Noga Sklar é arquiteta, escritora e editora. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica à literatura. Como editora, é pioneira na publicação de livros em português para o Amazon Kindle.
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
O caso do vagalume que se encantou pelo led da impressora
Pois é. Eu já devia ter-me dado por satisfeita com a arriscada aventura zoorromântica na crônica de ontem, ui, parece que gaguejei, gorgolejei, bem a propósito, mas não adianta: morar no mato, aparentemente, é deslumbrar-se com a bicharada cotidianamente, não tem jeito. Vai daí que eu já me recuperava do impacto causado pela visita da incrível siriema, caía lá fora mas vista de dentro a vasta noite estrelada, através como sempre da porta de vidro bem fechada — que Alan deu ultimamente pra ter medo de tudo que não sendo humano possa esgueirar-se para dentro de casa —, ai que eu às vezes quase sufoco, mas, fazer o quê. Se me sinto tão mais tranquila que ele, em meio à variada profusão de insetos que aqui convivem, tenho certeza, no fundo no fundo, de que não deveria. Imaginem, por exemplo, se aquela aranha grandona e peluda que vi no jardim no outro dia, enquanto arrancava o esperto mato ereto que insiste em trepar por cima da nossa grama mal crescida, a meros dois centímetros de distância do meu desavisado pé descalço, fosse mesmo aquela peçonhenta que Alan buscou no google, cá entre nós, procurei, procurei, e tampouco escapei:
de todas as fotos que encontrei, somente aquela pior de todas, a mais venenosa de todas, a armadeira — que arma com seu veneno, entre tantas outras perigosas ameaças, aprendo, uma boa cilada* para usuários daquele tipo excitante de droga, vocês me entendem, propagada por spams como revitalizadora de casamentos, e que "entra frequentemente em habitações humanas à procura de alimento, parceiros sexuais ou mesmo abrigo, escondendo-se em roupas e sapatos", o que, graças a Deus, ainda não nos aconteceu —, se parecia com a que eu vi. E eu que nunca me lembro, imaginem, de checar os sapatos no closet antes de calçá-los, um perigo fatal sempre à espreita dentro do nosso armário. Pois o problema, ou a sorte, não sei bem, é que Alan criou para nosssa casa na Serra um moderníssimo puxador de blindex que deixa aberto um orifício no vidro, caprichosamente emoldurado por alumínio fundido, sem trocadilho, franqueando a passagem a pequenos insetos mesmo com a porta lacrada, e deve ter sido por lá que ontem à noite, enquanto caía lá fora o manto negro de estrelas precocemente desprovido de lua, entrou quarto adentro um vagalume aventureiro, atraído quem sabe pela luzinha verde no alto da estante, tão semelhante à dele, "alma gêmea", deve ter pensado, se é que vagalume, além de pensar, planeja e sente alguma coisa. Só sei que o pobre inseto permaneceu no quarto a noite inteira, piscando sua brilhância intermitente ao ponto do desespero, pra cima e pra baixo em torno do sempre aceso led da impressora, taí: patético retrato do impraticável encontro marcado entre natureza preservada e tecnologia avançada que nós aqui em casa, entre tantas outras aventuras impossíveis, temos tentado promover. Não sei não (mal escondendo o sorriso). Mas pelo repentino, inesperado e bem recebido surto amoroso de Alan nesses dois últimos dias, acho que meu marido, enquanto dormia, deve ter mesmo sido picado por aquela ameaçadora aranha armadora, só pode. Ô delícia, gente.
*para quem não sabe, ou não entendeu direito, atenção, farmacêuticos, o veneno da "armadeira" pode causar priapismo, uma espécie indesejada de efeito colateral erétil
Tendo mergulhado com vontade no realismo sessentista de The Bell Jar, confesso que me decepcionei ao final: acho que faltou a Sylvia Plath a coragem de dar os devidos nomes a certos vilipendiados bois, e isso, imaginem, 40 anos depois de ter sido publicado o espantoso Ulysses de James Joyce. Explico: tendo enfim identificado, sem sombra de dúvida, a fonte de seus neuróticos tormentos na obrigação de encontrar marido, e mais, de se manter virgem até o (único?) casamento, no descompasso gritante entre a liberdade sexual dos rapazes e o confinamento moral das moças, e, mais ainda, mas não ao menos, na incipiente cultura pós-familiar vigente que, timida e disfarçadamente, começa a incluir no cotidiano da gente a maior liberdade amorosa proporcionada pelo controle da natalidade, ufa, tell me about it, enlouquece entre nós qualquer uma — e às mais sensíveis, tá certo, restava somente o aprisionamento: físico e mental —, Sylvia Plath se retira covardemente ao pântano literário dos males ficcionais maldefinidos, entre outros: um doloroso e mal explicado defloramento forçado (por ela própria, fique bem entendido) e uma eufêmica visita médica que resulta, imaginem, num prosaico e nem assim nomeado diafragma. Nada, nadinha, sobre a ultrajante vagina latejante.
Resta o entendimento bastante ultrapassado de que o fim tão esperado da hedionda virgindade provoque, enfim, a cura de todas as dores (temporária, como se viu: a lendária Sylvia Plath acabou se matando de verdade — casada, divorciada e com filhos — poucos meses depois de publicado o livro). Duas questões: depois de rompido o hímen detestado, ah, amigas, no nosso tempo e também, acredito, nos liberalíssimos tempos que correm, impera absoluta a negra nuvem assustadora da frigidez, experimentem só como só um legítimo orgasmo amoroso libera de verdade uma psique feminina ameaçada; e outra, esta aí, sim, mais irremediavelmente ameaçadora da frágil saúde mental: a dúvida permanente quanto ao imanente talento literário, durma-se tranquila com um pânico desses. Se coragem tivesse pra lidar ironicamente com um tema tão árido e sério como "suicídio precoce de escritor promissor" (me preparando, aqui na mais verde encolha, para o caso ainda mais grave de David Foster Wallace), eu iria apelar de uma vez para a negação amplamente divulgada da intenção frustrada de uma leitura de James Joyce: Esther Greenwood, personagem principal do livro e provavelmente um alter ego de Sylvia, prepara-se no tétrico verão descrito para defender sua tese de formatura sobre um Finnegans Wake que, a partir de certo ponto, acaba abandonado e nunca mais mencionado, ah, bom: aí já deu pra entender tudo (a verdadeira Sylvia, esclarece a biografia, acabou defendendo tese sobre "a dupla personalidade nos romances de Dostoievski"). A pobre Sylvia, aparentemente, não foi além da primeira página, riverrun, etc., etc. E pra quem duvida da minha mui duvidosa teoria que atribui a uma incompreendida adoração por James Joyce a verdadeira raiz da doença mental da escritora, acrescento: Sylvia Plath é literariamente reconhecida por ter desenvolvido a tendência confessional em poesia, e mais, casou-se em Londres com Ted Hughes, hum, imaginem, num Bloomsday, que tal essa, como prova hipotética indiscutível? Hein? Ah. Tudo bem. Pena que meu Língua já siga acelerado a caminho do prelo ou eu, sem nenhuma sombra de dúvida, incluiria Sylvia Plath no caudaloso episódio "Tentáculos Literários de James Joyce", ah, melhor mesmo deixar pra lá. Artigo de hoje na Reuters informa, confiram lá, que embora a maioria dos apreciadores de literatura confesse publicamente o seu apreço por Ulysses, de James Joyce, são poucos, na verdade pouquíssimos, os que se aventuram para além do Harry Potter de J. K. Rowling. Fazer o quê.
"Yoni Massage proporciona uma qualidade excepcional de prazer, muito além da experiência sexual que as mulheres em geral possuem através das manipulações usuais do clitóris e da vagina", afirma no email que recebi esta manhã o pesquisador (?) Deva Nishok, criador de um "método único e exclusivo de massagem na Yoni [vagina, em sânscrito]". Um choque.
A coisa vai muito além da masturbação, esclarece ainda o "observador de vaginas", que em seu espaço paulista oferece as condições ideais para a prática, um método "único no mundo" que não tem nada a ver com sexo embora, claro, deva ser praticado sem roupa, pois a roupa, vocês sabem, absorve energia "prejudicando o trabalho". Bem. Hum. Eu até pensei em deixar passar. Depois pensei em contar o milagre, mas deixando de fora o nome do santo, vocês sabem, ultimamente tenho sido ameaçada aqui no blog por causa da minha grande boca, taí a explicação do "disclaimer" logo aí em cima que apareceu faz poucos dias. Mas não consegui. Além do mais, o sujeito mantém um site e instalações públicas, com fotos dos "terapeutas", entrevistas e o escambau, porque é que eu deveria ser discreta a respeito? Com todo o respeito. Argh. O caso é que já fui, digamos, vítima voluntária (e pagante, claro, pagando bastante caro) de um esquema invasivo e abusivo desses, um produto de mentes bem doentes muito bem camuflado com doces sorrisos e o codinome perigoso de "terapia". Participei, faz muitos anos, de um workshop de tantra que, pasmem, aceitava e incentivava solteiros desacompanhados, e olhem que esse em que estive nem chegava aos pés da ousadia deste de agora, vamos combinar. Enquanto "os trabalhos" se restringiam a massagens, aromas e música suave, dava até pra encarar. Mas a coisa pegou feio com o conselho do terapeuta, ou melhor, com o "dever de casa" que ele passou, e que chamava mui explicitamente — ao contrário desse Nishok de agora, que tenta disfarçar o ato infame sob a capa de um vocabulário pseudo-científico — de... masturbação mesmo. O problema é que a gente devia praticar na cama, antes de dormir, num quarto com três ou quatro mulheres sozinhas, ai, gente. Doeu. Nunca mais. Poucas coisas neste mundão de Deus me fizeram tão mal, reforçando à enésima potência meu padrão traumático-sexual de mineira enrustida. E reprimida. Não é que eu tenha alguma coisa contra a masturbação, gente, não. É um caminho tão bom como qualquer outro para a gente conhecer o próprio corpo, relaxar a tensão e vencer pudores culturais absolutamente sem sentido, mas sim, trata-se de sexo sim, e puro sexo. E daí? Pelo menos não pretende enganar ninguém com esse papo furado de "terapia". Além do mais, deixa eu contar pra vocês que nem toda a masturbação do mundo substitui o orgasmo a dois — orgasmo com amor, claro — e o prazer sexual, sim senhor, que somente a confiança e a entrega mútuas de parceiros em plena intimidade pode proporcionar. Se alguém te contar uma história diferente, francamente, não acredite: é tudo mentira. Imagine agora os dedinhos espertos de um estranho que você nunca viu antes, travestido de terapeuta, "manipulando" profissionalmente o seu clitóris para resolver questões de inibição, frigidez, sei lá, ai, arrepio. Na minha terra isso tem outro nome, é ou não é? O que me lembra aquele velho método de tratamento para a histeria, vocês se lembram, que acabou dando origem aos superpopulares vibradores de hoje em dia, responsáveis, aliás, na minha modesta opinião careta, por grande parte da inabilidade feminina para atingir o gozo. E quanto aos pobres coitados dos homens, esses seres inferiores que não tem "Yoni" nenhuma para latejar, Deva Nishok não os deixou de lado não: desenvolveu para eles outra técnica única de massagem no "Lingham", bem, lingham já dá pra imaginar o que é. Em sânscrito, claro. E aqueles que insistem em esfregar a yoni de alguém podem também participar do curso, sem problema: desde que tragam a sua "modelo" particular para manipular. Em tempo: a sessão particular de yoni e lingham massage (acrescidos do "R" de marca registrada, viu gente?) custa "apenas" 250 reais. Quanto ao workshop coletivo, tem a duração de um fim de semana e custa 650 reais, também, não é pra menos: sua xoxotinha vai ser manipulada por dois dias inteirinhos, sem ninguém pra perturbar ou interferir. Com intervalo para o almoço, não se preocupem, meninas: periga até ficar inchadinha, a coitadinha. Vamos combinar que num outro contexto qualquer uma "técnica" dessas seria um caso de polícia, isso sim, do tipo que a gente vê em Law & Order SVU, série do Universal Channel sobre aquela unidade especial da polícia de Nova York que investiga crimes de natureza sexual. Fala sério. Chama a Olívia e o Elliot aí, ops, são quase sete: o programa já vai começar, tchau procês.
Deu no Ancelmo: "Carolina Virguez, atriz colombiana naturalizada brasileira, estréia em agosto no Rio monólogo sobre a ex-senadora libertada ontem pelas Farc. Carolina corre agora para reescrever o fim da peça, a menos de um mês da estréia." Sei o que ela está passando (a Carolina, claro, porque o tamanho do alívio de Ingrid nem sequer imagino).
Já tive que reescrever bem mais que um capítulo de livro — trocar um final feliz por outro — quando o protagonista absoluto da história, sério candidato a alma gêmea, virou um ogro de um ex-marido de um dia para o outro. No caso de Ingrid Betancourt, vamos combinar que o final feliz estava por um fio, mas do jeito que foi, fazendo os guerrilheiros de bobos e ainda por cima passando a perna em Chávez, sem disparar um tiro, lavou a alma de muita gente. De quase todo mundo, ô bom. Ingrid parece bem. Graças a Deus. O que teve um efeito enorme na minha auto-estima, sério, depois de meses me sentindo culpada (e com um medo pânico de ter sido injusta e burra) por ter revelado uma suposta armação política por trás daquela famosa foto que rodou o mundo com o patrocínio conjunto de Chávez... e das Farc. Próximos passos para Ingrid: publicar um livro e se eleger presidente da Colômbia em 2010. Desde já vai meu voto pra ela. Outras coisas que aconteceram ontem — e isso, claro, sem incluir na lista a derrocada das bolsas, que já vai virando rotina num mundo em que tantos valores passam por radical processo de transformação, ui, soei esotérica agora, não foi? é vício, eu sei — causaram em mim essa impressão redentora de destampar a panela de pressão: liberou geral. Comecei a ver tudo mais claro e a me preparar pra seguir em frente, ufa. Não que o mundo esteja finalmente aceitando a possibilidade de paz, gente, não. Mas já dá pra ver esboçada, ainda que meio enevoada numa imagem malhada de bola de cristal rachada, a prova cabal de que a paz mundial não seja um conceito, assim, tão ridículo, ingênuo, improvável. Aqui em casa também houve um passo à frente, bem, o que não exclui os muitos passos futuros para trás: meu marido resolveu se livrar de um determinado remédio, e está lá, coitado, voluntariamente se virando insone na cama de um lado para outro enquanto me avisa que não quer mais, de jeito nenhum, que eu compre a tal groga, ops, droga. Droga legal, com receita oficial e tudo, claro, que o desafio sarcástico à lei não é mesmo comigo, mas ainda assim, uma droga. Curioso foi ver no recém-transferido Blog do Gerald a confissão do próprio quanto aos efeitos nocivos de anti-depressivos e outros celebrados da classe que, modéstia à parte, eu já tinha enfocado aqui no Noga Bloga. Gerald enfrenta com bravura (ui!) e graça a questão da grave incompatibilidade dos consumidores tarja-preta com a sensação do orgasmo e explica, pra quem não entende, a diferença fundamental entre trepada e gozo, pra surpresa e deleite dos leitores dele. Não meus, que aqui em casa sei muito bem como é isso, e parceiro que não goza junto não tem a menor graça, vamos combinar. Agora, cá entre nós, meninas: de trepar sem gozar a gente entende muito, né? Eu, pelo menos, entendia, claro, até conhecer o Alan: uma agonia. O que me leva a contestar o tamanho do poder de alívio que as drogas modernas oferecem contra a depressão, o mais moderno de todos os males. Não sei não. Vocês acham mesmo que é bom negócio trocar uma vida sem graça por uma graça sem gozo? Cartas para a redação.
Tô com a Míriam Leitão: também cresci acreditando que a dívida externa brasileira era impagável, e agora, ó: taí. Só não sei muito bem por que, enquanto a gente devia as calças que vestia, era este o maior problema do país e agora, que a gente já não deve, continua correndo atrás do prejuízo.
Enquanto os países mais ricos do mundo têm também a maior dívida, uai, gente, não entendi nada, saca só:
(em milhões de dólares) 1 - Estados Unidos: 12.250 2 - Reino Unido: 10.450 3 - Alemanha: 4.489 4 - França: 4.396 5 - Itália: 2.345 6 - Holanda: 2.277
Ah, bom, o Alan me explica: o que importa aqui é o percentual da dívida em relação ao produto interno bruto, entendeu, papuda? Mas eu, que duvido de tudo, continuo achando que essa matemática global desafia demais o senso comum, ou então, vamos combinar: não vale grande coisa. Só pra não dizer que não valorizo as vitórias nacionais: valeu, Brasil! Congratulo quem? Um presidente que avisa que agora sim, é hora da gastança oficial? Hum. Melhor mesmo é deixar o governo de lado, ir com tudo na iniciativa privada. Mesmo porque se eu não for por mim, quem será? Está na Bíblia: sabedoria antiga. Hum. Assunto chato, por falta de outro melhor, ou menos privado: vocês eu não sei, mas tem gente que só pensa mesmo naquilo, embora eu tente o quanto posso desviar pra outro lado. Mas tenho que confessar: tudo pela audiência. Paciência. Ninguém é perfeito. Foi eu nomear uma crônica de Ulysses "Falando de sexo com James Joyce", com a maior inocência deste mundo, para o meu novo blog sobre o mais intelectual dos intelectuais romances da literatura começar a subir que nem foguete no ranking. Ô raça. Ó vida. Tomem tento, crianças: há mais nessa vida do que sonha nosso afã de gozo grátis, fala sério. Depois tem quem reclame quando Joyce é acusado de pornografia: uma dúvida eterna sobre a seriedade da censura. Tomara que pelo menos ajude a vender livro, né? O meu, pelo menos. Bom domingo.
Não pretendo escrever uma crítica, mas me estender por pouco mais que um link na coluna aí do lado. O caso é que "Trade" ou "Desaparecidos" — segundo o DvdClube em março nos cinemas — toca num nervo exposto pela terceira vez em pouco mais de um mês aqui no blog: o tráfico sexual. Gente. Não é possível tanta maldade no mundo, mas há mais que maldade na ironia destrutiva disso tudo: transformar nosso maior prazer no nosso maior pesadelo.
Eu me pergunto: será que isso não faz parte, ou é decorrência, da hipócrita moral sexual a que a civilização social nos obrigou? Não se vê por aí ninguém traficando comida, ou o ar que se respira ou a água que se bebe, bem, ainda. Mas sexo, sim. E cá entre nós: apesar de estupendo, enquadro o sexo na mesma categoria-de-sobrevivência-básica de comida, água e ar. E outro jeito de encarar isso encaro como não mais que hipocrisia. Falsa moral. Ou desvio de poder para manipulação de infelizes minorias, e é preciso com urgência mudar isso. Liberação já.
Tudo bem. Seria mesmo maravilhoso ter uma mulher no comando dos Estados Unidos, por que não? Tem uma na Alemanha. Tem uma no Chile. Pode ser que em breve no Brasil tenha uma. E cá entre nós, não existem motivos para duvidar da capacidade política feminina. Lembram aquele seriado da Sony, "Commander in chief", com Geena Davis no papel de presidente americana? Não era incrível? Não dava a maior vontade?
Mas, pelo menos no que me diz respeito, esta mulher não é Hillary Clinton, e por diversas razões. Me arrisco até a dizer que Hillary ofende o gênero político feminino:
— Confunde rigidez com autoridade — Ao se ver sem argumentos, apela para o melodrama para escapar do desastre — Se preocupa demais com o cabelo e outras vaidades — Gasta seu tempo livre arrumando o closet (isso já é fofoca de jornalista, enfim, nada mais "feminino") — Por fim: Hillary mente. Mente, distorce e manipula.
"Hillary faz cara de veterana", escreve hoje no Globo a Miriam Leitão, "quando também não exerceu cargo executivo. A menos que se aprenda a governar por osmose, ela também é inexperiente." Por osmose, ou então, quem sabe, por fraqueza de marido e, ainda por cima, marido insatisfeito. Se a gente optar por pensar que a força por trás do governo Clinton era uma mulher mandona, ai, gente, a coisa fica pior ainda. E em caso de guerra, ou de algum emergência trágica, como será que ela vai reagir? Com dureza ou se desmilingüindo? Ah, sim. Pra quem já não faz idéia, "de paquete", ou "regras", eram eufemismos de um tempo em que menstruação era palavrão e a condição feminina, motivo pra se envergonhar, se esconder do mundo. Não conheço regra melhor para ser quebrada, embora me pareça que a Hillary não saiba exatamente como. Tomara que eu esteja enganada. Ou que ela não acabe nomeada.
"É mais fácil e mais lucrativo traficar gente do que traficar drogas", afirma nos extras do dvd o roteirista de "Senhores do Crime", candidato ao Globo de Ouro de melhor filme no próximo domingo. Não vi ainda todos os concorrentes, mas embora meu coração romântico se incline sempre para o lado do amor, fiquei na dúvida entre dois filmaços: este, e o já elogiadíssimo aqui no Noga Bloga "Desejo e Reparação". McEnvoy é também um preferido, mas fala sério: o queixo duro, a cabeça rígida sempre meio inclinada, e o corpo desenhado na agulha de Viggo Mortensen dão de dez a zero*.
Nunca prestei a menor atenção nesse cara — que, aliás, não faz nem um pouco o meu tipo —, e David Cronenberg, na minha cabeça, nunca passou de um estranho, querendo dizer esquisito mesmo. Pois os dois se juntaram (desculpem a minha ignorância: não é a primeira vez) pra mostrar um lado mais assim, digamos, "ilha das gargantas cortadas" da swinging London. Mas não foi a violência do filme que me atraiu, claro que não. Foi mais uma vez o tema das escravas brancas, do comércio cruel de mulheres — atraídas por falsas promessas de uma vida melhor, e traídas logo em seguida por inescrupulosos traficantes de gente —, e mais uma vez: russos. Vou deixar de lado por enquanto a questão recorrente da truculência dessa turma oriental do crime, que faz os tradicionais mafiosos italianos parecerem benfeitores da humanidade. Não sei o que há de verdade, o que há de propaganda xenofóbica nisso, e tento acreditar que como em qualquer outro lugar há russos bons e russos maus, filhos de uma "Mãe Rússia" que já deu Pushkin, já deu Dostoiévski, Nureyev e Stravinski, gente: melhor parar por aqui pra não deixar de lado grande parte da cultura civilizada. Hum. Melhor falar de um assunto do qual entendo mais: a fragilidade exposta da mulher. Gente: de onde é que vem isso? Essa passividade anacrônica, essa certeza fatal da queda, essa fraqueza de minoria explorada? Essa ilusão de liberdade que nos transforma rapidamente em vítimas do sexo? Soa absurdo, eu sei, culpar a vítima pelo crime que a vitima. Soa injusto e historicamente abusivo dizer que a mulher é conivente no estupro, distorção legal que, aliás, limita a seis meses a pena por tráfico de mulheres: se considera sempre a possibilidade de anuência por parte da vítima. Não é nossa "carne" que é fraca, mas sim — sim e somente — o nosso corpo de carne e osso que é mais fraco, geneticamente, que um corpo de homem: mais sujeito ao abuso, ao ataque, à ferida. O que deixa ao homem, pelo menos, o papel romântico de oferecer proteção. Nosso espírito e nossa capacidade de resistir moralmente, por outro lado, são quase invencíveis, e é nisso que devemos confiar. O que não devemos, de jeito nenhum, é deixar que espalhem a nosso respeito rumores indevidos, como este "moderno" gosto adquirido por brinquedinhos eróticos e sexo casual, deixando o amor de lado como se fosse um passo em falso, do qual deveríamos nos envergonhar. Mas, gente: nossa grande força é a capacidade de amar, de cuidar, de se emocionar. É esta força que os machos "modernos" procuram adotar, é dela que precisamos para sobreviver. Eu não queria tocar no assunto, mas chego a pensar que foi a lágrima explícita — sincera e sentida — de Hillary Clinton, na manhã de ontem, que emocionou o eleitor e acabou virando o jogo. A dureza dela é que não foi. E fico sentida de não conseguir ver nela uma boa chance de ter uma mulher no governo dos Estados Unidos. Não gosto dela e pronto, e acabo de descobrir de onde vem minha implicância: a poderosa... dando um ataque de mulherzinha? Saindo mal na foto e pondo a culpa no... cabeleireiro? Só mesmo brincando um pouco pra relaxar, porque, falando sério: a crueldade realista deste "Senhores do Crime" me tirou do sério. E a vontade de fazer alguma coisa, pra mudar este triste estado de coisas, me faz perder completamente a graça.
*Tá certo. Vocês repararam. Nem uma palavra simpática de minha parte para Keira Knightley e Naomi Watts. Normal. Ambas são lindas e estão muito bem, alternando doçura e força do jeito que a gente gosta, mas sei lá: é a sensibilidade masculina que mexe mais comigo lá dentro, normal, eu acho.
"... os instruí em alguns fundamentos do funcionamento sexual: ...como Marvin podia abordar o sexo menos mecanicamente; e como ele podia, se perdesse a ereção, levar Phillys ao orgasmo, manual ou oralmente."
Irvin Yalom em "O Carrasco do Amor", aconselhando um casal na faixa dos 60
Uai, gente. E eles não sabiam disso? Não sei se foi minha irritação com o último capítulo deste livro e suas pretensões terapêuticas sobre o prazer sexual. Ou se foi porque li no Verdes Trigos que filósofos modernos "trouxeram para o centro do debate as questões de gênero, poder, sexualidade e etnicidade até então jamais abordadas". O fato é que a noite passada tive um quentíssimo, e estranhíssimo sonho erótico. Eu tinha ido a uma rave com um casal de amigos, e lá pelas tantas, me perdi deles e fiquei sozinha. A mulher do meu amigo, aparentemente, estava por trás disso: sem motivo nenhum, morria de ciúmes de mim. Na cena seguinte eu estava na cama com um garoto, hum, digamos, um cara bem mais jovem, cheio de gás. A gente pulava, se retorcia, voava sobre a cama num malabarismo tão inédito quanto impossível, até que o rapaz ejaculou com energia comparável à performance. Não cheguei ao orgasmo e ele ficou meio sem graça mas eu, compreensiva, disse que não tinha problema. Me levantei pra ir ao banheiro, tão sujo aliás quanto o resto da sala, e encontrei a mulher do meu amigo saindo de debaixo da cama: "o que estava acontecendo? ouvi uns ruídos estranhos." Caminhando pela praia eu ia refletindo sobre o sonho, com foco na idade, na diferença entre os sexos, na ignorância sexual da mulher — preocupada apenas com o ciúme —, na minha insatisfação, ou melhor: na ilusão do desempenho frenético e no grande alívio que senti ao acordar tranqüila na minha cama limpinha. Eu tinha planejado — e o Segundo Caderno do Globo parecia enfatizar isso — prosseguir com minha análise da velhice, da decadência física, do poder jovem, ou melhor, da obsessão em se manter jovem, mas não sei como nem porquê acabei desviando o assunto para a ignorância feminina em relação aos nossos próprios atributos. Eu sei, eu sei. Avançamos muito e já somos capazes de seduzir, conduzir o jogo do sexo, freqüentar sex-shops e até "telefonar no dia seguinte". Mas será que é disso que se trata? De manipular o parceiro, tratar das aparências? Sim, porque pensando bem, a indústria da vaidade se concentra, até certo ponto, em dessensibilizar o corpo. O botox alisa a pele e paralisa os nervos. E o silicone? Diminui a sensibilidade dos seios? A mobilidade e o toque, pelo menos, sei que são alterados, mas ninguém parece ligar pra isso. E o que dizer dos aterrorizantes antissépticos vaginais, divulgados como se fossem indispensáveis para a saúde? Não cheira tudo a conspiração anti-sensual? Tá certo. Posso estar exagerando. É meu estilo, mas vale a pena refletir a respeito. A indústria da eterna juventude quer nos convencer, de qualquer maneira, que com a idade estamos condenadas à frigidez, à decrepitude: tudo cai. A pele racha; a vagina seca; a libido encolhe. Mas, gente! Quem sabe não é nada disso? Hein? Já pensaram nisso? Há quem diga que, na maturidade, o prazer sexual da mulher aumenta. A basear-me na minha própria história, sou inclinada a acreditar. E foi isso que me veio à mente esta manhã, enquanto eu caminhava. Imaginem o que acontecerá neste mundo quando deixarmos as frescuras de lado e nos dermos conta do nosso verdadeiro prazer —ao descobrirmos que a vaidade extrema nada mais é que uma conspiração vazia, nada a ver com o gozo real da vida — e de como é incrível o nosso poder.
"Passei o dedo médio pela vulva, até o botãozinho rosa do lado esquerdo: meu interruptor clitoriano de gozo. Comecei devagar a acariciá-lo, com os olhos bem abertos fixados nos olhos dele — o pau dele se levanta — enquanto ele observa, curtindo o meu ato dividindo meu prazer, meu dedo se movendo do clítoris à cona (aquela boca sugando) depois de volta, esfregando mais forte e mais rápido até o limiar do orgasmo, gritando o nome dele." Hierosgamos - Diário de uma Sedução
Estou chocada. Triste. Arrasada. O clitóris, todo mundo sabe, é o único órgão do corpo humano dedicado exclusivamente ao prazer, e que prazer. Bem. Todo mundo não. Os milhões de mulheres africanas, cruelmente submetidas à bárbara prática da circuncisão feminina, não sabem nada sobre isso. E jamais saberão. A elas dedico este trecho do meu livro. Que sirva como alerta às gerações de pais que, com a melhor das intenções, mutilaram suas filhas. Está na edição de hoje do NY Times. Confere lá.
Até onde você iria por amor? Vale até imaginar viagens loucas, renúncias, mudanças radicais. Mas no site oficial da Cartier, significa apenas gastar alguns milhares de dólares numa bobagem grifada. O que me leva a uma outra questão: gastar milhares de dólares numa bobagem grifada é amor por si mesmo? Um verdadeiro prazer? Ou um total desconhecimento sobre o significado do amor? Do prazer?
Em sua crônica deste domingo, Martha Medeiros cita a escritora e filósofa francesa Chantal Thomas: "na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer." Uai, gente. E eu que pensei que Chantal Thomas era grife de lingerie de luxo, vejam só que ignorância (e que poder do marketing), google rápido, ah, bom. Essa tem um esse a mais: Chantal Thomass, e por falar nisso, o que proporciona hoje em dia maior prazer? A sede ou a seda? O gosto ou o gasto? Tá certo. Na sociedade moderna, more often than not, os dois têm se confundido. E isso se reflete em tudo, até nas questões mais fundamentais como ter ou ser. Até no sexo, onde querem nos convencer que sem um bom artefato comercializado o gozo não vai pra frente, imagine, uma mulher que se acha moderna mas não tem vibrador? Por essas e outras não deve causar o menor espanto a confissão de Dercy Gonçalves: "nunca senti nada!", e parodiando a Martha, o fato de você estar transando nesta bela manhã de folga não significa que está tendo prazer. Talvez esteja apenas obedecendo às leis severas do "sexo livre", coisa pra domingo de lazer nenhum botar defeito.
"Sou um romântico do século 19", afirma Alberto Renault, vocês sabem, aquele que eu conheci no metrô. Considerado pela mídia um genial multimídia, conta na Revista do Globo que se considera um artista, e gosta mesmo é da criação, de ter idéias. Agora, não é o Alberto quem diz, nem Cristo, nem Lennon, nem outro famoso nenhum acima do certo e do errado, embora seja uma verdade universal: só a arte salva.
Sei, sei. Tem quem diga que é o amor e eu até concordo: o amor é importante. Mas nessa negra semana que graças a Deus já passou, não houve gesto de amor, ou toque, ou prazer no sexo que me aliviasse. Só a arte — o desafio de embaralhar o texto desembaralhando a dor — me trouxe um vislumbre de folga, um desejo de seguir em frente, de continuar, simplesmente, viva. De não ligar pra nada que não seja este impulso de estar só maquinando, elocubrando, descobrindo sob a trama do nada as ligações mais delicadas, mais perigosas, mais do que nunca misteriosas. Ocultas, mas óbvias. Obrigatórias. Sem o gozo da arte, ou a arte do gozo, a vida não rima. Nem tem ritmo. E o gozo da vida, meus caros, não tem nada a ver com essa empulhação pornográfica de supermercado, que andam querendo nos empurrar. O Alberto, com a rotina alucinada entremeada de silêncios, com seus muitos amigos temperados de recolhimento, com a mente disparada na frente enquanto o corpo que a contém, em franco disparate, relaxa e dorme... garanto que entende disso muito bem. Da rima, do ritmo. Do romantismo de século 19 que o 21 quer matar a qualquer custo, sem perceber que ao matar a alma do amor, mata o corpo também. Ou pelo menos, o que no corpo que ama faz algum sentido. Não é outra, não será nunca outra a conseqüência do sexo-sem-fronteiras que a mídia divulga, entulhando de artefatos grosseiros um íntimo território onde só cabe o lirismo, num embate inebriante de aromas. A dança dos corpos em plena harmonia do amor, exalando por todos os poros a fina arte de viver. Pêlos. Poeiras. Promessas. Pensando bem, eu deveria achar bom esse escancaro, essa desmi(s)tificação do que temos de mais mí(s)tico: a arte refinada do gozo. Deveria, para o bem do mercantilismo, pedir um patrocínio aqui para o blog à ABEME - Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico, calar de uma vez a sofrida boca de artífice da palavra escrita e cair de língua no jogo d'eles-excitando-elas movido a pilha, a pulhas, a susto. Oferecer meu erótico-porque-poético romance como brinde de Natal nos 22 mil pontos de venda da DuLoren, problema resolvido: ganhe um livro pra cada 100 reais em produtos da linha Kama Shastra, nome mais canhestro. Mas não posso, vocês sabem porquê? Por que não conheço as pessoas certas, e as que conheço, desprezo. Sou do Kama Sutra, não do Kama Shastra. Da vulva pulsante e viva, sem nenhuma ajuda de malhação pélvica (ginástica vaginal a domicílio, e com personal trainer? o horror, o horror). Diz a reportagem do Globo que Roni Argalji, dono da DuLoren, caprichou nas embalagens: sofisticados saquinhos de seda e caixas com motivos indianos. Acertou na mosca ao retratar fielmente o anti-romântico do século 21, o herói anti-gozo (e anti-herói) de Regina Navarro Lins que sabe tudo de fluidos, mas nada de sucos: um imbróglio cada vez mais elaborado e caro, mas sem nenhum conteúdo dentro. Este Argalji sim, é que é um gênio. E merece tudo, principalmente o sucesso de seus brinquedinhos, com o sexo detalhadamente explicado pela vendedora. Entendeu a fundo o desejo ardente do consumidor moderno: um fingidor do contentamento que acredita mesmo em ter tudo. E não ser nada. Já pra românticos dinossauros como (o Alberto e) eu, é um mundo cada vez mais hostil, banal, sem amor e sem arte onde tudo vira produto: produto de uma contagiante pobreza espiritual. Uma tristeza.
Lá vou eu de novo meter a mão em cumbuca e falar do que não entendo. Bem. Não entendo em parte. O que não se discute é meu apreço literário por terreno emocional minado. Tem gente que é um deprimido simples, daqueles que sofre até um determinado ponto, atinge o limite e pronto. Se mata na forca, no tiro, na overdose. Eu não. Mantenho esta obsessão por me matar com palavras — no mínimo uma vez por semana —, e o que é pior: espirro os restos no leitor. Quem vem sempre aqui vai ver que gosta. Ou então vejamos por outro lado: quando vejo o perigo à frente, tomo como missão botar a boca na mundo. O caso de hoje não sei qual é, e quem decide é você.
Só pra variar esta que vos fala, a que nunca assiste novela, vai buscar assunto na coluna de tevê. Patrícia Kogut, em seu controle remoto, anuncia o amor gay da vez na TV Globo, criado especialmente por Aguinaldo Silva para comover multidões: "um personagem homossexual terá tanta afinidade e afeto por uma amiga que optará por ela em detrimento de outros relacionamentos. Em determinado momento — adianta o autor — eles vão transar." É roubada, gente. Roubada pura. Já estive lá e não foi por pouco tempo não. Neste assunto sou peagadê, e dez anos depois do fim de outros dez anos de puro sofrimento, ainda tenho às vezes vontade de me matar por causa disso. Vocês sabem como é mulher. Gosta de homem mas lamenta a virilidade, o desleixo, o bloqueio de sensibilidade que às vezes vêm junto. Sonha acordada com aquele cara ideal: charmoso, cuidadoso, talentoso e mais meia dúzia de osos e ades com os quais se identifique, que goste de arte, de shopping, de chorar baixinho no escurinho do cinema. Que compartilhe com ela jeitos e assuntos e que na cama, por puro milagre, solte de vez os cachorros da testosterona num tesão infinito, depois, é claro, de acariciá-la docemente por horas, com um desinteresse prévio de animal doméstico. Um cara desses, hoje em dia, até existe. Mas continua sendo raro. O mais comum é a gente fantasiar aquele amigo gay, tão lindo, tão doce, tão... amigo, tão disponível, e tentar transformá-lo em amante perfeito, mas gente: é uma batalha perdida, e no fundo no fundo, um desrespeito à individualidade. Sua. Dele. Mesmo que os dois acabem transando. Eu sei. Aconteceu comigo. Eu entendo que a sexualidade tem matizes, gradações, liberdades e indecisões. Mas lá em casa, por mais que a gente se amasse, por mais que a gente tentasse, o muro alto entre nós permanecia. Era uma insistência tal da carência de um, pra cima da afetividade do outro... que só poderia mesmo acabar em desastre. E foi em desastre que acabou. Depois da história fechada, claro: cada um tece a memória à sua maneira. Eu só queria o bem dele — acreditava piamente nisso —, e em certo momento abri mão do gozo do corpo, me contentando com o gozo da mente. Gente. Não vale a pena porque se a mente é de gente, o corpo é de bicho, se é que vocês me entendem. E ele, tentando se erguer dos escombros tristes do nosso amor destruído, saiu-se com essa de sempre ter sido o melhor amigo, um sócio, um parceiro de negócios. Fui eu que com minha mania de sexo atrapalhei tudo. Não atrapalhei nada, e a dolorosa face da minha verdade é que eu queria o que eu queria, e ele o que ele queria. Em longos dez anos de nós dois, foram poucos os momentos de querer o mesmo. Aguinaldo garante que existem muitos casais assim, e se ele diz é porque sabe. Mas não há nada de belo, poético e compensador no mito romântico do amor impossível, isso quem garante sou eu. Amor bom é o amor viável, plenamente satisfeito, o amor com intimidade, afinidade e entrega, e em se tratando de uma relação adulta, com o prazer sexual atendido. Não há nada de belo na renúncia e no comodismo, por mais que em novela até pareça atraente. Essa idéia de herói sofredor já era, gente, e não existe desculpa, esperança ou feitiço que dê jeito em mal que já nasce feito. Amigos, amigos. Um companheiro de verdade, me acreditem, é outra coisa.
"Mas fundo na mente, eu sei. Sou eu que te amo mais, e Freud tem tudo a ver com isso. Com o sexo, digo, com o pacote que mandei, meu amor, com carne e tudo. E olhos e pêlos pubianos, calcinhas usadas, it will be soon."
Taí. Não tenho o menor saco pra livro policial, mas com uma resenha animadora dessas, dá até vontade de arriscar este "A interpretação do assassinato", eu nem sabia que o Xexéo lia, pensei que só via televisão. O que prova o pouco que se sabe da vida dos colunistas que a gente tanto admira (ops*), e que o apoio logístico à venda de um romance pode vir de qualquer lugar: fale de mim o quê e quem quiser falar, mas por favor, falem. Vejam. Comprem.
Aí, Xexéo: vou te mandar um exemplar do Hierosgamos (2x) pra ver se cola, embora não combine com teu estilo publicado. Bom. Basta de introdução. Joaquim Ferreira dos Santos, meu mestre de Paraty — este sim, adora o assunto do Hierosgamos (3x) —, já neste ponto do post teria, no mínimo, três coisas pra criticar: 1- o blablablá introdutório: longo demais; introdutório? ai meu Deus. 2- parêntesis e travessões: só criam confusão, atravancando o texto; tenta ler em voz alta pra sentir o drama. 3- a palavra "logística": hum, não sei não, complexa demais; em texto técnico pode até ser, mas em crônica não soa nada bem.
E agora chega de fugir do assunto, que isso aqui não é nenhum divã. Não, gente. Não gosto nem um pouco de romance ou filme policial, mas de Freud x Jung, sim: é meu tema favorito. Minha erudição, claro, mal se compara à do Xexéo — nem à do Jed Rubenfeld —, e eu nunca poderia chegar nem perto dos incríveis diálogos que o Jed criou para a dupla dinâmica da mente, embora o Prosa tenha elogiado os meus. Mesmo sem ter lido o livro de Rubenfeld — o Xexéo, afinal de contas, nem terminou a leitura... e já está resenhando: tempo real perde — eu concordo que sim, a culpa é toda de Jung. Mas só porque Freud, antes dele, já tinha inventado a maldita. E pra compensar criou o gozo, enfiando o sexo na boca de todo mundo ou, fala sério, não haveria Hierosgamos (4x) nenhum. Além de tudo, descobriu a (in)consciência, é: nos tornou responsáveis por todos os nossos atos, porque antes do velho Sig, todo mundo sabe: o culpado de tudo era Deus. Ou quem sabe o Diabo. Não sei se Freud interpretou o assassinato. Interpretou os sonhos, disso eu sei, mas foi Jung que acreditou neles, e foi aí que a coisa pegou. Explicando cientificamente o nosso lado espiritual, Jung pegou de jeito o desalentado sujeito pós-Freud — um réu condenado desde criancinha — e deu a ele, no inconsciente coletivo, os plenos poderes de Deus. Eu, pelo menos, encaro a coisa assim. Na mente de Noga, protagonista do Hierosgamos (5x), os dois brigam o tempo inteiro. Ela acredita nos sonhos, no carma, na sincronicidade. Mas é no sexo que encontra a felicidade. Noga senta o leitor na poltrona do analista e promete contar tudinho: realiza o sonho de publicar o livro, mas na hora de vender... erra no blog o link da livraria, pode? Ato falho puro, dá pra imaginar? E a frustração dos incontáveis fãs... por um mês inteirinho? Essa, nem Lacan explicaria, e é mamãe quem tem toda razão: a vida não é fácil mesmo. Jung, com seu talento e imaginação, foi declarado sim, culpado do nosso pior crime: confiar plenamente na emoção. Também é este o crime do Hierosgamos (6x), Xexéo, cá entre nós: um romance que tem corpo, alma e espírito, e pra apimentar, uma leve pitada de mal-estar da civilização — coisa típica de judeu. Quanto à promessa de não falar mais no Hierosgamos (7x) aqui no blog, bem, vocês sabem: não é fácil se livrar de uma obsessão, e a minha é esta. Freud explica. Mas só Jung justifica.
* se eu não puxar saco de colunista agora, vou puxar quando? aliás, me desculpem o excesso de links no post, mas vocês sabem: quem tem conexões tem tudo.
"A boa notícia é que a razão mais apontada por homens e mulheres para fazer sexo" — diz a pesquisa texana, que lista 237 entre os motivos mais comuns para o ato — "foi a atração pelo outro". Ah, bom. Quero então que alguém me explique o porquê da Bienal do Livro no Rio ter convidado Bruna Surfistinha e Gisele Rao — esta aí autora de um tal "Sex Shop" — pra falar sobre sexo em setembro. Ah, sim. As outras 236 razões.
Aproveito pra externar a minha mágoa — um mal que com certeza ainda tem solução — por não ter sido convidada para o evento, na qualidade de especialista em sexo com amor, ou pelo menos, já que o assunto é livro, em escrever sobre isso. Ah, sim. Com poesia também, coisa que não se vende em sex shop e meio rara no sexo profissional, pra não dizer outra coisa. Externar a mágoa, como já se provou aqui no blog essa semana mesmo, dá o maior pé. Já externar o gozo, a felicidade... tsk, tsk. Me espantei, e claro, me deliciei com a reação dos leitores ao meu artigo sobre a culpa, obrigada, gente, embora já esteja na hora de confessar: esse negócio de culpa não é comigo. Trato o assunto como doença, crônica e grave, e tenho feito de tudo pra conseguir me curar dela. Até apelar para o apoio de vocês apelei, afinal de contas, um blog do bom é ou não é uma família unida? E culpada? Culpa não está com nada. Bom mesmo é o amor, o prazer, o sexo com amor, apesar de a felicidade no amor... hum... dar uma culpa danada. Eu já disse, e repito, e repito, e repito, porque aparentemente não tem ninguém me ouvindo quando eu digo isso: se alguma coisa nesta vida realmente me transformou, não foi terapia, não foi guru, não foi a fé nem nenhum poder extra-sensorial, gente. Foi simplesmente ter sentido aos 53 anos, pela primeira vez, um orgasmo com amor. O resto foi perda de tempo, ou no máximo, estratégia de espera. Não sei se dá pra dizer que o orgasmo com amor me aproximou de Deus, foi uma epifania, uma espécie de revelação espiritual. Mas me escutem bem que isso é realmente importante: todo mundo precisa de amor, e só o amor importa. Parece banal. Tão banal que por este clichê acabei apagando meu post sobre Antonioni, até a última linha afogado em morte e angústia e lá no finalzinho... me saíndo com essa idéia ridícula de que só o amor importa, mas gente, é a pura verdade e quanto mais velha eu fico mais entendo isso. Ou vocês pensam que é por outro motivo, essa fila quilométrica pelo abraço da Amma? Carência pura, cá entre nós. Carência pura. Antonioni foi mestre, sim, ao mostrar a inquietude da incomunicabilidade humana, ops, palavra longa, dá a maior preguiça só de ler. Não fosse ela no entanto premente, essencialmente verdadeira, ninguém precisaria do amor de Deus, e em primeira instância de santa nenhuma pra nos abraçar. Bastaria entender, amar o outro, dar e receber amor, trocar carinhos com quem está aí, do seu ladinho mesmo. Em vez da solução mais simples, mais óbvia, mais direta — diz a velha canção americana, simplista, rasteira e aparentemente conformista: "love the one we're with", mas gente, é isso mesmo — nos parece bem mais fácil compartimentar o desejo, complicando tudo, e o pior de tudo, tendo que pagar cada vez mais por isso: sexo na sex-shop, amor no abraço da santa, realização no trabalho, fé na oração. No fundo no fundo, o que sobra é a culpa intrínseca à nossa falha absoluta em administrar a vida. Não é pra menos. Tudo à nossa volta conspira contra a simplicidade, o contato direto, a solução caseira para a maioria dos males. Eu mesma, imaginem, se me resumisse ao que realmente sinto, ao que realmente acho importante, ao resultado mais eficaz de todos, ao que aprendi até hoje e que foi realmente útil pra conseguir uma vida melhor, abraçaria o Alan todos os dias, gozaria o máximo possível e não diria uma palavra sequer, afinal, pra quê o blablablá? Minha sorte é que ainda me resta bastante culpa pra ser digerida, religiosamente alimentada todos os dias e me dando um bocado de assunto pra escrever.
Para os desavisados, soa apenas como mais uma crônica gastronômica de Deise Novakoski, e com um leve toque a mais de humor. Mas pra quem presta atenção na linguagem das ruas através dos tempos, e guarda delas um abrangente glossário mental, o artigo de hoje no Rio Show está digno da ironia cortante de um George Carlin, pra não arriscar um conterrâneo Joaquim Ferreira dos Santos, que pelo menos no Gente Boa adora um assunto desses. Fala sério.
Um bom cronista não poderia passar por essa. Ou será...? Que ela teve mesmo a intenção velada? Já começa pelo título: "ralando o coco de costas". No primeiro parágrafo: Helô Sampaio... lançou o livro "Bem comida - crônicas e delícias da Bahia". E passa sem pudor nenhum para uma discussão sobre ralar o coco de costas e ralar o coco de frente. Uai, gente. Não tenho muita prática no assunto, mas sempre achei que de frente era melhor, né não? A conversa prossegue quando Helô explica a Deise, a quem carinhosamente chama de "minha polaca querida": "não é tu que fica de costas; é o coco". E a cronista não pára aí: relata um caso de amor à primeira vista com a batida de coco, chega ao ponto de confessar que rala o coco de joelhos e, justificando o ato falho com um pileque homérico, acaba deixando o coco rolar. Ops. Ralar. Ah, gente: entendi. O nome da coluna dela é "Três Doses Acima", ponto pra Deise que hoje passou de cinco. Eu mesma, pra ralar o coco uma única vez, precisei de bem mais que isso: um vasto porre de sangria em Madri. Quanto à Deise, continua sem saber se é melhor ralar o coco de frente ou de costas e acha que tem alguma coisa cabalística nisso: um mistério que só as iniciadas no assunto têm o poder de elucidar. Cartas para a redação de O Globo.
PS. tá bom, tá bom: pra quem não tem idade pra entender nadinha do que escrevi aí em cima, "polaca", numa gíria antiga pacas, queria dizer "prostituta". quanto ao rala-coco, gente, deixa pra lá. não é mesmo a minha praia, as companheiras que me desculpem, mas como cronista, eu não podia deixar passar.
Eu tenho esta pretensão enorme, que às vezes até confesso aqui no blog, de querer mudar as coisas. Não é nada fácil. Com toda a experiência, esperteza e facilidade pra aprender, sinto uma freqüente dificuldade em apreender o mundo, um mundo que se apresenta a nós todos os dias repleto de dramas, violências e incompreensões, cuidadosamente reforçado pelas artes, incluída aí a literatura.
Li hoje no jornal que a imprensa chinesa precisa de autorização para noticiar catástrofes. A censura prévia, claro, é o maior absurdo, como aliás todas as censuras, mas gente: será que em algum momento esta atitude autoritária não acaba em benefício sutil para a população? Não resulta em gente mais animada, produtiva e esperançosa? Porque fala sério, a coisa por aqui anda demais. Se eu fosse mãe já teria morrido do coração, juro. Custo a acreditar que além do sangue derramado, das guerras de tráfico e da pouca-vergonha política, da impunidade e das balas — perdidas ou direcionadas — não haja nem um pouquinho de alegria, de alguma coisa boa acontecendo.
Carla Rodrigues, em seu post de hoje, comenta a reação masculina à literatura mulherzinha com sua invasão cor-de-rosa (que nos embota o intelecto nas estantes das livrarias, na contramão da boa arte de escrever): vem do romance de estréia de Zeca Fonseca, que mostra homens "perdidos, confusos, e mesmo achando que são capazes de separar sexo de amor, têm dificuldades de fazê-lo." Um homem contemporâneo, que trepa mas não goza. Acabei de ler Na Praia, de Ian McEwan: um bom livro, não resta dúvida, retratando de forma pungente e direta personagens... perdidos, confusos, com dificuldades no sexo, gente que nem trepa e quando goza, quando consegue finalmente gozar, é inconveniente a ponto de liqüidar com a própria vida. Pode até ser que tal literatura seja um sintoma da nossa humanidade de hoje, perdida, confusa... e cada vez mais enredada em sua própria armadilha: nem um fio condutor sequer em direção a um otimismo maior, algum alento, algo que nos tire do marasmo redutor em que nos metemos voluntariamente todos os dias. Pois bem, gente. O Hierosgamos vem aí com uma capa... cor-de-rosa, ou melhor, pink, cor-de-rosa-choque: literatura mulherzona. E já começa a colecionar a indiferença dos críticos, gente interessada em nos manter por baixo, deprimidos, algo assim como as vítimas do Grande Irmão cotidianamente drogadas para não sentir. Eu me pergunto: por quê?
Quando eu leio, mesmo com a intenção de produzir resenha, me recuso a seguir qualquer cartilha. Leio como leitora, como gente, como alguém que procura se envolver, crescer, procurar na vida o caminho do prazer. E por que não? O que encontro — o que tenho encontrado, com raras exceções — é mais do mesmo, como se o desencanto cotidiano nos contaminasse com sua consistência grudenta de geléia e uma visibilidade de névoa, escondendo uma porta que não interessa a ninguém. E essa vida cinzenta, sem saída, interessa a quem? À redentora sociedade de consumo? Sei que a pergunta é meio antiga, mas a arte do nosso tempo, em vez de combatê-la, parece que vem fazendo o máximo pra manter o status quo. Eu, pelo menos, estou mudando. Mudei.
Desde os tempos primevos da minha experiência sexual tenho um sonho recorrente: estou com um parceiro, quero transar com ele, sinto o desejo, mas a sala está cheia de gente, família, amigos, garçons, tornando o sexo impossível e o meu gozo impotente. Pois a noite passada, me acreditem, o sonho mudou. Nele eu tinha um amor, e cheguei ao hotel, e a um comando apaixonado meu todo mundo se retirou, antes que eu percebesse que não, não era necessário que todos em volta alterassem suas vidas pra que eu tivesse prazer, não: me bastava um quarto, uma porta fechada, um parceiro amoroso e pronto. No fim do sonho me encontro com minha tia, que olha pra mim, sorri, e diz: — Você parece feliz. Eu não respondo, ou melhor, hesito em responder, mas dentro da minha mente eu sei, nossa: estou sim, feliz. Amei muito, gozei muito a noite passada, isso sim, muda a vida de qualquer um.
Encerro o post adiantando pra vocês as palavras (surpreendentemente) emocionadas de Henrique Chagas, editor do Verdes Trigos, que escreveu a orelha do Hierosgamos quando ainda mal nos conhecíamos:
"Com despudorada narrativa erótica, da pele à cona, ela brinca com palavras de múltiplos sentidos, e nos desperta para o desejo de também construir uma vida de amor."
Tá certo, Henrique: é esta exatamente a minha desmesurada pretensão. Pelo menos pra mim, funcionou. Funcionou pra você e espero que funcione pra cada leitor que arriscar me ler, ainda que na contramão da crítica, ou da falta eloqüente dela.
O olhar apertadinho da apresentadora e seu piscar maroto, meio nervoso; um sorriso de esguelha: nada disso parece eficaz pra disfarçar uma certa (e justificada) dose pública de constrangimento. Do outro lado da linha, uma voz máscula, grave, muito séria: John. "Hi, John, got a question?" Claro. Ele tem.
— Sexo oral transmite Aids, Dra. Sue? (não sou doutora: a velhinha se apressa em esclarecer.)
— Sim. Transmite. Seu parceiro é homem ou mulher? (normal)
— É mulher.
Gente. O que é Sue Johansen? Assisti o programa dela pela segunda ou terceira vez, na esteira da insônia pre-lançamento do Hierosgamos: a cabeça não pára, não desliga nunca e aqui estou no GNT, à meia-noite, assistindo a Talk Sex e suas recomendações absurdas, coisas que na maioria, tenho certeza, a pobre da Sue nunca experimentou. Nem passou perto. Certo. Faço tudo por dinheiro — no caso dela um bom dinheiro — e alguma notoriedade: quer melhor garota-propaganda pra vender brinquedinhos sexuais com seriedade do que esta vetusta enfermeira que sabe "tudo" de sexo? (da mecânica médica do sexo, da doença, do nojo de sexo, pode até ser) E Sue tem lá seus fãs, gente que liga... e pergunta mesmo. Se oportunidade tivesse, garanto que a bela e sensual (??!!??) Florence, de "Na Praia", seria das primeiras a ligar pra ela, "hei, Sue, odeio sexo... nem beijo eu suporto, me dá vontade de vomitar. Você acha que sou frígida?" Ops. Florence não fala jamais de sexo, e foge da intimidade como o diabo da cruz.
Sim, acabei sucumbindo e estou lendo "Na Praia". Se você aí acha que ainda não li o suficiente pra criticar, bem: estou na página 50, já folheei o livro inteiro e sei como termina. Aliás, sei até um pouco mais do que a autora de uma resenha na Folha de São Paulo, que descreve o livro como um ato sexual de 130 páginas, ah, gente, essa aí é que não leu mesmo. É um livro que fala de tudo, menos do ato sexual, bem, hum, há uma tentativa patética de (praticar, não de descrever, deixo bem claro) sexo em uma meia dúzia de páginas, e que acaba... calma, gente. Eu conto daqui a pouco. Ian McEwan faz literatura pura, daquelas recheadas de metáforas e de uma riqueza vitoriana de detalhes, evocando um calvário de Tintoretto onde eu, sinceramente, preferiria um bom Picasso.
E o que são Edward e Florence, o casal pudico de nubentes em Chesil Beach? Dois virgens de vinte e poucos anos, travados e ansiosos, na swinging London dos Beatles, de Mary Quant, em plena revolução de costumes? Fala sério. Nunca entendi direito esses ingleses pomposos (dos vanguardistas até que gosto, e bastante), resquícios de império decadente, só pode, um povo empostado cujo forte é, na verdade... o humor. Não consigo engolir, nem Monty Python* explica... mas quem sou eu, não? McEwan sim — com sua fleuma bem britânica — deve saber do que está falando, mas pra mim, a ejaculação precoce dele só cola mesmo nos personagens meio retardados — no mínimo, um bocado retardatários — que ele cria em seu romance.
Enquanto o Edward de "Na Praia" divaga e se atormenta, sem saber como abordar a noiva na noite de núpcias, o Alan Edward de "Hierosgamos" vive os anos 1960 imerso em "mind-blowing magic", fazendo mímica pelas madrugadas de São Francisco, morando em Telegraph Hill com uma pintora de vanguarda e ouvindo Bob Dylan em seu bar preferido. E quanto a Florence? Beijo de língua, pra ela, só com anestesia de dentista, e daquelas bem fortes, pra tratamento de canal. Penetração? Só com peridural, e de preferência, bêbada! Ops. Florence não bebe. Não cheira. Não goza. E por falar em dentista, de volta a Sue Johansen e seus esdrúxulos conselhos.
— Preste atenção, John. Vê este filme de borracha? — pra meu completo horror, Sue Johansen pega um pedaço azul de borracha fina, daquelas que dentistas usam para... tratamento de canal... cobre a boca com ela e põe pra fora a língua, em movimentos lascivos. Gente. Eu não agüento. Ela sugere a John, ao vivo e a cores, um cunilíngua através da borracha, pra que o amante não se contamine. Quem sabe assim Florence não teria fugido? Com preservativo, pelo menos, a ejaculação precoce de Edward não teria espirrado na coxa dela, nem ressecado na pele macia dela, e quem sabe assim, ela não teria fugido de Edward na noite de núpcias, frustrando pra sempre a dolorosa expectativa amorosa de ambos. Por aí já deu pra ver o que houve — e há — de sexo em Chesil Beach. Não me entendam mal: o livro é profundo. Emocionante. É sim. Se McEwan eliminasse dele qualquer referência a sexo se sairia bem melhor, ou se pelo menos enfiasse Edward e Florence numa máquina do tempo e os despachasse para a Inglaterra vitoriana... pode até ser.
Tá certo. McEwan não é nenhum Nelson Rodrigues, que aliás — diz o Segundo Caderno no Globo de hoje —, foi aplaudido e vaiado em sua estréia no teatro como ator. "Nelson Rodrigues é um gênio, e por isso é combatido", diz meu ex-tio Nahum Sirotsky. "O autor é imoral", afirma o vereador Leite Passos. Ops. Peraí. Tem algo errado aí... Ah, bom. Diz o título da sessão: "Há 50 anos", agora sim, entendi tudo... E vocês, entenderam? Até o nosso Brasil pre-ditadura, no início dos anos 1960, era mais "pra frente" que o Edward e Florence de Ian McEwan, imaginem! Já tinha engolido o gênio devasso de um brilhante e polêmico Nelson Rodrigues, não por acaso o homenageado deste ano na FLIP.
* Pra quem não conhece: Monty Phyton é uma espécie de Casseta e Planeta inglês dos anos 1960
Quando aparece alguma cena de sexo - mesmo um simples beijo de língua - num filme que estamos vendo, a reação do Alan é sempre a mesma: um suspiro. um muxoxo. o rosto virado pro outro lado. Não me acostumo. Nunca deixo de achar estranho. Já eu, tenho alguma curiosidade, confesso. Gosto de olhar as expressões, ver a posição das pernas, o ângulo erótico do corpo - quem sabe aprendo alguma coisa -, e costumo insistir em discutir o assunto: - Mas, Alan, como é que vai ser quando a gente publicar o livro? Aquela gente toda compartilhando a nossa intimidade? Qual é a diferença? Ele não se importa. Adora, pratica, defende um belo texto erótico, mas com o exibicionismo vulgar da tevê não se conforma: - É como entrar escondido no quarto de alguém. Ainda bem que no Hierosgamos ele não é leitor, mas sim, co-escritor, ou estaríamos logo de cara condenados a... Mas agora sim, entendi tudo. O sexo escrito estimula, enriquece, incendeia a imaginação. Praticado na monogâmica relação leitor/livro é sim, gente, de uma discrição absoluta, um ato de amor e entrega no silêncio do quarto, à luz suave da cabeceira, protegido pela máxima intimidade: a mente de cada um. Ler um livro sensual se compara a um bom casamento com sexo - você se envolve, se vê na cena -, enquanto a seqüência filmada erótica passa mais próxima do sexo em grupo, ou do voyeurismo: eles trepam. você olha. Agora imaginem se o Alan fosse obrigado a assistir todo dia essa novela das oito. Não, gente, não posso julgar ninguém, pois nunca vi, nem um capitulozinho. Acredito, sim, que a bela Camila esteja matando a pau, sensual, provocante: é uma boa atriz. Mas daí a qualquer dona-de-casa de classe média se enganalar com recortes explícitos, o decote namorando a bainha do vestido, o salto agulha, as cores berrantes... e tudo isso, no fundo no fundo, pra conquistar marido... vai uma distância. O que ninguém percebe é que este sexismo todo vai na contramão do amor. É um arsenal necessário, imprescindível, uma espécie de corda e nó, um gancho de alpinista pra superar, no coito profissional, a falta de... amor, de tesão amoroso, já ouviram falar? Porque gente, correndo o risco de soar careta, não existe afrodisíaco mais potente neste mundo do que a paixão verdadeira, o encontro de alma, a identificação de pele: química amorosa é isso, uma entrega alquímica que, me perdoem, nenhuma puta oferece. Correr o risco de soar careta, na verdade mesmo, não corro. Meu texto erótico, em breve nas bancas, pode até ser poético, mas entre os que li é dos mais explícitos. Guardado, é claro, o limite do bom gosto, um resultado automático com o qual nunca me preocupei, e vocês querem saber por que? Pois quando existe amor, gente, tudo cai bem. O amor, e o amor erótico - quando satisfeito, preenchido - conserta qualquer defeito, alivia qualquer mazela, acalma qualquer compulsão. Funcionou pra mim. Funcionará pra você. Se fechar o ouvido e abrir a alma para ouvir seu próprio Eu, sua própria fome de amor, que no fundo no fundo, é a única fome que ainda persiste*, no mundo consumista de hoje em dia:
"- o que experimentei até te encontrar não passou de amostra insignificante, Alan, hors d’oeuvres para abrir o apetite. salivar, como se diz em inglês? - salivate. despertei a Noga e ela está faminta. - com fome de ti, querido, para o resto anoréxica. minha cona contando os dias até teu pau, e engolindo virtualmente enquanto isso."
* pra que não se choquem os ambientalistas de plantão, os que apressadamente me condenam a insensibilidade onde pretendi somente lirismo, explico: o texto acima não trata de comunidades carentes, ou dos bolsões de miséria e fome no mundo, mas de gente muito bem alimentada, que se ilude todo dia com a fome crescente de marketing no mercado de consumo
São sete da manhã e já acordei no desespero. Alan se vira para mim na cama e me pergunta como foi o "Happy Hour" ontem. Ele adormeceu antes do programa, me deixou na expectativa de mais uma carrada de absurdos proferidos pela antiterapeuta do amor Regina Navarro Lins. Gente. Alguém tem que calar esta mulher. Ela está nos fazendo mal, espalhando o vírus do anti-amor pelo nosso cotidiano, socorro! Segundo ela, a última tendência, que já atrai milhões e, no google, tem mais de dois milhões de entradas, é um tal de polyamory, assim, gente, com ypsilon, tem até comunidade no orkut, diz ela, sim: nós estamos up-to-date com as tendências do mundo, que orgulho! E, me perdoem... tão ridículos quanto o cafonésimo termo com 2 y's. Fazendo coro à Regina - que não, não fala de sua vida pessoal: estraguem as suas e deixem a minha em paz, argh, mas basta... vê-la ao vivo para entender tudo, tudinho - a hostess do sexy hot, bem-casada e repórter de casas de suíngue, vocês sabem, no sexo as pessoas gostam de variar. Como afirma Regina: nem sob tortura - sim, a ameaça do caldeirão fervente ou das "partes" cortadas na Idade Média - o humano médio se absteve de trair, trepar com um cardápio saudável de paus e xoxotas, variar é preciso. No meio disso tudo o impávido Miguel Paiva, soltando aqui e ali esparsas gotas de bom senso e, no entanto, enaltecendo Regina como sua guru. Vem cá, Miguel: guru de quê mesmo? Gente. Sou contra censura, preconceito e etc, mas se esta mulher não for interditada vamos parar... no futuro, sim, o futuro já existe, e a boceta lá é rosada, macia, e de poliestireno ou polietileno, sei lá, vocês duvidam? Cliquem no blog do Cuenca pra ler, não percam:
Finalmente. Descobri porque minha carreira de cronista não deslancha: no outro dia, cometi a indiscrição de confessar que, como todo mundo, faço cocô, com sorte todo dia. E mais: confessei que às vezes é nesta situação delicada que me vem a inspiração para post. Fala sério. Quem é que quer conhecer a tal ponto de intimidade o cotidiano de um escritor? Eu pensei que estava sendo engraçada. Criativa. Ajudando o leitor comum a se identificar com outro tipo de ser humano que vem se tornando dia após dia mais comum: o escritor. Mas gente, eu nunca tinha pensado nisso, até que hoje - from all places, no banheiro - o Xexéo decifrou, nas próprias palavras dele, a "pá de cal": (eu sei, eu sei, o Globo proíbe a reprodução) "Que fim levaram aqueles tempos em que nossos ídolos não iam ao banheiro nem para lavar a mão? Fazer número 1 ou número 2, então, era impensável... Talvez seja por isso, por exporem tanto o seu cotidiano, que os ídolos estão com o prazo de validade cada vez menor." Gente. O meu prazo ainda nem começou e já estou lascada.
E por falar nisso. Vocês sacaram a infantilidade da linguagem jornalisticamente correta do Xexéo? O nervoso? Número 1? Número 2? Tátá. Eu sei o que é ironia, pratico todo dia. O caso é que antes de ler o Xexéo eu já tinha decidido o assunto do dia, cujo buraco era um pouquinho à frente daquele outro. Tinha resolvido voltar a falar de sexo, ou melhor, do incômodo que causa falar de sexo. Pretendia começar com a tradução americana do tabu: a versão primeiro-mundista de "Jeanne Mary Corner, a cafetina de Brasília", vocês se lembram? Pois esta outra de mesma conta e risco, só que agora em Washington, chama-se Deborah Jeane Palfrey, uau, o que é isso? Jeanne é código para alguma coisa que desconheço? E pensar que um dia foi nome de heroína... Feminino de herói, gente, é o que quero dizer: Jeanne D'Arc. Caramba. Hoje em dia a gente precisa tomar o maior cuidado. Tudo que a gente diz - e mais grave, escreve - pode ser facilmente desvirtuado.
Como a entrevista capciosa de hoje no blog do Noblat, fazendo de um tudo pra comprometer o nosso erótico ministro Eros Grau, e não é pleonasmo. Eros Grau já foi devidamente desmoralizado pela crítica literária à época do lançamento de seu livro "Triângulo no Ponto", que não li, só li a respeito e nada de bom. Não vou chegar ao ponto de defender Sua Excia, nem de lamentar o papel ridículo: o cara sentou, escreveu, e publicou. Quer coisa melhor? Saiu na chuva é para... Ah. Vocês sabem. Tudo bem que o escritor pode ser ruim, mas o que está se discutindo, a meu ver, é o direito de um juiz expressar publicamente seu pensamento erótico. Segundo o próprio autor o livro trata de vários outros assuntos, como a cena política brasileira nos tempos da ditadura. Não vou chegar ao ponto de defendê-lo, mas em certos trechos da entrevista sei muito bem de que (preconceito) ele está falando. Taí. Mais uma pá de cal na minha pretensão literária, desse jeito acabo mesmo passando em branco, e precocemente queimada*.
Agora. De uma coisa eu tenho certeza. Tudo depende de quem fala, e de como se fala. A priori não vejo nada de mal em confessar, e até mesmo exaltar, a nossa perene humanidade, como afirma na entrevista o ministro: "Sou humano". O que significa, sim, faço número 1, número 2, e número hors-concours, o Xexéo, que gosta tanto de um carnaval, sabe do que estou falando. Mas fazer xixi na rua? Fala sério. É atraso demais pro meu gosto, banheiro é bom e eu gosto. Mesmo que seja (em) público.
* pra quem ainda não sabe, ou nos visita pela primeira vez, sim, escrevi um livro erótico que é na verdade sobre muitos outros humaníssimos (e banidos) assuntos, como o amor, por exemplo.
Já dizia a musiquinha-chiclete propagada pelos adeptos de Osho: "Home is where your heart is". Ih, gente. Estou mais contaminada pela espiritualidade do que vocês imaginam, ops, do que eu mesma imagino. Volta e meia este tipo de clichê me vem à mente e preciso dar vazão. Como o Jabor, no Globo de hoje, justificando sua profecia amorosa ao se confessar contaminado pelos próprios imitadores. Jabor não tem razão quanto às barrigas masculinas, mas acerta no exercício futurista: está começando a contra-revolução. A liberdade sexual vai atingindo o seu limite, de dentro pra fora, como bolha de sabão antes de explodir.
No Happy Hour de ontem, em resposta a uma espectadora assombrada pelos efeitos nocivos da abstinência forçada, Betty Milan responde:
- Falta de sexo não enlouquece ninguém. O que enlouquece é falta de amor.
Tá certa a Betty, que ainda lamenta ao vivo os resultados da superexposição sexual em que estamos todos metidos. E na contramão dos que preconizam a morte do amor romântico, engrossa o time dos que experimentaram de tudo, da virgindade obrigatória à liberdade total pré-aids, pra terminar... reabilitando o amor.
Eu sei, gente. Estive lá, isto é, mais ou menos. Nunca fui capaz de me entregar sem algum amor, mas me entreguei sim, demais... à ilusão do amor. E por causa disso, até há pouco, meu gozo não passou de coceirinha. Sexo sem amor é violência moral, embora poucos percebam isso. Não satisfaz nunca e o malfeito fica lá, escondido, misturado como o sabão na água. O prazer que ele dá é mesmo como a bolha: às vezes até cintila, mas não dura. Não liberta, não transforma nada.
E respondendo ao Jabor: "ao ressurgir o amor, a fidelidade sem fim, onde se aninharão os casais?" Em casa mesmo, meu caro, no calmo contexto de um casamento tranqüilo, sem suíngue, sem traição e sem muita fricção: o grande orgasmo está na entrega de quem ama. Se existe amor, qualquer lugar serve: home is where your heart is.
E por falar em culpa. Na minha cabeça, todos os temas estão em perpétua revisão, e me reservo o direito de mudar de opinião a cada momento: ainda estou aprendendo a ter um pensamento publicável, embora - e talvez, por isso mesmo - tenha escolhido para mim o ponto de vista da pessoa comum frente às perplexidades do nosso mundo.
Aqui em casa Alan e eu discutimos muito sobre o politicamente correto: somos contra. Não contra a crítica ao preconceito, claro, mas contra o fato indiscutível de que muita gente não fala sobre certos assuntos, sem ter por isso mudado seus sentimentos a respeito. Em resumo: o politicamente correto não corrige nada, apenas engessa o discurso e transveste o pensamento. Há poucas semanas decidi incluir no meu novo livro, 266 - passível, com certeza, de edição e cortes -, correspondência trocada online com um leitor sobre homossexualismo. Em meu testemunho eu enfocava apenas a preferência sexual, e como se fosse questão de opção. Ocorre que pouco tempo depois foi publicado um artigo no NY Times relatando as conclusões de um estudo que afirma ser a condição homossexual uma questão genética. Discuti o assunto com o Alan: deixo ou corto a crônica? Se a homossexualidade não é opção, mas condição, minha opinião soa imbecil, sem sentido, meramente preconceituosa: tudo o que procuro não ser.
(Tive três grandes amores gays. Dois morreram precocemente de aids, e do terceiro, me afastei por motivos políticos. Já sofri do preconceito oposto: por ser hétero, fui rejeitada na comunidade artística dos anos 80. Sempre acreditei na propagada sensibilidade dos gays, e procurei me aproximar, conviver com ela. Mas o aspecto militante da coisa, rejeito. Como rejeito também o aspecto militante da questão feminina - apesar de reconhecer que já teve o seu lugar e importância no processo histórico. Acho que o conceito de "minoria" não tem lugar numa sociedade igualitária e justa, ok, ok, da qual estamos distantes.)
O assunto andava adormecido quando foi ruidosamente despertado, esta manhã, por um artigo no mesmo NY Times sobre a intolerância contra gays, e que a descreve, ao lado de qualquer tipo de preconceito, como inerente a todos. Parodiando Kurt Vonnegut, numa última homenagem: and so it goes. Tudo muito certo e estabelecido, embora as novas descobertas da ciência, apreciadas pela militância gay, coloquem a opção sexual ao lado de características de nascença, como a tendência a engordar, o daltonismo, a dislexia e a propensão ao câncer: uma questão de aceitação, e não de orgulho. Meu artigo soará idiota, e a militância ruidosa... Hum. Acho bom parar por aqui. Este post está me cheirando a puro preconceito, e minha tentativa de reparação tão superficial e mentirosa quanto o discurso politicamente correto. Melhor adiar a conclusão. Quanto à discussão online reproduzida no livro? Já cortei. Reconheci que errei.
O nome é adequado, principalmente em português: Peg 3. Trata-se do gene do aprendizado sexual, vocês sabiam? Pois é. Quanta gente por aí, por mais que treine não aprende nunca, vai ver falta o tal do gene, não é? Eu mesma até cheguei a pensar que pra mim faltava, mas não. Acabei aprendendo. Ah, sim. Em tempo. A pesquisa é em ratos... e não, não é pegadinha. É ciência mesmo.
Ontem, quase sem que eu soubesse, meu irmão mais novo, sem convite nem festa, completou bodas de prata. Mas do aniversário de casamento da minha mãe, me lembro muito bem: 14 de janeiro. Não é porque o evento tenha me gerado, mas na minha infância, aniversário de casamento era algo tão comemorado quanto o do nascimento: uma espécie de renascimento, de reafirmação da vida. Os tempos mudaram. Artigo interessante entre os mais lidos da semana*, no NY Times, fala sobre a mais recente mania americana: casais maduros exigem quartos separados. O texto faz um contraponto interessante com a entrevista da psicanalista americana Esther Perel no Contemporânea de hoje: “Enquanto criam segurança, muitos casais confundem amor com absorção. Essa confusão é um mau presságio para o sexo. Para ser mantido, o impulso para o outro precisa atravessar uma sinapse. O erotismo exige distância. Em outras palavras, o erotismo viceja no espaço entre o eu e o outro. Para entrar em comunhão com a pessoa amada, precisamos ser capazes de tolerar esse vazio e seu véu de incertezas”. Em outro trecho, a escritora afirma que "todo fogo precisa de ar", e segue em frente listando macetes sedutores para renovar o desejo.
Uma conhecida personalidade intelectual, de quem não me lembro o nome, declarou certa vez que a fase mais produtiva de sua vida veio depois que o desejo sexual se foi, e ele não precisava mais perder energia com isso. Não é que eu concorde, com sexo não se perde energia, se ganha. Mas estou no meu "período" de hormônios em baixa que vem com a menopausa, o que dá uma preguiça sexual enorme. E pra meu conforto, coisa que muita gente hoje em dia diria que é desgraça, o Alan parece estar atravessando fase equivalente. Sendo prova de amor ou de tédio, eis aí o retrato de um casamento, a meu ver, bem-sucedido. Transei até não poder mais com o homem da minha vida, colecionei orgasmos incontáveis e orgias amorosas a dois que, não fosse eu narradora explícita do erotismo, mal conseguiria descrever, mas agora, pelo menos por ora, estou em outra. Segundo o ponto de vista de alguns, eu deveria abandonar o leito conjugal, abrir mão do quentinho do outro acalmando a noite. Segundo outros, apelar para patéticos truques de lingerie e "reacender" o desejo, coisa que tenho certeza, acontecerá naturalmente quando cada um de nós se livrar de incômodos temporários, no meu caso um desânimo regado a ondas de calor que não, não eliminarei com remédios. Sou contra essa medicalização da normalidade, e por falar nisso, também contra a erotização exagerada da realidade.
Pois gente, encontrei o grande amor, vivi com ele uma história única, emocionante, imperdível... e agora deveria trocar o relacionamento estável com ele, a calma sensação de entendimento, a identificação completa entre nós... pela incerteza da paquera, só pra preservar o fogo sexual? Será que não está havendo aí uma inversão de valores, não? Ninguém mais do que eu, insistente virgem enrustida que só conheceu o verdadeiro orgasmo aos 53 anos, entende o prazer do sexo e a importância dele. E entendo também a completude que o êxtase repetido do orgasmo traz, uma mudança profunda que nos permite, em certo ponto, encarar o sexo como prática esporádica mesmo, e nem por isso, menos excitante: pura expressão de amor.
O que tenho visto, traduzida na eterna ansiedade dos textos e do marketing, é uma pulsão imediatista pela gratificação instantânea, substituindo em sua irrelevância todas as demais (profundas) emoções humanas. Não acho que seja um bom sinal, e a raridade crescente da comemoração de bodas de prata é sintoma bem claro disso.
*enquanto eu escrevia, a cotação do artigo subiu ao primeiro lugar e gerou interesse tal, a ponto do jornal criar um fórum só para discutí-lo. vou conferir, depois eu conto.
"os livros e filmes eroticos não me atraem e não me excitam... É lógico que eu converso sobre esses assuntos com meu companheiro e com amigos(as) íntimos, mas gosto de tratar isso na intimidade, de uma forma amorosa, com o carinho que se dá a uma flor, a uma coisa muito delicada... me parece tão precioso para ser colocado aberto, público... parece que desgasta...vulgariza... "
Se tem alguém aí do outro lado da tela pensando que é fácil pra mim escrever sobre sexo... se engana. Cresci em Minas, tenho 55 anos. Fui criada pra casar, e pra casar virgem. Me ensinaram a comer, a usar o vaso, a me comportar direitinho, mas o que acontecia no tal casamento foi sempre um segredo misterioso, um destino inescapável desembocando na obrigação de ter filhos. Ninguém me disse que sexo existia, e muito menos que provocava um prazer enorme, metabolicamente transformador. Isso me fez muito mal. E acredito que até hoje, com toda a (falsa) liberação sexual, continua fazendo mal a muita gente. Poucos sabem como extrair do sexo o que ele tem de bom pra dar. Quando se trata do assunto continuamos infantis, e eternamente transgressores, ou romanticamente iludidos como a leitora sonhadora aí de cima.
Convenhamos: o amor não é delicado. É um tumulto, isso sim, uma emoção de uma força tal que nos faz transformar o mundo, pelo menos o nosso. No auge da paixão provoca um fogo, um sofrimento, e como já foi extensamente provado pela ciência, um efeito narcotizante de droga, que inclui o prazer sexual. Depois se acalma, ou o corpo se acostuma, sei lá... Mas se transforma numa realidade tranqüila, compensadora, socialmente valorizadora. É precioso sim, mas porque deveria ser privado? O ato em si, sim, concordo. Acho que é da esfera da intimidade, da alcova a dois, não sou adepta de suíngues e trocas de casais, isso não. Mas porque não falar, esclarecer, enaltecer mesmo as qualidades de tão poderoso sentimento? Que na verdade, é preciso reconhecer, mesmo para quem nega, norteia nossos atos nesta vida?
Não conheço tema melhor para poemas, magia melhor para metáforas do que o prazer sensual. É simplesmente o máximo, o crème de la crème, e no entanto, a gente sofre ao falar dele, ao ler sobre ele. Por que? Porque fomos educados desta forma, treinados na repressão, a ver na vida uma obrigação e não um prazer. Pra escrever o HierosGamos, sofri, meus amigos. Não sou devassa, tive que matar um leão por dia, e por que fiz isso? Bem, em primeiro lugar o fiz porque me aconteceu. Encontrei este homem que dialogou comigo, me deflorou no texto, me levou por caminhos nunca dantes ousados, e tudo ali, no texto. Fiquei maravilhada, confesso. Mudei. Me libertei. Como ele mesmo diz, no livro: "não é com tolices que te amo".
O amor educa para a vida, para o sucesso, para a alegria de viver. Não vejo porque deva ser mantido na esfera do pecado, do proibido, ou sob o véu ilusório da proteção romântica. O amor é parte da vida, e parte substancial dela. Deve ser ensinado, praticado, exposto. É precioso sim, e como tal deve ser compartilhado: com poesia por quem for poeta, com sabedoria por quem for experiente, com palavras simples por quem se expressa com simplicidade. Parte da vida e pronto, um arsenal humano que passa de pai pra filho, de mãe pra filha. Garanto que dá pra melhorar o mundo com isso. E além disso, para nós, mulheres, deveria se apresentar o homem como um parceiro, um igual que é diferente, mas igualmente humano, vencer para sempre essa estranheza entre os gêneros, que deveriam se completar naturalmente. Acabar com essa bobagem de príncipe encantado, de agente mágico trazendo "algo precioso". Nossa. Essa invenção foi longe, e todas nós caímos nela... e é ela que nos mantém internamente subservientes, carentes, pedintes, exigindo respeito e uma igualdade que intimamente não reconhecemos.
Fica uma boa metáfora para o tema no diálogo entre Alan e eu, quando se aproximava a data da viagem e o medo do encontro crescia:
"- o quê, Alan? ainda com medo... quer que eu desista de tudo?
- não, concordamos sobre o encontro. não é que eu não queira você pra sempre... é o que a situação promete. mas sou realista."
Bem, nos encontramos. E até hoje damos à nossa relação um tom realista, do qual eu confesso, resvalo às vezes, escapando pra fantasia romântica do cavalo branco, o que não recomendo, gente. Mesmo com seus desencontros, seus odores grosseiros e sua profusão de peles e pêlos, a realidade sempre vale a pena, e quanto mais simples, melhor. Não é preciso temê-la, travestí-la, fingir que não existe. A realidade não se degasta nunca: quanto mais realidade se usa, mais realidade se tem. E atire a primeira pedra quem acreditar, de verdade, que existe outra coisa além dela.
A primeira vez que experimentei algo remotamente parecido com orgasmo foi totalmente por acaso, há vinte anos, na piscina de fibra da minha cobertura. Até então, eu vinha dividida entre a certeza injustificada de ser boa de cama e a maldição de mamãe, afirmando que eu nunca aproveitaria plenamente o sexo. Aqueles inesperados espasmos involuntários da vagina foram pra mim uma revelação, e ao mesmo tempo um desafio novo, bem mais complicado: conseguir repetir a sensação na cama com um homem. Seguiram-se anos de treino, 3 ou 4 parceiros frustrantes, técnicas secas e técnicas molhadas, se é que você me entendem... e nada. O passo seguinte, igualmente surpreendente e revelador, aconteceu na frente de uma tela de computador, teclando com meu marido Alan logo que nos conhecemos, trazendo consigo um pânico novo, quase paralizante: a possibilidade de que a sensação jamais se repetisse, em nosso encontro ao vivo. Afinal de contas, meus quase trinta anos de currículo amoroso me condenavam, apontavam ameaçadoramente para o meu nariz afirmando que nunca, mas nunca mesmo (como os muitos por cento das pesquisas sobre o prazer sexual da mulher), eu iria experimentar um orgasmo pleno. Na internet tudo parecia fácil, direto, sem gordura e sem suor (nem a timidez e tensão geradas pela presença física do outro) e com raras lágrimas de emoção. Quem quiser passar pelo intenso e breve treinamento erótico a que fui submetida pode arriscar a sorte no meu romance HierosGamos, online aqui. Agora, se você é daquelas mulheres que curte uma carência, um desejo intenso de amor não correspondido, que aprecia o ritmo frenético de uma busca pelo prazer que não termina nunca, com escalas em sex-shops e cursos de pompoarismo, é melhor parar por aqui. A seguir cumpro a minha promessa feita ontem, revelando o truque mágico que conduz ao orgasmo múltiplo, uma coisa tão simples que chega a ser decepcionante. (o truque, me entendam bem, porque o orgasmo...) É claro que saber o truque não basta. É preciso saber também o segredo da performance bem-sucedida, e esse, companheiras, passa inevitavelmente pela confiança, pelo amor, pelo clima conquistado de intimidade, porque sem isso caimos na mesmice dos brinquedinhos eróticos e na aridez das técnicas. Quem quiser ler sobre a "coisa" com o frescor e a intensidade do momento, pode ir ao meu post daquela época, parte do Manual do Orgasmo. Mas se você é ansiosa demais, e compreensivelmente não tem o menor saco pra ficar vagando entre links... aqui vai: o segredo, gente, é a paradinha. Depois de alguns minutos de entra-e-sai vigoroso, peça um momento de não-movimento... e voilá. A coisa rola e rola mesmo, uma, duas, três e quantas vezes você quiser. Mas a questão toda do orgasmo atingido... bem, é algo que vocês precisam saber... Depois da preparação intensa, do primeiro espasmo a dois, da alegria, da revelação, minha vida mudou mesmo, e vem mudando desde então. Comecei a entender o verdadeiro sentido da expressão francesa para orgasmo, que é o título aí de cima: la petite morte. É isso, gente. Depois que você experimenta isso, tem a sensação de não querer mais nada nessa vida... Fica tudo tão completo, que a gente entende o verdadeiro significado de uma segunda expressão mórbida, desta vez indígena: it's a good day to die. Aquela ansiedade constante, aquele impulso para seguir em frente, aquela sofreguidão de querer sempre mais, sempre mais forte... dá uma parada. Eu entendo que tudo isso tem a ver também com o amor. Ou quem sabe só acontece comigo, que a vida toda tive tudo, até sucesso e fama, mas nunca tinha tido, até encontrar o Alan, e apesar de casos e casórios, a sensação de que agora sim, é pra valer. Tanto prazer acaba numa certa sensação de vazio, tranqüila, boa... Ops. Melhor parar por aqui, não? Precisei de mais de mil e quinhentos orgasmos pra chegar nesse ponto, e sabe-se lá quanto tempo isso pode levar, mas uma coisa é certa: vale a pena, gente. Não existe coisa melhor, e no meu caso de artista, já dei um jeitinho de criar um novo desejo irrealizável, não? (risos) Hum. Não sei não. Com livro publicado e todo orgasmo que eu quiser, fico mesmo prontinha pra morrer, embora, é claro, espere ainda estar por aqui pelos próximos cinqüenta anos. No grande O Grande Truque, o mágico conta o segredo do sucesso para uma criança: nunca revele o seu truque pra ninguém, porque ninguém quer realmente saber, e uma vez desvendado o mistério, perdem o interesse em você. Pois bem, amigas. Aí está. Pouco se me dá se vocês se interessam por mim ou não: o que interessa é a missão, a mensagem que tenho pra transmitir, que é cada dia outra. Aproveitem bem. A de hoje, embora eu faça questão de rejeitar essa esmolinha patriarcal de "Dia da Mulher", é um presentinho: pode até ser que frigidez feminina exista... mas na maioria dos casos, garanto que é pura ignorância dos fatos. No meu, era.
A gente percebe que está ficando velha quando curte, à noite na cama com o marido, um filme delicioso como o espanhol Elsa & Fred. Nunca é tarde pra amor de verdade, gente. Mesmo com a lâmina oculta da morte cortejando a jugular, é uma aventura que vale a pena: a da felicidade. Aqui em casa a gente sabe, vale qualquer tostão guardado. Disfarçada de louca e inconseqüente, a velha Elsa sabe direitinho: quer um beijo na boca do velho Fred, dormir junto... abraçar o esqueleto antes que seja tarde. E hoje já é. Carpe diem. Fala-se tanto sobre sexo, performance, apetrecho... o amor vai virando última página... quando deveria ser manchete. Um assunto que não cansa, sempre renovado... vale tudo, até garrafa à deriva no mar revolto da internet. (tem quem ache... que amor online é só pra nerd, do que veementemente discordo) Falar sobre sexo tudo bem, mas é quando a gente não tem. Esgotei minha veia erótica, com os picos poéticos todos... Depois disso até pensei: na cona real sou brocha. Que nada, gente. A prosa amorosa no chat me abriu, finalmente, a intimidade do gozo, e antes de virar - pra sempre - a página da conquista... dei sorte. Transei em um ano o que a média da mídia nem numa vida, e hoje em dia, graças a Deus, não preciso de teoria. Se insisto no assunto* é por dever didático: não vou deixar barato a peteca do amor. Sexo selvagem acaba em cistite. Envolve. Diverte. Mas... uma vida inteira de 5 trepadas por dia? Não dá, companheiras... desistam. É mito. Bom mesmo é sexo com paixão, temperado com o antibiótico do amor. Ops. Péssima metáfora. Da carne crua ao boeuf bourguignon, cada fase do encontro amoroso é ótima: quem se limita à especulação, não sabe o que está perdendo. A cona molhada passa. O amor fica.
*pra quem merece, uma explicação: minha crônica de ontem, motivada pela "profissional do sexo" de Camila Pitanga na próxima novela, e pelos comentários bobinhos e entediantes sobre... sexo, no blog da Carla... me deu um fastio... um tédio enregelante... por causa do orgasmo ao meio-dia, gente. comeu minha energia todinha, consumiu meu tempo de post. porque depois do almoço... vocês sabem... faço literatura...
Com a reportagem de capa da Veja, e em seqüência temática perfeita para a epifânia de ontem do Arnaldo, eu deveria falar sobre a adaptação biológica do cérebro humano para a fé. Fui sôfrega à revista - o assunto me apaixona - mas... nada de novo. Já sei que a maioria dos fenômenos sobrenaturais (e emocionais) são explicáveis por interações elétricas e descargas químicas. E daí? Parafraseando Jobim, o que é felicidade? Hein, meu amor? Tatatá. A sorte não existe, nem o azar: são manifestações do acaso, reconhecidas e reforçadas pela fome de padrão do cérebro, uma estratégia de sobrevivência que nos permite superar a desorientação causada pela consciência da inevitabilidade da morte, algo intrínseco ao DNA. Sim. Mas que esse funcionamento sofisticado do organismo humano parece milagre, parece. Explicar tintim por tintim a tecnologia da televisão de plasma não faz a imagem menos deslumbrante, e se tem uma coisa que ajuda mesmo a viver, é a prática intencional do maravilhamento. Com o sabichonismo científico todo, é o que inunda o nosso corpinho de hormônios do bem, prolongando a cada descarga um adiamento consistente do fim. O que eu gostaria mesmo de saber é porque ninguém aplica essa simplificação didática da natureza (humana) ao mito do orgasmo feminino. Isso sim, seria útil, e eliminaria de uma penada só a prolífica indústria da frustração sexual, derrubando de uma vez um dos pilares do capitalismo selvagem. Gulp. Entendi. As outras mulheres eu não sei, mas eu cresci e amadureci sabendo que orgasmo é feito difícil, raro, conseguido pela estimulação mágica e única de um tal esponjoso, hipersensível e ninguém-sabe-onde-fica ponto G, deflagrando uma orquestra esfuziante de sensações: meio parecida com as luzinhas piscantes de um ovni, chegando à terra pra abduzir. Passei trinta anos de vida adulta absolutamente convencida de que não experimentaria nunca um daqueles tremores incendiários, e mais raro ainda, a dois: gozar ao mesmo tempo que o outro. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, num caso de amor com uma Jacuzzi, o significado prático da palavra mais banida e vilipendiada da literatura erótica mundial: latejante. Pior: vagina latejante. Pra latejar a minha com um companheiro na cama ainda demorei um bocado. Mas consegui. Fazendo uma pesquisa de apoio à revisão do Hierosgamos, o Alan encontrou ontem esse artigo sobre a fisiologia do orgasmo (preguiça de traduzir, sorry). Segue trecho:
"...This localized area of bulbar vasoconcentration contracts strongly in a regularly recurring patterns during the orgasmic expression. The contractions have onset a 0.8 second intervals and recur within a normal range of a minimum of three to five, upto a maximum of 10 to 15 times with each individual orgasmic experience. The inter contractile intervals lengthen in duration after the first 3 to 6 contractions of the orgasmic platform and the measurable intensity of the contractions progressively diminishes. The duration of the orgasmic platform’s recurring contractions and the degree of the contractile excursions vary from woman to woman and within the same individual from one orgasmic experience to the next. These recurrent contractions in the outer third of the vagina are the only physiologic responses of the vaginal barrel that are confirmed entirely to the orgasmic phase of the sexual cycle."
Taí, gente. Cientificamente explanada a misteriosa e pouco divulgada vagina latejante. Imaginem se mamãe, nos meus quinze anos, tivesse me contado essa historinha assim, simples e empolgante: uma descarga energética involuntária, culminando num inesperado efeito calmante, relaxante. Teria me poupado milhares de reais, anos de divã. Tatatá. E daí? Pra desvendar mesmo o mistério - e superar o trauma da ignorância - precisei encontrar um amor de verdade, e acreditem: é a melhor maneira. Por essas e outras, vou parar de culpar mamãe por tudo... e começar a aproveitar a vida. Bom domingo.
Vocês aí eu não sei, mas eu não vivo nesse mundo pós-apocalipticotecnossexológico que o Jabor descreve. Não. Achou um palavrão? Porque é mesmo. Soa assim aos meus ouvidos esse retrato malsão da sexualidade humana, jogada no lixo não-reciclável das conas infláveis, dos paus à pilha desvairados. Exagerado, duplamente acentuado, é. Tudo em nome de um amor frustrado, tecnologicamente roubado, um valor romântico não em vias de extinção, mas já irremediavelmente extinto.
Fora do horário comercial, não conheço mulher nenhuma que exerça seu direito ao gozo portando um treco esdrúxulo desses. Quanto aos homens... Deus me livre dos que, solitários, se apegam voluntariamente a bucetas de plástico, compartilhando o prazer com o assobio pungente das amantes esvaziadas.
O Jabor, eu sei. Não importa o tema, é um alerta o palavrório fatalista dele: um jeito radical de recuperar a dignidade. O meu é outro. No entanto há algo de real, de cotidiano, no exercício destruidor da escrita. Eu sei, meninos. Eu li.
Tem quem use o idioma sexual pra inspirar, iluminar o caminho do verdadeiro amor. E há quem exerça sua liberdade online pra expressar, entre risinhos nervosos, o seu humor precocemente brochado, a falta endêmica de gozo que os aflige. Uma turminha do demônio, ou que no máximo mantém viva a associação, falsamente moralista e francamente anacrônica, do prazer sexual pleno às artes enganosas do demo.
Já quem toca o seu teclado pra arriscar, corajosamente, a ampliação consciente do universo amoroso, saiba: o orgasmo humano a dois é sim, coisa de Deus: é o sorriso de Deus, amplamente divulgado desde o início da palavra escrita. Sinal de que, se existe, esse Deus que tanta gente idealiza é mesmo um otimista... e ainda por cima, criativo. Taí um argumento incrivelmente criacionista, bem mais convincente que a negação doutrinária de Darwin, essa sim, fatalmente reducionista.
Se existe mesmo coisa do demo, gente, é essa mania viciante de pessimismo futurista: uma apologia pecaminosa do medo que não leva a nada. Muito menos ao gozo amoroso, que no fim das contas, é o que todo mundo quer.
PS ops. foi mal. caí mesmo. estive conversando com o Alan no almoço e ele me disse que nos Estados Unidos ninguém, nem o mais nerd dos nerds, o mais rejeitado adolescente, caíria nessa de boneca inflada, um retumbante fracasso de mercado: todo garoto aprende, bem cedo, os milagres prazerosos da "Five finger Mary". detesto ser feita de idiota, é. mas garanto, por outro lado - e desta vez com algum conhecimento de causa - que toda mulher que cede ao impulso publicitário das sex-shops não passa de idiota também, caíndo no conto do pior vigário, e ainda mais triste: pedófilo.
- Pra falar a verdade não. Detestei. Fiquei parecendo um monstro.
Ops. Um mínimo instante depois do enunciado já dá pra sentir a mágoa dela. Não sei se foi o ângulo, a luz, o vestido branco. Nem muito menos sei porque eu disse isso, se "monstro" pode até traduzir o que se vê na foto, mas dificilmente refletir a realidade. Quem liga. Meus quinze minutos de fama já passaram mesmo, e longe, bem ao largo da Ilha de Caras.
- Não tenho culpa. Tem roupa que engorda mesmo.
- Claro, nem eu disse que tinha. - me apresso em corrigir - Mamãe saiu muito bem, e a qualidade da imagem, perfeita.
O diálogo cai perfeitamente no meu sentimento de culpa - ainda presente - por ter largado a academia. A Lia não, continua firme. E cada vez mais forte. Musculosa, quero dizer. Presa voluntária dos apelos do marketing da aparência. Eu gosto de exercício, não me entendam mal. E também de manter a forma. Apenas, tendo atingido inexoravelmente a meia idade, resolvi optar pela maior liberdade: de padrões, de neuroses, de frustrantes vaidades. Dizer que já consegui estaria aquém da honestidade. Meu incômodo remanescente salta dos comentários, francamente desnecessários, contra quem me critica o que se vê de fora. Fotogenia nunca foi meu forte, nem muito menos beleza exterior.
Não sou Terezinha de Jesus nem nada, mas de quedas fora do padrão bem que eu entendo. Fui muitas vezes ao chão, a maior parte delas por carência, ou solidão. Dentre os muitos cavalheiros que acudiram, oficiais mesmo eu citaria três. O primeiro não foi meu pai, que saiu da cena sensual muito antes que eu chegasse nela. Foi meu primeiro marido, um cara oscilante: às vezes no ponto, às vezes fora dele, gordo, depois magro, depois gordo, bom-de-cama, depois ausente, a moral sempre hesitante. Traiu. Mentiu. No final, foi quem acabou caindo, com outras damas menos exigentes disputando o privilégio de levantá-lo.
O segundo não foi meu irmão. Esse aí, apesar de criatura excelente, não vai fundo nos mistérios da minha mente. Além do mais, os olhos são verdes, e não azuis como os do legítimo segundo, um sujeito já maduro mas sempre em forma, corpo atraente, e entre os muitos vícios nomeáveis, uma mania permanente de controle. Dos filhos. Das posses. Entre elas a segunda esposa recente, uma rebelde enrustida sempre a postos pra qualquer boa causa libertadora. Não deu outra. O mais belo controlava tudo, bem, quase tudo. Escapava ao jugo dele a rigidez do pênis, que teimava em só despertar no meio da noite, quando carente, tardiamente exigente, me provocava: ai, não. Agora não. Estou dormindo, espera até de manhã. Amanheceu... ele tentando igualar minha neurose à dele: como eu "só pensava em sexo", fui convidada a me retirar.
E agora o terceiro, ah, o terceiro a quem dei a mão. Amiga minha outro dia garantiu: o terceiro é o que vale. E valeu. Vem valendo a pena. Chegamos ao clube pra almoçar, refrescados pela languidez gostosa que só o sexo bom nos dá, e mamãe, que mal consegue elaborar uma frase, vai logo encarando ele - com a franqueza involuntariamente ofensiva das crianças... e dos dementes -: "o cara mais feio do mundo, parece ter duzentos anos."
Não fala assim, mãe. É esse o cara que me faz feliz. E voltando pra casa abraçados, ladeira abaixo no Alto Leblon e ainda presos no assunto da foto, e da reação da Lia, (o português de mamãe, graças a deus, ele não entende) me pergunta: - Você me acha gordo? Eu ri. Bem. Acho. E daí? Em tempos de liberdade de escolha, a maioria de nós escolhe mesmo é não escolher nada, boiando manipulados por estereótipos impossíveis. Nem gordo, nem magro. Nos limites do amor, digamos, da sanidade. Do desejo bem satisfeito, deveria ser esse o nosso critério de sensualidade.
Quando eu já dava o assunto por encerrado, o telefone tocou: - Oi, Noga. É a Isabela. Desculpe eu te ligar outra vez. - Oi, tudo bem? E então, falou com a minha amiga aí em Sampa? Isabela é uma leitora do meu primeiro livro, Fases da Lua, disponível agora online com o novo título, "Eu, xamã". Me ligou há coisa de 2 semanas, querendo que eu fizesse pra ela uma das jóias mágicas que o livro mostra. Mas eu não pude. Cogitei, mas não tive como, porque, sinceramente, não acredito mais que algo material tenha o poder de mudar a vida de alguém, a não ser como um recurso de automotivação e, pra isso, qualquer objeto serve. O sagrado está nos olhos de quem vê, no coração de quem sente. Em todo o caso, a Isabela insistiu, e recomendei uma amiga paulista que faz jóias sob encomenda. - Falei com ela, obrigada, mas tive que te ligar. Avancei mais no livro, e quando cheguei ao Sul... Nossa. Admirei muito a sua coragem de se expor assim... Me identifiquei demais com o teu relato, tão pessoal... - Obrigada. A intenção era essa mesmo. - Todas as mulheres se parecem, não é? Se preocupam com as mesmas coisas, e você se abrindo assim é de grande ajuda... Me despedi, prometendo manter contato, e esta manhã, caminhando na praia, me peguei pensando sobre o que o capítulo do Sul teria de tão especial. Desconfiava, mas não tinha certeza, e quando conferi... Não deu outra. É no Sul que falo sobre os traumas de infância... e sobre a descoberta do sexo. Como era meu hábito naquela época, associo o sexo no livro a rituais e compartilho, com franqueza, as estratégias pra superar os limites, a dificuldade de gozo, a falta do companheiro ideal. Tá certo, gente. É esse o assunto que mobiliza todo mundo. Tenho a impressão de que nós, mulheres, sofremos de ignorância aguda com relação ao corpo, à verdadeira sensação do orgasmo... Afinal? Como é que é? As mães não contam, as amigas também não: fica estabelecido o mistério, e limitada a capacidade de realização, na cama e na vida. Conspiração. No meu caso, vocês sabem... durante anos lidei com a superação de uma maldição que mamãe me impôs, no dia em que perdi a virgindade: - Porque você fez isso? Se não vai praticar? Se o Alan estivesse aqui do lado, já ia reclamar. Contando essa história de novo? Pois é. Com mamãe doente e tudo, acho que é este o ponto nevrálgico, que não consigo perdoar. Não vou praticar... e fiquei com a impressão... de que não ia gozar nunca... Fui logo me acreditando frígida, incapaz... Foi procurando resolver isso que me enfiei em dietas, terapias, rituais... Mas gente. Confesso. Não foi o vegetarianismo, nem a malhação pesada, nem o ativismo ambiental, nem as xamânicas buscas de visão... Nem foi guru, conselho, sucesso profissional... ou a boa vontade dos amigos com a minha inabalável neurose que me ajudou. Tentei de tudo, sempre me achando feia, gorda, antipática e anti-social. O que me transformou mesmo, e nisso penso ser igual a quase todo mundo... foi um orgasmo de verdade. E não pensem que foi fácil. Não. Quando encontrei o Alan levei junto essa bagagem toda, de anos e anos de trauma. Não sei o que ele fez. Não sei o que eu fiz, o jeito que dei. Deve ter sido o amor, a confiança, a paciência, porque um belo dia, na Flórida... aconteceu. Foi simples assim. Do nada. Uma revelação maravilhosa que acabou virando rotina, hoje em dia é um dois três... Pronto. Um milagre que sempre se repete.
Por mais que eu tente enganar a todos, tecer teorias, advogar mudanças de hábito, esforço e reza, o que mudou mesmo a minha vida foi descobrir, pelas mãos desse homem que hoje mora comigo, que eu era apenas... normal. Capaz de gozo, riso, alegria... e muito mais. Um clique na cona, no cérebro, no coração... sei lá onde. Só sei que aconteceu e até hoje não sei como. Só sei que a minha vida, finalmente, mudou de verdade. Estou de volta a mim mesma, de onde nunca deveria ter saído. Passar receita não sei se consigo... Mas vou tentando, Isabela. Entendeu agora?
Mulher não vive sem sexo oral, taí uma boa verdade. Homem também não. Com quem acha que isso é muito mais do que uma questão de língua, sou forçada a concordar. O tema anima, apesar das restrições habituais em contrário, qualquer conversa. Dá pra sentir o interesse, a curiosidade... e a falta desconcertante de vocabulário. Mas com a exigência de ser moderna, que do extremo recato em público nos empurra, em pouco mais de meio século, a um permanente vulcão exposto, ainda discuto. Essa onda explícita, arreganhada, afogando o mistério brochante (e abocanhante) por trás dos grandes lábios, não passa mesmo de informação malhada: o desfecho esperado de um release bem ruim, composto timidamente por um redator sem prática. À primeira lambida na xoxota, confesso: mudei para sempre a minha relação com o sexo. Me surpreendi, me revelei, me umedeci, mas se eu dissesse que gozei, estaria me antecipando em pelo menos três décadas... e bem mais do que trezentas páginas, porque o orgasmo pleno é muito mais que cunilíngue. Tem que ter entrega, abertura, intimidade: o idioma despudorado do deleite a dois.
Sexo oral se pratica ao pé do ouvido, e rendido à falsa moral sai, muitas vezes, banal: - Meu amor, minha flor. Vai, minha linda, diz pra mim: me fode.
- Adoro tua pele na minha. Vem. Te quero todinho, duro, dentro de mim. Sexo oral, do bom, é raridade. Se a língua deslizando do pescoço até bem pra lá do umbigo excita, a franca troca de idéias segue eternamente virgem, inabaladamente pudica. Parecer sexy, hoje em dia, é obrigação. Mas falar do assunto... parece apelação. Pela cintura deslocada da saia quase dá pra vislumbrar a vulva, mas chamá-la pelo nome, este termômetro sensual do corpo, não se engane: é socialmente reprovado. E considerado, no mínimo... vulgar. A descrição em prosa ou verso da prática do amor, o que no território livre do encontro é, mais do que desejo, uma aspiração comum, desperta em que lê o gordo censor interno, fartamente alimentado pelo preconceito verbal. Da "sensação impossível de descrever" à "coleção constrangedora, repetitiva, de clichês" o texto sexual, em geral, intimida demais o escritor. Atrai e trai quem por ele se arrisca, e enfrentando o pânico se expõe temerosamente à crítica.
Perdi online a virgindade do erotismo poético e como aquela outra, pelo menos no começo, sangrou. Depois me fez chorar. De amor, de alegria. De pura emoção. Em 45 dias de troca sensual intensa o que não faltou foi tesão, que resultou, não raro, em orgasmo quase total. Verbal. Genital. Cerebral. Porque por mais que a vagina se ofereça ao pênis, e a fricção pulsante culmine em prazer intenso, o grande norte sexual humano é mesmo a mente, que se excita exatamente como os demais portais do toque erótico: pela língua. Lúbrica. Lasciva. Desbravadora.
Pra começo de conversa sexual, e com tanta transparência ao nosso alcance - de roupa, teclado e tela - espanta que a repressão falada, transcrita envergonhada em patéticos apelidos, ainda persista. Passa pela riqueza da língua o caminho da descoberta, em nossa espécie, do sexo pleno: do leitor ao autor, com muito gosto, um desafio. A cada geração literária que o deflora, o hímen complacente da obra é restaurado enquanto a sensação de tabu, sofisticadamente negada, se mantém. Ao transgressor mais ousado, o prêmio publicado do gozo liberador.
Se o Batman não passa, na realidade, do amante homoerótico de Robin, ao supermacho ultrapassado só resta mesmo um papel: o do vilão Coringa, estuprando o mercado livre do sexo com esse maldito substituto mecânico de si mesmo. Arnaldo Jabor em sua crônica de hoje até reconhece, mas não nomeia, o verdadeiro autor desse patético artefato, co-responsável, como ele diz, pela derrocada inapelável do sexo com amor: o vibrador. As mulheres, em geral, garanto que ignoram. Convencidas pelo onipresente departamento de marketing sexual e se acreditando, agora sim, senhoras do seu prazer, as pobres fêmeas da espécie se aceitam, de bom grado, como marionetes da moderna sexualidade... enquanto lá de cima, convenientemente oculto pelo urdimento enganoso da liberdade de gozo, o CEO Mascarado, às gargalhadas, manipula impiedoso os seus pauzinhos. Obscenamente durinhos... mas nem por isso, menos sórdidos e infantis.
No crepúsculo amplamente divulgado da falocracia, é o pastiche da natureza humana que estrebucha, no embate brochante do pinto rígido contra a xoxota frígida. Do divã pouco amoroso de Freud à neurotizante sex-shop à domicílio, o princípio disfarçadamente humilhante permanece o mesmo: histeria, teu nome é mulher. E lá vamos nós, vacas de presépio insensíveis, seguindo animadas pro abatedouro da nossa própria identidade. Avançamos no ataque desse jogo do contente, embaladas pra presente pela trilha sonora, mas falsamente ardente, de meia dúzia de eletrônicos gemidos. Azar o nosso.
Esse comércio debochado do orgasmo, travestindo em brinquedinho a pilha o desejo frustrado pelo macho, não nega fogo à sua origem espúria. Não tem cala-boca melhor pra esse gênero incômodo, eternamente curioso e insatisfeito, que uma eficaz coceirinha autônoma na tão misteriosa (e desconhecida) periquita. Mulher, todo mundo sabe, nunca é vítima de estupro. É conivente. E com esse sexismo explícito, desvairado e mal dirigido, é o que estamos conseguindo provar. Deprimente. As maduras de verdade, as gostosas, as que se entregam a seu homem amorosamente e gozam, passam bem longe desse badalado modelo reducionista. São mornas e macias, naturalmente cheirosas, doces e oferecidas. Não têm nada a ver com as armadilhas vibratórias, práticas e frias, típicas do mercado de consumo narcisista: rápidas, anti-sépticas e cruelmente invasivas.
Deu na tevê a cabo no outro dia que pimenta no cu dos outros não é mais refresco: virou afrodisíaco. Mas no meu, quer mesmo saber? Tem ardido demais ultimamente.
Ventou no Rio. Ventou na Europa. Ontem, no nosso mundo, ventou; um vento forte que ameaçou varrer para longe o edifício das nossas convicções, nosso mundinho tecnológico que eu prezo tanto. Nossa memória, ou, pelo menos, alguns registros dela: os meus, de contato com o mundo, foram interrompidos, e me perdi temporariamente na bruma do não-saber, o hábito revolto - ou melhor, revoltado - tampando a minha cara. Que o vento inevitável da mudança varra pra longe a nossa hipocrisia.
Dear webstats4u user,
Due to a power failure caused by the current storm in Europe our servers have experienced some technical problems on January 18... The measurement of the statistics has not been interrupted at any time and the display on the statistic pages and the top lists will been showing the updated statistics again in the next hours. We are sorry for any inconvenience this might have caused you. Mit freundlichen Grüssen / Best regards / Atentamente webstats4U Support Team
Tá certo, gente. Eu deveria estar reconhecendo o meu erro, aceitando finalmente a ameaça premente do aquecimento global, que também por aqui soprou enérgica ontem. Pelo menos é o que a mídia está nos empurrando hoje, varrendo outros perigos para baixo do tapete, mas não adianta. O vento da verdade leva o tapete pra bem longe e quero falar mesmo é de outra coisa. De atitude. De falsa moral. De sexo mal expressado, é. Da mentira global e da manipulação inequívoca do desejo. É assim que a gente se deixa levar pelo vento alheio: pela ignorância. Pela emoção cotidiana negada. Reprimida. Disfarçada.
O que é o sexo, afinal? Por que é que temos tanto medo dele? Por que a aura em volta dele do proibido, dos risinhos nervosos, da timidez indevida? Brochante? Ressecante? Não há nada mais básico, mais fundamental nessa vida do que ele. O sexo. Tem quem tente eliminar essa função vitalizante: já existe até quem nasça sem passar pelo crivo energizante dele, que apesar de tudo, não perde a graça. É. A qualidade de nos aproximar da graça, quero dizer. Não conheço nada mais próximo da noção espiritualizante do estado de graça - digam o que disserem os que separam o crente, do fervoroso - do que o sexo aberto entre os amantes. E no entanto, ressaltam-se dele os piores aspectos: o risco da doença, a raridade do gozo, a exiguidade de parceiros. Entre nós, mulheres, o gozo é descrito de um jeito que - não me espanta nada, nada - o transveste em ato heróico e raro, quase impraticável. Mas gente, a coisa é simples, cotidiana. É só um mecanismo amoroso, e complicações sociais à parte, muito engenhoso. Vocês já pararam pra pensar no tamanho do gênio que inventou isso? Um fica duro, uma se umedece. Penetra o um pela cavidade deslizante da outra num ajuste que é tudo, menos raro. Uma pulsa em torno do um que expulsa, ordenhado, o conteúdo essencial. E num momento, intenso e breve, o calor abundante em volta derrete tudo: mente, corpo, medo. E a mais sentida solidão. Da tempestade de hormônios que se segue, sai qualquer um lavado; e a força que circula é tão imensa que pode até produzir vida nova. E produz. Se não der em filho, dá num potencial enorme de energia vital que eu não sei porque se evita tanto. Pinto-na-cona é coisinha simples, gente. Qualquer adulto normal passa por isso centenas de vezes, e com alguma sorte, milhares. Tá na hora de falar claro sobre a coisa, cortar pela raiz o falso pudor. É o que eu faço, e fiz. E continuarei fazendo, sempre que me for dada a oportunidade: o que (d)escrevo no meu romance não é clichê literário não. Nem candidato do ano ao Prêmio Constrangimento. É o bom, puro, amplo e desmascarado relato do sexo amoroso entre dois humanos. Coisinha simples, gente. Ao alcance online de qualquer um.
O problema do enfoque divertido e original de Luis Fernando Veríssimo no Globo desta quinta é um só: inquilino não liga pra apartamento alugado. Deixa tudo de qualquer maneira, e na hora de devolver o imóvel dá uma guaribada bem matada pra enganar o proprietário. Quem aluga, sabe. Mas a idéia de tratar afetivamente a Terra como a nossa casa sim, é válida. Casa própria, digamos. Porque a Terra é nossa, e se a gente não cuidar bem dela... o azar é nosso. Por trás desse movimento ecológico todo está um dilema que vem nos corroendo por inteiro, em todos os aspectos da vida moderna: o confronto dinheiro x afetividade. No blog da Carla a discussão não é nomeada, mas aparece, e ocupada demais pra deixar um depoimento lá, faço desse post a minha participação. Encarar casamento como adversário do sucesso profissional não tem nada a ver, gente. A família anda em baixa porque nosso estilo de viver tem nos tornado egoístas, fechados em nós mesmos e viciosamente materialistas. Sempre trabalhei, e nem por isso deixei em segundo plano meu desejo intenso de amar e ser amada. Muito pelo contrário, fiz disso o meu lema. Ops. Tema, o assunto do meu trabalho. Já reclamei com a Carla a falta recorrente da palavra amor nessas discussões sobre relacionamentos, e ela me respondeu que o amor é condição básica, então... Será mesmo? O que vejo é a família cada vez mais tratada como um utilitário, a afetividade esquecida. Amar é duro. É preciso compreender o outro, aceitar, orientar, ceder e ser compreendido, aceito, orientado. Alguém aí topa? Quem se julga independente não anda topando não. Mas o imaginário do amor continua aceso, e desviando um pouco o foco: a turma gay está louquinha pra se casar, constituir família. Nada contra. Sou a favor da liberdade civil e pronto. Mas não deixo de pensar sobre o assunto, agora que estão todos querendo filhos. Tá certo. É direito deles. E é também direito de uma criança ser criada por um pai e uma mãe, o que no caso é impossível... Dois pais e duas mães não serão jamais uma expressão da natureza, o resultado de um encontro amoroso pleno. Serão, no máximo, a vitória do materialismo sobre a afetividade. Uma geração de laboratório. Desculpem, se sou careta. E olhem que nem filho eu tenho, mas se tivesse... ia querer que fosse feito no calor energético de um orgasmo bem gostoso. Ninguém me tira da cabeça que uma criança, ao olhar para papai e papai, ou mamãe e mamãe, sentirá no âmago uma sensação inexplicável de inquilino. E morando na casa errada. Ah. Deixa pra lá. Eu nem deveria ter escrito nada hoje. Em vez de aproveitar a temporada natural do amor que o verão e o fim de ano traz, tá todo mundo sofrendo de caos: caos aéreo, caos no trânsito, caos político, e caos afetivo também. Pode ser que eu ande influenciada, dez anos depois, por estar trabalhando num texto esotérico, com os dois pés enfiados na jaca da espiritualidade, onde a palavra amor aparece 114 vezes. É, gente. Eu contei. Foi pouco, pra quem passa a vida tentando fechar as contas. Com o avanço da tecnologia, não vai demorar muito pra gente descobrir o verdadeiro sentido da vida, um conjunto de valores que realmente valha a pena. Num planeta cada vez mais plugado, as pernas da mentira estão cada vez mais curtas. Pode até levar alguns séculos... Mas o que são séculos, numa história de trilhões de anos? Se as mulheres vem de Vênus, não sei. Parece fantasia. A idéia de que os homens vêm de Marte, no entanto, vem ganhando força: até água já acharam lá. E só pra terminar, deixa eu esclarecer: apesar da mulher ter sempre mandado no mundo, o termo "homens" abriga o coletivo dos quatro gêneros, viu? Uma sociedade terráquea, que soa cada vez mais marciana.
Transformando a dor em humor: um delírio literário
Limpei do meu armário a memória de gorda e dei tudo que pudesse me servir com dois quilos a mais. Eliminei maldições, coisas que mamãe impôs, lembranças tristes de dependência; roupas de que não gosto e uso porque ganhei e preciso agradar, agradar sempre. Agradar a quem? Comprei passagem para o inferno e embarquei com meus demônios, eu e minha culpa inútil, mas agora rompi mesmo o cerco, não é? Estou a quilômetros, milhas, anos-luz de distância dela, na minha vida e não mais na vida dela mas depois do fórceps, não abri direito os olhos e ainda acho que estou no útero e que os ferros todos não passam de um sonho mau. Meu nariz não acredita que a qualidade do ar mudou e que os cheiros são agora outros. Abro o olho direito um bocadinho, vejo que a luz está mais forte e o Sol, opa, meio quente. Faço o caminho ao contrário e vou nadando pra dentro do útero em vez de sair dele, só mais um pouquinho, pra comprovar a cor dos ferros malditos e provar que não me ameaçam mais. Limpei do meu armário a memória da mulher que não goza, porque não há jamais de aproveitar a boa vida. Mas me enganei, porque ao entrar de volta, voluntariamente, no útero - com objetivos puramente científicos - calculei mal a minha fraqueza e a força deles, dos ferros malditos. Já não quero estar no útero, agora que voltei lá e finalmente voltei de lá, vivendo e vendo as criancinhas com as carinhas sujas, abandonadas pelo leite materno enquanto me entupi de leite e o Mateus me contando que depois de forjado o ser humano maduro, duro como aço, o leite fica corrosivo e a gente precisa se enferrujar um pouco, sim, com uma fina pátina de ferrugem que, dizem, protege da corrosão, mantendo a integridade do corpo que nunca mais vai tomar leite ou buscar o seio da mãe: o seio não está mais lá. A mãe engordou, ficou velha e meio desligada, o peito murchou e caiu. Ela não manda mais em mim e o leite que tem lá agora é muito indigesto e por causa disso esta manhã cortei o leite do café já que adultos maduros, forjados em aço e ácidos demais não tomam leite nenhum, só suco de grapefruit que, dizem, queima gorduras no novo comprimido israelense de ilusão que eu tomo seis por dia, só pra não gostar de leite e mel procurando em outros leites o meu deleite, muitos outros nessa terra que não engordam e fazem crescer muito, dizem, espiritualmente. Ainda vou convencer a todos de que sexo com amor é o melhor deleite. E não corrói. Quando eu puder – se Deus quiser - entrar em Sephoris, liteira dourada de mulher pra sempre magra e linda e nunca mais como Hércules lutar: os trabalhos terminarão. Minha própria deusa eu serei, no corpo dourado endeusada que não se deforma mais. Engulo a mim mesma e no autofágico ato de me engolir, vou finalmente me digerir, escrevendo comédia sem soltar mais gases. Foi nesse momento que abri os dois olhos, bem abertos depois do fórceps e se entrasse de novo no útero, seria de novo um parto de fórceps porque a bacia é muito estreita e ao enjoar dessa história de estar sempre nascendo, sempre um bebê faminto, pode ser que eu descubra que é o leite materno que dá gases e o desnatado da Parmalat não. Evoluí. Estou ficando rápida na espiral processual, os anos são agora dias e o leite acabou, o peito caiu. Os seios que não amamentaram nunca e leite nenhum verteram são... para o meu amado, da gazela os gêmeos olhos, e gazela para sempre? Será que eu posso ser? Esguia e livre correndo no prado os gêmeos seios numa taça onde o melhor vinho se bebe, moderadamente, é claro. Melhor que uma vaca pesada, vaca leiteira com as tetas inchadas e quanto é que custa em Israel? Tecnologia avançada pra tirar o leite, faturar com a tal história do leite e do mel sem contar pra ninguém que corrói os dutos do curral e o fígado de quem bebe? A vaca é gorda e ainda por cima, louca! Louca sou eu com essa imagem pesada de leiteira (esta mulher é uma vaca) e não contaram mesmo pra ninguém, não é? Gazela é mesmo um negócio bem melhor. Com os seios gêmeos e tudo, olhos azuis de Salomão engolindo salmão e comendo a amante num leito de cânticos. Em dia de semana. O tal Jeová do Velho Testamento sim, é mesmo esperto: iludiu o povo por uns 6 mil anos com aquela história de exílio, culpa e extermínio... Agora imagine. Se o gozo de Salomão e aquele mito de como era boa a Sulamita tivesse vazado, quem é que aceitaria ficar rezando? Servir para sempre a um único senhor?
Gostou? Está online, no "Eu, Xamã". Vai lá que tem mais.
Essa não dava pra deixar passar e não deu mesmo, nossa. Nem gastei muito tempo procurando assunto, a coisa saltou aos olhos logo na primeira passada, uma tristeza. Que retrato de época, que desalento. E logo uma paródia de um dos meus textos preferidos, quase uma bíblia - me desculpem a heresia - coisa de cabeceira, mesmo. De inspiração erótico-literária, reduzida a pastiche, mesmo risco que corre a nossa vidinha virtual se a gente não der um jeito. Rapidinho. Pobre Molly Bloom, deu em nada. Nadinha. Em diminutivo carinhoso atirado pela janela, chupar aquele pau gordo, eu hein? Mercado? Dando no mercado, é, puta grátis com a cotação em baixa, é o que ele quer dizer. Uma tristeza. Melhor levar facada, gente. Prefiro morrer esfaqueada, vítima da frustração machista que conduz os caminhos do nosso texto cotidiano, é sério. Pelo menos sai de dentro de uma paixão, uma paixão destrutiva virada pelo avesso, é certo, melhor que viver esmagada sob o peso desse conformismo, do avesso, isso sim, de uma revolução que - querem nos convencer - não deu em nada. E logo ele, pena inteligente, e dizem, arauto do novo amor. Amor é prosa, sexo é... Vocês se lembram. Poesia. Música. Best-seller. Uma tristeza. Troféu de uma geração de Rubens Fonsecas que eu não leio, não li, e me desculpem os colegas de profissão, mas não de sexo, nunca vou ler.
Sugiro uma dieta ambientalista, gente. Não de carbono dessa vez, mas de idéias tóxicas, deprimentes. Essa onda de nova literatura mal-disfarçada de modernidade sim, é uma facada inclemente na nossa sensibilidade, dessensibilizada, isso sim. Nascida de fórceps num rio poluído de imprompérios, afogada logo de cara em nádegas malhadas a ferro, peitos duros de silicone, face endurecida de botox e a gente aceitando tudo, baixando a cabeça conformada com a pressão e dizendo sim, sim, eu chupo o seu pau gordo só porque você me quer, boneca, droga malhada que não dá barato nenhum. Nem tesão.
Eu não sei o que acontece com os homens de hoje, gente. O céu azul deles é o nosso inferno, um tiro pela culatra. Pau duro de carne e nervos, porém mais frio e químico que polietileno de vibrador. Literatura feminina neles, porque da verdadeira femme, da mulherzinha doce mas vulcânica que emergiu da nossa revolta eles não sabem um décimo. Preferem viver nesse limbo ilusório, cheio de bundas, fotoshops e anoréxicas, eles que se fodam. Porque a mim é que não hão de foder. Nunca mais.
Depois de dias meio anestesiada dirigindo pelo país, minha consciência despertou em Zipori, o sítio arqueológico mais importante de Israel, recém escavado. Num sonho, há seis anos, eu recebera instruções para criar uma coleção de jóias rituais, composta de 10 ou 12 "séforas"; ver escrito o nome Sephoris - versão de Zipori para o grego - foi um choque, e identifiquei imediatamente o termo. Em janeiro de 1992, logo depois do sonho, eu tinha começado a praticar espontaneamente no altar rituais surpreendentes: o primeiro deles, de liberação sexual, era vinculado a Dioniso, o deus grego do êxtase. Os rituais se repetiram e fui aos poucos, com dificuldade, liberando a tensão, travando contato íntimo com o corpo e experimentando sensações. Agora de volta à verdadeira Sephoris, com seus maravilhosos mosaicos, evoco mitos dionisíacos e os efeitos positivos do álcool, consumido com moderação. Numa parede observo o confronto entre o deus Dioniso e o humano Hércules, testando os limites com a bebida. Enquanto o forte Hércules sucumbe e cai, o pândego Dioniso continua invicto. Será esse um embate entre força e prazer? Entre trabalho duro e lazer? O amor em disputa com a obrigação, a paz com a luta? Longe dos pais, Dioniso foi criado por uma cabra – capricorniano, como eu? -, a leite de cabra. E para se esconder, se transformava em cabra. Procuro descobrir, no mito, a mensagem simbólica: recomendava a ausência completa de culpa? Independência? Liberdade? Prazer total? E esse leite? Seria afrodisíaco? Na minha busca, acabei deixando Dioniso meio de lado... é preciso recuperá-lo, não? O que significou para mim ter sido criada no kibutz, longe da mãe? Criei o trauma para superá-lo, revivendo o mito de Quíron, o curador ferido? Ou desejei a liberdade, o jogo livre do corpo, o prazer total? Fosse qual fosse, esse aprendizado, ou plano original do espírito, sofreu um súbito desvio quando fui para o Brasil, com um ano e meio de idade, caindo na rotina familiar comum. As idéias se atropelam, confusas, na minha mente: associo ao sonho de Sephoras, e ao ritual de Dioniso, o desejo de escrever poemas e receitas eróticos, ilustrados pelos belos desenhos sensuais de Mateus, numa colaboração profissional concreta entre nós. Penso em criar rituais neo-dionisíacos, me aprofundando na pesquisa de receitas vinculadas ao prazer sexual. Com moderação, é claro. Será que assim eu conseguiria emagrecer mais? Ser realmente mais bela? Parar de me autodestruir, me autodepreciar e começar finalmente a aproveitar a vida?
Tô devagar quase parando hoje, e nem sei porquê. Acordei com vontade de escrever sobre meu obsceno bom humor de domingo: com todos os problemas, falta de grana, mãe doente, livro não-publicado, crônicas não lidas... Ainda assim. Na nossa mesa os meninos desligados, a cunhada amuada, a Zila - anjo-da-guarda de mamãe - machucada... É, gente. Mamãe atacou a pobre. Tem gente que já nasce com vocação pra santo, sério. Ninguém me convence que o que fazem é por dinheiro, já que tudo tem limite, menos a tendência pra amar. Gente, bicho, paciente. E com tudo isso eu rindo à mesa, contando meus causos que ninguém mais ouve, descendo a ladeira abraçada com o Alan, feliz da vida. Deve ser o sexo. A gente nem percebe, mas o hábito do gozo mexe com o cérebro, só pode. Melhor que valium. Contamina o dia de felicidade e embaça a importância de tudo, tudo o mais. Muito bom, ou então tô mesmo é ficando boba. Cansada de guerra.
Mas devo ser das poucas, segundo o Joaquim: o prestígio da guerra só aumenta. Jornalista de segundo caderno, ele diz, é pária (e eu sonhando...), perda de tempo, escrevendo o que ninguém mais lê, todos os olhos voltados pra "cabeça" do jornal. Só drama e tragédia, conflito e escândalo é que dá prestígio, prêmio, dinheiro. Eu, hein, Joaquim? Leio notícia por obrigação, sério. Leitura dinâmica de ocasião. Mas é na crônica que me deleito, no alento cultural. Não sei quem foi que inventou, na mídia, essa divisão de classes... mas lamento. Passar o dia mamando na miséria alheia, eu hein? Tô fora. E pelo que tenho visto, um bocado de gente também. Tá todo mundo migrando pra blogosfera, e não é à toa.
Vai ser um tal de pau-de-virar-tripa com silicone no quadril que nem te conto. Uma beleza. Será que dessa vez vai mesmo? Pois é. Deu, não lembro onde, que nas coleções em Paris a cintura voltou ao lugar. Ou melhor, o cós foi pra cintura, de onde nunca deveria ter saído, pensa bem. Basta uma olhada de leve na anatomia do corpo pra ver onde ele cai melhor. Ninguém me tira da cabeça que essa moda deletéria de cós baixo é em parte responsável pela invasão das anoréxicas. E as demais neuróticas, abominando qualquer gordurinha. Quem já experimentou uma calça horrorosa dessas, sabe. Tem coisa mais feia que barriguinha saliente, debruçada sobre o zíper? Não há piercing que disfarce o mal-estar, sério. Nem de brilhante. Aliás, se a promessa se concretizar, colocadores de piercings... Tchauzinho. Bom proveito na aposentadoria.... Já vão tarde.
Tudo começou - com meia dúzia de gostosas, em férias na Riviera - pra aumentar o sex-appeal, mas gente, coisa discreta: dois ou três dedos abaixo da cintura, mal revelando o umbigo no saint-tropez. Equilibrado pela bainha curta, uma graça. Brigitte Bardot era a musa. De lá pra cá a coisa piorou: acabou no extremo oposto porque, fala sério, não tem corta-barato pior na cama que barriga encolhida pra não dar bandeira. Liqüida qualquer orgasmo, vai ver foi por isso que passei tantos anos sem, pra conseguir com quem? Com o gostoso do meu marido, e sua gostosíssima barriguinha. Quem não tem não sabe o que está perdendo. Agora, convenhamos: na cama é bom, mas na calça baixa... é triste. E dá-lhe de lipo e vômito, arghh. Nem nas teens mais lindinhas fica bem. É um desespero só, um sucesso que não dá pra entender.
Biotipo de brasileira foi sempre violão, ondulante e cadeiruda, a cintura fina... Tanajurinha. Quando eu era jovem tinha uma amiga assim: por onde passava, derrubava. Me roubou vários namorados com seu molejo cor de jambo. Quadril largo, gente, sempre valeu ouro. Desde a pré-história, era sinal de mulher que dá no couro. E no bom parto. Mas hoje em dia, tudo isso acabou negado, pasteurizado pelo perfil reto, ossificado. Eu prefiro as curvas da estrada de Santos, sério. E homem que é homem, também. É ou não é? Vocês aí? Turma da testosterona?
Fiquei tão empolgada com a novidade que quase fui pra rua comprar roupa nova, coisa que não faço há um tempão. Cansei de pagar mico, vestir 40 e não sei quanto, pra conseguir uma elegância, no máximo, razoável. Pensando bem, hum. Não tô mesmo acreditando. Melhor esperar vitrine pra ver se a coisa rola. Ou cola.
fiquei pelo menos 2 horas esta manhã pensando se eu deveria me meter ou não nesta polêmica, considerando que não sou cristã, não tenho o hábito de rezar e a Márcia já não precisa da aprovação de ninguém. sorte dela (uma das poucas vantagens de estar morta). mas a questão é atraente e com o precedente das charges de Maomé a gente não pode deixar a irracionalidade tomar conta do nosso cotidiano, já que é de expressão artística que se trata. e de bom humor, e de prazer de viver. o que não dá pra negar é que esta peça é um achado! e sendo posta em discussão, pronto, todo mundo viu... o Opus Dei (ops! Opus Christi) acabou conseguindo o contrário do que pretendia e o diabo riu por último, deixou todo mundo com cara de palhaço. a audiência excedeu a expectativa agora que o jornal publicou e ainda por cima hoje é dia de Tiradentes, viva a liberdade! espero que ninguém queira me esquartejar e salgar os pedaços do meu corpo por causa dos textos publicados neste blog. além do mais associar religião a sexo não tem nada de novo: os orientais há milhares de anos já reconheciam a qualidade divina do amor e do gozo e até o best-seller Código Da Vinci fala nisso o tempo todo. afinal, no que será que pensam no fundo secreto de suas mentes as carolas insatisfeitas que passam os dias rezando o terço? será que não é naquilo não? não será por isso que a igreja tem tanto medo de sexo? medo da concorrência? porque quem tem parceiro amoroso, quem trepa e goza e tem o corpo satisfeito adquire uma visão diferente de deus. se a espiritualidade é inerente ao homem o orgasmo tem esta qualidade divina, esta porta aberta para o transcendental que faz com que a gente abandone qualquer apêgo ao moralismo ou à cultura do sofrimento, da penitência. o nosso catecismo muda de foco e a gente se sente poderoso, dono de si. e isso é bom? isso é ruim? o que é que vocês sinceramente acham? minha opinião é que só pode ser bom, pois deus não é, acima de tudo, amor? então amemos. façamos do amor a nossa religião e dos gemidos do orgasmo o nosso cântico. e que perdure para todo o sempre santo pênis ereto amém.
uau! notícias fresquinhas. gente!!! graças a deus o tormento acabou, bem, tomara. já lá se vai mais de uma hora e ainda estou latejando... depois teve champanhe e bolo musse de chocolate e uma rosa branca fresquinha... bem que eu disse que a champanhe guardada na geladeira mais dia menos dia haveria de servir. às vezes eu penso que é bom viver com uma pessoa meio desequilibrada... a gente vai ao fundo do poço mas quando sobe de volta... é incrível! tem uma força incrível. bem, somos todos artistas por aqui e artista é tudo louco mesmo (ops, latejada) eu também sou meio assim ups and downs mas como nunca, N U N C A tomo nenhuma droga - legal ou não - acho que aparece menos (ops, latejada) uma trepadinha caprichada numa manhã de sexta santa e pronto. não tem mais família, não tem mais problema, não tem mais escassez. porque no fundo e no raso só mesmo o amor é que importa (ops, latejada). nem o ardentemente desejado contrato com uma editora importa nesta radiante manhã deitada na minha cama descansando, ar condicionado ligado e o sol quente lá fora mas eu não ligo porque a persiana está fechada. aqui dentro bem que poderia ser meia-noite com todo o deslumbramento da lua cheia e de milhões de estrelas. estou bem. estive explorando o site da Bruna e entendi bem a razão do sucesso dela... afinal o blog dela foi um fenômeno de visitação bem antes do livro. até que ela é simpática, aberta, engraçada, quem sabe depois do supletivo ela aprende a escrever. mas o que pegou pra mim foi a ausência de amor em todos os relatos... o sexo puro quando não tocado pelo amor é tão obsceno... não a idéia, mas a sensação que transmite. que sorte ter um gozo onde o amor vem junto! antes de conhecer o Alan eu fiquei e ficaria mais de 6 anos sem sexo... nem me lembrava do assunto... mas agora um semana e parece que já vou morrer... não é só (ops, latejada) a falta do pau na cona, mas o abraço, o cheiro, o toque, a energia... estou mesmo viciada, (ops, latejada) viciada em amor, em emoção forte, em arte, em literatura, em gozo, genital ou não. agora chega de falar (ops, latejada). vou descansar o resto do feriado. ver tevê, devedê, unidunitê. tomara que o amor tenha vindo pra ficar, porque se fosse por mim, eu dava uma de Yoko e ficava sem sair desta cama até maio.(ops, latejada)