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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer."
J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo





Porque me ufano do ser humano

O curioso foi que enquanto a gente discutia na cama ontem de manhã sobre o quanto a nossa espécie havia evoluído nos últimos tempos — alívio, depois de tantas passagens vergonhosas como a destruição dos indígenas americanos, dos irlandeses, dos indianos e de tantos outros povos nativos pelos ingleses imperialistas; dos maias pelos espanhóis; dos negros pelos portugueses e por outros negros; dos armênios pelos turcos, dos judeus pelos nazistas e por aí afora, ô animal mais mal-humorado que a gente é, sô, pra dizer o mínimo — o neto dileto de Stalin, imaginem, tentava sem grande sucesso livrar a barra de seu amoroso avô e com isso faturar uns cobres, ops, rublos extras, ah, tudo bem: embora tenha "autorizado a execução de crianças maiores de doze anos como inimigos", o doce paizinho da pátria russa, por outro lado, "industrializou a nação e venceu a Segunda Guerra", os filhos de Putin que o defendam se puderem. Porque eu, sinceramente, vou preferir ficar fora dessa.

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Onde Ben Moser se defende, com todo o direito

Prezada Noga,

Acabei de voltar do Brasil e estou muito atrasado em responder meus emails. Nem tinha chegado ao seu mail quando abri outro mail contando o conteúdo de um post da Heliete Vaitsman em que cita você. Respondi a Heliete, e depois vi seu mail. Aqui a resposta que mandei a ela. Não sei onde você tirou essa idéia da Chevra Kadisha como coisa exótica que só lida com celebridades, mas não vem do meu livro.

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Caim caiu

Não sei se será desta vez, mas não será sem tempo se eu finalmente aprender a controlar este impulso ansioso de me antecipar aos acontecimentos — inclusive às opiniões formadas sobre os livros que tenho lido —, o que, como Alan muito bem o diz, só costuma me causar sofrimento. Como este recente Caim de José Saramago, por exemplo. Eu fui com tudo, imaginem. Criticando inclusive outros críticos, precipitadamente, como carolas e moralistas. Paguei pela língua ferina e continuo ferida, pagando mico de cronista.

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Pingos nos iiiis

O que faz de um grande escritor um grande escritor? A pergunta me persegue enquanto vago perdida pelos cantos da casa, irritada e como sempre amendrontada enquanto de dentro de mim surge o rotineiro impulso suicida de despejar sem censura o que me vai na mente e que, com toda certeza, não me granjeará simpatia extra em audiência alguma.

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De um Éden de araque e outros jardins

Pouco depois de desembarcar no Rio em 1937, aos dez anos, Soil Zuchen exclamou para o pai, em idish: “Is a gan eiden”: o Brasil era um jardim do Éden, aonde os vizinhos puxavam conversa com os recém-chegados e as crianças judias andavam na rua sem ser alvo de zombarias.
Heliete Vaitsman in Judeus da Leopoldina


Dizem que quanto mais alto o cavalo maior o tombo, seria isso mesmo?, tell me about it: Alan vive me acusando de viver assim meio-demente, perigosamente no fio que o valha, diz que é doença, que preciso tomar umas pílulas pra curar de vez a malévola rotina ora excitante ora deprimente, mas, gente. Se pra mim viver assim é, no final das contas, o que faz de mim eu mesma, esta cronista brilhante, uma bola viajante que oscila delirante entre o topo e o fundo, bipolar de carteirinha, coitadinha.

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Vergonha em dobro

Pra não deixar em branco o vergonhoso dia em que Lula e Ahmadinejad desfilaram no Planalto de mãozinhas dadas, vai mais um trechinho da interessantíssima biografia de Clarice Lispector, que será lançada dia 26 no Rio pela Cosac Naif: (sobre o decisivo voto do Brasil nas Nações Unidas, em 29 de novembro de 1947, uau, quase 62 anos atrás, que resultou na criação do Estado de Israel) "O gesto valeu a [Oswaldo] Aranha sua fama como amigo dos judeus, apesar de sua afirmação de que a criação de Israel significava que Copacabana poderia agora ser devolvida aos brasileiros."

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Aí tem coelho verde

Uma das coisas mais curiosas que me aconteceu ultimamente — estou aqui no computador do Alan, ao lado do lado dele na cama: ele nem bem acordou e já está discutindo comigo (com bastante raiva contaminando a poderosa voz de barítono) sobre política americana —, ainda agorinha, imaginem, tendo na mão uma xícara de café quente e à minha frente o meu HP irremediavelmente morto*, foi compreender num átimo iluminado que, embora Alan e eu tenhamos nos colocado em campos radicalmente opostos — no que diz respeito a democráticas preferências partidárias, claro —, na verdade queremos as mesmas coisas e temos medo das mesmíssimas e eternas coisas: miséria mundial, violência, terrorismo, guerras, doenças e, acima de tudo, um mundo inseguro para nós judeus, Clarice Lispector que o diga.

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Pogrom de botequim

Registrem tudo agora — peguem os filmes, chamem as testemunhas — porque em algum ponto na estrada da história um bastardo qualquer há de se levantar e negar que isso tenha acontecido.
Eisenhower, sobre o extermínio organizado dos judeus na Segunda Guerra


Não é que eu desdenhe dos direitos nacionais dos palestinos nem nada disso, quem me lê sabe: nutro até certa esperançosa e pacificadora simpatia por Mahmoud Abbas, que infelizmente, pelo que sei, já está desistindo de sua labuta contra as forças mais radicais.

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Visões diversas de um inferno genético

De Barack Obama na China, onde encontrou seu meu-irmão, reproduzido de artigo no Globo online, e que confere com a atitude positiva que li em seu livro, citado no artigo:
"Em entrevista à CNN, Obama disse que não conhece seu meio-irmão muito bem, mas que não acha que Ndesandjo tenha traído detalhes familiares particulares em seu livro.

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Estadismo à brasileira

Não tenho a menor vergonha de ser brasileira, e por que teria? Minha terra tem palmeiras, sabiás, aves que gorjeiam, mas de uns tempos pra cá, francamente, tem se alinhado com a pior escória deste planeta, claro, com a minha bênção é que não é. E espero, nem com a da maioria dos brasileiros.

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O lado errado da história

Devemos insistir que o futuro não pertence ao medo.
Barack Obama em seu primeiro discurso na ONU


“Obrigado aí, todo mundo”, disse Obama, encerrando seu discurso de ontem nas Nações Unidas, um discurso tão bonito, ideal e perfeito (confiram vocês mesmos, como acabo de fazer) que hesito ao escolher, entre tantos outros, apenas um gancho pra dar tom de crônica ao meu sentimento.

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18+09+2009=5770

(ou... a incrível matemística dos ancestrais)

fotocartão de Noga Sklar para Rosh Hashana 5770, sobre imagem de Bruno Wanderley


Temática deste ano novo judaico: eu quero mais.

E pra quem não reconheceu a foto, trata-se de meu primeiro ritual (se)mítico em frente ao portal místico de Maria Comprida aonde eu vim parar, este "daleth" — fenício ou hebraico ou geológico mesmo — reforçado em vermelho, que realmente vejo de (todas as) minhas portas e janelas, quem sabe agora vai?

(será que Obama vai fazer discurso? hein? ops!)

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Reflexões de ano novo

Vida é o que te acontece enquanto você se ocupa com outros planos.
John Lennon


Como com toda a campanha contra eu não cancelo as minhas contas, convém esclarecer logo: não tomo como pessoal a derrocada anunciada dos blogs — ultrapassados pelo facebook, ou twitter, ou qualquer coisa ainda por ser inventada na internet para ocupar a mente carente e os ainda desocupados espaços publicitários, em futura disputa feroz na rede —, gente, não.

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Shabat com Van Gogh
(com Noga ao fundo)

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Valei-me, meu Santo Antônio

Que as palavras ensinem e as ações declarem.
do Sermão de Antônio de Pádua


Vocês eu não sei, mas eu hoje acordei rezando por algo que é bem mais grave que um mero encontro conjugal, sob as bênçãos sagradas de um tácito acordo comercial. Há um eixo arraigado do mal no caminho da paz mundial, e por isso o apelo do dia ao santo de amorosa devoção: acendo todas as velas e faço de joelhos qualquer promessa.

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Perdidões

video

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The blond, the black and the ugly
(ou... a sobrevivência dos mais aptos)

fonte: O Globo
(da série: superando o passado com Barack Obama)

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Let my people stay

foto Stephen Crowley para o NY Times
Barack Obama: um Moisés moderno. E às avessas, alvíssaras.

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Noblesse O-bling

foto Reuters


"Parte da luta americana contra terroristas radicais tem a ver com a mudança dos corações e mentes daqueles que eles recrutam. Se existem vários homens e mulheres entre 22 e 25 anos de idade no Cairo ou em Lahore que escutam um discurso meu ou de outros americanos e dizem: 'Não concordo com tudo que eles dizem, mas parece que eles sabem quem eu sou ou parece que eles querem promover o desenvolvimento econômico ou a tolerância ou a inclusão', então talvez eles se sintam um pouco menos dispostos a se deixarem tentar por um recrutador terrorista", declara Obama em entrevista exclusiva a Thomas Friedman, do NY Times, antes de embarcar para o Oriente Médio. Vale conferir.
Tais inéditas opções diplomáticas de Obama, no entanto, sejam ou não expressão da verdade e da boa-vontade em busca de um mundo mais tranquilo, passam bem longe da unanimidade. Argh.

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O nosso Putin

foto Reuters para O Globo

A felicidade/ Morava tão vizinha/ Que, de tolo/ Até pensei que fosse minha.
Chico Buarque, "Até Pensei"


Francamente. Alan reclama, se encolhe, acha que eu devo deixar pra lá, dedicar-me full time aos detalhes finais do incensado projeto da nossa casinha transparente no meio do mato no qual investimos tanto, mas eu não posso. Não consigo.

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As causas nobres de Notre Obama

foto Reuters: Doutor Obama, Honoris Causa na Universidade Notre Dame

Leio no NY Times esta manhã, apressadamente, café numa mão e telefone na outra, que Obama dará nesta terça algum tipo de declaração no Salão Oval a respeito de sua política nuclear de não-proliferação, sim, a ordem dos fatores enriquece o produto: por mais que se diga, negue e maldiga, os "combalidos" Estados Unidos se mantém intactos no núcleo do globo propagador de ideias, isto é, na vanguarda da humanidade.

Serviço:
Mulheres no Cinema
Aborto em Julgamento
Martine ajuda sua filha, que fora estuprada, a fazer um aborto e as duas acabam sendo acusadas de infanticídio. Conheça a história do julgamento que foi um marco para a descriminalização do aborto na França.
terça - dia 19 às 16h02
domingo - dia 24 às 08h30
terça - dia 02 às 16h00
domingo - dia 07 às 08h30

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Uivando para Lula

E por falar em (meu) estado (de) judeu ainda não sei quanto tempo ainda vou levar — digo e repito — para aceitar, ou deixar de negar, o cada vez mais óbvio viés antissemita do governo Lula (um habitual "vamos combinar" soaria desligado demais para a seriedade em questão, é preciso ressaltar, formalizar, legalmente se resguardar) que pulula por todos os lados em nossa compedrada prática diplomática: permeando o oposicionismo, é grande a grita na dita grande imprensa, e eu? Como me sinto nisso?
Ajo como se nada fosse, nada houvesse que me atingisse, mas, a cada vez que a evidência insiste, mais me parece que arrisco o que não mais deveria: seria o momento de arrumar as trouxas? Desmontar o barraco? Tirar meu bloco da rua ou botar a bronca no google? Hein? Diga aí, Lobo Lula em Pele de Amorim Cordeiro. Cachorros. Em guarda.
Não sei. Não consigo levar isso a sério, embora saiba que por obscurecedores conformismos do gênero, a história ensina, gente do meu tipo acabou perdendo a chance. E a vida.

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Beat it

(uma farsa original sobre a fantasia final de Michael Jackson para "Thriller",
tendo tido o real sua reprodução desativada a pedidos)



Toda sátira é cega às forças liberadas pela decadência. Eis porque a decadência completa absorveu as forças da sátira.
Theodor Adorno, filósofo alemão, 1903-1969


O problema de se manter um blog cotidiano por anos a fio é que a gente não pode, por exemplo, a cada primeiro de abril recontar a mesma velha piada, ou a cada vinteum repetir a mesma parada enjoada de Minas, Tiradentes, liberdade adiada e coisa e tal, vocês me entendem.

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Tradição nova

..ah, tá bom, outro oximoro, fazer o quê, mas só fiquei sabendo agora: um ciclo que de 28 em 28 anos se renova, talmúdico retorno solar, paciência, é só o meu segundo, dá pra entender.

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Liberdade ainda que...

imagem: livro de Culinária Judaica, 3ª edição, 1980,
editado em Beagá pela Comissão de Mães da Escola Theodor Herzl,
a minha entre elas: relíquia de família
Não sei se vocês sabem, mas muito antes da Páscoa cristã começar a celebrar a ressurreição de Cristo — vitória sobre a morte, libertação do ciclo do carma de morte e reincarnação, nirvana, iluminação, uai, gente, serão estes todos realmente relacionados ou estou me confundindo? —, ali pelo ano 33 DC, uma outra Páscoa bem mais antiga celebrava a libertação dos judeus da escravidão do Egito, não só dos grilhões, eu penso, mas também dos mitos inúteis de morte, de vida após a morte, superstições, o favor dos deuses, e, pior, por dentro da argamassa das fantásticas pirâmides erguidas, sabe-se lá com que sangue, provavelmente o nosso, da obrigação de eternização do corpo já morto e dos bens materiais que naquela época, pasmem, a gente levava pro túmulo sim, sai azar, ao lado de uma boa meia dúzia de empregados, senão fiéis, pelo menos à revelia condenados à fidelidade eterna. Argh. Até o cachorro do falecido dono, coitado, acabava embalsamado. Alívio: o mundo mudou: a gente hoje morre e acabou, tem liberdade maior que essa? Viver plenamente a cada dia, sabendo que tudo, alegria e miséria, termina inevitavelmente um dia?
Sério. Nem sei porque a morbidez, fala sério, num dia em que se celebra a liberdade em vida, bem, nem tanto assim: Moshe Rabenu, nascido e rejeitado, aparentemente, mais tarde reencontrado e grande agente judaico de mudanças de estado — mudança de casa, país, religião, estatuto moral e condição civil —, morreu sem entrar na Terra Prometida por estar fatalmente contaminado, imaginem, com o germe ingrato da servidão.

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Obama enxadrista

foto: Reuters

E não fiquem vocês pensando que por não escrever todo dia sobre tudo o que nestes dias tem marcadamente se passado, eu não esteja de olho. Estou.
Só não deu pra entender ainda, nas entrelinhas da empolgação com o anunciado fim de tantas ameaças letais ao futuro das nações mundiais, onde Obama quer chegar (cheque!) e como pretende chegar lá. E, claro, se um dia efetivamente chegará com sua refinada (ou chutada?) estratégia enxadrista (xeque-mate!).

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Vacas magérrimas

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
Titãs, de quê, na mais óbvia fome de citações


Não, não é o que vocês estão pensando, mas sim uma explicação convincente para o surto generalizado de obesidade bíblica que ao final das contas tomou conta dos Estados Unidos, uma forma de compensação obsessiva, desembocando com o perdão do trocadilho in fome nessa crise de excessos, de todos os tipos e acessos, que está aí pra todo mundo ver e que eu penso que, fatalmente, resultará não sei quando em maior elegância em todos os matizes, bem, essa é a parte chique e mais divertida da coisa, porque, vocês sabem, passar fome não é brincadeira.
E sei bem do que escrevo, claro, do fundo de um estômago vazio, e não, não é de regimes radicais que estou falando — embora, claro, nos tempos em que eu me acreditava gorda tenha passado por todos eles e suas correspondentes fomes extremas, extremamente voluntárias, nada que passasse nem perto de uma ameaça mortal de bulimia política nem resultasse no tão desejado adelgaçamento libertador — mas sim de uma fome maior, mais básica, a nível de nascimento: um reflexo ambiental da dieta comunal à base de pó de ovo que grassava naquele momento [no ano da graça de 1952], num socialista Estado de Israel recente sem tanta graça divina assim, mas, certamente, com muita fome de (sobre)viver.

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O fio da manada

"Opa, peguei de jeito o fio do texto", exclamei animada, cedo esta manhã que nem Leopold Bloom, ainda no banheiro, ao ler na tela, a mando — melhor, mais moderno: por sugestão — de trecho em O Globo, a sinopse de outro fio, o das missangas de Mia Couto que ainda não li. Afinal de contas, são livros demais para o raro tempo livre da mente, infelizmente, nem todos tão bons, nem tão indispensáveis, quanto prometem as resenhas publicadas. Na minha fila de diletante vai outra garota à frente: Elza, a jovem comunista estrangulada (por ordem de Luiz Carlos Prestes, suspeita de traição), cuja vida se perdeu no fio histórico da meada, novo romance de Sérgio Rodrigues em torno de personagem intencionalmente apagada de todos os arquivos, negativo interessante da bem mais divulgada Olga Prestes, quero dizer, Benário. Que nem consta ainda das prateleiras públicas.

Serviço:
GNT.Doc: Rainhas da TV Árabe, segunda, 16/3, às 11h00
Elza, a garota, um romance de Sérgio Rodrigues: quinta, 26/3, na Travessa do Leblon

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Os jacarés e a lama


Do Haaretz: "OLD FRIENDS: Benjamin Netanyahu and Avigdor Lieberman in 2004. Lieberman on Thursday backed the Likud chair as Israel's next leader. (BauBau)"


Sai dessa, Tzipi Livni (atenção: são dois links diferentes, tão diversos quanto a disputa política em Israel). Em buraco de corja tatu não mete a colher.

(errei. errei sim. e agora euzinha, quem diria, linkando o horrível Gideon Levy)

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A volta dos mortos-vivos

Dubai Towers, EAU
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.
Sermão da Montanha, segundo São Mateus


Não é agosto-mês-de-desgosto nem nada, mas não sei se vocês repararam: apesar das promessas festivas do carnaval que se aproxima — um cheiro de gozo exclusivo do Brasil de Lula e Dilma —, hoje é sexta-feira 13. E cá entre nós, não faltam adeptos da Lei de Murphy espalhados por aí a torto e a direito: a palavra dada, vamos combinar, está na ácida boca trevosa deles.
Pra começar bem, ou melhor, pra começar bem mal, nada como o incipiente fracasso dos animados planos pós-partidários de Obama, tantos projetos de mudança ainda nem a bem da verdade sonhados e já destroçados no primeiro parto, destinados ao agudo descaso das muitas cassandras em franca atividade, e olhem que algumas eu respeito à beça, há que escutar do que estão falando. Como David Brooks, por exemplo, descrevendo um cenário sombrio de futuro que a gente bem faria se fosse evitado: pra sexta-feira 13 nenhuma botar defeito. O ambiente é de sonhos desfeitos, quase-pesadelos.

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Kadima! Ken!

(do hebraico: Avante! Sim!)


É boca-de-urna, mas ainda resta dúvida. Em todo o caso, o resultado já está selado, só a gente é que não sabe. O que ficou claro: embora às vezes nem pareça, e a borrada (in)diferença nos confunda, Israel votou mesmo pela paz.

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Histórias da terra brasileira

Comentário postado esta manhã na coluna do Ancelmo:

"Espantosa esta caixa de comentários. Uma simples notinha de lançamento de um livro o mais prosaico possível, que eu entendo como uma espécie de "Sociedade Brasileira" dedicado à comunidade judaica local — como tantas outras, integrante do livre melting pot que sempre caracterizou a população do país —, foi o suficiente para detonar uma enxurrada de diatribes antissemitas e, pior, sem qualquer refinamento da informação, para me limitar ao mais rasteiro eufemismo.
O curioso nisso tudo é que vivi no Brasil uma vida inteira, mais de 50 anos, sem jamais ter sentido um sopro mínimo sequer de antissemitismo, o que agora... virou regra: é o lado negro (sem preconceito) da liberdade na web, assim também já é judiação. Vergonha. Tristeza."

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Mágica jornada misteriosa

E você, aceita a ideia de que não há explicação?
Julio Cortázar


"Depois da miraculosa campanha eleitoral de Obama em 2008, ficou claro que em algum ponto a mágica jornada misteriosa teria que ter um fim", escreve Charles Krauthammer em artigo que li, pasmem, no Jerusalem Post, sim, hoje é dia de ler in loco sobre mais um mistério eleitoral prestes a se desenrolar noutro canto crucial do mundo.

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Sorte de principiante

O Memorial de Bergen-Belsen, em foto do NY Times: há luz no fim deste tunel?
clique para slide show
Puxa, agora sim estou tranquila: Fidel declarou que Obama é honesto. Não foi à toa que as bolsas subiram e os juros baixaram e os altos salários congelaram, as juras conturbadas da festa já todas convenientemente rejuradas. E la nave va (num eterno Mardi Gras?), sem quarta-feira de cinzas.

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Um (lauto) comentário na caixa de Tio Rey

Caro Reinaldo, seus argumentos são lógicos, e bastante convincentes, claro, você escreve muito bem e é por isso que eu venho sempre aqui, isto é, passei a vir por seu apoio a Israel e em meu tempo ampliado, agora que não leio mais tantos jornais. Mas você não está tão só. Muita gente (na Fox News, por exemplo) pensa como você. Mas eu, embora como você não seja "uma boa pessoa", nem tanto.

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Pela Paz

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Refugiados

Do NY Times, hoje, em editorial: "...Gaza Strip, where an always miserable life has become unbearable."
destinations/Palestinian-Territory/Jabaliya-travel-guide
Tá certo. Toda guerra é um horror e quando atinge a miséria, pior ainda. Mas muito em breve, parece, de acordo com as últimas notícias, será possível graças a Deus deixar de lado este único assunto. Agora, embora eu reconheça as tramóias da guerra de propaganda, as mesmas imagens distorcidas e interminavelmente repetidas na exploração genocida e manipulativa da opinião pública, sempre acreditei que a Faixa de Gaza fosse um triste, acumulado, deplorável campo de refugiados, uma mancha inapagável na história da miséria humana. E não é? As imagens são de Jabaliya, o campo à beira-mar em Gaza. Do Google Earth: no link sobre as fotos tem mais.

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Uma guerra particular


Não sei se vocês se lembram, mas quando meu vídeo de lançamento do Hierosgamos foi ao ar, acabou hospedado na página youtube do meu sobrinho Edgar, produtor da peça. Ocorre que um ano antes ele tinha feito uma vídeo-pesquisa sobre Hitler para a faculdade, um sucesso de público e crítica (e porque não dizer, um involuntário clubinho para troca de mensagens neonazistas, pois é; arte em parte é isso: a gente nunca sabe direito que bestas vai liberar com a inspiração).
Pois o tempo passou e a disputa sutil se estabeleceu: o amor contra a morte, e, cá entre nós, o amor vinha vencendo a morte em pule de dez, acabando muito à frente depois de curto espaço de tempo... mas...
Desde que começou essa triste e trágica crise palestina, pasmem, alguma coisa aconteceu: Hitler, que já vinha em humilhante lanterninha, ganhou um impulso extra, e VOCÊS VÃO PERMITIR QUE ISSO ACONTEÇA? Visite. Impeça. Pode até não ajudar em nada, mas ver o amor prevalecer vale sempre a pena, ilumina o dia.
Paz na terra aos que escolhem amar. Amém.

AMOR


MORTE

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Bola fora

Solitário, abandonado, com uma tremenda bola fora na encarniçada batalha da propaganda em Gaza, Osama Bin Laden celebra em vídeo seu derradeiro furo estratégico: deste lado mais civilizado do mundo ninguém mais ama este Osama, nem sua jihad delirante. Espero que não.

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Foi ontem

Joyce no blog de alguém: um autor muito popular
Jim, how beautiful you are!
Nora Barnacle a seu marido James Joyce, morto, pelo visor do esquife.



“Começo a escrever este livro em 13 de janeiro, o aniversário da morte de Joyce em 1941” – nos conta Anthony Burgess em Homem Comum Enfim [Here Comes Everybody]... ", que menciono nas Crônicas Irônicas, uai, foi ontem. "...e espero terminá-lo no Bloomsday, em 16 de junho."
De tão concentrada (entretida aqui com... James Joyce) quase passei pela data em branco até que Thereza C., dedicada editora, me lembrou o fato: descanse em paz mais um pouco enquanto dá para estar, pacifista, na paz. Entre tantos mortos.
Paz? Mortos? Mas de que raio de paz estou falando? Vai ver foi por ser mesmo um atentado que, vírgula, bem no dia do seu passamento nem-comemorado, vírgula, Joyce me atentou o juízo o dia inteiro em disputas da língua falada contra o idioma escrito — "aspas", itálicos, travessões — num interminável preciosismo, ponto e vírgula, cá entre nós? Quem hoje em dia vai ligar pra isso? Ou sequer perceber que me preocupei tanto?
R.I.P.: reforme-se de uma vez a nossa pobre língua gramaticalmente complexa e deixe-se em paz o linguista morto. Amém. E ponto final.

E por falar em datas, hoje é dia do aniversário de casamento de mamãe-e-papai, cincoenta e oito aninhos, argh, quase sessenta do dia em que (quase) fui concebida, para azar do mundo.

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Mark Twain, um antissemita?

Bati nessa por puro acaso, juro (ou seria intuição, ou dádiva divina?), pesquisando uma frase de procedência indefinida citada no NY Times de hoje. Pensei em mencioná-la, a princípio, por discutir a qualidade do ritmo presente nos textos de um excelente escritor - Mark Twain, no caso - assunto pra mim de importância literária considerável, apesar de hoje em dia bastante relevado e até exposto ao ridículo. Vai daí que pesquisando no google descobri a íntegra deste texto imperdível, santo google, escrito por Twain in loco por ocasião de não sei que agitação antissemita no congresso austríaco. Pra quem domina o inglês e tem interesse no assunto, recomendo a leitura, nem que seja para obter uma perspectiva histórica mais ampla: em tempos de crise no Oriente Médio e de inesperado recrudescimento do sentimento antijudaico, uma mais inesperada ainda contribuição do destino. Segue trecho em tradução, desculpem, meio improvisada.

"Speaking of concentration, Dr. Herzl has a clear insight into the value of that. Have you heard of his plan? He wishes to gather the Jews of the world together in Palestine, with a government of their own - under the suzerainty of the Sultan, I suppose. At the Convention of Berne, last year, there were delegates from everywhere, and the proposal was received with decided favor. I am not the Sultan, and I am not objecting; but if that concentration of the cunningest brains in the world were going to be made in a free country (bar Scotland), I think it would be politic to stop it. It will not be well to let the race find out its strength. If the horses knew theirs, we should not ride any more."

"E por falar em concentração de forças, o Dr. Herzl* tem uma intuição clara sobre o valor disso. Ouviram falar do plano dele? Pretende reunir os judeus do mundo na Palestina, com um governo próprio — sob a suserania do sultão, eu suponho. No ano passado, na Convenção de Berna, havia delegados de todos os lugares, e a proposta foi recebida com decidido favorecimento. Não sou o sultão, e não me oponho; mas se essa concentração dos mais finos cérebros do mundo fosse empreendida em um país livre (excetue-se a Escócia), penso que seria boa política impedi-la. Não estaria bem permitir que a raça descobrisse a própria força. Se os cavalos conhecessem a deles, nunca mais os montaríamos."
Mark Twain, Viena, verão de 1898

Falar nisso, trechos esparsos deste texto tem sido usados, fora de seu contexto, sob a égide manipuladora de algumas organizações espúrias — como a que utiliza em seu site, sem nenhum rastro de pudor, um maldito e famoso logotipo sagrado distorcido —, numa atitude que tem se tornado comum, defendendo a tese de que Twain era antissemita. Um terrível engano, creditado à (despercebida?) ironia.

*nota da tradução: Theodor Herzl, criador do conceito de sionismo no século 19

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Eu me odeio

A trama da mídia anda tão bem urdida que até os judeus já estão começando a atacar os seus (e embora o link seja do Globo não é só no Globo não, como se verá mais abaixo), uma espécie de doença autoimune da mente. Não é meu caso, graças a Deus, mas o Alan aproveita o ensejo e entope minha caixa de emails com artigos sobre o ódio a si próprio, comum em povos longamente humilhados e perseguidos. Será por isso que os palestinos se matam uns aos outros?
Tem provado ser apenas wishful thinking, um erro grave, infelizmente, o sentimento vigente de que estamos historicamente além da possibilidade do antissemitismo, uma ilusão mortal que afinal de contas, os judeus alemães cultivavam também no início da ascensão de Hitler.
A coisa informe e maldita já desponta nem tão sutil assim na Itália hoje, por exemplo, numa versão (por enquanto) suavizada da famigerada Kristallnacht. Outros, mais alarmistas, andam colando pelo em ovo que pode sim, pelo já visto, acabar peludo. Vivemos tempos perigosos.

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Retórica 666

"No princípio era o verbo; no final, será a falta dele."
Euzinha mesma, frasista de araque, por puro apego à força de uma frase


Pronto. Começou. Nem bem chegou o dia da posse e já se alevantam os palpites em contrário, ainda que nobelmente sensatos. Calma, gente. Faz parte da força de um presidente o carisma verbal, acredito eu, um talento para os bons argumentos que a todos motiva, transforma, provoca a reflexão e por consequencia indireta, estimula a ação.
Tá certo. Se engana quem se consola com um mero primeiro passo de vitória, precocemente aliviados ao pensar que se calam, sem nenhum argumento, os franco-derrotistas de praxe, deem um tempo ao tempo da experiência.
Agora. Pior seria se, ao se afastar do puro exercício da língua política, o nosso guru tão amado dirimisse a primazia da lógica em detrimento do nosso lado, aí, sim: seria o reinado anunciado da besta descontrolada do apocalipse. Arrisquei. Mas não digo jamais que ninguém me avisou, isso não. Ai que me dá um arrepio de medo.

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Dia três: órfã de colunista

(da série: os sem-jornal)

"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já."
Thomas Bernhard, nas frases do dia de uns meses atrás

Vamos combinar que já fazia um bom tempo que eu nem bem lia, quando muito apenas folheava o jornal impresso, me preparando, quem sabe, para o salto libertador final. Afinal de contas, todo mundo sabe que o nosso planeta conectado é movido a notícia, e qualquer breve link gratuito na web já te deixa a par de tudo que acontece no mundo: o mal-estar da atualidade nos persegue, e difícil mesmo é escapar dele, haja meio-do-mato.

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Mais uma carta aberta

"Nesse jogo, violência não gera necessariamente mais violência; às vezes a evita."
David Brooks, para o NY Times


Caro Milton,
Você não me conhece, mas sou sua leitora e também escritora. Te escrevo depois de ver seu nome citado no blog Biscoito Fino, recentemente transformado em central antissemita de mentiras, um choque para a mente intelectual brasileira, é o que eu penso, e que sequer admite comentários porque as verdades — manipuladas e manipuladoras — que propaga não estão em discussão.

na blogosfera: Reinaldo Azevedo

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Pobre Oswald de Andrade

"A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico."
Oswald de Andrade


Mas que Biscoito Fino é esse? Me amassa. Nossa. Tremendo. Pois fui ao Biscoito Fino em busca de explicação para o meu sumário defenestramento pelo meu ex-faceamigo Idelber Avelar e , ai, lamento, encontrei bem mais do que fui procurar: explícito ali, nem ao menos camuflado (por mero amor ao pensamento civilizado), vestido de um magnífico e como se viu enganoso e caudaloso currículo, um brilho acadêmico de responsa e um mais atraente ainda amor auspicioso pelo Ulisses de Joyce — esse aí, confesso, o propulsor da minha inocente proposta de amizade — um vergonhoso, anacrônico, violentíssimo antissemitismo, uma das piores formas clássicas de racismo. "Chacina sionista"? Fujam. Pobre Oswald de Andrade, espúria homenagem, ou será que... o movimento modernista era também fascista? Duvido.

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Amizade de fachada

Se conseguir um novo amor, com toda a excitação que uma nova paixão estabelece — ultrapassada a quase impossível barreira física do sexo explícito, o contato tão temido com um corpo desconhecido e seus cheiros assustadores, frequentemente rejeitados —, já é complicado na nossa idade... imaginem então uma boa amizade.

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Carta reaberta

Está circulando pela internet, e publicada no site do meu mais recente facefriend Idelber Avelar — um intelectual, um joyciano acima de tudo o que quer dizer, imagino, um sensível militante incondicional da paz —, uma carta aberta do israelense Uri Avnery a Barack Obama. Leio a carta por alto e mesmo assim ela incomoda: soa como aquelas correntes frankensteinianas que circulam pela web, como esta que recebi hoje por email, um "depoimento de Victor Hugo adaptado por Vinícius de Moraes", pequenas doses de sensatez amarradas por clichês, grandes absurdos.

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A defesa é o melhor ataque

Sim. São mais de duzentos. Entender essa onda imensa de simpatia mundial, refrescando a moral longamente combalida do povo palestino, eu bem que entendo. São mulheres e crianças mortas, civis indefesos, inocentes inúteis sem escolha alguma, transformados à revelia em alvo de canhão sem que a isso aspirassem, sim, mas por quem? Por que tantos civis abatidos numa ação militar? Insolência? Sim. Vale perguntar. E no entanto, acreditem, a resposta não virá. A foto publicada intervém. Mostra a mão do desdém: vidas sem valor, mas, para quem?

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Fraude em série: sem essa de retrospectiva

Não vou cair nessa de falar de Natal como fez o Jabor em sua crônica de hoje porque sendo judia nunca tive um, ah, tá bom, confesso: só mesmo um pouco de inveja do Natal cristão alheio, aliás, nem acho recomendável, por esses dias que correm, confessar por aí a torto e a direito que sou judia — ai, se eu pelo menos me chamasse da Silva —, vamos combinar que (pelo menos) um pouquinho de vergonha da raça cai bem no momento, Deus me poupe o público vexame.

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Efeito borboleta

"Our destiny is not written for us, but by us."
Barack Obama, U.S., 2008


Visto aqui do alto, parece mesmo que não tenho mais nada a ver com isso, mas se tem uma coisa que eu realmente lamento, nessa minha mudança recente de domicílio, é que não votarei nas eleições deste domingo.

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Era o belo da raça: e isso é raro.

confira o slideshow

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O estilingue de Davi

Tem gente que prefere ver o circo pegar fogo logo de uma vez. O Alan, por exemplo. Um ex-hippie libertário, imaginem, poeta apaixonado, hoje em dia um conservador arretado que ainda por cima detesta Barack Obama, nosso mais que charmoso me-engana-que-eu-gosto.

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Profeta verde

E enquanto isso... num país do Oriente Médio, acossado por guerras, ameaça nuclear e involução civil, foi inaugurada a primeira usina de energia solar, com 1600 espelhos e uma torre de 60 metros. Foi anunciado, além disso, o renascimento de Matusalém, não, gente, não é o que vocês estão pensando: trata-se da recuperação de uma espécie de palmeira bíblica, extinta há dois mil anos, cujas sementes fósseis foram encontradas em Massada há mais de 40.

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Obama x Hamas

Acabo de ouvir na Fox News, direto de Jerusalém: líder do Hamas apoia Obama. Para mim — judia, partidária de Obama, e convicta em ambos os casos — nada poderia soar pior, mais pronto a confundir. Mas me pergunto cá entre nós, o que isso realmente significa:
Obama igualmente apoia as pretensões do Hamas, contrariando uma vida inteira de apoio político americano a Israel? Ou é o Hamas que, por outro lado, caso Obama seja eleito, se dispõe a sentar pra conversar, abrir-se para um acordo?
Ou nem uma coisa nem outra: o Hamas declara o que quiser, e nem por isso se pode responsabilizar Obama?
Perguntar não ofende.

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Dois pesos, duas medidas

Tentando se safar do passo em falso, Silvia Pontes — vereadora do DEM (guardem o nome) e organizadora da liberada "Marcha contra as drogas" — declara ter ficado triste com as críticas da OAB à faixa do integralismo, na passeata do último fim de semana. Argumento da vereadora: "nem vi o símbolo e, se visse, não saberia o que é". Pior a emenda, etc, etc.

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Passagens

"Qualquer artista está sempre trabalhando, mesmo quando parece não estar."
Oliver Sacks


É um domingo normal para alguns, mas para mim não: é a manhã que se segue ao Pessach, de todas a tradição de infância que mais curti, e agora, como tudo o mais, babau. Não comi. Não cantei. Não sorri. Me calei. Antecipei um luto que virá um dia e não posso negar que fiquei triste, com aquela leve sensação de abandono que ensombrece a vida de adulto, mas tudo bem. Vou passando por isso assim, aos pouquinhos, me acostumando: antes que a vida me obrigue a passar por isso.

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O fato e a foto

foto: Reuters

Fim de foto, ou melhor, de fato. Acabou-se em um dia a segunda guerra e esse dia foi hoje, dia efe, do fato, da foto, do fim de fato: Olmert e Merkel num mútuo sorriso, num gesto aberto o mútuo vê de vitória. Ivo viu essa uva. E você? Que coisa boa. Que coisa mais melhor de boa. Hum.

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Bloom, Flower, Flor

Caramba. O cara fez de novo. Se superou de novo embora desta vez, nos Cíclopes, o desafio traga toques sutis de desconfio. Ou de desconforto. A gente vai com tudo pra cima daquela ladainha pomposa, pensando que a liturgia apostólica, pelo menos, é coisa séria: não sabe da missa a metade, pois ao longo da longa lista de santos evocados — São Nunca, São Pedro, São Brás — acaba esbarrando com um Santo Anônimo, um São Pseudonymous e um São Homonymous, pra não esquecer de São Sinonymus, não, isso nunca.

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O mala do ano

Baratas na Sapucaí - foto:Rafael Andrade/Folha Imagem

Mas já? É, gente, este ano está tudo mais cedo. Em todo o caso, nosso amado (meesmo) Xexéo vai tomando a dianteira ao se candidatar ele mesmo ao seu próprio concurso de Mala do Ano, na categoria hors-concours, claro.

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Joyce no meu cotidiano


Ufa. Finalmente alguém me explica o que significa Bleibtreustrasse, eu já estava desistindo: seja fiel. Bloom não foi, um exilado de Jerusalém, filho de convertido que acabou casado com uma meia-judia que não se enxerga.

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Holocausto

Pronto. Já morreu o assunto. E se estou tentando me profissionalizar no jornalismo eu deveria ser a primeira a reconhecer isso. Caso resolvido. Chegou.
Mandei uma carta ontem pro Globo que não foi publicada. Graças a Deus. Nela eu pintava, com cores um pouco fortes demais e uma linguagem que reconheço, imprópria para humanos que não sofreram, a sensação de um sobrevivente ao ver na avenida os mortos empilhados no carro. Perdi o texto, mas o espanto não perco.

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Ulisses: o retorno

Antes que eu percebesse, já estava no fundo do poço. Havia perdido completamente o gozo da leitura. O que era riso fácil virou crise de doutorado, meu travesseiro macio trocado pela cadeira dura, o espaldar ripado machucando as costas sem nenhuma esperança de tesão: como distribuir na cama todos os livros, teses, links, o notebook, o telefone sem fio que preciso consultar a todo momento simplesmente pra engolir o texto? O que era viagem virou voragem e o vôo livre, balcão de repartição pública.

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A Noite

Não sei se você sabe, pois eu não sabia: a primeira versão do famoso livro "A Noite", impressionante relato de Elie Wiesel sobre o holocausto, foi escrita no Brasil. O livro, um retumbante sucesso reeditado depois que Oprah o recomendou em seu clube do livro, está no Book Review do NYT neste domingo. O Globo informa: o programa que mostra a visita de Oprah a Auschwitz, acompanhada de Elie Wiesel, será exibido nesta terça, 22/01, às 20:00 hs, no GNT. Não perca.

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Na lata

Em 1974 — ou quem sabe em 75, não me lembro mais —, trabalhando como estagiária numa empresa de design que pertencia ao Paulo Éboli (linko o Paulo aqui, mas vocês me entendem: não sei se é o mesmo Éboli, o tempo... vocês sabem: engana), colaborei com um projeto de lata de lixo urbana bem semelhante a este que hoje em dia está materializado em cada esquina do Rio. Dezessete anos depois, desta vez como diretora de arte assistente na antiga Oficina de Marketing de Nádia Rebouças, participei pela madrugada adentro de um brainstorming pra decidir o slogan de uma campanha pra ensinar o povo a usar... as latas de lixo urbanas. Meu palpite: "o lixo na lata".

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Terra Prometida

"Parece até roteiro do filme "Uma linda mulher": Gabriela Leite, a ex-prostituta que fundou a Daspu, passará o Natal em Veneza."
do Gente Boa


Tá certo que isso não é assunto pra véspera de Natal. Paciência. Não fui eu que comecei. Melhor seria comentar as novidades tecnológicas que vêm por aí, um admirável mundo novo em apenas cinco anos, está no INFOetc de hoje: pode conferir.
Pra dizer a verdade eu nem pretendia escrever, pois como diz o Joaquim, em ótima crônica sobre Rubem Braga (eu queria ser ele, sô. o Rubem, não o Joaquim), não há mesmo leitores neste dia, todo mundo ocupado com coisa melhor. Mas paciência. Não fui eu que comecei.

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O reincarnado da Avenida Parque*

Nathan Englander merece o benefício da dúvida, e não só por ser este gato aí da foto. Desculpem. Nunca antes aqui no Noga Bloga publiquei a foto de um autor, mas esta estava lá, dando pinta no artigo do San Francisco Chronicle, pedindo pra ser usada. Não resisti, dá pra entender porquê. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter publicado seu primeiro livro aos 29 anos (nos EUA, em 1999) — esses contos que acabei de ler e que podem ser resumidos numa única constatação: o texto não faz por merecer o excelente título, "Para alívio dos impulsos insuportáveis" —, e ter recebido por ele não sei quantos prêmios, a ponto de ser considerado pela mídia um rock-star da literatura. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter tido seu primeiro romance, publicado este ano, na lista dos 100 melhores livros de 2007 do New York Times. Não é pouca coisa.

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O ano que não terminou

2001 - O ano que não terminou
Os 40 anos de 1968 serão comemorados com um novo livro de Mestre Zuenir, "1968 - terminou?", que será lançado em edição especial da Editora Planeta, junto com nova edição de "1968 - O ano que não terminou", sob o título "1968 - Terminou ou não terminou?" Bem. Eu diria que sim. Apesar de insistentes insinuações de que a ditadura continua, desta vez protagonizada pelo tráfico de drogas, creio existir no Brasil de hoje uma liberdade intelectual plena. Exemplo disso é a contundente e imperdível crônica de Arnaldo Jabor no Globo de hoje. É, gente. No apagar das luzes do meu hábito cotidiano de ler o jornal impresso, fiz as pazes com o Jabor. O cara anda impecável.

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Moisés mão-de-vaca


— Quem sabe do mal que habita no coração dos homens?
— Só o Sombra sabe.

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Antídoto

Em tempos de violência explícita, quando o mundo se divide entre os benefícios da tecnologia e a manutenção absurda de bolsões de selvageria, pensei em publicar aqui no blog um link para vídeos de decapitação em território terrorista. Mas desisti. Francamente. Passei mal ao vê-los e não vejo porque alguém deveria fazê-lo. Não é proibido para menores. É proibido para humanos.
E ainda tem gente que acha bacana, inteligente, praticar frases feitas de conteúdo anti-semita e outros racismos equivalentes. Francamente. Para estes, e só para estes, valeria um tratamento de choque: beheading videos no google.

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Cortejando o perdão

"Defrontamos com a corajosa judia que deixou de jejuar no Yom Kipur, disposta a quebrar regras, que nos seduz com a sua história de amor. Com despudorada narrativa erótica, da pele à cona, ela brinca com palavras de múltiplos sentidos, e nos desperta para o desejo de também construir uma vida de amor."
Resenha do Hierosgamos por Henrique Chagas, editor do
Portal Cultural Verdes Trigos

Faltam ao meu chiquérrimo salmão grelhado aux herbes as evidentes qualidades do cardápio camponês centenário, criado e consumido nas vésperas do Yom Kipur para sustentar milhões de judeus em todo o mundo pelas 24 horas de jejum seguintes. Pelo menos é o que o Alan diz, e uma excruciante dor de cabeça me leva a concordar. O Alan está lá, bravamente insistente, com sua disciplina superior de macho devoto. Mas eu... desisti. Duas aspirinas e duas xícaras de café depois, banho tomado, infrinjo outra regra sagrada e me sento pra escrever. Nada demais. Afinal de contas, escrever é minha prece, meu diálogo com o sagrado, minha última esperança de redenção.

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Nasce um idioma

— ani ohev otach, Noga, te amo.
— uau! me subiu um calor! essa declaração em hebraico... nunca falei de amor em hebraico antes... me deixou maluca, chag sameach, motek sheli. meu docinho.
— é tua franqueza que eu adoro... tua alma se despe diante de mim, é tão vital... e o hebraico é fundamental, um lugar diante de Deus: sem mentiras ou artifícios, meu eu puro diante de Deus. me vai direto ao âmago.

Hierosgamos - Diário de uma Sedução

Do lusófobo e achincalhado jargão convenientemente apelidado de miguxês — uma ação entre amigos para rebaixar online nosso português, cujo nome me lembra muito uma mistura de pinguço com mixuruca, resultando de qualquer maneira num palavreado minguado — à mania americana de reduzir qualquer coisa a acrônimos — intrigantes conjuntos de iniciais como lol, btw, asap — a gente se acostumou, pra não dizer que se conformou, em testemunhar a metódica destruição do idioma que convencionamos chamar de "linguagem pop".
Vai na contramão desta tendência o aspecto mais fascinante do livro de memórias de Amós Oz, "De Amor e de Trevas", que estou lendo agora.

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O século do Eu

Em julho de 1976, recém-formada em arquitetura, ganhei de presente uma viagem de três meses para Israel e Europa, com uma possibilidade implícita de encontrar, quem sabe, o rumo de uma vida nova em Israel, numa reedição do abortado sonho pioneiro de meus pais que acabou resultando na minha dupla nacionalidade. Não deu certo.

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Carne kosher: as leis do abate

Pra judeus sionistas, não é novidade nenhuma a tendência da mídia em culpar Israel por todos os males. Hoje mesmo, em artigo de Robert Fisk para o Independent - e transcrito no Globo - o vírus está lá:
"...enquanto o mundo observava Israel destroçar esta pequena nação, numa inútil tentativa de destruir o Hezbollah."
Vamos combinar: no atual estado de coisas, o que o Líbano menos precisa é de apoio externo pra destruir "sua pequena nação". Tudo isso é muito triste, mas também, complexo. Se existe um bebê pra ser resgatado na área de conflito, interessa quem está de cada lado da trincheira? Leio as notícias um pouco impaciente, e me pergunto: o que quer esse pessoal? Não consigo entender direito o que está acontecendo, e acredito que se interesse houvesse em saber realmente quem, quando e o quê no velho conflito do Oriente Médio, o mesmo problema afligiria a maioria.
A este respeito vem em nosso socorro meu conterrâneo, o israelense Amós Oz, em artigo transcrito esta semana no Verdes Trigos, bem lá do meu ladinho. Sim, é uma honra. E um ensaio para a coragem de abordá-lo em julho na Flip. Além de escritor, Amós Oz é uma mente lúcida, e fundador do movimento pacifista Paz Agora. Vale a pena lê-lo, e com a mente aberta, entendê-lo: o cara sabe o que diz.
Agora vocês: se espantaram com minha afirmação ai em cima, citando "judeus sionistas"? Uai. E vocês pensaram que era tudo a mesma coisa? Não, gente. Sionista é o judeu que ama Israel, e apesar de eventual divergência política, reconhece nela a pátria amada, o seguro internacional de sobrevivência de um povo. Existem outros. Outros tipos de judeu, digo. Amós Oz e eu estamos entre os primeiros, os que amam e apesar disso, criticam, procuram lucidamente encarar a questão como briga de chifre entre irmãos, onde ninguém pára pra ver que a situação mudou, o tempo passou, e é preciso pagar pra ver: como é que chegamos neste ponto?
É, gente. Tem gente que dá um boi pra evitar uma briga, e uma boiada pra não sair dela. Se apelarmos pra história, dá pra ver que é a hora de convocar um juiz justo, imparcial, sábio e sagrado como os profetas semitas, que árabes e judeus sabem criar em livro como ninguém. Ou no mínimo, um shochet pra matar o boi de acordo com as leis rituais do abate, evitando o sofrimento do animal e oferecendo um churrasco saudável de carne kosher pra todo mundo.

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Um mundo perfeito

Se eu fosse descrever um mundo perfeito, já ia começar pedindo um Brasil onde Zeca Pagodinho se limitasse a cantar. Mas depois outras idéias de perfeição atropelaram a premissa inicial. Estou ficando careta. Se eu fosse francesa, sim, teria votado em Sarkozy, e mandava Ségò crescer pra aparecer, apesar da solidariedade feminina. Vejo agora que, pelo menos em termos de aparência, uma França perfeita é sim, de Sarkozy: um cara jovem, charmoso, uma mulher e filhos lindos, e mais o beijo-na-boca-em-Paris, caramba, é muita novidade. Me repetindo, sim, que hoje estou com a cabeça alhures, puro charme francês, oba, gente. Tomara que ele volte. Faz muita falta num mundo perfeito, perfeito e perfumado e bem-vestido e regado a champã. Mas aí fui andando pelas páginas do jornal com esta idéia de um mundo perfeito e acabei chegando numa imperfeição enorme, e além de tudo, triste: a decadência urbana de Jerusalém. Segundo reportagem de Renata Malkes no Globo, aumenta a população de árabes e ortodoxos, tornando a vida dos jovens impossível. Vocês sabem que todo judeu, pelo menos uma vez por ano, canta " O ano que vem em Jerusalém"? Verdade, gente. Judeu que se preza sonha com isso o tempo todo, e não vou negar que também já sonhei, porque, sinceramente, não existe cidade como aquela. Quando estive lá pela última vez, há 9 anos, era ainda maravilhosa, o odor do sagrado em cada esquina, a cúpula dourada e as pedras milenares, as oliveiras, a agitação do mercado, lado a lado com os prédios modernos (mas graças a Deus, que em Jerusalém é Ele quem manda, nada dos exageros recordistas em altura, néon e vidro da nova China), a excitação da política, os bares contemporâneos da Rehov King David, ruelas, avenidas, burburinho. Se eu tivesse escolha e não houvesse guerra, violência, terrorismo e outros problemas, era lá que eu queria morar, e até sei muito bem como: num prédio muito, muito antigo, dentro da Cidade Velha, erguido naquelas pedras meio amarelas, janelas estreitas, arcadas, e por dentro... ah, gente. Uma Bauhaus pura, o chão nu com uma ou outra jóia persa combatendo a frieza, um espetacular sofá de linhas simples e couro branco, um Brancusi gigante no chão e uma orquídea única. Juntar a história do corpo à história da alma e viver feliz para sempre, velho e novo misturados numa mélange harmônica e romântica pra caramba. No more. Gente. Jerusalém é a alma do mundo pra todo mundo: judeus, cristãos, muçulmanos, bem, budistas não, mas tudo bem, não se pode ter tudo, e a gente vai deixar barato? Lanço aqui o meu protesto, reproduzindo a poética e ancestral declaração de amor do Alan, muito jerusalemita, no Hierosgamos. Foi quando ele me pegou de jeito. E por falar nisso, podem ir se despedindo, porque a partir da semana que vem essa moleza de ler meu romance de graça acaba. Dentro em breve, no papel, e já delirando: quando eu for convidada no ano que vem pro Amores Impressos*, me mandem, por favor, para Jerusalém.


* é trocadilho sim, viu, gente?

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O fim de uma era

Depois de um dia de trabalho estava eu muito bem conferindo os comentários do Todoprosa e me divertindo com o que aconteceu por lá ontem à noite, na ausência do titular do espaço, quando fui surpreendida pela notícia:
"Pelo que consta, ele teria “levado uma gravata”, também do policial. Não sei se é verdade. Olha o link aí."
Pensei: só pode ser engano, montagem, maldade. Sei lá. Fechei os olhos e esperei passar.
Mas não passou. De manhã cedo, na porta da frente, a notícia continuava lá, gritante, no alto da primeira página. Cruzes. Ou melhor, oyvavoy. Folheei o jornal, com a devida desatenção de quem está com a cabeça em outro lugar, isto é, no meu novo livro de crônicas (aguardem! aguardem!), mas nada mais conseguiu me distrair: nem a alta da bolsa, nem a queda do dólar e nem, pasmem, a crise anunciada de canalhice do Irã. A notícia continuava lá, gritante. Não adiantava mais fechar os olhos.
Pra me justificar, e amainar a minha vergonha, eu poderia dizer que desde o início a gente desconfiava do cara. Eu tinha quinze anos, e apesar de mineira freqüentava a CIP sempre que podia: meus amigos estavam todos lá, os candidatos a namorado também, mas isso já é assunto pra outro post. O rabino-chefe que nos dava palestras era o honorável Pinkus, com seu sotaque macarrônico alemão - é, gente, a CIP valoriza mesmo um sotaque -: "Querremm que eu parre o non?" Do lado, aquele cabeludo com mais sotaque ainda, americano, com cargo, sei lá, de estagiário de rabino? E isso existe? O tempo passou, o Sobel mudou, mas o cabelo continuou o mesmo: nenhuma diferença. A juventude passou, o rabino Pinkus não sei, deve ter morrido, chato e honorável como sempre viveu.
Mas o Sobel, tsk tsk. Página inteira no Globo atesta o ativismo político dele, sua vocação (e atuação) para a defesa dos direitos humanos, mas eu poderia ser mazinha e dizer: hum. Ele nunca me enganou. Me enganou sim. Me acostumei a ver o rosto meio aparvalhado dele incluindo a comunidade judaica na realidade brasileira. Teve seus momentos bons.
E as gravatas? Quem olhar bem pra foto dele verá que parece perturbado, meio drogado: um Maradona de sinagoga, ó Deus, onde estás, etc etc? Humano. Tristemente humano. Dessa esparrela não vai ter volta por cima. A comunidade judaica brasileira, espiritualmente órfã, já espera um novo líder. Mas que eu senti a maior pena do cara, senti.
E agora? Pode até parecer cruel, mas é apenas humano, gente. Rei morto, todo mundo sabe: rei posto. O Rio tem excelente candidato ao cargo de liderança espiritual judaica no Brasil. Clarice Niskier que o diga.

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X-R-I-X-C-X-R

De uns tempos pra cá cedi à insistência do Alan, preocupado com a condenação genética que paira sobre a minha memória: faço palavras cruzadas diariamente. No Globo, costuma ser meio fácil e tenho tirado de letra (sem trocadilho), mas hoje, empaquei. Fiz tudo rápido e deixei de fora apenas uma palavra daquelas, quase toda preenchida, faltando apenas 3 letrinhas que não vinham de lugar nenhum: atividade essencial para o bem-estar de uma criança. Ih! Não sei. X-R-I-X-C-X-R. Fiquei lá, de caneta na mão, pensa, pensa. É. Não sei mesmo. Não tive infância. Na minha era stress em cima de stress: aula disso, aula daquilo, compromisso de manhã à noite, me preparando para esse avesso de sucesso que sou hoje. Não tive filho, como é que eu vou saber o que é essencial para o bem-estar de uma criança? Nem sonhando. Não sei, gente, desisto. Vou ter que esperar até amanhã pra ver o resultado, 3 letrinhas apenas... Pensei: carícia, não, não dá. Caricar? O quê? Amar não. É curto demais.
Nesta manhã de Natal, como em todas as demais, não vou sair pra rua pra exibir os meus... opa! Brinquedos! Não, gente. Não é que eu tenha sido uma criança abandonada não. Apenas não sou cristã, sou judia e nunca ganhei presente de Natal. Não tenho tempo pra brincadeira e já nasci com essa seriedade toda. B-R-I-N-C-A-R. Não foi à tôa que custei tanto a descobrir, já que não pratiquei muito até conhecer o Alan e me soltar no mundo. No gozo. Quem teve uma mãe judia das boas, sabe. Como a Cintia Moscovich, de quem li de um gole só o "Porque sou gorda, mamãe?", lançamento de fim-de-ano da Record. Confesso: um pouco chocada. Tomara que seja mesmo meio-ficção, porque senão... Coitada. Da mãe. Dela. De mim, nem tanto, porque me identifico e por isso sei: o que tem de ficção ali é pouco. Sempre me achei gordinha, mas não tanto. Sempre me achei neurótica, mas nem tanto. E mamãe, bem. Hum. Sempre foi mazinha. Mas nem tanto.
Quando escrevi - e publiquei - meu primeiro livro, fiz uma revisão desse tipo entre mamãe e eu, com um medo danado da repercussão. Me senti culpada à bessa, confessando em publico as nossas misérias, mas perto da mãe da Cintia a minha era light, sério. A mãe de bruxa no "Eu, xamã" não chega aos pés da mãe bruxa real/imaginada da Cintia, apesar das muitas coincidências. Não sei se a Cintia perdoou a megera dela mas eu já, a minha. Tadinha. Como o trapo humano que virou, já pagou seus pecados todos - ela que sempre afirmou não ter nenhum - navegando em vida feito alma penada entre a carência afetiva inexplicada e a fantasia do abandono, ninguém merece. Mãezinha. Meu próximo livro, que escreverei ainda não sei quando, vai dedicado a você, querida: uma mulher apenas infeliz que teve tudo, mas perdeu o rumo da alegria. Se pelas páginas da Cintia me purifiquei, aprendendo a te amar, é só porque sou amada agora. Tudo deu certo no final, mamãe. Pode ficar em paz, você já fez por merecer. Custei. Mas te perdoei. Já posso ir lá fora brincar. Já posso crescer, mamãe. E vou. Prometo.
Não sei bem porquê, mas os escritores judeus que tenho lido entraram todos nessa, de purgar na literatura o passado, o desamor, o afeto familiar ressecado. Eu também. Diz o Alan que é por medo, medo de que um passado de perdas contamine a esperança de futuro. Mas agora chega, gente. Entupir as feridas de tanto sal não vai levar a nada mesmo. Freud estava errado, afinal, e ainda por cima comeu a cunhada, vê se pode, cobra criada. Não foi por mal, foi por pulsão sexual e pronto. O jeito dos pais não foi por mal. Foi o que deu pra fazer e pronto. Daqui pra frente é com a gente, e o melhor que a gente faz é levar na brincadeira, mudando pra gozo o estilo dramático dessa história: mais amor e menos mau humor. Melhor lavar a roupa e jogar a água suja fora. Não serve pra beber, e quem experimentou, sabe: pode até matar, por isso escreve aí. Bê. Ene. Á. Matei a charada, encontrei a palavra cruzada. Essencial pro bem-estar de qualquer um é ser capaz de brincar, de rir, de se alegrar. Como resolução de ano novo, cai bem melhor do que dieta radical, Cintia. Feliz 2007 pra você também. E por falar nisso, tanto na sua como na minha, a tendência pra engordar vem mesmo é do papai, do adorado, idolatrado, precocemente ausente, filho único de quatro irmãs que por imposição de mamãe não visitamos nunca. Pelo menos disso mamãe não tem culpa nenhuma.

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Transformando a dor em humor: um delírio literário

Limpei do meu armário a memória de gorda e dei tudo que pudesse me servir com dois quilos a mais. Eliminei maldições, coisas que mamãe impôs, lembranças tristes de dependência; roupas de que não gosto e uso porque ganhei e preciso agradar, agradar sempre. Agradar a quem?
Comprei passagem para o inferno e embarquei com meus demônios, eu e minha culpa inútil, mas agora rompi mesmo o cerco, não é? Estou a quilômetros, milhas, anos-luz de distância dela, na minha vida e não mais na vida dela mas depois do fórceps, não abri direito os olhos e ainda acho que estou no útero e que os ferros todos não passam de um sonho mau. Meu nariz não acredita que a qualidade do ar mudou e que os cheiros são agora outros. Abro o olho direito um bocadinho, vejo que a luz está mais forte e o Sol, opa, meio quente. Faço o caminho ao contrário e vou nadando pra dentro do útero em vez de sair dele, só mais um pouquinho, pra comprovar a cor dos ferros malditos e provar que não me ameaçam mais. Limpei do meu armário a memória da mulher que não goza, porque não há jamais de aproveitar a boa vida. Mas me enganei, porque ao entrar de volta, voluntariamente, no útero - com objetivos puramente científicos - calculei mal a minha fraqueza e a força deles, dos ferros malditos. Já não quero estar no útero, agora que voltei lá e finalmente voltei de lá, vivendo e vendo as criancinhas com as carinhas sujas, abandonadas pelo leite materno enquanto me entupi de leite e o Mateus me contando que depois de forjado o ser humano maduro, duro como aço, o leite fica corrosivo e a gente precisa se enferrujar um pouco, sim, com uma fina pátina de ferrugem que, dizem, protege da corrosão, mantendo a integridade do corpo que nunca mais vai tomar leite ou buscar o seio da mãe: o seio não está mais lá. A mãe engordou, ficou velha e meio desligada, o peito murchou e caiu. Ela não manda mais em mim e o leite que tem lá agora é muito indigesto e por causa disso esta manhã cortei o leite do café já que adultos maduros, forjados em aço e ácidos demais não tomam leite nenhum, só suco de grapefruit que, dizem, queima gorduras no novo comprimido israelense de ilusão que eu tomo seis por dia, só pra não gostar de leite e mel procurando em outros leites o meu deleite, muitos outros nessa terra que não engordam e fazem crescer muito, dizem, espiritualmente. Ainda vou convencer a todos de que sexo com amor é o melhor deleite. E não corrói. Quando eu puder – se Deus quiser - entrar em Sephoris, liteira dourada de mulher pra sempre magra e linda e nunca mais como Hércules lutar: os trabalhos terminarão. Minha própria deusa eu serei, no corpo dourado endeusada que não se deforma mais. Engulo a mim mesma e no autofágico ato de me engolir, vou finalmente me digerir, escrevendo comédia sem soltar mais gases. Foi nesse momento que abri os dois olhos, bem abertos depois do fórceps e se entrasse de novo no útero, seria de novo um parto de fórceps porque a bacia é muito estreita e ao enjoar dessa história de estar sempre nascendo, sempre um bebê faminto, pode ser que eu descubra que é o leite materno que dá gases e o desnatado da Parmalat não. Evoluí. Estou ficando rápida na espiral processual, os anos são agora dias e o leite acabou, o peito caiu. Os seios que não amamentaram nunca e leite nenhum verteram são... para o meu amado, da gazela os gêmeos olhos, e gazela para sempre? Será que eu posso ser? Esguia e livre correndo no prado os gêmeos seios numa taça onde o melhor vinho se bebe, moderadamente, é claro. Melhor que uma vaca pesada, vaca leiteira com as tetas inchadas e quanto é que custa em Israel? Tecnologia avançada pra tirar o leite, faturar com a tal história do leite e do mel sem contar pra ninguém que corrói os dutos do curral e o fígado de quem bebe? A vaca é gorda e ainda por cima, louca! Louca sou eu com essa imagem pesada de leiteira (esta mulher é uma vaca) e não contaram mesmo pra ninguém, não é? Gazela é mesmo um negócio bem melhor. Com os seios gêmeos e tudo, olhos azuis de Salomão engolindo salmão e comendo a amante num leito de cânticos. Em dia de semana. O tal Jeová do Velho Testamento sim, é mesmo esperto: iludiu o povo por uns 6 mil anos com aquela história de exílio, culpa e extermínio... Agora imagine. Se o gozo de Salomão e aquele mito de como era boa a Sulamita tivesse vazado, quem é que aceitaria ficar rezando? Servir para sempre a um único senhor?

Gostou? Está online, no "Eu, Xamã". Vai que tem mais.

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Espanto

Não vou me meter por lá, mas não dá pra dormir com essa. Causa espanto a quantidade de comentários anti-semitas no post de Tereza Cruvinel em 5/10, intitulado "Pausa para pensar nos cristais do mundo". Fui lá pra ler um pouco de política esclarecida e me afoguei na enxurrada. Menos, gente, menos. Acho que tem quem precise entender que anti-semitismo é racismo vergonhoso como qualquer outro. Afinal, descendemos todos da mesma Eva, doce mãezinha africana de 70000 anos atrás. Não sei porque no caso de preconceito contra judeu a desinformação é enorme. Deve ser porque o meu grau de informação no assunto é bom, então... Perco longe na comparação. Teve um, (meu Deus!) que chegou ao ponto de dizer que em Israel não há democracia, e que o estado governa para os judeus e não para os cidadãos. !!!???!!! Raciocínio além de estranho, equivocado, já que árabes israelenses têm todos os direitos democráticos, e que eu saiba, até deputados na knesset, me corrijam se eu estiver errada. É claro que se restrigem aos árabes cidadãos, imaginem se houvesse direito de voto para todos os árabes??!!!?? Ou para todos os judeus? E vou parando por aqui. Ainda não me recuperei dos embates hezbollah-israel de julho/agosto. Mas em 53 anos de boa vida brasileira nunca imaginei que existisse neste país tanto ódio contra os meus, ingenuidade pura. My bad.

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