Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Porque me ufano do ser humano
O curioso foi que enquanto a gente discutia na cama ontem de manhã sobre o quanto a nossa espécie havia evoluído nos últimos tempos — alívio, depois de tantas passagens vergonhosas como a destruição dos indígenas americanos, dos irlandeses, dos indianos e de tantos outros povos nativos pelos ingleses imperialistas; dos maias pelos espanhóis; dos negros pelos portugueses e por outros negros; dos armênios pelos turcos, dos judeus pelos nazistas e por aí afora, ô animal mais mal-humorado que a gente é, sô, pra dizer o mínimo — o neto dileto de Stalin, imaginem, tentava sem grande sucesso livrar a barra de seu amoroso avô e com isso faturar uns cobres, ops, rublos extras, ah, tudo bem: embora tenha "autorizado a execução de crianças maiores de doze anos como inimigos", o doce paizinho da pátria russa, por outro lado, "industrializou a nação e venceu a Segunda Guerra", os filhos de Putin que o defendam se puderem. Porque eu, sinceramente, vou preferir ficar fora dessa.
Ando meio impaciente com a raça humana ultimamente, essa é que é a verdade. Embora tão recentemente pudesse ter concordado com um baita sorriso com a visão benevolente do Abençoado Obama em seu discurso de Nobel da Paz — "Não houve Terceira Guerra Mundial. A Guerra Fria foi encerrada com o júbilo das multidões destruíndo um muro. O comércio uniu grande parte do mundo. Bilhões sairam da linha de pobreza." —, hoje em dia estou mais para lamentar a obviedade oculta de alguns preconceitos comuns que eu, francamente, nem desconfiava que pudessem ter existido, como conta Roger Cohen em seu chocante artigo sobre a "liberdade, igualdade e oportunidade nos Estados Unidos", pois é, sou ingênua mesmo, não? Ingênua, confiada e historicamente ignorante, sorte a minha: pelo menos não tive o desgosto de ser recusada pela Universidade de Princeton quando era mais jovem, pois é.
O caso é que à medida que a gente envelhece não há visão cor-de-rosa de mundo que possa resistir ao rolo compressor da realidade sempre decepcionante, e não, não estou finalmente me rendendo ao pessimismo como Alan tanto gostaria. Apenas tentando otimizar e diminuir as expectativas de uma vida, aprendendo a contar com o ovo depois de posto pela galinha, se é que vocês me entendem.
O que não significa que eu não esteja otimista demais da conta quanto à década que se inicia, não, gente, imaginem. O grande agente de mudança [pessoal] que eu tanto esperava chegou finalmente: meus livros e os de tantos outros facilmente disponíveis para venda no mundo inteiro, sem o entrave de ter que implorar pela publicação, distribuição e pelas vitrines das livrarias, ufa, alívio. Deve ser por isso que nem tenho escrito tanto ultimamente, fico só respirando fundo o tempo inteiro pra não me engasgar com o ofuscante brilho do futuro.
Agora a coisa com certeza vai, e já vai tarde. Me aguardem.
Acabei de voltar do Brasil e estou muito atrasado em responder meus emails. Nem tinha chegado ao seu mail quando abri outro mail contando o conteúdo de um post da Heliete Vaitsman em que cita você. Respondi a Heliete, e depois vi seu mail. Aqui a resposta que mandei a ela. Não sei onde você tirou essa idéia da Chevra Kadisha como coisa exótica que só lida com celebridades, mas não vem do meu livro.
***
Seguem passagens importantes do email de Moser para Vaitsman, ih, isso está quase virando um case jurídico: "Gostaria de aclarecer certos pontos. Primeiro, pode ser que a demissão do JB não tinha nada a ver com o fato de ela ser judia, mas como verá no meu livro, não estou acusando o Nascimento Brito de ser antisemita. Disse que ele precisava agradar ao General Geisel. É uma história complicada, mas não há grande dúvida que a solução encontrada foi a de demitir os judeus. Pode ser uma fantasia, mas o fato é que os judeus, pouco depois da guerra de Iom Kipur, foram, com uma só excesão, demitidos, e que todos acreditaram que foi por isso. O filho da Clarice me disse há poucos dias que ela sim acreditava que foi porque era judia, e pode falar com o Alberto Dines se houver outras dúvidas. Mas pode ter outras opiniões. Onde não pode haver outras opiniões é aqui, quando você escreve o seguinte: 'Um ponto que incomodou Noga, entre outros, foi o autor ter dado a entender que houve algo de especial no ritual fúnebre de Clarice. Esse tipo de escrita, num país que exalta o "exótico", costuma fazer sucesso. Diz Noga: A "Chevra Kadisha" não é, como o autor faz soar, uma entidade ortodoxa que só atende a celebridades ou grandes místicos, não, gente. "Chevra Kadisha" é o nome em hebraico [turma santa] de quem provê serviços funerários, lavagem de cadáveres e todo o resto. Tem uma "Chevra Kadisha" em qualquer comunidade judaica (no Brasil, e, imagino, no resto do mundo), quem quiser aí pode conferir.' Se você olhar no livro, vai ver a seguinte frase: (p. 557 da ed. brasileira): 'Quatro mulheres da sociedade funerária, a Chevra Kadisha, limparam seu corpo por dentro e por fora, envolveram-no num lençol de linho branco, pousaram sua cabeça num travesseiro cheio de terra, e a cravaram dentro de um caixão simples de madeira.' Não vejo onde digo que a Chevra Kadisha "só atende a celebridades ou grandes místicos." Isso é um ataque absolutamente absurdo e agradeceria a correção.
Não sei se será desta vez, mas não será sem tempo se eu finalmente aprender a controlar este impulso ansioso de me antecipar aos acontecimentos — inclusive às opiniões formadas sobre os livros que tenho lido —, o que, como Alan muito bem o diz, só costuma me causar sofrimento. Como este recente Caim de José Saramago, por exemplo. Eu fui com tudo, imaginem. Criticando inclusive outros críticos, precipitadamente, como carolas e moralistas. Paguei pela língua ferina e continuo ferida, pagando mico de cronista.
Dei um tempo no livro, com o qual vinha me divertindo imensamente, pra ceder à nova paixão pelo Kindle (transformando para sempre a experiência da leitura, leiam aqui, do NY Times, e não é exagero de Jeff Bezos, gente: pelo menos não precisa marcar as páginas grosseiramente, na base da caneta bic, só pra citar mais tarde no blog, se é que vocês me entendem, e ainda por cima perder por dentro do livro as marcas já feitas), onde li de um só fôlego meu primeiro título adquirido, a princípio, como se provou, igualmente enganoso: a biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser. Vai daí que o próprio Saramago, do alto de seus sábios oitenta e seis anos de vida e quarenta e tantos de literatura, elabora no romance este autorretrato irrepreensível, que tão bem se aplica ao próprio autor português, o único jamais nobelizado (injustamente, segundo alguns, mas não eu) de nossa nobre língua: "sou dotado de uma consciência tão flexível que sempre a encontro de acordo com o que quer que faça", ah, bom. Saramago, irônico e genial como poucos hoje em dia, aí se referia a deus, claro, com o qual nosso José, embora nele não acredite — nem eu, nem eu —, se identifica tão completamente a ponto de reescrever, muito à vontade em seu papel de revisor, o popularíssimo best-seller mundial de autoria do sagrado senhor. Agora. O que eu não entendo, embora tenha sido alertada a respeito por uma amiga de Facebook, é como — na maturidade, pra não dizer velhice — um homem tão brilhante e talentoso pode ser tão racista e tão antissemita, sinceramente, vejam: "Como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar", e por aí vai. Pois como boa judia — cada vez melhor e mais dedicada à causa semita, aparentemente —, eu também acabei perdendo: a vontade de ler, de comentar, de me deleitar. Mas como boa teimosa fui em frente, para ao final criticar um fim apressado, mau-humorado e inexperiente, carecendo de arte e de sentido, bem aquém do nível inteligente do resto do livro. Inteligente, mas preconceituoso, confiram: "A marca na sua testa está maior, Muito maior, perguntou caim, Não muito, Às vezes penso que ela irá crescendo, crescendo, alastrando por todo o corpo e me converterei em negro, Era o que ainda me faltava, disse lilith soltando uma gargalhada", essa curiosa mixórdia de maiúsculas e minúsculas no original assim mesmo. Ou: "O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobres, infelizes, desgraçados, todos a implorar remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora faz um pacto com o diabo, para isto não valia a pena haver deus". Mas como a um gênio toda iniquidade se perdoa, termino esta crônica com uma piada herege que de infame não tem nada, taí, divirtam-se vocês também (é uma de minhas passagens bíblicas favoritas): "Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E, se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá", pois é. Sai dessa sem preconceito nem crendice, Senhor saramago.
***
1. Aliás e a propósito de semitices, leiam belíssimo artigo de Heliete Vaitsman, modéstia à parte, sobre esta judia que reclama mas não pia, ui, no blog do Museu Judaico, lavei a alma, valeu, Heliete.
2. Se você, como eu mesma, já tentou e se frustrou ao tentar comprar meus livros na Kindle Store pelo link aí de cima (para ler no seu Kindle, no seu PC ou até no seu iPod e/ou iPhone), vai daqui um superauspicioso aviso: a partir desta última sexta consegui que meus livros fossem liberados pela Amazon para venda no Brasil e no mundo, alô, países de língua portuguesa, demorei, mas cheguei pra ficar, viu? Comprem. Leiam. Comentem. Valeu mesmo, galera.
O que faz de um grande escritor um grande escritor? A pergunta me persegue enquanto vago perdida pelos cantos da casa, irritada e como sempre amendrontada enquanto de dentro de mim surge o rotineiro impulso suicida de despejar sem censura o que me vai na mente e que, com toda certeza, não me granjeará simpatia extra em audiência alguma.
Escrevo apressada, inconformada, a partir das últimas palavras da biografia de Clarice, descrevendo Chaya, bat Pinkhas, "o nome oculto finalmente revelado, em hebraico, na pedra tumular", ora, vamos combinar. Quase todo judeu de diáspora — com raras exceções como eu, por exemplo, que já carrego pela vida afora um obrigatoriamente soletrável nome hebraico — tem dois nomes: um em hebraico no gênero antigo "fulano filho(ben) ou filha (bat) de sicrano" (eu, por exemplo, sou "Noga bat Avraham"), e outro adaptado ao idioma local. Alan Sklar, por exemplo, vou-lhes revelar meu enorme segredo, isto é, dele: é "Itzhak ben Daniel". Todo Abrahão vira Alberto; algumas Chayas viram Claras, como minha tia, outras viram Clarices. Joyce sabia muito bem disso: o pai de Leopold Bloom, também judeu, vale registrar, mudou de "Virag" para "Bloom" e meu avô materno, como confesso em O Gozo de Ulysses, de "Koretz" para "Cohen", adornando nosso nome de família com uma honra ritual sacerdotal que na verdade nunca possuímos, Alan não se conforma. Nem tampouco há algo de especial, ao contrário do que possa parecer, nos rituais fúnebres de Clarice, nos quais reconheci todos os demais rituais fúnebres de qualquer um que professe a fé judaica. A "Chevra Kadisha" não é, como o autor faz soar, uma entidade ortodoxa que só atende a celebridades ou grandes místicos, não, gente. "Chevra Kadisha" é o nome em hebraico [turma santa] de quem provê serviços funerários, lavagem de cadáveres e todo o resto. Tem uma "Chevra Kadisha" em qualquer comunidade judaica (no Brasil, e, imagino, no resto do mundo), quem quiser aí pode conferir. Chamem de inveja, de despeito, do que quiserem, mas enquanto no início do livro fui movida por uma extraordinária simpatia com a trágica história de Clarice, minha conclusão final não poderia ser mais chocante, disparatada, reveladora, cá entre nós: quase todos da geração dela, que é a mesma de minha mãe, por exemplo, teve pais que eram mascates - meu avô, por exemplo, era - pobres, com trauma de imigrantes e de refugiados de guerra cuja memória abalada se consola e enriquece pela existência mística de algum sábio na família (também tenho o meu, um "grande tzadik" pelo lado de vovó, sepultado com honras na mística e sagrada Safed dos antepassados). Pouco a pouco, foram se ajeitando, e Clarice, neste contexto, termina sendo francamente privilegiada: casada com um homem - segundo relatos diretos de quem o conheceu muito bem - bastante refinado e sensível, viveu no exterior regiamente sustentada pelo estado e pouco lhe faltou durante a vida, mesmo depois de separada do marido. Trauma de escassez, lhes confesso agora, faz parte da psique de qualquer judeu das gerações da guerra, uma fome que não passa, um complexo de pó-de-ovo arraigado que leva ao desespero e do qual poucos se livram, ou se livraram. Eis a nossa história comum grosseiramente resumida. Quanto ao aspecto literário, embora eu não tenha uma experiência direta suficiente para que avalie criticamente a obra de Clarice, são tantos problemas, tantos erros relatados, tanta rejeição ao que finalmente foi publicado — isso, somado às incursões remuneradas no melhor estilo "Gossip Girl" sob pseudônimos franqueados — que provoca a mais óbvia conclusão: trata-se de uma obra com múltiplas falhas, levada a cabo por uma autora deprimida, caótica, carente e mimada. Tudo o que resultaria, se fosse o caso, num talento extremado dolorosamente derramado apesar de tantos obstáculos. Se fosse o caso. E afinal, depois de tantos percalços analisados, "o que faz de um grande escritor um grande escritor?" É a depressão? A excentricidade? O recurso urgente da reclusão como derradeira reação à rejeição pública? Não. Nada disso. O que faz de um escritor, etc., etc., um dos grandes, é um texto irrepreensível, extraordinário, atraente e tornado eterno por suas óbvias qualidades, e isso Clarice, sinceramente, vai ficar aparentemente nos devendo. O resto é marketing literário.
Pouco depois de desembarcar no Rio em 1937, aos dez anos, Soil Zuchen exclamou para o pai, em idish: “Is a gan eiden”: o Brasil era um jardim do Éden, aonde os vizinhos puxavam conversa com os recém-chegados e as crianças judias andavam na rua sem ser alvo de zombarias. Heliete Vaitsman in Judeus da Leopoldina
Dizem que quanto mais alto o cavalo maior o tombo, seria isso mesmo?, tell me about it: Alan vive me acusando de viver assim meio-demente, perigosamente no fio que o valha, diz que é doença, que preciso tomar umas pílulas pra curar de vez a malévola rotina ora excitante ora deprimente, mas, gente. Se pra mim viver assim é, no final das contas, o que faz de mim eu mesma, esta cronista brilhante, uma bola viajante que oscila delirante entre o topo e o fundo, bipolar de carteirinha, coitadinha.
Pois com essa paixão tardia por Clarice, quero dizer, pela biografia de Clarice, não haveria de ser diferente e eis me aqui, 53% do livro de Benjamin Moser percorridos, pronta para a resenha definitiva e, pasmem: será negativa. É bem verdade que tenho andado meio histérica ultimamente, e isso, claro, não se deve nem um pouco às manchas brancas de tinta espalhadas ao acaso pelo piso da casa, ou à descontrolada quantidade de panos molhados acumulados na pia e outras dores provocadas pelos retoques eternos perpetrados por aquele pintor incompetente, ou às constantes ameaças de Alan de retornar sem mim aos Estados Unidos, ou ao computador quebrado (e agora à estranheza com máquina e software novos, é isso, nunca estou satisfeita), ou aos perrengues do advogado (sim, pasmem, estou novamente envolvida com a justiça para liberar os recursos próprios de mamãe, aprisionados por lei no Banco do Brasil para protegê-la da rapina de seus filhos dedicados), quem viveu já viu (tantos incômodos acumulados), não, gente, nada disso: tenho estado histérica devido ao encosto do espírito de Clarice, claro, que baixou em mim por vias deste livro que estou lendo. O mais curioso é que a mesma coisa que andava me surpreendendo e enaltecendo a alma sensibilizada — isto é, a questão judaica em Clarice — agora está me aborrecendo, e não é pra menos: a tudo que acontece(u) neste país, o meticuloso pesquisador Benjamin Moser acrescenta como pedra de toque as cores nojentas do antissemitismo, não seria exagero isso? Na questão da demissão "dos judeus" pelo Jornal do Brasil na Era Geisel — Clarice Lispector incluída — eu pelo menos confirmei que é. Perguntei, nada menos, (chutzpah, imaginem!), que ao próprio personagem da trama, o veterano jornalista Alberto Dines, que prontamente me respondeu: "não foi racismo, foi política." E por aí vai, assim não dá: terei sido eu tão ingênua e pouco inteligente a ponto de pela vida inteira, antes de ter lido este livro, ter me sentido tão segura e contente neste gan eiden que é o nosso Brasil igualitário de cada dia? A conferir. Agora, antes que eu me esqueça: por que a questão judaica tão premente de repente? Alan diz que são coisas da idade, que quanto mais a gente (que é semita) envelhece mais se preocupa com a herança mosaica, com o antissemitismo e outras tantas benesses segregacionistas atribuídas ao sempre terrível deus da bíblia e à sua mais-que-perfeita criação de bairro (ops, de barro, ui!), deve ser mesmo a proximidade da morte, a inevitabilidade da sorte à qual nenhum de nós escapa, seja qual for a ilusão mafio-religiosa a que nos filiamos como último recurso de uma vida esperançosa, certo, peguei pesado agora. Mas, cá entre nós, se alguém aí me ouvisse eu diria que há outras razões: as ações preocupantemente antipáticas à justa causa do judaísmo praticadas ultimamente pelo Presidente Lula, por exemplo, sai dessa lama, Luis Inácio, desse caudilhismo globalizado sem nenhum futuro nem nenhum bom motivo que o justifique, porque no final das contas, todo mundo sabe, quem provoca com vontade o povinho escolhido acaba sempre, mais cedo ou mais tarde, na cozinha do todopoderoso, queimando as mãozinhas inocentes com aquelas batatinhas crocantes fritando em óleo bem quente. Vai por mim, Presidente. Bom domingo tranquilo pra todos vocês que acreditam que raça, orgulho e pirraça não passam mesmo de um grau insignificante na vasta espiral histórica de nossa gloriosa gênese de humanos.
Pra não deixar em branco o vergonhoso dia em que Lula e Ahmadinejad desfilaram no Planalto de mãozinhas dadas, vai mais um trechinho da interessantíssima biografia de Clarice Lispector, que será lançada dia 26 no Rio pela Cosac Naif: (sobre o decisivo voto do Brasil nas Nações Unidas, em 29 de novembro de 1947, uau, quase 62 anos atrás, que resultou na criação do Estado de Israel) "O gesto valeu a [Oswaldo] Aranha sua fama como amigo dos judeus, apesar de sua afirmação de que a criação de Israel significava que Copacabana poderia agora ser devolvida aos brasileiros."
Uma das coisas mais curiosas que me aconteceu ultimamente — estou aqui no computador do Alan, ao lado do lado dele na cama: ele nem bem acordou e já está discutindo comigo (com bastante raiva contaminando a poderosa voz de barítono) sobre política americana —, ainda agorinha, imaginem, tendo na mão uma xícara de café quente e à minha frente o meu HP irremediavelmente morto*, foi compreender num átimo iluminado que, embora Alan e eu tenhamos nos colocado em campos radicalmente opostos — no que diz respeito a democráticas preferências partidárias, claro —, na verdade queremos as mesmas coisas e temos medo das mesmíssimas e eternas coisas: miséria mundial, violência, terrorismo, guerras, doenças e, acima de tudo, um mundo inseguro para nós judeus, Clarice Lispector que o diga.
Na primeira oportunidade que teve, após a morte de seu pai, a celebrada escritora pernambucana — ou alagoana, ou, em última instância, russa, melhor: ucraniana — deu as costas às suas raízes semitas: cá entre nós eu nem sabia, até ler sua biografia, que ela era tão judia, de pai e mãe e tradições de família, vamos combinar. Santa ignorância a minha. Mas o que mais me surpreende em mim mesma é ver que os caminhos que estas preocupações percorrem, em minha cabeça conturbada, têm pouco a ver com a mera aparência das notícias. Sarah Palin, por exemplo, a arrepiante Sarah Palin — cá entre nós, muito mais perigosa do que o nosso Lula neoantissemita —, tem repetido, no festejadíssimo tour para lançamento de seu livro (cumpre ressaltar: escrito declaradamente por uma ghost-writer homofóbica de carteirinha), que é a favor da franca expansão dos assentamentos "judaicos" na Palestina, agora vem cá, repito pra ela minha dúvida sobre Lula: que diabo entende Sarah Palin da complexa questão israelense-palestina? Já ao querido Obama (de confessa ascendência muçulmana) não censuro nada, nada. Continuo com aquela insistência maravilhada de tiete, maravilhada e vesga, claro. Até concordo com ele, imaginem, quando diz que é premente que os mesmíssimos assentamentos israelenses mencionados acima sejam congelados — como condição sine-qua-non para conversações futuras —, sou vira-casaca, traidora da pátria, ou o quê? Bem. Devo confessar que todo o indiscutível e pouco discutido apoio americano da extinta Era Bush a seja o que for que Israel se decida a fazer, em seu território e nos adjacentes, não resultou em muita coisa, essa é que é a verdade. E como ainda confio em Obama incondicionalmente, fico aqui esperando inutilmente que, com aquela postura compenetrada e de competência aparente, ele chegue finalmente a um resultado diferente: haja coelho verde pra tirar dessa cartola amassada, não é?
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(pra quem não entendeu essa história de coelho verde já vou logo esclarecendo, não, gente, não se trata de uma meio maluca mistura otimista de coelho com passarinho, nada disso: se refere ao coelho iridiscente daquele famoso bioartista brasileiro, mencionado até por Michael Crichton em um de seus livros, como é mesmo o nome dele? Ah, sim, lembrei: Eduardo Kac, podem procurar no Google que ele aparece. Em tempo, um recado para a wikipedia: por mais que se diga o contrário, Kac é brasileiro [e também judeu, eu acho, não sei porque a gente que é judeu gosta sempre de enfatizar isso, deve ser o instinto protetor de autoenaltecimento, sei lá], nascido e criado e formado em Ipanema embora viva atualmente em Chicago. Tem exposição agendada no Rio em 2010.)
* tava demorando, não? enquanto isso a Dell justificou atenciosamente o seu atraso na entrega do notebook novo, já começamos mal...
Registrem tudo agora — peguem os filmes, chamem as testemunhas — porque em algum ponto na estrada da história um bastardo qualquer há de se levantar e negar que isso tenha acontecido. Eisenhower, sobre o extermínio organizado dos judeus na Segunda Guerra
Não é que eu desdenhe dos direitos nacionais dos palestinos nem nada disso, quem me lê sabe: nutro até certa esperançosa e pacificadora simpatia por Mahmoud Abbas, que infelizmente, pelo que sei, já está desistindo de sua labuta contra as forças mais radicais.
Mas, cá entre nós, Lula tem pegado pesado, não é, gente? Além do mais, o que saberia ele dessa intrincada questão dos assentamentos? Ou do suposto confinamento a que o "cruel" invasor tem submetido as pobres vítimas invadidas? Vocês eu não sei, mas quase vomitei esta manhã lendo no site do Globo os mais de 800 comentários que a "diplomacia" de Lula provocou, e continua provocando, vamos combinar: prefiro pensar que Lula não sabe no que está se metendo, porque a alternativa, meus amigos, seria dolorosa demais para enfrentar. E como qualquer avestruz assustada demais para encarar, pretendo [em meu Éden ensolarado particular] fingir neste Sábado, Santo Dia do Senhor, que não vi, não escutei, não senti nem entendi o impacto vir(tu)al desse quase-pogrom verbal que os leitores do Globo, sem pensar ou refletir (é o que espero), se apressam em cometer no site do jornal. Pode até ser que eu esteja emocionalmente abalada por essa biografia de Clarice Lispector que estou lendo no Kindle e que descreve, com uma crueza poucas vezes vista (ou lida), a violência racista dos pogroms no Leste Europeu no início do século passado, nos caprichados primórdios da faxina (ou seria melhor: chacina?) étnica que se seguiria, do sonho "purificatório" de Adolfo Hitler, é este o exemplo nacional que Lula gostaria que o Brasil seguisse? Duvido. Pra meu próprio conforto moral eu avestruzmente duvido. Pois que não me acusem mais tarde de nada ter dito, ou pensado, ou de não ter — como, em tempos mais graves, meus injustiçados antepassados — sequer reagido ao ataque sugerido. A pena aqui é minha, e pra não ser digna de pena na posteridade, afirmo que vale o escrito. Olha com quem andas, Presidente Lula. E todos hão de ver quem sois.
De Barack Obama na China, onde encontrou seu meu-irmão, reproduzido de artigo no Globo online, e que confere com a atitude positiva que li em seu livro, citado no artigo: "Em entrevista à CNN, Obama disse que não conhece seu meio-irmão muito bem, mas que não acha que Ndesandjo tenha traído detalhes familiares particulares em seu livro.
'Não é segredo o fato de que meu pai foi uma pessoa problemática. Qualquer pessoa que tenha lido meu primeiro livro, A Origem dos Meus Sonhos, sabe que ele tinha um problema de alcoolismo e que não tratava seus familiares muito bem', disse o presidente. 'E isso, obviamente, é uma parte triste de minha história. Mas não passo muito tempo matutando sobre isso.'" Grande Obama.
De Clarice Lispector, sobre aspecto crucial de sua história brevemente revelado, de acordo com a biografia escrita por Benjamin Moser, Why this world, que estou lendo agora no Kindle: "'Existe algo que eu gostaria de dizer mas não consigo. E será muito difícil para alguém escrever a minha biografia', escreveu ela em manuscrito não-publicado. Será este "algo" uma referência ao estupro de sua mãe [por uma gangue de bárbaros em pogrom na Ucrânia], um dos fatos centrais de sua vida?" Pobre Clarice.
Argh. Enquanto me debato para suportar o que leio no que se refere ao vivo horror das fiéis descrições de pogroms contra os judeus na biografia de Clarice, vejo reduzidas a meras ninharias minhas mais profundas dores de família: não tive pai alcóolatra, nem fui estuprada, nem sofri qualquer tipo de abuso físico quando era criança. Será que com tal ventura genética continuo a merecer o nobre ofício de escriba?
Não tenho a menor vergonha de ser brasileira, e por que teria? Minha terra tem palmeiras, sabiás, aves que gorjeiam, mas de uns tempos pra cá, francamente, tem se alinhado com a pior escória deste planeta, claro, com a minha bênção é que não é. E espero, nem com a da maioria dos brasileiros.
Tudo bem para um glorioso recém-eleito, herói popular idealista, carismático e — tem quem diga — bem-intencionado, resultado aprovado de um marketing populista, posar de ignorante iletrado, mas, atualmente, nada disso justifica os maus passos reincidentes de um maduro estadista, pô, Lula, Ahmedinejad outra vez? É de corar até mesmo a manchada memória de Getúlio, um confesso inclinado ao fascismo. Taí: se o paizinho Getúlio, como todo mundo sabe, mandou Olga para os campos nazistas, como é que Lula apóia hoje em dia quem afirma que os campos nem existiram? Não é assim, pra dizer o mínimo, um contrassenso da história? Nem desculpa tem: presidente não lê, tem quem leia pra ele; não se informa, mas tem quem se informe por ele; ainda assim precisa pensar por si, ou, pelo menos, poupar-nos de públicos e insanos improvisos. Como acredito que tenha sido, por exemplo, este impulsivo e impensado acordo para abrigar o hondurenho deposto, uma caricatura pronta que, como se viu, eu poderia incluir com gosto na crescente categoria de perigosa palhaçada política: gases misteriosos? tortura de alta frequência? meu Deus!, e ainda por cima: ministrados por "mercenários israelenses", e é aí que entra a faceta mais assustadora de Lula, mano a mano com todos os modernos antissemitas. Seria mesmo o Brasil, paraíso tropicalista, um destino seguro para a prole de Abraão? Bem. Temos sobrevivido. E perdoamos, principalmente no dia de hoje — pra quem não se lembra, é o Dia do Perdão, tem até quem jejue por isso —, os que não sabem o que fazem, ou dizem, os loucos varridos e os pobres de espírito, pois herdarão com certeza o reino dos que serão esquecidos. É por isso que eu, arriscando no fundo a (pouco) segura integridade da raça, acho até certa graça nessa leveza paternalista que cultiva em público o Presidente Lula, assim como classifico na conta do ridículo tantos pequenos ditadores que infernizam a midia, vociferantes porém patéticos protagonistas na contramão da história progressista, tais como Ahmedinejad, Kadhafi, Chávez, King Jong-il, e toda essa corja minoritária explosiva a quem Lula tem dado a mão. Até que um dia a graça se transforme em grito, vou com tudo na energia do bendito, quem sabe até me iludo, tudo bem, me divirto um pouco com isso tudo. Mas não dou este direito ao Presidente Lula, que coloca o meu país na liderança muda do que existe de mais retrógrado no presente momento. Brincando com fogo, Presidente? Pois se prepare o melhor que puder para acabar queimado, mas, por favor, nos conte fora dessa. Não destrua o pouco que sobrou daquele velho orgulho de ser brasileiro, já dizia o nosso Gonçalves Dias.
Devemos insistir que o futuro não pertence ao medo. Barack Obama em seu primeiro discurso na ONU
“Obrigado aí, todo mundo”, disse Obama, encerrando seu discurso de ontem nas Nações Unidas, um discurso tão bonito, ideal e perfeito (confiram vocês mesmos, como acabo de fazer) que hesito ao escolher, entre tantos outros, apenas um gancho pra dar tom de crônica ao meu sentimento.
Opto finalmente por ressaltar as duas vezes em que aparece no texto a palavra “ingênuo”, é, gente, Obama também tem medo, ou de parecer ingênuo em seu retórico idealismo, ou ainda mais grave, de que todo e qualquer esforço em direção ao bem comum, à utopia de um mundo unido, próspero e pacífico, possa ser qualificado por qualquer um como ingenuidade, pode haver algo pior que isso? Acreditar que só pode ser verdade uma humanidade movida por guerras, disputas, conflitos, corrupção e interesses escusos? Triste mundo. Tudo bem. Sei muito bem — correndo também o risco de soar ingênua, eu sei, vai daí minha grande simpatia por este tipo ideal de utópica liderança que Obama quer deixar transparecer (redundante, sim, como se, para tal desejo, não bastasse apenas um adjetivo) — que são estas exatamente as características do mundo em que vivemos, mas, cá entre nós, existe alguém aí que não torça por algo diferente? Pois o motivo que me levou, contra todas as tendências hoje em vigor, a ler por mim mesma o pronunciamento de Obama na íntegra, com seus bem mais do que 140 caracteres — em vez de confiar em centenas de analistas que podem ser tudo, menos imparciais ou neutros —, foi uma gravíssima acusação que escutei na tevê, e enunciada de um jeito que deixaria em dúvida qualquer espectador atento: por um lado, Obama acusado de vir sendo manipulado pela “conspiração judaica” e, de outro, a constatação de que as declarações dele na ONU foram de longe as “mais contra Israel” jamais proferidas na história por um presidente americano, ora, gente, como é que poderiam ambas ser verdadeiras ao mesmo tempo? Eis aí como o mal opera, pois é, instalando nas mentes distraídas o princípio obscurantista da confusão induzida. Alan, tendo ultimamente se tornado um ávido e odiento direitista — haja amor para compensar —, não perde tempo, sai logo me acusando de antissemita, antissionista, judia que odeia a si mesma e outros absurdos do gênero, francamente, não sei mais o que fazer com este meu marido, que se deixa influenciar pela (bastante lucrativa para quem a pratica) atitude midiática de semear discórdia com o único objetivo de... não sei qual, nem entendo, nem quero entender. Queira Deus que, por alguma espécie de milagre, eu consiga manter este casamento correndo por fora das ideologias conflitantes. Mas, hum, tem sido difícil. Quanto às ideias de Obama para o confronto no Oriente Médio, sinceramente, não vejo motivo para tanto alarme. Tudo que vejo é, simplesmente, uma igualdade de condições para palestinos e israelenses que, tudo bem, soa inédita num presidente americano, mas, cá entre nós, o favorecimento proforma concedido por Bush a Israel não levou a nada, nada: pareceu-me mais com uma séria falta de qualquer comprometimento. E se ao final da história os violentos oponentes de Obama estiverem certos, ok, pagarei o alto preço, não só da minha infecciosa ingenuidade, mas também da absurda confiança na possibilidade de redenção humana. Viva-se com uma insegurança dessas, cansei, francamente.
fotocartão de Noga Sklar para Rosh Hashana 5770, sobre imagem de Bruno Wanderley
Temática deste ano novo judaico: eu quero mais.
E pra quem não reconheceu a foto, trata-se de meu primeiro ritual (se)mítico em frente ao portal místico de Maria Comprida aonde eu vim parar, este "daleth" — fenício ou hebraico ou geológico mesmo — reforçado em vermelho, que realmente vejo de (todas as) minhas portas e janelas, quem sabe agora vai?
Vida é o que te acontece enquanto você se ocupa com outros planos. John Lennon
Como com toda a campanha contra eu não cancelo as minhas contas, convém esclarecer logo: não tomo como pessoal a derrocada anunciada dos blogs — ultrapassados pelo facebook, ou twitter, ou qualquer coisa ainda por ser inventada na internet para ocupar a mente carente e os ainda desocupados espaços publicitários, em futura disputa feroz na rede —, gente, não.
Se eu fosse ceder ao meu habitual impulso de cortar logo o mal pela raiz, já iria mudando o nome aqui do, bem, hum, blog, mas "Noga Bloga" é tão redondinho, não? Poderia ser rebatizado como? "O Bloco de Noga"? "Cala a boca Noga"? "Noga escreve"? Ah. Deixa que está bom assim. Comecei este blog, há mais de quatro anos, por sugestão de um amigo que, aliás, nem é "blogueiro" no sentido clássico da palavra, o que, aliás, também não sou ("blogar" para ele é comentar num blog alheio, não qualquer um, ou vários, mas um específico onde os comentadores se sentem fazendo parte de uma comunidade afetiva, bom pra eles; e pra vocês? o que seria blogar?). Mesmo sem nunca ter realmente "blogado", foi escrevendo no blog, digamos, por estar no "blogger", que encontrei minha voz de escritora, mas, cá entre nós, isso nada tem a ver com o ato de blogar, mas sim com o de escrever, se entregar, escrever e se entregar muito, todo dia, como exercício afetivo e criativo sem nem sequer se importar com a apreciação alheia, mas sim com o simples ato de se expressar, de me tornar, cada vez mais, uma profissional praticante do [bom] português embora não me renda nenhum dinheiro — profissional aqui, claro, como contraposição direta ao amadorista conceito de amador, alguém que por amar demais o que faz não se vende ao ofício, se dá, se é que vocês me entendem. Pois eu, desde que me entendo por gente, sei que nasci dinossauro, uma figura impossível, esdrúxula espécie aflita de redatora que pretende tomar da língua o que de melhor a língua tem: a riqueza das palavras e a extrema flexibilidade combinatória destas num jogo inusitado de sons acrescido de sentido e ritmo, sempre com o dicionário do lado, deu pra reconhecer daí? Mais: numa mistura indigesta da simplicidade verbal das ruas com a sofisticação intelectual das academias, sempre pendendo demais para um lado inadequado ou outro, conforme o mau humor do dia. Em tudo o mais, devo confessar, não me pareço com uma escritora e nem quero me parecer. O tanto que amo o meu português de todas as crônicas equivale ou até perde para o tanto que odeio me expor pessoalmente, comparecer de corpo presente (perdão, João, que a expressão me soou estranha: não sei bem se é nome de livro, de peça, ou de missa) a eventos e conchavos, ceder em troca de um bom salário ou, em nome da divulgação eficaz, a qualquer assunto encomendado: vampiros, viagens, cachorros, o que rola nas redes, you name it. Meu negócio é me esconder no mato e daqui todo dia, usando como planilha a tal plataforma dos blogs sem fins lucrativos e em vias de extinção, comunicar o que sinto, o que vejo, o que experimento, num texto bem cuidado e nem tanto apressado onde exercito dedicada esta ingrata profissão que não me quer, faz de tudo para me ferir, expulsar, me fazer desistir. Pois enquanto houver vontade, e o impulso visceral de escrever, eu não desisto. Pouco me importa se este espaço que ocupo e onde poucos me visitam chame a si mesmo de blog, ou jornal, ou agenda social ou projeto de livro: vão-se os modismos e se eternizam, enquanto houver memória disponível, os conteúdos de algum valor, mesmo que custe uma vida, não me importo com isso que vida eu tenho de sobra e aqui estou pra viver. E criar. E nada mais. Quanto ao que vocês possam considerar — por limitação cultural, nacional ou racial, sei lá — um título estranho, ou, aspas fora, no mínimo anacrônico de "post", faço questão de me fazer entender: trata-se do ano novo judaico que será registrado no calendário, como 5770, ao entardecer de amanhã, se preparem, junto à lua nova que traz consigo um eco de primavera, bonito, não? (tudo bem, eu entendo, é tudo uma questão de geografia: para os hebreus antigos, e até para os modernos cuja pátria física se localiza no outro lado do [meu] mundo, a lua nova é a que encerra a colheita e prepara a terra para um novo ciclo, é isso aí: as interpretações variam, mas no fim ou no meio, qualquer ritual expressivo sempre se justifica de algum jeito). Bom ciclo novo pra vocês, mesmo que seja só o meio do mês. Ou do dia. Ou do momento.
Que as palavras ensinem e as ações declarem. do Sermão de Antônio de Pádua
Vocês eu não sei, mas eu hoje acordei rezando por algo que é bem mais grave que um mero encontro conjugal, sob as bênçãos sagradas de um tácito acordo comercial. Há um eixo arraigado do mal no caminho da paz mundial, e por isso o apelo do dia ao santo de amorosa devoção: acendo todas as velas e faço de joelhos qualquer promessa.
Não que eu acredite que o poder votivo, quer dizer, do voto, entre tantas e tão misteriosas forças ocultas que nos controlam, faça, afinal, alguma diferença radical nos destinos do mundo — se é que tal coisa existe —, mas é mais ou menos como aconteceu com a eleição de Obama: pelo menos nas telas dos vídeos poderá ocorrer, se esta graça nos for concedida, uma mudança definitiva, um grande alívio visual que terá, por consequência, boa influência em nosso estado cotidiano de alerta mental. E antes que se especule o que é que nesta manhã de junho estou pedindo ao santo das solteiras, com ameaças ferozes de inverter-lhe a imagem caso não seja atendida... que namorado que nada, é dia de eleições no Irã, gente, e há grandes chances, livrai-nos, de uma vez, da cara e das intenções cinzentas de Ahmadinejad, o namorado que ninguém gostaria de ter, dá uma forcinha aí, mas ops, peraí: não é amanhã o dia do santo casamenteiro? E os namorados com isso? Hein? Pois é, nesse negócio de oração, se pensar bem, tem sempre um tropeço qualquer: há mais mistérios entre causa e padroeiro do que sonham nossas vazias crendices, de intenções e votos o inferno está cheio e, cá entre nós, se haverá paz na terra algum dia, entre os adversários de má vontade, pedido sem fé pra valer tem que ser mesmo concedido de véspera, não? No tempo certo pra preparar a festa, valei-me, meu santo português, que, por falar nisso, não deu muita sorte com datas: morreu solitário numa sexta-feira 13.
"Parte da luta americana contra terroristas radicais tem a ver com a mudança dos corações e mentes daqueles que eles recrutam. Se existem vários homens e mulheres entre 22 e 25 anos de idade no Cairo ou em Lahore que escutam um discurso meu ou de outros americanos e dizem: 'Não concordo com tudo que eles dizem, mas parece que eles sabem quem eu sou ou parece que eles querem promover o desenvolvimento econômico ou a tolerância ou a inclusão', então talvez eles se sintam um pouco menos dispostos a se deixarem tentar por um recrutador terrorista", declara Obama em entrevista exclusiva a Thomas Friedman, do NY Times, antes de embarcar para o Oriente Médio. Vale conferir. Tais inéditas opções diplomáticas de Obama, no entanto, sejam ou não expressão da verdade e da boa-vontade em busca de um mundo mais tranquilo, passam bem longe da unanimidade. Argh.
A felicidade/ Morava tão vizinha/ Que, de tolo/ Até pensei que fosse minha. Chico Buarque, "Até Pensei"
Francamente. Alan reclama, se encolhe, acha que eu devo deixar pra lá, dedicar-me full time aos detalhes finais do incensado projeto da nossa casinha transparente no meio do mato no qual investimos tanto, mas eu não posso. Não consigo.
Nem consigo mais dormir, é o que digo, desde que percebi na tarde de ontem, a espreitar pelas frestas descobertas do mundinho idílico em que tenho vivido confiante, de sonho e fantasia, as garras frementes do mal que habita em tantas outras mentes apegadas ao crime. Uau. Vai daí que me causa arrepio certo presidente sul-americano que flerta tão abertamente com o perigo, se deixa afagar e fotografar na companhia ingrata de tiranos explícitos cujo arruinado edifício político horroriza a vizinhança e, pior, sem desconfiar-se ouvido confessa, ao pé do inimigo, projetos de poder oculto que o muro nem tão alto da liberdade democrática por enquanto proíbe: será que no mais íntimo de seus pensamentos — tão eloquentes que escapam, frequentemente, dos véus protetores da prudência verbal — Lula prepara Dilma para encobrir sua futura eminência parda? Vai saber o que se passa neste país como nunca antes, a portas trancadas... O que haverá por descobrir por trás do nosso Brasil aberto, acolhedor, primaveril, lar de todas as roças e raças? Preconceito? Fascismo latente? Extremo: abrigo terrorista e memória nazista, durma-se com um pesadelo desses. É, gente. Por trás de qualquer bem-estar que se consiga há um mal da civilização que nos persegue e ameaça, e como defender-se disso? Outro dia, por exemplo, chegou cá na Serra à moda de moderna violência o assalto em ônibus à mão armada, imaginem, e mais: o sequestro seguido de roubo, acreditam? Terá chegado junto a corrupção da polícia? Pois é: plus ça change, plus c'est la même chose, né? Escapar quem há de. Melhor se entregar ao destino sorrindo, produzindo, trabalhando, somando sentido ao sentido que falta na mancha humana espalhada sobre a Terra. Há tanta dor nesta vida que já nem aguento, confesso, pensar que é minha.
foto Reuters: Doutor Obama, Honoris Causa na Universidade Notre Dame
Leio no NY Times esta manhã, apressadamente, café numa mão e telefone na outra, que Obama dará nesta terça algum tipo de declaração no Salão Oval a respeito de sua política nuclear de não-proliferação, sim, a ordem dos fatores enriquece o produto: por mais que se diga, negue e maldiga, os "combalidos" Estados Unidos se mantém intactos no núcleo do globo propagador de ideias, isto é, na vanguarda da humanidade.
Ainda mais agora que, finalmente, têm um líder novamente, sim, clichê ou não: com L maiúsculo. Viram a contagiante segurança do cara na incrível entrevista coletiva com Netanyahu, tantos detalhes delicados tratados assim, irancontra, na cara e na lata? Não é nada não é nada, me deu uma esperança danada: muita esperta a estratégia, por sinal nem um pouco inédita, de eleger um inimigo comum para árabes e judeus, quem dentre nós jamais imaginaria isso? Muita gente reclama que Obama só fala, mas fazer mesmo que é bom, não faz nada. Ora, gente!, é que a gente se desacostumou da ideia de poder sempre contar com alguém que coloca em palavras, claras e calmas, o nosso cotidiano pensamento confuso e ao mesmo tempo, com esta simples habilidade semântica, transforma o mundo à nossa volta: muda a perspectiva dos fatos enquanto afeta o viciado status quo dos pontos de vista mais comuns, e não é que isso é (quase) tudo? Porque líder, todo mundo sabe, é quem lidera, aquele que manda mas não faz, mas Obama não: é "walk your talk" até debaixo d'água, faça o que eu digo porque é o que eu faço... e tome de sabedoria urbana. Melhor: civilizada. Civilizatória. Pois é. Apaixonada ilusão de fã, diriam alguns. E é mesmo. Mas ter alguém que me empolga tanto e que permanece assim, digamos, por 4 meses inteiros sem perder para a plena decepção seu posto... Pra vocês não sei, mas pra mim é mais que raridade, se levarmos em conta que cair do cavalo, de todos os cavalos, é minha maior especialidade e, cá entre nós, estou surpresa. Não esperava tanto. Agora voltando àquela velha história de colocar em palavras etc., etc., aconteceu no último domingo, imaginem, quando o Nosso Obama — abrindo mão ("esnobando"?) de um pouquíssimo divulgado convite de alguma esperançosa universidade sulista de negros (argh, heranças malditas de racismos unidos) só para rapazes — deixou bem claro que não é de ninguém: é de todos nós. E de todos e todas nós se tornou (dando a cara melada a um esfaimado pote de abelhas assassinas) com seu católico grau de doutor quando afirmou com clareza, coragem e salomônica sabedoria (ui), sua controversa posição sobre a questão do aborto: pro-vida ou pro-escolha? Ops. Peraí. Deixa eu me explicar antes dos tomates: não é que eu seja a favor do aborto, gente, não. Sou a favor, isso sim, da informação, da educação e do controle do próprio corpo, afinal de contas, no meu próprio caso, uma vida inteira de entregas apaixonadas jamais resultou em gravidez indesejada, e se eu posso, por que não todo mundo? Mas, entendam bem, em caso de falha nisso tudo — e mesmo encarando o feto no útero como um serzinho completo em potencial, com pleno direito à vida —, prefiro que seja possível a escolha, legal e segura, de desistir dele. Pra não mencionar aqueles terríveis casos de estupro, abuso, etc., etc., como aquele recente, tão triste, da menina de 9 anos emprenhada à força pelo padrasto perdoado, lembram? E o Nosso Obama, me entendam, colocou isso claramente, bem melhor que qualquer texto convoluto de irônica cronista, metida a moderna e a feminista. Resta lembrar que o último domingo 17 de maio, que eu saiba, não foi nenhum dia dedicado à defesa do aborto mas mesmo assim, por insistência do destino, o marcante discurso de Obama (na Universidade Notre Dame, South Bend, Indiana), transmitido ao vivo pela tv a cabo, foi seguido imediatamente por "Aborto em Julgamento", um filme francês no GNT que relembra, de um jeito bastante emocionante, os primeiros passos hesitantes da humanidade dita civilizada em favor do aborto voluntário, vale conferir. E não preciso escrever mais nada, meninas, bom dia.
Serviço: Mulheres no Cinema Aborto em Julgamento Martine ajuda sua filha, que fora estuprada, a fazer um aborto e as duas acabam sendo acusadas de infanticídio. Conheça a história do julgamento que foi um marco para a descriminalização do aborto na França. terça - dia 19 às 16h02 domingo - dia 24 às 08h30 terça - dia 02 às 16h00 domingo - dia 07 às 08h30
E por falar em (meu) estado (de) judeu ainda não sei quanto tempo ainda vou levar — digo e repito — para aceitar, ou deixar de negar, o cada vez mais óbvio viés antissemita do governo Lula (um habitual "vamos combinar" soaria desligado demais para a seriedade em questão, é preciso ressaltar, formalizar, legalmente se resguardar) que pulula por todos os lados em nossa compedrada prática diplomática: permeando o oposicionismo, é grande a grita na dita grande imprensa, e eu? Como me sinto nisso? Ajo como se nada fosse, nada houvesse que me atingisse, mas, a cada vez que a evidência insiste, mais me parece que arrisco o que não mais deveria: seria o momento de arrumar as trouxas? Desmontar o barraco? Tirar meu bloco da rua ou botar a bronca no google? Hein? Diga aí, Lobo Lula em Pele de Amorim Cordeiro. Cachorros. Em guarda. Não sei. Não consigo levar isso a sério, embora saiba que por obscurecedores conformismos do gênero, a história ensina, gente do meu tipo acabou perdendo a chance. E a vida.
(uma farsa original sobre a fantasia final de Michael Jackson para "Thriller",
tendo tido o real sua reprodução desativada a pedidos)
Toda sátira é cega às forças liberadas pela decadência. Eis porque a decadência completa absorveu as forças da sátira. Theodor Adorno, filósofo alemão, 1903-1969
O problema de se manter um blog cotidiano por anos a fio é que a gente não pode, por exemplo, a cada primeiro de abril recontar a mesma velha piada, ou a cada vinteum repetir a mesma parada enjoada de Minas, Tiradentes, liberdade adiada e coisa e tal, vocês me entendem.
Mesmo que a cada ano que passe a gente, é claro, se transforme, se recicle e se informe para, do alto de nossa extrema experiência madura, ver de outro modo as mesmíssimas coisas que cá em baixo vivem entediadamente se repetindo. Ou, por outro lado, sair por aí empolgado no calor da hora, precipitado, tecendo extensos estudos espertos sobre aquele insignificante detalhe de história que acabou de acontecer e ainda pode mudar completamente (sim, normalmente muda), sem nenhum laivo crítico ou estratégico distanciamento. Embora às vezes, é claro, a armadilha do calendário — dos diferentes, intrincados e superpostos calendários variados que mantém a humanidade convenientemente discriminada — nos arme surpresas de arrombar o anedotário. Como, por exemplo, a grande, perversa ironia da data: Dia do Holocausto e, ao mesmo tempo, 120º aniversário de Hitler. Ok. Vamos combinar. Tendo chegado, pelo menos no drama humano registrado e de fadada lembrança, à data judaica sagrada dos cento e vinte anos de nascimento, um monstro do porte de Hitler bem que merece a presente homenagem: seis milhões de corpos desencarnados a assombrá-lo em sua desconhecida tumba de suicida, uau, um "Thriller" elevado à milésima potência que infelizmente não pode, como o famoso vídeo original de Michael Jackson, ter sua memória desativada. Tudo e nada bem que, como afirmou Theodor Adorno (que por sinal, descubro, nasceu num 11 de setembro), depois de Auschwitz a poesia teria se tornado impossível — "barbaric". E também, claro, a piada, a ironia: pior ainda. Todo mundo sabe que a prática da ironia tem justamente este propósito nobre: aliviar uma dor moral que de nenhuma outra forma se aliviaria, embora certas dores morais, é claro, estejam acima de tudo para todo o sempre. Pois desejo-te um terrível aniversário*, Herr Hitler, isto é, espero que o tenha tido. Com muita culpa, bastante sofrimento e tudo o mais, porque cá pra nós aqui em cima do inferno em que para sempre habitas, na terra arrasada que em tua crueldade insana nos deixaste, não tem sido nada fácil ser alegre nesta vida.
* pode até parecer confusão de calendário mas, vocês sabem, em Israel a data começa de véspera, isto é, na noite do dia 20, aí sim, aniversário de Hitler (nascido em 20 de abril de 1889), ufa, quem vem sempre aqui já percebeu que editei este texto três vezes, argh, maldição nazista.
..ah, tá bom, outro oximoro, fazer o quê, mas só fiquei sabendo agora: um ciclo que de 28 em 28 anos se renova, talmúdico retorno solar, paciência, é só o meu segundo, dá pra entender.
imagem: livro de Culinária Judaica, 3ª edição, 1980,
editado em Beagá pela Comissão de Mães da Escola Theodor Herzl,
a minha entre elas: relíquia de família
Não sei se vocês sabem, mas muito antes da Páscoa cristã começar a celebrar a ressurreição de Cristo — vitória sobre a morte, libertação do ciclo do carma de morte e reincarnação, nirvana, iluminação, uai, gente, serão estes todos realmente relacionados ou estou me confundindo? —, ali pelo ano 33 DC, uma outra Páscoa bem mais antiga celebrava a libertação dos judeus da escravidão do Egito, não só dos grilhões, eu penso, mas também dos mitos inúteis de morte, de vida após a morte, superstições, o favor dos deuses, e, pior, por dentro da argamassa das fantásticas pirâmides erguidas, sabe-se lá com que sangue, provavelmente o nosso, da obrigação de eternização do corpo já morto e dos bens materiais que naquela época, pasmem, a gente levava pro túmulo sim, sai azar, ao lado de uma boa meia dúzia de empregados, senão fiéis, pelo menos à revelia condenados à fidelidade eterna. Argh. Até o cachorro do falecido dono, coitado, acabava embalsamado. Alívio: o mundo mudou: a gente hoje morre e acabou, tem liberdade maior que essa? Viver plenamente a cada dia, sabendo que tudo, alegria e miséria, termina inevitavelmente um dia? Sério. Nem sei porque a morbidez, fala sério, num dia em que se celebra a liberdade em vida, bem, nem tanto assim: Moshe Rabenu, nascido e rejeitado, aparentemente, mais tarde reencontrado e grande agente judaico de mudanças de estado — mudança de casa, país, religião, estatuto moral e condição civil —, morreu sem entrar na Terra Prometida por estar fatalmente contaminado, imaginem, com o germe ingrato da servidão.
Me pergunto: será este o destino de Obama? Lutar idealmente por algo que jamais verá completado em vida? Bem. Hum. Esperemos que não, hum, ilusão. Mas cá entre nós este dia de pessach — a passagem — é um dia em que eu nem penso em política, nem em dinheiro, nem na esperança perdida, claro, um oximoro num dia em que se celebra, exatamente, o pleno renascer da esperança, de todas as esperanças. Penso na cozinha, isso sim, na cozinha familiar judaica quase esvaída da memória — não fosse o livrinho herdado — e suas calóricas implicâncias, afinal de contas come-se neste dia como se fosse o último de nossas vidas, não fosse esta a receita da bem-aventurança, "viver cada dia como se fosse o último", não é mesmo? Não, gente, Nada disso. De uns tempos pra cá a noite de Pessach, por mais que eu me cuide em não chorar, é a noite suprema da saudade: saudade de vovô que rezava tão bem, saudade das cantorias, família reunida, fantasma de Elias — "ben Bloom Elias numa carruagem de fogo" — vinho doce e a franca comidaria antes que tudo se decidisse no Aficoman escondido e trocado por alguns trocados, "o preço da liberdade", ah, agora chega. Chega de saudade. Porque este, reparem bem, é meu primeiro Pessach da minha grande libertação pessoal, dos grilhões da obrigação urbana, dos vendilhões da fama, da negação dos desejos, de celebração na montanha — meu Har Sinai abençoado particular onde o sol de um lado se põe e do outro se levanta —, da carência de casa sagrada ainda não. Na próxima Lua Cheia, quem sabe. Seja como for, a noite de Pessach traz recordações. O que desejo este ano é que a partir de agora sejam doces, como o doce travo de maçãs e nozes que representa no Seder o tijolo escravo, imaginem, deixar tudo para trás, tornar doce a memória da prévia escravidão. Eis a grande lição. Chag Sameach.
E não fiquem vocês pensando que por não escrever todo dia sobre tudo o que nestes dias tem marcadamente se passado, eu não esteja de olho. Estou. Só não deu pra entender ainda, nas entrelinhas da empolgação com o anunciado fim de tantas ameaças letais ao futuro das nações mundiais, onde Obama quer chegar (cheque!) e como pretende chegar lá. E, claro, se um dia efetivamente chegará com sua refinada (ou chutada?) estratégia enxadrista (xeque-mate!).
Cá entre nós que ninguém me conteste, tenho arrepios de medo ao imaginar o destino inconteste do apoio americano a Israel (argh, eu apoiando ele, B.H.O.!, onde o agá, vocês sabem, conta como "Hussein", o que eu deveria esperar, hein?). Não que eu pense que este amor incondicional de antigamente tenha obtido algum resultado legal, dando o que pensar aos inicialmente desprezados fiéis representantes do Islã, vocês entendem: prefiro o fato consumado da paz a meras eternas conversas de paz, claro. E apesar de temer as novas (desconhecidas) regras continuo apostando nelas, bem, hum, até a prova em contrário que ardentemente espero que não se prove nunca (seria o Abençoado Obama o novo Messias? Ou o anunciado Anticristo das Escrituras?). Maktub. Todah rabah. Ideias que veem longe, para além do nosso explosivo mundo, inch'allah.
A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. Titãs, de quê, na mais óbvia fome de citações
Não, não é o que vocês estão pensando, mas sim uma explicação convincente para o surto generalizado de obesidade bíblica que ao final das contas tomou conta dos Estados Unidos, uma forma de compensação obsessiva, desembocando com o perdão do trocadilho in fome nessa crise de excessos, de todos os tipos e acessos, que está aí pra todo mundo ver e que eu penso que, fatalmente, resultará não sei quando em maior elegância em todos os matizes, bem, essa é a parte chique e mais divertida da coisa, porque, vocês sabem, passar fome não é brincadeira. E sei bem do que escrevo, claro, do fundo de um estômago vazio, e não, não é de regimes radicais que estou falando — embora, claro, nos tempos em que eu me acreditava gorda tenha passado por todos eles e suas correspondentes fomes extremas, extremamente voluntárias, nada que passasse nem perto de uma ameaça mortal de bulimia política nem resultasse no tão desejado adelgaçamento libertador — mas sim de uma fome maior, mais básica, a nível de nascimento: um reflexo ambiental da dieta comunal à base de pó de ovo que grassava naquele momento [no ano da graça de 1952], num socialista Estado de Israel recente sem tanta graça divina assim, mas, certamente, com muita fome de (sobre)viver.
Pois é. Vocês aí têm fome de quê, eu de muitas coisas, alimento da mente?, fome de decência, fome de justiça, fome de cultura, de humor, e entre as piores e inconfessáveis fome de fama e fortuna, Deus nos livre da verdadeira fome do corpo que essa dói muito mesmo, confiram aqui neste vídeo curioso, às vezes engraçado e às vezes doloroso, sobre a depressão americana — gravado por um garoto esperto de seus treze anos entrevistando a avó — publicado ontem no NY Times, grasnou na encolha o urubu: nevermore.
"Opa, peguei de jeito o fio do texto", exclamei animada, cedo esta manhã que nem Leopold Bloom, ainda no banheiro, ao ler na tela, a mando — melhor, mais moderno: por sugestão — de trecho em O Globo, a sinopse de outro fio, o das missangas de Mia Couto que ainda não li. Afinal de contas, são livros demais para o raro tempo livre da mente, infelizmente, nem todos tão bons, nem tão indispensáveis, quanto prometem as resenhas publicadas. Na minha fila de diletante vai outra garota à frente: Elza, a jovem comunista estrangulada (por ordem de Luiz Carlos Prestes, suspeita de traição), cuja vida se perdeu no fio histórico da meada, novo romance de Sérgio Rodrigues em torno de personagem intencionalmente apagada de todos os arquivos, negativo interessante da bem mais divulgada Olga Prestes, quero dizer, Benário. Que nem consta ainda das prateleiras públicas.
Acordei cedo esta manhã meio abafada por ideias soltas, como as pérolas espalhadas de um colar herdado e mais tarde desenfiado, seu profundo significado simbólico arrebentado, ou quem sabe à espera de um pensamento delicado que as recolocasse educadamente no fio [cito Lobo Antunes, outro célebre autor em português, sendo Mia, claro, moçambicano] à laia das missangas de Couto: "O fio das missangas adentra o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas", ei, peraí. Não era bem isso o oposto do que eu na verdade pretendia? Provar que, ao contrário do que se afirmou um dia, cabe às mulheres a tessitura do mundo? Bem. Foi aí que eu quase me embolei em outra bandeira rejeitada, ou ao menos pendurada pelo avesso: a do indiscutível poder feminino, nada a ver com a publicidade extensamente disseminada daquele inútil dia fatídico, ou mês, ou era, breves tentativas ao bronco estilo masculinas de controlar o que ninguém mais controla, isto é, o que nos vai por dentro e não raro extrapola. Não é que as mulheres sejam, assim, como são os homens exatamente, não, gente, a não ser em nossa básica humanidade traduzida em nariz, boca, olhos, mãos, cabelos longos e... Corta, corta o rumo curto dessa prosa que este caminho danoso resulta em letra morta. Mulher é igual, e no entanto, nem tanto: na contrapartida da rima. Mesmo assim, na roca emperrada da autoestima, termina tecendo (sua parte integrante d)a tela do mundo, cinquenta por cento, pelo menos, assim, meio como eu: palavras espertas bem ordenadas, obedientemente enfileiradas em frase mas já de antemão condenadas ao esgarçamento. Renitentes. Esganiçadas. Combatentes, taí: empaquei, logo agora, no verso aposto que nem pretendia: leigas loas ao lauto lógos feminino. O caso é que mesmo a mais óbvia ausência de acaso desemboca às vezes em algo surpreendente, envolvente e quase transcendente que dilacera no conhecimento, com unhas e dentes, a banal ditadura da realidade, oba, possuída por um bom demônio do verbo esta manhã, mas cá entre nós: valeu a pena a celebração condenada quando descobri, em documentário no GNT, o exato oposto do que até hoje acreditava, é, gente: há vida, e vida útil, conquistada e contundente, por trás da anunciada obscuridade da mulher muçulmana, requeridos por negra lei?, que véus que nada, segue exibindo-se em filme o rumo inevitável do que vem por aí, ó, na insaturada mesa saudita de debates: são apenas "insignificantes" 30 milhões (30 milhões somente, sim, considerado o total impressionante de 500 milhões existente) de mulheres as que, hoje em dia, se submetem à sharia, shame on you — faça-se a paz, yallah, nu! —, os olhos nos olhos e os dentes rangentes por trás dos negros véus, lei islâmica que a bem da verdade nem mesmo o véu exige, nem o suicídio (por prometido paraíso de virgens), que aliás, fico sabendo, de fato proíbe. Bem na rota em que o desejo de mudança nos conduz: percebo no Google (na contramão das horrendas fotografias, como, por exemplo, essa lá de cima) que, graças à cultura impositiva da tevê por satélite, há vários "Saia Justa" à muçulmana tais como esse "Kallam Nawaem" [conversa mole] que o documentário mostra, uma enchente, aparentemente, de mulheres liberalmente desvendadas, de todo tabu falando um pouco. Afinal de contas — aprendo —, até mesmo o Profeta — desenganado no mundo pelas mãos explosivas de uns "poucos" terroristas mistificadores que não o cultuam, mas de fato o denigrem — exaltou no Alcorão, seu texto votivo original, as virtudes do sexo, do amor e da paz. E que fique bem claro, da boa literatura. Hamdullah.
Serviço: GNT.Doc: Rainhas da TV Árabe, segunda, 16/3, às 11h00 Elza, a garota, um romance de Sérgio Rodrigues: quinta, 26/3, na Travessa do Leblon
Do Haaretz: "OLD FRIENDS: Benjamin Netanyahu and Avigdor Lieberman in 2004. Lieberman on Thursday backed the Likud chair as Israel's next leader. (BauBau)"
Sai dessa, Tzipi Livni (atenção: são dois links diferentes, tão diversos quanto a disputa política em Israel). Em buraco de corja tatu não mete a colher.
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. Sermão da Montanha, segundo São Mateus
Não é agosto-mês-de-desgosto nem nada, mas não sei se vocês repararam: apesar das promessas festivas do carnaval que se aproxima — um cheiro de gozo exclusivo do Brasil de Lula e Dilma —, hoje é sexta-feira 13. E cá entre nós, não faltam adeptos da Lei de Murphy espalhados por aí a torto e a direito: a palavra dada, vamos combinar, está na ácida boca trevosa deles. Pra começar bem, ou melhor, pra começar bem mal, nada como o incipiente fracasso dos animados planos pós-partidários de Obama, tantos projetos de mudança ainda nem a bem da verdade sonhados e já destroçados no primeiro parto, destinados ao agudo descaso das muitas cassandras em franca atividade, e olhem que algumas eu respeito à beça, há que escutar do que estão falando. Como David Brooks, por exemplo, descrevendo um cenário sombrio de futuro que a gente bem faria se fosse evitado: pra sexta-feira 13 nenhuma botar defeito. O ambiente é de sonhos desfeitos, quase-pesadelos.
Outro sonho que anda beirando o quase-fracasso é a vitória apertada, potencialmente derrotada, de Tzipi Livni nas eleições israelenses, mas, cá entre nós, o clima de desânimo que abate o Kadima não é nada, nada, perto do que vem por aí, ou, pelo menos, pode vir se quem é do bem não se pronunciar a respeito: o já direitista-como-poucos Likud de Netanyahu somado à intolerância prometida do Israel Beitenu, francamente. É coisa certamente para abaixo-assinado global, e olhem os amantes da paz já lambendo as botas de um suposto Belzebu. Mas o pior, o mais triste, é o já-perdeu generalizado tomando conta de tudo no sonho mais dourado da humanidade contemporânea: a pujante sociedade futurista fartamente esboçada — mas, como se viu, sem muito cuidado no traço —, pelos visionários de Dubai: gente; tá tudo escorrendo pelo ralo abaixo. Agora. Vamos combinar. Visto assim do alto, este cenário arquitetônico espetacular sugere em suas pontas algo de truque, horroroso expediente enganoso do demônio, não? Só esperando o momento certo pra nos derrubar, pensem bem. Ou nos empalar, cruz credo, dá pra entender porque Deus se encrespou: quanto maior a altura dos sonhos maior a queda na triste realidade, todo mundo sabe disso. Por outro lado, francamente, algo precisa ser feito pra que a gente não embarque, imediatamente, nesse castelo de cartas modernoso, sequência de dominós prontinha pra ser derrubada, domino gratias. Ô desgraça. Cá entre nós: existe esperança. Afinada e cuidadosamente restaurada na voz da faxineira alheia a toda essa crise que se arrisca tímida, cantarolando no apartamento aqui em baixo, num otimismo apurado que eu não escutava (e que não me inspirava, aiaiai) desde a infância em Beagá. É a trilha sonora do reino dos céus, já pregava Jesus no Sermão da Montanha. Vamos combinar: aqui se faz, e se paga a crédito, que miséria. Xô.
É boca-de-urna, mas ainda resta dúvida. Em todo o caso, o resultado já está selado, só a gente é que não sabe. O que ficou claro: embora às vezes nem pareça, e a borrada (in)diferença nos confunda, Israel votou mesmo pela paz.
"Espantosa esta caixa de comentários. Uma simples notinha de lançamento de um livro o mais prosaico possível, que eu entendo como uma espécie de "Sociedade Brasileira" dedicado à comunidade judaica local — como tantas outras, integrante do livre melting pot que sempre caracterizou a população do país —, foi o suficiente para detonar uma enxurrada de diatribes antissemitas e, pior, sem qualquer refinamento da informação, para me limitar ao mais rasteiro eufemismo. O curioso nisso tudo é que vivi no Brasil uma vida inteira, mais de 50 anos, sem jamais ter sentido um sopro mínimo sequer de antissemitismo, o que agora... virou regra: é o lado negro (sem preconceito) da liberdade na web, assim também já é judiação. Vergonha. Tristeza."
E você, aceita a ideia de que não há explicação? Julio Cortázar
"Depois da miraculosa campanha eleitoral de Obama em 2008, ficou claro que em algum ponto a mágica jornada misteriosa teria que ter um fim", escreve Charles Krauthammer em artigo que li, pasmem, no Jerusalem Post, sim, hoje é dia de ler in loco sobre mais um mistério eleitoral prestes a se desenrolar noutro canto crucial do mundo.
Em primeiro lugar, algo breve sobre o tom sem meios tons da discussão eleitoral em Israel, onde ninguém poupa ninguém de nada, vocês sabem, é a cultura da rutzpah generalizada [resolvi grafar assim, com erre, rutzpah, pois do jeito americano que se encontra no google soa mais como xutzpah, o que não é o caso] também lá existe aquele candidato de quem tenho trauma e cujo nome nem digo, por medo de atrair um mal essencial que se esconde mas já nem tanto. Sobram Livni e Barak, menos mal. E se meu voto irrelevante vai para Livni é por Barak ser um fraco, taí, mais um mistério eleitoral: quem seria no caso a melhor "pomba" da paz? Se estão ambos no estágio confesso de "falcões"? Ah. Tudo bem. Sei muito bem que essa eleição de amanhã em Israel não interessa a ninguém, mas calma, gente: foi só um parágrafo. Já os destinos do sonho Obama interessam a (quase) todo mundo, e, justamente, por sua qualidade explícita de "mágica jornada misteriosa" que K. tão bem menciona. Ora, gente: é fácil conferir que na música citada os Beatles convocam seus ouvintes para um tipo bastante ousado de nada, já que a letra linkada não esclarece nada, nada, nem que tipo de jornada seria, é no que estamos metidos, sério. É Magical Mystery Tour e isso basta: o que seria de nós sem um mínimo toque de mistério? Ou de magia? Chatice. Tédio absoluto. Pois se há algo incrível nisso tudo é que quando me posto a escrever (percebam que poupei vocês de um excessivo porém quase infalível "me posto a postar") começo a perceber conexões misteriosas entre assuntos bastante desconexos antes, como, por exemplo: no dia exato em que adicionei Julio Cortázar ao meu modesto panteon de fã no Facebook, PRP, de Paris, escreveu em seu blog sobre Cortázar e adicionou um vídeo que achei chato de ver e por isso procurei outro que relacionasse Paris e Cortázar onde o escritor descreve a Paris noturna como uma jornada mágica e misteriosa, pode ir lá conferir que tudo isso é nada mais que um fato que enfia Krauthammer, Obama, Cortázar e Beatles (e mais Paulo e eu, claro), todos no mesmo saco. Ou barco. Ou ônibus. Agora. O que já não parece tão simples é desvendar que mistério rege os caminhos do mundo e, mais misterioso ainda, se tal mistério realmente existe, do que às vezes, quase sempre, duvido. Fica sempre a impressão do compromisso com a energia humana dos tais padrões cerebrais, aqueles que impelem todo movimento, ih, fiquei cacófata agora, e pior, pleonástica, talvez até mesmo um pouco pernóstica mas, em todo o caso: confusa. Se não acredito na coisa por que mencioná-la no blog? Hein? Bem: é que cedo não raro ao impulso de examiná-la, me deslumbrar com ela. Afinal de contas, como Cortázar mesmo diz, é este mistério a matéria primordial da literatura, está no post do Paulo. Vale também para a vida. Já deixando o mistério de lado — pois vem de um puro e mágico mistério a confiança investida (e ainda não realizada) em Obama —, me preocupo mesmo é quando Paul Krugman, um obamista de primeira hora, começa a duvidar dos práticos resultados do quadragésimo quarto, mas ops, peraí. Ainda é cedo, não? Basta por ora embarcar na jornada, taí; trata-se apenas da faixa de abertura de uma trilha inteira, conceito que hoje em dia, numa era de downloads de uma única música, vai rapidamente caindo no esquecimento. E pra quem prestou atenção de verdade na letra: não é você que quer de verdade a jornada, é a jornada que te quer, está louca pra te aliciar. Hoje mesmo e não é por nada. Todos a bordo. Agora. Já.
O Memorial de Bergen-Belsen, em foto do NY Times: há luz no fim deste tunel?
Puxa, agora sim estou tranquila: Fidel declarou que Obama é honesto. Não foi à toa que as bolsas subiram e os juros baixaram e os altos salários congelaram, as juras conturbadas da festa já todas convenientemente rejuradas. E la nave va (num eterno Mardi Gras?), sem quarta-feira de cinzas.
Confesso que eu já andava enjoada de tanto foguete, mas nesta manhã de quinta Obama acordou cedo, malhou na esteira da Casa Branca e sua decidida presença no Salão Oval começa a virar (uma saudável?) rotina, graças a Deus, que Deus etc etc. Com tudo isso, só pra não perder o costume, vocês sabem, continuo ouvindo e lendo as vozes dissidentes, já que no fundo no fundo, meu Deus!, tenho o maior medo de estar sendo enganada mas, bem, hum, agora que Fidel me aquietou, posso seguir em paz com a minha vidinha besta. Brincadeiras à parte, por uma instigante coincidência assisti ontem à noite no Eurochannel a "Nós que nos odiamos tanto", um telefilme muito interessante sobre os primórdios da União Européia, já em 1950, apenas cinco anos após a derrota de Hitler. Os temas que atravessam o filme são tocantes. E controversos. Imaginem se seria possível que os franceses não só perdoassem aos alemães as atrocidades nazistas, como também os aceitasse como parceiros comerciais? Perdoando ainda por cima as rameiras traidoras, filhas-de-judas que haviam escolhido se entregar ao inimigo e gerar (bastardos eternos) filhos mistos? Sim. A guerra havia terminado e era preciso seguir em frente, mas o ódio, o trauma, ficam pra sempre guardados, como superar isso? Na minha família, imaginem, não se perdoa nada, um passo em falso e logo se é sumariamente condenado para sempre ao porão do ostracismo, sem janela aberta nem abraços conciliatórios: é por isso que entendo tão bem a política explícita do rancor, sempre pessimista. É por isso que entendo (e é até um milagre que não me junte a eles), os que veem em Obama apenas mais uma fraude, mais um crente inexperiente, relegando ao nível de baboseira iludida todo esse papo furado de nova era (sim, gente: usei de propósito o termo esotérico, afinal de contas, tudo que tantos gurus nos prometem, há tantas centenas de anos, tem agora afinal uma mínima chance de tornar-se realidade, a conferir: uma nova era de "liberdade e prosperidade", nossa, me senti ridícula escrevendo isso). E pior: não me furto a imaginar um futuro de paz cooperada para israelenses e palestinos*. O caso é que se a humanidade se decidisse a escutar o coração (aiai), isto é, o chamado do amor (mais aiai ainda), talvez na sequência se dispusesse a enxergar o outro com alguma tolerância extra (meu Deus, imagino o que andará escrevendo a respeito o Arnaldo Jabor, que não leio mais) embora, claro, tudo isso, pela franca limitação das palavras, soe mesmo como coisarada sem a menor importância. Como mamãe costumava dizer, põe o fardo nas costas e segue em frente, ô, é mesmo de se ficar corcunda, mas falando sério: ao passado doloroso presta-se reverência, na medida do possível retocando a memória tão triste com alguma consoladora beleza (ih, me senti muito culpada agora), como no recém-inaugurado memorial em Bergen-Belsen. Depois dos tanques silenciados, dos ânimos parcialmente desarmados, é tocar o barco. Embora doa, embora pareça desrespeito, a vida continua depois de amansado o peito, ih, rimou. A Europa custou, mas como a história provou — e ainda está provando — foi capaz de superar as diferenças, e dores até bem piores, então por que não todo o resto do mundo? Bora lutar pela paz na terra, gente. Longa vida aos ideais de Obama.
*um curioso extra que acabei de ler: "Isratina" (um completo desatino?), uma história surpreendentemente bem escrita por... nenhum outro a não ser... Muammar Qaddafi (!!!???!!!), um (ex?)-anticristo daqueles (parênteses meus, claro). Confiram.
Caro Reinaldo, seus argumentos são lógicos, e bastante convincentes, claro, você escreve muito bem e é por isso que eu venho sempre aqui, isto é, passei a vir por seu apoio a Israel e em meu tempo ampliado, agora que não leio mais tantos jornais. Mas você não está tão só. Muita gente (na Fox News, por exemplo) pensa como você. Mas eu, embora como você não seja "uma boa pessoa", nem tanto.
É certo que há muito teatro, e as coisas do mundo caminham lentas, com ou sem messianismo. Mas há um fato importante que você deixou de lado: a tendência humana para se escorar em simbolismos (no bom sentido, assim como um símbolo do bem pode sim, acredito, ajudar no combate ao mal), ih, bem/mal, puta maniqueísmo, mas o que dizer do efeito de um rosto expressivo sobre o rumo real das coisas? Não há alívio em ver no pódio do mundo um rosto sorridente, um gesto amoroso, em lugar de um sarcasmo permanente? Para mim, sim. Tá certo. Analistas explicam que a expressão facial de Bush não reflete, exatamente, o seu pensamento e sim, que ele não deu sorte com a natureza: olhinhos apertadinhos e uma incômoda assimetria na boca descaída, sim, diriam muitos, um óbvio sinal do mal, este apenas um dos muitos azares com que o divino o agraciou. Outra verdade: no seu discurso de volta em casa no Texas ("deixamos o Texas, mas o Texas nunca nos deixou", clichê, clichê) — transmitido apenas e exclusivamente por sua emissora oficial, a Fox News, na contramão do reconstrutivista otimismo midiático reinante (que, aliás, como Obama, descobri outro dia, é a que eu assisto: adoro ficar irritada com aquelas opiniões radicais todas, radicalmente diferentes das minhas, me faz pensar melhor) —, Bush era outra pessoa, engraçado, relaxado, amoroso com a esposa, e mais, muito convicto de seu papel bem escrito como um puro agente do bem, afinal de contas, o "43" conversava ou não com Deus antes de atacar a caneta? A história revelará o que a imprensa escondeu. Ou enfeitou. Ou manipulou. Boa sorte pra nós que a gente merece, e isso já nem é comentário, virou post. Que falta de educação a minha, entendo muito bem se você repelir a invasão, desculpe, mas é que o assunto me empolga e a sua caixa não limita, olha aí o perigo.
Aliás e a propósito, para ser justa com o Reinaldo e comigo mesma, entendo mas rejeito totalmente essa ideia de comparar a onda Obama a um êxtase religioso, o êxtase até que tudo bem, mas taí o ponto fraco: esse apego à religiosidade (bem, nem tanto, uma breve menção no discurso, como se segue: "We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus, and non-believers"), à igreja, essa potencial pretensão a uma linha direta com Jesus, não me parece coisa de um sujeito tão brilhante e esclarecido como Barack, mas enfim, tudo bem: deve ser só uma limitação teórica de minha humilíssima parte (segundo Roger Cohen, ser humilde voltou à moda).
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E já que visitamos o Reino de Azevedo, e meu santo Obama já está devidamente canonizado, ou melhor, por enquanto apenas entronizado, aproveito para antecipar meu voto sem nenhum valor nas próximas eleições polêmicas de afetar o mundo, a serem realizadas em 10 de fevereiro próximo: voto em Tzipi Livni, a nova durona da praça. Explico: não gosto, nunca gostei de Netanyahu apesar de seu perfeito inglês; e apesar da recente vitória, o heróico Ehud Barak (não confundir com seu famoso homônimo) não me convenceu: continua um fraco. Então, de uma linha dura pra outra — ao que parece no Estado de Israel a vida tem sido muito dura — voto numa vaga esperança feminina forte.
Do NY Times, hoje, em editorial: "...Gaza Strip, where an always miserable life has become unbearable." Tá certo. Toda guerra é um horror e quando atinge a miséria, pior ainda. Mas muito em breve, parece, de acordo com as últimas notícias, será possível graças a Deus deixar de lado este único assunto. Agora, embora eu reconheça as tramóias da guerra de propaganda, as mesmas imagens distorcidas e interminavelmente repetidas na exploração genocida e manipulativa da opinião pública, sempre acreditei que a Faixa de Gaza fosse um triste, acumulado, deplorável campo de refugiados, uma mancha inapagável na história da miséria humana. E não é? As imagens são de Jabaliya, o campo à beira-mar em Gaza. Do Google Earth: no link sobre as fotos tem mais.
Não sei se vocês se lembram, mas quando meu vídeo de lançamento do Hierosgamos foi ao ar, acabou hospedado na página youtube do meu sobrinho Edgar, produtor da peça. Ocorre que um ano antes ele tinha feito uma vídeo-pesquisa sobre Hitler para a faculdade, um sucesso de público e crítica (e porque não dizer, um involuntário clubinho para troca de mensagens neonazistas, pois é; arte em parte é isso: a gente nunca sabe direito que bestas vai liberar com a inspiração). Pois o tempo passou e a disputa sutil se estabeleceu: o amor contra a morte, e, cá entre nós, o amor vinha vencendo a morte em pule de dez, acabando muito à frente depois de curto espaço de tempo... mas... Desde que começou essa triste e trágica crise palestina, pasmem, alguma coisa aconteceu: Hitler, que já vinha em humilhante lanterninha, ganhou um impulso extra, e VOCÊS VÃO PERMITIR QUE ISSO ACONTEÇA? Visite. Impeça. Pode até não ajudar em nada, mas ver o amor prevalecer vale sempre a pena, ilumina o dia. Paz na terra aos que escolhem amar. Amém.
Solitário, abandonado, com uma tremenda bola fora na encarniçada batalha da propaganda em Gaza, Osama Bin Laden celebra em vídeo seu derradeiro furo estratégico: deste lado mais civilizado do mundo ninguém mais ama este Osama, nem sua jihad delirante. Espero que não.
Jim, how beautiful you are! Nora Barnacle a seu marido James Joyce, morto, pelo visor do esquife.
“Começo a escrever este livro em 13 de janeiro, o aniversário da morte de Joyce em 1941” – nos conta Anthony Burgess em Homem Comum Enfim [Here Comes Everybody]... ", que menciono nas Crônicas Irônicas, uai, foi ontem. "...e espero terminá-lo no Bloomsday, em 16 de junho." De tão concentrada (entretida aqui com... James Joyce) quase passei pela data em branco até que Thereza C., dedicada editora, me lembrou o fato: descanse em paz mais um pouco enquanto dá para estar, pacifista, na paz. Entre tantos mortos. Paz? Mortos? Mas de que raio de paz estou falando? Vai ver foi por ser mesmo um atentado que, vírgula, bem no dia do seu passamento nem-comemorado, vírgula, Joyce me atentou o juízo o dia inteiro em disputas da língua falada contra o idioma escrito — "aspas", itálicos, travessões — num interminável preciosismo, ponto e vírgula, cá entre nós? Quem hoje em dia vai ligar pra isso? Ou sequer perceber que me preocupei tanto? R.I.P.: reforme-se de uma vez a nossa pobre língua gramaticalmente complexa e deixe-se em paz o linguista morto. Amém. E ponto final.
E por falar em datas, hoje é dia do aniversário de casamento de mamãe-e-papai, cincoenta e oito aninhos, argh, quase sessenta do dia em que (quase) fui concebida, para azar do mundo.
Bati nessa por puro acaso, juro (ou seria intuição, ou dádiva divina?), pesquisando uma frase de procedência indefinida citada no NY Times de hoje. Pensei em mencioná-la, a princípio, por discutir a qualidade do ritmo presente nos textos de um excelente escritor - Mark Twain, no caso - assunto pra mim de importância literária considerável, apesar de hoje em dia bastante relevado e até exposto ao ridículo. Vai daí que pesquisando no google descobri a íntegra deste texto imperdível, santo google, escrito por Twain in loco por ocasião de não sei que agitação antissemita no congresso austríaco. Pra quem domina o inglês e tem interesse no assunto, recomendo a leitura, nem que seja para obter uma perspectiva histórica mais ampla: em tempos de crise no Oriente Médio e de inesperado recrudescimento do sentimento antijudaico, uma mais inesperada ainda contribuição do destino. Segue trecho em tradução, desculpem, meio improvisada.
"Speaking of concentration, Dr. Herzl has a clear insight into the value of that. Have you heard of his plan? He wishes to gather the Jews of the world together in Palestine, with a government of their own - under the suzerainty of the Sultan, I suppose. At the Convention of Berne, last year, there were delegates from everywhere, and the proposal was received with decided favor. I am not the Sultan, and I am not objecting; but if that concentration of the cunningest brains in the world were going to be made in a free country (bar Scotland), I think it would be politic to stop it. It will not be well to let the race find out its strength. If the horses knew theirs, we should not ride any more."
"E por falar em concentração de forças, o Dr. Herzl* tem uma intuição clara sobre o valor disso. Ouviram falar do plano dele? Pretende reunir os judeus do mundo na Palestina, com um governo próprio — sob a suserania do sultão, eu suponho. No ano passado, na Convenção de Berna, havia delegados de todos os lugares, e a proposta foi recebida com decidido favorecimento. Não sou o sultão, e não me oponho; mas se essa concentração dos mais finos cérebros do mundo fosse empreendida em um país livre (excetue-se a Escócia), penso que seria boa política impedi-la. Não estaria bem permitir que a raça descobrisse a própria força. Se os cavalos conhecessem a deles, nunca mais os montaríamos."
Mark Twain, Viena, verão de 1898
Falar nisso, trechos esparsos deste texto tem sido usados, fora de seu contexto, sob a égide manipuladora de algumas organizações espúrias — como a que utiliza em seu site, sem nenhum rastro de pudor, um maldito e famoso logotipo sagrado distorcido —, numa atitude que tem se tornado comum, defendendo a tese de que Twain era antissemita. Um terrível engano, creditado à (despercebida?) ironia.
*nota da tradução: Theodor Herzl, criador do conceito de sionismo no século 19
A trama da mídia anda tão bem urdida que até os judeus já estão começando a atacar os seus (e embora o link seja do Globo não é só no Globo não, como se verá mais abaixo), uma espécie de doença autoimune da mente. Não é meu caso, graças a Deus, mas o Alan aproveita o ensejo e entope minha caixa de emails com artigos sobre o ódio a si próprio, comum em povos longamente humilhados e perseguidos. Será por isso que os palestinos se matam uns aos outros? Tem provado ser apenas wishful thinking, um erro grave, infelizmente, o sentimento vigente de que estamos historicamente além da possibilidade do antissemitismo, uma ilusão mortal que afinal de contas, os judeus alemães cultivavam também no início da ascensão de Hitler. A coisa informe e maldita já desponta nem tão sutil assim na Itália hoje, por exemplo, numa versão (por enquanto) suavizada da famigerada Kristallnacht. Outros, mais alarmistas, andam colando pelo em ovo que pode sim, pelo já visto, acabar peludo. Vivemos tempos perigosos.
"No princípio era o verbo; no final, será a falta dele." Euzinha mesma, frasista de araque, por puro apego à força de uma frase
Pronto. Começou. Nem bem chegou o dia da posse e já se alevantam os palpites em contrário, ainda que nobelmente sensatos. Calma, gente. Faz parte da força de um presidente o carisma verbal, acredito eu, um talento para os bons argumentos que a todos motiva, transforma, provoca a reflexão e por consequencia indireta, estimula a ação. Tá certo. Se engana quem se consola com um mero primeiro passo de vitória, precocemente aliviados ao pensar que se calam, sem nenhum argumento, os franco-derrotistas de praxe, deem um tempo ao tempo da experiência. Agora. Pior seria se, ao se afastar do puro exercício da língua política, o nosso guru tão amado dirimisse a primazia da lógica em detrimento do nosso lado, aí, sim: seria o reinado anunciado da besta descontrolada do apocalipse. Arrisquei. Mas não digo jamais que ninguém me avisou, isso não. Ai que me dá um arrepio de medo.
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, nas frases do dia de uns meses atrás
Vamos combinar que já fazia um bom tempo que eu nem bem lia, quando muito apenas folheava o jornal impresso, me preparando, quem sabe, para o salto libertador final. Afinal de contas, todo mundo sabe que o nosso planeta conectado é movido a notícia, e qualquer breve link gratuito na web já te deixa a par de tudo que acontece no mundo: o mal-estar da atualidade nos persegue, e difícil mesmo é escapar dele, haja meio-do-mato.
E cá entre nós dá mesmo um certo alívio escapar ao quase despercebido viés político morde-assopra típico de um Globo, principalmente nestes trágicos dias de conflito semita. Sim. Palestinos também são semitas, você sabia? E há sutil diferença no uso dos termos, que quase se confundem no ouvido desatento do espectador, mas diferem demais no texto elaborado por qualquer editor: semita ou sionista?, este último aí, sim, se refere a Israel, bem, hum, e em certas colocações, com uma nada disfarçada intenção antissemita, em "chacina sionista", por exemplo. Há outros. O curioso foi eu ter caído muito sem-querer querendo ou, pelo menos, procurando online, numa discussão das boas, quer dizer, das bem cretinas, sobre a validade e/ou necessidade de se ler os jornais hoje em dia — úlcera de imprensa, etc etc —, seria uma mensagem divina? Lula não lê, é o que dizem, ou melhor, é no que o criticam: seria Lula muito à frente ou muito atrás do seu tempo*? Quanto a mim, preciso me cuidar. Pra não despencar saindo de uma fria em outra armadilha pior, uma mais cabotina ainda dieta radical de mídia política, mas ops, peraí: não era nada disso que eu pretendia, eu hein, conviver cotidiana e opcionalmente com os mais raivosos opositores da mais extremada ptaria? Ai, que grosseria: cá entre nós, o que eu quero é distância. Mas, noticiário discutido (ou evitado) à parte, o que eu queria mesmo comentar é a falta diária que faz na rotina da gente o colunista, aquele exilado de segundo caderno pra quem o editor nem liga e que todo santo dia mastiga pra gente engolir uma versão comentada da vida, alguns com humor, outros de mau-humor, pois é: uma espécie postiça de pai ou mãe na mídia "iluminando a pista", encharcados de credibilidade e estilo, do alto de sua cadeira cativa: já deu pra entender o meu vício e mais, por que é que eu desejava tanto isso, pra minha carreira de cronista. Vocês sabem: impor respeito e ser amada incondicionalmente como mãe de alguém. Melhor deixar pra lá.
* pra mim é somente normal que um chefe de estado recorra a profissionais do clipping, a.k.a. assessores de notícias, embora em outras bobagens declaradas eu também lastime a insistente ignorância pública do nosso carismático presidente
"Nesse jogo, violência não gera necessariamente mais violência; às vezes a evita." David Brooks, para o NY Times
Caro Milton, Você não me conhece, mas sou sua leitora e também escritora. Te escrevo depois de ver seu nome citado no blog Biscoito Fino, recentemente transformado em central antissemita de mentiras, um choque para a mente intelectual brasileira, é o que eu penso, e que sequer admite comentários porque as verdades — manipuladas e manipuladoras — que propaga não estão em discussão.
Ora, é este o comportamento típico de fascistas, não importa a que "lado" estejam associados, e eu não gostaria de ver seu nome, tão laureado e apreciado como um dos maiores da literatura brasileira contemporânea, associado a este tipo reducionista de atitude. Sei de sua ascendência árabe, tão valorizada e presente em sua obra como a judaica na minha. Há uma situação de guerra, e todas as guerras são tristes. Sofro como qualquer um pelas perdas humanas, mas acredito que acima das paixões é necessário um poder de análise, de alguma perspectiva histórica, e por isso aprofundei minha pesquisa ao ponto de explorar os relatórios ingleses originais sobre a partilha de 1948. Faz tempo que não ouso ir tão longe na história em busca de alguma verdade. A partilha de 1948, assim como a criação artificial do Iraque, foi a resposta política a uma realidade de então e, em certa medida, ambas se revelaram desastrosas. O que podemos fazer a partir disso? É claro que no caso de Israel, é necessário um difícil e doloroso consenso que, para mim, passa pelo projeto de dois estados. Israel, a meu ver, um país erguido do nada, por cidadãos humilhados e quase reduzidos a nada, é um milagre de regeneração humana, embora eu lamente sempre o estado constante de beligerância a que se viu obrigado, e por isso não moro lá. Acredite, não é nossa natureza, sim, digo "nossa" porque embora eu não more, nasci lá, e fui educada com amor a um país que significa segurança e dignidade para o povo judeu, um povo sofrido, exilado e frequentemente perseguido. O que tenho me perguntado nestes últimos (e trágicos) dias é como o incrível povo árabe, antes ainda dos judeus criadores das bases da cultura, arte e filosofia ocidentais (seria o termo "ocidentais" aqui um contrassenso?) resultou numa realidade de atraso, exploração da miséria popular por políticas criminosas, uma opção pelo fundamentalismo violento e uma estratégia de incentivar a ignorância do povo e práticas religiosas obscurantistas. Não é este o verdadeiro Islã e, felizmente, tenho visto algumas vozes locais se rebelarem contra este estado de coisas. Por que sequer se pensaria em adotar literalmente a lei do Talião no século 21 — mãos cortadas, olhos arrancados e crucificação — como o Hamas fez há pouco, num mundo conectado pela alta tecnologia da informação e sedento de diplomacia? Como acreditar num paraíso povoado de virgens como prêmio supremo para o assassinato de inocentes? Me desculpe se me excedo, o que você, mais sábio, evita em seu artigo. Assim como a pobreza de Gaza que você menciona poderia ser evitada num processo de paz e cooperação econômica com Israel, que, tenho certeza, se abriria para isso. Atirar Gaza ao mar? Creio que este argumento está invertido, sim, meu amigo, são os vizinhos belicosos que desde sempre afirmam desejar fazê-lo. Não é um bom momento para nos conhecermos, mas sim, para medirmos cada palavra publicada, que eventualmente poderá ter a força de impor ao leitor uma imagem de nós mesmos que não procede, e poderá ser cobrada. Gaza, infelizmente, em suas últimas eleições livres, escolheu ser governada por criminosos confessos e não, não há "preço" a ser pago por isso, mas queira Deus — ou melhor, queiram os homens de alguma vontade porque não acredito em Deus, embora, vício de linguagem, o cite — que se encontre um meio de pôr fim a tanto sacrifício, sim, de ambos os lados. Embora a maioria, hoje em dia, influenciada pela propaganda política e por um antissemitismo latente nunca realmente contestado (ou ao menos considerado como a doença social, a vergonha racista que realmente é), tenda a pensar que, por ser mais rico e ter mais poder, Israel não sofre. Sofre sim. E cada arma poderosa que possui, cada deserto enverdecido que aquele país exibe, pode ter certeza, foi fruto de um trabalho insano, em meio a insana adversidade e, sim, por que não dizer, de um vasto e irrestrito apoio de judeus ao redor do mundo. Sendo o mundo árabe hoje em dia tão poderoso, a ponto de controlar a economia mundial com suas decisões comerciais como se controla uma marionete, por que não apoia os irmãos com dinheiro, educação, vasta informação, melhoria de qualidade de vida? Que lucro há em semear em seu próprio meio tanta violência e ódio? Aparentemente o resultado de tantos anos de rejeição, negando liberdade de opção, progresso e evolução social a seus próprios cidadãos é o que está aí, cobrando seu alto preço em vidas. Obrigada. Shalom. Salam. Noga Lubicz Sklar
"A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico." Oswald de Andrade
Mas que Biscoito Fino é esse? Me amassa. Nossa. Tremendo. Pois fui ao Biscoito Fino em busca de explicação para o meu sumário defenestramento pelo meu ex-faceamigo Idelber Avelar e lá, ai, lamento, encontrei bem mais do que fui procurar: explícito ali, nem ao menos camuflado (por mero amor ao pensamento civilizado), vestido de um magnífico e como se viu enganoso e caudaloso currículo, um brilho acadêmico de responsa e um mais atraente ainda amor auspicioso pelo Ulisses de Joyce — esse aí, confesso, o propulsor da minha inocente proposta de amizade — um vergonhoso, anacrônico, violentíssimo antissemitismo, uma das piores formas clássicas de racismo. "Chacina sionista"? Fujam. Pobre Oswald de Andrade, espúria homenagem, ou será que... o movimento modernista era também fascista? Duvido.
Se conseguir um novo amor, com toda a excitação que uma nova paixão estabelece — ultrapassada a quase impossível barreira física do sexo explícito, o contato tão temido com um corpo desconhecido e seus cheiros assustadores, frequentemente rejeitados —, já é complicado na nossa idade... imaginem então uma boa amizade.
À primeira vista — ou, num mundo altamente conectado, à primeira e automática adicionada no site — pode até parecer que é bem tranquilo. Mas uma aproximação verdadeira, daquelas gostosas onde a gente se abre, se entrega, se encontra, discute qualquer assunto, sem medo nem risco de uma grande perda afetiva, aí, meus "queridos", é bem outra coisa. Eu que o diga. Não sei bem por quê — já que na verdade acredito ser ótima amiga —, cultivar relações para mim jamais foi algo assim, que acontece na vida. Me abrir nunca nem foi problema, cresço na trama, transpareço, me exibo com gosto e não passo recibo, mas fazer-me entender é que é um drama. Antes que a questão se esclareça, é líquido e certo que eu perca a paciência, mas, como quase todo mundo — e cada vez mais neste mundo de aparência — careço de bons amigos (e, claro, de bons, preciosos "contatos"), então vamos lá. E se o aprimoramento exclusivo a dois com o marido estrangeiro, por um lado, alimenta a urgência de convívio, por outro limita a vasta experiência com a "verdadeira" vida que, como sempre, vocês já sabem: se desenrola lá fora. Ou dentro de uma tribo que sempre te deixa de fora. O problema é antigo. Mamãe, coitada, fazia o que podia: me lembro da cena constrangida, ela me chamando para um encontro no clube e eu, bem calada, escondida no armário, tentando escapar ao aterrorizante perigo do(s) outro(s). Ui. Alívio temporário . Pois é. Imaginem agora o prazer pressentido, aliado à falta total de compromisso, com a facilidade assim, meio robótica, para encontrar amigos em sites gratuitos de relacionamento, o incrível Facebook, por exemplo. Respondi positiva a um convite animador desses e logo depois, aceitando as sugestões de não sei que conselheiro social embutido, fui com uma sede de anos, áridos anos de um prático isolamento jamais vencido, ao pote enriquecido de nomes bem conhecidos, todos te aceitam de cara: ô delícia. Bem. Mais ou menos isso. Até que acontece, é claro, a primeira, a mais dolorida (por ser ainda meio desconhecida) e muito mal-sucedida exibição de uma intolerante, hum, intrigante falta de interesse por escutar o ponto de vista alheio. Em toda uma vida de busca frustrada por irmãos de fé adquiridos, defenestrei sem dó, e sem dó fui defenestrada outras vezes, pelo mesmo e nada prosaico motivo: minha jamais negada origem mosaica, que embora eu nem sempre professe, esclarece, é claro, uma fidelidade ancestral implícita. Um traço cultural que eu aceito, aprecio, mas do jeito que posso e consigo, sempre abro ao debate, à pesquisa, à dúvida, à revisão constante do familiar compromisso. Fé cega, eu hein? Nunca foi comigo. Por isso não me espantei nem um pouco quando anos depois de ter quase perdido um grande amigo (este, como eu, de visceral ascendência semita, um brimo), na época do ataque ao Líbano, perco outro, nem tão íntimo, nem tão envolvido — uma recente aquisição interessante de Facebook, nada mais, e, nem por isso, sentido como tão dispensável quanto deveria —, por conta da guerra atual contra o Hamas, desprezíveis e retrógrados terroristas, o povo palestino que me desculpe. Não defendo as posições de Israel como nenhuma fúria cega, nunca defendi, e nenhuma intolerância imposta por puro apego à famiglia, vamos combinar. Mas que alguém que nem tem o vínculo, nem o acesso à informação interna, nem a certidão de nascimento, nem a profundidade de uma perspectiva histórica de toda uma vida, nem a sensação insubstituível da íntima convivência local, nem o sangue, nem a herança genética, nem o envolvimento muito pessoal — por algumas vezes apaixonado mas, na maioria delas, nada disso —, com uma crise humana complexa, ancestral e sensível, alguém movido a contatos passageiros com comunidades fajutas, temporariamente aglutinadas, alimentadas por familiaridades forjadas e que têm como liga conveniências políticas de propaganda, tão mutáveis quanto descartáveis, amizade de fachada, isso sim, que não resiste ao mínimo argumento em contrário, nem se expõe a um sincero movimento de simples porém transparente aproximação, ufa, se sinta dono da única verdade, isso eu não admito: pelo tamanho da frase já deu pra entender que por mais que eu deseje, por mais que eu me meta, por mais que eu aceite me relacionar com uma controlada veracidade e eletrônica voracidade de Facebook, me perdoem a pressa, não fui feita pra isso. Corre nas minhas veias caretas o sangue vermelho do sério compromisso. E se não for pra ser tudo, pra tudo e com tudo que vier ao comício, me omito. Me desligo. Deixo correr solto o rol breve de amigos com seu estudado, encomendado e muito contemporâneo não-mexa-comigo. Se quiser me seguir, me siga, mas não se envolva de maneira alguma com esta perigosa "amiga": a intimidade é um mal de crônica a que em lista pública eu não me submeto (e não, esta não sou eu: é apenas a regra aparente, o preço nunca pago, e raramente oferecido, para a conquista de verdadeiros amigos). Conexão de ficcção (com um cê de você a mais, nem ligo)? Lamento. Não dá pra ser assim contigo.
Está circulando pela internet, e publicada no site do meu mais recente facefriend Idelber Avelar — um intelectual, um joyciano acima de tudo o que quer dizer, imagino, um sensível militante incondicional da paz —, uma carta aberta do israelense Uri Avnery a Barack Obama. Leio a carta por alto e mesmo assim ela incomoda: soa como aquelas correntes frankensteinianas que circulam pela web, como esta que recebi hoje por email, um "depoimento de Victor Hugo adaptado por Vinícius de Moraes", pequenas doses de sensatez amarradas por clichês, grandes absurdos.
Não posso negar que em determinadas circunstâncias penosas, quase convencida pela impositiva propaganda, chego a desejar que Israel não existisse, ou conforme outros históricos desatinos sugeridos à época do nascimento do sionismo, tivesse se instalado em local menos explosivo, Uganda, por exemplo. Mas bem, hum. Quem sou eu para afirmar isso? Embora tenha nascido em Israel, morei neste oásis de paz que é o Brasil desde os dois anos de idade. Não passei por guerras. Não fui torturada (e isso, vale afirmar, para uma brasileira da minha geração já denota um certo grau de covardia), nunca passei fome (talvez vocês não saibam, mas o trauma da fome está tão entranhado no povo judeu que, estando em Israel, comer o tempo todo é de lei, reação automática à era extinta do pó-de-ovo). Não perdi para a mente insana de um fantasista doente 90 por cento da minha família, a não ser sob aquele aspecto que abriga, num mesmo guarda-chuva considerado lar, um antigo grupo genético. No entanto, com todas as minhas falhas pessoais, o judaismo em mim se destaca pelo desejo absoluto de calma, de paz, de liberdade para todos e, principalmente, para o tranquilo exercício do pensamento. Não, meus amigos. O caráter judeu não se caracteriza, como quase se provou recentemente, pelo apego ao poder e ao dinheiro ou talento exercido para a máxima exploração destes, traço que se estabeleceu somente como estratégia de um povo do livro que se viu forçado a viver errante, segregado, quase sempre estrangeiro. E ponha-se na lista de obrigações para a sobrevivência esta mais recente ainda e, aparentemente, por vezes abusiva: uma também apenas aparente tendência à beligerância. Nada disso é natural para nós, um povo sim, insistente, como prova a existência de um país tão fértil erguido sobre o que ainda há pouco era pleno deserto*, entendam como quiserem: é real, é metafórico, é político e é poético. Mas, ah. Digressiono. Era da carta aberta que eu deveria falar. Até posso concordar com a retirada dos assentamentos, invasões brancas de território que ao contrário do que tenho lido, não têm o apoio do governo e têm sido, sistematicamente, combatidas. Mas cá entre nós, poderia um cidadão consciente de Israel afirmar nestes termos da carta o direito ao retorno irrestrito dos palestinos como condição para a paz? Vocês, que os divulgam, sabem do que eles estão falando? Um grupo reduzido de habitantes que se retirou voluntariamente e que, nestes sessenta anos (não tendo sido absorvidos por seus vizinhos e irmãos, e por eles mantidos segregados), cresceu extraordinariamente em população, ou melhor, teve apoio de nações irmãs para usar a demografia como estratégia política, mas nenhum para aprimorar a qualidade de vida? Vou lhes dizer o que isso significa: uma maneira eficaz disfarçada, nos termos politicamente aceitáveis e estrategicamente pensados de forma a convencer os que advogam justiça, de empurrar Israel para o mar. Algo assim como devolver o Brasil inteirinho aos índios, não somente a Raposa do Sol, e deportar-nos a todos para nossos países de origem, mas o que é que estou dizendo? Nativos? Como é que se chamava mesmo aquela tribo, de escravos egressos do Egito, que se estabeleceu na Terra de Canaã há mais de cinco mil anos? Quanto aos que acreditam que as vítimas em Gaza, pobres e exploradas, contam apenas com paus e pedras, foguetes de brincadeira, armas caseiras e quase inócuas, sugiro que analisem com cuidado as alianças políticas e seus verdadeiros interesses nem tão ocultos: Irã, Síria, Hezbollah entre eles. Armas caseiras? Ou... (melhor nem pensar). Agora. Quanto a Barack Obama, um futuro líder político de um mundo permanentemente em crise: tem quem ache que mesmo antes da posse ele já tem seus arrepios, pensa em fugir, hesita em assumir. Eu não. Tenho esperanças de alguma mudança, alguma nova ideia salvadora que nos redima, me entendam bem, uma ideia realmente nova, não a mesma e ineficaz ladainha de anos e anos de manipulação política. O tempo é de renovar. Prefiro aguardar.
*trecho do relatório original da Peel Commission, encarregada em 1937 de estudar as propostas para a partilha original da Palestina: "A carência de terra se deve menos à compra das mesmas por judeus do que ao aumento da população árabe. O argumento dos árabes de que os judeus receberam um percentual maior de terras férteis não procede. Grande parte da terra, hoje ocupadas por laranjais, era constituída originalmente de dunas de areia ou pântanos, e nunca havia sido cultivada por ocasião da compra." Para ler o relatório em versão integral, no inglês original, clique aqui.
Sim. São mais de duzentos. Entender essa onda imensa de simpatia mundial, refrescando a moral longamente combalida do povo palestino, eu bem que entendo. São mulheres e crianças mortas, civis indefesos, inocentes inúteis sem escolha alguma, transformados à revelia em alvo de canhão sem que a isso aspirassem, sim, mas por quem? Por que tantos civis abatidos numa ação militar? Insolência? Sim. Vale perguntar. E no entanto, acreditem, a resposta não virá. A foto publicada intervém. Mostra a mão do desdém: vidas sem valor, mas, para quem?
Nem quero mais mencionar retrospectiva nenhuma, voltar atrás nesse antigo conflito sofrido, tão bem demarcadas as metas e o objetivo da dor a tão longo prazo, que nem mesmo a tão longa ocupação as dilui no tempo, mas... e se fôssemos mais longe ainda? Que premissas básicas teriam sido esquecidas? Quem estaria ocupando quem? Tudo bem. Existe sim, um direito indiscutível de ambos os lados, e trazendo à arena a pouco duradoura e relativa calma — já que paz na(quela) terra não passa de utopia —, quem foi que a rompeu desta vez? É incrível perceber o quanto me controlo (e sob o culto impactante da mídia até, talvez, me culpe), não comento, me calo, covarde. Resisto ao desejo de nem publicar o texto que ainda por cima deploro: piegas. Não saio às ruas levantando bandeira como os do time oposto, mas se às ruas saísse, seria pelo azul, pelo branco: vi a luz deste mundo entre os que germinaram o sonho sionista, ou melhor, semearam seu sonho sobre a farta colheita do pesadelo nazista, não faria nada mais que o previsto, somente as honras da minha própria história, nada demais, tudo bem, é tarde. Tarde demais pra voltar no tempo, mas eu, que de perdas guerreiras entendo muito pouco, se evito assumir meu legado mereço o desprezo: aceito por omissão que o lado errado é o meu. Não é o caso de comparar nossos mortos, já que morre menos gente se no país há mais recursos, se a informação plena segue o seu curso e se o progresso sim, faculta a autoproteção. O que tendo a afirmar, sem fugir ao clichê, é que em campo de batalha não existe vitória, só tristeza. Pobreza. Penumbra. Pobre povo castrado, vítima do abuso de seus próprios eleitos, basta de exploração política. Sim. Convenhamos. A grama do seu vizinho é muito, mas muito mais verde que a sua, o que resulta em dois caminhos: cultivar a inveja, ou a técnica correta de cultivo. Mais vale uma paz conquistada, negociada no seu portão, do que a bala sempre voando, heróica e mortal ilusão. Ou não? Os que me julgam errada, vendida, enganada, justiceira perdida na contramão, me escutem quando o sangue ferve, e a língua já ressecada pela auto-repressão enfim se destrava. Baixem as armas. Abram as portas. Aceite-se a paz por decreto, se não se encontrar outro jeito. Me iludo? Com certeza. Mas quanto mais sangue se derrama, mais sangue segue derramado e não é deste apoio vago, manipulado por mentes escusas, que virá finalmente a justiça, e que justiça seria essa? Israel empurrada ao mar? Sei que ecoam em mim tantas perdas humanas, mas por que hesitaria ao defender meu lado, isso não entendo: é direito de berço. Com todo seu poder conquistado, seu saber adquirido, seus amplamente criticados aliados de praxe, o Estado de Israel, vítima pública de sua própria força, tem pleno direito à defesa de seus direitos. Fomos atacados.
Não vou cair nessa de falar de Natal como fez o Jabor em sua crônica de hoje porque sendo judia nunca tive um, ah, tá bom, confesso: só mesmo um pouco de inveja do Natal cristão alheio, aliás, nem acho recomendável, por esses dias que correm, confessar por aí a torto e a direito que sou judia — ai, se eu pelo menos me chamasse da Silva —, vamos combinar que (pelo menos) um pouquinho de vergonha da raça cai bem no momento, Deus me poupe o público vexame.
Depois do escândalo arrebentado desse tal de Madoff — que rima com Adolf e argh, tesconjuro, rouba de irmãos, e pior, de instituições judaicas de caridade, pode? — o melhor que eu faço é passar por discreta, dar um ano debaixo do pano. Roubar de irmão é dose, pior mesmo só dos flagelados de Santa Catarina. Nem vou rir como aquele outro — muitos outros, aliás: quase todo mundo — das sapatadas cadenciadas em Bush, francamente, outra vergonha internacional, coisa de moleque alterado, mesmo, como disse a outra: arma de jornalista é o palavreado, não o calçado. E por falar nisso, coitadinho do desabrigado Obama, hein? Fez a fama e agora não encontra a cama: barrado em seu próprio show de bola, ainda bem que é por pouco tempo, pouquíssimo (como mostra o contador do Noga Bloga). Essa então é só mesmo pra inventar assunto: ele vai se virar muito bem na garagem de alguém, isso eu garanto. E nem vou — apesar de confessar que achei o tema bacana — arremedar o criativo estilo do nosso J.P., por dois simples motivos: como não escrevo em jornal impresso não me limitei por nada, e menos ainda, por mais que eu me autocensure, publiquei em 2008 aqui no blog as besteiras todinhas que escrevi, algumas até no Globo, imaginem. Imaginaram? Online, claro, não custa esclarecer. Além do mais, não pretendo cair nessa de retrospectiva, embora neste ano que ainda não terminou vamos combinar que eu aprontei demais, virei minha vida de pernas pro ar, mas ops, peraí, aí já seriam três e eu nem sou tão íntima assim de J.P. como o apelido empregado pretende: cá entre nós, jamais nos encontramos, e o que nos une, além da profissão de fé, é a doce amizade com o editor Paulo Pires (que daqui do meu lado, pra dizer a verdade, ficou só na vontade em 2008. Ou melhor: no Facebook, eita fraude social generalizada, sô). No mais, pra um ano já fiz demais, no ano que vem tem mais: e rogo a Deus pra que me falte a rima, mas não o arrimo, ui. Vou sair de férias também, como todo mundo, embora o Alan pense, como aliás todo mundo, que eu nunca saio das férias, mas ops, cá entre nós, escrever todo dia, embora nem pareça, é um trabalhão danado: dá um prazer enorme mas esgota qualquer um como todo prazer enorme que se preze (aliás, de novo, cumpre esclarecer: quando eu digo "sair de férias" quero dizer, na verdade, dar um tempo na prática de exercícios ou, pelo menos, na prática obrigatória de exercícios, ah, bom: deixem a crônica diária fora disso) e no mais — uai, gente, mas eu já disse isso, põe o repeteco, o uso abusivo de advérbios e o apelo a clichês nos meus usuais pecadilhos de cronista, que aliás, não devendo nada a ninguém, pode qualquer coisa que estiver a fim — deixo tudo o mais pra semana que vem. Vem coisa nova aí (descontada a cacofonia, ou melhor, a cacomania), o quê?, na verdade não sei, mas não me peçam pra esperar até lá. Em 2009, vamos combinar, darei um jeito de mudar alguma coisa: nem que seja somente o endereço da casa ou, pelo menos, esta maldita profissão. Pra nem tocar em religião. E pra quem se deixa ficar pra trás: tchau mesmo. Vejo vocês muito em breve. Quem sabe amanhã, mesmo, porque o vício da escrita, vocês sabem: não larga nem sai de cima. E como o amor, nunca tira férias.
"Our destiny is not written for us, but by us." Barack Obama, U.S., 2008
Visto aqui do alto, parece mesmo que não tenho mais nada a ver com isso, mas se tem uma coisa que eu realmente lamento, nessa minha mudança recente de domicílio, é que não votarei nas eleições deste domingo.
E que é mera coincidência eu já sei, mas achei no mínimo interessante o próximo dia 5 cair assim, bem no meio da clássica temporada judaica de reflexão anual, entre o Ano Novo e o Dia do Perdão — justamente quando o eu se pergunta, ei, Deus, você aí, o que realmente quer de mim? —, o que em última instância parece ser válido só mesmo pra quem é judeu, e ainda por cima acredita em Deus (e eu acredito, neste hiato beato da crônica, pelo menos: num Deus que vem de mim e é sempre por mim, embora nem sempre esteja aí para mim), ou pelo menos na herança cultural ancestral à nossa disposição, a gente querendo ou não. Mas cá entre nós, refletir nunca é demais: se tem uma coisa que eu curto, fora de qualquer religião, é o respeito a estes 10 dias de meditação. O clima ajuda. Chegou finalmente à Serra a tal estação das chuvas e o mundo lá fora está cai-não-cai. Pra que lado a balança vai? E mesmo correndo o sério risco da pregação, decidi abusar: nem sempre a palavra correta é propriedade privada daquele que alega ter franca e irrestrita intimidade com Deus, olha aí o perigo, não? Ouvir a "palavra de Deus" sem parar pra escutar, se lembrar de que é inerente a ela a possibilidade do símbolo, um reflexo claro e imediato do pensamento ativo, da clara voz interior, no princípio, afinal, vinha ou não vinha do verbo a saída do caos? Tenho lido muita coisa legal sobre o temor financeiro atual, o que me leva a crer, além de qualquer crendice, que no fundo no fundo os chineses têm toda razão, e não estou falando do leite adulterado, claro, nem dos brinquedos envenenados, ou da pirataria largamente disseminada, e nem da pujança urbana indiscriminada que planta em Xangai ou Beijing mais de um prédio por dia, nem do crescimento atropelado, nem do crédito exagerado, olha aí mais um perigo (ou seria pecado?), mas da concepção tradicional de oportunidade embutida em qualquer crise: ouço falar de uma restauração de valores, de um cair em si, de uma nova consciência de si e de uma decisão concreta — embora meio forçada, tudo bem — de escolher para si uma vida mais simples, certezas palpáveis além de um consumo obviamente destrutivo, coisas do tipo aqui se empresta e aqui mesmo se paga — uma lei tão antiga que acabou meio esquecida, mas não deu muito certo, né não? E vamos combinar: nem é que eu acredite no efeito borboleta — pelo menos não assim, digamos, ao pé da letra —, mas prefiro endossar pelo sim pelo não aquela velha idéia de que tudo começa em alguém, ou algum lugar. E em seguida engolir sem mastigar o mantra mais propagado, em ritmo de emergência, pelo aparente redentor da hora, o nosso abençoado Obama: não há destino escrito para nós, quem o escreve somos nós, mais ou menos isso. Um grande recado, e não só para os americanos, claro, salvo infames trocadilhos em contrário. Pois por essas e outras, no próximo domingo, leitor eleitor, não esmoreça: acrescente sua linha na velha ladainha do destino (e cá entre nós que ninguém nos ouça, faça o que eu digo, etc etc, pois se eu pudesse era o que eu faria: vota no Gabeira, vai).
Tem gente que prefere ver o circo pegar fogo logo de uma vez. O Alan, por exemplo. Um ex-hippie libertário, imaginem, poeta apaixonado, hoje em dia um conservador arretado que ainda por cima detesta Barack Obama, nosso mais que charmoso me-engana-que-eu-gosto.
É, gente: rezem por este casamento e, mais ainda, pra que eu esteja certa e ele errado. O mundo que ele prevê pode até ser mais realista, intelectual de elite, mais bem informado, resultado esperado das invectivas beligerantes da mídia, mas vamos combinar que não tem graça nenhuma. Irã atacado? Petróleo disparado? Inimigo massacrado? Discurso inflamado, convincente, mas se Deus quiser, em breve ultrapassado. Ou nos explodiremos todos, que a história não anda pra brincadeira. É que nem festa junina, na favela ali da esquina: tem brilho de fogo de artifício; tem som de fogo de artifício; e, considerando a data, tem tudo pra ser fogo de artifício. Mas é tiroteio mesmo. É claro que trilhar um caminho novo é um grande risco a mais, mas eu, vocês sabem, sou da paz, mesmo limitada à simples idéia de paz, que de simples não tem nada: um conceito explosivo e até hoje bem pouco aproveitado. Ingênuo, atacam alguns. Suicida, esperam outros. Enquanto isso, em meio aos gigantes globais de um olho só, um nanico Israel — logo quem, imaginem, governo fracassado e ameaça de bomba bem ali na porta —, vai dando seus passinhos tortos em direção à transformação do mundo, taí: um negócio arriscado, mas que é bom de se ver, é. Em terra de míopes... tudo bem: enquanto a cirurgia não vem, melhor se conformar com os óculos. Agora. Se Deus existe, vamos combinar que ele tem senso de humor. Quem diria. Jovens militantes nos Estados Unidos vêm acrescentando ao nome de batismo a alcunha "Hussein", nome que ainda há pouco se traduzia para o inglês como "diabo". E eu? Como é que eu fico nisso tudo? Não são os husseins desta vida ameaça mortal aos cohens? Seria isso tudo nada mais que a globalização da esperta maldição de Mugabe, um líder negro de maioria mil vezes mais cruel que qualquer minoria racista de branco sanguinário? É, gente. Me confesso confusa. Vai ver que o demônio se cansou do enxofre, adotou um par de elegantes olhos doces, vai saber. Viver anda muito complicado. E mais dura ainda é a decisão de mudar de lado. Se correr o bicho pega, se ficar, etc, etc: melhor amansar o bicho. Em franco estado de dúvida, próprio de uma segunda perdida, na varanda ensolarada do Alto Leblon, vou ficando aqui pelo muro: visto assim, do alto, mais parece o céu no chão (ainda mais se for pela televisão). Mas se depender do Alan, e de muita gente mais, as lindas luzinhas piscando lá embaixo não vão conseguir enganar ninguém: é tudo metralhadora. E esse tal de amor incondicional? Vamos combinar que isso não passa mesmo de um perigo fatal.
E enquanto isso... num país do Oriente Médio, acossado por guerras, ameaça nuclear e involução civil, foi inaugurada a primeira usina de energia solar, com 1600 espelhos e uma torre de 60 metros. Foi anunciado, além disso, o renascimento de Matusalém, não, gente, não é o que vocês estão pensando: trata-se da recuperação de uma espécie de palmeira bíblica, extinta há dois mil anos, cujas sementes fósseis foram encontradas em Massada há mais de 40.
Acabo de ouvir na Fox News, direto de Jerusalém: líder do Hamas apoia Obama. Para mim — judia, partidária de Obama, e convicta em ambos os casos — nada poderia soar pior, mais pronto a confundir. Mas me pergunto cá entre nós, o que isso realmente significa: Obama igualmente apoia as pretensões do Hamas, contrariando uma vida inteira de apoio político americano a Israel? Ou é o Hamas que, por outro lado, caso Obama seja eleito, se dispõe a sentar pra conversar, abrir-se para um acordo? Ou nem uma coisa nem outra: o Hamas declara o que quiser, e nem por isso se pode responsabilizar Obama? Perguntar não ofende.
Tentando se safar do passo em falso, Silvia Pontes — vereadora do DEM (guardem o nome) e organizadora da liberada "Marcha contra as drogas" — declara ter ficado triste com as críticas da OAB à faixa do integralismo, na passeata do último fim de semana. Argumento da vereadora: "nem vi o símbolo e, se visse, não saberia o que é". Pior a emenda, etc, etc.
Pois é. A ignorância assedia e assusta, tell me about it. Pra quem se dedica, ou pretende, em alguma medida, se dedicar ao serviço público, conhecimento é fundamental. Desculpas do tipo "não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe" não colam. E pesam contra. Isso sim é que entristece. Outra coisa que me entristece é a declaração de um jornalista israelense que afirma, em artigo de Renata Malkes no Globo de hoje, que "o israelense mediano já não quer saber de política, apenas de cuidar do dia-a-dia". Se tem uma coisa que sustentou até hoje o Estado de Israel, mais do que qualquer apoio internacional, é a profunda noção de história do povo judeu, coisa que a própria Renata mostra em post no seu blog. E também, é claro, a prática ultrapassada do idealismo, do hábito de pensar grande e bem além das comedidas mezinhas pessoais rotineiras (mezinha com zê, viu?). Pra quem sabe algo da tradição judaica, é difícil deixar de lembrar, nestes sessenta anos de democracia plena completados hoje, uma das boas (entre muitas) sacadas irônicas dela: "onde há dois judeus há três opiniões" (ou partidos políticos, claro). É, gente. Ao contrário da nossa realidade aqui, acostumados a encarar irrelevância ou desvios políticos como coisa normal, corriqueira, o sonho democrático de Israel se assenta justamente nisso: na pluralidade de idéias e no conceito de se saber o que quer e lutar por isso. Ouvir de repente que esse povo tão culto e engajado prefere agora resumir-se a um prosaico dia-a-dia, francamente: é muito triste. Tristeza reforçada pela noção, amplamente divulgada, de que o judeu é humano como qualquer outro e, por isso, dado a corrupção, fraqueza moral, comportamento dúbio e supervalorização do consumo: pena. Teria sido melhor se, ao contrário, a noção de justiça, código de honra e respeito aos ancestrais tivesse contaminado o restante dos mortais. Seria um mundo melhor, mas fazer o quê? Anda esquecida e triste pelos cantos a seduzida e abandonada distinção entre o certo e o errado, o bom e o ruim, o iníquo e o justo. Tudo é relativo, tá certo, mas o que deprime é que ultimamente anda se nivelando muito por baixo. O monstro austríaco Josef Fritzl, por exemplo, acha que não é monstro o suficiente por não ter matado a família toda, imaginem: "ninguém teria descoberto", gulp, e daí? E a consciência dos fatos? Fugiu pra onde? Ah, sim: nivelou-se por baixo, abaixo do mínimo aceitável, pô, fiquei amarga. E imaginem que comecei este post pra me alegrar por ver disseminado cada vez mais, na grande mídia, o estilo Noga Bloga de ser, de conversar com o leitor, de compartilhar: uma corrente do bem, gosto de pensar, discreta e suave que vai vencendo por provar-se eficaz, mas ô, peraí: discreta é o cacete, ah, tudo bem. Esquece. O que importa é ser ouvida, mesmo com o som contido em uns poucos fones de ouvido meio obliterados. A questão da dispersão do bem é tão impositiva, tão urgente nos dias banalizados de hoje, que pouco importa de onde a coisa vem: o que importa é que chegue a algum lugar, de preferência na mente de todos. E com a graça de Deus (quem?), estamos chegando lá. Passo a passo que a coisa pega, porque no fundo no fundo, a gente sabe o que é bom. Falta apenas a oportunidade de encontrar. Se vocês ainda duvidam, já vou logo esclarecendo que este é um post pro-Obama, pro-Gabeira, pro-progresso ético e contra a restante leseira. Tenho dito.
"Qualquer artista está sempre trabalhando, mesmo quando parece não estar." Oliver Sacks
É um domingo normal para alguns, mas para mim não: é a manhã que se segue ao Pessach, de todas a tradição de infância que mais curti, e agora, como tudo o mais, babau. Não comi. Não cantei. Não sorri. Me calei. Antecipei um luto que virá um dia e não posso negar que fiquei triste, com aquela leve sensação de abandono que ensombrece a vida de adulto, mas tudo bem. Vou passando por isso assim, aos pouquinhos, me acostumando: antes que a vida me obrigue a passar por isso.
Via Skype direto da terra Santa a tia me contraria: em Pessach não existe luto. Não: existe a festa; a família; a comilança. E como: acaba sempre em indigestão. Pessach, pra quem não sabe a Páscoa judaica, não é festa de morte, nem de perdão, nem de transfiguração, mas uma celebração única do sentimento de liberdade. Torço pra que o vazio que eu sinto seja o prenúncio de uma nova fase, livre de apegos, de expectativas e, também e ainda bem, de cobranças: uma passagem obrigatória e nada mais que isso. A gente passa e a história fica. E isso também passará. Estou naquele limbo em que as coisas terminam antes que o novo possa começar, se é que vocês me entendem. É um estado de coisas que demanda: paciência, tolerância, esperança. O impulso de ir e nunca mais voltar, esperando no fundo não ter que partir. O desejo de já estar lá sem se animar a atravessar. A obrigação de mudar e uma preguiça enorme de enfrentar, tendendo a deixar tudo como está mas desse jeito não pode ficar. O ato de escrever sem saber sobre o quê. A tentação de esquecer, de deixar passar. E isso também passará. Porque o grau de liberdade, vocês sabem, depende do peso da bagagem. E a minha contém: mágoa; fracasso; carência; vivência; paixão; pulsão; emoção; encontro; exílio; conto; desconto. Picos e vales como a de todo mundo, cabe de tudo no temporário inventário de vida: um mal às vezes necessário, um bem às vezes proprietário, nada possuo e o todo me possui. Como diz a prece à qual tenho apreço mesmo se não a rezo: reconhece a bênção divina e ela te bastará. Por um breve intervalo de tempo, claro, porque como tudo, isso também passará.
Fim de foto, ou melhor, de fato. Acabou-se em um dia a segunda guerra e esse dia foi hoje, dia efe, do fato, da foto, do fim de fato: Olmert e Merkel num mútuo sorriso, num gesto aberto o mútuo vê de vitória. Ivo viu essa uva. E você? Que coisa boa. Que coisa mais melhor de boa. Hum.
Caramba. O cara fez de novo. Se superou de novo embora desta vez, nos Cíclopes, o desafio traga toques sutis de desconfio. Ou de desconforto. A gente vai com tudo pra cima daquela ladainha pomposa, pensando que a liturgia apostólica, pelo menos, é coisa séria: não sabe da missa a metade, pois ao longo da longa lista de santos evocados — São Nunca, São Pedro, São Brás — acaba esbarrando com um Santo Anônimo, um São Pseudonymous e um São Homonymous, pra não esquecer de São Sinonymus, não, isso nunca.
Com a gigantesca convicção vesga de quem tem um olho só, um Joyce muito lúcido dispara em paródia jocosa me lembrando da mania em família de afetar uma erudição que a gente não tem, nunca teve, hum, coisa típica de intelectual de superfície: quase um google, melhor apelar pro popular, não é mesmo? O que Joyce também faz, e o faz como ninguém. Leio o Ulisses com a voracidade com que eu gostaria de ser lida e, no entanto, com a humildade de duvidar que eu pudesse um dia provocar tanto: me surpreendo a cada momento, a cada palavra. Incomodada com a virulência xenofóbica da política ultranacionalista acreditei, sinceramente, que o episódio seria chato. Engano. E a tão cantada riqueza arroubada da Irlanda pelos cruéis súditos da Velha Vic, a Rainha Bêbada, chicoteadores de escravos, onde foi parar? No uísque Black & White? Não, gente. Foi parar no Rio de Janeiro, sim, está no livro, nos Cíclopes, episódio do Ulisses que se fosse hoje, não existiria: depois de mandar muita bala o tal Sinn Feinn entregou o jogo, mas não os pontos, e a falta da disposição armada fez da Irlanda um dos países mais ricos do mundo. Ponto pra eles. Escrevendo em contraponto ao vulgar, num estilo caudaloso à beça, Joyce abusa do economês, do jurisdiquês, do jargão esportivo e da técnica puxassaquista de coluna social — como, por exemplo, ao descrever uma festa onde todas as damas presentes têm nomes estranhos, tais como "senhorita Abeta Conifer Pinheiro do Vale, Lady Silvestre Olmedo, senhora Bárbara do Vidoeiro Amado, senhora Pontal do Freixo, senhora Azevinho Avelaneda, senhorita Dafne Loureiro, senhorita Dorotéia Canabrava, senhora Clyde Arboredo", deu pra entender a dica? É, gente: Joyce era um pacifista, um prévio e imprevisto ecologista, que Beuys que nada. E como se viu, um apologista da ecologia humana, embora faça pouco, às vezes, de heróis nacionais importantes como o famoso Hokopoko Harakiri e daqueles títulos todos — H.R.H., His Royal Highness, Sua Alteza Real; K.G., Knight of the Garter, Cavalheiro da Jarreteira; K.P., Knight of Saint Patrick, Cavalheiro de São Patricio; K.T., Knight of (the Order of the) Thistle, Cavaleiro (da Ordem) do Cardo; P.C., Privy Counselor, Conselheiro Privado; K.C.B., Knight Commander of the Bath, Cavalheiro Comandante (da Ordem) do Banho; M.P., Member of Parliament, Membro do Parlamento; J.P., Justice of Peace, Juiz de Paz; M.B., Medicinae Baccalaureus, Bacharel em Medicina; D.S.O., Distinguished Service Order, Ordem de Serviço Distinguido; S.O.D., Senior Officer of the Day. Oficial Mor do Dia; M.F.H., Master of FoxHounds, Mestre da Caça; M.R.I.A., Member of the Royal Irish Academy, Membro da Academia Real Irlandesa; B.L., Bachelor of Laws, Bacharel em Direito; Mus. Doc., Musicae Doctor, Doutor em Música; P.L.G., President of Life Guards, Presidente dos Serviços de Salvamento; F.T.C.D., Fellow of the Trinity College of Dublin, Membro do Colégio da Trindade de Dublin; F.R.U.T., Fellow of the Royal University of Ireland, Membro da Universidade Real da Irlanda; F.R.C.P.I., Fellow of the Royal College of Practitioners of Ireland, Membro do Colégio Real de Médicos da Irlanda; F.R.C.S.I., Fellow of the Royal College of Surgeons of Ireland, Membro do Colégio Real de Cirurgiões da Irlanda [Nota de A. Houaiss] —, convocados para testemunhar a barbaridade sem nome que assolava o Eire em perpétua luta. James Joyce: um aquariano legítimo e um cidadão precoce da Era de Aquário, mas que escolheu morrer em capricórnio, fazer o quê. Finalmente é neste capítulo, meio assustado e deslocado como vítima de inédita violência anti-semita, que se revela plenamente o varão desta odisséia, o especialista em tudo e herói de dois mundos que não se chama Ulisses mas Bloom, Virag em húngaro, Henry Flower o homem-flor, o injustamente acusado e Jogadofora conterrâneo espiritual de Mendelssohn, Karl Marx e Mercadante e Spinoza (e Einstein, e Greenspan, e Freud, e Lubitsch etc, etc) três vivas para o Rei de Israel, o Salvador. Um filho achacado de pai suicida, órfão de filho, marido traído mas que ao fim do episódio, glorioso e redimido, ascende aos céus na carruagem de fogo do Profeta Elias, ben Bloom Elias, entre hordas de anjos em toda a sua empáfia perdida de mártir semita.
Baratas na Sapucaí - foto:Rafael Andrade/Folha Imagem
Mas já? É, gente, este ano está tudo mais cedo. Em todo o caso, nosso amado (meesmo) Xexéo vai tomando a dianteira ao se candidatar ele mesmo ao seu próprio concurso de Mala do Ano, na categoria hors-concours, claro.
Não assisto ao desfile das escolas de samba, mas Dona Xeroca assiste pra mim, e quando ela adormece de tédio, leio a coluna do Xexéo mesmo, soprando cinza pra avivar fogueira extinta. Ou vocês não acharam que foi pra lá de anacrônica esta lembrança de quarta-feira de cinzas sobre o carro da Viradouro? Caro Xexéo, quanto a Mel Brooks, vamos, logo de cara, combinar: Mel Brooks é judeu, o que lhe dá uma autoridade acima de qualquer suspeita para fazer pouco de si mesmo, como ele mesmo diz: "Sou o único judeu que conseguiu ganhar dinheiro à custa de Hitler". Vingancinha tardia, mas eficaz. Além disso, o filme/peça/filme dele parte da premissa engenhosa de duvidar que uma história absurda como essa, numa ainda por cima tardia e absurda apologia saída das mãos de um nazista tardio, pudesse fazer algum sucesso. Mas fez. Como foi quase sucesso absoluto a ridícula proposta de Hitler pretendendo eliminar um povo inteiro, fazendo dele um bode expiatório para seus próprios males. Ainda bem que sobrou um Mel Brooks para aliviar a tensão do anti-semitismo, que insiste em não querer ir embora. Já quanto ao Paulo Barros eu, que fui a favor da eliminação do carro acima de tudo por seus tétricos e nada carnavalescos detalhes, quase me arrependi da minha opinião quando Dona Xeroca me mostrou, horrorizada, as hiper-realistas aranhas e baratas, especialmente criadas para provocar arrepio na avenida. Um Hitler até que cairia bem nesse contexto, vamos combinar. Só fiquei na dúvida sobre em que categoria, comparado aos outros carros, o dos cadáveres judeus se encaixaria. Quem seria, no caso, o bicho peçonhento a ser eliminado, com um gás mortal mais avançado que o antigo DDT? Hitler? Ou o macerado e empilhado povinho judeu?
Ufa. Finalmente alguém me explica o que significa Bleibtreustrasse, eu já estava desistindo: seja fiel. Bloom não foi, um exilado de Jerusalém, filho de convertido que acabou casado com uma meia-judia que não se enxerga.
E eu? Fui fiel? Sou? Não sei. O que sei é que depois de velha dei pra ficar sensível demais ao anti-semitismo, que até em Joyce me arrepia antes de entender que é bem o contrário. Mas se eu retroceder na memória um pouco além de Bloom, vou parar na mesma fazenda-modelo de Kinneret às margens do lago Tiberíades, ou seria na mesma fazenda-modelo [kibutz Afikim] em Tiberíades, às margens do lago Kinneret? Oy! Kinneret sheli! Ou será que foi sonho? Calma, gente. Foi lá que eu nasci, verdade pura, simples e biográfica.
Pronto. Já morreu o assunto. E se estou tentando me profissionalizar no jornalismo eu deveria ser a primeira a reconhecer isso. Caso resolvido. Chegou. Mandei uma carta ontem pro Globo que não foi publicada. Graças a Deus. Nela eu pintava, com cores um pouco fortes demais e uma linguagem que reconheço, imprópria para humanos que não sofreram, a sensação de um sobrevivente ao ver na avenida os mortos empilhados no carro. Perdi o texto, mas o espanto não perco.
Quando eu era criança, achava essa história de anti-semitismo uma besteira, coisa morta, ultrapassada. Eu era igual a todo mundo. Freqüentava como todo mundo o Colégio Estadual. No cursinho preparatório para o ginásio rezei todo dia ave-maria em latim, até hoje me lembro, ave maria gratia plena dominus tecum, taí: achava bonito. Benedictus fructus tui Iesus. Homem(?) fascinante. De vez em quando gosto de invocar um inch'allah, e pesquisei espiritualidade no xamanismo e nas tradições orientais. Holocausto, eu pensava, está mais que na hora de ser esquecido, que mania: já não se sofreu o suficiente? Pois é, gente. Nunca deixo de me espantar com o recrudescimento do anti-semitismo em cada infeliz e insignificante oportunidade, e isso é ainda mais triste e chocante hoje em dia que a memória do holocausto. Pelo sim pelo não, melhor não esquecer das raízes nunca. É nossa única garantia de dignidade.
Antes que eu percebesse, já estava no fundo do poço. Havia perdido completamente o gozo da leitura. O que era riso fácil virou crise de doutorado, meu travesseiro macio trocado pela cadeira dura, o espaldar ripado machucando as costas sem nenhuma esperança de tesão: como distribuir na cama todos os livros, teses, links, o notebook, o telefone sem fio que preciso consultar a todo momento simplesmente pra engolir o texto? O que era viagem virou voragem e o vôo livre, balcão de repartição pública.
Quando dei por mim, discutia com um acadêmico — mil vezes mais experiente que eu nas engrenagens do ensaio — o sotaque exato do bêbado Bloom antecipando um prazer que deveria vir bem mais adiante: "sheeny nachez" no original, sheine narres, será? Gente. Levei três dias pra entender num grito eufórico e me descolar do exemplo alheio, em bom íidiche: "sheine=belo" "narres=gosto", um belo de um gosto, um prazer inenarrável com o bem-feito alheio — de um filho, por exemplo, bem casado, bem encaminhado na vida — mais que com seu próprio, uma bênção. Tá certo que no caso, e ainda mais se tratando de Joyce, só pode ser irônico, significar bem o oposto disso: ainda não cheguei no contexto, e a literatura judaica está cheia desse tipo de coisa. Mas e o sabor? O sabor da língua? Que belo engôdo, hein? Fico sabendo pelo Alan que "sheeny" é um termo pejorativo para "judeu". Como foi que "sheeny nachez" acabou em "zi né um badrize limbo"? ...não estou criticando... só compartilhando como eu o faria se o fizesse, levando em conta a experiência pessoal: minha lembrança afetiva do sotaque de vovó que Joyce já despertara com "cutlet": um bolinho judeu de carne ensopada. Quanto mais eu escarafuncho, mais chego à conclusão de que é difícil entrar na cabeça de Joyce. Melhor deixar ele entrar na nossa. LGA esclarece: " a coisa tem ramificações, por exemplo, Um judeu! ── exclamou Buck Mulligan, no original: The sheeny! Buck Mulligan cried. Traduz-se (literalmente) por: O lustroso! Buck Mulligan gritou. A tradução de Houaiss explica-se porque 'sheeny' — como também as expressões kike e hymie — é um termo ofensivo aos judeus, e ainda na expressão que se achará mais adiante — Goim nachez: o prazer orgulhoso dos gentios (com escárnio)." Se Joyce escreveu o Ulisses dele com o de Homero ao lado, nada mais justo que eu escreva o meu com o dele do meu lado. E quer saber? Que tudo o mais vá pro inferno, de volta pra intuição, pra intenção gostosa, para a quase inconsciente fruição da arte. Mais uma vez, é a mão geniosa e genial de Joyce que me resgata do limbo. Afinal de contas, muitas têm o seu amado, mas só Dona Zélia en-gatti-lhou na literatura.* Ah, é, te devo essa**.
* no original: "If others have their will Ann hath a way", nessa até o Houaiss capitulou, se conformou com a nota de pé de página pra elucidar o jogo jocoso de palavras: se outras têm seu will (de William Shakespeare, vontade em inglês) Ann tem seu jeito (Ann Hathaway, esposa dele: "a que morreu para a literatura antes mesmo de ter nascido")
** taí um dos acrônimos mais famosos da língua inglesa, vocês sabiam? criado por Joyce, imaginem. A.E.I.O.U: A.E., I Owe You
Não sei se você sabe, pois eu não sabia: a primeira versão do famoso livro "A Noite", impressionante relato de Elie Wiesel sobre o holocausto, foi escrita no Brasil. O livro, um retumbante sucesso reeditado depois que Oprah o recomendou em seu clube do livro, está no Book Review do NYT neste domingo. O Globo informa: o programa que mostra a visita de Oprah a Auschwitz, acompanhada de Elie Wiesel, será exibido nesta terça, 22/01, às 20:00 hs, no GNT. Não perca.
Em 1974 — ou quem sabe em 75, não me lembro mais —, trabalhando como estagiária numa empresa de design que pertencia ao Paulo Éboli (linko o Paulo aqui, mas vocês me entendem: não sei se é o mesmo Éboli, o tempo... vocês sabem: engana), colaborei com um projeto de lata de lixo urbana bem semelhante a este que hoje em dia está materializado em cada esquina do Rio. Dezessete anos depois, desta vez como diretora de arte assistente na antiga Oficina de Marketing de Nádia Rebouças, participei pela madrugada adentro de um brainstorming pra decidir o slogan de uma campanha pra ensinar o povo a usar... as latas de lixo urbanas. Meu palpite: "o lixo na lata".
Na lata, na época, era uma gíria que significava, sei lá, algo como "na bucha", ou, "sem papas na língua" ou coisa que o valha. A sugestão não foi aceita. Era direta demais e eu, afinal de contas, não passava de uma assistente metida e, pior: nem redatora eu era. Ponham mais dezessete anos nisso e estou caminhando esta manhã na orla, quando dou de cara com o novo slogan educativo da Comlurb: o lixo no lixo. Não tenho nada com isso, é claro. Mas vai que, daqui a uns 50 anos, um estudioso da hermética e subvalorizada escritora Noga Lubicz Sklar — autora carioca (ou seria mineira?) que revolucionou a literatura brasileira, na primeira década deste século, com seu ousado romance Hierosgamos, que ninguém leu — se depare com este post nos velhos arquivos já quase deletados do google: terá um "momento hahah!" ou não? Hein? Claro. É só brincadeirinha. Mas com um fundo de... ah. Deixa pra lá. O que eu quero dizer com isso é que há muitos jeitos de se abordar um assunto. Alguns são absurdos, ridículos, sei sei. Principalmente quando desprezam certezas antigas, arraigadas, de tão repisadas já incorporadas ao léxico mental de qualquer um de nós. Mas quem disse que é nossa obrigação engolir pra sempre a mesma lenga-lenga? Hein? Abaixar a cabeça pro que foi dito antes? Tá certo. Já entendi que esse assunto de Ulisses não está dando o menor ibope aqui no blog. Afinal de contas, trata-se do "livro mais genial do século [passado] e que ninguém leu até o fim", como observa em seu ensaio o professor Luiz Gonzaga Alvarenga. Mas, gente. Não tem assunto no momento que me empolgue mais: é um "momento hahah!" por hora, sem susto nenhum. Ninguém leu porque logo de cara a gente ouve falar que é leitura impossível, hermética, incompreensível. Eu entendo. Lendo o ensaio do Alvarenga dá pra perceber melhor ainda que minha empolgação vai já já esbarrar num limite: daqui pra frente a coisa piora consideravelmente. Mas enquanto não rola... divirtam-se com os meus achados, e os absurdos que tenho encontrado na tradução do Houaiss. Qualquer um acharia estranho ler isso: "Ido com o vento. Hostes em Mullaghmast e Tara dos reis." Mas se lesse em inglês: "Gone with the wind. Hosts at Mullaghmast and Tara of the kings." e tivesse uma tradução à altura da ironia de Joyce, poderia ler: "E o vento levou. Anfitriões em Mullaghmast e na Tara dos reis.", e haveria de sorrir como eu sorri, uai, gente, será que vem de Joyce o nome daquele romance que virou filme famoso? E o da preciosa fazenda de Scarlet O'Hara, uai, gente: O'Hara? Que raio de nome irlandês é esse? Claro que isso é tudo besteira, delírio ignorante de minha parte, mas que é divertido, é. Imaginem. Pra ler Joyce é preciso falar grego, italiano, latim... e íidishe, é, gente: tem um meshugah na página 159, acreditem. O pai de Leopold Bloom — é claro: vocês sabem por que a Irlanda é o único país da Europa que nunca perseguiu os judeus? Porque nunca os deixou entrar! Haha, é a piada "anti-semita" de Joyce, que algumas páginas mais tarde apresenta o personagem principal do seu romance: Bloom, um judeu irlandês — lia a Hagadá de trás pra frente (como o antigo clichê de jornal) e não "com o dedo para trás" como quis Houaiss, porque era em hebraico, gente! Joyce não é engraçado. Não se pode ler Joyce sem ter lido Homero antes, nas linhas e entrelinhas e, de preferência, no original em grego. Não se pode ler Joyce, principalmente, sem conhecer a gíria irlandesa da época e piadas infames do gênero "U.P. up" — you pee up, isto é, você mija pra cima: diz o Alan que é uma piada infame que qualquer criança americana conta — e essa, sinceramente, me pegou: só entendi graças ao ensaio do Alvarenga. Não se pode ler Joyce em voz alta pra pegar o sentido das siglas e das rimas brancas. Não se pode ler Joyce com o espírito desarmado, só pra se divertir com as pegadinhas dele. Gente. O que eu não daria para entrar num pub de Dublin e tomar umas e outras com Joyce, dando umas boas risadas com o nosso humor negro mútuo. Talvez depois disso eu não sentisse a vergonha que senti das citações esotéricas no meu romance, afinal de contas, Joyce também cita: Blavatsky, uma velhota cheia de truques. E eu que pensava até hoje ser Shakespeare o grande pai, dono e senhor do meu inconsciente literário! Me enganei: é Joyce. Que claro, cita Shakespeare a torto e a direito como essa que vos fala, vejam: Ele, em Ulisses (sobre um fratricida que "derramou no átrio do ouvido meu"): "E por falar nisso como foi que ele descobriu? Ele morreu dormindo. Ou aquela outra história, animal de duas costas?" Eu, no Hieros: "eu teso, o pau selado na cona cheia até a borda em ritmo harmônico, oscilante, arfante, gemente um coração só... siameses, um único eu: o animal de duas costas. Ainda bem que só estou lendo isso agora, ou meu romance nem teria sido escrito, fala sério: é plágio puro. Mas um plágio inconsciente, juro. E já que Joyce, podem acreditar, acredita em registros akáshicos, quem é que garante que a gente não pode ir lá na ficha dele pra ler, se inspirar, e entender melhor que ninguém o que ele queria dizer? Taí: tá tudo lá, quem quiser é só pegar e fazer bom uso. Divirtam-se, porque eu, estou me divertindo.
"Parece até roteiro do filme "Uma linda mulher": Gabriela Leite, a ex-prostituta que fundou a Daspu, passará o Natal em Veneza." do Gente Boa
Tá certo que isso não é assunto pra véspera de Natal. Paciência. Não fui eu que comecei. Melhor seria comentar as novidades tecnológicas que vêm por aí, um admirável mundo novo em apenas cinco anos, está no INFOetc de hoje: pode conferir. Pra dizer a verdade eu nem pretendia escrever, pois como diz o Joaquim, em ótima crônica sobre Rubem Braga (eu queria ser ele, sô. o Rubem, não o Joaquim), não há mesmo leitores neste dia, todo mundo ocupado com coisa melhor. Mas paciência. Não fui eu que comecei.
Não sei se vocês sabem, mas quando a minha lamentável escalada para a fama começou, há uma semana atrás, fui condenada por meus vizinhos que não queriam, de jeito nenhum, chamar a atenção, vocês sabem, o mercado de imóveis, etc, etc. Fiquei até na dúvida, nossa, gente, será que dei um tiro no pé? Valerá a propriedade mais que a vida? Felizmente, dois dias depois, parece que mudaram de opinião, e iniciaram um movimento de protesto bem mais amplo pra solucionar a violência urbana. Melhor assim. Pensei nisso ao ser pega de surpresa, em meio à chorumela habitual dos especiais de Natal (que eu adoro, gente, não me levem a mal: adoro essa falsa sensação de que tudo dá certo no final, milagres de Natal, etc, etc. refresca. reconforta. e todo mundo precisa disso de vez em quando), por um filme escuro, escuro e obscuro, do israelense Amós Gitai, estão vendo? Eu disse: não fui eu que comecei. Leio mais tarde, no IMDB, que Gitai quis fazer um contraponto convincente a ilusões prejudiciais como "Uma linda mulher", que o Gente Boa citou na coluna de hoje. "Meu objetivo principal com este filme", declarou Gitai, "foi demonstrar que a prostituição não é, de modo algum, uma vida de glamour, champanhe e carros caros, e que imagens do gênero que aparecem em filmes e outras mídias são usadas por criminosos para atrair jovens mulheres ao mercado de escravidão sexual." Uau. Ponto pra ele. Este assunto não é brincadeira, gente. Já escrevi sobre ele. E não foi pouco, mas peraí: o que é que tem a ver com os meus vizinhos, mesmo? Já conto. É que o tal filme — ops, quase deixei de fora o nome: Terra Prometida, em cartaz no Cinemax —, de 2004, mostra o comércio de escravas brancas (estonianas) em Israel, imaginem, falado em hebraico, a língua sagrada da Bíblia. Dá um arrepio quando penso em toda a ideologia por trás daquele país, todo o belo sonho sionista que aprendi a amar desde criança. E agora virou moda mostrar em filmes — com Amos Gitai na crista da onda — somente a banda podre. Me pergunto: isso é mesmo necessário? É um dever político? Ou mais um tiro no pé? No mês passado esteve aqui de visita uma amiga de infância, que agora mora em Israel. Ela adotou uma menina ucraniana — e vendo o filme, não posso deixar de pensar que tremenda sorte esta menina teve — e me contou, em detalhes, a maravilha que é criar uma criança num país que se preocupa com elas, com a educação, com a saúde, com a felicidade. E isso em meio a bombas, ataques terroristas e uma luta cruenta pela mera sobrevivência como estado. Comentou também as facilidades que teve ao precisar de uma cirurgia delicada, e o estado-da-arte da tecnologia por lá. Ah, bom. Resta o consolo de que todo relato é multifacetado, embora a Israel de Gitai seja freqüentemente desse jeito: escura, corrupta, cruel. E apesar da tristeza que sinto vendo isso, só por desmistificar a idéia de que a vida "alegre" é alegre mesmo o filme já vale a pena. Desculpem, queridos, pelo assunto tão anti-natalino, que ainda por cima se passa bem próximo à Belém natal de Jesus Cristo, que tenho certeza, não ia gostar nem um pouco dessa história toda. Mas a coisa, já viu, soou urgente. E insistente. Ah, sim. Já ia me esquecendo. Feliz Natal pra todo mundo. De coração.
Nathan Englander merece o benefício da dúvida, e não só por ser este gato aí da foto. Desculpem. Nunca antes aqui no Noga Bloga publiquei a foto de um autor, mas esta estava lá, dando pinta no artigo do San Francisco Chronicle, pedindo pra ser usada. Não resisti, dá pra entender porquê. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter publicado seu primeiro livro aos 29 anos (nos EUA, em 1999) — esses contos que acabei de ler e que podem ser resumidos numa única constatação: o texto não faz por merecer o excelente título, "Para alívio dos impulsos insuportáveis" —, e ter recebido por ele não sei quantos prêmios, a ponto de ser considerado pela mídia um rock-star da literatura. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter tido seu primeiro romance, publicado este ano, na lista dos 100 melhores livros de 2007 do New York Times. Não é pouca coisa.
Nathan Englander se acredita intenso, brilhante, e além de tudo isso, a reincarnação da literatura iídiche, intensa e brilhante, de Isaac Bashevis Singer e Bernard Malamud. A coisa é tão óbvia que depois de ter comentado com o Alan que o cara pretendia ser o novo BS ou BM dei de cara com o mesmo tipo de comentário na resenha do New York Times. O problema é que este gênero de literatura judaica não faz nenhum sentido nos dias de hoje, já que o típico judeu da Europa Oriental do início do século passado que ele retratava simplesmente não existe mais. A não ser, é claro, na prosa de mestres como... Bashevis Singer e Bernard Malamud (ou no máximo em trechos de Jonathan Safran Foer, uma exceção que confirma a regra). Fica tudo com um gosto de pastiche, ops, de pastrami, de passado requentado, entendem? Como soam (para mim) estes ortodoxos com suas fantasias de judeus da Europa Oriental do início do século passado. Para mim, soam intensamente forçadas as dificuldades deste pessoal para conviver com a modernidade visto que, em última instância, são parte integrante dela e se não o são, é por teimosia, ou medo de perder sua frágil conexão com Deus. Porque cá entre nós, se a conexão fosse forte, vital e profunda, não estaria limitada a hábitos e figurinos que já não fazem nenhum sentido. Mas peraí. Não estou aqui pra criticar o judaismo ortodoxo, gente, não. Não tenho nada com isso, eles que vivam e pratiquem suas crenças como quiserem. O problema é o retrato do judaismo ortodoxo nas páginas de Nathan Englander, ele mesmo, segundo apurei, um egresso de uma dessas famílias. Tal é o poder da literatura. Num parágrafo à parte, gostaria de comentar a tradução surpreendentemente equivocada de Lia Wyler. Acho que ela acreditou que o universo ortodoxo judaico fosse totalmente inventado, uma espécie de Hogwarts cujos termos delirantemente ficcionais demandavam tradução para o português, como por exemplo "chassidas", no lugar do clássico "hassídicos", ou "hassidim". Ou o gênero trocado de "shul" — sinagoga — sempre referido no livro como "a shul" em vez de "o shul". Ou ainda o Natan do conto final, sem o "h" original de Nathan, eliminando assim o efeito claramente autobiográfico do texto. Não sei se foi isso, em parte, que fez os "estupendos contos judaicos" de Englander perderem a força. Acredito que não. Mas uma revisão de quem entende de cultura iídiche os teria com certeza beneficiado. Nem tudo é ruim no livro. Há metáforas boas, idéias bem iteressantes, frases poéticas memoráveis, só que meio perdidas numa estrutura apenas sofrível. Fica a esperança de que Englander, no futuro — contrariando o desejo expresso do NY Times —, desista de "canalizar os mortos, de desaparecer numa tradição impregnada de velhos ritmos, como se fosse traduzida do iídiche." Tomara que ele encontre sua própria voz, e que ela seja intensa e brilhante como ele mesmo aparenta ser.
* o título se refere ao conto mais badalado do livro, em português de Lia Wyler "O gilgul da Avenida Park", isto é, Park Avenue, que fique bem claro. Quanto ao termo "gilgul", entenda quem puder.
Os 40 anos de 1968 serão comemorados com um novo livro de Mestre Zuenir, "1968 - terminou?", que será lançado em edição especial da Editora Planeta, junto com nova edição de "1968 - O ano que não terminou", sob o título "1968 - Terminou ou não terminou?" Bem. Eu diria que sim. Apesar de insistentes insinuações de que a ditadura continua, desta vez protagonizada pelo tráfico de drogas, creio existir no Brasil de hoje uma liberdade intelectual plena. Exemplo disso é a contundente e imperdível crônica de Arnaldo Jabor no Globo de hoje. É, gente. No apagar das luzes do meu hábito cotidiano de ler o jornal impresso, fiz as pazes com o Jabor. O cara anda impecável.
No texto, com um odor inconfundível de trauma longamente-ocultado-e-só-agora-revelado de infância, Jabor conta um episódio de abuso sexual no colégio onde estudava, e aproveita o embalo pra criticar o absurdo da política católica de celibato para os padres (pelo que sei, de origem medieval e baseada em motivos muito pouco nobremente morais e nada sexuais, como a defesa do patrimônio material da Igreja). O relato emociona, e faz a gente esperar ansiosa pelo filme sobre o tema que vai marcar a volta de Jabor às telas. A prática criativa faz um bem danado, em flagrante oposição à prática da política, fala sério, um Jabor renascido é prova cabal disso. Para ele, a infância não terminou. Falta a ela uma conclusão confessional transformada em (ou pela) arte: só a arte cura. E é pela mão terapêutica da arte que a gente percebe outros anos cruéis que estão longe, mas muito longe ainda, de terminar. Como o de 2001, por exemplo, abordado no filme "Reine sobre mim", com Adam Sandler num inesperado papel dramático de "viúvo do 11 de setembro". É muito triste. Mostra os desdobramentos íntimos da maldade desumana que foi aquilo, e retrata com sensibilidade as vítimas que, segundo o diretor, continuam vagando pelas ruas de Nova York, perdidas e ainda presas naquele trágico dia do passado. Há outros (anos), no entanto, que sim, já terminaram. Deixam na boca apenas o travo amargo da impossibilidade: será que o ser humano permitiu mesmo que isso acontecesse? Como o excelente (olha aí: a arte outra vez) "A vida dos outros" — Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006 —, que discute a prática livre da arte sob um regime ditatorial esfacelado de um dia pro outro, junto com o Muro de Berlim. Na Alemanha unificada ninguém se lembra mais disso (ou será que este filme comprova justamente o contrário?), a não ser pelas marcas da crise econômica que veio no rastro da re-união. A divisão do país depois da Segunda Guerra já foi vista por muitos como punição pelos crimes nazistas. E por falar nisso: o holocausto, terminou ou não terminou? No coração de muita gente, ainda não. Deixa o medo triste, coerente e queira Deus, injustificado, de um renitente anti-semitismo: um risco que não sei bem se já terminou ou não.
Em tempos de violência explícita, quando o mundo se divide entre os benefícios da tecnologia e a manutenção absurda de bolsões de selvageria, pensei em publicar aqui no blog um link para vídeos de decapitação em território terrorista. Mas desisti. Francamente. Passei mal ao vê-los e não vejo porque alguém deveria fazê-lo. Não é proibido para menores. É proibido para humanos. E ainda tem gente que acha bacana, inteligente, praticar frases feitas de conteúdo anti-semita e outros racismos equivalentes. Francamente. Para estes, e só para estes, valeria um tratamento de choque: beheading videos no google.
"Defrontamos com a corajosa judia que deixou de jejuar no Yom Kipur, disposta a quebrar regras, que nos seduz com a sua história de amor. Com despudorada narrativa erótica, da pele à cona, ela brinca com palavras de múltiplos sentidos, e nos desperta para o desejo de também construir uma vida de amor." Resenha do Hierosgamos por Henrique Chagas, editor do Portal Cultural Verdes Trigos
Faltam ao meu chiquérrimo salmão grelhado aux herbes as evidentes qualidades do cardápio camponês centenário, criado e consumido nas vésperas do Yom Kipur para sustentar milhões de judeus em todo o mundo pelas 24 horas de jejum seguintes. Pelo menos é o que o Alan diz, e uma excruciante dor de cabeça me leva a concordar. O Alan está lá, bravamente insistente, com sua disciplina superior de macho devoto. Mas eu... desisti. Duas aspirinas e duas xícaras de café depois, banho tomado, infrinjo outra regra sagrada e me sento pra escrever. Nada demais. Afinal de contas, escrever é minha prece, meu diálogo com o sagrado, minha última esperança de redenção.
Tudo bem. Até o rabino publicou artigo no Yom Kipur, embora obviamente o tenha escrito bem antes. Mas publicou no jornal de hoje, é o que conta. Um bom artigo, que eu recomendo, sobre a nossa atual falta de intimidade com valores morais, transcendentes, más allá do materialismo rasteiro. Tem razão o nosso jovem rabino. Os roguelech de Yom Kipur costumavam sair do forno de minha Tia Noêmia direto para o estômago das crianças, às quais, para nossa consternação na época, o jejum não é permitido. Jejuar nos soava assim como um rito de passagem para a idade adulta, que todos tínhamos grande pressa em atingir. E agora, aqui estamos. Tia Noêmia já não, e desde que nos mudamos pro Rio, foi mamãe que assumiu a tarefa de enrolar, a cada Yom Kipur, os famosos roguelech de ameixa*. Para as crianças. Para os adultos renascidos pelo jejum, sim, o Yom Kipur tem tudo a ver com isso: vida, morte, vida, num ciclo anual de renovação que eu já curti, já neguei, e agora recuperei. Pois se no jejum fracassei, o mesmo não se pode dizer dos roguelech que fiz para a família hoje de manhã, aliás, ainda estou fazendo: estão lá, crescendo sobre o forno, os roguelech de ameixa de Tia Noêmia, e enquanto os enrolo me dou conta, de repente, que é a primeira vez que o faço sozinha. O bastão agora é meu. Nos três últimos anos compartilhei a tarefa com mamãe: eu sovo, você enrola. No ano seguinte, foi eu sovo, a acompanhante enrola, mamãe olha, sentada na banqueta da cozinha. Este ano, porque ela já nem me olha mais, é nela que eu penso, na minha cozinha, enquanto os enrolo sozinha, escutando no ouvido da alma as doze badaladas do velho relógio de vovó. Meu irmão, por telefone, pergunta se estão grandes, bem: ainda não, mas estão crescendo... e ficarão. Espero. Perfeitos. Afinal de contas, sou boa padeira. Não é isto que importa? Uma perfeita mãe judia prendada, embora sem filho nenhum?
"O pãozinho do Dia do Perdão é a essência do feminino, redondinho, branquinho, maciinho, enroladinho e no centro uma ameixa bem doce, escondida, de cor escura. Que coisa quentinha, ser mulher.
Roguele do Dia do Perdão (cozinha tradicional judaica)
Ingredientes: 2 tabletes de fermento biológico Fleischman, 2 colheres de sopa de açúcar, ½ copo de água morna, farinha de trigo. Modo de Fazer: misture os ingredientes acima e acrescentando farinha até formar um mingau grosso. Deixe crescer num lugar quente até dobrar de tamanho. (Para fazer um pão fofinho e sequinho, um bom macete é ligar o forno, aproveitando para assar alguma outra coisa, e por a massa num recipiente em cima do fogão quente, tampando com um guardanapo e abafando com um travesseiro. No verão o pão cresce mais rápido, e quanto mais quentinho o local onde ele cresce, mais gostoso e macio fica o pão). Ao mingau já crescido, acrescente: 3 ovos inteiros, 2/3 de um copo com óleo e manteiga misturados, um copo de açúcar, um copo de leite morno e farinha até obter uma massa leve e homogênea. Sove bem a massa até que abra bolhas. Deixe descansar por duas horas no nosso cantinho quentinho. Abra a massa numa espessura de 1 cm e corte em tiras de 10 cm. Recheie com ameixas pretas e passas misturadas com açúcar e canela. Enrole e feche. Passe gema de ovo por cima e jogue sementes de gergelim. Asse no forno quente que já estava ligado mesmo, por 10 minutos, e depois em forno moderado até ficar coradinho. Dá 20 pãezinhos de 280 calorias cada."
Meditando mais longamente sobre o assunto me dou conta de que sim, é um aspecto importante de ser mulher: preservar na família as tradições. E é por isso que pelo menos uma vez por ano deixo de lado a frustração de artista, a dor da vanguarda, e meto mesmo a mão na massa cumprindo o meu destino, desenhado há muitas, muitas gerações. A sensação é boa: um ofício de alma, como os que aprecia, em seu artigo de Yom Kipur, o Rabino Nilton Bonder. Uma herança de amor aos seus que faz a vida valer a pena, não? Shaná Tovah e meu carinho pra todos vocês.
*Na família de meu irmão, os roguelech de ameixa assumiram um segundo significado, não menos importante, e descrevem um ritual freqüente de carinho físico de pai para filhos, coisa a que meu pai não era muito chegado. Apesar de me amar muito — e esta é uma de minhas poucas certezas — me dava um beijo por ano... no Yom Kipur. Taí: um perdão anual que valia mesmo a pena. Segundo cálculo aproximado do Alan esta manhã, foram ao todo 19 desses raros e preciosos beijos.
— ani ohev otach, Noga, te amo. — uau! me subiu um calor! essa declaração em hebraico... nunca falei de amor em hebraico antes... me deixou maluca, chag sameach, motek sheli. meu docinho. — é tua franqueza que eu adoro... tua alma se despe diante de mim, é tão vital... e o hebraico é fundamental, um lugar diante de Deus: sem mentiras ou artifícios, meu eu puro diante de Deus. me vai direto ao âmago.
Hierosgamos - Diário de uma Sedução
Do lusófobo e achincalhado jargão convenientemente apelidado de miguxês — uma ação entre amigos para rebaixar online nosso português, cujo nome me lembra muito uma mistura de pinguço com mixuruca, resultando de qualquer maneira num palavreado minguado — à mania americana de reduzir qualquer coisa a acrônimos — intrigantes conjuntos de iniciais como lol, btw, asap — a gente se acostumou, pra não dizer que se conformou, em testemunhar a metódica destruição do idioma que convencionamos chamar de "linguagem pop". Vai na contramão desta tendência o aspecto mais fascinante do livro de memórias de Amós Oz, "De Amor e de Trevas", que estou lendo agora.
Lamento a limitada proficiência em hebraico que me impede de lê-las no original, porque a tradução, sinceramente, transforma o que deve ser, com certeza, uma orgia etimológica digna dos prêmios que recebeu, num amontoado profuso de palavras e metáforas que atordoa os sentidos, a ponto de prejudicar o entendimento. Nada que consiga estragar o raro prazer de ver nascer uma língua moderna. Sim, ver transformada em idioma corrente — vencendo o desafio de descrever fielmente a complexa realidade contemporânea — uma língua que já foi sagrada, restrita a livros de orações e limitada a um mundo ancestral de poucos milhares de habitantes, na maioria nômades e imigrantes em constante processo de assimilação. Pelas mãos do acadêmico Joseph Klausner, tio de Oz, nasceram conceitos comuns como "lápis", "camisa", "guindaste" e "sensual". Dá pra imaginar? Neste nosso Brasil de hoje em dia, que tão pouco liga pra gramática ou grafia, pra não falar das sutilezas linguísticas e da riqueza, banalizada e esquecida, de vocabulário? O conceito da língua — falada, e depois escrita — como o mais festejado diferencial humano, um instrumento básico de comunicação cultural e mais além, da comunicação com o divino, é bem conhecido dos judeus. Vale conferir, do mito da Torre de Babel às origens da numerologia, passando por fantasiosas teorias de um código secreto inserido na Bíblia e oculto... em palavras e letras. Vendo a coisa por este lado, fica fácil entender a aparentemente absurda antropomorfização dos livros, tão cara a Oz. São volumes que se sentem constrangidos, apertados nas estantes, livros encalorados, suados, perfumados, apaixonados, e não é pra menos. Vinha deles, da herança cultural contida neles, a última esperança de auto-estima e sofisticação de um povo refugiado, desmantelado, deslocado contra sua vontade para a realidade empoeirada e infestada de germes do pequeno país oriental, "asiático demais" para o gosto dos avós de Amós, e em cujas universidades, nos primeiros anos após a Segunda Guerra, se amontoavam e disputavam um custoso lugar ao ofuscante sol do deserto um número impressionante de professores, doutores, literatos, escritores e intelectuais que superava em muito o de alunos e leitores. Deve ser por isso que o menino Amós sonhava ser livro quando crescesse, não escritor, mas livro mesmo: um jeito infalível de garantir o amor e o respeito da comunidade emergente, passagem garantida pra escapar do seu dia-a-dia pobre e ameaçador, num país que lutava cotidianamente pela sobrevivência. Aliás, luta até hoje. Mas já deu mais de um Nobel, e parece estar a caminho de outro.
Em julho de 1976, recém-formada em arquitetura, ganhei de presente uma viagem de três meses para Israel e Europa, com uma possibilidade implícita de encontrar, quem sabe, o rumo de uma vida nova em Israel, numa reedição do abortado sonho pioneiro de meus pais que acabou resultando na minha dupla nacionalidade. Não deu certo.
Meio confusa eu não sabia, na época, conciliar uma forte espiritualidade com meu eu judaico interior, e a insistência de um tio pra que eu ficasse no país, incluíndo um deixe-de-besteira-e-absurdos-que-o-seu-lugar-é-aqui, teve o efeito contrário: saí quase fugida do meu destino semita pra cair no colo macio da minha terrinha adorada, pátria amada Brasil dos despachos de esquina e pais-de-santo milagrosos. Ou pra ser mais honesta: da minha total falta de espírito aventureiro misturada a um conformismo de herança. Pois neste domingo chuvoso de julho de 2007, em que o povo se divide entre a revolta e o orgulho de ser brasileiro, me espanto com a minha própria vergonha em ter optado por essa vidinha boa de beira-de-praia e meia dúzia de questionamentos íntimos desprezíveis ao encarar de frente, numa mesa de restaurante, a minha prima-irmã israelense que não vejo há mais de dez anos, e que insiste em sobreviver num ex-kibutz da zona de guerra na fronteira com o Líbano. O ex-kibutz é por conta da decisão dos moradores de lá em acertar o passo com o século 21 adotando o materialismo, a competição profissional, e a ampla liberdade de consumir. "Visto de fora", a minha prima diz, "o kibutz parece ideal. Mas o que acontece mesmo é uma falta de motivação total de quem vive nele." Sobre a guerra ela se limita a contar que, durante o conflito, as crianças foram retiradas do kibutz e que sim, a coisa esteve feia por lá. Pergunto sobre o casamento dela, um relacionamento estável de 36 anos, e recebo de volta uma reação perplexa: "Casamento? Que raio de pergunta é essa?" Pronto. Já é o bastante pra me jogar no fundo do poço da minha íntima inadequação, sim, eu, uma patricinha fútil vivendo no bem-bom que já derrubou três maridos: perco o meio-ensaiado equilíbrio mundano e a disposição calculadamente relaxada, derrubo o chope no meu black velvet jeans e ainda por cima quebro o copo no chão, coisa que todo mundo sabe, alivia a energia pesada no ambiente e redime a destruição do Grande Templo: mazel tov. Não dá pra ter certeza, mas a grande chance é que isso não passe de um delírio da minha própria cabeça, enquanto a prima israelense simplesmente curte as férias bem merecidas em sua primeira visita ao lado tropical do mundo. E se escrevo sobre isso num domingo de manhã é pra tentar aliviar a minha culpa por algo de que não tenho culpa nenhuma e angariar a simpatia indevida dos leitores que a esta altura, imersos num turbilhão de emoções, se sentem culpados por algo de que não têm culpa nenhuma. A vida é assim mesmo: cada um com o seu pacotinho e a humanidade com seu pacotão. É uma pena que eu já não me sinta tão espiritualista como em 1976, porque se me sentisse, compraria hoje mesmo online o novo lançamento da Sextante — O Despertar de uma Nova Consciência — pra aprender "de forma inspiradora e surpreendente", que "ele nos ajuda a descobrir o nosso verdadeiro eu, a essência humana genuína que nos permitirá construir o novo mundo e viver em harmonia com tudo o que existe". O livro "nos mostra que o salto para essa nova realidade depende de uma mudança interna radical em cada um de nós", e fala sério, até que eu acredito nisso, e se não tivesse optado pela ironia cotidiana — mais um erro fatal —, encontraria no modo de pensar esotérico um bom consolo pras minhas próprias limitações. O resultado de tudo isso é que neste domingo não tenho resultado nenhum pra apresentar, enredada demais nos meus pequenos questionamentos sobre o sentido da vida pra poder iluminar vocês aí, com a vasta sabedoria que costuma freqüentar meus textos, sorry, folks. Coisas da vida. Para uma mulher analisada, egressa da década do Eu com 20 anos de Freud nas costas, não é surpresa nenhuma.
Pra judeus sionistas, não é novidade nenhuma a tendência da mídia em culpar Israel por todos os males. Hoje mesmo, em artigo de Robert Fisk para o Independent - e transcrito no Globo - o vírus está lá:
"...enquanto o mundo observava Israel destroçar esta pequena nação, numa inútil tentativa de destruir o Hezbollah."
Vamos combinar: no atual estado de coisas, o que o Líbano menos precisa é de apoio externo pra destruir "sua pequena nação". Tudo isso é muito triste, mas também, complexo. Se existe um bebê pra ser resgatado na área de conflito, interessa quem está de cada lado da trincheira? Leio as notícias um pouco impaciente, e me pergunto: o que quer esse pessoal? Não consigo entender direito o que está acontecendo, e acredito que se interesse houvesse em saber realmente quem, quando e o quê no velho conflito do Oriente Médio, o mesmo problema afligiria a maioria.
A este respeito vem em nosso socorro meu conterrâneo, o israelense Amós Oz, em artigo transcrito esta semana no Verdes Trigos, bem lá do meu ladinho. Sim, é uma honra. E um ensaio para a coragem de abordá-lo em julho na Flip. Além de escritor, Amós Oz é uma mente lúcida, e fundador do movimento pacifista Paz Agora. Vale a pena lê-lo, e com a mente aberta, entendê-lo: o cara sabe o que diz.
Agora vocês: se espantaram com minha afirmação ai em cima, citando "judeus sionistas"? Uai. E vocês pensaram que era tudo a mesma coisa? Não, gente. Sionista é o judeu que ama Israel, e apesar de eventual divergência política, reconhece nela a pátria amada, o seguro internacional de sobrevivência de um povo. Existem outros. Outros tipos de judeu, digo. Amós Oz e eu estamos entre os primeiros, os que amam e apesar disso, criticam, procuram lucidamente encarar a questão como briga de chifre entre irmãos, onde ninguém pára pra ver que a situação mudou, o tempo passou, e é preciso pagar pra ver: como é que chegamos neste ponto?
É, gente. Tem gente que dá um boi pra evitar uma briga, e uma boiada pra não sair dela. Se apelarmos pra história, dá pra ver que é a hora de convocar um juiz justo, imparcial, sábio e sagrado como os profetas semitas, que árabes e judeus sabem criar em livro como ninguém. Ou no mínimo, um shochet pra matar o boi de acordo com as leis rituais do abate, evitando o sofrimento do animal e oferecendo um churrasco saudável de carne kosher pra todo mundo.
Se eu fosse descrever um mundo perfeito, já ia começar pedindo um Brasil onde Zeca Pagodinho se limitasse a cantar. Mas depois outras idéias de perfeição atropelaram a premissa inicial. Estou ficando careta. Se eu fosse francesa, sim, teria votado em Sarkozy, e mandava Ségò crescer pra aparecer, apesar da solidariedade feminina. Vejo agora que, pelo menos em termos de aparência, uma França perfeita é sim, de Sarkozy: um cara jovem, charmoso, uma mulher e filhos lindos, e mais o beijo-na-boca-em-Paris, caramba, é muita novidade. Me repetindo, sim, que hoje estou com a cabeça alhures, puro charme francês, oba, gente. Tomara que ele volte. Faz muita falta num mundo perfeito, perfeito e perfumado e bem-vestido e regado a champã. Mas aí fui andando pelas páginas do jornal com esta idéia de um mundo perfeito e acabei chegando numa imperfeição enorme, e além de tudo, triste: a decadência urbana de Jerusalém. Segundo reportagem de Renata Malkes no Globo, aumenta a população de árabes e ortodoxos, tornando a vida dos jovens impossível. Vocês sabem que todo judeu, pelo menos uma vez por ano, canta " O ano que vem em Jerusalém"? Verdade, gente. Judeu que se preza sonha com isso o tempo todo, e não vou negar que também já sonhei, porque, sinceramente, não existe cidade como aquela. Quando estive lá pela última vez, há 9 anos, era ainda maravilhosa, o odor do sagrado em cada esquina, a cúpula dourada e as pedras milenares, as oliveiras, a agitação do mercado, lado a lado com os prédios modernos (mas graças a Deus, que em Jerusalém é Ele quem manda, nada dos exageros recordistas em altura, néon e vidro da nova China), a excitação da política, os bares contemporâneos da Rehov King David, ruelas, avenidas, burburinho. Se eu tivesse escolha e não houvesse guerra, violência, terrorismo e outros problemas, era lá que eu queria morar, e até sei muito bem como: num prédio muito, muito antigo, dentro da Cidade Velha, erguido naquelas pedras meio amarelas, janelas estreitas, arcadas, e por dentro... ah, gente. Uma Bauhaus pura, o chão nu com uma ou outra jóia persa combatendo a frieza, um espetacular sofá de linhas simples e couro branco, um Brancusi gigante no chão e uma orquídea única. Juntar a história do corpo à história da alma e viver feliz para sempre, velho e novo misturados numa mélange harmônica e romântica pra caramba. No more. Gente. Jerusalém é a alma do mundo pra todo mundo: judeus, cristãos, muçulmanos, bem, budistas não, mas tudo bem, não se pode ter tudo, e a gente vai deixar barato? Lanço aqui o meu protesto, reproduzindo a poética e ancestral declaração de amor do Alan, muito jerusalemita, no Hierosgamos. Foi quando ele me pegou de jeito. E por falar nisso, podem ir se despedindo, porque a partir da semana que vem essa moleza de ler meu romance de graça acaba. Dentro em breve, no papel, e já delirando: quando eu for convidada no ano que vem pro Amores Impressos*, me mandem, por favor, para Jerusalém.
Depois de um dia de trabalho estava eu muito bem conferindo os comentários do Todoprosa e me divertindo com o que aconteceu por lá ontem à noite, na ausência do titular do espaço, quando fui surpreendida pela notícia:
"Pelo que consta, ele teria “levado uma gravata”, também do policial. Não sei se é verdade. Olha o link aí."
Pensei: só pode ser engano, montagem, maldade. Sei lá. Fechei os olhos e esperei passar.
Mas não passou. De manhã cedo, na porta da frente, a notícia continuava lá, gritante, no alto da primeira página. Cruzes. Ou melhor, oyvavoy. Folheei o jornal, com a devida desatenção de quem está com a cabeça em outro lugar, isto é, no meu novo livro de crônicas (aguardem! aguardem!), mas nada mais conseguiu me distrair: nem a alta da bolsa, nem a queda do dólar e nem, pasmem, a crise anunciada de canalhice do Irã. A notícia continuava lá, gritante. Não adiantava mais fechar os olhos.
Pra me justificar, e amainar a minha vergonha, eu poderia dizer que desde o início a gente desconfiava do cara. Eu tinha quinze anos, e apesar de mineira freqüentava a CIP sempre que podia: meus amigos estavam todos lá, os candidatos a namorado também, mas isso já é assunto pra outro post. O rabino-chefe que nos dava palestras era o honorável Pinkus, com seu sotaque macarrônico alemão - é, gente, a CIP valoriza mesmo um sotaque -: "Querremm que eu parre o non?" Do lado, aquele cabeludo com mais sotaque ainda, americano, com cargo, sei lá, de estagiário de rabino? E isso existe? O tempo passou, o Sobel mudou, mas o cabelo continuou o mesmo: nenhuma diferença. A juventude passou, o rabino Pinkus não sei, deve ter morrido, chato e honorável como sempre viveu.
Mas o Sobel, tsk tsk. Página inteira no Globo atesta o ativismo político dele, sua vocação (e atuação) para a defesa dos direitos humanos, mas eu poderia ser mazinha e dizer: hum. Ele nunca me enganou. Me enganou sim. Me acostumei a ver o rosto meio aparvalhado dele incluindo a comunidade judaica na realidade brasileira. Teve seus momentos bons.
E as gravatas? Quem olhar bem pra foto dele verá que parece perturbado, meio drogado: um Maradona de sinagoga, ó Deus, onde estás, etc etc? Humano. Tristemente humano. Dessa esparrela não vai ter volta por cima. A comunidade judaica brasileira, espiritualmente órfã, já espera um novo líder. Mas que eu senti a maior pena do cara, senti.
E agora? Pode até parecer cruel, mas é apenas humano, gente. Rei morto, todo mundo sabe: rei posto. O Rio tem excelente candidato ao cargo de liderança espiritual judaica no Brasil. Clarice Niskier que o diga.
De uns tempos pra cá cedi à insistência do Alan, preocupado com a condenação genética que paira sobre a minha memória: faço palavras cruzadas diariamente. No Globo, costuma ser meio fácil e tenho tirado de letra (sem trocadilho), mas hoje, empaquei. Fiz tudo rápido e deixei de fora apenas uma palavra daquelas, quase toda preenchida, faltando apenas 3 letrinhas que não vinham de lugar nenhum: atividade essencial para o bem-estar de uma criança. Ih! Não sei. X-R-I-X-C-X-R. Fiquei lá, de caneta na mão, pensa, pensa. É. Não sei mesmo. Não tive infância. Na minha era stress em cima de stress: aula disso, aula daquilo, compromisso de manhã à noite, me preparando para esse avesso de sucesso que sou hoje. Não tive filho, como é que eu vou saber o que é essencial para o bem-estar de uma criança? Nem sonhando. Não sei, gente, desisto. Vou ter que esperar até amanhã pra ver o resultado, 3 letrinhas apenas... Pensei: carícia, não, não dá. Caricar? O quê? Amar não. É curto demais. Nesta manhã de Natal, como em todas as demais, não vou sair pra rua pra exibir os meus... opa! Brinquedos! Não, gente. Não é que eu tenha sido uma criança abandonada não. Apenas não sou cristã, sou judia e nunca ganhei presente de Natal. Não tenho tempo pra brincadeira e já nasci com essa seriedade toda. B-R-I-N-C-A-R. Não foi à tôa que custei tanto a descobrir, já que não pratiquei muito até conhecer o Alan e me soltar no mundo. No gozo. Quem teve uma mãe judia das boas, sabe. Como a Cintia Moscovich, de quem li de um gole só o "Porque sou gorda, mamãe?", lançamento de fim-de-ano da Record. Confesso: um pouco chocada. Tomara que seja mesmo meio-ficção, porque senão... Coitada. Da mãe. Dela. De mim, nem tanto, porque me identifico e por isso sei: o que tem de ficção ali é pouco. Sempre me achei gordinha, mas não tanto. Sempre me achei neurótica, mas nem tanto. E mamãe, bem. Hum. Sempre foi mazinha. Mas nem tanto. Quando escrevi - e publiquei - meu primeiro livro, fiz uma revisão desse tipo entre mamãe e eu, com um medo danado da repercussão. Me senti culpada à bessa, confessando em publico as nossas misérias, mas perto da mãe da Cintia a minha era light, sério. A mãe de bruxa no "Eu, xamã" não chega aos pés da mãe bruxa real/imaginada da Cintia, apesar das muitas coincidências. Não sei se a Cintia perdoou a megera dela mas eu já, a minha. Tadinha. Como o trapo humano que virou, já pagou seus pecados todos - ela que sempre afirmou não ter nenhum - navegando em vida feito alma penada entre a carência afetiva inexplicada e a fantasia do abandono, ninguém merece. Mãezinha. Meu próximo livro, que escreverei ainda não sei quando, vai dedicado a você, querida: uma mulher apenas infeliz que teve tudo, mas perdeu o rumo da alegria. Se pelas páginas da Cintia me purifiquei, aprendendo a te amar, é só porque sou amada agora. Tudo deu certo no final, mamãe. Pode ficar em paz, você já fez por merecer. Custei. Mas te perdoei. Já posso ir lá fora brincar. Já posso crescer, mamãe. E vou. Prometo.
Não sei bem porquê, mas os escritores judeus que tenho lido entraram todos nessa, de purgar na literatura o passado, o desamor, o afeto familiar ressecado. Eu também. Diz o Alan que é por medo, medo de que um passado de perdas contamine a esperança de futuro. Mas agora chega, gente. Entupir as feridas de tanto sal não vai levar a nada mesmo. Freud estava errado, afinal, e ainda por cima comeu a cunhada, vê se pode, cobra criada. Não foi por mal, foi por pulsão sexual e pronto. O jeito dos pais não foi por mal. Foi o que deu pra fazer e pronto. Daqui pra frente é com a gente, e o melhor que a gente faz é levar na brincadeira, mudando pra gozo o estilo dramático dessa história: mais amor e menos mau humor. Melhor lavar a roupa e jogar a água suja fora. Não serve pra beber, e quem experimentou, sabe: pode até matar, por isso escreve aí. Bê. Ene. Á. Matei a charada, encontrei a palavra cruzada. Essencial pro bem-estar de qualquer um é ser capaz de brincar, de rir, de se alegrar. Como resolução de ano novo, cai bem melhor do que dieta radical, Cintia. Feliz 2007 pra você também. E por falar nisso, tanto na sua como na minha, a tendência pra engordar vem mesmo é do papai, do adorado, idolatrado, precocemente ausente, filho único de quatro irmãs que por imposição de mamãe não visitamos nunca. Pelo menos disso mamãe não tem culpa nenhuma.
Transformando a dor em humor: um delírio literário
Limpei do meu armário a memória de gorda e dei tudo que pudesse me servir com dois quilos a mais. Eliminei maldições, coisas que mamãe impôs, lembranças tristes de dependência; roupas de que não gosto e uso porque ganhei e preciso agradar, agradar sempre. Agradar a quem? Comprei passagem para o inferno e embarquei com meus demônios, eu e minha culpa inútil, mas agora rompi mesmo o cerco, não é? Estou a quilômetros, milhas, anos-luz de distância dela, na minha vida e não mais na vida dela mas depois do fórceps, não abri direito os olhos e ainda acho que estou no útero e que os ferros todos não passam de um sonho mau. Meu nariz não acredita que a qualidade do ar mudou e que os cheiros são agora outros. Abro o olho direito um bocadinho, vejo que a luz está mais forte e o Sol, opa, meio quente. Faço o caminho ao contrário e vou nadando pra dentro do útero em vez de sair dele, só mais um pouquinho, pra comprovar a cor dos ferros malditos e provar que não me ameaçam mais. Limpei do meu armário a memória da mulher que não goza, porque não há jamais de aproveitar a boa vida. Mas me enganei, porque ao entrar de volta, voluntariamente, no útero - com objetivos puramente científicos - calculei mal a minha fraqueza e a força deles, dos ferros malditos. Já não quero estar no útero, agora que voltei lá e finalmente voltei de lá, vivendo e vendo as criancinhas com as carinhas sujas, abandonadas pelo leite materno enquanto me entupi de leite e o Mateus me contando que depois de forjado o ser humano maduro, duro como aço, o leite fica corrosivo e a gente precisa se enferrujar um pouco, sim, com uma fina pátina de ferrugem que, dizem, protege da corrosão, mantendo a integridade do corpo que nunca mais vai tomar leite ou buscar o seio da mãe: o seio não está mais lá. A mãe engordou, ficou velha e meio desligada, o peito murchou e caiu. Ela não manda mais em mim e o leite que tem lá agora é muito indigesto e por causa disso esta manhã cortei o leite do café já que adultos maduros, forjados em aço e ácidos demais não tomam leite nenhum, só suco de grapefruit que, dizem, queima gorduras no novo comprimido israelense de ilusão que eu tomo seis por dia, só pra não gostar de leite e mel procurando em outros leites o meu deleite, muitos outros nessa terra que não engordam e fazem crescer muito, dizem, espiritualmente. Ainda vou convencer a todos de que sexo com amor é o melhor deleite. E não corrói. Quando eu puder – se Deus quiser - entrar em Sephoris, liteira dourada de mulher pra sempre magra e linda e nunca mais como Hércules lutar: os trabalhos terminarão. Minha própria deusa eu serei, no corpo dourado endeusada que não se deforma mais. Engulo a mim mesma e no autofágico ato de me engolir, vou finalmente me digerir, escrevendo comédia sem soltar mais gases. Foi nesse momento que abri os dois olhos, bem abertos depois do fórceps e se entrasse de novo no útero, seria de novo um parto de fórceps porque a bacia é muito estreita e ao enjoar dessa história de estar sempre nascendo, sempre um bebê faminto, pode ser que eu descubra que é o leite materno que dá gases e o desnatado da Parmalat não. Evoluí. Estou ficando rápida na espiral processual, os anos são agora dias e o leite acabou, o peito caiu. Os seios que não amamentaram nunca e leite nenhum verteram são... para o meu amado, da gazela os gêmeos olhos, e gazela para sempre? Será que eu posso ser? Esguia e livre correndo no prado os gêmeos seios numa taça onde o melhor vinho se bebe, moderadamente, é claro. Melhor que uma vaca pesada, vaca leiteira com as tetas inchadas e quanto é que custa em Israel? Tecnologia avançada pra tirar o leite, faturar com a tal história do leite e do mel sem contar pra ninguém que corrói os dutos do curral e o fígado de quem bebe? A vaca é gorda e ainda por cima, louca! Louca sou eu com essa imagem pesada de leiteira (esta mulher é uma vaca) e não contaram mesmo pra ninguém, não é? Gazela é mesmo um negócio bem melhor. Com os seios gêmeos e tudo, olhos azuis de Salomão engolindo salmão e comendo a amante num leito de cânticos. Em dia de semana. O tal Jeová do Velho Testamento sim, é mesmo esperto: iludiu o povo por uns 6 mil anos com aquela história de exílio, culpa e extermínio... Agora imagine. Se o gozo de Salomão e aquele mito de como era boa a Sulamita tivesse vazado, quem é que aceitaria ficar rezando? Servir para sempre a um único senhor?
Gostou? Está online, no "Eu, Xamã". Vai lá que tem mais.
Não vou me meter por lá, mas não dá pra dormir com essa. Causa espanto a quantidade de comentários anti-semitas no post de Tereza Cruvinel em 5/10, intitulado "Pausa para pensar nos cristais do mundo". Fui lá pra ler um pouco de política esclarecida e me afoguei na enxurrada. Menos, gente, menos. Acho que tem quem precise entender que anti-semitismo é racismo vergonhoso como qualquer outro. Afinal, descendemos todos da mesma Eva, doce mãezinha africana de 70000 anos atrás. Não sei porque no caso de preconceito contra judeu a desinformação é enorme. Deve ser porque o meu grau de informação no assunto é bom, então... Perco longe na comparação. Teve um, (meu Deus!) que chegou ao ponto de dizer que em Israel não há democracia, e que o estado governa para os judeus e não para os cidadãos. !!!???!!! Raciocínio além de estranho, equivocado, já que árabes israelenses têm todos os direitos democráticos, e que eu saiba, até deputados na knesset, me corrijam se eu estiver errada. É claro que se restrigem aos árabes cidadãos, imaginem se houvesse direito de voto para todos os árabes??!!!?? Ou para todos os judeus? E vou parando por aqui. Ainda não me recuperei dos embates hezbollah-israel de julho/agosto. Mas em 53 anos de boa vida brasileira nunca imaginei que existisse neste país tanto ódio contra os meus, ingenuidade pura. My bad.