esperando a Funarte abrir às duas da tarde — é, gente: de duas às cinco — pra dar entrada num projeto literário, que saco, não vai dar em nada mesmo: coisa de governo é sempre um saco de gatos, mas tentar não custa, é até obrigação, melhor conferir se tá tudo aqui. Abro o envelope em pé, na varanda do bar entupida de gente, todos abancados e amesados como diz Joyce, engolindo a comida sem mastigar direito como se a vida dependesse disso. E não depende? Ou depende mesmo é daquele empreguinho chato, tô precisando de um, isso sim. Salário na conta no fim do mês, imagine: mal não ia fazer. Ganho uns trocados mas perco a dignidade mesmo assim, e daí? Passo os olhos em volta criticando tudo, horror total o cabelo alisado daquela ali, a roupa apertada com os peitos pra fora — que coisa feia, meu Deus!, engorda qualquer um — caíndo do salto, olha lá, ops, tropeçou, que boca! rsrs. Não olha direto pega mal à beça, morrendo de fome, nada pra comer nesse menu metido a besta. Que besteira esse negócio de verdura orgânica, só pra cobrar mais caro, fazer a gente se sentir culpada. Quem é que acredita nisso? Tudo cheio de gordura. Pesado demais. Demorado demais. Quente demais hoje, nossa mãe. O amendoim atrai na mesa: não come não, olha o germe aí. Contaminados pelas mãos alheias, você não sabia não? Mais um mito urbano pra atrapalhar a paz e o chope do cidadão. Camarão. Arroz de brócolis. Cerveja no meio do dia? Assim não dá. Preciso mesmo é de trabalhar. Arrumar uma grana logo, pô, tá tudo pela hora da morte. Adio a fome pra depois em casa, café sem açúcar água com gás, por favor, oi, dá pra me atender? Traz a conta de uma vez porque estou com pressa, que merda, já perdi meu lugar na fila, pô. Azar. Que se dane. O mundo que se foda.
"Sardinhas na estante. Quase dá pra provar com os olhos. Um sanduíche? Presunto e seus descendentes* juntados e criados lá. Conserva de carne. O que é um lar sem carne enlatada Cereja? Incompleto. Que anúncio idiota! Enfiado abaixo do obituário. Todos encarapitados na cerejeira. A carne conservada de Dignam. Canibais mandariam com arroz e limão. Padre branco salgado demais. Que nem porco em lata. Ao chefe as partes nobres. Duras do apuro aposto. Esposas em fila pra observar o efeito. Era uma vez um velho rei crioulo real. Que comeu ou coisa parecida as coisas do reverendo Sr. MacLeal. Com isso um jardim de delícias. Só Deus sabe que gosma é essa. Buchada mofada de tripa traquéia de araque enrolada. Duro é encontrar a carne. Kosher. Nunca carne e leite juntos. Higiene é o que chamam agora. Jejum de Yom Kipur faxina interna de primavera. Guerra e paz dependem da digestão. Religião. Ganso e peru de Natal. Matança de inocentes. Come e bebe. Comemora. Depois é hospital lotado. A cabeça enfaixada. O queijo digere tudo menos a si mesmo. Queijo poderoso. — Tem sanduíche de queijo? — Sim senhor. — Quanto é? — Sete prat., senhor. Obrigado, senhor."
Enquanto isso me pergunto se Deus existe mesmo, reclamo da vida o tempo todo, da janela do ônibus o azarado vai sendo assaltado, olha lá, coitado!, um menino enroscado dormindo na rua, caramba, ainda bem que hoje não sou eu, que inferno essa miséria, essa violência no Rio, ah, gente. Como era gostoso o meu francês. "presunto
* N.T.: embora o Houaiss tenha escrito "presunto e seus descendentes amostardados com pão" e, no original, esteja "mustered" e não "mustard", "bred" e não "bread", achei melhor manter o presunto, vocês sabem: um bom duplo sentido e coisa e tal. mas isso foi antes de ler na interpretação acadêmica de John Rickard, da Universidade de Bucknel, que "Ham" não é presunto coisa nenhuma, mas o filho de Noé que o viu nu. não vale esquecer do trauma de Bloom, cujo pai cometeu suicídio, vocês entendem.
O Rio amanheceu vazio toda a cidade amanheceu sem cor os criminosos soltos pela rua porque a falcatrua é a expressão do horror
(Do original de João de Barro, pra quem não lembra, gravado em 1935 por Carmen Miranda: O Rio amanheceu cantando Toda a cidade amanheceu em flor E os namorados vêm pra rua em bando Porque a Primavera é a estação do amor)
Já vou logo dizendo que não concordo com este boicote ao IPTU. Tá certo que o prefeito César Maia se comporta como adolescente, ou pior, como criança: vive emburrado, não fala com a gente, mata aula e ainda por cima desdenha da bomba anunciada: "nada muda para a prefeitura, façam bem as contas". A gente repete: menino, se comporte. E o menino nada. Menino, desse jeito você vai acabar mal.
E o menino nada. O menino não está nem aí: sabe melhor que a gente que se manda no fim do ano. E só volta ao colégio com a malcriadez esquecida, é, gente, o menino é mais esperto que a gente, muito mais esperto: sabe que eleitor, neste país, acaba esquecendo. Mesmo assim a gente o põe de castigo: corta a mesada dele e pronto, ele que se vire sem grana. Quem sabe assim ele aprende, né? De castigo estamos nós, obrigados a decidir entre a bala e o calote. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega: o negócio é educar o bicho. E por falar nisso: o imposto é municipal, mas o combate ao crime, estadual. É ou não é? Hum. Soa estranho isso. Não há mais como suportar o caos urbano, nisso estou de acordo. E a reação vem aí: no voto. Porque pra demitir o prefeito, esse nosso criado, acredito que é tarde. Mas enquanto outubro não chega, a gente já vai votando na enquete do Globo pra "se dar bem", participe você também:
Você concorda com o boicote ao pagamento do IPTU do Rio? * Sim, para evitar que o dinheiro seja usado na campanha eleitoral * Sim. Imóveis desvalorizados pela violência precisam ter IPTU mais baixo * Não. Sem dinheiro, a desordem urbana vai aumentar * Não. O cidadão precisa ter compromisso com a cidade
É, gente. A cidade que se dane mas nós, que somos mais espertos, pelo menos economizamos alguns trocados. É trocar um mal por outro, ou melhor, crianças emburradas trocando de mal, por falta de solução melhor: vou te mostrar o que é bom. Não há dinheiro que pague meu voto em sucessor de César Maia. Não quero IPTU mais baixo por morar em área de risco. O que não quero é a área de risco, entendem? Ou então arrisco a ouvir num futuro próximo: já não baixamos o imposto? o que é que vocês querem mais? É esse, gente, o nosso "compromisso com o Rio"? Apostar sempre no pior?